Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval
Capítulo 5
O BANDO HELLEQUIN
Os relatos de mirabilia não se referem apenas às aparições de fantasmas individuais. Seu interesse
reside mais ainda no lugar que concedem às tradições folclóricas relativas à tropa dos mortos. Com
efeito, é no século XII que aparece nesses textos, pela primeira vez, o nome do bando Hellequin, atestado
sob formas diversas até nossos dias. Sua mais antiga menção é devida ao monge anglo-normando Orderic
Vital (1075-1142).
O TESTEMUNHO DE ORDERIC VITAL
Orderic era filho de um clérigo originário de Orléans, mas que entrara a serviço de um nobre
normando estabelecido, depois da conquista da Inglaterra na Murcia, nos limites do País de Gales. É lá
que ele nasce e passa sua primeira infância. Quando tem dez anos, seu pai, que conservou laços com a
Normandia, envia-o como oblato à abadia de Saint-Évroult, na diocese de Lisieux, onde passará o resto
de sua existência. Na época de Orderic, a abadia é um elo importante da reforma monástica na
Normandia, sob a influência da abadia de Fécamp (reformada por Guillaume de Volpiano) e de Cluny:
em 1132, o próprio Orderic é enviado a Cluny, sob o abadado de Pierre, o Venerável. {207} Saint-Évroult
luta então por sua independência contra os dois poderes que a ameaçam: o bispo de Lisieux e os senhores
da vizinhança, em particular o temível sire Robert de Bellême.
É em Saint-Évroult que Orderic empreende escrever os treze livros de sua História eclesiástica,
que é uma monumental história dos normandos. No espírito de seu autor, ela devia ser para os normandos
o que {208} a História eclesiástica de Beda era para os ingleses.Orderic compilou documentos escritos,
mas, desde o terceiro livro, recolhe sobretudo testemunhos orais contemporâneos. Seus informadores são
monges de Saint-Évroult, mas também nobres e cavaleiros da região, que ele considera como os mais
aptos a lhe falar das conquistas, dos cercos, das batalhas, das alianças e das sucessões que compõem a
trama de seu relato. {209} Na história dos normandos, o primeiro papel não cabe ao duque e aos nobres?
Ele recorre também às suas lembranças pessoais.{210} Escreve a maior parte de sua obra entre 1123 e
1137, e o essencial do livro viu, que nos interessa mais imediatamente, entre 1133 e 1135.{211}
No capítulo XVI desse livro e ainda no começo do capítulo XVIII, Orderic estende-se sobre as más
ações de Robert de Bellême, cerca de 45 anos antes. Era um triste sire — "nequissimus", "pessimus", diz
Orderic — cuja crueldade só era comparável à de sua mãe Mabel (ela mandou assassinar seus
prisioneiros). Robert de Bellême era inimigo figadal do protetor de Saint-Évroult, Hugues de
Grandmesnil, que ele sitiou em Courcy, em 1091. É nesse contexto que se menciona, no mesmo ano e na
mesma região, a aparição do bando Hellequin.{212}
Orderic ouve o relato da própria boca da testemunha, um jovem padre, chamado Walchelin, pároco
da igreja de Bonneval, que pertencia a Saint-Aubin de Angers. Na noite de 1º de janeiro de 1091, ele
voltava de uma visita feita a um doente de sua paróquia quando, sozinho e longe de qualquer habitação,
ouviu o fragor de um "exército imenso", que tomou pelo de Robert de Bellême a caminho do cerco de
Courcy. A noite estava clara, o padre era jovem, corajoso e robusto: abrigou-se entre quatro nespereiras,
disposto a defender-se, se necessário. Nesse instante, apareceu-lhe um gigante armado de um porrete, que
lhe ordenou permanecer onde estava para assistir ao desfile do "exército" (exercitus), por vagas
sucessivas.
O primeiro grupo é o mais díspar. Forma uma "imensa tropa de infantes", com bestas de carga
carregadas de vestimentas e de utensílios diversos, como se se tratasse de salteadores vergados sob o
peso de seu butim. Eles apressam o passo, gemendo, e entre eles o padre reconhece vizinhos recém-
falecidos. Segue-se um bando de coveiros (turma vespilliouum), ao qual se junta o gigante; eles
carregam dois a dois umas cinqüenta padiolas transportando anões cuja cabeça é desmedidamente grande
ou reveste-se da forma de um pote (dolium). Dois etíopes — demônios negros — carregam um tronco de
árvore no qual está atado e é torturado um infeliz que urra de dor; um demônio terrificante, sentado sobre
o tronco, fere-o nas costas, golpeando-o com suas esporas incandescentes. Walchelin reconhece o infeliz:
foi ele que, dois anos antes, matou o padre Étienne e depois morreu sem ter expiado seu crime. Segue-se
uma multidão de mulheres a cavalo, sentadas de lado em selas providas de pregos ardentes; sem cessar o
vento as ergue à altura de um côvado, depois as deixa cair de novo dolorosamente sobre suas selas; seus
seios estão varados de pregos incandescentes que as fazem gritar, confessando suas faltas. Essas
mulheres, entre as quais Walchelin reconhece várias nobres, viveram na libertinagem e no fausto.
O padre, terrificado, vê em seguida um "exército de clérigos e de monges", conduzidos por bispos
e abades empunhando seu bastão episcopal. Os seculares estão vestidos com uma capa negra, os
regulares com uma cogula negra. Lamentam-se e suplicam a Walchelin, que chamam pelo nome, que ore
por eles. O padre espanta-se de encontrar ali homens que tivera em grande estima antes de sua morte:
especialmente o bispo Hugues de Lisieux (morto em 1077), os abades Mainer de Saint-Évroult (morto em
1089) e Gerbert de Saint-Wandrille. Mas só Deus pode sondar os corações e decidir submeter os
pecadores "às diversas purificações do fogo purgatório".
Mais terrível ainda é o grupo seguinte, que justifica a descrição mais longa e mais precisa: é o
"exército de cavaleiros" (exercitus militum), todo negro e cuspindo fogo. Em cavalos imensos, eles se
apressam, munidos de toda espécie de armas e de estandartes negros, como para ir à guerra. O padre
reconhece, entre outros, Richard de Bienfaite e Baudoin de Meules, os filhos do conde Gilbert de
Brionne, ambos mortos "recentemente", e sobretudo Landry, "visconde e advogado" de Orbec, morto
naquele ano, que apostrofa Walchelin para o encarregar de uma missão perante a sua mulher. Mas os
outros lhe dizem para não escutar esse mentiroso, um parvenu corrompido e sem piedade.
Quando vários milhares de cavaleiros passaram, Walchelin se dá conta de que se trata, sem
nenhuma dúvida, do bando Hellequin (familia Herlechini): ele já ouvira dizer que muitas pessoas o
haviam visto, mas não acreditara em seus informadores e até mesmo zombara deles. Receia, por sua vez,
que não creiam nele, se não levar uma prova certa (certum specimen) de sua visão. Por isso, decide
capturar um dos cavalos negros que passam sem cavaleiro. O primeiro lhe escapa. Ele barra o caminho
do segundo, que pára como para o deixar montar e exala pelas ventas uma nuvem de fogo do tamanho de
um carvalho. O padre introduz o pé no estribo e segura as rédeas, mas sente imediatamente uma intensa
queimadura no pé e um frio indizível na mão. Tem de soltar o animal quando quatro cavaleiros surgem,
acusam-no de tentar roubar seu bem e lhe ordenam que os acompanhe. Mas o quarto cavaleiro interpõe-
se: quer confiar-lhe uma mensagem para sua mulher e seus filhos. Walchelin responde que não o conhece.
O cavaleiro apresenta-se: é Guillaume de Glos, filho do falecido Barnon de Glos, exescudeiro de
Guillaume de Breteuil e de seu pai, o conde Guillaume de Hereford. Seu principal crime é a usura;
adquiriu fraudulentamente e legou a seus herdeiros um moinho retido como penhor de um empréstimo que
sabia que não poderia ser pago. Como castigo, traz na boca o ferro desse moinho, ardente e "mais pesado
que a torre de Rouen". Walchelin deve ir dizer à sua mulher Béatrice e a seu filho Roger que o socorram
e restituam o moinho aos herdeiros legítimos. Mas o padre recusa-se a reconhecer o morto. Guillaume de
Glos está morto, diz ele; se contar a seus filhos e à sua viúva que viu seu pai e esposo, não o tomarão por
louco? O morto enumera então os "sinais" que acabam por convencer o padre, que escuta a mensagem
que deve transmitir. Mas Walchelin se recompõe. Não quer fazer-se o mensageiro de um criminoso.
Tomado de fúria, o outro o agarra pela garganta com uma mão ardente que deixará ali uma marca
indelével, o signuin da autenticidade da aparição. Solta-o quando o padre invoca a mãe de Deus e porque
um novo cavaleiro interpõe-se de espada erguida e acusa os quatro outros de querer matar seu irmão.
