Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 33 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 31

 

Depois de uma noite em que dormiu mais do que esperava, Marianne acordou na manhã seguinte consciente de que continuava com a mesma infelicidade de quando adormecera.

Elinor tentou encorajá-la a falar do que sentia o mais que pôde, então, antes que o café da manhã fosse servido, elas conversaram sobre o assunto várias vezes; Elinor sem alterar sua tranquila certeza e conselhos afetuosos, e Marianne mantendo os impetuosos sentimentos e mudando constantemente de opinião, como antes. Às vezes acreditava que Willoughby era tão infeliz e inocente quanto ela, em outras, ficava inconsolável ante a impossibilidade de absolvê-lo. Em um momento, era indiferente aos comentários do mundo, no momento seguinte se retiraria dele para sempre, em um terceiro momento poderia resistir a ele com determinação. Entretanto, em uma coisa ela permanecia constante ao tratar desta questão: em evitar, quando possível, a presença de Mrs. Jennings, e em sua decisão de se manter em absoluto silêncio quando fosse obrigada a tolerá-la. Seu coração se recusava a crer que Mrs. Jennings pudesse participar de sua dor com alguma compaixão.

– Não, não, não pode ser – exclamou – ela não pode sentir. Sua amabilidade não é consideração, seu bom caráter não é ternura. Ela só se interessa por fofocas, e só gosta de mim porque lhe dou motivos para tanto.

Elinor não precisava disto para ter certeza de que sua irmã podia cometer injustiças, movida pelo irritável refinamento de sua própria mente quando se tratava de opinar sobre os demais, pela excessiva importância que atribuía às delicadezas próprias de uma grande sensibilidade e às graças de maneiras refinadas. Como metade do mundo, Marianne, com excelentes qualidades e grande disposição, não era nem razoável nem justa. Esperava que os demais tivessem as mesmas opiniões e sentimentos que os seus, e julgava as atitudes de todos pelo efeito imediato que as ações destes exerciam sobre ela. Foi em uma destas circunstâncias quando as irmãs estavam em seu quarto, após o café da manhã, que ocorreu algo que rebaixou ainda mais sua opinião sobre os sentimentos de Mrs. Jennings, pois, por sua própria fraqueza, permitiu que lhe causasse uma nova dor, apesar da boa senhora ter sido guiada pela maior boa vontade.

Com uma carta estendida em sua mão e um alegre sorriso, entrou no quarto, convencida de que era portadora de consolo, dizendo:

– Agora, minha querida, trago-lhe algo que lhe fará muito bem.

Marianne não precisava escutar mais. Em um segundo sua imaginação trouxe-lhe uma carta de Willoughby, cheia de ternura e arrependimento, na qual explicava o ocorrido e lhe dava toda satisfação, de maneira convincente; a carta seria seguida pelo próprio Willoughby, adentrando o cômodo com toda urgência para reforçar, aos seus pés e com a eloquência de seus olhos, as declarações de sua mensagem. O trabalho de um momento foi destruído pelo momento seguinte. Estava à sua frente a letra de sua mãe, que até então nunca fora mal recebida; e na mais profunda decepção que se seguira àquele êxtase maior do que a esperança, sentiu como se até aquele momento nunca tivesse sofrido.

Não havia palavras que descrevessem a crueldade de Mrs. Jennings, nem mesmo em seus momentos da mais feliz eloquência ela poderia expressar. E agora só podia repreendê-la pelas lágrimas que então corriam de seus olhos com passional violência; uma repreensão, no entanto, inteiramente perdida em seus objetivos, pois que, após muitas expressões de compaixão, Mrs. Jennings retirou-se, ainda se referindo ao conforto que a carta devia causar. Mas quando teve tranquilidade suficiente para lê-la, encontrou pouco alívio. Todas as páginas continham o nome de Willoughby. Sua mãe, ainda confiante em seu compromisso e acreditando firmemente na lealdade do rapaz, somente por insistência de Elinor havia se decidido a exigir que Marianne fosse franca com ambas, e o fez com tanta ternura, tanta afeição por Willoughby, tanta convicção sobre a felicidade que cada um encontraria no outro, que Marianne não pôde deixar de chorar desesperadamente até terminar de ler.

Toda sua impaciência de voltar para casa retornou; sua mãe nunca havia sido tão querida, inclusive pelo mesmo excesso de sua errônea confiança em Willoughby, e desejava desesperadamente partir. Elinor, incapaz de decidir se era melhor para Marianne permanecer em Londres ou ir para Barton, não lhe ofereceu outro consolo a não ser que fosse paciente até que elas conhecessem os desejos de sua mãe, e finalmente obteve da irmã o consentimento de aguardar por essa decisão.

