Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval
Capítulo 6
O IMAGINÁRIO DOMESTICADO?
UMA NOVA PALAVRA
No começo do século {270} XIII , a cristandade inteira é tomada por uma "palavra nova". Ela é
animada por uma multidão de "parlamentos" (do parlamento do rei ao mais modesto "parlatório do
burguês") e por lugares destinados à troca verbal, ao debate judiciário, à negociação, à disputa
universitária, ao anúncio público da palavra de Deus. O púlpito dos pregadores (de pedra no interior da
igreja ou em sua fachada, ou de madeira, móvel, na praça pública ou em pleno campo) é um dos
principais núcleos e o emblema dessa palavra pululante. O cristianismo, religião do Verbo, reata
relações, assim, com sua mais profunda inspiração, mas em um mundo transformado pela renovação
urbana, pelo crescimento e pela povoação das cidades. É então que toma forma e adquire um rosto, talvez
pela primeira vez, um verdadeiro "povo cristão" que seja mais que uma vaga referência ao conjunto dos
batizados: multidões reais de leigos estimam ter urna palavra a dizer na Igreja e vibram às palavras de
ordem da reforma moral e da volta ao ideal apostólico. As seduções da palavra verdadeira levam mais
de um à heresia. É justamente para responder a essas aspirações e para refutar os heréticos que são
encorajadas e organizadas novas ordens religiosas, as ordens mendicantes. As principais são a dos
menores (os franciscanos) e a dos pregadores (os dominicanos). Eles são uma espécie de híbrido entre o
clero secular (dividem com ele a missão perante os leigos e fazem-lhe concorrência em seu próprio
território) e os monges antigos (pois também levam uma vida conventual, mas sem a obrigação de uma
clausura permanente). Seu meio predileto é a cidade, a sociedade urbana, a universidade. Sua arma por
excelência é a palavra, o sermão.
Com os mendicantes ou sob sua influência, a pregação passa, a partir do século XIII, por profundas
transformações quantitativas e qualitativas. Os vestígios manuscritos são consideráveis — contam-se às
centenas de milhares os sermões conservados —, embora não representem mais que uma parte ínfima e
imobilizada de todas as palavras ditas. A retórica do sermão torna-se sistemática para alcançar maior
eficácia: ela impõe um plano estrito, divisões invariáveis e a trilogia obrigatória de seus argumentos: as
"autoridades" (auctoritates) tiradas da Bíblia ou dos autores cristãos enunciam todas as facetas (ainda
que contraditórias) da tradição autorizada. Mas esta, contra os incrédulos ou os heréticos, precisa ser
demonstrada: esse é o papel das "razões" (rationem), diretamente vindas da dialética universitária na
qual os irmãos foram formados. Enfim, os "exemplos" (exempla) ilustram, sob a forma de relatos breves
e concretos, fábulas ou historietas, as vantagens, para o cristão, de uma justa conduta.{271}
Os exempla nem sempre se distinguem muito claramente dos miracula que já examinamos. De resto, o próprio vocabulário passa por algumas oscilações, como o mostra, no começo do século XIII, o
título do Dialogus miraculorum de Césaire de Heisterbach. Este, é verdade, era um monge cisterciense
que se dirigia aos noviços de seu mosteiro (estava oficialmente encarregado deles). Embora sua obra
seja uma coleção de relatos (como qualquer coletânea de exempla), apresenta-se também, na tradição
dos Diálogos de Gregório, o Grande, como uma troca de palavras edificantes entre mestre e discípulo.
Mas foi imediatamente utilizada pelos outros pregadores, seculares ou mendicantes, como uma das
principais fontes de exempla para rechear os sermões dirigidos aos leigos e não mais apenas aos monges.
Mas não se deve deixar de manter uma distinção entre miracula e exempla. Do ponto de vista da
forma, os segundos são normalmente mais breves e abandonam as referências particulares a personagens
ou lugares muito precisamente nomeados, pois pretendem destacar apenas tipos humanos e situações
universais. Com os exempla, a matéria narrativa perde também sua variedade, para submeter-se a
estruturas inalteradas, repetitivas, mas tanto mais memorizáveis e, portanto, mais eficazes para um
auditório iletrado. Maciça, sistemática, repetitiva, a nova pregação parece uma enorme máquina de
converter as almas. Entre o escrito e o oral, a literatura dos exempla é uma de suas principais
engrenagens. Esses relatos são reunidos às centenas em coletâneas temáticas ou alfabéticas providas de
um sumário ou de um índice. Essas são técnicas intelectuais que estão entre as novidades decisivas da
era escolástica.
O objetivo do exemplum é a salvação individual de cada um dos cristãos que compõem o auditório
reunido aos pés do púlpito. O horizonte necessário da pregação em geral e dos exempla em particular é,
portanto, a morte, o julgamento particular do pecador no instante de seu trespasse, as alegrias ou as
tribulações do além e, no fim dos tempos, o Juízo Final e a ressurreição dos mortos. Terrificantes ou
tranqüilos, a morte e os mortos estão igualmente presentes muito concretamente em um grande número de
relatos para dar esperança (mostrando, com o apoio de exemplos, que até o último suspiro nunca é tarde
demais para arrepender-se dos pecados) ou para despertar o medo (descrevendo com grande luxo de
detalhes os castigos infernais). Os fantasmas têm, portanto, seu lugar nos exempla. É mesmo aí que são
mais numerosos. Nesse sentido também, os exempla, pondo em cena fantasmas, afastam-se dos miracula
que se serviam dos mesmos temas: estes visavam antes de tudo a reforçar a liturgia dos mortos, aqueles
antes procuram preparar os cristãos para morrer bem.
Entretanto, nos exempla, os fantasmas apresentam-se como nos relatos miraculosos de um Pierre, o
Venerável, e dirigem aos vivos solicitações semelhantes. Mas eles têm também traços inéditos. Nos
exempla, é toda a sociedade leiga que se abisma, tanto os mortos quanto os vivos. Sempre se trata de
monges e de cavaleiros, mas aí se vêem cada vez mais simples pessoas, homens das cidades e dos
campos, mulheres e homens, assim como religiosos mendicantes, naturalmente. Do exército furioso fala-
se relativamente menos. A atenção concentra-se, ao contrário, no morto individual, em seu pedido de
missas, preces e esmolas dirigido a seus parentes próximos ou ao cura da paróquia. O lugar de onde vem
o morto é bem esclarecido: é, na maior parte dos casos, o purgatório, de agora em diante bem individualizado e localizado. Uma das funções do terceiro lugar do além não é, segundo Jacques Le Goff,
"o confinamento dos fantasmas"?{272} É verdade que o purgatório põe um fim em suas divagações
incertas. Em uma época em que as autoridades municipais e reais inquietamse, aliás, com a multiplicação
dos vagabundos sem teto e sem fé, o purgatório dá às almas penadas um domicílio fixo. Se não é muito
tranqüilizador avistá-las, pelo menos se sabe quase com certeza de onde vêm. A vagueação dos fantasmas
encontra-se então canalizada, mas não negada, pois jamais os fantasmas foram tão numerosos, ou pelo
menos os textos que falam deles.
Essa multiplicação dos relatos de fantasmas em busca de sufrágios é proporcional à intensificação
e à difusão, na sociedade leiga, das práticas litúrgicas e mais geralmente cultuais que regem as relações
entre os vivos e os mortos. O modelo litúrgico clunisiano é substituído por um modelo mendicante. No
primeiro, os monges garantem por suas preces a salvação dos nobres benfeitores em troca das doações
piedosas de terras aprovadas pela parentela do defunto (laudatio parentum). No segundo, o defunto lega
individualmente, em um testamento passado diante de tabelião, somas de dinheiro destinadas a comprar,
no maior número possível de igrejas, o maior número de missas capazes de apressar sua saída definitiva
do purgatório. De um lado, a terra, a liturgia dos monges, a vontade coletiva da linhagem aristocrática.
Do outro, a vontade do indivíduo, o papel do dinheiro e da burguesia, as ordens mendicantes e o que
Jacques Chiffoleau chamou de "contabilidade do além": o registro em duplicata das missas e dos anos de
purgatório que elas permitem resgatar. O quadro de todas essas práticas é a comunidade local dos vivos
e dos mortos, a paróquia, o par indissociável da igreja e do cemitério no próprio centro da aldeia ou do
bairro. Nesse quadro nascem, diante da morte, novas solidariedades. Quando não é possível apoiar-se
em uma linhagem de ancestrais (a que forma a nobreza), faz-se associação com os vizinhos, com os
semelhantes, no quadro da profissão, da paróquia, da comunidade de habitantes ou da zona de influência
de um convento de mendicantes. Um dos objetivos importantes das caridades e confrarias de assistência
e de prece é assegurar igualitariamente a seus membros, depois da morte, dignos funerais e, depois, os
sufrágios necessários à salvação.
