Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 13 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 11

 

Mrs. Dashwood e suas filhas mal podiam imaginar, assim que chegaram a Devonshire, que surgiriam, em tão pouco tempo, tantos compromissos para ocupar seu tempo, ou até que elas receberiam convites frequentes e visitas contínuas que lhes deixariam com poucas horas para se dedicarem às ocupações sérias. No entanto, assim sucedia. Logo que Marianne se recuperou, os planos de diversão, em casa e fora dela, que Sir John havia imaginado previamente, começaram a se tornar realidade. Os bailes privativos em Barton Park começaram, e fizeram tantas festas ao ar livre quanto foi possível em um outubro chuvoso. Willoughby estava incluído em cada encontro, e a descontração e familiaridade que naturalmente faziam parte destas festas foram calculadas com exatidão para aumentar a intimidade entre ele e as Dashwoods, para permitir que ele pudesse observar as qualidades de Marianne, expressar sua admiração por ela, e receber, através do comportamento dela para com ele, a mais plena segurança de seu afeto.

Elinor não se surpreendeu com o apego entre eles. Apenas desejava que tal sentimento fosse demonstrado menos abertamente, e uma ou duas vezes se atreveu a sugerir a Marianne que ela deveria agir com mais comedimento. Porém, Marianne odiava toda dissimulação quando nenhuma verdadeira desgraça poderia justificar a falta de franqueza. E empenhar-se em reprimir sentimentos que não eram em si mesmos censuráveis, parecia-lhe um esforço desnecessário, além de uma lamentável submissão da razão às noções convencionais e ao senso comum. Willoughby pensava o mesmo e o comportamento de ambos era uma ilustração de suas opiniões.

Quando ele estava presente, Marianne não tinha olhos para mais ninguém. Tudo que ele fizesse estava certo. Tudo que dissesse era inteligente. Se as noites em Barton Park terminassem com partidas de cartas, ele trapaceava a si mesmo e ao resto dos convidados para dar a ela uma boa mão. Se a diversão da noite era um baile, eles formavam par a metade do tempo, e quando se viam obrigados a dançar com outros pares, procuravam permanecer um ao lado do outro e raramente trocavam sequer uma palavra com as outras pessoas. Evidentemente tal conduta tornou-os motivo de risos, mas o ridículo não os envergonhava e nem parecia provocá–los.

Mrs. Dashwood recebia os sentimentos dos dois com tanta ternura, que lhe era impossível desejar que controlassem a excessiva demonstração de afeto entre eles. Para ela, tudo não passava da consequência natural de um afeto profundo em espíritos jovens e ardentes.

Esta foi uma época de felicidade para Marianne. Seu coração estava entregue à Willoughby, e os encantos que sua companhia lhe conferia pareciam suavizar mais do que lhe parecia possível o apego a Norland que havia trazido consigo de Sussex.

A felicidade de Elinor não era tão grande. Seu coração não estava tão contente, nem sua satisfação era tão pura com as diversões nas quais tomava parte. Não havia companhia que pudesse substituir o que fora deixado para trás, ou de levá-la a pensar em Norland com menos pesar. Nem Lady Middleton ou Mrs. Jennings podiam oferecer-lhe o tipo de conversa que lhe fazia falta, ainda que a última fosse uma conversadeira infatigável, que desde o começo tinha gostado de Elinor – o que lhe assegurava participação em todas as suas conversas. Ela já tinha contado sua história de vida duas ou três vezes a Elinor, e se a memória desta estivesse à altura dos meios de que Mrs. Jennings se valia para aumentá-la, poderia ter conhecido desde o início de sua amizade os detalhes da última doença de Mr. Jennings, e o que ele disse à sua esposa minutos antes de morrer. Já Lady Middleton era mais agradável que sua mãe, apenas por ser mais calada. Elinor precisou observá-la muito pouco para ver que sua reserva era apenas serenidade de ações e nada tinha a ver com bom juízo. Tratava o marido e a mãe da mesma maneira que tratava Elinor e sua irmã, em consequência, a intimidade não era algo que buscasse ou que desejasse. Nunca tinha algo a dizer que não tivesse sido dito no dia anterior. Sua insipidez era invariável, até seu ânimo era o mesmo, e não fazia oposição às festas planejadas pelo marido, contanto que tudo fosse feito com estilo e que seus dois filhos mais velhos a acompanhassem, parecendo não se animar com as festas mais do que se animaria se ficasse sozinha em casa. A presença de Lady Middleton agregava tão pouco prazer aos demais, quando participava da conversa, que estes apenas se lembravam dela quando demonstrava solicitude em relação aos inquietos garotos.

