Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval
Capítulo 2
SONHAR COM MORTOS
Desde os primeiros séculos, a cultura cristã encontrou e tentou resolver o problema dos mortos e,
mais particularmente, o do suposto retorno de alguns deles. Santo Agostinho, como se acaba de ver,
definiu de maneira duradoura a atitude da Igreja a esse respeito. Ao mesmo tempo, os documentos de
origem eclesiástica permanecem relativamente discretos sobre os fantasmas durante toda a alta Idade
Média. Mas as coisas mudam a partir do século XI, em particular em razão do surgimento, nessa época,
de relatos autobiográficos de fantasmas. Eles vão permitir-nos de imediato chegar o mais perto possível
da atitude íntima dos homens da Idade Média (ou de alguns deles) com relação aos seus mortos. Tais
relatos são encontrados na literatura cristã desde os primeiros séculos. Mas se multiplicam apenas
depois do ano 1000, sob o efeito de vários fatores: uma renovação geral (como mostrou Georg Misch há
tempos) da escrita autobiográfica, o impulso do que Michel Zink chamou de "subjetividade literária" (ou
seja, o reconhecimento da condição de autor e da legitimidade do "eu" em literatura), a valorização do
sonho pessoal na consciência de si, o desenvolvimento da memoria dos parentes carnais e espirituais.
Escritos por monges e clérigos, mas também, a partir do século XIII, por leigos letrados, os relatos
autobiográficos nos fazem entrar no cerne do "trabalho do luto" e da ambivalência dos sentimentos dos
homens oprimidos, a uma só vez, pela lembrança obsedante de seus próximos falecidos e pela vontade de
os esquecer.
Entre o século XI e o século XV, os relatos autobiográficos de fantasmas são de três tipos. Em
certos casos, pode tratar-se não de uma verdadeira aparição, mas antes do sentimento de uma presença
invisível e muito próxima. Em outros casos, igualmente raros e limitados à literatura mística (a partir do
século XIII), pode tratar-se de uma visão acordada dos mortos, mas percebida em um momento de êxtase.
No mais das vezes e ao longo de todo o período, o relato autobiográfico de fantasmas é um relato de
sonho.
O VISÍVEL E O INVISÍVEL
Bem no começo do século XI, o testemunho do bispo saxão Thietmar de Merseburg é sem dúvida o
primeiro a dar tantos detalhes sobre as aparições dos mortos e também a permitir uma comparação
precisa entre os relatos autobiográficos e os relatos que o autor narra por ouvir dizer. Ele escreveu sua
crônica entre 1009 e 1018. É uma obra considerável, à qual os historiadores devem boa parte de seus
conhecimentos do Império otoniano. Thietmar pertence à grande aristocracia do Império germânico. Há
várias gerações, a história de sua família confunde-se com o destino da Saxônia. Ele próprio torna-se bispo de Merseburg em 1009. Bispo de império (Reichsbischof ), mas também grande letrado, ele é a
uma só vez protagonista e intérprete da história política do Império. No entanto, entre os acontecimentos
marcantes de que estabelece a crônica minuciosa — os reinados dos imperadores, as campanhas
militares, as sucessões episcopais etc. — ele insere outros relatos, muito diferentes, mas cuja utilidade
não lhe parece menor e cuja veracidade é atestada por ele próprio. Assim, no livro I, narra a campanha
militar de Henrique I em Mecklemburgo e na Pomerânia, em 926; seus dois bisavôs participaram, antes
de tombar juntos na batalha de Lenzen, na reconquista da cidade de Walsleben, que os eslavos haviam
tomado e incendiado. A evocação dessa cidade, que tem lugar na memória familiar, e de sua destruição
sob o ataque dos pagãos faz Thietmar desviar-se para um outro assunto, no qual se engata, por associação
de idéias, toda uma série de histórias de fantasmas.{78}
Para que nenhum cristão possa, a exemplo dos pagãos, duvidar da ressurreição dos mortos no fim
dos tempos, Thietmar, segundo testemunhos que ele próprio recolheu, conta o que se passou em
Walsleben depois que a cidade foi reconstruída. Uma multidão de mortos apareceu, no cemitério, ao cura
do lugar. Uma morta, que o cura reconheceu, previu a este a iminência de seu trespasse. A esse relato,
que se refere a fatos já antigos, Thietmar acrescenta imediatamente uma história mais recente, que ele
próprio ouviu em Magdeburgo no tempo em que residia ali (entre 987 e 1002). Ela lhe parece "em
perfeito acordo, no que diz respeito à visão e aos sons", com a história precedente. Uma noite, os
guardiães ligados à igreja dos comerciantes vêem de longe, no cemitério, pequenas luzes acima dos
círios e ouvem dois homens cantar matinas e laudes. Quando se aproximam, não percebem mais nada.
Impressionado com a estranheza do relato, no dia seguinte Thietmar o repete à sua sobrinha Brigitte,
abadessa do mosteiro de São Lourenço, que está acamada. Longe de surpreender-se, esta, por sua vez,
contalhe como o bispo Baudri de Utrecht (918-975) reconstruíra e reconsagrara uma antiga igreja
destruída de Deventer e a confiara a um padre. Ao alvorecer, esse padre encontra, na igreja e no
cemitério, mortos que celebram a missa e cantam. Por ordem do bispo, o padre passa uma segunda noite
na igreja, mas os mortos o expulsam dali. Na terceira noite, o padre mune-sede relíquias e de água benta
e esforça-se por permanecer acordado: mas, à hora habitual, os mortos apoderam-se dele e o levam para
cima do altar, onde o queimam inteiramente. O bispo ordena um jejum de três dias pela salvação da alma
do padre. E Brigitte acrescenta que poderia contar muitos outros relatos semelhantes, pois "se o dia
pertence aos vivos, a noite é deixada aos mortos".
Thietmar tira de todas essas histórias uma lição religiosa dirigida "aos iletrados e aos eslavos"
que, segundo ele, crêem que a alma não sobrevive à morte do corpo. Para ele, ao contrário, esses
testemunhos, em concordância com as Escrituras e com o livro IV dos Diálogos de Gregório, o Grande,
demonstram que a alma sobrevive depois do trespasse e aguarda a ressurreição. Os homens, explica ele,
situam-se entre os anjos e os animais. Pois, se os primeiros são todos espirituais e imortais, e os
segundos, todos corporais e mortais, os homens têm um corpo mortal, mas uma alma imortal que a morte
do corpo não afeta. Sem que Thietmar preste atenção nisso, seus relatos mostram outra coisa ainda: que os mortos passam por anunciar a iminência de um trespasse, que o tempo pertence pela metade aos
mortos e que estes estão a todo momento prestes a conquistar os lugares que os vivos deixaram por um
tempo — uma cidade destruída durante uma incursão militar ou uma igreja abandonada. Os mortos
sentem-se em casa nas ruínas e defendem com energia feroz o espaço que conquistaram. Portanto, é
indispensável que os clérigos delimitem pela aspersão de água benta os espaços respectivos dos vivos e
dos mortos. O ano 1000 marca a invasão dos fantasmas, mas também os esforços redobrados para sua
rejeição.