É todo esse mundo que, a partir do começo do século XIII, fervilha nos exempla, especialmente nos
que relatam histórias de fantasmas. Não se cogita de estudá-los todos. Escolhamos alguns deles com a
preocupação de mostrar a evolução do gênero, mas também os limites de sua difusão.
A CONTRIBUIÇÃO CISTERCIENSE
Os cistercienses pertencem simultaneamente a dois mundos, ao antigo e ao novo. Assim, seus
relatos parecem, também, hesitar entre dois gêneros: os miracula e os exempla. Sua condição de monges,
sua liturgia e sua espiritualidade da morte os aproximam dos clunisianos, com os quais, porém, não
deixaram de confrontar-se. Mas, pertencendo a uma ordem ainda jovem e mais bem enraizada na economia monetária, informados desde suas granjas de todos os relatos que ali divulgam seus conversos
e os trabalhadores assalariados, eles asseguram um traço de união entre o mundo do claustro e a
sociedade aldeã, por vezes mesmo urbana.
Que a homilética cisterciense abra caminho amplamente à pregação dos mendicantes, os relatos de
fantasmas o mostram em profusão. Nos próprios escritos de são Bernardo{273} e depois nas Vidas do
fundador de Clairvaux, os mortos, como a irmã de são Malaquias ou de muitos monges defuntos,
irrompem. {274} As aparições de mortos comuns, monges ou leigos, multiplicam-se sobretudo nas
coletâneas cistercienses da virada dos séculos XII-XIII: o Exordium magnum de Conrad de Eberbach,
{275} {276} {277} o Liber miraculorum de Herbert de Clairvaux, o manuscrito inédito da abadia de Beaupré, o
Liber miraculorum {278} do mosteiro de Himmerod. A obra que coroa essa produção narrativa é sem
nenhuma dúvida a do cisterciense renano Césaire de Heisterbach, que pôs por escrito bem uns sessenta
exempla de fantasmas.
Originário de Colônia, Césaire nasceu por volta de 1180. Aluno da escola catedral dessa cidade,
converte-se e realiza uma peregrinação ao santuário mariano de Rocamadour antes de tomar-se monge em
Heisterbach, em 1199. A tomada de hábito, assim como a devoção à Virgem (muito presente em seus
escritos), é uma escolha pessoal, feita aos vinte anos de idade. Sinal dos tempos: é sensível a diferença
entre essa "vocação" monástica e o destino antecipadamente traçado de Otloh de SaintEmmeran, Guibert
de Nogent ou Pierre, o Venerável, oblatos educados entre os muros de um mosteiro desde seus mais
tenros anos. Muito depressa, Césaire torna-se o mestre dos noviços de Heisterbach. Ele se inspirará
nessa experiência para escrever entre 1219 e 1223, sob a forma de um diálogo fictício entre o magister
(ele próprio) e um novicius, sua obra principal, o Dialogus miraculorum. Em 1227, torna-se prior, o que
lhe propicia acompanhar com freqüência o abade em suas visitas a outras abadias (Marienstatt,
Eberbach, Himmerod no Eifel) e em suas viagens (até os Países Baixos) e, assim, ampliar uma
informação escrita e oral que transparece em seus numerosos sermões. Ele morreu por volta de 1240,
deixando uma obra escrita importante e diversa, da qual se reterão aqui apenas os exempla que
mencionam fantasmas.{279}
A maior parte desses relatos encontra-se no Dialogus miraculorum destinado ao ensino dos
noviços, à leitura individual ou coletiva ou à pregação futura. Essa coletânea comporta, em 746 capítulos
e um número quase igual de relatos, cinqüenta relatos de fantasmas. Uma dúzia de relatos semelhantes e
por vezes idênticos encontra-se, por outro lado, nos sermões dominicais ou nos sermões sobre os salmos
que Césaire redigiu a partir de 1225.{280}
No prólogo do Dialogus miraculorum, o autor explica que relata "fatos miraculosos que ocorrem
em nosso tempo e cotidianamente". Eis, portanto, o "milagre no cotidiano": não se trata de sucumbir ao
encanto imprevisível do maravilhoso, nem mesmo de celebrar milagres extraordinários ocorridos em um
mosteiro particular, mas de expor os sinais permanentes que guiam todos os que sabem reconhecêlos no
caminho da salvação. É seu valor "exemplar" que constitui o "milagre" tal como esse cisterciense o entende nessa obra antes de tudo didática e doutrinal. Esta compreende doze "distinções" que balizam o
percurso ideal do cristão, desde os "méritos" adquiridos pela conversão e pela penitência (as seis
primeiras distinções) até as "retribuições" depois da morte (as seis distinções seguintes). Cada relato é
citado e comentado pelo "mestre" a pedido do "noviço".
Os relatos de fantasmas representam cerca de 6,6% do conjunto. Como é normal, três quintos deles
encontram-se na 12ª e última distinção, pois os fantasmas são para os vivos o principal meio de conhecer
"a pena e a glória dos mortos". Os mortos voltam de três lugares diferentes, de agora em diante
claramente distintos na geografia do além: o paraíso, o inferno e, na grande maioria dos relatos, o
purgatório. A preponderância das almas do purgatório explica-se por sua condição transitória e pelas
funções de suas aparições: elas não visam apenas a informar os vivos sobre as realidades do além, a
anunciar-lhes a iminência de seu trespasse ou a preveni-los contra os castigos do além. As almas
penadas, e apenas elas, são suscetíveis de ver sua sorte melhorar graças às preces, às esmolas e, acima
de tudo, às missas celebradas a pedido dos vivos, todas coisas supérfluas para os eleitos e inúteis para
os condenados. Para Césaire de Heisterbach, os mortos que mendigam sufrágios só podem vir, portanto,
do purgatório, mesmo que, desorientados pelos tormentos horríveis que ali padecem, o chamem
erroneamente de "profundezas do inferno". {281} O mestre cisterciense não hesita em contradizer os
próprios mortos, os que dizem voltar do inferno e também os que pretendem que as esmolas constituem o
mais eficaz dos sufrágios, enquanto a missa é, segundo Césaire, mais eficaz ainda.{282}
Tratando-se dos relatos de fantasmas, uma única fonte livresca — uma coletânea cisterciense de
relatos de visões — é citada.{283} Todos os outros relatos provêm de testemunhos orais, recolhidos por
Césaire da boca de abades, de monges ou de religiosas pertencentes à ordem. A maior parte tem um valor
local (vale do Reno, Flandres), mas outros, graças às viagens do próprio Césaire e às informações
transmitidas por seu abade do capítulo geral, referem-se a casas da ordem mais afastadas, em particular
Cîteaux e Clairvaux, berços dos cistercienses. {284}
Césaire erige-se em autor da obra: é seu scriptor, não inteiramente o que chamamos um autor (pois
a escrita medieval é obra de compilação), mas certamente seu papel é mais importante que o de um
simples escriba. Ele usa a primeira pessoa para dizer que foi de fato ele quem recolheu e transcreveu os
relatos, depois compôs a obra. É ele também que se esconde atrás do magister que conduz o diálogo.
Mas aí termina o valor autobiográfico do livro. Contrariamente a Pierre, o Venerável, Césaire nunca
menciona aparição da qual ele próprio se teria beneficiado. Esse é um traço característico do exemplum,
relato que se pretende totalmente objetivo. Se é essencial que o autor intervenha na primeira pessoa para
dar todas as garantias quanto à transmissão "autêntica" do relato (dizendo: eu ouvi — audivi —, eu li —
legi), convém também que o relato descreva uma ação que poderia ser a de qualquer cristão. A
credibilidade e a eficácia do exemplum têm esse preço: o exemplum é um objeto cultural que deve poder
difundir-se sem nenhuma barreira de condição, de nação ou de língua. Cada um, quem quer que seja e
onde quer que viva, deve poder apropriar-se e beneficiar-se dele. A lógica é, portanto, muito diferente da que prevalece nos miracula de um Pierre, o Venerável: o sonho pessoal que ele conta na primeira pessoa
é uma experiência singular e localizada, não reproduzível, que afirma hinc et nunc a legitimidade do
abade e da ordem que ele encarna. Tal sonho autobiográfico não tem lugar em Césaire de Heisterbach:
todos os relatos de aparições falam da visão de um terceiro. Também se trata, no mais das vezes, de uma
visão em estado de vigília e não de um sonho. Fiel a toda a tradição eclesiástica, Césaire desconfia dos
sonhos, dos "devaneios vãos", da visio phantastica em que sempre se deve temer a inspiração do diabo.
