Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 10 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 8

 

Mrs. Jennings era uma viúva com uma polpuda renda[1]. Teve duas filhas, que eram respeitavelmente bem casadas e, portanto, agora não tinha mais nada o que fazer senão casar o resto do mundo. Ela se esforçava ao máximo na tentativa de cumprir esse objetivo de maneira bastante zelosa e não perdia nenhuma oportunidade de planejar casamentos entre os jovens que conhecia. Era muito rápida para descobrir quem se sentia atraído por quem, e apreciava a vantagem de provocar rubores e aguçar a vaidade de muitas jovens com insinuações relacionadas ao poder que exerciam em determinados jovens cavalheiros. Com esse tipo de discernimento, foi capaz de, assim que chegou a Barton Park, dizer que o Coronel Brandon estava muito apaixonado por Marianne Dashwood. Ela até suspeitara disso na primeira noite em que estiveram juntos, pois ele a ouvia cantar com muita atenção e, quando os Middleton retribuíram a visita, jantando no chalé, o fato foi confirmado ao vê-lo escutá-la de novo. Estava totalmente convencida. Seria uma excelente união, porque ele era rico e ela bonita. Mrs. Jennings estava ansiosa para ver o Coronel Brandon bem casado, desde o dia em que o conheceu, além disso, sempre estava à procura de um bom marido para uma jovem bonita.

A vantagem imediata que obteve não foi insignificante, já que lhe forneceu infinitas piadas à custa de ambos. Em Barton Park, ela ria do Coronel; no chalé, ria de Marianne. Para o primeiro, essa zombaria era indiferente, desde que atingisse apenas a ele; mas em relação à Marianne, era algo incompreensível e quando esta entendeu seu objetivo, não sabia se ria desse absurdo ou se censurava a impertinência de Mrs. Jennings, já que considerava os comentários insensíveis e desrespeitosos, considerando a idade avançada do Coronel e sua condição de solteirão.

Mrs. Dashwood, que não achava um homem cinco anos mais jovem do que ela tão extremamente velho como parecia à jovem imaginação de sua filha, tentou defender Mrs. Jennings de estar ridicularizando a idade do Coronel.

– Ao menos mamãe, você não pode negar o absurdo que é essa acusação, mesmo que não acredite que seja intencionalmente maliciosa! Com toda certeza o Coronel Brandon é mais jovem que Mrs. Jennings, porém ele é velho o suficiente para ser meu pai e, se alguma vez já teve ânimo o suficiente para se apaixonar, deve ter sobrevivido a qualquer sensação desse tipo. É muito ridículo! Quando um homem poderá libertar-se de tais brincadeiras, se a idade ou a doença não o protegerem?

– Doença! – disse Elinor. Você acha que o Coronel Brandon é doente? Estou certa que a idade dele lhe parece muito maior do que para minha mãe, mas deve admitir que ele faz um bom uso de seus membros!

– Você não o ouviu reclamando de reumatismo? E não é essa a enfermidade comum em pessoas mais velhas?

– Minha querida filha – disse sua mãe rindo – então você deve pensar que eu também estou a caminho do declínio e deve parecer-lhe um milagre que minha vida tenha se estendido à avançada idade de quarenta anos.

– Mamãe, você não está sendo justa comigo. Eu sei muito bem que o Coronel Brandon não é velho o bastante para fazer com que seus amigos fiquem temerosos por perdê-lo devido ao curso natural das coisas. Ele deve viver mais vinte anos. Porém, trinta e cinco anos não é mais idade para se casar.

– Talvez – disse Elinor, – trinta e cinco anos e dezessete não combinem para um casamento entre si. Mas, se por acaso houvesse uma mulher de vinte e sete anos, não penso que a idade do Coronel Brandon fosse motivo de objeção para que se casassem.

– Uma mulher de vinte e sete anos – disse Marianne depois de um momento de pausa, – jamais poderia ter a esperança de sentir ou inspirar afeição novamente. E se sua casa não for confortável, ou sua fortuna for pequena, suponho que poderia se submeter ao ofício de

enfermeira do marido, em troca da segurança financeira como esposa. Se ele se casasse com uma mulher nessa condição, não haveria nada de inapropriado. Seria um pacto de conveniência e todos ficariam satisfeitos. Aos meus olhos não seria de modo algum um casamento, mas isso não importa. Para mim, se pareceria apenas com um contrato comercial, onde cada um se beneficiaria à custa do outro.

– Seria impossível, eu sei, convencer-lhe de que uma mulher de vinte e sete anos poderia sentir algo muito parecido com amor por um homem de trinta e cincos anos, de modo que se torne uma companhia agradável para ela – respondeu Elinor. – Não concordo que você aprisione o Coronel Brandon e sua esposa ao confinamento de uma casa de doente, meramente porque ele se queixou ontem (um dia muito frio e úmido) de uma leve dor reumática em um de seus ombros.

– Mas ele mencionou coletes de flanela[2] – disse Marianne – e para mim um colete de flanela está invariavelmente ligado a dores, câimbras, reumatismos e toda espécie de males que podem atingir as pessoas mais velhas e fracas.

– Se ele tivesse apenas uma febre violenta, você não o desprezaria tanto. Confesse, Marianne, você não se sente interessada pelo rosto vermelho, os olhos vazios e a pulsação rápida de uma pessoa com febre?

Logo em seguida, depois que Elinor deixou a sala, Marianne disse:

– Mamãe, preocupo-me muito em relação às enfermidades e não posso esconder isso de você. Tenho certeza que Edward Ferrars não está bem. Já estamos morando aqui há quase quinze dias e ele ainda não veio nos visitar. Nada além de uma verdadeira indisposição poderia ser o motivo desse atraso extraordinário. O que mais poderia detê-lo em Norland?

– Você pensava que ele viria tão cedo? – disse Mrs. Dashwood. – Eu não penso assim. Ao contrário, se senti certa ansiedade a respeito do assunto, foi ao perceber que às vezes ele demonstrava certa falta de prazer diante do meu convite e pouca disposição para aceitar quando eu falava a respeito de sua vinda à Barton. Elinor já espera por ele?

– Eu nunca mencionei isso a ela, mas suspeito que ela já deva esperá-lo.

– Creio que você está enganada, pois ontem falei com ela a respeito de uma grade para a lareira do quarto de hóspedes e ela observou que não havia necessidade de pressa, já o que o quarto não seria usado tão cedo.

– Que estranho! O que pode significar isso? Mas todo o comportamento de um para com o outro tem sido inexplicável! Como foram frios e formais na hora da despedida! Como foi lânguida a conversa entre os dois na última noite em que estiveram juntos! Ao dizer adeus, Edward não fez distinção entre Elinor e eu, para ambas teve apenas desejos bons como um irmão afetuoso. Na última manhã, eu, propositadamente, deixei os dois a sós por duas vezes e a cada vez, de maneira inexplicável, ele me seguiu. Já Elinor, ao deixar Norland e Edward, não chorou mais que eu. Inclusive agora, seu autocontrole é o mesmo. Quando a vemos abatida ou melancólica? Quando tenta evitar a sociedade ou parece inquieta e insatisfeita?

 

[1] Espécie de mesada que a viúva recebia após a morte do marido. (N. T.)

[2] No século XVIII, os coletes feitos de seda ou tecidos finos faziam parte do guarda roupa de qualquer homem elegante. No

caso do colete do Coronel Brandon, por ser de flanela, faz parecer que ele está fora de moda. (N. T.)