O recém-chegado declina sua identidade: é o próprio irmão de Walchelin, Robert, filho de
Rodolphe, o Loiro. Em apoio de suas palavras, recorda a Walchelin, à guisa de signa, lembranças da
infância deles. O padre se lembra muito bem, mas não o confessa. Seu irmão o acusa de ingratidão:
depois da morte de seus pais, não foi ele quem lhe permitiu ir estudar na França? Walchelin irrompe em
soluços e aceita, enfim, reconhecer seu irmão. Este lhe confirma que, por ter tentado subtrair os bens dos
mortos (res nostras) — o que ninguém ainda ousara tentar —, ele devia partilhar suas penas. Mas porque
cantou a missa naquele dia mesmo, será salvo. O castigo do morto consiste em carregar armas ardentes e
muito pesadas. Ele diz a Walchelin que, no dia em que foi ordenado padre e disse sua primeira missa, na
Inglaterra, seu falecido pai Raoul foi libertado de seus suplícios. Ele próprio foi igualmente
desembaraçado do escudo que o torturava. Traz ainda sua espada incandescente, mas espera ser livrado
dela naquele ano. A seu irmão, que lhe pergunta por que suas esporas estão rodeadas por uma massa de
sangue coagulado, o cavaleiro responde que não é sangue, mas fogo, que lhe parece "mais pesado que o
monte Saint-Michel" e o pune pela pressa com que derramava sangue em vida. Enfim, obrigado a
encerrar sua conversa para juntar-se ao exército dos mortos, ele adjura seu irmão a guardar memória dele e socorrê-lo com preces e esmolas, a fim de assegurar sua libertação no ano que se seguirá ao próximo
Domingo de Ramos.{213} O próprio Walchelin deve emendar-se, pois morrerá antes que se passe muito
tempo. Durante três dias, não deverá contar a ninguém o que viu e ouviu. A estas últimas palavras, o
cavaleiro desaparece.
Durante uma semana, o padre esteve gravemente doente. Quando ia melhor, fez seu relato ao bispo
Gilbert de Lisieux, que cuidou dele com suas próprias mãos. Ele viveu ainda uns quinze anos, o que
permite a Orderic Vital interrogá-lo e ver a horrível queimadura deixada pela mão do cavaleiro morto.
Orderic diz ter transcrito fielmente suas palavras para a edificação de seus leitores. Em seguida, retoma,
onde o deixara, o relato do cerco de Courcy.
Esse primeiro testemunho escrito sobre o bando Hellequin pode prestar-se a inúmeros comentários.
{214} Sua inserção na crônica de Orderic convida a ver aí um desses mirabilia de que eram ávidos os
clérigos anglo-normandos. O próprio nome de "bando Hellequin", o detalhe das quatro nespereiras,{215} o
papel do jovem padre como "mensageiro das almas" desenham o conteúdo folclórico do documento. Mas
esse texto é antes de tudo um produto da cultura erudita: por seu autor e sua língua, pela enumeração
clássica das torturas infernais que são reencontradas no tímpano de Conques e também por sua estrutura
narrativa, cuja coerência não me parece ter sido salientada, embora reforce seu alcance ideológico. É
notável, com efeito, que o conjunto do desfile dos mortos componha-se de três grandes conjuntos que se
podem facilmente relacionar ao esquema trifuncional da sociedade, definido pelos clérigos do norte da
França desde o fim do século X. {216} Mas não é menos notável que as "três ordens" aí constituam objeto
de um tratamento desigual tanto pela amplitude da descrição quanto pela atitude de Walchelin com
relação aos diferentes tipos de mortos.
O primeiro grupo é o mais heteróclito. São os mortos que fazem parte da terceira função: a tropa
(turba, turina, cohors, agmen) das gentes ordinárias que vão a pé, simples vizinhos anônimos e mulheres
(ainda que nobres), todos apegados aos bens materiais (a ponto de os roubar), aos prazeres da carne, aos
objetos utilitários da vida cotidiana (bagagens, utensílios, potes). Nenhuma forma de comunicação é
esboçada entre esses mortos e Walchelin, que se contenta em reconhecer alguns deles.
Vem em seguida o grupo muito mais coerente, mas tratado de maneira mais breve, que corresponde
à primeira ordem da sociedade: a dos monges e dos clérigos. Sua tropa (agmen), anônima com três
exceções, oferece a imagem invertida e em negro da turba dos monges bem-aventurados e luminosos que
aparece comumente no recinto dos mosteiros. Ainda que alguns desses mortos reconheçam e nomeiem
Walchelin, este tampouco se comunica com eles.
É muito diferente com o "exército dos cavaleiros" (exercitus militun, cohors, agmen, phalangis).
Ele é homogêneo socialmente (mesmo que um parvenu se tenha introduzido em suas fileiras) e pelos
sinais (cavalos, armas, estandartes) emblemáticos de sua função na sociedade. É o único grupo
qualificado de exercitus, palavra que, aliás, aparece apenas para designar o conjunto do cortejo dos
mortos. Pode-se mesmo perguntar se a expressão familia Herlechini não se aplica de preferência a esse grupo, por analogia com a tropa guerreira de Robert de Bellême, ela também chamada familia, a
"mesnie" * {} dos cavaleiros reunidos em torno de seu senhor. Em todo caso, é realmente esse grupo que
prende a atenção privilegiada de Orderic Vital, que ao mesmo tempo insiste nos crimes e nos castigos
dos cavaleiros e sublinha as condições de seu resgate. Walchelin comunica-se apenas com os cavaleiros
mortos que se separam da tropa anônima. Mas o diálogo não se entabula sem dificuldade e o relato
observa nesse ponto uma sutil gradação.
O visconde Landry desejaria encarregar Walchelin de uma missão. Mas este último, que não é de
baixa extração e parece partilhar os preconceitos dos cavaleiros mortos com relação a esse parvenu, não
responde a seus rogos. Guillaume de Glos não tem mais sorte, pois Walchelin multiplica as esquivas em
relação a ele e, depois de ter aceito escutar seu pedido, rompe qualquer laço com ele.
O único cavaleiro com quem Walchelin acaba por comunicar-se é seu próprio irmão Robert. Os
laços do sangue, o dever de uma compensação espiritual em troca dos serviços prestados por seu irmão
em vida, a prova dada de que as missas livram os defuntos de seus tormentos autorizam uma relação de
troca entre o morto e o vivo.
Vê-se, assim, a que ponto é dura a lição que Orderic Vital atribui a seu relato para "edificar" seus
leitores: o inumerável cortejo dos mortos, no qual se adivinha que a maioria corre para um castigo
definitivo (mas isso não é dito explicitamente), oferece, de acordo com o esquema das três ordens, uma
tipologia social completa dos crimes e das penas, dos dois lados da morte. Mas, se são numerosos os
mortos a implorar os sufrágios dos vivos, as condições nas quais os vivos podem responder-lhes
eficazmente são bastante limitadas. A solidariedade do parentesco carnal parece dar a um único morto a
esperança de ser socorrido: Walchelin é solicitado por seu irmão defunto enquanto padre, mas também e
em primeiro lugar enquanto irmão, já que têm o mesmo pai.
Se a parte militar da tropa prende antes de tudo a atenção, é em razão da origem social dos dois
principais protagonistas. De maneira mais geral, os outros testemunhos que se vão examinar mostram que
a tropa dos mortos é, no mais das vezes, um exército dos mortos (exercitus mortuorum), uma espécie de
duplo infernal do exército feudal. Aqui mesmo, o bando Hellequin faz eco ao triste destacamento do sire
de Bellême. Descrito em detalhe pelo monge reformador Orderic Vital, o espetáculo fantástico dos
castigos padecidos pelos cavaleiros rapinantes, salteadores e assassinos faz parte de todo o dispositivo
instalado pela Igreja da época para impor a trégua de Deus e mesmo a paz de Deus.{217} Os cavaleiros
malditos simbolizam uma selvageria que a Igreja aplica-se em conter, em canalizar, pelas instituições de
paz, pela cruzada, pelas maldições e milagres, {218} pela explicitação da noção restritiva de "guerra justa"
e, com a caução de são Bernardo, pelo alistamento na boa "milícia" das ordens militares. O fato de levar
em conta a tradição do bando Hellequin não lança uma luz nova sobre o célebre Elogio da nova
cavalaria (composto entre 1 129 e 1136), em que Bernard de Clairvaux joga com a homofonia das
palavras militia e malitia? Os cavaleiros do século descritos por ele, com seu furor, suas armas mortais,
sua roupagem, suas insígnias, seu gosto pelas mulheres (das quais se aproximam por seus cabelos longos), assemelham-se, a ponto de confundir, aos fantasmas do bando Hellequin... Quer cometam um
pecado mortal ao matar seu próximo quer sucumbam eles próprios no combate, estão na mira do diabo:
não vão participar da cavalgada dos condenados? O único meio de se desvencilhar desses "criminosos e
ímpios, raptores e sacrílegos, homicidas, perjuros, adúlteros" e de lhes permitir, ao mesmo tempo, obter
a salvação, é alistá-los entre os cavaleiros do Templo, sujeitos à disciplina monástica, de cabelos curtos,
sem mulher e sem os prazeres falaciosos da caça. {219} Como duvidar de que haja uma relação entre a
multiplicação, no século XII, das menções ao exército furioso dos mortos e todas as medidas
contemporâneas tomadas para frear a feudalidade e limitar suas guerras e suas rapinas?
ANTIGUIDADE DA CAÇA SELVAGEM?
A maior parte dos historiadores e dos folcloristas que acompanhou até o folclore contemporâneo a
tradição do bando Hellequin e da Caça selvagem insistiu em sua longuíssima antiguidade. No caráter
militar dessa aparição coletiva e no personagem mítico de seu chefe Hellequin, pretendeu-se encontrar
uma sobrevivência da segunda função indo-européia ou mesmo o eco de associações juvenis e guerreiras
( {220} Männerbünde ) , que os antigos germanos teriam conhecido. Não há nenhuma dúvida de que o nome
de Hellequin (ou Herlequin ou Helething), que aparece primeiro na Normandia e depois na Inglaterra,
seja de origem germânica e faça referência ao exército (Heer) e à assembléia dos homens livres (thing),
dos únicos que usam armas. {221} Não há motivo para duvidar de que o escrito, no começo do século XII,
registre apenas tardiamente tradições orais talvez muito mais antigas. Mas o que importa ao historiador
não é tanto a antiguidade de uma tradição quanto a atualidade de seus usos. Tentar-se-á localizar os
testemunhos mais antigos sobre o exército dos mortos, mas para mostrar seu pequeno número e seu
caráter alusivo em comparação com a massa dos testemunhos muito mais precisos que se acumulam a
partir do século XII. O que deve ser interpretado é antes de tudo a transformação da documentação, sinal
de uma mutação ideológica e social mais geral.