Nos relatos de Thietmar, os mortos manifestam-se por sons ou aparições geralmente anônimas (uma
única vez uma paroquiana falecida pôde ser reconhecida). Em outros casos, a relação entre morto e vivo
individualiza-se e os nomes são dados. Esses outros relatos cumprem funções mais políticas e revelam o
lugar importante que o próprio Thietmar ocupa na aristocracia imperial, seus laços familiares e a
"estrutura memorial" que sustenta toda a sua crônica.{79}
Em 981, o arcebispo Adalberto de Magdeburgo, que acaba de morrer, aparece a seu fiel Walter
para lhe dar a conhecer que está descontente com a escolha de seu sucessor, Ochtricus, culpado de
malversações. O próprio Walter conta a aparição a Thietmar. {80} Ochtricus morre pouco depois, mas
antes o irmão de Thietmar, Husward, tem uma visão do falecido preboste Athelken, que veio dirigir
censuras ao arcebispo.{81} Isso não é tudo: em 1002, a falecida mãe de Walter aparece à sua filha para lhe
anunciar a morte próxima do arcebispo de Magdeburgo, Thaginus, e sua substituição por Walter. Antes de
tornar-se arcebispo, este lembra à sua irmã a promessa que ela lhe fez, no caso de ele falecer antes dela,
de respeitar seu legado piedoso do domínio de Olvenstedt, a fim de garantir sua salvação. {82}
Ascensão ao poder, devolução dos bens, memória dos mortos: os defuntos são parte recebedora em
toda sucessão. Aqueles que, por suas funções passadas, velam pelo futuro da sé episcopal de
Magdeburgo aparecem a cada novo vencimento de prazo. Por pouco que a eleição constitua problema —
risco de um sucessor indigno ou desvio de um bem prometido à Igreja —, eles irrompem nos sonhos dos
vivos, contrariam suas ambições, despertam sua má consciência e alimentam seus relatos.
Entretanto, a todos esses relatos narrados pelo bispo Thietmar de Merseburg com base nos
testemunhos orais que ele próprio recolheu, opõe-se a exposição única de sua experiência pessoal.{83}
Essa narrativa é de uma precisão ainda mais notável: ele se encontrava em seu domínio de Rottmersleben
quando, em 18 de dezembro de 1012, uma sexta-feira, ao primeiro canto do galo, uma luz encheu a igreja
e um grunhido se fez ouvir. Interrogando velhos, ele soube que um fenômeno semelhante já se produzira
outras vezes e anunciava um falecimento. Com efeito, a morte de sua sobrinha Liutgarde ia pouco depois
confirmar o prognóstico e, desde então, aconteceu várias vezes a Thietmar e a seu companheiro de ouvir
à noite, quando todos os outros dormiam, um som comparável ao de achas de lenha caindo; ele escutou
mesmo "os mortos que dialogam entre si", e isso sempre foi o sinal de um falecimento iminente no
domínio. É notável que, nesse único relato autobiográfico, o morto permaneça invisível, que se manifeste
não por uma imagem, nem mesmo onírica, mas por uma luz, um som estranho que não tem nada de humano ou pelo murmúrio de vozes inaudíveis. Ruídos e cochichos que o bispo, com todos os habitantes de seu
domínio, observa atentamente e interpreta, antes de exprimir por escrito o sentimento de estranheza que
experimentou à aproximação do que crê ser a presença de um morto (todas as vezes, talvez, que o
grunhido de um animal ou a queda de um monte de lenha o fizeram sobressaltar-se). Para ele, em um
mundo em que tudo é sinal e exige ser decifrado, a vinda invisível dos mortos é uma realidade que
anuncia o trespasse iminente de um próximo.
Esse tipo de relato autobiográfico de fantasma parece muito raro. No entanto, pode-se relacionar
com ele o relato bem mais tardio que o próprio imperador Carlos IV (1348-78) fez, em latim, de uma
agitada noite passada em seu castelo de Praga.{84} Seu quarto encontra-se na parte antiga do castelo. Seu
companheiro Buschko ocupa um outro leito no mesmo quarto que, apesar da noite, está muito claro pelo
fogo que arde na lareira e pelas numerosas velas acesas. Todas as portas e janelas estão fechadas. Mas,
mal os dois homens adormecem, um rumor de passos no quarto os desperta. O imperador ordena que seu
companheiro se levante, mas este não vê nada de anormal; antes de deitar-se novamente, ele atiça o fogo,
reacende o círios e bebe de uma taça de vinho que recoloca perto de uma grande vela. Contudo, mais uma
vez o imperador ouve alguém que vai e vem, embora ninguém esteja visível. Depois, de súbito, a taça
recolocada por Buschko é projetada como por uma mão invisível por cima do leito deste contra a parede,
antes de voltar a cair no meio do aposento. Os dois homens são tomados de pânico e persignam-se. No
dia seguinte, reencontram a taça no chão e a mostram a seus servidores.
Carlos IV toma então infinitas precauções para atestar a veracidade de sua aventura e persuadir
seus ouvintes ou leitores de que não sonhou. Desse relato autobiográfico, retenho sobretudo que o
imperador diz não ter visto nenhum fantasma, mas apenas o arremesso misterioso da taça. Ora, dois
manuscritos da Vita Caroli, escritos em alemão por volta de 1470-80, comportam, ao lado desse relato
inalterado, uma miniatura representando o imperador em seu leito, no quarto do castelo de Praga, durante
aquela noite agitada (figs. 7 e 8).{85} Nos dois casos, a imagem inverte duplamente a significação do
relato: enquanto Carlos IV insiste no fato de que ele e seu companheiro haviam despertado, a imagem os
mostra adormecidos. Ela representa então um sonho do imperador, a uma só vez para tomar mais
manifesto o confronto com um espírito e para conformar-se a uma tradição literária, a do sonho dos
soberanos. Simultaneamente, a imagem figura visivelmente o espírito que assombra o quarto, sob a forma
de um homenzinho. Em uma das duas miniaturas, essa forma humana está completamente nua, em
conformidade com a representação freqüente das almas dos mortos, e cruza as mãos segundo um gesto
que será reencontrado alhures e que me parece ser o sinal de um pedido. O artista interpretou o relato do
imperador como aquele, clássico, da visita de uma alma penada que veio pedir sufrágios. Na segunda
miniatura, a pequena alma não está nua, mas vestida com um gibão. Faz, entretanto, o mesmo gesto com as
mãos.
Enquanto o relato autobiográfico não dá nenhuma forma visível ao espírito, a imagem que lhe é
acrescentada, embora represente um sonho, caracteriza-se por sua função de objetivação, comparável à dos relatos contados: o sentimento confuso de uma presença transforma-se na afirmação da aparição bem
visível de um morto tendo todos os traços corporais de um vivo.
A VISÃO EXTÁTICA DOS MORTOS
A partir do século XIII, a literatura visionária e mística produz relatos autobiográficos de
fantasmas muito diferentes. Os autores são bem identificados. Por vezes, trata-se de homens como o
dominicano Robert de Uzès que, no fim do século, confia à escrita as "visões" e as "palavras" de que
teve a revelação. Ele descreve os estados extáticos nos quais se viu mergulhado quando, no claustro ou
na igreja de Avignon, abismava-se na prece e na contemplação. Nessas ocasiões, diz ele, aconteceu que
as almas de seus parentes se manifestassem a ele, seja, se eram bem-aventuradas, sob a forma aérea "de
um lençol branco contendo lenha seca", seja, se padeciam no purgatório, "negras sobre hastes de cana
como carne para assar"; a cada vez, o "espírito do Senhor" fala com ele, explicita a visão e o informa
sobre a respectiva condição dessas almas.{86} De maneira significativa, Robert insiste no fato de que
esses mortos não lhe apareceram em sonho, mas em um estado de excitação espiritual excepcional, fora
do alcance dos homens ordinários.
Tais estados são encontrados sobretudo nos mosteiros femininos, particularmente na Alemanha. O
caso mais notório é incontestavelmente o de Gertrude, que entrou no mosteiro — de obediência mais ou
menos cisterciense — de Helfta, em 1261, com a idade de cinco anos. Ali passou sua vida, afligida por
doenças e grandes sofrimentos, e ali morreu, sem jamais se ter tornado abadessa, em 1301 ou 1302. Ali
encontrou e sofreu a influência de várias mulheres místicas reputadas por suas visões: a abadessa
Gertrude de Hackerborn (morta em 1291), a freira Mechtilde de Hackerborn (morta em 1298), a beguina
Mechtilde de Magdeburgo. Embora Gertrude não tenha escrito ela própria as revelações de que se
beneficiou em grandes sofrimentos físicos, ditou-as, de sorte que podemos falar ainda aqui de escritos
autobiográficos. À coletânea de suas revelações, Gertrude deu o título de Arauto, pois considera seu
livro como o arauto do Senhor, que fala de alguma maneira por sua boca. O livro V e último (foi
terminado depois de sua morte) apresenta uma série contínua de relatos de aparições de almas de
defuntos. {87} O caráter sistemático dessa coleção de relatos deve reter a atenção, pois denota uma
organização consciente. Os defuntos são aí classificados segundo seu estado social: as doze primeiras
exposições referem-se a irmãs recém-falecidas do mosteiro; os cinco relatos seguintes narram as
aparições de irmãos conversos; apenas em seguida trata-se, na ordem, de um próximo, de parentes de
membros da comunidade, de um cavaleiro defunto, de uma pobre mulher, de uma outra defunta ainda.