Mrs. Jennings saiu mais cedo do que de costume, pois não podia sossegar até que os Middleton e os Palmers pudessem compartilhar de suas lamentações, e recusando terminantemente a companhia de Elinor, saiu sozinha por todo o resto da manhã. Elinor, com o coração abatido, consciente da dor que iria causar e percebendo, pela carta de Marianne, como fracassara em preparar a mãe para aquilo, sentou-se para escrever o ocorrido e pedir à mãe que lhes desse orientações sobre o futuro. Enquanto isso Marianne, que entrara na sala de estar logo depois que Mrs. Jennings saiu, manteve-se imóvel junto à mesa onde Elinor escrevia, observando o avanço da pena, lamentando a dureza desta tarefa e lamentando ainda mais o efeito que aquela carta produziria em sua mãe.

Estavam ali há cerca de quinze minutos quando Marianne, cujos nervos não suportavam nenhum tipo de ruído repentino, assustou-se ao ouvir uma batida na porta.

– Quem poderá ser? – exclamou Elinor. – Tão cedo! Pensava que estivéssemos a salvo.

Marianne foi em direção à janela.

– É o Coronel Brandon! – disse ela, irritada. – Nunca estamos a salvo dele.

– Ele não vai entrar, já que Mrs. Jennings está fora.

– Não tenho tanta confiança nisso – disse, retirando-se para seu quarto. – Um homem que não sabe o que fazer da vida não tem consciência alguma de sua intromissão na vida dos outros.

O que aconteceu em seguida confirmou a suposição de Marianne, embora fosse baseada na injustiça e no erro, pois o Coronel Brandon entrou na casa. E Elinor, convencida de que sua preocupação por Marianne era o motivo dele estar ali, e que via essa preocupação em seu semblante triste e preocupado, e em suas ansiosas, porém breves, perguntas a respeito de Marianne, não pôde perdoar a irmã.

– Eu encontrei Mrs. Jennings em Bond Street – disse ele, depois que a cumprimentou – e ela me encorajou a vir. E não foi difícil tomar essa decisão, porque pensei que provavelmente a encontraria sozinha, como eu desejava. O meu objetivo... Meu desejo, meu único desejo ao querê-lo... Espero, creio que é... Poder dar-lhe algum consolo... Não, não devo dizer consolo, não me refiro a um conforto momentâneo, e sim a uma certeza, uma duradoura certeza para a mente de sua irmã. Meu afeto por ela, por você e por sua mãe, espero prová-lo ao relatar algumas circunstâncias, que apenas a mais sincera consideração... ou então o desejo de ser-lhes útil... creio que justificaria. Embora tenha passado muitas horas tentando convencer-me de que estou certo, não haverá razões para temer que eu esteja errado?

Ele se calou.

– Eu o compreendo – disse Elinor. – Você tem algo a me dizer a respeito de Mr. Willoughby que ajudará a entender melhor seu caráter. Ao contar-me, fará o maior ato de amizade que pode demonstrar por Marianne. Qualquer informação com esta finalidade merecerá minha imediata gratidão, e a dela virá com o tempo. Por favor, por favor, diga-me.

– Direi, então. E para ser breve, quando deixei Barton em outubro passado... Bem, mas assim você não entenderá. Devo voltar um pouco mais atrás no tempo. Vai julgar-me um narrador muito desajeitado, Miss Dashwood. Mal sei por onde começar. Creio que será preciso contar um pouco da minha história, mas serei breve. Sobre um tema como este – suspirou profundamente – não tenho intenção de falar muito.

Ele parou um momento para se recompor, e então, após um suspiro, continuou:

– Provavelmente você esqueceu completamente uma conversa (não creio que ela possa ter lhe causado grande impressão), uma conversa que tivemos uma noite em Barton Park, uma noite em que havia um baile, na qual eu mencionei uma dama que conheci há muito tempo e que se parecia, de alguma forma, com Marianne.

– Sim – respondeu Elinor – não me esqueci da conversa.