A cabeça de série é uma alusão bastante obscura de Tácito, na Germania, a respeito dos Harii que
lutavam à noite tomando a aparência de um exército de espectros. Durante a alta Idade Média, a colheita
permanece pobre. No século VII, um autor grego, Damaskios de Damasco, afirma que, por ocasião do
cerco de Roma por Átila, dois séculos antes, os espíritos dos guerreiros mortos (ou antes as "imagens de
suas almas": eídola ton psuchon) continuaram a lutar durante três dias e três noites com mais
impetuosidade ainda que os vivos. {222} No Ocidente, Santo Agostinho descreve na Cidade de Deus o
confronto de dois exércitos de demônios que deixa em um campo de batalha um amontoado de corpos e
de cavalos, presságio do combate que os homens iam travar em breve. {223} Alguns séculos mais tarde, em
sua História dos lombardos, Paul Diacre (c. 720 — depois de 787) relata que, quando da peste de
Justiniano, no século V, ouviu-se o "rumor de um exército" acompanhar o flagelo.{224}
Mais uma vez, o ano 1000 marca uma virada. Os testemunhos continuam a estabelecer um laço
entre essas aparições e as guerras reais dos homens ou a assimilar a tropa dos mortos à dos "maus
espíritos". Mas eles são muito mais numerosos e ricos do que anteriormente. Combinam-se vários tipos
de aparições: ora se trata de uma espécie de procissão dos mortos penitentes, exército de sombras
lastimáveis que ergue sua queixa e mendiga preces, ora, mais temível, o exército furioso atravessa os
ares no fragor das armas, dos cavalos e dos cães. Um mesmo autor (Raoul Glaber) os menciona
sucessivamente; um outro (em um milagre de Sainte-Foy de Sélestat) chega a associá-los. Freqüentemente
ainda, o exército dos mortos não é descrito explicitamente, mas apenas evocado no segundo plano de uma
aparição individual. {225} Não é raro que um defunto particular se separe da tropa dos mortos (como se viu
em Orderic Vital) para entabular sozinho o diálogo com a testemunha da aparição. Examinemos esses
testemunhos.
OS ELEITOS E OS CONDENADOS
Raoul Glaber começou a redação de suas Histórias na abadia de Saint-Bénigne de Dijon, em 1028,
para prossegui-la até a véspera de sua morte em Cluny, em 1049. {226} O conjunto da obra é abundante em
relatos de prodígios, de aparições demoníacas ou celestes e em descrições de desgraças coletivas — a
fome, as incursões dos sarracenos — nos quais os historiadores românticos ouviram o eco dos "terrores
do ano 1000", compensados pela imagem cheia de esperança de uma cristandade cobrindo-se de um
"branco manto de igrejas". {227} Naqueles tempos conturbados, ao alvorecer do domingo da oitava de
Pentecostes (o domingo da Trindade), depois de laudes, um monge da diocese de Langres, Vulcher,
médico de seu mosteiro, vê de súbito a igreja onde ora na solidão encher-se de um cortejo de homens
austeros vestidos inteiramente de branco e usando estolas de púrpura. Aquele que os precede com uma
cruz na mão afirma ser o bispo de numerosas "paróquias" ( {228} multarum plebium ) .Esses homens dizem
ter assistido de noite, à revelia dos monges, às matinas e aos laudes. O bispo começa imediatamente a
celebrar a missa da Trindade no altar do santo mártir Maurício. Respondendo às perguntas do monge, os
defuntos revelam que são cristãos mortos pelos sarracenos em defesa de sua fé. Mereceram por sua morte
a morada dos bem-aventurados, para a qual se dirigem atravessando aquela região, onde outros homens
devem juntar-se a eles. Terminada a missa, o bispo dá o beijo de paz nos assistentes e faz sinal para que
o monge o acompanhe. E como todos desaparecem imediatamente, Vulcher compreende que não viverá
mais muito tempo, o que vai revelar-se exato. Cinco meses mais tarde, em dezembro, Vulcher dirige-se a
Auxerre para cuidar dos monges doentes. Ele quer ver os pacientes desde a noite de sua chegada, mas os
outros monges insistem para que espere o dia seguinte. Logo sua agonia começa, pontuada por duas
visões da Virgem, que lhe confirma que ele teve a graça de ver o que poucos homens viram e que, em
conseqüência, deve morrer. Mas ela lhe concede sua proteção nessa prova. De fato, na terceira noite, os sinos saúdam a morte de Vulcher, enquanto os diabos tentam em vão apoderar-se de sua alma.
No livro V, Raoul Glaber descreve mais uma vez aparições repetidas de demônios e de outros
prodígios que não deixam muita esperança de sobrevivência aos que lhes foram os espectadores. Ele
toma um exemplo local, que situa cerca de 25 anos antes do momento em que escreve. Perto de Tonnerre,
o padre Frotterius, um domingo depois do jantar, vê pela janela um exército de cavaleiros dirigindo-se ao
combate (acies equitum veluti in pretium pergentes), vindo do norte rumo ao Ocidente. Chama-os em
vão para pedir explicações: sua voz parece mesmo precipitar seu desaparecimento, e ele é tomado de tal
pavor que não pode conter as lágrimas. Ele morre naquele ano, e os que tiveram conhecimento da história
consideraram que aquela aparição era um presságio. No ano seguinte, a invasão do rei Henrique I (em
1015) fez efetivamente muitas vítimas na região.
Esses dois relatos de aparições coletivas opõem-se quase termo a termo: no primeiro, os mortos
são bem-aventurados, ex-religiosos que combateram contra a vontade os infiéis e sofreram o martírio. É
também por isso que são associados a são Maurício, soldado e mártir. No segundo relato, os mortos são
cavaleiros que vão para o combate, vêm do norte (o que não é de bom augúrio), deslocam-se a toda a
pressa no exterior e não no lugar consagrado da igreja. Longe de explicar sua condição, eles recusam
qualquer comunicação com o vivo que os chama: formam o exército maldito. Entre essas duas aparições
coletivas, existe, contudo, um traço comum. A primeira segue-se à hecatombe provocada pelas incursões
sarracenas, e a segunda anuncia os massacres de que a invasão do Capeto será a causa: juntas, elas
representam dois pólos extremos da guerra. De um lado, a guerra pela fé que conduz ao martírio e se
realizará concretamente na cruzada e, do outro, a guerra sangrenta que os cristãos travam entre si, com o
risco de sofrer a danação. A guerra é um sinal no qual se atam o passado e o futuro, a vida terrestre e a
salvação, a história e a escatologia. {229} Abertura para o além, a aparição revela as significações
simbólicas do acontecimento, obstáculo ao projeto político do cronista: o estabelecimento dapax
christiana. É por meio da visão que se fala da guerra — a justa e a injusta —, pois os valores da guerra
e da paz dependem do sentido transcendente da "história" tal como Raoul Glaber a entende.
AS ALMAS COLORIDAS
Entre 1108 e não antes de 1138, se não 1155, o relato da aparição, na Alsácia, de duas tropas
diferentes de mortos foi acrescentado a um manuscrito do Livro dos milagres de Sainte-Foy de Conques,
começado no início do século xi. Essa aparição diz respeito ao mosteiro de Sainte-Foy de Sélestat, que
tinha laços, por sua origem, com a distante abadia de Rouergue. {230} Esse relato poderia ser considerado
como o "mito de origem" de um documento de doação que, em 1095, assentou a riqueza fundiária do
mosteiro alsaciano. Compreende-se facilmente que os monges tenham posto por escrito e divulgado esse
"mito" que atribuía à sua comunidade uma origem ilustre e lhe garantia para o futuro as mais altas proteções. Mas não se limita a isso a função do relato, que se refere também à ascensão da família dos
Hohenstaufen à dignidade imperial. Como muitas vezes (vimo-lo, por exemplo, em Pierre, o Venerável),
o relato de fantasma é o cruzamento de interesses diversos, leigos e eclesiásticos.
Os poderosos protetores do mosteiro que intervêm no relato são quatro irmãos de alta nobreza:
Frédéric de Büren (1079-1105), duque da Suábia e genro do imperador Henrique IV; o bispo de
Estrasburgo, Otton (morto em 1100); um outro irmão, Walter; e, enfim, o conde Conrad, falecido em
1094. Quando Frédéric, Otton e Conrad dirigiram-se em peregrinação a Santiago de Compostela,
pararam em Conques, onde foram admitidos "na fraternidade e na participação de todos os bens"
(espirituais) dos monges. Estes comprometiam-se a orar por seus nobres visitantes que, por seu lado,
gratificariam o mosteiro com sua generosidade. De volta para casa, os três irmãos decidem ceder a
Conques a igreja que eles próprios e sua mãe, a condessa Hildegarde, acabavam de edificar em honra do
Santo Sepulcro, em 1087. A pedido dos fundadores, o abade de Conques, Bégon (1087-1108), enviou à
Alsácia um monge de nome Bertramnus para estabelecer a nova comunidade. Um segundo monge,
Étienne, logo vai ao seu encontro. No entanto, durante mais de dois anos, em um mosteiro despovoado, os
monges conheceram apenas a fome, a sede e o frio, a ponto de querer abandonar tudo e retornar a
Conques. Foi então que o milagre se produziu pela vontade de santa Foy, a quem as reviravoltas de
situação eram familiares. {231} Ele consistiu em uma aparição que a lógica do relato leva a situar em 1094-
95, depois da morte da condessa Hildegarde e de seu filho, o conde Conrad, mas antes de 1095, data do
documento de doação dos irmãos sobreviventes em favor de Sainte-Foy de Sélestat.
