Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 18 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 16

 

Marianne jamais se perdoaria se tivesse conseguido dormir na primeira noite após a partida de Willoughby. Não teria coragem de encarar a família na manhã seguinte se não se levantasse da cama com mais necessidade de repouso do que quando se deitara. Mas os sentimentos de que semelhante atitude seria uma desgraça não lhe permitiram que isso ocorresse. Ela ficou acordada a noite toda, chorando a maior parte do tempo. Acordou com dor de cabeça, era incapaz de falar, e não estava disposta a se alimentar; causava dor à sua mãe e irmãs a todo instante, e proibia qualquer tentativa de consolo da parte delas. Estava muito sensibilizada.

Quando terminaram o café da manhã, ela saiu sozinha para caminhar pelos arredores de Allenham, entregando-se às recordações das alegrias passadas e chorando as tristezas do presente, durante a maior parte da manhã.

A noite passou-se em igual entrega aos sentimentos. Voltou a tocar cada uma das canções favoritas que havia tocado para Willoughby – cada ária que cantavam com mais frequência – e permaneceu sentada em frente ao piano, contemplando cada linha de música que ele havia copiado para ela, até que o pesar de seu coração fosse tão grande que não pudesse abrigar tristeza maior; e a cada dia se esforçou mais em nutrir sua dor. Passava horas a fio ao piano alternando cantos e prantos, a voz muitas vezes afogada pelas lágrimas. Também nos livros, como na música, cortejava a desgraça que com certeza obtinha ao confrontar o passado com o presente. Não lia nada além do que haviam lido juntos.

Tamanha aflição não poderia ser suportada para sempre; em poucos dias mergulhou em uma calma melancolia, mas as ocupações a que se entregava diariamente, suas caminhadas solitárias e meditações silenciosas, ainda produziam ocasionais efusões de dor tão intensa como antes.

Nenhuma carta de Willoughby chegou, e não parecia que Marianne esperasse alguma. Sua mãe estava surpresa e Elinor voltou a ficar preocupada. Mas, Mrs. Dashwood era capaz de encontrar explicações sempre que precisasse, o que ao menos a satisfazia.

– Lembre-se, Elinor – disse ela –, quantas vezes Sir John se encarrega de trazer nossas cartas, e de levá-las ao correio. Já concordamos que o segredo é necessário, mas devemos reconhecer que nada poderá ser mantido em segredo se nossa correspondência passar pelas mãos de Sir John.

Elinor não podia negar que era verdade, e tentou encontrar naquilo motivo suficiente para o silêncio entre os jovens. Mas havia um meio tão direto, tão simples, e, em sua opinião, tão apropriado de saber a situação real do acaso, e que, instantaneamente, solucionaria todo o mistério, que ela não pôde deixar de sugeri-lo à mãe.

– Por que a senhora não pergunta logo a Marianne – disse ela – se ela está ou não comprometida com Willoughby? Vindo da senhora, sua própria mãe, uma mãe tão gentil e zelosa, a pergunta não causaria ofensa. Seria o resultado natural de sua afeição por ela. Ela sempre foi muito franca, especialmente com a senhora.

– Eu não faria tal pergunta por nada neste mundo. Supondo que é possível que não estejam comprometidos, quanta aflição minha pergunta não lhe causaria! Em todo caso, seria uma enorme falta de generosidade. Nunca poderia merecer sua confiança novamente se a forçasse a fazer a confissão de algo que, no momento, ela quer manter em segredo. Conheço o coração de Marianne. Sei que ela me ama profundamente e que eu não seria a última a quem ela confidenciará seu segredo, quando as circunstâncias permitirem que seja revelado. Eu não seria capaz de forçar ninguém a fazer confidências, muito menos uma filha; porque o senso do dever a impediria de negar aquilo que sua vontade desejaria esconder.

Elinor achou essa generosidade excessiva, considerando a juventude da irmã, e queria levar o assunto adiante, mas em vão: bom senso, cuidado, prudência, todos sucumbiam diante da romântica delicadeza de Mrs. Dashwood.

