Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 39 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 37

 

Mrs. Palmer se encontrava tão bem passados quinze dias, que sua mãe sentiu que já não era necessário dedicar todo o seu tempo à filha, e contentando-se em visitá-la uma ou duas vezes ao dia, retornou para sua casa e para a sua rotina, encontrando as Dashwoods muito dispostas a retomarem a sua antiga convivência.

Na terceira ou quarta manhã depois que se instalaram novamente em Berkeley Street, Mrs. Jennings, ao retornar de sua visita diária a Mrs. Palmer, entrou com um ar de tão urgente importância na sala onde Elinor se encontrava sozinha, que a moça se preparou para ouvir algo prodigioso, e dando-lhe tempo apenas para formar essa ideia, Mrs. Jennings começou a justificá-la dizendo:

– Deus! Minha querida Miss Dashwood! Soube da notícia?

– Não, senhora. Do que se trata?

– Algo muito estranho! Mas lhe contarei tudo. Quando cheguei à casa de Charlotte, encontrei-a aos prantos com o filho. Tinha certeza que ele estava muito doente, pois ele gritava e choramingava, e estava cheio de manchinhas vermelhas. Então olhei para a criança e disse:

‘Deus! Minha querida, não é nada demais, trata-se apenas de uma erupção cutânea’[1] – e a enfermeira disse o mesmo. Mas Charlotte, não satisfeita, mandou chamar o Dr. Donavan, que por sorte vinha voltando de uma visita que tinha feito em Harley Street, e entrou rapidamente, e assim que viu a criança disse o mesmo que eu: erupções na pele. Só assim Charlotte ficou tranquila. E então, quando ele já estava de partida, ocorreu-me perguntar-lhe, não sei como foi que pensei nisso, mas acabei perguntando se havia alguma novidade. Ao ouvir aquilo, ele sorriu maliciosamente, disfarçou, mas parecia sério, parecia saber de algo, e em um sussurro disse: “Por receio que alguma notícia desagradável sobre a indisposição da cunhada chegue até as jovens que estão sob seus cuidados, penso que é melhor dizer que não há motivos para alarme, creio que Mrs. John Dashwood vai resistir muito bem”.

– O quê! Fanny está doente?