Ora, Gertrude nunca diz que sonhou com essas almas: viu-as e dirigiu-se a elas em um estado extático, no
meio de uma violenta luz, quando elas com freqüência lhe pareciam associadas muito estreitamente e
como corporalmente (no coração, no seio, diz ela várias vezes) ao Cristo ou à Virgem. A razão dessas aparições é, em geral, que a defunta ou o defunto não expiou todas as suas faltas; por preces e pelo
sacrifício da hóstia, pedido a um padre, Gertrude trabalha em seguida na sua libertação.
Tais relatos de aparições de mortos, em estado de vigília, são característicos dessa literatura
visionária e mística. Mesmo quando se trata de relatos autobiográficos, essa literatura evita no mais das
vezes falar de sonhos, que dependem de uma experiência mais comum e não são, como a visão extática,
sinais de eleição. O mesmo ocorre, com mais forte razão, nos relatos contados que florescem igualmente
nessa mesma literatura. Vemo-lo, por exemplo, na coletânea das visões das irmãs dominicanas de
Unterlinden, em Colmar, na virada dos séculos XIII-XIV. As visões das irmãs são aí relatadas uma após
outra. Muito freqüentemente, trata-se da aparição de uma irmã defunta e, por vezes, de um irmão
dominicano a uma irmã que os conheceu. Toda vez, as condições da aparição são precisadas, e toda vez é
dito que a visionária estava acordada.{88} De maneira significativa, apenas dois relatos de sonhos são
mencionados, mas em um é o diabo que aparece "sob a aparência de uma matrona recém-falecida" {89} e,
no outro, a irmã acorda para beneficiar-se uma segunda vez da mesma visão, mas desta vez "manifesta".
{90} Não se poderia dizer melhor a que ponto a visão desperta goza, nesse tipo de relato monástico e
místico, de um preconceito muito mais favorável do que o sonho.{91}
SONHAR COM MORTOS
Diferentemente dos relatos de que se acaba de falar, a maior parte dos relatos autobiográficos de
fantasmas é de relatos de sonho. Existe mesmo um elo estreito entre a experiência onírica e o recurso à
autobiografia. A autobiografia e o relato de sonho não puderam desenvolver-se na literatura cristã da
segunda Idade Média senão se desprendendo da desconfiança que pesava tradicionalmente tanto sobre
uma quanto sobre o outro. O que estava em causa a propósito do sonho era o reconhecimento do sujeito,
de sua autonomia, do inconsciente que o sono libera, a admissão das pulsões e dos desejos inconfessos
do corpo adormecido.{92} Durante todo o primeiro milênio, o "eu" pensava-se e exprimia-se por meio dos
modelos de comportamento e de uma concepção da identidade cuja referência era exterior ao sujeito
individual. Quando os primeiros cristãos eram intimados por seus carrascos a declinar sua identidade,
obstinavam-se em responder a cada uma de suas perguntas: "Sou cristão!".{93} "Cristão" era seu
verdadeiro nome ao mesmo tempo que seu título de vinculação à nova fé. O mesmo ocorreu com os
monges dos séculos posteriores: seus gestos, suas preces, seus cantos apenas tinham existência e
significação no conjunto das práticas litúrgicas de toda a comunidade monástica que, ela própria, não se
pensava senão em comunhão com os coros angélicos. Segundo Cassiano e são Bento, o noviço que
pronuncia seus votos definitivos faz dom total a Deus de sua pessoa, de seu espírito e de seu corpo: "a
partir desse dia, ele sabe já não ter poder nem sequer sobre seu próprio corpo".{94} Tais condições não
eram favoráveis ao relato autobiográfico das próprias experiências e, particularmente, dos sonhos. Por muito tempo, o clérigo ou o monge letrado confiaram de mais bom grado na tradição escrita ou mesmo
oral, nas autoridades (as da Bíblia ou dos Pais da Igreja), nos modelos narrativos que instituem uma
cadeia obrigatória de testemunhos "dignos de fé". O mesmo aconteceu com os relatos de fantasmas: de
preferência a anotar seus próprios sonhos, reproduziam-se por escrito os relatos transmitidos por uma
auctoritas — um texto ou uma pessoa "autorizados" — cuja mediação necessária interpunha-se entre o
indivíduo e os mistérios do além.
Ao longo de toda a Idade Média, grandes suspeitas pesavam sobre os sonhos. Da mesma maneira
que a promoção do sonho vai de par no século XII com a do sujeito, durante a alta Idade Média um foi
refreado ao mesmo tempo que o outro. Uma das razões é que o sonho dá acesso diretamente à revelação
das verdades ocultas do além, sem a mediação nem o controle de nenhuma autoridade eclesiástica. Daí a
arma que a cultura clerical opôs às tentações de uma valorização excessiva do sonho: sua diabolização.
Assim, a reinterpretação das classificações antigas permite dar a primeira importância antes à suposta
origem dos sonhos que à sua forma e às suas significações. Ora, se se admitia que os santos ou os reis
podiam beneficiar-se de sonhos de origem divina, o comum dos mortais antes passava, sobretudo durante
o sono, pela presa fácil das "ilusões diabólicas". Esse é o sentido da oposição fundamental, ao longo de
toda a Idade Média, entre sonhos "verdadeiros" e sonhos "falsos": os primeiros são justificados pela
verdade de seus objetos (o santo que aparece em sonho é realmente um santo; a profecia revelada em
sonho tem realmente uma origem divina e se verificará), enquanto os segundos são invalidados pela
falsidade de seu suposto autor: se o diabo existe na verdade, não faz ver em sonho mais que puras ilusões
que enganam o cristão e o conduzem à perdição. Assim se explica o preconceito favorável com relação a
visões despertas relatadas por testemunhas insuspeitas: à apropriação individual do sobrenatural por
meio do sonho, opõem-se ao mesmo tempo a garantia de uma visão "clara", a salvo das intrigas noturnas
do diabo e das complacências condenáveis do sono e do corpo, e o testemunho de mediadores
autorizados que formam trincheira contra as tentações diabólicas.
A AUTOBIOGRAFIA CRISTÃ E OS FANTASMAS
Durante o primeiro milênio, existem, portanto, poucos sonhos autobiográficos de fantasmas. O
primeiro, e um dos mais célebres, é o sonho que teve santa Perpétua quando estava na prisão pouco antes
de sofrer o martírio, em 203, perto de Cartago. Seu jovem irmão Dinócrates, que morrera aos sete anos,
apareceu-lhe em andrajos e trazendo no rosto o cancro que provocara seu falecimento. Ele parecia querer
beber de um poço cujo bocal era muito alto para ele. Perpétua compreendeu que seu irmão sofria as
provações do além e que devia ajudá-lo. Alguns dias mais tarde, tendo orado por ele, ela se beneficiou
em sonho de uma nova aparição de seu irmão e dessa vez compreendeu, por sua aparência feliz, que
estava salvo.{95} Ambrósio de Milão (c. 339-397) também descreve com emoção o sonho no qual seu falecido irmão Sátiro lhe apareceu. A expressão do defunto é tão concreta que Ambrósio crê ver a
própria alma do irmão, mas isso não é mais que uma ilusão: a imagem onírica é apenas fruto do espírito
de Ambrósio exposto à dor.{96} Bem mais tarde, o mesmo acontece no caso da aparição da abadessa
Hathumoda de Gandersheim (falecida em 874) a seu irmão, o monge Agius de Corvey, que escreve sua
Vita dois anos depois. O testemunho de Agius toma a forma de um poema, na tradição do gênero antigo
da {97} consolatio, que Boécio reintroduzira nas letras cristãs. Em sonho, Agius conversa com sua irmã
sobre a regra monástica e a gestão do mosteiro, agora administrado por sua irmã comum, a abadessa
Gerberga. Agius implora a Hathumoda que lhe apareça com freqüência, a fim de consolá-lo de seu
desaparecimento. Suplica-lhe que lhe mostre sua imago em sonho e também, diz ele, quando está
desperto. Mas, de maneira significativa, não descreve uma tal visão.
