Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 46 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 44

 

Elinor obedeceu ao primeiro impulso de seu coração, recuando com o olhar aterrorizado ao vê-lo e voltando-se imediatamente para sair da sala. Sua mão já se encontrava na maçaneta quando parou ao ver que Willoughby avançava rapidamente, dizendo, com um tom de voz mais imperativo que suplicante:

– Miss Dashwood, meia hora... Dez minutos... É tudo o que eu lhe peço... Por favor, fique.

– Não senhor – respondeu com firmeza – não ficarei aqui nem mais um minuto. O senhor nada tem a tratar comigo. Os empregados certamente se esqueceram de dizer-lhe que Mr. Palmer não está em casa.

– Se eles tivessem me falado que Mr. Palmer e todos seus parentes tinham ido para o inferno, mesmo assim eu não teria me afastado desta porta – exclamou Willoughby com veemência. – É com a senhorita que quero falar, e apenas consigo.

– Comigo! – disse bastante espantada – Bem senhor... Seja rápido... E se puder, menos violento.

– Sente-se e eu cumprirei suas ordens.

Ela hesitou, não sabia o que fazer. A possibilidade de o Coronel Brandon chegar e encontrá-lo ali passou pela sua cabeça. Mas havia prometido que o ouviria, e estava comprometida não apenas por sua curiosidade, mas principalmente por sua honra. Após um momento de reflexão, no entanto, concluindo que a prudência exigia presteza e que seu consentimento era a melhor maneira de obtê-la, caminhou silenciosamente em direção à mesa e sentou-se. Ele sentou-se na cadeira em frente, e durante um minuto e meio não disseram uma palavra.

– Por favor, seja rápido senhor – disse Elinor, com impaciência – não tenho tempo a perder.

Ele estava sentado em uma atitude de profunda meditação, e parecia não escutá-la.

– Sua irmã está fora de perigo – disse ele, abruptamente, logo em seguida. – Eu ouvi o empregado dizer. Deus seja louvado! Mas, é verdade? Realmente é verdade?

Elinor não iria responder. Ele repetiu a pergunta com mais ansiedade ainda.

– Pelo amor de Deus, ela está fora de perigo, não está? – disse ele.

– Esperamos que sim.

Ele se levantou e caminhou pela sala.

– Se eu soubesse disso há meia hora... Mas, já que estou aqui... (falou com vivacidade forçada, enquanto voltava para sua cadeira) O que isto significa? Por uma vez, Miss Dashwood... Talvez pela última vez... Alegremo-nos juntos. Estou com disposição para a alegria... Diga-me honestamente – seu rosto se iluminou com um rubor mais profundo – você acha que eu sou um canalha ou um tolo?

Elinor olhou para ele mais espantada que nunca. Começou a pensar que devia estar embriagado, pois era a única justificativa para uma visita como esta, para agir desta maneira. E com esta impressão, colocou-se imediatamente de pé e disse:

– Mr. Willoughby, eu o aconselho a voltar à Combe... Não disponho de mais tempo para permanecer aqui com o senhor. Qualquer que seja o assunto que deseje falar comigo, será melhor se recompor e me explicar amanhã.

– Compreendo-a – respondeu ele, com um sorriso expressivo e a voz perfeitamente calma. – Sim, estou muito embriagado... Um copo de cerveja preta e uma porção de rosbife

que comi em Marlborough[1] foi o suficiente para me transtornar.

– Em Marlborough! – exclamou Elinor, entendendo cada vez menos o que ele desejava.

– Sim, deixei Londres por volta das oito horas desta manhã, e os únicos dez minutos que passei fora da minha carruagem, desde então, foram para fazer uma refeição em Marlborough.

A firmeza de seus modos e a inteligência de seus olhos enquanto falava, convenceram Elinor que qualquer que fosse a loucura imperdoável que o trouxera a Cleveland, não era consequência de sua embriaguez. Após um momento de reflexão disse:

– Mr. Willoughby, o senhor deve sentir, assim como eu sinto... que depois de tudo o que se passou... Sua vinda aqui, desta maneira, impondo-me sua presença, exige uma justificativa muito especial. Que pretende com isto?