– Foi exatamente o que eu disse, minha querida. ‘Deus! Mrs. John Dashwood está doente?’ (foi o que eu disse) Então tudo ficou esclarecido, e do que pude entender, posso resumir em poucas palavras: Mr. Edward Ferrars, aquele mesmo rapaz que eu costumava brincar com você (porém, como vê, estou completamente satisfeita em saber que todas minhas brincadeiras eram infundadas), pois parece que ele está comprometido há mais de um ano com minha prima Lucy! É isso mesmo, minha querida! E ninguém sabia de nada sobre o assunto, com exceção de Nancy! Você acreditaria em tal coisa? Não é estranho que se gostem, mas o relacionamento dos dois avançou tanto, sem que ninguém suspeitasse! É muito estranho! Nunca os vi juntos, pois se os visse teria descoberto rapidamente. Bem, então mantiveram tudo no mais absoluto segredo por temor de Mrs. Ferrars, e nem ela, nem seu irmão, nem sua cunhada suspeitaram de algo... Até que hoje de manhã a pobre Nancy, que, como você sabe, é uma moça muito bem-intencionada, mas incapaz de guardar um segredo acabou revelando-o. “Deus!” (ela deve ter pensado) “Eles gostam tanto de Lucy que certamente não farão nenhuma objeção sobre a união dos dois.” Então foi até Mrs. John Dashwood, que estava bordando um tapete, sem imaginar o que estava para acontecer... Pois há poucos minutos ela havia falado ao marido que pensava casar Edward com a filha de um lorde qualquer, cujo nome me esqueci. Elinor, você pode imaginar o golpe que foi para sua vaidade e orgulho. Ela imediatamente teve um ataque de histeria, e gritava tão alto, que seus gritos chegaram aos ouvidos do marido, que se encontrava em seu quarto de vestir, no andar de baixo, pensando em escrever uma carta ao administrador de sua propriedade no interior. Então ele subiu correndo as escadas e ali uma terrível cena aconteceu, pois Lucy já havia se juntado a eles, sem ao menos imaginar o que estava acontecendo. Pobre alma! Tenho pena dela. E acredito que ela foi tratada com muita dureza. Mrs. John Dashwood a repreendeu com muita fúria, até que ela desmaiou. Nancy, por sua vez, se ajoelhou aos seus pés e chorou amargamente, e seu irmão, que andava de um lado para o outro da sala, não sabia o que fazer. Mrs. John Dashwood declarou que elas não deveriam ficar nem mais um minuto debaixo de seu teto, e seu marido foi forçado a se ajoelhar aos seus pés também, para convencê-la a deixar que as moças ficassem até que conseguissem empacotar seus pertences. Então, ela começou a ficar histérica novamente, e ele ficou tão assustado que mandou chamar o Dr. Donavan. Quando Dr. Donavan chegou, a casa estava de pernas para o ar. A carruagem estava parada à porta, pronta para levar minhas pobres primas, e elas já estavam embarcando quando ele saiu. Dr. Donavan disse que a pobre Lucy estava tão prostrada, que mal conseguia andar, e Nancy estava péssima também. Afirmo que não tenho a menor paciência com sua cunhada, e espero de todo coração que os dois se casem, apesar dos protestos dela. Deus! Imagino como Edward ficará ao saber de tudo! Ao saber que maltrataram sua amada! Pois dizem que ele é apaixonado por ela, e deve ser mesmo! Não acharia estranho se sentisse a maior das paixões! E Dr. Donavan pensa o mesmo. Eu e ele conversamos muito sobre o assunto, e o melhor de tudo é que ele voltou a Harley Street, para ficar a postos quando fossem contar a Mrs. Ferrars, pois ela foi até a casa da filha assim que minhas primas saíram, e sua cunhada pensou que ela poderia ficar histérica também, e pelo que sei, deve ficar mesmo. Não tenho pena de nenhuma das duas. Nunca conheci pessoas que fizessem tanto alarde quando o assunto é dinheiro e grandeza. Não há razão no mundo que impeça Mr. Edward de se casar com Lucy, e estou certa que Mrs. Ferrars pode muito bem ajudar o filho, e ainda que Lucy não tenha quase nada de seu, sabe melhor do que ninguém como tirar proveito de uma situação. E sou capaz de dizer que se Mrs. Ferrars oferecer a Edward quinhentas libras por ano, ela será capaz de manter uma aparência que nenhuma outra conseguiria nem com oitocentas libras. Deus! Como poderiam viver com comodidade em um chalé como o seu, Elinor! Talvez um pouquinho maior, com duas criadas e dois empregados. Creio que posso ajudá-los a encontrar uma empregada, pois a minha Betty tem uma irmã desempregada que lhes serviria perfeitamente.

Mrs. Jennings parou de falar, e como Elinor tivera tempo suficiente para recompor seus pensamentos, pôde responder e fazer os comentários que o assunto naturalmente deveria provocar. Contente ao saber que não era suspeita de ter nenhum interesse particular na questão e que Mrs. Jennings (como ela muitas vezes esperava que finalmente acontecesse) deixou de imaginar que ela tivesse algum compromisso com Edward, e mais feliz ainda porque Marianne não estava presente, foi assim capaz de falar do assunto sem se constranger e sem receio de dar sua opinião, com imparcialidade, sobre a conduta de cada um dos interessados.

Elinor dificilmente poderia determinar qual era sua real expectativa sobre o caso, embora tenha se esforçado bastante para afastar a ideia de que pudesse terminar de outra maneira senão com o casamento de Edward e Lucy. Estava ansiosa para saber o que Mrs. Ferrars diria e faria, embora não pudesse haver dúvidas quanto à sua natureza; e mais ansiosa ainda para saber como Edward se comportaria. Sentia bastante compaixão por ele, muito pouca por Lucy (e lhe custou muito sentir este pouco), e não sentia nada pelos outros.

Como Mrs. Jennings não mudava de assunto, Elinor logo percebeu que seria necessário preparar Marianne para discuti-lo. Não deveria perder tempo em desenganá-la, colocá-la a par da verdade e conseguir que escutasse os comentários dos demais sem revelar nenhuma inquietação pela irmã ou ressentimento contra Edward.

A tarefa de Elinor foi bastante penosa. Teria que destruir o que na verdade acreditava ser o principal consolo de sua irmã, e lhe dar tais detalhes sobre Edward que temia fossem desmerecê-lo para sempre no conceito de Marianne... E fazer com que a irmã, pela semelhança de suas situações, que na sua imaginação seria enorme, revivesse uma vez mais sua própria desilusão. Mas apesar de ser uma tarefa ingrata, teria que cumpri-la, e Elinor apressou-se, portanto, em executá-la.