É preciso esperar a renovação monástica da autobiografia, nos séculos XI e XII, para começar a
encontrar um número substancial de relatos de sonhos pessoais e, eventualmente, de sonhos de fantasmas.
Não sem boas razões, o monge Otloh de Saint-Emmeran (c. 1010 — c. 1070) é considerado como
uma das principais testemunhas do desenvolvimento do cuidado monástico com a introspecção na metade
do século X. Essa preocupação exprime-se antes de tudo, nele, nas formas da literatura visionária. A
atenção que presta, além das aparências sensíveis, ao sentido oculto de seu destino é igualmente posta a
serviço da reforma do monacato, da qual é um importante protagonista. {98} Nascido na diocese de
Freising, em uma família sem dúvida nobre, entra aos sete anos na escola do mosteiro de Tegernsee, onde
decide tornar-se monge, contra a vontade dos pais. Aos catorze anos, seus dons de escriba lhe valem ser
enviado aos mosteiros de Hersfeld e de Amorbach e à corte do bispo de Wurztburg, antes de retornar a
Tegernsee. Obrigado a fugir para a abadia de Saint-Emmeran, em Regensburg, ali pronuncia votos
monásticos definitivos com a idade de vinte anos. É nesse mosteiro que conhece uma das grandes figuras
reformadoras do monacato contemporâneo, Guilherme de Hirsau (morto em 1091), a cuja causa adere
completamente. {99} Sua ação acarreta-lhe fortes inimizades, que o obrigam a exilar-se de 1062 a 1067-68
na abadia de Fulda (que participa, também, do movimento reformador, mas na obediência clunisiana).
Depois ele retorna a Saint-Emmeran, que não deixa mais até sua morte.
Otloh volta várias vezes em seus diferentes livros às peripécias de seus combates interiores e de
sua conversão. Ainda que se exprima segundo os grandes modelos da literatura cristã — essencialmente,
o relato da conversão de são Jerônimo, os relatos das tentações diabólicas inspirados em Cassiano e nas
Vidas dos Pais do deserto —, não há motivo para duvidar do caráter pessoal de sua experiência e de sua
sinceridade, especialmente no De temptationis suis et scriptis, em que se exprime o dilema do monge
que quer ler ao mesmo tempo os autores pagãos e a Bíblia. Vários episódios dessa autobiografia
retornam no De doctrina spirituali e nos quatro primeiros relatos do Liber visionum, escrito cerca de
cinco anos antes de sua morte. {100}
É essa última coleção de relatos de visões que devemos considerar mais em detalhe. Ela se inicia
por um prólogo, no qual Otloh insiste na utilidade das visões para a edificação dos cristãos. Foi por meio de visões que ele próprio foi admoestado por Deus quando ainda não se emendara suficientemente. De
resto, ele não faz, ao que diz, mais do que seguir o exemplo das Escrituras e do livro IV dos Diálogos de
Gregório, o Grande. Essas visões são ora sonhos tranqüilos ou agitados (per somnia quieta vel
inquieta), mas ora, também, visões percebidas em estado de vigília: não é raro que Otloh, de acordo com
um esquema narrativo bastante comum, mostre como uma visão desperta vem por vezes confirmar um
sonho, que está mais sujeito à dúvida.
Apenas os quatro primeiros relatos (em 24) são verdadeiramente autobiográficos. Mas, por sua
extensão, representam quase um terço da obra. Ora, os quatro são relatos de sonho. Referem-se a
diferentes etapas da vida de Otloh: os dois primeiros sonhos acontecem durante sua infância e quando
ainda se encontrava em Tegernsee (portanto, antes de 1032); o terceiro liga-se a seu conflito com o
arcipreste Werinher e à sua partida para Saint-Emmeran; o quarto é um pesadelo que teve em 1055
quando estava doente e em oposição aberta a seu abade. Nesses sonhos alternam-se as manifestações
divinas, angélicas ou diabólicas, mas jamais se trata de fantasmas. Pelo menos, pode-se sublinhar, mais
uma vez, o elo muito forte entre sonho e autobiografia.
Esse elo é confirmado se se consideram os quinze outros relatos, que são todos contados e são
majoritariamente relatos de visões percebidas em estado de vigília.{101} Otloh diz que ele próprio
recolheu esses relatos da boca de testemunhas dignas de fé, que se esforça sempre por nomear.{102} No
mais das vezes, trata-se de um monge que fica sabendo, por meio de uma revelação sobrenatural, que vai
morrer em breve ou que defuntos que conheceu sofrem castigos no além em razão de sua oposição à
reforma monástica. Sete relatos referem-se também, direta ou indiretamente, a fantasmas.
Nenhum desses relatos de fantasmas é autobiográfico e apenas duas vezes trata-se de sonhos:
majoritariamente, o relato contado impõe a objetivação da visão desperta. Em todos os casos, a função
ideológica desses relatos é clara: os fantasmas são mobilizados a serviço da reforma da Igreja. Dos dois
primeiros relatos (Visões 6 e 7), Otloh diz que são "semelhantes", embora o primeiro antes descreva a
ressurreição de uma morta, e o segundo a aparição de defuntos. {103} Ambos visam à aristocracia leiga,
culpada de usurpações de bens eclesiásticos. Em um caso, uma criada defunta (e subitamente
ressuscitada) insta o "tribuno" Adalric, em nome de seus pais também falecidos, a restituir à Igreja uma
curia usurpada por sei pai, Ruotpold, que sofre no além toda espécie de torturas. No relato seguinte, dois
irmãos a cavalo encontram "uma grande tropa voando nos ares". Um altivo cavaleiro separa-se dessa
tropa e lhes pede, da parte do falecido pai deles, que restituam um domínio ao mosteiro que ele espoliou.
Sem isso, seu pai, eles próprios e sua descendência sofrerão a danação. A lança ardente que o cavaleiro
estende-lhes é o signum, a prova da verdade da visão. Os dois irmãos aquiescem e logo se fazem
monges. Uma das palavras de ordem da reforma — a restituição aos mosteiros dos bens de que foram
espoliados — é tanto mais bem ilustrada por esses dois relatos quanto Otloh diz dever o segundo a um
irmão que o ouvira, ele próprio, da boca do principal protagonista da reforma na metade do século, o
papa Leão IX (1049-54). {104}
Os dois relatos seguintes (Visões 8 e 9) estão também ligados entre si e visam claramente a um
segundo objetivo da reforma: a vida interna dos mosteiros. Otloh deve-os a um mesmo informador, um
parente, monge de Tegernsee. Ambos referem-se ao abade desse mosteiro, Ellingerus, culpado de má
administração.{105} O informador de Otloh ouvira na igreja lamentos e prantos (provavelmente, os dos
antigos monges defuntos), que anunciavam o incêndio do mosteiro. O abade não o escutara e
negligenciara pôr a salvo o tesouro e os livros que iam desaparecer no incêndio. Em seguida, tendo esse
abade culpado adoecido, tampouco levara em conta as admoestações de Duriagus, um clérigo que, tendo
terminado sua vida no mosteiro, aparecera-lhe em sonho, atara-o a uma coluna e o açoitara.
