Razão e Sensibilidade
Capítulo 25
Embora Mrs. Jennings estivesse acostumada a passar boa parte do ano nas casas das filhas e dos amigos, não deixava de ter uma residência própria. Desde a morte de seu marido, que fora comerciante em uma parte menos elegante de Londres, passava todos os invernos nessa casa localizada em uma das ruas próximas a Portman Square. Com a chegada de janeiro, ela começou a dirigir seus pensamentos para essa casa, e um dia, repentinamente e sem que elas houvessem esperado, convidou as Dashwoods mais velhas para acompanhá-la. Elinor, sem observar a mudança de cor no rosto de Marianne e a alegre expressão de seus olhos, revelando que o plano não lhe era indiferente, recusou imediatamente em nome das duas, mas de maneira absolutamente definitiva, pensando que estava falando em nome de ambas. O motivo ao qual recorreu foi sua firme decisão de não deixar a mãe nessa época do ano. Mrs. Jennings recebeu a recusa com certa surpresa, e imediatamente repetiu o convite.
– Oh, Deus! Tenho certeza que sua mãe pode ficar sem vocês muito bem, e eu imploro que me façam companhia, pois é o que pede meu coração. Não imaginem que será algum tipo de inconveniência para mim, pois não mudarei meus planos por causa de vocês. Só terei de enviar Betty pela diligência, e creio que isso eu posso pagar. Nós três iremos bem à vontade na carruagem, e quando chegarmos a Londres, se não quiserem ir aonde eu for, muito bem, sempre poderão ir com uma de minhas filhas. Tenho certeza que sua mãe não fará nenhuma objeção, pois como tive a sorte de tirar minhas filhas das minhas costas, creio que me considerará uma pessoa muito adequada para ser responsável por vocês, e se eu não conseguir casar bem ao menos uma de vocês antes de votarmos, não será por minha culpa. Farei boas recomendações de vocês aos rapazes, podem contar com isso.
– Imagino – disse Sir John – que Miss Marianne não fará objeção ao plano, se sua irmã mais velha o aceitar. É muito duro, na verdade, que não possa distrair-se um pouco só porque Miss Dashwood não deseja. Aconselho às duas que partam para Londres assim que se cansarem de Barton, sem ao menos dizer uma palavra à Miss Dashwood.
– Não – exclamou Mrs. Jennings –, estou certa de que ficaria bastante contente com a companhia de Miss Marianne, com ou sem Miss Dashwood, só que quanto mais pessoas forem, melhor, e achei que seria mais interessante para elas irem juntas, pois se elas se cansarem de mim, poderão conversar uma com a outra e rir das minhas maneiras nas minhas costas. Mas uma ou outra, senão as duas, tenho que levar. Que Deus me abençoe! Como podem imaginar que posso viver por ai, andando sozinha, eu que até este inverno estive acostumada a ter Charlotte sempre comigo. Venha, Miss Marianne, vamos apertar as mãos para selar o compromisso, e se depois Miss Dashwood mudar de ideia, será melhor ainda.
– Muito obrigada, minha senhora, muito obrigada – disse Marianne calorosamente – seu convite garante minha gratidão para sempre, e poder aceitá-lo me fará tão feliz, sim, quase a maior felicidade que posso imaginar. Mas minha mãe, minha queridíssima e bondosa mãe... Creio que é muito justo o que Elinor disse, e se nossa ausência for motivo de infelicidade para ela, ou causar algum desconforto... Oh! Não, nada poderia induzir-me a deixá-la. Isso não pode nem deve significar algum conflito.
Mrs. Jennings afirmou novamente que Mrs. Dashwood poderia ficar sem elas muito bem, e Elinor, que agora compreendia sua irmã, e via que, indiferente a tudo o mais, ela era levada por sua ansiedade de se encontrar com Willoughby novamente, não fez mais nenhuma oposição ao plano. Apenas limitou-se à decisão da mãe, de quem, porém, não esperava receber apoio em sua tentativa de evitar uma visita que não parecia conveniente para Marianne, e que também para seu próprio bem tinha interesse em evitar. Qualquer coisa que Marianne desejasse, sua mãe estava pronta a conceder – não podia esperar induzir esta última a comportar-se com cautela em um assunto que nunca lhe inspirara desconfiança, e não ousava explicar o motivo de sua própria resistência para ir a Londres. Mesmo difícil de contentar, Marianne, que estava perfeitamente consciente dos modos de Mrs. Jennings que tanto a desagradavam, estava disposta a passar por cima de qualquer inconveniência desse tipo, desprezando o que podia ferir seus irritáveis sentimentos, apenas para alcançar seu objetivo. Era uma prova tão forte e tão completa do quanto essa viagem era importante para ela, que apesar de tudo o que ocorrera, Elinor não estava preparada para testemunhar.
Ao ser informada do convite, Mrs. Dashwood, convencida de que tal viagem proporcionaria bons momentos de diversão para suas filhas, e percebendo também toda a atenção afetuosa que as filhas tinham com ela, o quanto o coração de Marianne estava envolvido no caso, não aceitou que recusassem o convite por causa dela. Insistiu para que as duas aceitassem imediatamente, e então começou a prever, cheia de alegria, uma série de vantagens para todas que resultariam dessa separação.