Estava muito longe de querer enfatizar seus próprios sentimentos, ou demonstrar que estava sofrendo muito, a não ser que seu autocontrole, que praticara desde o momento em que soube do compromisso de Edward, pudesse indicar a Marianne o que seria possível fazer. Sua narrativa foi clara e simples, e embora não pudesse ser dita sem emoção, não foi acompanhada por nenhuma agitação violenta ou profunda dor. Isso ficou por conta da ouvinte, pois Marianne ouviu tudo horrorizada e chorou excessivamente. Elinor teria que consolar os demais em sua dor, quando ela própria sofria. E todo consolo que pudesse ser dado pela demonstração de sua própria tranquilidade de espírito, e a séria disposição de defender Edward de todas as acusações, com exceção de sua imprudência, foi prontamente oferecido.

Por um tempo, Marianne não deu crédito a nenhum de seus argumentos. Edward parecia um segundo Willoughby. E se Elinor admitia que tinha amado Edward com toda sinceridade, como podia sentir menos que ela! Quanto a Lucy Steele, considerava-a totalmente desprezível, incapaz de atrair um homem sensível, e, em um primeiro momento, não pôde ser convencida a acreditar, e consequentemente perdoar, qualquer antiga afeição que Edward sentisse por ela. Marianne sequer admitia que aquilo fosse algo natural, e Elinor desistiu de convencê-la de que era verdade, pois apenas um profundo conhecimento da natureza humana seria capaz de fazê-lo.

Sua primeira tentativa de comunicar o fato não foi além de mencionar o compromisso, e há quanto tempo existia. Os sentimentos de Marianne então extravasaram, e impediram qualquer descrição dos detalhes; e por um tempo, tudo o que podia ser feito era acalmar sua aflição, tranquilizar seus temores e combater seu ressentimento. A primeira pergunta que fez, que conduziu a outros detalhes, foi:

– Há quanto tempo você sabe, Elinor? Ele escreveu para você?

– Eu sei de tudo faz quatro meses. Quando Lucy esteve em Barton Park pela primeira vez, em novembro passado, ela contou-me em segredo seu compromisso.

Diante de tais palavras, os olhos de Marianne expressaram o assombro que seus lábios não seriam capazes de dizer. Depois de uma pausa de espanto, exclamou:

– Quatro meses! Você sabia disso tudo há quatro meses?

Elinor confirmou.

– O quê! Enquanto me consolava de meu desgosto, já sentia tudo isso em seu coração? E eu que a repreendi por ser feliz!

– Não era conveniente, naquele momento, que você soubesse o quanto eu sentia o contrário.

– Quatro meses! – exclamou Marianne novamente. – Tão calma! Tão alegre! Como conseguiu suportar?

– Sentindo que eu estava cumprindo com meu dever. Tinha que manter segredo, conforme prometi à Lucy. Devia isso a ela: evitar que qualquer indício sobre a verdade viesse à tona, e devia à minha família e aos meus amigos evitar uma preocupação por mim, sobre algo que não estava em meu poder decidir.

Marianne parecia arrasada.

– Senti, às vezes, desejo de contar a você e a minha mãe – acrescentou Elinor – e uma ou duas vezes tentei fazê-lo; mas sem trair a confiança de Lucy, como eu poderia convencê-las?

– Quatro meses! – E ainda o amava!

– Sim. Mas não amava apenas a ele, e como o bem-estar das outras pessoas era importante para mim, alegrava-me poupá-las do meu sofrimento. Agora posso pensar e falar sobre o assunto sem grande emoção. Não queria vê-la sofrer por minha causa, pois lhe garanto que eu já não sofro com isso. Tenho outras coisas para me amparar. Estou consciente de que não provoquei decepção por alguma imprudência de minha parte, suportei o máximo que pude, sem contar para ninguém. Absolvo Edward de qualquer má conduta. Desejo que ele seja feliz. Estou tão certa de que ele sempre cumprirá com sua obrigação que, apesar de agora sentir algum arrependimento, creio que no final será feliz. Lucy não necessita de juízo, e esta é a base para que todas as coisas boas sejam construídas. E afinal de contas, Marianne, tudo o que fascina na ideia de um amor único e permanente, e tudo que pode ser dito sobre a felicidade de alguém depender inteiramente de uma pessoa em especial, as coisas não são assim... Não é adequado... Não é possível que assim seja. Edward se casará com Lucy, se casará com uma mulher superior em aspecto e inteligência, bem acima da média das outras mulheres; e o tempo e a rotina lhe ensinarão a esquecer que ele alguma vez pensou que outra fosse superior a ela.