Passaram-se vários dias sem que o nome de Willoughby fosse mencionado diante de Marianne por alguém de sua família. Sir John e Mrs. Jennings, é claro, não eram tão gentis, suas piadinhas aumentaram o sofrimento de muitos momentos dolorosos; mas uma noite, Mrs. Dashwood pegou acidentalmente um volume de Shakespeare, e disse:

– Nunca terminamos Hamlet[1], Marianne, nosso querido Willoughby foi embora antes de acabar de ler. Vamos deixá-lo de lado até que ele retorne... mas talvez se passem meses antes que isto ocorra.

– Meses! – exclamou Marianne, bastante surpresa. – Não, nem sequer muitas semanas.

Mrs. Dashwood lamentou o que havia dito, mas Elinor se alegrou, já que havia arrancando uma resposta de Marianne que mostrava com tanto ardor sua confiança em Willoughby e o conhecimento de suas intenções.

Uma manhã, aproximadamente uma semana depois que ele partiu, Marianne se deixou convencer a acompanhar as irmãs em sua caminhada habitual, em vez de passear sozinha. Até então, ela evitara cuidadosamente qualquer companhia em seus passeios. Se as irmãs tinham intenção de caminhar pelas colinas, Marianne imediatamente se dirigia às planícies, se elas planejavam caminhar pelo vale, Marianne rapidamente subia as montanhas, nunca podiam encontrá-la quando as demais partiam. Mas com o tempo foi vencida pelos esforços de Elinor, que desaprovava profundamente aquele isolamento contínuo. Elas caminharam pela estrada através do vale, quase todo o tempo em silêncio, porque era impossível exercer controle sobre a mente de Marianne, e Elinor, satisfeita por ter ganho um ponto, não tinha a intenção, no momento, de obter nenhuma outra vantagem. Além da entrada do vale, onde o campo, ainda viçoso, era menos selvagem e mais aberto, estendia-se diante delas um grande trecho do caminho que haviam percorrido ao chegarem a Barton. Quando alcançaram este ponto pararam para olhar ao redor e examinar a perspectiva formada pela vista do chalé, de um ponto que nunca haviam alcançado antes em nenhuma de suas caminhadas.

Entre os objetos à vista, perceberam um que se movia; era um homem montado a cavalo que vinha na direção delas. Em poucos minutos elas conseguiram perceber que era um cavalheiro, e um instante depois Marianne exclamou extasiada:

– É ele, sim, é ele! Eu sei que é! – E se apressava para ir ao encontro dele, quando Elinor exclamou:

– Não, Marianne, creio que está enganada. Não é Willoughby. Este homem não é tão alto, nem tem o porte de Willoughby.

– Tem sim, tem sim! – exclamou Marianne – Estou certa que tem! Sua aparência, seu casaco, seu cavalo. Sabia que iria voltar logo.

Caminhava cheia de animação enquanto falava, e Elinor, para proteger a irmã de alguma situação adversa, pois sabia que aquele homem não era Willoughby, apressou o passo e se manteve ao lado dela. Logo estavam a uma distância de trezentos metros do cavalheiro. Marianne olhou novamente e sentiu seu coração partir-se, deu meia volta de repente e começou a correr, quando foi detida pelas vozes de suas irmãs, e uma terceira voz, tão conhecida quanto a de Willoughby, se juntou às outras pedindo que ela parasse. Ela se virou surpresa para ver e dar as boas vindas a Edward Ferrars.

Ele era a única pessoa no mundo que neste momento poderia ser perdoado por não ser Willoughby; a única pessoa que podia merecer um sorriso dela; então ela enxugou as lágrimas para sorrir para ele, e pela felicidade da irmã, esqueceu sua decepção por um momento.

Ele desceu do cavalo, e após entregá-lo ao criado, caminhou de volta com elas até Barton, pois tinha vindo com o propósito de visitá-las.

Todas lhe deram as boas vindas com grande cordialidade, mas especialmente Marianne, que demonstrou mais entusiasmo ao recebê-lo do que a própria Elinor. Para Marianne, de fato, o encontro entre Edward e sua irmã não foi senão a continuação da inexplicável frieza que ela muitas vezes tinha observado no comportamento de ambos em Norland. Em Edward, especialmente, faltava tudo aquilo que um apaixonado deveria demonstrar e dizer em tal ocasião. Ele estava confuso, parecia ter pouco prazer em vê-las, não parecia nem exultante nem alegre, falou pouco e somente quando se via obrigado a responder perguntas, e não demonstrou qualquer tipo de afeição por Elinor. Marianne olhava e escutava com uma surpresa cada vez maior. Quase começou a sentir antipatia por Edward; e esta sensação terminou, como acontecia com todos os seus sentimentos, levando seus pensamentos de volta a Willoughby, cujas maneiras formavam um contraste bastante marcante com aquelas do homem que havia eleito como irmão.