Enfim, três relatos (Visões 12, 16 e 17) ilustram a urgência da reforma moral dos cristãos em geral
e a demonstração da eficácia das preces pelos mortos. {106} O próprio Otloh encontrou à porta do
mosteiro, durante a oitava da Epifania, um penitente que, quando criança, induzira o pai, por sua mentira,
ao perjúrio.{107} Durante todo o ano seguinte ao seu falecimento e depois no dia de Natal, "nessa noite em
que muitas almas merecem chegar ao repouso", seu pai lhe apareceu em sonho (in soumis) e no estado de
vigília (aperte) — esta segunda visão confirmando a primeira — para o adjurar a ajudá-lo a escapar às
suas torturas. O filho faz penitência, e Otloh adverte contra as conseqüências do perjúrio. Um outro relato
lhe foi narrado por um monge de Fulda: um irmão afogara-se acidentalmente, mas o ecônomo, que julgara
de maneira presunçosa que ele se suicidara, mandara sepultar o corpo a distância do cemitério da
comunidade. O morto lhe aparece para lembrá-lo de que só Deus tem o poder de julgar.
Enfim, Otloh conta um relato que deve a um informador cujo nome esqueceu, mas ele não trai o
sentido (sensum) nem o teor (sermonem) desse relato, que transmite para a edificação daqueles que o
lerem: a imperatriz Teófano (morta em 991), esposa de Oto II, teria merecido a danação eterna por ter
introduzido na Alemanha o luxo da corte bizantina. Ela teria aparecido a uma freira para lhe pedir que a
ajudasse por suas preces. Otloh diz ignorar o que fez em seguida a freira, o que não deixa de preocupar
quanto à sorte da imperatriz no além...
Este último caso mostra particularmente bem a que ponto o relato de visão acordada é um objeto
social: ele o é pela transmissão oral e depois escrita que lhe dá origem; mas o é também por sua difusão,
pelo espaço social no qual está destinado a circular e mesmo a tornar-se, eventualmente, um meio de
propaganda política. Essa é uma outra diferença em relação ao relato autobiográfico de sonho, cuja
significação e uso permanecem com freqüência confinados no círculo íntimo dos próximos e dos parentes
que cercam o sonhador-escritor. Uma outra autobiografia monástica célebre, no começo do século XII,
ilustra perfeitamente este ponto.
O monge Guibert de Nogent (c. 1055 — c. 1125) tomara por modelo as Confissões de Santo
Agostinho. Mas esse modelo não lhe impunha falar de seus sonhos de criança nem, sobretudo, falar deles
como escolheu fazer. Já envelhecendo quando escreve seu De vita sua, aí ele narra dois sonhos pessoais
que teve quando criança. Nesses dois sonhos, vê imagens terrificantes de defuntos, cuja origem atribui ao
diabo.{108} Em um caso, ele esclarece que vira antes aqueles homens, que não nomeia, morrer pela espada ou de outra maneira, ou que ouvira o relato de seu trespasse. Ele conta certamente um autêntico pesadelo,
que se seguiu ao traumatismo de um espetáculo ou de um relato de violência e produziu na criança que
ele era uma impressão tão forte que jamais a esqueceu. Em seu segundo sonho de criança, percebeu
vozes, depois um morto, falecido sem dúvida nos banhos (o lugar por excelência das obscuras seduções
sexuais) e acompanhado de um demônio, apareceu-lhe. {109} Aí tampouco o morto é nomeado, e o sonho
talvez se tenha seguido a um afogamento de que a criança ouvira falar. {110} Como poderíamos negar (hoje
em que, bem mais que na época de Guibert, a psicologia e o desenvolvimento da personalidade das
crianças são noções amplamente aceitas) a pregnância das imagens de violência no espírito, nos
pesadelos e na lembrança duradoura do Guibert criança?
Além de seus próprios sonhos de criança, Guibert conta igualmente um sonho de sua mãe.{111} Se
esse relato não é exatamente autobiográfico, aproxima-se muito disso, como vamos ver. De resto, não é
tampouco um verdadeiro relato de aparição, mas antes o relato de uma viagem onírica no além. Pertence
por isso a uma outra tradição narrativa, freqüentemente mais prolixa que os relatos de aparição
propriamente ditos. Esse não é o único sonho de sua mãe relatado por Guibert (ela teria sonhado também
com a Virgem protegendo seu filho). Guibert tem por esses sonhos um interesse muito particular em razão
da profunda afeição que o liga à mãe: embora nunca diga seu nome, é evidente que ela é para ele o que
santa Mônica foi para seu filho Santo Agostinho. A mãe de Guibert é uma verdadeira especialista em
sonhos e sua interpretação. Ao redor dela, seu filho, o preceptor deste, outras mulheres piedosas da
vizinhança, todos lhe reconhecem uma verdadeira "ciência dos sonhos", independente de qualquer
controle ou de qualquer mediação dos clérigos; comparando o conteúdo dos sonhos (tanto os seus como
os de outrem) e os dados da realidade exterior, ela descobre os presságios (portenta) oníricos e diz
como agir da melhor maneira. É exatamente o que faz para si mesma quando extrai o sentido e as lições
de seu mais longo sonho.
Esse sonho ocorre na noite de um domingo, à hora das matinas (dois detalhes que lhe garantem a
origem celeste e a verdade), no verão. A mãe deitou-se em um banco estreito, uma postura penosa,
mortificante, que prepara seu corpo para a experiência sobrenatural que se vai seguir. Estando
adormecida, ela sente em primeiro lugar sua alma escapar do corpo, depois ser conduzida a uma galeria
que a leva às cercanias de um poço. "Homens com a aparência de larvas" saem do poço e tentam atraí-la
para lá: são condenados e o poço é o orifício do inferno. Mas sua alma ouve atrás de si uma voz que
ordena aos fantasmas que não a toquem.{112} Tendo vencido essa prova que a qualifica para mais altas
revelações, ela vê aparecer-lhe, ao lado do poço em que se apoiou, seu falecido marido. Tem o aspecto
do homem jovem (juvenis) que era quando morreu.
Ela lhe faz uma série de perguntas. Chama-se realmente Évrard? Ele o nega, talvez para evitar que
o sonho da mãe seja assimilado a um ritual de evocação de morto, a um ato de necromancia. Mas,
sobretudo, comenta Guibert, porque "apenas as coisas espirituais convêm aos espíritos"; seria ridículo
pensar que os espíritos interpelam-se no além dando-se seus nomes terrestres; além disso, se conservassem esses nomes, reconheceriam no além apenas as pessoas que conheceram neste mundo.
Guibert, como bom discípulo de Agostinho, faz questão de manter a distância entre a sociedade dos vivos
e o mundo "espiritual" dos mortos. Tanto mais que a idéia de uma sociabilidade do além, sem limite e
sem relação com o círculo restrito de seus conhecimentos neste mundo, é contestada por muitos outros
relatos contemporâneos: os mortos se reconhecem apenas na medida em que se conheceram em vida. Pela
mesma razão, aparecem na terra, prioritariamente, a seus parentes e amigos. Pode-se pensar, portanto,
que Guibert de Nogent insiste tanto mais nesse ponto quanto sabe que a posição que defende é
minoritária.
Onde permanece o falecido pai de Guibert? Évrard responde à sua viúva que permanece em um
"local" não longe daquele "lugar". Parece então que o lugar do encontro seja uma espécie de antecâmara
do inferno (no fundo do poço) e que o "local" onde Évrard, que não é condenado, padece grandes
sofrimentos seja uma espécie de "purgatório" que não tem deste nem a configuração nem o nome.{113}
Qual é seu estado? Évrard exibe terríveis feridas no braço e no flanco, e além disso sua mulher vê
ao lado dele uma criança que lança gritos insuportáveis. Guibert explica a presença da criança: durante
os sete primeiros anos de sua união, seus pais não tinham podido consumar seu casamento em razão de
um malefício. O marido, cedendo às pressões de sua linhagem e de "conselheiros depravados" e
querendo certificar-se de sua virilidade, teve comércio com uma mulher leviana (muliercula), que
engravidou. O filho do pecado morreu no mesmo dia do nascimento, sem ter sido batizado, e por isso é
castigado, talvez mesmo condenado. Pelo menos, a "experiência" (é o termo utilizado por Guibert) foi
concludente para Évrard: ele pôde reencontrar sua esposa, que lhe deu vários filhos legítimos, entre os
quais Guibert. Mas a ferida que o fantasma tem na costela significa que maculou o laço conjugal (seria
uma alusão à geração de Eva pela costela de Adão?), e os gritos da criança aumentam ainda mais seus
sofrimentos.