Ele pareceu satisfeito pela lembrança e acrescentou:

– Se não estou enganado pela incerteza e pela parcialidade de doces lembranças, há uma grande semelhança entre as duas, em espírito e aparência: a mesma intensidade de sentimentos, a mesma força de imaginação e veemência de espírito. Esta dama era uma de minhas conhecidas mais próximas, uma órfã desde a infância e sob a tutela de meu pai. Tínhamos quase a mesma idade, e desde a mais tenra infância fomos companheiros de brincadeiras e amigos. Não consigo lembrar de um tempo em que não tivesse amado Eliza, e meu afeto por ela, à medida que crescíamos, foi crescendo de tal maneira que, talvez, julgando por minha atual austeridade, lastimável e triste, você poderia acreditar que eu seja incapaz de alguma vez tê-lo sentido. E o afeto dela por mim, acredito, foi tão intenso quanto o amor de sua irmã por Willoughby e, ainda que por motivos diferentes, não menos afortunado. Aos dezessete anos a perdi para sempre. Casou-se, contra sua vontade, com meu irmão. Era dona de uma grande fortuna e as propriedades de nossa família encontravam-se bastante comprometidas. E isto, receio dizer, é tudo o que se pode falar para justificar o comportamento de alguém que era ao mesmo tempo seu tio e tutor. Meu irmão não a merecia, nem sequer a amava. Eu tinha a esperança de que seu afeto por mim a ajudasse a suportar tantas dificuldades, e por um tempo assim o foi; mas, finalmente, a infeliz situação em que vivia, pois tinha que suportar as maiores provações, foi mais forte que ela, e apesar de ter prometido que nada... Mas como estou contando tudo às cegas! Nunca lhe contei como tudo isso ocorreu. Estávamos a poucas horas de fugir para a Escócia, antes deles se casarem. A desonestidade ou a insensatez da empregada de minha prima nos arruinou. Fui enviado para a casa de um parente que morava muito distante, e a ela não foi permitida nenhuma liberdade, nenhuma companhia e nenhuma diversão, até que o desejo de meu pai fosse satisfeito. Confiei demais na força de Eliza, e o golpe foi muito duro. Mas, se seu casamento fosse feliz, jovem como eu era na época, em poucos meses terminaria aceitando-o, ou ao menos não teria o que lamentar agora. Mas não foi isso o que aconteceu. Meu irmão não tinha nenhuma consideração por ela, seus prazeres não eram tão corretos, e desde o começo tratou-a de maneira grosseira. A consequência disto sobre a mente de uma jovem tão cheia de vida, tão inexperiente como Eliza, não foi senão a esperada. A princípio se resignou com sua infeliz situação, e essa decisão teria sido feliz se ela não tivesse dedicado a vida a superar o pesar que minha lembrança lhe provocava. Porém, é de se admirar que, com um marido que só lhe trazia infelicidade, e sem um amigo para aconselhá-la ou contê-la (pois meu pai viveu apenas alguns meses depois que se casaram, e eu estava com o meu regimento nas Índias Orientais) ela acabasse por cair? Se eu tivesse ficado na Inglaterra, talvez... Mas eu quis promover a felicidade de ambos ficando distante dela por anos, e com tal propósito pedira transferência. O golpe que seu casamento significou para mim – continuou com a voz agitada – não foi nada, foi algo trivial se comparado ao que senti quando, mais ou menos dois anos depois, soube de seu divórcio. Foi essa a causa desta melancolia... mesmo hoje, a lembrança do que sofri...

Ele não podia dizer mais nada, levantou-se precipitadamente e começou a dar algumas voltas pela sala. Elinor, afetada por seu relato, e ainda mais por seu sofrimento, não foi capaz de dizer uma única palavra. Ele viu sua preocupação e, aproximando-se dela, pegou-lhe a mão e beijou-a com agradecido respeito. Alguns minutos mais de silencioso esforço lhe permitiram seguir com certa compostura.

– Passaram-se quase três anos depois dessa triste época até que eu voltasse à Inglaterra. Minha primeira preocupação, quando cheguei, foi procurar por ela, mas a procura foi tão infrutífera quanto triste. Não consegui rastreá-la além do seu primeiro sedutor, e tinha toda razão para temer que ela tivesse se afastado dele só para cair ainda mais baixo em uma vida de pecado. Sua pensão legal não estava de acordo com a sua fortuna, nem era suficiente para mantê-la com conforto, e eu soube por meu irmão que o direito de recebê-la fora passado há alguns meses para outra pessoa. Ele imaginava, e com que tranquilidade o fazia, que a extravagância de Eliza, e sua consequente infelicidade, obrigaram-na a desfazer-se de seu dinheiro para alívio de alguma necessidade imediata. Por fim, seis meses após minha chegada à Inglaterra, eu a encontrei. A preocupação com um ex-empregado meu, que havia caído em desgraça, fez com que eu fosse visitá-lo em uma casa de detenção onde estava preso por causa de dívidas; e ali, no mesmo lugar, no mesmo confinamento, se encontrava minha desafortunada cunhada. Tão diferente, tão pálida, abatida por todo tipo de sofrimento! Mal pude acreditar que a triste e doente figura que estava diante de mim, era o que restava da menina adorável, vivaz e cheia de saúde de que tanto havia gostado. O quanto tive que suportar ao vê-la assim... Mas não tenho direito de ferir seus sentimentos tentando descrevê-la... Já lhe fiz sofrer demais. Que ela estivesse no estágio final, ao que tudo indicava...naquela situação, esse fato foi para mim um grande consolo. A vida não podia fazer mais nada por ela, além de dar-lhe tempo para melhor preparar-se para a morte, e isso ela obteve. Consegui que a instalassem em um lugar confortável e fosse assistida da forma apropriada; visitei-a diariamente durante o resto de sua curta vida, e estive ao seu lado em seus últimos momentos.