{285} Fala-se de seus próprios sonhos quando convém dizer o que se experimentou. Mas fala-se das visões
dos outros quando se transmite uma tradição oral sujeita à escala dos valores sociais.
Nessa coletânea, os monges são majoritários entre os mortos que aparecem e mais ainda entre os
vivos que se beneficiam de suas aparições. Em sua maior parte, as aparições transcorrem no molde do
parentesco espiritual da ordem cisterciense. Elas são para os monges um assunto de família. Daí a
preponderância de uma estrutura narrativa simples: um monge defunto aparece diretamente a seu ex-
abade, sem passar (como os cavaleiros mortos nos relatos de Pierre, o Venerável) pelo intermédio de um
mensageiro (nuntius, internuntius) solicitado a ir pedir em seu nome as missas necessárias.
Em comparação com os milagres de Marmoutier ou de Cluny, a originalidade cisterciense reside,
além disso, em uma forte participação das mulheres e, mais precisamente, das religiosas na troca entre
vivos e mortos. Nas duas coleções monásticas anteriores que acabo de relembrar, não se inclui nenhuma
mulher entre os mortos e nem mesmo entre os beneficiários das aparições. Em Césaire de Heisterbach, ao
contrário, o leitor surpreende-se pela presença de cerca de uma defunta para quatro defuntos e pela de um
grande número de religiosas cistercienses entre os visionários. Essa feminização dos protagonistas da
aparição deve-se ao peso da "segunda ordem" — o ramo feminino — em Cîteaux. Ela anuncia a cura
feminarum dos mendicantes. A tendência é ainda acentuada, na Renânia e em Flandres, pelo papel das
monjas, das beguinas e das reclusas locais, bem conhecidas desde o século XII por suas experiências
visionárias. É o que ilustra particularmente bem a irmã Aczelina, qualificada de "santa" (beata) e
mencionada em três capítulos diferentes como beneficiária de quatro aparições de mortos:{286} um prior
defunto de Clairvaux, que se acreditava estivesse no paraíso, revela-lhe que foi para o purgatório por ter
aumentado por "avareza" os bens do mosteiro. Ao contrário, a santidade da abadessa Irmentrude de
Ditkirchen, em Bonn, propiciou-lhe ser admitida no paraíso desde o instante de seu trespasse; contudo,
ela aparece a Aczelina depois de trinta dias para lhe dar graças por sua devoção pelas Onze Mil Virgens
de Colônia. A irmã Aczelina tinha grande afeição por sua "irmã espiritual" na ordem e, quando esta
estava agonizante, Aczelina a fez prometer que lhe apareceria para informá-la sobre sua sorte no além: é
o que faz a defunta, revelando-lhe que está salva. Enfim, quando o monge David, de santa reputação,
morre em um outro mosteiro da ordem, sua túnica cabe à irmã Aczelina. Pouco depois, o defunto lhe
aparece para lhe dizer que essa túnica será mais útil ao monge Gérard Waschart. Tendo-a recebido, este
último a divide por sua vez com seu irmão Frédéric, monge de Heisterbach, onde a relíquia continua a
manifestar poderes taumatúrgicos.
Todos esses relatos estão muito longe de transcorrer, como os de Marmoutier, apenas entre os
muros dos mosteiros. Abrem-se amplamente para a sociedade leiga (cerca de 30% dos defuntos são
leigos), porque os monges ou as monjas continuam a manter com sua família carnal, inclusive depois da
morte, laços que o parentesco monástico não abole, ainda que tenda a substituí-la. A um "nobre
adolescente" que se tornou converso em Clairvaux e foi enviado a uma granja para guardar os carneiros,
seu primo defunto aparece em um campo para o encarregar de pedir ao abade três missas em seu favor.
{287} Quando o abade de Heisterbach visita, durante a Quaresma, o mosteiro das monjas cistercienses dito
de Nazareth, uma jovem religiosa falecida oito anos antes entre os beneditinos de Bredehorn, na Frisia,
aparece-lhe em sonho para implorar sua ajuda. Ela foi abandonada por toda a sua família carnal: seu pai,
sua mãe, sua tia materna (que se tornou, ela própria, religiosa de Nazareth), sua prima (cisterciense em
Sion) e duas outras irmãs, ambas casadas, de sua mãe. A jovem monja defunta tampouco se beneficiou
das preces de suas irmãs na religião, isto é, do conjunto das monjas beneditinas. Os sufrágios ordenados
pelo abade cisterciense vão paliar, assim, a dupla falha da família carnal e da família espiritual. E
Césaire conclui pela supremacia dos monges brancos sobre os monges pretos que negligenciam seus
próprios mortos...{288}
Abertura para o mundo leigo também, porque os mosteiros cistercienses mantêm (como Cluny)
relações de toda natureza com a aristocracia das redondezas. Mas a maior parte dos nobres ou dos
cavaleiros que aparece no Dialogus miraculorum não tem nada a esperar dos vivos: são condenados e
retornam apenas para prevenir os vivos contra o castigo infernal a que também eles estão expostos. Não
são, como para Pierre, o Venerável, doadores tradicionais ou potenciais. Inseridos na economia
monetária e mercantil, os mosteiros cistercienses já não contam tanto, para crescer e multiplicar-se, com
as doações piedosas da nobreza. Os nobres podem ser tomados pelo que são: vis guerreiros pecadores e
saqueadores. O conde Guillaume de Julliers bem que mereceu a sorte terrível que padece depois da
morte: é o diabo em pessoa que informa disso seu vassalo Walter, depois o condenado o confirma
tristemente, aparecendo a uma reclusa. Mas nem todos são tão maus: o pai desse mesmo Walter foi tirado
das garras do diabo ao fim de 21 anos pelas preces assíduas de sua viúva (ela perdeu um olho de tanto
chorar!) e de seu filho Thierry, um monge cisterciense que o diabo, furioso, trata de "careca e piolhento".
{289}
Duas razões justificam particularmente a sorte pouco invejável dos guerreiros no além: as
violências exercidas contra os pobres e os fracos e a prática do torneio. A primeira deixa geralmente uma
esperança ao morto, com a condição de que seus herdeiros consintam em restituir o bem mal adquirido.
Como em Pierre, o Venerável, esse tipo de aparição reintroduz o papel do nuntius, do intermediário entre
o morto e os vivos. Supérflua no interior do mosteiro, essa função de intermediário torna-se novamente
necessária desde que a relação entre os vivos e os mortos inclua os leigos. O morto encarrega seu
mensageiro de defender sua causa diante de seus filhos, para que eles próprios aceitem ir, em seguida,
pedir os preciosos sufrágios ao abade do mosteiro. Tal como neste relato que Césaire deve ao monge Jean de Heisterbach, que, por sua vez, deve-o a seu pai Erkinbert, um burguês de Andernach. Esse
homem viu o cavaleiro defunto Frédéric de Kelle montado em um cavalo de batalha negro, que cuspia
chamas e fumaça. O morto lhe pediu que se dirigisse a seus filhos para rogar-lhes que devolvessem a uma
pobre viúva a pele de carneiro que ele lhe roubara e com a qual aparece vestido. Mas os filhos recusam,
abandonando o pai a seus tormentos eternos.{290} A sorte de um outro cavaleiro defunto que enriqueceu
pela usura e legou ao filho seus bens mal adquiridos não é mais invejável. Uma noite, ele bate com força
à porta de sua casa, gritando seu nome (que Césaire evita repetir) e afirmando que é o dono da casa. O
servidor de seu filho olha pelo buraco da fechadura e reconhece o morto, mas responde hipocritamente
que seu patrão morreu e que não abrirá. Desistindo, o cavaleiro defunto parte novamente, depois de ter
pendurado na porta os peixes que trouxera para o filho. De manhã, este descobre que aquele "alimento
infernal cozido no fogo sulfuroso" transformou-se em sapos e serpentes.{291} Poucos textos exprimem tão
bem quanto este, até nas palavras empregadas (fortiter pulsans), o caráter pulsional do retorno da
imagem do pai contra todos os esforços de defesa do filho.{292}
Uma danação inapelável ameaça também os cavaleiros mortos em torneio e que continuam, depois
do trespasse, a enfrentar-se em coortes numerosas. A seu respeito, Césaire retoma, mas no sentido
próprio, a metáfora de são Bernardo: eles são a "milícia do diabo". O tema não é estranho ao do
"exército dos mortos", pela violência e pelo caráter coletivo da maior parte dessas aparições, pelos
tempos e pelos lugares em que se produzem, à noite, na orla de uma floresta, na estrada principal ou nos
campos. Poucos homens sobrevivem a tais aparições. É tal torneio "fantástico" (não de corpos reais,
esclarece Césaire, mas de imagens suscitadas pelo diabo) que se avista às margens do Moselle em 1223:
entre os contendores defuntos, as testemunhas reconheceram o conde Louis de Looz e seus irmãos Arnold
e Henri, seguidos dos cavaleiros Thierry Heiger e Henri de Limbach. {293} Uma outra vez, um padre escuta
em um campo, ao cair da noite, o fragor de um "enorme torneio de mortos", que chamam "Walter de
Milene, Walter de Milene". Um cavaleiro com esse nome morrera pouco antes. Até o amanhecer, o padre
se protege traçando círculos ao seu redor toda vez que a aparição se reproduz. {294}
Nos relatos de Césaire de Heisterbach, a sociedade leiga inteira está presente. Todo o pequeno
mundo variegado e pecador da cidade ali se anima: "mulheres de padre", burgueses, usurários, ladrões e
também padres seculares ou cônegos. O retrato que o autor faz deles está longe de ser sempre negativo:
em simples mulheres, ele sabe reconhecer formas de devoção que cita como exemplo. Assim, a
comovente piedade conjugal da mulher do usurário de Liège: recusando desesperar da salvação
improvável de seu esposo, consegue que seu corpo privado de sepultura cristã seja enterrado no
cemitério, onde ela própria se faz emparedar como reclusa. Durante sete anos, ora continuamente pela
alma do marido, até que ele lhe aparece pobremente vestido e lhe pede que persevere. Sete anos mais e
ele lhe aparece todo vestido de branco, definitivamente salvo. {295} Na proximidade imediata de
Heisterbach, a atração crescente da grande cidade de Colônia é sensível. Todas as vezes que estava a
sós, um burguês dessa cidade recitava a Ave-Maria. Depois de sua morte, ele aparece à sua sobrinha
coberto da cabeça aos pés com as letras dessa prece. {296} É esse gênero de relatos que passou, sem que
seja necessário mudar uma única palavra, para os exempla dos mendicantes.