– Se essa é a sua maneira de pensar – disse Marianne – se a perda de alguém tão valioso é facilmente compensada por algo mais, sua decisão e seu autocontrole são, talvez, menos admiráveis. Estão mais próximos da minha compreensão.

– Eu a entendo. Você talvez suponha que eu nunca senti muito. Por quatro meses, Marianne, tudo isso deu voltas na minha cabeça sem que eu tivesse a liberdade de contar a alguém, sabendo que tal notícia deixaria você e mamãe muito tristes quando eu lhes contasse, ainda que não fosse possível prepará-las, pelo menos para isso. Fui informada da notícia, de algum modo fui forçada a sabê-lo pela própria pessoa cujo compromisso anterior arruinou todos os meus projetos, e disse-me, creio eu, com certo triunfo. Tive, portanto, que vencer as suspeitas de Lucy, tentando parecer indiferente justamente onde meu interesse era mais profundo. E não foi apenas uma vez, tive que ouvir suas esperanças e alegrias várias vezes. Eu já sabia que ficaria separada de Edward para sempre, sem saber de uma circunstância que pudesse me fazer desejar menos a união. Nada o tornava indigno, nem o tornava indiferente a mim. Tive que lutar contra a falta de gentileza de sua irmã e a insolência de sua mãe; sofri a punição de um amor, sem aproveitar suas vantagens. E tudo isso aconteceu em um momento em que, como você sabe muito bem, não era a única dor que me afligia. Se puder crer que sou capaz de alguma vez ter sentido... certamente deve supor que sofri nesse momento. A tranquilidade com que posso, agora, falar sobre o assunto, o consolo que estou disposta a aceitar, tem sido resultado de um constante e doloroso esforço; não foram espontâneos, e no começo, não contava com eles para aliviar minha alma... Não, Marianne. Então, se eu não estivesse atada ao pacto de silêncio, talvez nada tivesse me impedido de expressar minha enorme infelicidade... nem sequer o que devo aos meus amigos mais queridos.

Marianne estava bastante convencida.

– Oh, Elinor! – exclamou – Você fez com que eu me odeie para sempre. Fui muito desalmada com você! Você, que sempre foi meu consolo, que acompanhou todo o meu sofrimento, que parecia sofrer unicamente por mim! É assim que lhe agradeço? É a única recompensa que posso lhe oferecer? Pois seu mérito salta aos meus olhos, e estive tentando desconhecê-lo.

As mais ternas carícias seguiram essa confissão. Por causa de seu atual estado de espírito, Elinor não teve dificuldade alguma em obter de Marianne todas as promessas que queria; e a seu pedido, Marianne prometeu nunca falar do caso com a menor amargura, além de encontrar com Lucy sem deixar transparecer o menor sinal de que não gostava dela; e até ver Edward sem diminuir sua usual cordialidade para com ele, se por acaso se encontrassem. Todas eram grandes concessões, mas se Marianne sentisse que havia ferido alguém, nada que pudesse fazer para reparar seria exagerado.

Marianne cumpriu admiravelmente a promessa de ser discreta. Escutou tudo o que Mrs. Jennings tinha a dizer sobre o assunto, sem qualquer alteração em sua fisionomia, não divergiu dela em nada, e até disse por três vezes: “Sim, senhora.” Sua única reação ao ouvir falar de Lucy foi mudar de uma cadeira para outra e quando Mrs. Jennings mencionou o afeto de Edward, apenas sentiu um espasmo na garganta. Tantos atos de heroísmo da parte de Marianne fizeram com que Elinor se sentisse igualmente forte.

A manhã seguinte trouxe mais uma prova, com a visita de seu irmão, que chegou com um aspecto muito sério para falar sobre o lamentável ocorrido e trazer-lhes notícias de sua esposa.

– Vocês já souberam, suponho... – disse com grande solenidade, assim que se sentou – da chocante descoberta que fizemos ontem em minha casa.

Todas concordaram inclinando a cabeça. Parecia um momento terrível para falarem.