– O que pretendo – disse ele, sério e enérgico – se é que posso, é fazer com que me odeie menos do que agora. Meu objetivo é oferecer-lhe algum tipo de explicação, alguma desculpa, pelo ocorrido no passado. Quero abrir-lhe meu coração, e convencê-la de que, embora eu tenha sido um cabeça-dura, nem sempre fui um canalha, e desta forma, obter algo parecido com o perdão de Ma... de sua irmã.

– Este é o real motivo de sua visita?

– Juro por minha alma que é verdade – foi sua resposta, dita com um fervor que fez Elinor se lembrar do antigo Willoughby, e a despeito de si mesma, acreditou que ele estava sendo sincero.

– Se isto é tudo, pode se sentir satisfeito, pois Marianne... Ela já o perdoou há muito tempo.

– É verdade? – exclamou ele, com a mesma ansiedade. – Então ela me perdoou antes do tempo. Mas me perdoará outra vez, e desta vez por motivos muito mais racionais. Agora me escutará?

Elinor concordou com a cabeça.

– Eu não sei – disse ele, após uma pausa de expectativa da parte de Elinor e de meditação da parte dele – como considerou meu comportamento para com sua irmã, ou qual motivo diabólico me terá imputado. Talvez não consiga pensar bem de mim, porém, vale a pena tentar, e deve ouvir tudo. No começo de minha amizade com sua família, eu não tinha nenhuma outra intenção, nenhum outro interesse além de passar momentos agradáveis durante minha forçada estadia em Devonshire, mais agradáveis do que eu já vivenciara antes. Sua irmã, sendo uma pessoa adorável e de maneiras atrativas, não podia deixar de me encantar; e seu comportamento para comigo, desde o princípio foi... É espantoso, quando penso como tudo aconteceu, como ela me tratava, que meu coração tivesse sido tão insensível! Mas primeiramente devo confessar que isto só aumentou minha vaidade. Sem preocupar-me com a felicidade de Marianne, pensando apenas em minha própria diversão, permitindo-me sentimentos que sempre tive o hábito de cultivar em minha vida, esforcei-me de todas as maneiras para tornar-me agradável a ela, sem nenhuma intenção de corresponder ao seu afeto.

Miss Dashwood, neste momento, olhando-o com desprezo, interrompeu-o dizendo:

– Não vale a pena, Mr. Willoughby, continuar o seu relato, ou para eu continuar escutando-o. Tal começo não vai levá-lo a nada... Não me faça sofrer ao ter que ouvir mais alguma coisa sobre o assunto.

– Eu insisto em que ouça tudo o que tenho a dizer – ele respondeu. – Minha fortuna nunca foi grande, e eu sempre fui perdulário, sempre tive o costume de envolver-me com pessoas de rendimentos superiores aos meus. Desde a maioridade, ou até mesmo antes, acredito que aumentava minhas dívidas ano após ano, na crença de que a morte de minha prima, Mrs. Smith, viesse a me liberar de algumas delas; mas esse era um evento incerto, e talvez muito distante, por isso, durante algum tempo, tive a intenção de restabelecer minha situação casando-me com uma mulher de fortuna. Portanto, unir-me a sua irmã, era algo impensável. E por me encontrar em um estado de mesquinhez, egoísmo, crueldade... que nem mesmo um olhar de indignação ou desprezo, nem mesmo o seu olhar, Miss Dashwood, poderia censurar-me o suficiente, eu agia com o propósito de conquistar o afeto de Marianne, sem intenções de correspondê-lo. Mas uma coisa digo em meu favor: mesmo neste horrendo estado de egoísta vaidade, eu não sabia a extensão do dano que causaria, porque até então não sabia o que era amar. Mas, alguma vez eu soube o que é o amor? Talvez seja duvidoso, se eu realmente a amasse teria sacrificado meus sentimentos à vaidade ou à avareza? Ou, o que é pior, teria sacrificado os dela? Mas acabei fazendo isso. Para evitar uma pobreza relativa, da qual seu afeto e sua companhia teriam me compensado de todos os horrores, eu consegui, elevando-me à fortuna, perder tudo o que a tornaria uma benção.

– Então – disse Elinor, já mais calma – o senhor sentiu algo por ela durante algum tempo?