Novamente ele se calou, tentando se recompor. E Elinor exprimiu seus sentimentos através de uma terna exclamação de preocupação pelo destino infeliz de sua amiga.

– Sua irmã, espero, não pode se ofender – disse ele – pela semelhança que imaginei entre ela e minha pobre e desgraçada parenta. Seus destinos e suas fortunas não podem ser as mesmas; e se a natureza meiga de uma tivesse sido protegida por uma mente mais firme, ou um casamento mais feliz, ela teria sido tudo o que a outra será. Mas, a que nos leva tudo isto? Creio que a deixei angustiada por nada. Ah, Miss Dashwood! Um assunto como este, silenciado durante quatorze anos... É perigoso até mesmo mencioná-lo! Tenho que me concentrar, ser mais conciso... Ela deixou sob os meus cuidados sua única filha, uma menina de três anos de idade, fruto de sua primeira relação pecaminosa. Ela amava a criança, e sempre a manteve ao seu lado. Foi um valioso, um precioso encargo para mim, e com muito prazer teria me encarregado dela no sentido mais estrito, cuidando eu mesmo de sua educação, se minha situação o permitisse. Mas eu não tinha família, nem casa, e minha pequena Eliza foi enviada para uma escola. Ia vê-la sempre que podia, e depois da morte de meu irmão (que aconteceu cerca de cinco anos atrás, e deixou-me a posse da propriedade da família), ela me visitou em Delaford. Eu dizia que se tratava de uma parenta distante, mas sei muito bem que suspeitavam que meu parentesco com ela fosse muito mais próximo. Faz agora três anos (ela acabara de completar quatorze anos) que eu a retirei da escola, para deixá-la sob os cuidados de uma senhora muito respeitável, que reside em Dorsetshire, e que tem sob sua tutela cerca de quatro ou cinco outras meninas com aproximadamente a mesma idade; e durante dois anos, tudo me fazia sentir satisfeito com a situação. Mas em fevereiro passado, há quase um ano, Eliza desapareceu de repente. Eu lhe dera autorização (imprudentemente, como se mostrou logo depois) para saciar seu desejo de ir à Bath com uma de suas jovens amigas, cujo pai se encontrava ali por motivos de saúde. Eu sabia que ele era um homem muito bom, e tive uma boa impressão de sua filha – mais do que ela merecia, pois, com o mais teimoso e insensato sigilo, ela se negou a dizer qualquer coisa, não deu nenhuma pista, embora com certeza soubesse de tudo. Creio que seu pai, um homem bem intencionado, mas não muito perspicaz, era realmente incapaz de dar alguma informação, pois estava quase sempre recluso em casa, enquanto as meninas passeavam pela cidade e se relacionavam com quem quisessem. Ele tentou me convencer, como ele próprio estava inteiramente convencido, de que sua filha não estava envolvida no assunto. Em suma, não pude esclarecer nada a não ser que ela tinha desaparecido, e todo o resto, após oito longos meses, foi deixado às conjecturas. Pode imaginar o que pensei, o que temi e também o que sofri.

– Deus do céu! – exclamou Elinor – Será possível! Será que Willoughby...

– As primeiras notícias que recebi dela – continuou – vieram de uma carta da própria Eliza, em outubro passado. A carta fora remetida de Delaford, e a recebi naquela manhã em que planejávamos ir até Whitwell, e esta foi a razão de eu partir de Barton tão de repente, o que, com toda certeza, deve ter parecido estranho a todos naquele momento, e creio até que ofendi alguns. Mr. Willoughby pouco podia imaginar, creio, quando repreendeu-me pela falta de cortesia ao arruinar o passeio, que eu era solicitado para ajudar alguém que ele tornara pobre e miserável, mas se ele soubesse, de que serviria? Teria sido menos alegre e menos feliz diante dos risos de sua irmã? Não, já havia feito o que nenhum homem que tivesse compaixão faria. Abandonara uma menina cuja juventude e inocência havia seduzido, deixando-a em uma situação de máxima angústia, sem um lar respeitável, sem ajuda, sem amigos, sem saber onde encontrá-lo! Abandonara-a prometendo voltar, mas não voltou, nem escreveu e nem sequer lhe deu algum auxílio.

