Razão e Sensibilidade
Capítulo 2
Mrs. John Dashwood[1] agora se estabelecera como senhora de Norland e sua sogra e cunhadas foram rebaixadas à condição de visitantes. Entretanto, ela as tratava com bastante polidez e seu marido, com tanta bondade quanto ele podia sentir por alguém que não fosse ele mesmo, sua esposa e seu filho. Com veemência insistiu para que elas considerassem Norland como seu lar, e como para Mrs. Dashwood nada parecia mais viável do que continuar ali até que encontrassem uma casa nas vizinhanças, decidiram aceitar o convite.
Permanecer em um lugar onde tudo lhe fazia recordar os antigos prazeres era exatamente o que melhor convinha ao seu espírito. Nos tempos de alegria, nenhum temperamento poderia ser mais alegre do que o dela, ou possuir em maior grau aquela calorosa expectativa de felicidade que é a própria felicidade. Mas, nos momentos de angústia, ela se deixava igualmente levar pela imaginação, a ponto do consolo e do prazer estarem fora do seu alcance.
Mrs. John Dashwood não aprovou de forma nenhuma o que seu marido pretendia fazer pelas irmãs. Diminuir em três mil libras a fortuna de seu querido filhinho significaria empobrecê-lo cruelmente. Ela implorou para que ele pensasse melhor no assunto. Como ele, conscientemente, poderia roubar tão alta quantia de seu único filho? E que direitos poderiam ter as filhas de seu pai, que eram apenas suas meias-irmãs – que Mrs. John Dashwood sequer considerava como parentes – em contar com a generosidade de receber tão alta quantia? Todos sabiam que não era de se esperar algum tipo de afeição entre filhos de casamentos diferentes, então porque haveria ele de se arruinar e ainda arriscar o pobrezinho do Harry, enquanto dispunha todo o seu dinheiro para suas meias-irmãs?
– Foi o último pedido de meu pai, devo ser responsável por dar assistência à sua viúva e suas filhas – respondeu o marido.
– Ele não sabia do que estava falando, tenho certeza que estava mal da cabeça quando disse aquilo. Se ele estivesse em seu juízo perfeito, jamais teria pensado em lhe implorar que se desfizesse de metade da fortuna de seu próprio filho.
– Ele não estipulou nenhuma quantia, minha querida Fanny, apenas me pediu, de um modo geral, que as ajudasse e providenciasse para que ficassem em uma situação mais cômoda do que a que ele poderia oferecer. Talvez tivesse sido melhor deixar que eu decidisse. Ele não deveria supor que eu as abandonaria à própria sorte. No entanto, como ele exigiu a promessa, não pude recusar – pelo menos foi o que pensei naquele momento. Agora, como já fiz a promessa, devo cumprir-la. Algo deve ser feito por elas quando se mudarem de Norland e se estabelecerem em um novo lugar.
– Está bem, faça algo por elas, mas que esse “algo” não precise ser três mil libras. Leve em consideração – acrescentou ela – que o dinheiro vai e nunca mais volta. Suas irmãs irão se casar e, aí sim, o dinheiro estará perdido para sempre. Se ao menos houvesse alguma chance de devolvê-lo ao nosso filhinho!
– Com certeza – disse o marido, com bastante seriedade – esta devolução faria uma grande diferença. Poderá chegar o dia em que Harry se lamentará de ter perdido tamanha quantia em dinheiro. Se ele tiver uma família numerosa, por exemplo, esse dinheiro fará uma grande diferença.
– Estou certa que sim!
– Talvez, então, seja melhor para ambas as partes se a quantia for diminuída pela metade. Quinhentas libras já será um aumento significativo no rendimento delas!
– Oh! Muito mais do que podem imaginar! Que irmão faria metade disso pelas irmãs, mesmo se fossem irmãs legítimas! Mas elas são apenas meias-irmãs! Você é, realmente, muito generoso!
– Na verdade eu não queria que nada parecesse mesquinho – respondeu ele. Em ocasiões como essas, é melhor fazer mais do que fazer muito pouco. Ao menos ninguém pode pensar que não fiz o suficiente por elas, até elas mesmas, dificilmente esperariam algo melhor.
– Não sabemos o que elas esperam – disse ela – mas não creio que devemos nos preocupar com o que elas pensam, a questão é o tamanho do sacrifício que você tem condições de fazer.
–Exatamente! E eu acho que posso me esforçar e oferecer-lhes quinhentas libras para cada uma. Assim como as coisas estão, sem nenhum ajuda da minha parte, cada uma delas receberá três mil libras após a morte da mãe; o que é uma quantia razoável para qualquer jovem.
– Sem sombra de dúvida! E, de fato, imagino que elas podem não querer nenhum tipo de ajuda financeira. Elas terão dez mil libras para serem divididas entre si. Se elas se casarem, certamente se casarão bem. E, se não se casarem, podem viver juntas de maneira bastante confortável com o rendimento dessas dez mil libras.
– Você está certa. Além disso, creio que seria mais aconselhável ajudar a viúva enquanto ainda está viva, ao invés de fazer algo pelas irmãs. Oferecendo-lhe uma quantia anual, tanto a mãe quanto as filhas sentirão os benefícios dessa ajuda. Acredito que cem libras por ano farão com que fiquem perfeitamente confortáveis.
Sua esposa, porém, hesitou um pouco em concordar com o plano.
– Para ser sincera – disse ela – é melhor do que dar mil e quinhentas libras de uma só vez. Porém, se Mrs. Dashwood viver mais que quinze anos seremos prejudicados.
– Quinze anos! Minha querida Fanny, a vida dela não vale nem a metade disso!