– Sua cunhada – continuou – sofreu espantosamente. Mrs. Ferrars também... Em suma, foi uma cena muito complicada e triste... Mas espero que a tempestade passe sem que nenhum de nós fique muito abalado. Pobre Fanny! Ficou com os nervos à flor da pele durante todo o dia de ontem. Mas não queria que ficassem muito alarmadas. Donavan disse que não havia nada a temer, Fanny tem uma boa constituição física e é capaz de enfrentar qualquer coisa. Passou por tudo isso com a força de um anjo! Disse que jamais pensará bem de alguém novamente; e não é de se estranhar, depois de ter sido enganada desta forma! Receber tamanha ingratidão após demonstrar tanta bondade e depositar tanta confiança! Foi obedecendo à generosidade de seu coração que ela convidou essas duas moças para se hospedarem em nossa casa; simplesmente porque pensava que mereciam um pouco mais de atenção, acreditava que eram moças inofensivas, comportadas, e seriam boas companhias. Pois, caso contrário, teríamos antes convidado você e Marianne para ficarem conosco, enquanto sua gentil amiga dava atenção à filha. E tudo isso para sermos recompensados dessa maneira! Disse a pobre Fanny, na sua maneira afetuosa: “Desejava, de todo coração, que tivéssemos convidado suas irmãs ao invés delas”.

Nesse momento, fez uma pausa para receber os agradecimentos e depois de recebê-los, continuou.

– Não posso descrever o quanto Mrs. Ferrars sofreu quando Fanny contou-lhe a notícia. Enquanto ela, com o mais verdadeiro afeto, planejava uma união mais conveniente para o filho, como poderia supor que ele estivesse todo o tempo comprometido com outra pessoa! Tal suspeita jamais teria lhe ocorrido! Se ela suspeitasse de qualquer outra ligação da parte dele, não imaginaria que seria dali. “Estava bastante segura que dali não surgiria nada” disse minha sogra. Estava completamente agoniada. Conversamos entre nós, sobre o que deveria ser feito, e finalmente ela decidiu chamar Edward. Ele veio. Mas sinto muito ter que relatar o que ocorreu. Tudo o que Mrs. Ferrars pôde dizer para fazê-lo romper o compromisso, acompanhado pelos meus argumentos, como vocês devem imaginar, e pelas súplicas de Fanny, foi em vão. O dever, o afeto, tudo foi desconsiderado. Nunca pensei que Edward fosse tão obstinado, tão insensível. Sua mãe lhe explicou os generosos projetos que tinha para ele, caso

ele se casasse com Miss Morton; disse que lhe daria a propriedade de Norfolk[2], a qual, descontados os impostos, daria uma boa renda de cerca de mil libras por ano. Inclusive prometeu, quando as coisas começaram a ficar desesperadoras, que lhe daria mil e duzentas libras. Mas, se ele continuasse a se opor e persistisse nessa união pouco vantajosa, mostrar-lhe-ia a penúria que tal união enfrentaria. Insistiu que ele teria apenas as duas mil libras a que tinha direito e que não queria vê-lo nunca mais; e que, além de não lhe conceder assistência alguma, caso ele viesse a exercer qualquer profissão para se sustentar, faria tudo o que estivesse em seu poder para impedir que fosse bem-sucedido.

Diante disso, Marianne, cheia de indignação, juntou as mãos e exclamou:

– Santo Deus! Será possível?

– Talvez você estranhe, Marianne – respondeu seu irmão –, a obstinação capaz de resistir a argumentos como estes. Seu espanto é muito natural.

Marianne ia replicar, mas lembrou-se de suas promessas e se reprimiu.

– Todos esses esforços, entretanto – continuou –, foram em vão. Edward disse muito pouco, mas quando falou foi de maneira muito determinada. Nada poderia convencê-lo a desistir de seu compromisso. Ele manteria sua palavra, custasse o que custasse.

– Então – exclamou Mrs. Jennings com brusca seriedade, incapaz de se manter em silêncio – ele agiu como um homem honesto! Peço-lhe desculpas, Mr. Dashwood, mas se ele tivesse agido de outra forma, eu o acharia um canalha. Tenho certo interesse no assunto, assim como você, já que Lucy Steele é minha prima, e acredito que não há melhor moça no mundo, nem outra mais merecedora de um bom marido.