Um cavaleiro chamado Walter de Diebolsheim, ex-vassalo desse conde, tinha o costume de fazer
penitência à noite, no exterior do mosteiro, vestido com um cilício e descalço, enquanto os monges
cantavam as matinas no interior da igreja. Uma noite, ele é tirado de sua prece pela visão de dois grupos
diferentes de personagens: de um lado, em um pátio contendo um claustro e oficinas do mosteiro, vê
chegar uma tropa numerosa de peregrinos vestidos de branco e tendo um cajado e um saco; do outro lado,
na "estrada pública" que passa abaixo do mosteiro, avista uma multidão de cavaleiros cujos cavalos e
vestes são inteiramente vermelhos. Tomando os primeiros, os Brancos, por verdadeiros peregrinos,
indica-lhes a entrada do mosteiro, quando um deles o interpela, nomeando-o. O diálogo instaura-se no
estilo direto: Walter pergunta ao Branco quem é ele para ousar dar-lhe uma ordem. O outro responde que
é seu defunto senhor, o conde Conrad; lembra-lhe como, em vida, o fez aproveitar-se de seus benefícios,
mais que todos os seus outros vassalos. De estupor, Walter cai por terra.{232} Depois o morto o tranqüiliza
e lhe dá a prova (signum) de que não é um "fantasma" (fantasma) e de que lhe fala com a permissão de
Deus: a prova disso é a lembrança comum de uma caçada no inverno. Esse signum permitirá também que
os três irmãos de Conrad creiam nele. Em virtude de seu juramento de vassalagem (per fidei
sacramentum) e em troca dos benefícios passados de seu senhor, ele deve, com efeito, aceitar a missão
que lhe confia o morto perante seus irmãos. A morte não põe um termo às obrigações de vassalagem; o
vassalo vivo deve continuar a obedecer às ordens de seu senhor defunto e prestar-lhe assistência, ainda que por preces.
Ao bispo Otton de Estrasburgo, cujas preces e esmolas ajudarão Conrad no além, o cavaleiro
Walter deve pedir que dê a Sainte-Foy a parte da herança de Conrad. A recordação, à guisa de signa, de
duas lembranças convencerá o bispo de que Walter não mente.{233} A essas provas acrescenta-se uma
previsão: antes de morrer, o bispo cumprirá uma peregrinação a Jerusalém e voltará ao fim de dois anos.
Se até lá tiver dado ao mosteiro os bens que Conrad reclama, morrerá em estado de graça; se não, bem
poderia deixar este mundo antes do previsto. Sabe-se, efetivamente, que o bispo Otton participou da
primeira cruzada a chamado do papa Urbano II e morreu pouco depois, em 1100.{234}
Walter deve igualmente prevenir um outro irmão, também chamado Walter, contra seu gosto pelas
vestimentas, cavalos e armas caras. De todos os irmãos, ele bem poderia ser o primeiro a seguir Conrad
na morte e deve preparar-se para isso. Sabe-se que esse irmão morreu antes de 1105.
Walter deve, sobretudo, ir procurar o terceiro irmão, o duque Frédéric, pois, de todos os irmãos,
ele será o sobrevivente e herdeiro (superstitem et heredero) da linhagem (familia). A título de signum,
lembrar-lhe-á que, no momento de penetrar com seu irmão Conrad na corte do imperador, os dois irmãos
se haviam comunicado um segredo conhecido apenas por eles. E lhe transmitirá a seguinte previsão: sua
linhagem (progenies) é a mais rica e está prometida à glória; seus descendentes se tornarão reis dos
romanos e imperadores. Sabe-se, com efeito, que um filho de Frédéric de Büren, Conrad m, tornou-se em
1138 o primeiro rei da dinastia dos Staufen, e que o sobrinho deste, Frédéric III da Suábia, tornando-se
rei por sua vez em 1152, chegou ao império em 1155 sob o nome de Frederico I Barba Ruiva. Mas
Conrad esclarecera em que condições esse destino dinástico ia poder realizar-se: Frédéric deveria
proteger a igreja de santa Foy que fundara com seus irmãos, e garantir sua liberdade. Dando à igreja seu
bem comum (commune predium), Frédéric garantiria o futuro de sua linhagem e permitiria
simultaneamente que seu irmão defunto escapasse ao inferno.
Antes de seguir as ordens de seu senhor, Walter quis saber mais sobre os Brancos e os Vermelhos.
Conrad retoma a palavra: os primeiros são as almas dos que viveram castamente e fizeram no mundo
penitência por seus crimes; dirigiram-se em peregrinação à casa de santa Foy e ganharam sua ajuda pelos
dons que lhe fizeram. Escaparam às torturas do inferno, {235} mas ainda não gozam do repouso: tendem
para a felicidade perfeita, sob a condução de santa Foy, da qual Conrad mostra a Walter a silhueta
luminosa, apoiada à entrada do mosteiro, que os Brancos preparam-se para transpor. Os Vermelhos,
destinados, ao contrário, às chamas infernais, são os que desprezaram as leis divinas e humanas e
morreram em combate ou sem ter feito penitência. Se Conrad não se houvesse beneficiado da ajuda que
santa Foy lhe prodigalizou em troca da doação dessa igreja, ele não seguiria os Brancos, mas seria
torturado com os Vermelhos. Estes vão "até Nivelles, para a montanha do inferno".{236}
Imediatamente depois, o morto desaparece. Ficando a sós, Walter marca com duas pedras o local
onde Conrad lhe apareceu. Mas como não disse a ninguém onde se encontravam essas pedras, não se
sabe onde a aparição ocorreu. O narrador (um monge) temeria algum ato de necromancia nesse lugar? Pouco depois, os irmãos sobreviventes reúnem-se para dividir entre si sua herança. Os monges, que
ainda ignoram tudo da aparição, estão dispostos a satisfazer-se com um moinho, um jardim, um prado e
um bosquezinho. Cada um dos irmãos recebe já os juramentos de fidelidade dos cavaleiros e dos
camponeses que pertencem a seu quinhão, quando o cavaleiro Walter vem encontrar cada um deles
separadamente e comunicar-lhe a aparição de seu irmão, assim como as provas e previsões que lhe
dizem respeito. Imediatamente, reconhecendo os "sinais" e chorando seu irmão defunto, os irmãos
recolocam tudo em comum e dão o conjunto da terra e dos homens (predium et homines) a Sainte-Foy,
pela salvação da alma de seu irmão e de seus ancestrais e pelo resgate de seus próprios pecados. Assim,
os monges não receberam a parte mínima que lhes estava destinada de início, mas, graças à intervenção
miraculosa de santa Foy, "tornaram-se ricos e possuíram o todo". O cartulário de Conques contém, com
efeito, o documento de doação, datado de 23 de julho de 1095, que enumera o conjunto dos bens
deixados aos monges e menciona entre os considerandos do ato a morte de Conrad e de sua mãe.{237}
Garantir a salvação individual de um morto, justificar retrospectivamente a ascensão de uma
dinastia uma vez que ela está assegurada, legitimar a proteção material devida a uma igreja são as três
funções, estreitamente imbricadas uma na outra, desse relato que glosa à maneira do mito um documento
de algumas décadas antes. O que importa também é a utilização que esse relato singular faz de imagens
de resto amplamente difundidas: ou seja, a oposição estrutural (pelo tipo social, o traje, a cor, o lugar e a
destinação) de duas tropas diferentes de mortos, os que serão seguramente condenados e os que, a
exemplo de Conrad, são eleitos em potencial. Como em Raoul Glaber um século antes, impõe-se a
imagem de uma divisão coletiva das almas desde depois da morte, mas a divisão é aqui menos radical.
Ela não antecipa inteiramente a do Juízo Final, já que a salvação dos Brancos, se está assegurada, não
está completamente adquirida. Divisão coletiva, ela tampouco equivale exatamente ao julgamento
particular que decide a sorte de cada alma no instante do trespasse. Dos Brancos, como Conrad, poder-
se-ia dizer que percorrem uma espécie de "purgatório" estranho, pois é a uma só vez itinerante e sem
provação, bem diferente do lugar de torturas fixo e fechado que se imporá a partir do fim do século. Uma
distinção análoga entre duas tropas de mortos, vermelhos e brancos, é encontrada no começo do século
XIII em Gervais de Tilbury. No bispado de Turim encontra-se uma abadia que abriga as relíquias de são
Constantino e dos mártires da Legião tebana (sem dúvida ele quer falar de Saint-Maurice d'Agaune); ela
é dominada por uma montanha onde, todos os anos, no dia da festa do santo, os peregrinos vêem aparecer
uma dupla procissão de personagens, uns todos brancos, outros todos vermelhos. Se alguém escala a
montanha, a visão desaparece. {238} Nas classificações mais antigas das cores, o vermelho e o branco
desempenham, com o preto, um papel fundamental. Mas o simbolismo das cores, sujeito a interpretações
que variam na história, não obedece a um código imutável: aqui, essas duas cores designam
provavelmente dois tipos de santos e não condenados; os mártires estão de vermelho.