As preces, as missas e as esmolas que sua viúva oferece por sua salvação o aliviam? Ele responde
que sim e recomenda-se notadamente às preces de uma mulher de vida santa, Liutgarde, que vive ao lado
da mãe de Guibert. É provável que a prece pelos mortos seja uma função social, uma especialidade que a
vizinhança reconhece nessa mulher piedosa, da mesma maneira que o papel de intérprete dos sonhos cabe
à mãe de Guibert.
Quando a mãe de Guibert encerra sua conversa com o marido, um novo espetáculo se oferece a ela:
reconhece, ajoelhado sobre uma tábua colocada sobre o bocal do poço, o cavaleiro Renaud de Beauvais
e depois um irmão de Guibert, que atiçam com seu sopro o fogo que vai devorá-los no inferno. Nenhum
dos dois morreu ainda, mas a visão matinal da mãe de Guibert é um presságio de seu trespasse iminente e
de sua danação: ao meio-dia do mesmo dia, Renaud será assassinado, e depois o irmão de Guibert,
culpado de blasfêmia, morrerá sem tardar. Em seguida ela vê "a aparência de sombra" (speciem
umbraticam) de uma velha mulher falecida levada por dois demônios muito negros. Essa mulher era uma
amiga muito próxima; elas tinham vivido juntas e se haviam prometido mutuamente que a primeira a morrer apareceria à segunda para a informar de sua sorte no além. Suas permanentes mortificações e duas
visões premonitórias que tivera antes de morrer podiam fazer pensar que teria melhor sorte. Uma vez
morta, ela aparecera a uma outra pessoa para agradecer-lhe por ter aliviado suas dores. No entanto, a
crer no sonho da mãe de Guibert, ela agora parece estar a caminho do inferno.
Nada assinala o fim do sonho da mãe de Guibert, o retorno de sua alma ao corpo. Mas ela não
perde um instante para interpretar seu sonho e tomar as decisões que se impõem. A morte ao meio-dia, no
mesmo dia, do cavaleiro Renaud vem confirmar a verdade do sonho. Da mesma maneira, sonhou sem
surpresa com a criança que gritava: ela não ignorava, com efeito, que seu marido tivera com outra mulher
um filho ilegítimo, morto imediatamente depois, sem batismo. Toda a sua atenção volta-se para seu
marido, porque ela permaneceu sua esposa fiel além da morte e porque, de todas as personagens
falecidas ou com prazo de morte que apareceram, apenas ele é suscetível de ser libertado de seus
tormentos. À maneira dos médicos da época, ela decide cuidar dos sofrimentos da alma do marido,
simbolizados pela ferida na costela e pelos gritos da criança, "opondo o semelhante ao semelhante":
encarregando-se, ela também, de uma criança cujos gritos incessantes, provocados pelo diabo, a privarão
do sono todas as noites. Essa mortificação devida ao choro de uma criança lhe permitirá libertar Évrard
dos gritos insuportáveis do pequeno fantasma. Philippe Ariès pôde perguntar-se se a criança "existia" na
Idade Média e aqui se vê bem a que ponto a criança não é mais que um instrumento a serviço dos adultos:
Guibert deve o fato de ter nascido ao nascimento "experimental" do bastardo; este é atormentado por uma
falta que não cometeu e porque foi privado, involuntariamente, da graça do batismo. Sua sorte parece
muito dura. É apenas no fim do século que se falará do limbo das crianças, morada de espera indolor mas
eterna, reservada às crianças mortas sem batismo e por isso privadas para sempre de acesso ao paraíso.
Enfim, o "duplo" bem vivo desse fantasma (substituto de Guibert junto de sua mãe) não é mais que o
instrumento, por seus gritos, da mortificação da piedosa mulher (como o seria um cilício ou a disciplina).
Como no caso dos changelings do folclore, as crianças são substituíveis umas pelas outras para
satisfazer as expectativas dos homens, a cura do corpo {114} ou a salvação da alma.
Embora Guibert não conte aqui um sonho que ele próprio teria tido, mas um sonho de sua mãe, que
o contou a ele, sua preocupação autobiográfica é onipresente. Poder-se-ia dizer que é ainda Guibert quem
sonha por intermédio de sua mãe. Sonho com outros mortos — o pai, o irmão, os próximos — mas,
sobretudo, sonho consigo, sob os traços de uma criança de substituição. Os fantasmas, a lembrança dos
parentes mortos estão aqui a serviço de uma outra função característica da época e, particularmente,
desse autor: a descoberta de si, a busca de sua identidade.
O SONHO PENITENCIAL
No século XIII, a escrita autobiográfica amplia-se e diversifica-se, alimentada pelas novas práticas de introspecção e de penitência propostas aos cristãos pelo IV Concílio de Latrão (1215) e pelo
apostolado das ordens mendicantes. O dominicano Thomas de Cantimpré lembra como seu pai, visitando
eremitas na Terra Santa, fizera o juramento de consagrar seu filho ao sacerdócio, a fim de que pudesse
celebrar a missa por sua salvação quando ele próprio tivesse falecido.{115} Agora que seu pai está morto,
quando acontece de Thomas negligenciar seus deveres, ele vê em sonho o Cristo — mas não seu pai —
aparecer-lhe e censurá-lo, mostrando-lhe as chagas da Paixão. Nesse único relato autobiográfico, Cristo
substitui o pai cuja aparição se esperaria: Cristo é para esse religioso a figura de autoridade por
excelência, mais forte que a do pai carnal.
Reencontra-se, mais exacerbada ainda, a obsessão da falta e da pureza na autobiografia do eremita
Pierre de Morone (que ia tornar-se em 1294, por alguns meses apenas, o papa Celestino v), conhecida
sob o título de Coelestiana. Ela ocupa todo esse texto e, particularmente, os relatos de sonho do eremita,
quando este aspira a uma lei moral que lhe dite a conduta. Essa lei toma nos sonhos o rosto dos defuntos
mais próximos, como o pai abade que, antes de morrer, pediu a Pierre que orasse por ele. Ele lhe aparece
em sonho, segura-o pelo capuz de seu hábito e lhe ordena dizer a missa ainda que se creia indigno dela.