A MÁQUINA DE PREGAÇÃO: AS ORDENS MENDICANTES
Depois dos cistercienses, o corpus narrativo acumulado pelos religiosos das ordens mendicantes
toma tais proporções que desafia as contagens. Ele se abstrai também cada vez mais de todo
enraizamento sociológico ou local determinado: se para um pregador os irmãos de sua ordem continuam
a ser informadores privilegiados, os heróis de suas histórias devem pertencer a todas as categorias
sociais, a todos os grupos de idade e tanto a um sexo como ao outro: cavaleiros, artesãos, usurários,
camponeses crédulos, velhas mulheres supersticiosas, assim como jovens coquetes. De resto, algumas
coletâneas de sermões adotam uma classificação ad status — segundo os grupos socioprofissionais —,
em busca de uma melhor adequação da palavra da Igreja às novas realidades sociais. Da mesma maneira,
não há tema que essa palavra evite abordar: toda a vida dos homens comuns — relações conjugais, tempo
do trabalho, transações na feira, escapadas no bordel etc. — fornece matéria para pregar e desferir lições
de moral. É na trama densa das relações sociais ordinárias que se insere, nos sermões dos mendicantes, a
massa onipresente dos relatos de fantasmas. Por certo, os pregadores falam dos fantasmas sobretudo a
propósito da preparação para a morte ou das incertezas do trespasse e de seu amanhã. {297} Mas os
fantasmas insinuam-se ainda em outras partes, prontos a irromper no melhor da vida, para relembrar,
quando menos se espera, que tudo tem um fim e que é preciso manter-se preparado para morrer.
Vejamos o Liber exemplorum, escrito no meio do século XIII por um franciscano inglês anônimo
da província da Irlanda. A obra é dividida em duas partes de extensão muito desigual: a primeira
(sessenta capítulos) reúne exempla referentes às "coisas superiores": Cristo, a Virgem, os anjos. Aí se
encontram dois relatos de fantasmas destinados a relembrar o poder de intercessão da Virgem depois da
morte.{298} A segunda parte (152 capítulos) trata das "coisas inferiores", isto é, da vida cotidiana
examinada segundo a série dos vícios classificados em ordem alfabética. Ora, não há domínio em que os
fantasmas não sejam úteis para recolocar os vivos no caminho reto: que apareçam uma única vez e tudo
entra na ordem! Graças a eles, a preocupação com a morte não abandonará mais a jovem mulher culpada
de acedia (negligência nos deveres religiosos) ou o beberrão afogado na gula, o vício dos comedores e
bebedores impenitentes. Eis dois exemplos:{299} quando o autor da coletânea exercia, sete anos antes, as
funções de leitor no convento de Cork, uma viúva foi assassinada à noite em seu quarto por um ladrão.
Alguns dias mais tarde, ela aparece à sua irmã de trinta anos e lhe diz em inglês que está horrivelmente
queimada porque, nos dias de festa, deixava a igreja antes da comunhão: "for that I hoede out er the
un(der)git". O franciscano traduz: "Quia exivi ante communionem" e explica à boa mulher (muliercula) o
sentido das palavras de sua irmã morta: quando o padre toma o corpo de Cristo na missa, ele o faz por todo o povo da paróquia, que deve então estar presente, sem exceção. Uma cena equivalente, com os
mesmos protagonistas, permite ao pregador, um pouco mais adiante, falar das violências exercidas contra
as pessoas inocentes e seus bens: a viúva assassinada aparece uma segunda vez à sua irmã e a dissuade
de exercer represálias contra seus assassinos. Ela diz dispor da proteção de um pugilista (pugillator) que
poderia vingá-la, se quisesse. Ela consente em dar o nome do pugilista, "Nazareus", mas sua irmã
continua a não compreender... Esta, qualificada de ydiota, dirige-se ao franciscano, que lhe revela que o
defensor de sua irmã não é outro senão o Cristo. E, no mesmo impulso, faz-lhe um pequeno sermão sobre
a justiça e a misericórdia divinas.
Na mesma época, em Flandres, o dominicano Thomas de Cantimpré compila uma obra enorme, o
Bonum universale de apibus, que a uma só vez tem algo da coletânea de exempla e da enciclopédia
moral.{300} A metáfora das abelhas, que compõe o título da obra, é bem justificada: a obra é como uma
colméia com seus favos, em que cada alvéolo acolhe um novo relato. Também ela compreende duas
partes desiguais: uma refere-se aos prelati, os eclesiásticos (25 capítulos); a outra, aos "outros homens"
(57 capítulos). Cada capítulo aborda, por sua vez, dezenas de pontos, cada um ilustrado por vários
exempla. Aquestão dos "sufrágios pelos defuntos" acarreta, como é normal, uma multidão de relatos de
fantasmas. A novidade reside na extensão da noção e da lista dos sufrágios: à trilogia tradicional das
preces, esmolas e missas, vêm acrescentar-se, sob outras tantas rubricas novas, as lágrimas, o jejum, a
vigília e a aflição, a restituição dos bens mal adquiridos, para formar, a exemplo dos setenários dos
vícios, das virtudes ou dos dons do Espírito Santo, um novo setenário dos sufrágios pelos mortos.{301} O
pensamento pelos mortos não pode mais ser uma atividade limitada no tempo, restrita a uma cerimônia
litúrgica; deve acompanhar todas as atividades cotidianas das pessoas comuns e contribuir, assim, para
moldar as atitudes de uma piedade corporal, cada vez mais marcada pelas lágrimas e pelas macerações,
tanto quanto pela reflexão sobre a fragilidade da vida humana, o pecado e a penitência.
Notemos também como os relatos de fantasmas reforçam as implicações econômicas da penitência
e deixam transparecer, sob a ironia, a crítica provocada pela importância crescente do dinheiro nos
assuntos espirituais. Vemo-lo já no Liber exemplorum, que relata um caso que, em seu tempo, causou
grande rumor em Ulster: o irmão Dunekan, que o testemunhou, fez-lhe o relato ao irmão Robert de
Dodington, que o retomou, por sua vez, em um sermão. A um dono de casa que compra com dinheiro a
salvação de seu filho recém-falecido, um irmão franciscano vende indulgências por algumas moedas e
uma porção de vinho (o biberagium, comparável ao que era originalmente o bed and breakfast
caridosamente oferecido a um pobre de passagem). O negócio é fechado, e, na noite seguinte, "o espírito
do filho" aparece, cercado de luz, a seu pai adormecido para lhe revelar que está salvo. O pai desperta
toda a casa, inclusive o franciscano, que se arrepende de ter vendido um bem tão precioso quando
pensava estar vendendo apenas vento. Ele quer comprá-lo de volta, mas seu novo proprietário não quer
desfazer-se dele. {302} O exemplum é ambíguo: fustiga a cupidez de certos religiosos, mas demonstra
também a eficácia das indulgências e das esmolas para a libertação das almas do purgatório.