– Estou encantada com este plano – exclamou – é exatamente o que eu poderia desejar. Margaret e eu seremos beneficiadas tanto quanto vocês. Quando vocês e os Middletons partirem, ficaremos tão bem juntas, quietas, com nossos livros e nossa música! Quando voltarem verão o quanto Margaret terá feito progresso! Tenho também um pequeno plano para modificar seus quartos, que agora poderá ser executado sem que lhes cause qualquer inconveniente. Parece-me que vocês devem ir a Londres; em minha opinião, todas as jovens com as mesmas condições de vida que a de vocês devem conhecer os costumes e as diversões de Londres. Ficarão sob os cuidados de uma boa mulher, muito maternal, de cuja bondade para com vocês não me resta dúvida. E é bem provável que encontrem seu irmão, e quaisquer que sejam seus defeitos, ou os defeitos de sua esposa, quando penso de quem ele é filho, não posso suportar que vocês estejam tão afastados uns dos outros.
– Mesmo que, com sua habitual preocupação com nossa felicidade – disse Elinor, – a senhora tenha vencido todos os obstáculos para que esse plano possa prosseguir, existe ainda uma objeção que, em minha opinião, não pode ser facilmente vencida.
O rosto de Marianne mudou de aparência.
– E o que – disse Mrs. Dashwood – minha querida e prudente Elinor vai sugerir? Qual obstáculo intransponível ela vai nos apresentar? Diga-me o quanto gastaremos.
– Minha objeção é esta: apesar de ter uma boa opinião a respeito da bondade de Mrs. Jennings, não é o tipo de mulher cuja companhia nos dará prazer, ou cuja proteção eleve nossa posição.
– Isso é bem verdade – respondeu a mãe – mas raramente estarão sozinhas com ela, e quase sempre aparecerão em público com Lady Middleton.
– Se Elinor não vai porque não gosta de Mrs. Jennings – disse Marianne –, não precisa impedir-me de aceitar o convite. Eu não tenho tais escrúpulos e estou certa que posso tolerar sem grande esforço todos os problemas desse tipo.
Elinor não conseguiu evitar sorrir diante desta demonstração de indiferença a respeito das maneiras de uma pessoa com a qual ela sempre tivera dificuldade de persuadir Marianne a tolerar com educação, e resolveu que, se sua irmã insistisse em ir, ela também deveria ir, pois não achava adequado que Marianne guiasse sozinha seu próprio juízo, ou que Mrs. Jennings fosse deixada à mercê de Marianne como única companhia nas horas domésticas. Essa decisão foi mais fácil de ser tomada, ao se lembrar de que Edward Ferrars, segundo Lucy lhe informou, não estaria em Londres antes de fevereiro e que até lá, fora qualquer imprevisto, sua visita já teria acabado.
– Queria que as duas fossem. – disse Mrs. Dashwood – Essas objeções são um disparate. Terão muito prazer por estarem em Londres, e especialmente por estarem juntas, e se Elinor alguma vez condescender em aceitar com naturalidade esse divertimento, ela verá como a cidade pode oferecer inúmeras maneiras de diversão; inclusive poderá ter algum prazer se melhorar o relacionamento com a família de sua cunhada.
Elinor desejava que logo surgisse uma oportunidade para tentar diminuir a confiança que a mãe tinha em seu compromisso com Edward, para que o choque fosse menor quando a verdade fosse revelada, e agora, por causa do que a mãe havia dito, embora quase sem esperanças de êxito, tratou de dar início ao seu plano dizendo com toda tranquilidade possível:
– Gosto muito de Edward Ferrars, e sempre ficarei contente em vê-lo, mas, quanto ao resto da família, para mim não faz diferença se algum dia vier a conhecê-los ou não.
Mrs. Dashwood sorriu e não disse nada. Marianne arregalou os olhos de espanto, e Elinor pensou que deveria ter ficado de boca calada.
Depois de conversarem um pouco mais sobre o assunto ficou acertado que elas deveriam aceitar o convite. Mrs. Jennings recebeu a notícia com grande felicidade, e ofereceu todo tipo de certeza sobre seu afeto e o cuidado que teria com as jovens, e não era só ela que estava encantada. Sir John estava mais do que contente, pois para um homem cuja maior ansiedade era o temor de ficar sozinho, acrescentar mais duas moças ao número de visitantes em Londres, era um fato relevante. Até Lady Middleton se deu ao trabalho de ficar alegre, o que para ela era sair do seu costume. E quanto às Steele, em especial Lucy, nunca tinham estado tão felizes em toda sua vida ao saberem da notícia.
Elinor submeteu-se ao arranjo que contrariava seus desejos com menos relutância do que havia esperado sentir. Da parte dela, não fazia diferença se iria ou não à Londres, e quando viu sua mãe tão contente com o plano, e sua irmã demonstrando seu contentamento pelo olhar, pela voz e pelas maneiras, que recuperaram completamente a animação habitual e mostravam uma alegria ainda maior que o normal, não pôde sentir-se insatisfeita com tudo aquilo, e dificilmente se permitiria mostrar-se desconfiada das consequências.
A alegria de Marianne estava quase acima da felicidade, tão grande era sua agitação e impaciência por partir. A única coisa que a fazia recuperar a calma era a pouca vontade que tinha de deixar a mãe, e no momento da partida sentiu-se bastante aflita. A tristeza de sua mãe foi um pouco menor, e Elinor era a única das três que parecia considerar a separação como algo que não fosse durar para sempre.
Partiram na primeira semana de janeiro. Os Middletons seguiriam viagem uma semana depois. As Steeles permaneceram em Barton Park, e só partiriam com o resto da família.