Outros relatos contemporâneos falam apenas de uma única tropa de mortos, por vezes positiva, no
mais das vezes negativa. Os critérios da divisão são abertamente ideológicos: à coorte dos santos monges opõe-se o exército furioso dos cavaleiros saqueadores.
A PROCISSÃO DOS ELEITOS, A CAVALGADA DOS CONDENADOS
A aparição da tropa dos eleitos é no mais das vezes contada em um relato monástico: os bem-
aventurados que aparecem são monges e se manifestam a monges para os assegurar da felicidade de seu
estado, enquanto os previnem contra as infrações à regra. "Espelhos" dos monges, esses textos têm uma
função de autojustificação. Daí seu lugar na hagiografia e nos miracula monásticos, por exemplo, no
começo do século XII, na Vida de Bernard de Tiron, prior de Saint-Savin, no Poitou. Na igreja desse
mosteiro, onde ora sozinho à noite, ele vê uma "multidão de monges brancos como neve" que se reúnem
em um capítulo ao qual se junta. Um dos mortos, que comanda os outros, informa-o de que dezenove
monges da comunidade deverão morrer e devem preparar-se para isso. Bernard vai avisá-los e a um
deles, que suspeita que ele teve apenas um sonho mau, prevê que morreria em primeiro lugar, o que não
deixa de ocorrer e, assim, provar a verdade da aparição.{239} O último dos miracula de Marmoutier,
datado de 1137, é comparável: tendo se tornado monge há pouco, o ex-arcediago de Clermont vê
aparecer-lhe na igreja, na noite da Festa de Todos os Santos, os três santos protetores do mosteiro
(Martinho, Fulgêncio e Corentino), assim como uma procissão dos monges defuntos, dispostos segundo a
ordem cronológica de seu trespasse. O monge reconhece alguns deles. Os mortos cantam com ele os
hinos para os defuntos, depois lhe anunciam a morte próxima do abade Oddon. O monge apressa-se em
despertar os monges, especialmente Garnier, que sucederá a Oddon, e alguns deles podem ouvir e ver a
procissão antes que desapareça.{240}
No oposto, a maior parte dos relatos põe em cena a cavalgada de uma tropa de futuros condenados.
No começo do século XII, o testemunho de Orderic Vital sobre o bando Hellequin está longe de ser
isolado. Se, de início, o exército dos mortos geralmente não tem nome específico, no fim do século já não
é mais assim. Com freqüência, ele é evocado apenas brevemente, por referência às desgraças do século
ou às ciladas do diabo, ou por comparação com outros prodígios. Quando é mencionado por si mesmo,
constitui objeto de descrições mais circunstanciadas. Muito cedo, torna-se também um tema literário.
Paradoxalmente, o relato mais antigo (anterior mesmo em alguns anos ao testemunho de Orderic
Vital) é o que, por sua forma literária, mais se afasta, sem dúvida, do colocar por escrito uma tradição
recolhida oralmente. Ele pertence de fato ao gênero dos mirabilia, mas daqueles que tiram sua matéria da
mitologia dos antigos tanto quanto das tradições do folclore. A estas últimas, Guillaume de Malmesbury
dá, por volta de 1125, os ornamentos de uma fábula antiga. Ele insere em seus Gesta regum Anglorum a
mais antiga versão conhecida do conto da Vênus do Ille (celebrizada depois pela novela de Mérimée),
que liga estranhamente a uma aparição da tropa dos mortos. {241} A história supostamente se passa na
Roma antiga: pelo tempo de um jogo de bola, um recém-casado confia seu anel ao dedo da estátua de Vênus. Mas a deusa retém o anel e impede o rapaz de consumar seu casamento. A conselho de um padre
necromante, Palumbus, o jovem dirige-se à noite a uma encruzilhada, onde assiste ao desfile heteróclito
de uma tropa de cavaleiros e de infantes conduzida por Vênus, que monta uma mula com todos os
adereços de uma prostituta. Os demônios que a cercam e que sofrem, eles próprios, as coações da
conjuração do padre Palumbus, obrigam Vênus a devolver o anel. Quanto ao necromante Palumbus, será
morto pelo povo romano. Desse relato, pode-se pensar que a diabolização explícita do cortejo noturno
vai de par com a reelaboração literária do tema.
Outros textos permitem um melhor acesso às tradições orais da época. Por ocasião da conquista da
Irlanda de 1169, durante o cerco de Osraige, o exército inglês em repouso, à noite, sofre o ataque de
milhares de guerreiros que enchem o céu com o fragor de suas armas. Esses phantasma, explica Giraud
de Cambrie, acompanham freqüentemente as expedições militares na Irlanda.{242} Na Inglaterra mesmo, a
crônica anglo-saxônica da abadia de Peterborough, perto de Northampton, relata a história da região
desde a invasão dos saxões sob a condução de Cedric (em 496).{243} Os feitos e gestos do rei constituem
em cada época o eixo principal do relato. Assim, em 1127, o rei Henrique I dá a abadia de Peterborough,
cujo abade morreu em 1125, a seu parente Henri de Poitou, que já dirige a abadia clunisiana de Saint-
Jean d' Angély. O cronista não tem palavras bastante duras para criticar a cupidez desse prelado que
acumula vários cargos eclesiásticos e dá prova de duplicidade tanto em relação ao rei quanto em relação
ao abade de Cluny, Pierre, o Venerável. Henri de Poitou, diz o monge cronista, é na abadia de
Peterborough o que um "zangão é em uma colméia de abelhas"... Depois de sua chegada à abadia, no
domingo da sexagésima (6/2/1127), muitas pessoas e monges ouviram e viram à noite, no parque dos
gamos de Peterborough e nas florestas entre essa "cidade" e Stamford, caçadores, talvez vinte ou trinta,
negros, grandes e medonhos, montados em cavalos ou em cabras (ou bodes), tocando trompa e
acompanhados de uma matilha de cães negros, medonhos, com grandes olhos. Isso durou toda a
Quaresma, até a Páscoa, e não se sabe quando terminará. A crônica responde um pouco mais adiante à
pergunta feita: em 1132. o rei, compreendendo enfim a perfídia de Henri de Poitou, retira-lhe a abadia,
expulsa-o do país e nomeia um novo abade, Martin, cuja conduta é exemplar. Notemos aqui, pela
primeira vez, o tema da caça, e também o laço entre a fraqueza do poder real e a aparição da Caça
selvagem. Quanto mais o poder real, para o melhor ou para o pior, faz sentir sua presença — e esse será
cada vez mais o caso na Inglaterra no século XII-, mais a tropa dos caçadores e dos guerreiros mortos
tenderá a identificar-se à monarquia feudal no modo invertido de uma realeza infernal.
Exatamente nos mesmos anos, mas no continente, a crônica dos bispos do Mans leva em conta as
calamidades, guerras e fomes que oprimem os habitantes dessa região. Em 1135, ocorre um
"inacreditável prodígio" que dá testemunho, segundo o cronista, das inumeráveis ciladas do Inimigo. A
casa do preboste Nicolas é assombrada por um espírito — um "fauno", diz o clérigo em seu latim — que
prega peças nos habitantes, faz barulho, desloca a louça, emaranha os fios que a mulher de Nicolas
preparou para tecer. Conjurado por um padre, o espírito nomeia-se, mas sem se mostrar: é Garnier, o irmão defunto de Nicolas, e pede aos seus que o libertem por missas e esmolas aos pobres. Esses
sufrágios o separarão das "tropas más" que o acompanharam até então e que tentam introduzir o mal na
casa.{244} Nesse texto, a própria tropa dos mortos (ou dos demônios?) não é descrita; como acontece com
freqüência, ela é apenas evocada na sombra, atrás da figura ou da voz do único morto que se manifesta .
{245}
Na Alemanha, o texto mais explícito desse período provém da crônica de Ekkehard de Aura sobre
o Saale, na Francônia. Em suas últimas páginas, a crônica relata o conflito do Sacerdócio e do Império
até a concordata de Worms de 1122 e a morte do imperador Henrique V em 1125 (data em que se
interrompe o texto). Mais uma vez, as turbulências eclesiásticas são acompanhadas de prodígios e de
sinais: intempéries (tempestades na diocese de Trier e na Saxônia, estrelas cadentes), acidentes (uma
torre da abadia de Fulda desaba), visões inquietantes ou terrificantes. Fenômenos estranhos, e dos mais
heterogêneos aos nossos olhos, são anotados e postos lado a lado: em 1120, na Saxônia, várias noites
seguidas, sentinelas viram um homem incandescente transpor um prado separando duas fortalezas.{246} Em
1123, revoltas irrompem na Saxônia e depois em toda a Alemanha, tropas de salteadores a cavalo
invadem as aldeias e as igrejas, despojam os camponeses, incendeiam e furtam as reservas de alimento,
provocando a penúria. Imediatamente depois, na diocese de Worms, viu-se durante vários dias uma
"multidão fortemente armada de cavaleiros errantes" sair em tropas (turmas) de uma montanha, para
voltar a ela na hora da noa. Fazendo o sinal-da-cruz, os habitantes interrogam um membro da tropa
(persona), que assegura que não são fantasmas (fantasmata, ilusões do diabo), tampouco verdadeiros
cavaleiros (milites), mas as almas de cavaleiros mortos recentemente em combate. As armas, os trajes,
os cavalos, que foram instrumentos de seus pecados, são agora os instrumentos incandescentes de seus
tormentos. O conde Emicho (morto no combate em 1117) apareceu na companhia deles e teria assegurado
que preces e esmolas podiam resgatá-lo. {247} Esses cavaleiros fantásticos que vão e vêm são os duplos da
horda bem real dos cavaleiros salteadores.