Por seu lado, Thomas de Cantimpré apresenta a restitutio dos bens mal adquiridos — garantias
usurárias e cartas de crédito abusivas — como um meio de livrar os mortos de seus tormentos: o pai de
um dominicano a quem Thomas deve seu relato morreu antes de ter podido pagar o ferrador que ferrara
seu cavalo; o defunto aparece a seu servidor tendo na mão uma ferradura incandescente e roga-lhe que vá
procurar seu filho dominicano e sua viúva, para que eles paguem sua dívida.{303}
A repetição dos mesmos motivos ou dos mesmos exempla de uma coletânea ou de um sermão ao
outro, assim como sua inserção em sistemas de classificação e de demonstração recorrentes, tendem a
suprimir cada vez mais os traços singulares e o efeito de surpresa que pode conter cada um desses
relatos. A aparição de um morto, que tantos escritos apresentam como um fenômeno estupeficante e
terrível, não passa de um roteiro no qual cada papel é conhecido por antecipação e cujo desenvolvimento
se reduz, na maior parte do tempo, ao mesmo esquema. Pode-se resumir como se segue essa história-
padrão: a um quidam desperto ou, mais excepcionalmente, adormecido, aparece um parente morto que
não tem muito boa aparência. Ele lhe fala no estilo direto: "Não temas nada, não venho para te fazer mal.
Padeço terríveis tormentos no purgatório e venho pedir-te que apresses minha libertação por missas,
preces e esmolas". O vivo, convencido por algum "sinal" da verdade da aparição, aceita fazer o
necessário, e em breve o morto resplandecente lhe aparece uma segunda vez para lhe dar a conhecer que
está salvo e agradecer-lhe.
A banalização dos relatos de aparições dos mortos não é um fenômeno isolado. Ela responde a uma
estratégia de conjunto, cujo objetivo é criar um modo cristão de familiaridade edificante com a morte e
os mortos, orquestrada, além disso, pela maior ritualização dos funerais, pela valorização do espaço do
cemitério como espaço sagrado no centro da comunidade dos vivos, pela participação no ofício dos
mortos e, nas classes privilegiadas, pela leitura cotidiana do livro de horas. A celebração, pelas
confrarias, da memória dos confrades mortos, a multiplicação, às dezenas e às centenas, das missas pelos
defuntos acusam coletivamente a mesma tendência. Dois relatos, reproduzidos em dezenas de
exemplares, parecem-me ter, no quadro dessa ideologia maciça da morte cristã, um valor paradigmático.
Vamos dar-lhes os títulos de "A promessa dos dois amigos" e "A travessia do cemitério".
O primeiro tipo narrativo retoma o tema antigo dos dois amigos que fazem mutuamente a promessa
de que o primeiro a morrer aparecerá ao outro para lhe revelar seu "estado" no além. O pacto visa
expressamente a provocar a aparição. Esta é, portanto, desejada e mesmo, em princípio, esperada. {304}
Césaire de Heisterbach retoma esse relato-padrão em quatro relatos pelo menos, fazendo variar as
condições sociais dos protagonistas: são, segundo os casos, dois clérigos, dois monges, duas religiosas
ou um cavaleiro e sua filha. {305} Em outras coletâneas, o mesmo relato pode referir-se a um mestre-escola
e seu aluno, ou a dois estudantes.{306} Alhures, ele serve de estrutura para abrigar o tema dos amantes que
juram reencontrar-se apesar da morte.{307} Com efeito, o tema ultrapassa em muito os exempla apenas. O
continuador da anônima Crônica do dominicano de Colmar (1308-14) diz dever tal história ao amigo
sobrevivente, um vagabundo chamado Sererius, que teria contado sua aventura a uma burguesa de Soultzmat, ela própria informadora do cronista dominicano. O defunto compremetera-se a aparecer ao
outro no trigésimo dia depois de seu trespasse. No dia combinado, Sererius entra na taberna de uma
aldeia, bebe bastante e, como nas histórias de pacto com o diabo, esquece sua promessa. O morto dirige-
se a uma casa desabitada da vizinhança e chama de longe um camponês que passa por ali: "Vai à taberna
e dize a Sererius que seu companheiro o espera nesta casa para lhe revelar, como prometido, o estado
dos defuntos fiéis e infiéis". Terrificado pela notícia, Sererius replica que recusa "escutar as palavras
dos mortos". Uma hora mais tarde, ao crepúsculo, o fantasma envia um outro camponês. Desta vez,
Sererius se enraivece: "Não quero que ele fale comigo e não quero responder-lhe!". Alguns dias mais
tarde, procurando uma ponte para atravessar um rio a vau, ele vê uma tropa a cavalo aproximar-se dele e
reconhece cavaleiros defuntos, mortos em combate. Todos atravessam o rio em silêncio, com exceção de
um único que se dirige para ele: é seu companheiro. Sererius quer fugir, mas o outro o dissuade disso e,
ameaçando-o de morte, força-o a escutá-lo.{308}
Os incontáveis relatos de aparições ligados à travessia do cemitério paroquial constituem um outro
tipo muito importante. Ele se liga ao papel central desempenhado pelo cemitério, sobretudo na Idade
Média central, na estruturação simbólica do espaço dos vivos. Os pregadores vão repetindo que se pode
atravessar sem receio um cemitério à noite, com a condição de orar pelos mortos que ali repousam, que
estes são gratos aos homens piedosos e que, chegado o momento, virão em seu auxílio. Seja a história do
padre que tinha o hábito de orar pelos mortos toda vez que atravessava o cemitério. Uma noite, ele os
ouve terminar sua própria prece por um "amém, amém". {309} Alhures, um cavaleiro tinha o costume de vir
orar no cemitério; no dia em que seus inimigos o perseguem ali, os mortos erguem-se de suas sepulturas
para o socorrer.{310} No entanto, os mortos podem também castigar os vivos que negligenciam orar por
eles, ou ameaçar de levar consigo os que infringem as regras da moral. Uma história bem conhecida põe
em cena um bispo que pretendia proibir um simples padre de celebrar a missa pelos mortos. Estes
ameaçam castigá-lo duramente.{311} Em um exemplum não menos famoso, um beberrão, atravessando à
noite um cemitério, tropeça em um crânio. Ele se enfurece: "Que é que tens de ficar largada aí, caveira
miserável? Vem à minha casa, partilharás minha mesa".{312} O crânio responde-lhe que aceita seu convite
e o acompanha; terrificado, o outro fecha-se em casa e, quando o morto bate violentamente à porta
("ostium pulsans", a expressão é a mesma que em Césaire de Heisterbach a propósito do pai defunto que
leva peixes ao filho), manda-lhe responder que o dono está ausente. "Eu sei bem que ele está ai", insiste
o morto, "vou entrar por bem ou por mal." O beberrão (que de súbito recobrou-se completamente) manda
abrir a porta e vê entrar "a figura miserável de um homem morto, apresentando o terrível espetáculo dos
ossos e das carnes consumidos". Segundo o esquema narrativo do convite mútuo que se fazem um vivo e
um morto (como no encontro, em Gautier Map, do rei Herla e do rei dos pigmeus), o morto convida o
beberrão a dirigir-se à sua casa oito dias mais tarde. O conto fantástico desponta sob o exemplum, e o
terror dos mortos exprime-se livremente nessa figura de esfolado já característica do macabro.
Detenhamo-nos, para terminar, na curiosa obra de Rodolphe de Sélestat, prior do convento dos pregadores dessa cidade depois de 1288. Trata-se de uma compilação de 56 anedotas que se contavam na
época nessa região. A obra é difícil de caracterizar, e o título de Historiae memora biles é devido ao
editor moderno. De fato, é a uma só vez uma crônica regional recheada de rumores e de fatos imaginários
e uma coletânea de exempla passível de ser utilizada no púlpito. Uns vinte relatos referem-se à
perseguição dos judeus, notadamente ao pogrom da Francônia em 1298, enriquecido de relatos de
pretensas profanações de hóstias e de legendários assassinatos rituais de crianças cristãs pelos judeus.