{116}
OS LEIGOS: PRIMEIROS ESCRITOS
Enfim, desde o século XIII, leigos letrados também tomam a pena, falam de si mesmos, contam seus
sonhos. A primeira testemunha, na França, dessa "subjetividade literária" leiga é o sire de Joinville, o
amigo muito querido de são Luís. Depois da morte (1270) e da canonização (1298) do rei, Joinville
dedicou à sua memória o Livro das santas palavras e dos bons feitos de nosso santo rei Luís. Escrita a
partir de uma primeira narração da vida do rei em 1272, essa obra lhe foi encomendada por Jeanne de
Navarre (a esposa de Filipe, o Belo, neto de são Luís, sob cujo reinado o rei foi canonizado) e oferecida,
em 1309, ao bisneto de são Luís, Luís X, o Turbulento. Quando a obra está terminada, Joinville
acrescenta ainda um relato, o de um sonho pessoal no qual o santo rei, de quem fora amigo íntimo, lhe
apareceu:
Quero ainda dizer de nosso santo rei coisas que serão em sua honra, que vi dele dormindo: é que me parecia, em meu sonho, que o via diante de minha capela em Joinville; e ele estava, ao que me parecia, notavelmente alegre e tranqüilo; e eu mesmo estava muito feliz, porque o via em meu castelo, e lhe dizia: "Sire, quando partirdes daqui, eu vos hospedarei em uma casa minha que fica em uma aldeia minha chamada Chevillon". E ele me respondeu, rindo: "Sire de Joinville, pela fé
que vos devo, não tenho vontade de partir daqui tão cedo".{117}
Michel Zink analisou brilhantemente esse sonho na lógica da escrita subjetiva e da relação pessoal
de Joinville com a memória de seu real amigo desaparecido. Joinville teve dois sonhos com o rei: o
primeiro durante a Quaresma de 1267, quando o rei ainda vivia. Ele lhe apareceu revestido de um traje rubro, sinal premonitório da cruzada de Túnis, que foi de fato decidida na manhã do dia seguinte e na
qual Luís IX iria encontrar uma morte próxima do martírio. O segundo sonho teve lugar quando o rei já
estava morto. Nele se faz alusão à capela na qual Joinville mandou erigir um altar em honra do novo
santo, depois da canonização de 1298. Joinville sonhou, portanto, não antes de uns trinta anos depois da
morte do rei. Entrementes, fora afastado do círculo dos sucessores de Luís IX, notadamente de Filipe, o
Belo, e o haviam esquecido quando da distribuição das relíquias que se seguiu à canonização:{118} por
tudo isso ele sentia grande amargura, que explica diretamente seu sonho. Por contraste, ele fica
impressionado com a felicidade e o riso de seu falecido amigo, que o consola assegurando-lhe que
pretende permanecer perto dele. Segundo Michel Zink, os nomes próprios Chevillon e Joinville são para
o velho senescal a expressão simbólica de seu desejo de ligar-se — se cheviller, se joindre — ao que
resta do rei: sua imagem viva e alegre, que vê em sonho, e seu corpo, que desejaria tocar novamente
como no passado, mas cuja posse (sob a forma de relíquia) lhe é recusada.
Tais relatos mostram bem o que era um fantasma para um letrado da Idade Média, inclusive para
um leigo capaz de escrever e preocupado em interrogar o sentido de seus próprios sonhos. O fantasma
nasce da lembrança ainda ardente e mal enterrada de um ser próximo e amado — um filho, um pai, uma
irmã, um irmão, o "pai" espiritual da família monástica, um amigo muito querido e venerado como são
Luís para Joinville, desaparecido muito cedo e muito subitamente. Usando do estratagema de uma
presença ilusória, o sonho preenche por um instante o vazio que a morte cavou. Tão perto quanto o
historiador pode chegar da experiência afetiva mais íntima dos homens do passado, ele descobre uma
relação com o morto que é familiar a ele também ou, pelo menos, compreensível. Em matéria de "crença
nos fantasmas", reencontra a prova do luto e da memoria, o trabalho doloroso, amplamente inconsciente,
da separação. Analisemos, para terminar, um relato tardio, o de um leigo florentino do século XV, que
resume todos os traços que relatos díspares nos permitiram reunir.
O PESADELO DE GIOVANNI MORELLI
Giovanni di Pagolo Morelli era um rico negociante florentino. Começou a manter seu "diário" em
1393, com a idade de 22 anos, e continuou-lhe a redação, intermitentemente, até 1421, antes de morrer
em 1444, com a idade de 72 anos. {119} Segundo os hábitos do gênero dos ricordi, esse "razão" escrito em
italiano começa por glorificar os antepassados da linhagem do autor. Depois Giovanni Morelli fala de
seus pais e do duplo drama de que se sente vítima e que explica amplamente seu recurso à escrita: jamais
conheceu o pai, que morreu quando ele próprio tinha apenas dois anos, e sua mãe, rapidamente casada de
novo, o abandonou. Aos seus olhos, ela encarnava o tipo da "mãe cruel", verdadeiro flagelo para os
jovens florentinos do Quatrocentos, tão freqüentemente vítimas do segundo casamento precipitado de sua
mãe. {120} Novos golpes da sorte atingiram também Giovanni: a morte sucessiva de seu avô e de sua irmã mais velha, depois um amor contrariado. Em 1396, ele anota seu casamento e em seguida os nascimentos
de quatro filhos. O primogênito, Alberto, é uma criança frágil mas que, muito cedo, aprende com
facilidade o latim e os salmos, assim como as técnicas comerciais necessárias ao comerciante que está
destinado a tomar-se. É por ele que Giovanni retoma a pena em 1403, aos 31 anos. Vai ser para Alberto o
pai atento que ele próprio não teve. Pretende dar-lhe por escrito os conselhos que poderá ler mais tarde
se ele mesmo, a exemplo de seu próprio pai, viesse a desaparecer muito cedo: como comportar-se em
sociedade, tratar com os representantes da cidade, fazer "amigos e parentes" — questão essencial para
todos os nobres e os ricos comerciantes florentinos — usando, se necessário, do poder conferido pelo
dinheiro; como contratar os serviços de um sábio conselheiro e "conservá-lo sempre presente no
espírito": "homem do mais alto valor, sábio, idoso e sem vício", esse conselheiro deverá ser um
verdadeiro tutor e mesmo um substituto do pai carnal se este devesse morrer muito cedo.
No entanto, mais uma vez a desgraça o persegue: em 5 de junho de 1406, Alberto morre com a
idade de nove anos, depois de dezenove dias de terríveis sofrimentos. Seu pai anota todos os detalhes de
sua agonia e seus últimos gestos:{121} o filho consagra-se várias vezes a Deus, à Virgem, cuja imagem (a
tavola) beija, e faz suas preces com muita devoção. Contudo, ele não recebeu os últimos sacramentos, e
seu pai, mesmo esperando que Deus perdoasse as faltas dessa criança tão nova, põe-se a duvidar e
arrepende-se de sua negligência. Teme também por sua própria vida, como se o falecimento de seu filho
fosse o sinal premonitório de sua morte. Toda a família enluta-se: a casa é abandonada durante um mês (o
tempo do "trintário" das missas ditas para o morto), durante todo o verão ninguém penetra na câmara
fúnebre que o pai continuará a evitar seis meses inteiros, a fim de não ser atingido por uma dor muito
forte. Ele tenta, mas sem o conseguir realmente, expulsar a "imagem" mental do filho de seus
pensamentos, salvo quando ora por ele. "Não posso esquecer", escreve ele, "e sua mãe tampouco. Temos
continuamente sua imagem diante dos olhos, lembrando-nos seu andar, sua maneira de ser, suas palavras
e seus atos, dia e noite, no almoço e no jantar, dentro como fora, em nossa villa e em Florença." Sua dor
transforma-se em uma espécie de acusação contra o filho morto, como se ele tivesse uma alegria sádica
em torturar os pais sobreviventes: "Achamos que ele se apodera de uma faca para nos atingir o coração".
{122}
No aniversário da morte, o pai entrega-se por si mesmo a uma evocação quase ritual do morto, uma
espécie de sessão privada de necromancia.{123} Muito explicitamente, Giovanni quer "fazer a alma
abençoada de seu filho sentir algum alívio [refrigero: aparece mais uma vez aqui a velha noção do
refrigerium prometido às almas penadas] ou, pelo menos, a lembrança de seu pai aflito e torturado".
Ricordanza: é preciso que os mortos, assim como os vivos, lembrem-se. A dor do pai é ainda aumentada
pelo fato de que, por sua culpa, seu filho morreu sem ter recebido os últimos sacramentos. Giovanni não
conseguia admitir que Alberto ia morrer, pensava também que Deus perdoaria uma criança tão nova. {124}
Um ano depois, ele se dá conta de que a piedade de seu filho no momento da agonia era insuficiente, de
que a "boa morte" cristã, mesmo para uma criança, supõe que sejam cumpridos os ritos exigidos pela Igreja. O "rito de passagem" permaneceu incompleto e por isso Giovanni é obsedado pela imagem do
filho. Um ano depois da morte deste, gradualmente, à hora exata do trespasse, ele então procura exorcizar
o fantasma por um ritual de sua própria invenção.