– É claro que não, mas se você reparar, as pessoas vivem muito mais do que se espera quando recebem uma pensão anual. E ela é muito forte e saudável, mal completou quarenta anos. Uma pensão anual é negócio muito sério, se repete ano após ano, e não há como você se livrar dela. Você não tem consciência do que está fazendo. Eu conheço os problemas que uma pensão anual pode causar porque minha mãe era obrigada a pagá-las a três empregados aposentados, pois meu pai havia estabelecido isso em seu testamento. E você não pode imaginar o quanto ela achou desagradável. Essas pensões tinham que ser pagas duas vezes ao ano; e, além disso, havia o transtorno de lhes enviar o dinheiro. Depois disseram que uma delas falecera, e em seguida descobrimos que não era verdade. Minha mãe quase adoeceu com esse transtorno. Dizia que sua renda não lhe pertencia, com essas pensões perpétuas e que foi falta de consideração de meu pai, porque, de outra forma, o dinheiro estaria completamente à disposição de minha mãe, sem nenhuma restrição. Desde então me aborreço quando se fala em pensões, e estou certa de que nada nesse mundo me faria fazer tal promessa.
– Certamente é uma situação desagradável ter esse tipo de desvio de fundos anual – respondeu Mr. Dashwood. Como sabiamente disse sua mãe, os bens de uma pessoa não lhe pertencem. Ter a obrigação de pagar regularmente uma quantia como essa, todos os anos, não é algo que alguém deseja, acaba com toda a independência da pessoa.
– Sem dúvida! E, além disso, elas nem lhe agradecerão. Elas pensam que estão seguras e que você não faz nada além de sua obrigação, por isso não serão gratas. Se eu estivesse em seu lugar, qualquer decisão que tomasse seria para o meu próprio benefício. Jamais me comprometeria a pagar-lhes algum valor anualmente. Daqui a alguns anos, pode ser muito inconveniente abrir mão de cem, ou até mesmo de cinquenta libras retiradas de nossos rendimentos.
– Creio que você está certa, meu amor, será melhor eu não prometer nenhuma pensão anual. Neste caso, o que lhes der ocasionalmente será mais proveitoso do que uma quantia anual, já que se sentiriam seguras ao receber uma quantia maior e elevariam o estilo de vida, e com isso não ficariam mais ricas no final do ano. De todas as opções essa é a melhor. Um presente de cinquenta libras de vez em quando impedirá que se preocupem com assuntos relacionados a dinheiro, e creio que assim eu cumprirei a promessa feita ao meu pai.
– Estou certa que sim. Para dizer a verdade, estou convencida de que seu pai não tinha planos de lhes dar nenhuma quantia em dinheiro. A assistência que ele pensava era o que razoavelmente se poderia esperar de você, por exemplo, encontrar uma casinha confortável para elas, ajudá-las com a mudança, enviar produtos de caça e pesca, ou produtos da estação. Apostaria minha vida que ele não pensava em mais nada. Além disso, de fato, seria estranho e irracional se ele o fizesse. Considere, meu querido Mr. Dashwood, o quão confortável sua madrasta e suas irmãs viveriam com sete mil libras, além das mil libras que cada menina tem direito, o que lhes dá cerca de cinquenta libras anuais por pessoa. É claro, pagarão à mãe pelo alojamento. Juntas, terão quinhentas libras e o que mais quatro mulheres podem desejar? Viverão com tanta simplicidade! As despesas da casa não representarão quase nada. Não terão carruagem, cavalos, e quase nenhum empregado e não receberão visitas. Então, quais serão os seus gastos? Pense no quanto ficarão confortáveis! Quinhentas libras por ano! Nem consigo imaginar como elas conseguiriam gastar metade dessa quantia! E se você lhes der mais isso, será uma loucura. Em breve elas estarão em tão boas condições, que serão elas quem lhe oferecerão ajuda.
– Dou minha palavra – disse Mr. Dashwood. Creio que você está completamente certa. Obviamente meu pai não poderia me pedir nada além do que você disse. Agora compreendo claramente meu papel, e cumprirei fielmente meu compromisso com atos de solidariedade e gentileza, como você descreveu. Quanto à mudança de minha madrasta para outra casa, estarei pronto a ajudar no que puder. Acho até aceitável dar-lhes alguma mobília como presente.
– Certamente – respondeu Mrs. John Dashwood. Mas uma coisa deve ser levada em conta. Quando seu pai e sua madrasta se mudaram para Norland, venderam toda a mobília de Stanhill, porém guardaram toda a porcelana, a prataria e a roupa de cama e mesa, que agora ficarão com sua madrasta. Assim que ela tomar posse desses objetos, sua casa estará completamente equipada.
– Sem dúvida, essa é uma consideração importante. Um legado valioso! E uma parte da prataria até seria uma grata adição à que temos aqui.
– Sim, e o jogo de porcelana é muito mais bonito do que o que está nessa casa. Em minha opinião, é muito bonito, independente do lugar em que elas possam vir a morar. De qualquer modo, é assim que as coisas são. Seu pai pensou apenas nelas. E devo dizer que você não deve nenhuma gratidão especial a ele, nem deve se preocupar com os desejos dele, pois sabemos bem que se ele pudesse, teria deixado tudo no mundo para elas.
Este argumento foi definitivo. E John Dashwood encontrou nele todas as forças que faltavam para tomar suas decisões; e, por fim, resolveu que era absolutamente desnecessário, se não completamente inadequado, fazer mais pela viúva e filhas de seu pai do que essas gentilezas que sua esposa havia mencionado.
[1] Trata-se de Fanny Dashwood, casada como John Dashwood (meio-irmão de Elinor, Marianne e Margaret). (N.T.)