Em todos esses testemunhos, a tropa fantástica não tem nome particular. Em compensação, cerca de
meio século depois do testemunho de Orderic Vital e, mais uma vez, no domínio anglo-normando, vê-se
ressurgir o nome do bando Hellequin. Suas atestações bem localizadas explicam-se sem nenhuma dúvida
pelo povoamento anglo-saxão e depois escandinavo dessas regiões. Mas devemo-las a clérigos que
estimaram essas tradições locais dignas de figurar em seus textos latinos. Ora, aqueles que, mais do que
outros, podiam ver-lhes o interesse eram os monges e, sobretudo, os clérigos franco-normandos,
anglonormandos ou anglo-galeses, homens de fronteiras e testemunhas da diversidade das etnias e das
línguas, alguns deles ligados à corte mais brilhante e mais variegada da época, uma das mais contestadas
também, a dos Plantagenetas.
OS USOS POLÍTICOS DO BANDO HELLEQUIN
Em 1175, em uma carta dirigida aos capelães da corte anglo-normanda, Pierre de Blois, teólogo,
arcediago de Bath e conselheiro do rei, fustiga os clérigos da corte (curiales) que sonham apenas com
ambição mundana: perseguindo-os com sua ironia, chama-os "os mártires do século, os professores
mundanos, os discípulos da corte, os cavaleiros de Herlevinus" que, em suas tribulações, ao contrário
dos verdadeiros mártires que alcançam o reino dos céus, dirigem-se para o inferno. Os curiales, segundo
o arcediago, assemelham-se ao exército errante dos condenados. A metáfora parece ter sido comum:
reencontramo-la desenvolvida por Gautier Map, em dois capítulos do De nugis curialium. {248} De saída,
Gautier Map assimila os deslocamentos incessantes da corte de Henrique II à vagueação do bando
Hellequin (cetus et phalanges Herlethingi), "no qual aqueles que sabíamos mortos apareceram vivos".
Parece mesmo que a corte de Henrique n tenha substituído o exército fantástico, pois este desapareceu
desde o primeiro ano do reinado desse rei (1154-55). Antes, o bando Hellequin era "famoso" na
Inglaterra, fora igualmente visto nas fronteiras de Gales e de Hereford; alguns, na Bretanha, haviam
mesmo arriscado a vida (como Walchelin, segundo Orderic Vital), apoderando-se dos cavalos dos
mortos. Mas o interesse principal do texto é propor uma explicação do nome do bando Hellequin, dar um
rosto a seu chefe epônimo e, sobretudo, enunciar um verdadeiro mito de origem do bando, que remete às
origens celtas do povoamento da Grã-Bretanha.{249} O nome do bando viria do rei dos antiquíssimos
bretões, o rei Herla, que fizera um pacto com o rei dos anões (dos "pigmeus", diz nosso autor), isto é, dos
mortos. {250} Este convidou-se para as bodas de Herla com a filha do rei dos francos e, nessa ocasião, dá a
seu anfitrião imensos presentes. Um ano mais tarde, Herla dirige-se por sua vez a uma caverna, onde
descobre o suntuoso palácio do anão. Este último celebra suas bodas, e deixa Herla partir novamente
carregado de presentes: "cavalos, cães, falcões e todas as coisas necessárias à caça com cães corredores
e à falcoaria"; o rei dos anãos o presenteia também com um pequeno buldogue (o inglês bloodhound
traduz bem a denominação latina canis sanguinarius, que exprime a crueldade do animal). Ele devará
carregá-lo sobre seu cavalo, tomando cuidado, ele e os seus, de não descer ao solo antes do cão, sob
pena de ser reduzido a pó. Quando Herla sai da caverna, compreende, interrogando um pastor, que dois
séculos se passaram desde sua partida, enquanto acreditava ter se ausentado apenas três dias. Uma
população nova, os saxões, ocupa agora o país dos bretões. Ele está condenado a vagar perpetuamente
com seu exército, visto que o cão jamais saltará ao solo. Sua vagueação, que o pune por ter feito um
pacto com o rei dos mortos, prefigura, segundo Gautier Map, as tribulações da corte de Henrique II.
Desse relato, em que vários motivos folclóricos deixam-se identificar facilmente (como o do
escoamento diferente do tempo neste mundo e no além), {251} reteremos sobretudo o tema do pacto entre o
vivo e o morto. Ele é essencial ao relato, pois Gautier Map faz da aceitação desse pacto o erro
fundamental do rei Herla e a razão de seu castigo. Esse pacto evoca um pacto diabólico, mas é
importante notar que Gautier Map não o nomeia assim e mantém, ao contrário, toda a ambivalência do
relato. O erro do rei Herla reside sobretudo no desequilíbrio da troca: por seus dons redobrados, o anão arruína a relação de reciprocidade que ele próprio propusera. Sem esperar nenhuma retribuição, o
doador dobra a parada: esmaga o outro cone seus presentes. O rei Herla é literalmente paralisado pelas
larguezas de seu parceiro, a ponto de não poder mais descer do cavalo. É isso que o condena à
vagueação dos mortos.
A falsa troca entre Herla e o anão e suas conseqüências fazem compreender melhor outras situações
perigosas em que a troca entre um vivo e um morto revela-se impossível: esse é o caso no relato de
Orderic Vital, quando Walchelin tenta apropriar-se de um cavalo pertencente aos mortos; por essa falta,
ele deveria ter morrido e ser levado por estes últimos. No começo do século XIII, Gervais de Tilbury
confirma que essa má ação custou a vida de homens muito temerários da Inglaterra e da Bretanha. Só uma
relação de perfeita reciprocidade, em que uma retribuição espiritual corresponde a um dom material,
pode ter efeitos benéficos: Walchelin, dizendo missas salutares por seu irmão morto, saldará a dívida que
contraiu em relação a ele quando este, em vida, pagou-lhe os estudos na França. A troca é então perfeita.
e salva tanto o vivo (que sobreviveu a esse encontro com os mortos) quanto o morto, cujos tormentos
cessarão ao fim de um ano. Mas vê-se também qual é a condição social dela: se tão-somente o sacrifício
da missa e as preces permitem metamorfosear os bens materiais em bens espirituais, a mediação da
Igreja, que tem o monopólio de tal operação, vai introduzir-se necessariamente em todas as relações
entre os vivos e os mortos.
No curso do século XIII, vê-se a área geográfica na qual é mencionado o bando Hellequin
estender-se para o leste da França e a Itália. É possível que a circulação da informação nos meios
letrados explique em parte essa difusão. Mas é igualmente certo que o nome, assim como o fenômeno,
devia preexistir ao seu reconhecimento pela cultura erudita. Esse nome passa por novas transformações,
que suscitam da parte dos clérigos uma curiosidade etimológica crescente. Na diocese de Beauvais, o
cisterciense Hélinand de Froidmont (morto em 1230), exclérigo secular, discípulo indireto de Abelardo,
troveiro e poeta da morte, apresentou em sua autobiografia (De cognitione sua) uma evocação muito
precisa do bando Hellequin.{252} Ele o introduz em uma passagem sobre o conhecimento que o homem
deseja ter de seu destino depois da morte. Para esse fim, as Moralia de Gregório, o Grande, o De
consideratione de são Bernardo, mas também os autores pagãos, lhe são úteis. No entanto, segundo ele,
Virgílio engana-se quando pretende que os heróis mortos aparecem aos vivos nos trajes que eram os
deles e conservam a preocupação com os cavalos, armas e bigas que possuíam neste mundo. Virgílio
estaria, assim, na origem do erro hoje partilhado pelo "povo" (vulgus) a respeito do bando Hellequin
(familia Hellequini). Seguem-se dois relatos que Hélinand deve a informadores muito próximos dele.
O bispo Henri de Orléans, irmão do bispo de Beauvais, tinha o costume de contar uma coisa
maravilhosa (rem valde mirabilem) que ouvira da própria boca da testemunha, um cônego de Orléans
chamado Jean. Este ordenara a um clérigo a seu serviço, Noël, que acompanhasse a Roma o arcediago
Bourchard de Pisy. Ele o protegeria e faria suas contas. Antes de separar-se, Jean e Noël fizeram um
pacto: o primeiro que morresse apareceria ao outro (socius) em trinta dias, não para amendrontá-lo, mas para avisá-lo e informá-lo sobre seu estado. Quando os dois viajantes aproximam-se de Roma, eclode um
conflito entre eles por uma questão de dinheiro, e Noël vota-se ao demônio, proferindo uma blasfêmia.
No mesmo dia, ao atravessar um rio, afoga-se. Na noite seguinte, Jean repousa desperto em seu leito, com
a lâmpada acesa por causa dos terrores noturnos, quando Noël apresenta-se de súbito diante dele vestido
com uma belíssima capa contra a chuva, da cor do chumbo. Jean espanta-se de vê-lo tão cedo de volta da
viagem, mas o outro lhe revela que está morto e sofre grandes tormentos por ter se votado ao diabo pouco
antes de afogar-se acidentalmente. Sem essa falta, a única que cometeu depois de sua última confissão,
teria evitado aquelas provações. A capa que usa pesa-lhe mais do que se carregasse "a torre de Parma"
nos ombros, mas sua beleza simboliza a esperança do perdão (spes veniae) proporcionada por sua última
confissão. Jean promete ajudá-lo, mas antes lhe pergunta se ele faz parte da militia Hellequini. Noël o
nega, dizendo-lhe que esta pôs fim há pouco à sua corrida, "pois terminou sua penitência". Antes de
desaparecer como chegara, o morto assinala que a denominação popular Hellequinus é falha, e que é
preciso dizer Karlequinus, do nome do rei "Carlos Quinto", que expiou longamente seus pecados e foi
libertado recentemente pela intercessão de são Dioniso.