Seis relatos referem-se a fantasmas, um mais fantástico que o outro: {313} um bispo de Lübeck sai de sua
sepultura e expulsa de sua igreja, a golpes de candelabro, seu sucessor indigno; um cavaleiro salteador,
Swigerus, reconhece no exército selvagem o duplo de seu cavalo de batalha descarnado. O sire Berthold
de Stauffen visita na Basiléia sua irmã, viúva do burguês Peter Schaller. Este último lhe aparece em seu
quarto e permite-lhe escapar por pouco do diabo, metamorfoseado em mulher. Um oficial desonesto,
Henri de Rheinau, cavalga com seu genro; de repente seu cavalo dá uma guinada, ele grita para seu
companheiro se afastar e cai por terra, com a mão terrivelmente queimada. Ele dirá mais tarde ter sido
atacado por três mortos que seu genro não viu: Eberhard de Habsbourg, o burguês Henri de Orschwiller e
o cavaleiro Henri, que foi morto em combate. Enfim, dois relatos referentes a um cônego rico e preboste
da catedral da Basiléia, Thierry de Spechbach, que acumula benefícios eclesiásticos e ama a boa mesa e
as mulheres. Por ocasião de uma vistoria de suas prebendas, ele passa a noite na casa de um de seus
vigários. Tendo comido bem e dormido um sono suave até onze horas, ele "desperta, vai urinar e deita-se
novamente, deixando a janela aberta para poder gozar da serenidade do céu e do ar". A janela dá para o
cemitério, onde ele avista de súbito uma multidão de homens que dançam com tochas e cantam em alemão
uma humilde canção chorosa que é também una advertência em sua intenção. No manuscrito, a partitura
musical é transcrita com as notas ao mesmo tempo que as palavras.{314}
Mais tarde, o preboste morre, idoso, mas sem se ter emendado. Poucos dias depois de seu
trespasse, um guarda da catedral vê em sonho sua alma torturada por demônios sobre uma alta coluna
provida de navalhas. Então é a vez de o preboste defunto cantar, nias em latim, porque era clérigo. Mais
uma vez, o manuscrito reproduz as notas da canção, que o guarda reteve tão bem que pôde cantá-la para
os cônegos:
Nós que estamos em lugar descoberto,
Voz clamando no deserto.
Nós, o deserto, nós, desertados,
De nossas penas estamos certos.{315}
O "deserto" da morte é, para a tropa anônima das almas penadas, a perda dos laços de parentesco
que elas não conseguem reatar entre si nem com os vivos.
Esses relatos de Rodolphe de Sélestat são conhecidos apenas por um manuscrito do século XVI,
copiado pelo conde de Zimmern e parcialmente utilizado pelo sobrinho deste em sua Crônica de Zimntern, em alemão. Aí são retomadas, entre outras, as histórias do cavaleiro salteador Swigerus, do
sire Berthold de Stauffen e do preboste Thierry de Spechbach, espectador da dança dos mortos
( {316} Totentanz ) no cemitério. Essa recepção tardia do relato confirma que o macabro do fim da Idade
Média, com os corpos descarnados e pútridos em um caso, no outro a dança dos mortos, a urna só vez
prolongou e ultrapassou a representação sensivelmente diferente que os pregadores mendicantes do
século XIII procuraram impor. Com efeito, os exempla dos séculos XIII e XIV, em sua maior parte, não
insistiam no terror despertado pelos fantasmas nem no horror da própria morte. Antes destilando um
mínimo de pavor, eles enunciavam a aritmética dos méritos, dos sufrágios e das penas, e relembravam as
lições que os mortos podem dar aos vivos para os incitar a calcular suas possibilidades de escapar ao
inferno e de encurtar seu tempo de purgatório.
Os relatos, portanto, passam por distorções segundo os tipos de obras nos quais se inserem. Da
mesma maneira, sofrem desvios no tempo e no espaço. A relativa uniformização, na escala de toda a
Europa, da cultura cristã nos últimos séculos da Idade Média é um fenômeno de primeira importância.
Mas ela não deve mascarar as diferenças socioculturais nem as diferenças regionais. Marginais com
relação aos centros urbanos do poder e da cultura, certas zonas escapam mais que outras às malhas da
pregação mendicante e aos esforços de apostolado oriundos do IV Concílio de Latrão de 1215. A
domesticação dos fantasmas ali permanece imperfeita, como se pode constatar, a um século de distância,
em três regiões muito afastadas uma da outra mas que têm em comum ter sofrido mais superficialmente ou
mais tardiamente a penetração das correntes majoritárias da cultura oficial: os Pireneus ariegenses, o
Yorkshire, no extremo norte do reino da Inglaterra, e a Bretanha.
AS ALMAS ERRANTES DE MONTAILLOU
É ao registro de inquisição do bispo de Pamiers, Jacques Fournier, que devemos o conhecimento
dos fantasmas da Ariège no começo do século XIV.{317} Mas devemo-lo também a personagens localmente
investidos do poder de ver os mortos e de comunicar-se com eles. São os "armiers" ou "mensageiros das
almas". Um dos mais reputados é Arnaud Gélis, aliás Boutheiller, do Mas-Saint-Antonin. Arnaud é o
doméstico de um cônego, uma espécie de sacristão que, seguro das revelações que obtém dos mortos,
encaminha as famílias enlutadas — sobretudo as mulheres — aos padres que dizem as missas pelos
defuntos. Com isso ele ganha bebida e comida ou pequenas somas de dinheiro. Instado pelo juiz, ele
admite ter se beneficiado de umas vinte aparições, todas percebidas em estado de vigília. Os defuntos
que vê isoladamente lhe eram conhecidos e, portanto, pode nomeá-los. Muitos são cônegos (Hugues de
Durfort, Hugues de Rous, Athon d'Unzent, Pierre Durand etc.) que, recém-falecidos, continuam a apelar
aos seus serviços e o encarregam de mandar dizer missas por eles. Ele serve também de mediador em
assuntos de família deixados pendentes depois do falecimento de um parente: uma defunta de nome Barcelone o encarrega de reconciliar seu genro Guillaume de Loubens com sua filha, que fugiu para a
casa de seu irmão Arnaud de Calmelles, em Pamiers; mas a filha não quer escutar nada. A Brune
d'Escosse ele deve ir dizer, da parte de sua falecida filha, Barcelone, viúva de Pons Faure, que ela deve
renunciar às suas camisas de seda. Por vezes, Arnaud vê muito mais de um morto ao mesmo tempo:
quando a alma de Pons Bru lhe aparece na época das vindimas, parece-lhe acompanhada de uma centena
de outras almas que regressam da igreja de Saint-Martin-de-Juillac.
Arnaud não é o único a fazer profissão de ver os mortos. Há também mensageiras das almas, como
Arnaude Rives, de Belcaire, e Raimonde, filha de Pons Hugon de La Force. Esta última é a própria prima
de Arnaud Gélis, que pôde beneficiar-se de suas revelações. Ela vê com freqüência os mortos e fala com
eles. Acontece-lhe mesmo de ausentar-se três ou quatro dias para "ir com os mortos", e ela retorna muito
entristecida: reconhece-se aqui o modelo "xamanista" da viagem com os mortos, igualmente presente
entre os {318} benandanti do Frioul e cuja forma diabolizada pela Igreja será o sabá das feiticeiras. Ao
longo de suas viagens, Raimonde viu os pais de Arnaud, que a encarregaram de mensagens para seu filho.
Sua mãe Rousse quer que ele dê um bom véu a uma pobre velha, e seu pai, Raimond Gélis, pede-lhe que
pague uma dívida que ele próprio não teve tempo de pagar.
Se todas as testemunhas interrogadas pelo inquisidor afirmam o papel privilegiado dos
mensageiros das almas, todas admitem também que os mortos, dotados de um corpo, embora invisíveis,
são onipresentes. Atal ponto que se corre o risco de chocar-se com eles sem saber se, ao caminhar,
estendem-se muito bruscamente os braços ou as pernas... Os camponeses de Montaillou não adotaram
realmente a representação eclesiástica do purgatório, nascido, contudo, um século antes. Um único morto
evoca seus sofrimentos no "fogo purgatório", mas é um cônego de Pamiers, Pierre Durand. Os outros
vagam "pelas colinas e terras incultas", na proximidade imediata da aldeia, nos caminhos e ao redor das
casas. Visitam de preferência as igrejas de que foram paroquianos, onde foram enterrados, onde seus
amigos oram e mantêm por eles lâmpadas de azeite. Apenas os condenados são conduzidos pelos
demônios para os despenhadeiros. Quanto aos judeus, não se sabe se vão para o "lugar do repouso",
talvez mesmo também vão para o paraíso, mas, por ora, é certo que não entram nas igrejas. No dia de
Todos os Santos, as coortes de almas chegam juntas ao "lugar do repouso", uma antecâmara terrestre,
tranqüila e desprovida de penas, do paraíso que se abrirá para elas no Juízo Final.
Às representações "verticais" do além da Igreja — do inferno ao céu, passando pelo purgatório-,
os camponeses de Montaillou opõem então, segundo a expressão de Emmanuel Le Roy Ladurie, um
"folclore horizontal" que mantém os mortos familiares bem perto dos vivos e poupa-lhes os tormentos e o
desterro de um purgatório distante. Mas os aldeões enunciam suas crenças sem espírito de contradição,
contentando-se em repetir o que, pensam eles, sempre se disse em seus vales. De resto, como o papel de
um Arnaud Gélis o mostra bem, todas essas crenças diversas mantêm bom convívio, pelo menos até a
chegada dos inquisidores.