– Isto ultrapassa todo meu entendimento! – exclamou Elinor.

– Agora você pode ver como é o seu caráter: gastador, libertino, e talvez pior que isso. Sabendo de tudo, como eu sabia há muitas semanas, imagine o que senti ao ver sua irmã tão apaixonada por ele como sempre, e na certeza de que iriam se casar, tente imaginar como me senti por causa de vocês. Quando estive aqui na semana passada, e a encontrei sozinha, estava decidido a saber a verdade, embora não soubesse o que fazer ao descobrir. Você pode ter achado meu comportamento estranho na ocasião, mas agora poderá me compreender melhor. Sofria por vê-las tão enganadas, por ver sua irmã... Mas o que eu poderia fazer? Não tinha esperança alguma de interferir com êxito, e às vezes pensava que a influência de sua irmã poderia recuperá-lo. Mas agora, depois de tão desonroso ato, quem pode dizer quais seriam suas intenções para com ela? Quaisquer que fossem, no entanto, ela pode agora se sentir agradecida, e sem dúvida o fará, por sua própria condição, quando comparada a da minha pobre Eliza; quando pensar na situação miserável e desesperada desta pobre menina e imaginar-se em seu lugar, com uma afeição tão forte por ele, ainda tão forte quanto a dela própria, e com um espírito atormentado pelo remorso, que a seguirá pela vida toda. Certamente essa comparação lhe será útil. Marianne sentirá que seus próprios sofrimentos não são nada. Não são provenientes de nenhuma má conduta e não podem trazer-lhe desgraça. Pelo contrário, fará com que cada um de seus amigos aumente ainda mais a amizade por ela. A preocupação por seu sofrimento e o respeito por sua força devem fortalecer todos os laços de amizade. No entanto, use toda a sua discrição ao contar-lhe o que eu lhe disse. Você deve saber melhor que efeito terá, mas se eu não acreditasse firmemente e do fundo do meu coração que poderia ser-lhe de alguma utilidade, que poderia aliviar seus sofrimentos, não me teria permitido vir aqui e incomodá-la com o relato dos sofrimentos de minha família, uma narrativa que parece ter o objetivo de enaltecer-me à custa dos outros.

Elinor agradeceu essas palavras com profunda gratidão, e foram recebidas também com a certeza de que o conhecimento do ocorrido seria de importante proveito para Marianne.

– Para mim tem sido mais doloroso – disse ela – os esforços de Marianne para desculpá-lo do que todo o resto, pois isso a irrita mais do que ter a mais perfeita convicção da indignidade dele. Agora, ainda que a princípio, ela venha a sofrer muito, estou certa de que logo ficará bem. – Após um breve momento de silêncio, continuou: – O senhor voltou a ver Mr. Willoughby depois que deixou Barton?

– Sim, uma vez – ele respondeu gravemente. – Foi inevitável um encontro com ele.

Elinor, espantada por seus modos, olhou para ele ansiosamente, dizendo:

– Como? Encontrou-o para...

– Não poderia ser de outra maneira. Eliza confessou-me o nome de seu amante, embora com relutância. E quando ele voltou a Londres, apenas quinze dias depois que cheguei, marcamos um duelo, ele para se defender, e eu para punir sua conduta. Como não houve feridos, ninguém soube do duelo.

Elinor suspirou pensando na fantasiosa necessidade daquilo, mas pelo fato dele ser homem e soldado, não pretendeu censurá-lo.

– Essa é a infeliz semelhança entre o destino da mãe e da filha! – disse Coronel Brandon. – E como falhei naquilo que me fora confiado!

– Ela ainda está em Londres?

– Não, pois quando a encontrei já estava prestes a dar a luz, e assim que ela se recuperou do parto mandei-a com a criança para o interior, e lá ela permanece.

Lembrando-se, pouco depois, de que ele provavelmente estava privando Elinor de ficar com a irmã, o Coronel Brandon encerrou a visita, recebendo dela novamente o mais agradecido reconhecimento, e deixando-a cheia de compaixão e de estima por ele.