John Dashwood ficou bastante espantado; mas era calmo por natureza, não era aberto a provocações, e não desejava ofender ninguém, especialmente alguém de boa fortuna. Então respondeu, sem nenhum ressentimento:

– Minha cara senhora, eu jamais tive a intenção de falar desrespeitosamente sobre algum familiar seu. Miss Lucy Steele é, atrever-me-ia a dizer, uma jovem muito merecedora, mas no caso em questão, como deve saber, a união é impossível. E se comprometer em segredo com um jovem que estava sob a tutela de seu tio, o filho de uma mulher de tão grande fortuna quanto Mrs. Ferrars é, talvez, um pouco extraordinário. Em suma, não é minha intenção desmerecer o comportamento de qualquer pessoa a quem a senhora estime, Mrs. Jennings. Todos nós desejamos que ela seja muito feliz; e a conduta de Mrs. Ferrars foi a mesma que qualquer outra mãe consciente e bondosa adotaria nas mesmas circunstâncias. Foi uma atitude digna e generosa. Edward escolheu seu próprio destino e receio que tenha sido uma péssima escolha.

Marianne suspirou com a mesma apreensão, e o coração de Elinor ficou apertado ao pensar nos sentimentos de Edward, enquanto enfrentava as ameaças da mãe, por uma mulher que não poderia recompensá-lo.

– Bem, meu senhor, como tudo terminou? – disse Mrs. Jennings.

– Lamento dizer, senhora, que tudo terminou na mais infeliz ruptura: Edward perdeu

para sempre a consideração de sua mãe. Deixou a casa ontem, mas para onde foi e se ainda está na cidade, eu não sei, já que nós não podemos fazer nenhuma pergunta.

– Pobre rapaz! O que será dele?

– Sim, por certo, senhora! É um pensamento melancólico. Nascido com a expectativa de tanta riqueza! Não consigo imaginar uma situação mais deplorável. Com os juros de duas mil libras... Como uma pessoa poderá viver com isto? E quando se lembrar que, se não fosse pela sua estupidez, em três meses estaria recebendo duas mil e quinhentas libras (pois Miss Morton tem trinta mil libras), não consigo imaginar situação mais miserável. Todos sentimos pena dele, ainda mais se levar em consideração que não temos como ajudá-lo.

– Pobre rapaz! – exclamou Mrs. Jennings – Garanto-lhe que teria muito gosto em oferecer-lhe hospedagem e comida em minha casa. É o que eu diria, caso o encontrasse. Não é certo que tenha que ficar só agora, vivendo em hospedarias ou tabernas.

Elinor ficou agradecida de coração pela gentileza com Edward, embora não pudesse evitar sorrir pela maneira como foi dita.

– Se ele apenas tivesse feito por si mesmo – disse John Dashwood – o que todos os seus amigos estariam dispostos a fazer por ele, estaria agora em uma situação adequada, e nada lhe faltaria. Como escolheu outro caminho, está fora do alcance de todos poderem ajudá-lo. E ainda há algo mais contra ele, que deve ser o pior de tudo: sua mãe determinou, com um espírito bastante natural, passar imediatamente para Robert aquela propriedade que seria de Edward, em circunstâncias normais. Quando a deixei essa manhã, estava com seu advogado, conversando sobre o assunto.

– Bem! – disse Mrs. Jennings – Essa é sua vingança. Cada um age de acordo com seus pensamentos. Mas não penso que eu agiria assim, dar independência a um filho, porque o outro me aborreceu.

Marianne levantou-se e começou a andar pela sala.

– Pode haver algo mais vergonhoso para o espírito de um homem – continuou John – do que ver seu irmão mais novo receber a propriedade que deveria ter sido sua? Pobre Edward! Sinto muito por ele, sinceramente.

Depois de mais alguns minutos despendidos no mesmo tipo de lamentação, encerrou a visita. E após assegurar, por repetidas vezes, que não havia nenhum perigo na indisposição de Fanny, e que elas não deviam preocupar-se com ela, ele se foi, deixando as três damas com sentimentos unânimes a respeito da situação atual, ao menos no que se relacionava à conduta de Mrs. Ferrars, dos Dashwoods e de Edward.

A indignação de Marianne explodiu assim que ele deixou a sala, e como sua veemência tornou impossível qualquer discrição por parte de Elinor, e desnecessária por parte de Mrs. Jennings, as três se uniram em uma animada crítica de todo o grupo.

 

[1] Em português é chamada de estrófulo, em inglês é conhecida como “strophulus”, “red gum” ou “teething rash”. É uma

dermatose bastante comum em crianças pequenas, muitas vezes causada por distúrbios intestinais, provocando erupções na

pele. (N. T.)

[2] Condado localizado no leste da Inglaterra. (N. T.)