Chegado o momento, veste um traje de penitência: um camisolão que lhe deixa os joelhos nus e, em
volta do pescoço, um cordão (coreggia). No instante preciso (in quest'ora et in questo punto) da morte
do filho um ano antes, ele toma por sua vez a tavola que a criança beijara e que representa uma
crucificação com são João Batista e a Virgem. Por sua vez, cobre-a de beijos e, enquanto ora, fixa com os
olhos, uma depois da outra, cada uma das santas personagens. A imagem material de devoção é o suporte
de uma imaginação — immaginare e ragguardare — que permite conceder, diz Giovanni, "meu corpo e
minha alma e todos os meus sentimentos com mais fervor e amor". {125} Entre inesgotáveis soluços, o
infeliz pai ora ao Cristo, à Virgem, a são João Evangelista, a santa Catarina de Alexandria e também a
santa Maria Madalena, "que por seus méritos obteve a graça da ressurreição de seu irmão Lázaro": eu
também, diz ele, "se fosse possível, desejaria ter novamente seu corpo vivo na terra". Pelo menos,
desejaria estar certo de que Deus vai recebê-lo a seu lado no paraíso: obsedado como está pela imagem
do filho, ele duvida, então, de que esse já seja o caso.
Tendo terminado sua dolorosa prece, Giovanni põe-se na cama. Mas é incapaz de conciliar o sono,
vira-se e revira-se no leito. Compreende que "o diabo cheio de inveja" (lo invidioso Nimico) o
atormenta para mostrar-lhe a inutilidade de sua prece e convencê-lo de que a alma de seu filho não é
mais que uma quimera — che l'anima fusse niente o un poco di fiato. Todos os remorsos do pai em
relação ao filho desaparecido tomam agora a voz do diabo que lhe recorda, ano após ano, todo o curso
de sua miserável vida desde a morte prematura de seu pai, o abandono pela mãe cruel, as pancadas que
lhe dava seu preceptor, a espera do filho quando sua mulher estava grávida, o nascimento, a infância e,
para terminar, a morte prematura de Alberto. Nos tormentos da insônia, o Inimigo lhe revela a explicação
terrível da morte do filho: ele, seu pai, é o responsável por ela, pois o amou muito pouco, tratando-o
como um estranho, recusando-lhe mesmo os beijos que o teriam feito compreender sua afeição{126} e
negligenciando, enfim, fazê-lo confessar-se no momento de morrer.
Giovanni acaba por adormecer. Dorme uma hora, depois tem um sonho. Esse sonho é "verídico",
garantido pela inspiração de Deus e de vários santos (seu santo padroeiro João Batista, santo Antônio,
padroeiro de Florença, são Bento, são Francisco, santa Catarina, a quem Giovanni orara antes). E é por
esse sonho que ele obtém a certeza de que Alberto está definitivamente salvo. O sonho compreende duas
partes. Na primeira, o sonhador vê-se em sua casa de Settimello, no campo. Perseguido pela imagem de
Alberto, decide escalar o monte Morello (que tem o nome de sua linhagem). Quanto mais sobe, mais sua
dor cede lugar às lembranças do tempo feliz em que Alberto estava vivo. No entanto, ele vê alçar vôo um
pássaro (grande como um papagaio, com penas brancas, olhos de fogo, bico dourado e patas verdes) que
pousa em diferentes árvores enquanto seu canto se torna cada vez mais doloroso; ele bica as patas até
sangrar, depois cai de um galho, quando uma porca, que um porco acabava de cobrir, passa sobre ele e o cobre de excrementos. Mas Giovanni vê aproximar-se uma moça muito branca (una donzella
bianchissima), tendo uma roda na mão esquerda e uma palma na direita: é santa Catarina que, com sua
roda, faz a porca em pedaços. Depois um bando de pássaros voa ao redor dela e um deles, semelhante ao
que ele vira antes, pousa na mão da santa. Imediatamente, o pássaro toma a forma de um "espírito" (e
divenuto ispirito) sobre cuja cabeça a santa pousa a mão. O espírito é como um "anjo branco" que se
volta cheio de alegria para Giovanni: e eis que o pai, no rosto do anjo, reconhece os traços de seu doce
filho (il mio dolce figliuolo). "Figliuolo mio! Alberto mio!", exclama ele, e quer beijá-lo, mas seus
esforços são vãos, pois os espíritos — ele se dá conta imediatamente — são imateriais. "Tende paciência
e não procureis o impossível" (Abbiate pazienzia e non cercate lo impossibile), diz-lhe o filho.
Entabula-se um diálogo entre pai e filho. Alberto tranqüiliza Giovanni e lhe agradece: graças às preces
que dirigiu a Deus, seu filho "entrou no céu". Mas Giovanni quer saber mais: é verdade que seu filho
morreu por causa dos pecados do pai? Giovanni se consolará com seus outros filhos da morte do filho
primogênito e terá outros filhos? Será perdoado por Deus de ter negligenciado os sacramentos?
Conhecerá a prosperidade? Terá vida longa? O espírito de Alberto o inocenta da responsabilidade por
sua morte e sobre todos os outros pontos lhe dá as melhores razões de esperar; em particular, assegura-o
de que viverá muito (o que ia efetivamente ocorrer). Depois a visão se desvanece, e Giovanni desperta,
cheio de felicidade.
Esse relato extraordinário mostra perfeitamente como um leigo cultivado do fim da Idade Média
podia confiar à intimidade de seu razão a experiência dolorosa e angustiada de seu luto e a análise
precisa de seus próprios sonhos. Todo o além cristão está presente nesse longo relato: Deus, Cristo, a
Virgem e os santos aos quais Giovanni dedica uma devoção particular. De outro lado, encarnando sua má
consciência, a figura e a voz de Satã. Entre os dois, o filho morto cuja lembrança obseda dia e noite o
pai, que se acusa de não o ter amado bastante e de talvez ter comprometido sua salvação. Esse homem
não é fundamentalmente diferente de nós e podemos compreender bem a infelicidade que o atinge, as
imagens que o obsedam. Graças a ele, apreendemos o que são, na verdade, os fantasmas: existem apenas
pela força da imaginação dos vivos, dos pais que não conseguem aceitar a morte brutal e prematura de
um filho ou de um próximo, tanto mais que se sentem culpados por seu destino desafortunado ou pelos
cuidados que não lhe concederam quando ainda era tempo. O pai vê o filho como se estivesse vivo,
desejaria torná-lo nos braços, mas compreende que entre eles a distância é intransponível, pois o
fantasma é apenas uma imagem de sonho. Ao fim de um ano, pouco a pouco, o filho é salvo, o "trabalho
do luto" é enfim consumado graças à interiorização de um ritmo temporal que é, há longuíssimo tempo, o
da liturgia dos mortos: o aniversário marca o fim do retorno obsessivo do defunto, sua separação de seus
próximos, a libertação dos vivos.
Tal documento dá a mais forte impressão de verdade. O leitor moderno sente-se, no sentido
primeiro do termo, em simpatia com Giovanni, esse pai aflito cuja provação nos parece tão crível, tão
verossímil. A autenticidade dos sentimentos expressos é inegável, ainda que o historiador, sempre preocupado em reconhecer os lugares-comuns da cultura ambiente, observe que a experiência mais
pessoal submete-se, para exprimir-se, aos traços convencionais da ortodoxia cristã e ao ritmo temporal
da liturgia. Mas insistamos sobretudo no fato de que Giovanni Morelli diz ter sonhado com seu filho
morto. Em nenhum momento ele fala de uma visão que teria tido acordado. Esse detalhe adquire todo o
seu sentido quando se compara esse relato à maior parte dos relatos autobiográficos e oníricos de
fantasmas, por oposição à massa dos relatos contados em que, ao contrário, a visão desperta prevalece
de muito longe sobre os sonhos.