Depois de um breve momento de silêncio que se sucedeu à surpresa do encontro e às indagações iniciais, Marianne perguntou a Edward se ele vinha diretamente de Londres. Não, ele esteve em Devonshire por quinze dias.

– Quinze dias! – ela repetiu, surpresa ao saber que ele havia estado por tanto tempo no mesmo condado que Elinor sem ter vindo vê-la antes.

Ele pareceu um tanto constrangido, quando acrescentou que estivera com amigos perto de Plymouth.

– Você esteve em Sussex recentemente? – disse Elinor.

– Eu estive em Norland faz um mês.

– E como está minha querida, amada Norland? – exclamou Marianne.

– Querida e amada Norland – disse Elinor –, provavelmente está bastante parecida como sempre esteve nessa época do ano, os bosques e caminhos cobertos por folhas secas.

– Ah! – exclamou Marianne. – Com que sensação de êxtase eu costumava vê-las cair! Como me deliciava, enquanto caminhava, vê-las caindo sobre mim como uma chuva trazida pelo vento! Que sentimentos as folhas, a estação e o ar me inspiraram! Agora não há mais ninguém para contemplá-las. Elas são vistas apenas como um estorvo, varridas às pressas e retiradas o mais rápido possível da vista.

– Nem todos – disse Elinor – compartilham da sua paixão por folhas mortas.

– Não, meus sentimentos nem sempre são compartilhados, nem tampouco compreendidos. Mas, às vezes o são. – Ao dizer isso, se entregou por uns instantes a um breve devaneio, mas se recompôs e continuou:

– Agora, Edward – chamando sua atenção para a paisagem – este é o vale de Barton. Olhe para ele e fique indiferente se puder. Veja aquelas colinas! Você já viu algo parecido? À esquerda está Barton Park, entre esses bosques e plantações. É possível ver uma parte da casa. E lá embaixo daquela colina mais distante, que se eleva com tamanha grandeza, está nosso chalé.

– É um belo lugar – respondeu – mas essas partes baixas devem ficar sujas no inverno.

– Como pode pensar em sujeira diante de uma vista como esta?

– Porque – respondeu ele sorrindo – entre as coisas que vejo à minha frente está um caminho muito sujo.

– Que estranho! – disse Marianne para si mesma enquanto caminhavam.

– Vocês têm uma boa vizinhança por aqui? Os Middletons são pessoas agradáveis?

– Não, de jeito nenhum – respondeu Marianne – não poderíamos estar em pior situação.

– Marianne – exclamou sua irmã – como pode dizer isso? Como pode ser tão injusta? Eles são uma família muito respeitável, Mrs. Ferrars, e sempre se comportaram conosco da maneira mais amigável. Você se esqueceu, Marianne, quantos dias agradáveis passamos em companhia deles?

– Não – disse Marianne, em voz baixa – nem os inúmeros momentos dolorosos.

Elinor não deu atenção às suas palavras, e dirigindo sua atenção ao visitante, se esforçou em manter com ele algo que poderia passar por uma conversa, falando de sua atual residência, suas vantagens, etc., e extorquindo dele ocasionais perguntas e respostas. A frieza e reserva de Edward mortificavam-na bastante, ela estava aborrecida e um tanto furiosa, mas decidida a guiar sua conduta mais pelo passado do que pelo presente, evitou qualquer aparência de ressentimento ou desgosto e o tratou como pensava que deveria ser tratado, considerando seus vínculos familiares.

[1] Hamlet, de William Shakespeare – A leitura deste livro por Willoughby pode denotar que seu personagem é indeciso,

assemelhando-se ao próprio Hamlet, e que Marianne pode ser comparada à Ofélia, que na peça passa por grandes

desconfianças e sofrimentos. (N. T.)