– Ter resistido a tais atrativos, ter resistido a tanta ternura! Que homem no mundo teria conseguido? Sim, pouco a pouco, sem dar-me conta, vi-me sinceramente apaixonado por ela, e as horas mais felizes de minha vida foram as que passei ao seu lado, quando sentia que minhas intenções eram totalmente honradas e meus sentimentos irrepreensíveis. Mesmo então, porém, quando estava completamente decidido a corresponder aos seus sentimentos, permiti-me, contra todo decoro, adiar, dia após dia, o momento de fazê-lo, por não querer firmar um compromisso enquanto estivesse naquela situação embaraçosa. Não vou justificar isto... nem vou impedi-la de divagar sobre o absurdo, e pior que absurdo, da minha falta de escrúpulo em comprometer minha palavra onde minha honra já estava comprometida. Minhas ações demonstraram o quanto fui completamente tolo, fazendo com que me tornasse desprezível e desgraçado para sempre. Por fim, ao menos minha resolução estava tomada, e eu tinha decidido que, assim que conseguisse ficar a sós com ela, falaria abertamente sobre as atenções que invariavelmente lhe concedia, e lhe garantiria minha afeição, que tanta dor me causava demonstrar. Mas nesse ínterim, em um intervalo de poucas horas, antes que eu tivesse a oportunidade de conversar com Marianne a sós, ocorreu uma circunstância, uma infeliz circunstância, para arruinar toda minha resolução e todo meu bem-estar. Descobriram – neste momento ele hesitou e baixou os olhos. – Mrs. Smith foi informada, de uma forma ou de outra, creio que por algum parente distante, cujo interesse era privar-me de sua herança, sobre um assunto... Uma relação... Bem, não preciso contar muitos detalhes, (ele acrescentou, olhando-a bastante corado e com um olhar inquiridor) pois através de seu amigo íntimo, provavelmente já sabe de toda história há muito tempo.

– Já sei – respondeu Elinor, bastante ruborizada, tentando endurecer seu coração contra qualquer sentimento de compaixão por ele. – Eu já sei de tudo. E como você poderá se eximir de sua culpa nesse assunto terrível, confesso que está além da minha compreensão.

– Lembre-se – exclamou Willoughby – de quem lhe contou. Ele poderia ter sido imparcial? Reconheço que eu deveria ter respeitado a situação e o caráter da moça. Não quero me justificar, mas ao mesmo tempo não quero que você pense que não tive nada para me encorajar... Que, porque ela sofreu, era irrepreensível, e porque fui libertino, ela deveria ser considerada uma santa. Se a violência de suas paixões, a fraqueza de seu entendimento... Eu não quero, entretanto, me defender. O afeto dela por mim merecia melhor tratamento, e eu, às vezes, com grande remorso, lembro-me da ternura que durante um breve momento teve o poder de despertar em mim certa correspondência. Eu desejo... Desejo de todo coração que nunca tivesse feito isso. Mas acabei magoando mais alguém além dela, pois magoei alguém cuja afeição por mim (posso dizê-lo?) era pouco menor do que a dela, e cuja mente... Oh! O quão infinitamente superior!

– Mas sua indiferença, entretanto, em relação àquela infeliz moça... Devo dizer, por mais desagradável que seja para eu discutir tal assunto... Sua indiferença não é desculpa para sua cruel negligência. Não pense que pode se desculpar por nenhuma fraqueza, nenhuma falta de entendimento por parte dela, nada pode desculpar a insensível crueldade que você demonstrou. Você deveria saber que, enquanto se divertia em Devonshire com novos planos, sempre alegre, sempre feliz, ela estava reduzida a mais extrema indigência.

– Mas, dou minha palavra, que não sabia de nada – respondeu ele calorosamente; – Eu não me lembro de ter omitido meu endereço para ela, e o simples bom senso deveria tê-la ensinado como me encontrar.

– Bem, senhor, e o que Mrs. Smith disse?