De todas suas novas amizades, Elinor encontrou apenas no Coronel Brandon uma pessoa que pudesse, de algum modo, ser merecedora de respeito por suas capacidades, cuja amizade tivesse interesse em cultivar ou cuja companhia lhe desse prazer. Willoughby estava fora de questão. Tinha por ele total admiração e afeto, mesmo um afeto de irmã. Mas ele era um apaixonado e suas atenções estavam todas direcionadas a Marianne – e um homem muito menos educado poderia ter sido mais agradável com os demais. O Coronel Brandon, infelizmente, não tinha tal encorajamento para pensar apenas em Marianne e encontrava, nas conversas com Elinor, o maior consolo pela indiferença daquela.

A compaixão de Elinor por ele aumentou, pois tinha motivos para suspeitar que ele já houvesse conhecido as misérias de uma decepção amorosa. Esta suspeita teve origem em algumas palavras que ele acidentalmente deixou escapar uma tarde em Barton Park, quando estavam ocasionalmente sentados juntos, enquanto os outros dançavam. Seus olhos estavam fixos em Marianne e, após alguns minutos de silêncio, ele disse, com um sorriso lânguido:

– Percebo que sua irmã não aprova segundos amores.

– Não – respondeu Elinor – suas opiniões são completamente românticas.

– Ou melhor, acredito que ela considere que não possam existir.

– Creio que sim. Mas não entendo como pode pensar assim sem refletir a respeito do caráter do próprio pai que teve duas esposas. No entanto, acredito que dentro de mais alguns anos sua opinião será mais razoável, baseada no senso comum e na observação, então, defini-la e justificá-la será mais fácil do que é hoje.

– Provavelmente é isso que vai acontecer – respondeu ele – porém, há algo de tão doce nos preconceitos de uma mente jovem que é uma pena vê-los dar lugar a opiniões generalizadas.

– Não posso concordar com você neste ponto – disse Elinor. – Sentimentos como os de Marianne apresentam inconvenientes que nem todos os encantos do entusiasmo e da ignorância do mundo podem redimir. Seu espírito tem a desafortunada tendência de valorizar insignificâncias, e espero que um melhor conhecimento de mundo lhe traga algum benefício.

Após uma breve pausa, Coronel Brandon retomou a conversa dizendo:

– Sua irmã não faz nenhuma distinção nas suas objeções a respeito de um segundo amor? Ou o considera igualmente criminoso em todos os casos? Aqueles que sofreram decepções em suas primeiras escolhas, seja pela inconstância de seus amores, seja pela perversidade das circunstâncias, deverão manter-se indiferentes pelo resto da vida?

– Dou-lhe minha palavra que não conheço minuciosamente seus princípios. Eu apenas sei que nunca a ouvi admitir que um segundo amor fosse algo perdoável.

– Isto não pode durar – disse ele – mas uma mudança, uma mudança total de sentimentos... Não. Não, não desejo isso, pois quando os refinamentos românticos de uma alma jovem se veem obrigados a ceder, muitas vezes são sucedidos por opiniões comuns e perigosas! Falo por experiência. Eu conheci uma moça com o temperamento e ânimo muito semelhantes aos de sua irmã, que pensava e julgava como ela, porém, por causa de uma mudança imposta, devido a uma série de circunstâncias impostas...

Neste momento, ele se calou repentinamente, parecia que tinha falado demais, e a expressão de seu rosto gerou suposições que de outra forma jamais teriam surgido na mente de Elinor. A moça mencionada estaria fora de suspeita se ele não tivesse convencido Elinor de que nada relacionado a esse assunto deveria ter escapado de seus lábios. Tal como ocorreu, não foi preciso nenhum esforço para ligar a emoção do Coronel com a terna lembrança de um amor do passado. Elinor não insistiu. Mas Marianne, em seu lugar, não teria se contentado com tão pouco. Com certeza, sua imaginação ativa formaria rapidamente toda a história, e tudo se conformaria à ideia melancólica de um amor infeliz.