Hélinand deve o segundo relato a seu tio paterno, Hellebaud, excamareiro do falecido arcebispo de
Reims, Henri. Como seu tio e seu servidor cavalgassem em direção a Arras por ordem do arcebispo,
encontram em uma floresta, ao meio-dia, num fragor de cavalos, armas e gritos de guerra, uma multidão
de almas de defuntos e de demônios. Escutam-nos dizer que o preboste de Arques doravante lhes
pertence e que em breve teriam também o arcebispo de Reims. Fazendo o sinal-dacruz, Hellebaud e seu
companheiro aproximam-se do bosque, mas as "sombras" desaparecem e eles não captam mais suas
palavras, mas apenas ruídos confusos de armas e de cavalos. De volta a Reims, encontram o arcebispo
muito mal: ele morre em quinze dias e sua alma é levada por aqueles maus espíritos. Em sua tropa, os
cavalos montados pelas almas dos defuntos não são mais que demônios que tomaram essa forma, e as
armas que elas carregam pesadamente têm o peso de seus pecados.
O interesse desses dois relatos vai bem além dos dois pontos que Hélinand de Froidmont pretende
demonstrar: por certo, as vestimentas e os cavalos dos mortos não são os que eles possuíam em vida, mas
os sinais das provações que lhes infligem os demônios. A racionalização erudita do nome do bando
provém da homofonia de Hellequin e Charles Quint. A menção de são Dioniso permite ver aí uma vaga
referência aos carolíngios, dos quais muitas visões descrevem há muito tempo os tormentos no além. {253}
Como em Gautier Map, supõe-se que a vagueação do bando Hellequin teve fim recentemente: trata-se de
uma convenção narrativa que consiste em afastar as tradições folclóricas para um passado findo (como se
fala hoje das tradições que teriam desaparecido depois da guerra de 1914-18)? Ou deve-se ver aí o
indício de uma evolução objetiva da crença? No caso de Hélinand, a menção desse desaparecimento está
de acordo com a idéia de que o bando Hellequin, mais que um exército de condenados, é uma espécie de
purgatório itinerante. De fato, a ambivalência caracteriza essa tropa que, embora infernal, por vezes
oferece ainda alguma esperança de salvação às almas mortas que arrasta consigo. O "nascimento do purgatório" no fim do século XII não precipitou, ao contrário, a diabolização da tropa dos mortos ou
mesmo convenceu alguns de que desaparecera, já que, em sua função penitencial, de agora em diante não
tinha mais razão de ser?
Mais ou menos na mesma época e no mesmo meio cisterciense, o monge Herbert de Clairvaux,
abade de Mores, no Jura (morto em 1190), dá um lugar ao bando Hellequin em seus Livros dos milagres
dos monges cistercienses. {254} Um irmão do mosteiro de Vauluisans (no Yonne), Zacharie, tinha o costume
de contar a visão que tivera na juventude e que o decidira a entrar no mosteiro. Jovem camponês
vigiando as colheitas à noite, armado de um arco, ele encontra em pleno campo uma mulher que acredita
reconhecer, depois uma espécie de homem (quasi homo), que toma por um ladrão. A mulher anuncia-lhe
que ele vai ver a familia Herlequini: com um fragor insustentável, aparece, com efeito, deslocando-se no
ar sem tocar o solo, uma multidão "fantástica" de "forjadores, artesãos do metal, marceneiros, canteiros,
curtidores, tecelões e pisoeiros e homens de todos os outros ofícios mecânicos", submetidos a terríveis
provações. Um deles, que traz um aríete nos ombros, vem na direção do rapaz, a quem proíbe dizer uma
única palavra e pelo qual se faz reconhecer: é seu velho amigo (sodalis tuus, familiariter in amicitia
iunctus), que lhe pede que restitua a uma pobre viúva o ariete que roubou dela. Assim, será libertado de
suas provações. Antes de desaparecer com os outros mortos, indica-lhe ainda "muitas outras coisas".
Essa relação de reciprocidade entre vivo e morto agora nos é familiar. Da mesma maneira, a proibição
(que aqui incide sobre a palavra) e mesmo o vôo no ar lembram as desventuras do rei Herla, condenado
com seus companheiros a nunca mais tocar o solo. {255} Inteiramente original, em compensação, é esse
bando Hellequin da "terceira função", do qual Orderic Vital contentava-se em indicar a possibilidade. O
próprio visionário é um simples vigia campestre e não vê na tropa dos mortos nem cavalo, nem cão, nem
cavaleiro, mas apenas artesãos torturados pelas ferramentas que haviam usado em vida, a exemplo dos
condenados esculpidos no tímpano de Conques. {256} Nenhuma falta precisa, contudo, parece reprovar
esses infelizes: as "artes mecânicas" são, por princípio, condenáveis?
Para a Igreja, o verdadeiro perigo não deixa de vir da "segunda função" e é ela, com suas
atividades violentas favoritas, que ocupa o imaginário do exército furioso. Trata-se sobretudo da guerra,
mas encontrou-se também o tema da caça. Eis, enfim, o torneio: citando o testemunho de um monge de
Villers, no Brabant, o cisterciense Césaire de Heisterbach, na distinção XII — consagrada aos mortos —
de seu Dialogus miraculorum (por volta de 1223), evoca sucessivamente o "torneio dos demônios", que
um servidor do conde de Looz teria avistado no local onde transcorreu na véspera uma batalha sangrenta,
e o "torneio dos mortos" (tornamentum mortuorum), no qual um padre teria visto uma noite, em pleno
campo, enfrentar-se cavaleiros recém falecidos.{257}
HELLEQUIN OU ARTUR?
A DIABOLIZAÇÃO DA TROPA DOS MORTOS
No começo do século XIII, Gervais de Tilbury cita, entre os mirabilia que coleciona, numerosos
relatos de aparições coletivas de mortos. Na Catalunha existe uma rocha cujo cume é plano e onde, ao
meio-dia, enfrentam-se misteriosos cavaleiros. Se alguém se aproxima, a visão desaparece. {258} Na
Sicília, o Etna é considerado desde a Antiguidade como a boca do inferno. No começo do século XI, um
eremita, estabelecido na encosta do vulcão, escutara demônios queixar-se de que as preces de Cluny
arrancavam-lhes as almas que eles torturavam no fogo. Segundo Gervais de Tilbury, as "pessoas do
povo", os "indígenas" dizem que, "em nosso tempo", "Artur, o Grande" apareceu ali. Um jovem
palafreneiro do bispo de Catania, tendo tido de seguir, nos atalhos escarpados e nos precipícios da
montanha, um cavalo fugitivo, descobre um platô delicioso e depois um palácio onde o espera Artur,
sentado em um trono real. Artur indaga as razões de sua visita, depois restitui o cavalo e dá muitos
presentes por intenção do bispo de Catania. Ele explica também ao jovem que mora naquele palácio
subterrâneo para cuidar dos ferimentos que lhe infligiram seu sobrinho Mordred e o duque dos saxões,
Childéric, e que se reabrem todos os anos. {259}
A legenda arturiana difundiu-se desde o século XII na Itália, particularmente no sul da península e
até a Sicília, sob a influência da cavalaria normanda. {260} A figura do rei Artur dá testemunho disso desde
cerca de 1165 nos mosaicos do pavimento da catedral de Otranto (fig. 10). O rei Artur, identificado por
uma inscrição (rex Artus), coroado, armado de uma espécie de clava, levantando o braço direito, cavalga
um bode; em tomo dessa figura, avista-se um homem nu que parece olhar a cena, um felino erguido diante
do bode, um cão (?) que derruba um homem. A cena está situada entre a da expulsão de Adão e Eva do
paraíso terrestre e as do sacrifício de Caim e Abel e do assassinato deste pelo irmão. As mais diversas
interpretações dessa figura de Artur foram propostas. Pretendeu-se ver aí, notadamente, um personagem
positivo, de acordo com a felicidade do palácio de Artur no relato de Gervais de Tilbury; a proximidade,
no mosaico, do rei Artur e do sacrifício de Abel incitaria a defender essa hipótese. {261} Mas isso é
esquecer um pouco depressa a conotação muito negativa do animal cavalgado por Artur (e que é também
a montaria do rei dos anões no relato de Gautier Map), assim como das cenas vizinhas no mosaico e dos
outros relatos contemporêneos referentes ao rei legendário. {262} Em 1223, o cisterciense Césaire de
Heisterbach transmite dois relatos, explicitamente qualificados de mirabil ia, um dos quais ele deve a um
cônego de Bolonha, o outro a dois abades da corte — amplamente italiana-do imperador Frederico II. {263}
Um servidor do bispo de Palermo procura na encosta do Etna (mons Gvber) um cavalo que fugiu.