OS "ESPÍRITOS" DO YORKSHIRE
Por volta de 1400, um monge anônimo da abadia cisterciense de Byland, situada no condado de
York, no extremo norte da Inglaterra, consulta um manuscrito de mais de dois séculos da biblioteca de seu
mosteiro e percebe que, em dois trechos, alguns fólios permanecem vazios... O prestígio das obras
contidas no manuscrito (obras de Cícero e, mais recentes, de Honorius Augustodunensis) não o dissuade
de acrescentar de próprio punho uma dúzia de histórias que ele mesmo ouviu contar nas redondezas:
"histórias de fantasmas". {319} A presença, nos fólios vizinhos, de obras de retórica e de uma coleção de
lugarescomuns referentes à penitência sugere que o cisterciense tinha a intenção de utilizar esses relatos
como exempla. Mas, com toda a evidência, ele cedeu sobretudo ao fascínio de histórias extraordinárias e
propriamente fantásticas. {320} Todos esses relatos referem-se a fatos locais e recentes, dos quais o monge
não foi testemunha direta, mas que lhe foram transmitidos oralmente. A narração enraíza-se em uma
paisagem conhecida, cujos lugares são próximos e nomeados: a vizinha abadia cisterciense de Rielvaux,
a aldeia de Ampleforth várias vezes citada, a cidade de York etc. O monge de Byland declara-se
preocupado em transmitir exatamente seja o rumor público (dicitur, referunt aliqui...), seja o testemunho
dos "antigos" (veteres, seniores, antiqui...). Mas, diferentemente dos autores de exempla, não cita
nominalmente nenhum informador. Não procura dar uma caução eclesiástica a seus relatos, e por isso
talvez estes sejam mais livres com relação aos modelos culturais oficiais. Evita também dar a eles um
comentário moral. {321}
Em doze relatos, onze referem-se a aparições de mortos. {322} Eles não apresentam uma estrutura
narrativa única. Alguns lembram os miracula ou os exempla já examinados, com os papéis distintos do
morto, do beneficiário e, por vezes, do destinatário da aparição. Em tal caso "prodigioso" (mirabili
dictu {323} ) — o de uma mulher que carrega um espírito às costas... — não há nenhum desenvolvimento
narrativo. Em outros casos, ao contrário, o relato passa por muitas reviravoltas. {324}
Essas aparições são sempre percebidas em estado de vigília, nunca em sonho. Trata-se de
aparições individuais, mas que se produzem freqüentemente, como em outras coletâneas, sobre fundo de
tropa dos mortos: em um caso, quinze espíritos invisíveis, trinta em um outro caso, acompanham o único
espírito que se manifesta.{325} Em um outro relato, um cortejo de mortos montados em animais lembra a
tropa que apareceu a Walchelin no relato de Orderic Vital: Richard Rountre de Cleveland dirige-se em
peregrinação a Santiago com um grupo de peregrinos. Estes param à noite à beira da estrada real e
organizam um turno de guarda em razão dos "terrores noturnos"; quando é sua vez de velar, Richard vê
passar uma multidão de mortos fazendo grande rumor e montando suas mortuaria, isto é, os cavalos,
carneiros, bois e outros animais oferecidos à Igreja por ocasião dos funerais. {326}
Globalmente, as razões e os objetivos das aparições estão de acordo com os esquemas habituais e com a ideologia eclesiástica. Os espíritos manifestam-se por causa de pecados não expiados:
assassinatos (entre os quais o de uma mulher grávida), roubos (segundo os casos, de colheres, de seis
moedas ou de feno para engordar fraudulentamente um boi), perjúrio, subtração de herança, concubinato
de um padre, ou ainda morte sem batismo de um recém-nascido (o que lembra o caso do meio-irmão
adulterino de Guibert de Nogent). Vários foram excomungados em vida e morreram sem ter sido
reconciliados com a Igreja. São almas penadas que os vivos "conjuram" ritualmente a dizer-lhes seu
"nome", a "causa" (de sua aparição) e o "remédio" (de que precisam) (nomen, causam, remedium). Esse
"remédio" é comumente a "absolvição" de um padre. Os clérigos também intervêm, portanto, mas
essencialmente a título de destinatários da aparição, aptos a dizer missas pela salvação do morto.
A despeito desses traços bastante comuns, essa coleção de relatos distingue-se, por seu caráter
fantástico, da maior parte dos exempla contemporâneos. Apenas os relatos transmitidos por Guillaume de
Newburg dois séculos antes, exatamente para a mesma região, o Yorkshire, apresentam traços similares
no que se refere aos modos de aparição dos fantasmas e os meios empregados pelos vivos para livrar-se
deles. Nesses relatos, nunca se trata de "almas do purgatório", mas de "espíritos" muito corporais que
saem de suas sepulturas, espalham-se fora do cemitério, aterrorizam os aldeões que os reconhecem sem
dificuldade e os atacam com igual violência. Esses "espíritos" (spiritus) apresentam-se comumente sob
uma forma humana, mas alguns estão sujeitos a surpreendentes metamorfoses: um deles, "ex-mercenário"
de Rielvaux, aparece a um homem sob a forma de um cavalo que se empina, de um monte de feno provido
de uma luz no meio e, enfim, "na figura de um homem" que propõe ao vivo carregar seu saco de favas
(leguminosas tradicionalmente ligadas à morte), mas não além de uma torrente, espécie de fronteira
simbólica que ele se recusa a atravessar.{327} Um outro morto, que fora excomungado, aparece ao alfaiate
Snowball sob a aparência de um corvo adejando como se fosse morrer e lançando centelhas pelo lado.
Chocando-se com violência contra o homem, fere-o cruelmente e o faz cair do cavalo. O mesmo espírito
reaparece em seguida sob a forma de um cão com uma corrente no pescoço, mas capaz de falar como um
homem para rogar a Snowball que peça por ele sufrágios a um padre. Quando lhe aparece novamente, é
sob a forma de uma cabra que geme fazendo "ah! ah! ah!", cai por terra e depois reergue-se com a
aparência de um homem de enorme estatura. Ao longo de todo o relato, dois outros espíritos giram em
torno de Snowball. Ele não os vê, mas fica sabendo pelo primeiro espírito que um, assassino de sua
mulher, é como um bezerro sem olhos nem boca nem orelhas (ele não pode comunicar-se com os vivos e,
portanto, não será nem conjurado nem salvo), enquanto o outro, sob a forma de um caçador tocando
trompa (o que evoca a Caça selvagem), é um religioso defunto que só uma criança impúbere (privilégio
da virgindade) poderá conjurar.{328}
Mesmo quando vêm pedir expressamente sufrágios, esses espíritos são habitualmente agressivos,
perigosos e temidos. O ferimento infligido pelo corvo a Snowball é um meio de chantagem: o espírito só
lhe revelará o meio mágico de curar (esfregando-se com certo arenito que ele encontrará sob uma pedra
chata em uma torrente) quando ele lhe trouxer a absolvição de um padre. Em Kilburn, o espírito de Robert, filho de Robert de Boltebi, escapa à noite do cemitério, aterroriza os habitantes e faz uivar os
cães.{329} O espírito do ex-cura de Kirkby, Jacques Tankerlay, volta uma noite para arrancar um olho de
sua concubina. {330} Em Ampleforth, um espírito anônimo segue quatro noites seguidas Guillaume de
Bradforth, gritando três vezes "how! how! how!"; sua voz terrível ressoa como o eco na montanha,
lançando o apavorado cão de Guillaume às pernas de seu dono.{331} Em Ampleforth ainda, o espírito da
irmã de Adam de Lond é a causa dos "medos noturnos e do terror das gentes da aldeia". {332} Em
Cleveland, o espírito de um morto que fora excomungado segue um homem durante 24 milhas e, não
conseguindo fazer-se "conjurar" por uma outra testemunha, arremessa-a por cima de uma cerca.{333}
A maior parte desses mortos é nomeada. São todos homens (com uma exceção) e todos leigos (com
exceção de um cura e de um cônego). Todos os beneficiários das aparições são igualmente leigos,
habitantes das mesmas aldeias, mas raramente parentes muito próximos. Em uma palavra, o sistema de
parentesco carnal ou espiritual, tão importante nos outros conjuntos narrativos, aqui cede lugar
amplamente às relações de vizinhança e à comunidade de habitantes.