Encontra um velho que lhe diz que seu senhor, o rei Artur, retém o cavalo na montanha em fogo. O velho
encarrega o servidor de dizer ao bispo que venha à corte de Artur em catorze dias, sob pena de um
severo castigo. De volta, o servidor informa seu senhor, que ri da história e não obedece. No dito dia, ele
morre. De acordo com o segundo relato, homens ouviram nas encostas do Etna as vozes dos demônios
preparando um fogo para ali queimar a alma do duque Bertolphe que acabava de morrer. Césaire
(contradizendo implicitamente a Vida de Odilon de Cluny) afirma que o Etna é a "boca do inferno" e não o "purgatório", pois para lá vão apenas os condenados, como o rei dos godos, Teodorico, segundo os
Diálogos de Gregório, o Grande (IV, 30). A comparação desses dois relatos é interessante: no primeiro,
Artur é o rei da morte, como o rei dos anões em Gautier Map. E o bispo de Palermo deveria ter se
dirigido à corte do rei Artur no Etna como Herla aceitou dirigir-se ao palácio subterrâneo do pigmeu:
com certeza, teria trazido de volta seu cavalo, mas com o risco de ser condenado, ele também, a uma
vagueação perpétua. No segundo relato, o nome de Artur não é pronunciado, mas o vulcão é o mesmo:
ressurge aqui a velha tradição do Etna infernal, desviando a interpretação do relato para um sentido
negativo e preparando a assimilação de Artur e do diabo.
Artur, rei ambivalente dos mortos (em Otranto, em Gervais de Tilbury e ainda no primeiro relato de
Césaire de Heisterbach), é assim progressivamente diabolizado (no segundo relato de Césaire), da
mesma maneira que o bando Hellequin toma um sentido cada vez mais negativo. Graças a essa dupla
evolução, vários testemunhos aproximam explicitamente ou mesmo confundem os nomes de Hellequin e
de Artur. Ao inglês Gervais de Tilbury, a história do cavalo fugitivo do bispo de Catania lembra os
relatos de aparição do bando Hellequin ouvidos na Bretanha e na Inglaterra: na Grande e na Pequena
Bretanha, diz ele, os guardas-florestais contam que ao meio-dia e no começo da noite, quando a lua está
cheia, é muito freqüente ver e ouvir uma multidão de caçadores, com seus cães e suas trompas; eles
chamam a si mesmos, segundo essas testemunhas, de "societas ou familia Arturi". A substituição do nome
de Hellequin pelo de Artur é evidente. Artur, como Herla em Gautier Map, passava por ter sido o "rei
dos antiquíssimos bretões". {264} A assimilação deles é ainda mais clara na metade do século XIII em um
exemplum {265} do pregador dominicano lionês Étienne de Bourbon (morto em 1261). Os nomes dos dois
personagens estão desta vez ligados um ao outro e associados ao tema do reino subterrâneo. Mas o
quadro ideológico do relato é bem diferente do apresentado por Gautier Map e Gervais de Tilbury. Ao
prazer do relato sucedeu a demonstração escolástica, à ambivalência dos mirabilia, a vontade de dar a
todos os fenômenos um sentido unívoco e diabólico que o exemplum do sermão tem por função impor. No
crédito que o povo (vulgus), os camponeses (rustici) e, particularmente, as mulheres velhas (vetulae)
dão aos sonhos, o pregador (que é também inquisidor) entrevê a "antiga superstição" e a sobrevivência
do paganismo, sob a influência das ilusões do Inimigo. Com efeito, para enganar melhor as almas
simples, os demônios por vezes tomam a aparência de cavaleiros que são vistos caçando ou combatendo
em torneio na finnilia Allequini vel Arturi. Étienne de Bourbon ouviu dizer que um camponês do Jura,
que carregava um feixe de lenha ao luar na encosta do Mont-Chat, viu passar uma matilha de cães e uma
tropa de caçadores a cavalo e a pé e seguiu-os até um palácio magnífico, o do "rei Artur". Ali, cavaleiros
e damas dançam, jogam e festejam. Ele é conduzido ao quarto de uma delas, maravilhosamente bela.
Adormece em seu leito, mas, de manhã, desperta deitado sobre seu feixe de lenha, "bem enganado pelos
diabos". Um outro camponês encontrou a mesma tropa de cavaleiros, que se viravam uns para os outros,
interrogando-se: "Este capuz me cai bem?". O capuz ou a capa é o traje específico dos mortos e o
instrumento de seus tormentos. {266} No entanto, mais do que nunca, em Étienne de Bourbon os mortos confundem-se com os demônios. O fausto e as festas de seu palácio não são mais os atributos do conto
maravilhoso, mas perigosos fantasmata diabólicos que, ao amanhecer, desvanecem-se como os sonhos.
Hellequin, Herla, Artur são os nomes de um mesmo personagem mítico, o rei dos mortos, que, ora à
noite nas florestas ou na estrada principal cavalga à frente de sua tropa furiosa, ora reina em seu palácio
subterrâneo na fronteira do País de Gales, no Etna ou no Mont-Chat, atraindo os vivos para uma prática
do dom e da retribuição na qual a vida e a morte são os prêmios. Ora, em meio século, os pregadores
formados na teologia escolástica sucedem aos clérigos de corte ávidos de mirabilia. Eles terminam por
substituir o rei dos mortos pelo diabo. Mesmo que não excluam totalmente que a tropa furiosa possa ter
um aspecto penitencial (e oferecer a alguns de seus membros uma esperança de salvação), o bando
Hellequin afasta-se cada vez mais do mundo a uma só vez material e imaginário regido pela economia
dos sufrágios pelas almas penadas. Um dos grandes teólogos dessa geração, o bispo de Paris Guillaume
de Auvergne, dá testemunho dessa evolução assim como dessas hesitações, quando é o primeiro a propor
em seu {267} De universo (composto entre 1231 e 1236) uma verdadeira teoria do bando Hellequin. Ele
parece hesitar entre duas interpretações: trata-se de almas penadas ou de espíritos malignos{268} que
tomam à noite a aparência (similitudines) de cavaleiros, "que em francês são chamados hellequin e em
espanhol {269} o antigo exército ( exercitus antiquus )"? Em todos os casos, não se vêem verdadeiros
cavalos, verdadeiras armas, uma verdadeira cavalgada, mas apenas "sinais" destinados a terrificar os
maus e a suscitar os sufrágios pelas almas dos defuntos. Essas aparições produzem-se de preferência nas
encruzilhadas, pois, em razão do número de pessoas de toda espécie que passam por ali, esses lugares
são mais "poluídos" que os campos (a teologia não ignora a ecologia!). Nesses lugares sórdidos, os
vivos têm a revelação dos castigos que os maus padecem no além, das causas de suas penas e dos
sufrágios que lhes convêm. No lugar do purgatório (locus purgatorii), sobre o qual Guillaume de
Auvergne afirma que é um lugar único e uma "habitação terrestre", as penas expiatórias são adaptadas às
faltas pelas quais os mortos não fizeram penitência em vida. Deus permite essas aparições para que os
que abusam das armas (abusores armorum) e cometem assassinatos e rapinas vejam com terror os
castigos dos que, em seu tempo, agiram de maneira semelhante: não se poderia definir melhor a função
ideológica que a Igreja atribui ao bando Hellequin, nesse espelho moral que ela estende àqueles cujo
ofício é a violência.
Com esse fim, Guillaume de Auvergne estabelece um elo explícito entre a tropa dos mortos e o
purgatório, como se a primeira saísse periodicamente do segundo. Mas pode-se perguntar, sobretudo, se
o desenvolvimento da doutrina do purgatório como lugar particular e fixo de expiação individual das
almas no além não arruinou a possibilidade de uma itinerância "purgatória". Restaria então apenas a
seguinte alternativa: seja o desaparecimento definitivo do bando Hellequin (é o que pretendem Gautier
Map e Hélinand de Froidmont), seja sua diabolização completa. Ao confinamento individual das almas
penadas no purgatório opõe-se o exército furioso e indomado dos "maus espíritos".
Assim triunfa no século XIII uma interpretação religiosa e moral do tema do bando Hellequin. Nos
relatos anteriores, o tema participava simultaneamente de estratégias seculares do poder e da ideologia
monárquica. Em Sainte-Foy de Sélestat, tratava-se, ao lado da confirmação de uma fundação monástica,
da expressão retrospectiva de uma profecia política em benefício dos Hohenstaufen. Na crônica
anglosaxônica de Peterborough, a aparição da tropa furiosa acompanha a escolha infeliz, pelo rei
Henrique I, de um abade indigno. Para o conselheiro do rei, Pierre de Blois, o bando Hellequin era uma
metáfora da corte real, voltada contra os curiales corrompidos. No relato de Gautier Map, a dinastia dos
Plantagenetas é situada na sucessão dos reinos bretão e depois saxão da Inglaterra. Segundo Gervais de
Tilbury, são os guardas-florestais do rei que testemunham as aparições da familia Arturi, de maneira que
orei legendário e orei real parecem exercer conjuntamente e disputar entre si a soberania sobre os
mesmos terrenos de caça. O poder mítico do rei dos mortos não devia reforçar a legitimidade e a eficácia
do poder do rei dos vivos no espaço ciosamente vigiado da floresta? Para proteger suas florestas e seu
direito exclusivo de caça, o rei podia tirar partido dos terrores que o bando Hellequin inspirava em seus
súditos.
Nos exempla, ao contrário, o único rei ao qual Hellequin-Artur está associado é o diabo, soberano
do inferno. O quadro de referência não é mais a ideologia monárquica, mas a teologia moral, as atitudes
penitenciais e a angústia da "morte de si" que pregadores e confessores, na linha do IV Concílio de
Latrão (1215), esforçam-se por inculcar no "povo cristão". Enfim, em Paris, no começo do século XIV,
sob a forma literária do Roman de Fauvel, nos anos conturbados do fim do reinado de Filipe, o Belo, a
sátira moral, a ideologia política e o rito folclórico do charivari se encontrarão na evocação de
Hellequin, o rei dos mortos e das máscaras.