Dois relatos não deixam de lançar uma luz original sobre as relações de parentesco: da tropa dos
mortos que ele avista durante sua peregrinação a Santiago, Richard Rountre vê destacar-se um recém-
nascido que rola a seus pés dentro de uma meia. O pequeno espírito explica-lhe que é seu filho abortado
e que as parteiras o amortalharam em uma meia da mãe sem o ter batizado. O pai envolve o filho em sua
própria camisa e lhe dá um nome, invocando a Santa Trindade. Imediatamente, a criança levanta-se toda
alegre com esse reconhecimento de filiação, uma espécie de batismo selvagem que faz as vezes de
batismo post-mortem. O gesto paterno evoca a prática, que se difunde nessa época, dos "santuários de
trégua" aonde as crianças mortas sem batismo eram levadas na esperança de que ressuscitassem durante
um instante, apenas o tempo de dar-lhes o batismo.{334}
O último relato ilustra um outro aspecto do parentesco: o conflito, na pessoa da esposa, entre a
aliança e a filiação, entre, de um lado, a linhagem do marido e dos filhos e, de outro lado, a patrilinhagem
de origem da mulher. A irmã de Adam de Lond (assim identificada com referência à sua patrilinhagem)
deu ao irmão títulos de propriedade pertencentes a seu esposo. Quando ela morre, Adam expulsa seu
cunhado e seus sobrinhos do domínio, "a saber, um toft e croft com suas dependências em Ampleforth e
uma * bovée {} de terra em Heslerton com suas dependências". Mas a morta aparece a Guillaume Trower
para o encarregar de pedir a Adam que devolva os títulos e a terra, senão ela não poderá "repousar em
paz até o dia do julgamento". Adam recusa. Na noite seguinte, Guillaume "conduz" a morta diretamente ao
quarto de Adam. Como ele permanece inflexível, sua irmã o previne de que a substituirá em seus
tormentos quando morrer. O rumor pretende que o filho deAdam de Lond, provavelmente para abreviar
as provações de seu pai no além, tenha acabado por dar satisfação parcialmente ao herdeiro legítimo.
Embora os relatos falem sempre de "espíritos", estes últimos têm uma extraordinária
"corporeidade". A mulher que leva para casa um espírito sobre as costas "crava profundamente os dedos
na carne do espírito, como se a carne desse mesmo espírito fosse um fantasma pútrido e não sólido". {335} Quando o alfaiate Snowball dá um golpe de espada no espírito que tomou a forma de um corvo, ele tem a
impressão de ouvir o som de um coxim em que se bate (nas mesmas circunstâncias, um relato de Césaire
de Heisterbach evocava um ruído análogo). Esses espíritos são tão concretos que os vivos podem
apoderar-se deles (comprehendere), carregá-los às costas, lutar com eles: o jovem Robert Foxton
consegue manter um espírito, à saída do cemitério, contra a porta da igreja (kiskestile) até que o cura,
alertado pelos outros jovens da aldeia ( {336} juvenes ) , chegue para o conjurar. Os espíritos falam, mas com
uma voz estranha de ventríloquos: um fala "do interior das vísceras e não com a língua, como em um
cântaro vazio". {337} Snowball contempla, através da boca do espírito que lhe fala, os "interiores" deste
último, que "forma suas palavras nos intestinos e não fala com a língua". {338}
Todas as testemunhas procuram pôr fim aos retornos noturnos desses espíritos. O meio habitual é
obter a absolvição de um padre, devidamente retribuído: a fim de libertar o espírito que lhe apareceu,
Snowball paga cinco soldos para fazer retirar por um padre de York a excomunhão que este mesmo
pronunciara. A absolvição é escrita em uma cédula, e Snowball compromete-se a não "difamar os ossos"
do espírito, isto é, a não revelar seu nome e a causa de seus tormentos. Em seguida, ele manda dizer pelo
morto, por todos os religiosos mendicantes da cidade, 180 missas em dois ou três dias. Enfim, ele retorna
aAmpleforth para enterrar a cédula de absolvição na sepultura. Seu objetivo é a uma só vez, ao que
parece, preservar o segredo dessa estranha "confissão" e dar a conhecer ao espírito que ele está livre de
sua pena. Durante esse tempo, o espírito, "deitado de costas", observa-o sem o seu conhecimento.
Snowball tampouco vê os demônios que atormentam o espírito tanto mais ardentemente quanto sabem que
sua presa vai escapar-lhes em breve. A legitimidade desse procedimento em três atos é confirmada por
vários cônegos e por um nobre confessor, o irmão Richard de Pickering. Era o mesmo método
preconizado, dois séculos antes, pelo clero da região, segundo o testemunho de Guillaume de Newburg.
Mas vê-se também perdurar, por volta de 1400, um método mais expedito e que não é exclusivamente o
dos jovens aldeões: com efeito, o abade e o convento de Bellelande é que ordenam exumar de seu
cemitério o corpo do cura de Kereby (que voltou para varar um olho de sua concubina), não para mandar
queimá-lo (como nos relatos de Guillaume de Newburg), mas para lançá-lo com seu caixão na lagoa de
Gormyre.
Assim, o monge-escriba é bem o intérprete dos rumores aldeões. Ele não procura ilustrar as
afinidades espirituais de uma comunidade de monges, nem demonstrar às linhagens aristocráticas ligadas
ao mosteiro a eficácia dos sufrágios monásticos pelos mortos, nem, enfim, impor aos fiéis exempla
edificantes e acabados. Ele antes faz obra de etnólogo avant Ia lettre, seduzido pelos mirabilia de sua
região, registrando crenças e práticas em que os ensinamentos da Igreja estão indissoluvelmente
mesclados a tradições que não deixam de lembrar as sagas da Europa do Norte.
UM FANTASMA BRETÃO
O último testemunho que desejaríamos evocar aqui é muito isolado para ter valor de prova.
Contudo, não deixa de oferecer o interesse de uma comparação possível com os relatos do monge de
Byland. Trata-se de um exemplum em francês, tirado de uma coleção de sermões manuscritos do começo
do século XV. {339} A história se passa na Bretanha. Um padeiro recém-falecido volta à noite para prestar
ajuda à mulher e aos filhos, amassando com eles a massa de pão e encorajando-os ao trabalho. Sua
família foge, enquanto os vizinhos acorrem para ver a "maravilha". Eles expulsam o morto fazendo barulho, mas ele logo retorna para atirar pedras. Evitando os caminhos, ele chega coberto de lama até as
coxas, o que aumenta ainda mais seu aspecto terrificante. As pessoas se perguntam se se trata "de um
morto ou de um mau espírito". Decidem, enfim, abrir a sepultura, onde encontram o morto "todo
enlameado até os joelhos e as coxas, assim como o tinham visto ir pelo caminho". Em um primeiro
tempo, eles enchem a cova, mas isso não basta para impedir o morto de voltar. Decidem, então, quebrar-
lhe as pernas, o que põe um fim definitivo às vagueações do morto.
Como escreve Hervé Martin, que descobriu e publicou esse texto singular, aqui se está longe dos
exempla habituais em que as almas do purgatório imploram os sufrágios de seus próximos. Aqui não se
trata de missas, de esmolas e de preces, nem de purgatório ou da menor bênção. Mais uma vez, é agindo
fisicamente sobre o cadáver que se espera fixar o morto na sepultura. Tudo se passa como se o fantasma e
o cadáver fossem um e o mesmo, como se o primeiro levasse para o túmulo a lama que o suja. Esse
fantasma é um morto maléfico muito semelhante aos do Yorkshire na mesma época e sofre, da parte da
população local, um tratamento de igual violência. Pode-se admitir nos dois casos a persistência, apesar
da ação da Igreja (é um pregador que nos faz conhecer esse relato), "de uma crença muito arcaica na
sobrevivência do duplo". Vê-se aí também o emprego, para afastar os mortos maléficos, de práticas
rituais muito diferentes das da Igreja: alguns clérigos as desaprovaram, mas outros, no século XV ainda,
admiraram-lhes o caráter de "maravilha".
À margem do núcleo central da cristandade ocidental afloram crenças e práticas que a unificação
das estruturas eclesiásticas ainda não atingiu, mas que a "máquina de pregação" (na qual o procedimento
inquisitorial é também um aspecto) está em via de absorver: é isso que nos proporciona, em parte,
documentos como esses. Os desvios com relação às normas surgem na falta do discurso dominante, que
se estende pouco a pouco e a todos os lugares. Eles provêm de estratos culturais mais antigos e tenazes,
alguns deles mesmo anteriores ao cristianismo. Mas não são por isso "sobrevivências" passivas dos
velhos paganismos. Os séculos passaram por aí e permitiram uma progressiva e mútua impregnação das
representações. Em pouco tempo vão desencadear-se os processos de feitiçaria, e os inquisidores já se
inquietam. Mas, no século XV, as tradições folclóricas mais "selvagens" permanecem toleráveis e atiçam
sempre a curiosidade de mais de um clérigo.