– Imediatamente censurou a ofensa que eu havia cometido, e pode imaginar o quanto fiquei confuso. A pureza de sua vida, seus princípios convencionais, sua ignorância do mundo, tudo estava contra mim. Não podia negar o fato, e qualquer esforço para tentar amenizar a situação foi em vão. Ela estava predisposta a duvidar da moralidade da minha conduta em geral e, além disso, estava descontente com minha pouca atenção, com o pouco tempo que eu lhe dedicava naquela visita. Em poucas palavras, terminou em uma ruptura total. Apenas uma coisa teria me salvado. No mais extremo de sua moralidade, boa mulher!, ela se ofereceu para perdoar o passado se eu me casasse com Eliza. Isso não era possível... e fui formalmente expulso de seus favores e de sua casa. Como tinha que partir na manhã seguinte, à noite, logo após a conversa com Mrs. Smith, refleti sobre qual rumo meu futuro deveria tomar. O esforço foi muito grande... Mas logo terminou. Meu afeto por Marianne, minha certeza de que gostava de mim... foram insuficientes para superar o medo da pobreza, ou para deixar de lado essas falsas ideias sobre a necessidade de riqueza, que tão naturais me pareciam, e que uma sociedade rica só me fazia engrandecer. Tinha razões para acreditar na aceitação da minha atual esposa, caso optasse por ela, e convenci-me de que não me restava nada mais prudente a fazer. Porém, uma difícil situação me aguardava antes de partir de Devonshire; estava comprometido a jantar em sua casa nesse mesmo dia, portanto, necessitava de uma desculpa para faltar a este compromisso. Custei a decidir se escreveria uma desculpa ou falaria pessoalmente. Sentia que seria terrível ver Marianne, e até mesmo duvidava se poderia vê-la novamente e manter minha decisão. Nesse ponto, entretanto, subestimei minha própria capacidade, como os fatos o provam; pois eu fui, encontrei-a, vi como ficou triste e deixei-a assim mesmo... E a deixei, esperando não vê-la nunca mais.

– Por que foi à nossa casa, Mr. Willoughby? – disse Elinor, reprovando-o. – Um bilhete resolveria tudo. Era necessário ir pessoalmente?

– Era necessário para o meu orgulho. Não suportava deixar o campo permitindo que vocês e o resto dos vizinhos, suspeitassem qualquer coisa do que havia ocorrido entre Mrs.

Smith e eu, então decidi parar em sua casa quando estava a caminho de Honiton[2]. Ver sua querida irmã, no entanto, foi realmente terrível, e para piorar as coisas, encontrei-a sozinha. Todas haviam saído, não sei para onde. Na noite anterior eu a deixara, tão decidido e resoluto de que faria a coisa certa! Em poucas horas nós estaríamos comprometidos para sempre, e lembro-me como eu estava feliz, e como estava alegre enquanto voltava do chalé até Allenham, satisfeito comigo mesmo, encantado com todo mundo! Mas neste encontro, o último de nossa amizade, eu a abordei com um sentimento de culpa que quase me tirou toda a capacidade de fingir. Sua dor, sua desilusão, seu profundo arrependimento, quando lhe disse que era obrigado a deixar Devonshire imediatamente... Eu nunca os esquecerei... de tal modo estavam unidos à sua confiança em mim! Oh, Deus! Que canalha sem coração eu fui!

Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos. Elinor foi a primeira a falar.

– Disse para Marianne que voltaria logo?

– Eu não sei o que disse a ela – ele respondeu, impacientemente – menos do que exigia o passado, sem nenhuma dúvida, e com toda probabilidade muito mais do que justificava o futuro. Não posso pensar nisso... Não devo... Depois veio sua gentil mãe me torturar ainda mais com sua bondade e confiança. Graças a Deus que isso me torturou. Eu me sentia infeliz! Miss Dashwood, a senhorita não tem ideia do consolo que me dá relembrar minha própria infelicidade. É tão grande o rancor que guardo pela estúpida e vil loucura do meu coração, que todos os meus sofrimentos passados hoje são apenas triunfo e exaltação para mim. Bem, eu parti, deixei para trás tudo o que amava, e fui ao encontro daqueles por quem, na melhor das hipóteses, apenas sentia indiferença. Minha viagem a Londres... em minha própria carruagem, tão entediante, sem ninguém com quem conversar... Que pensamentos alegres... Quando pensava no que me esperava! Quando me lembrava de Barton, que imagem reconfortante... Oh, foi uma viagem abençoada!

Ele parou.

– Muito bem, senhor, isso é tudo? – disse Elinor, que embora sentindo pena dele, estava impaciente por sua partida.

– Ah! Não... Você já se esqueceu do que ocorreu em Londres? Aquela carta infame! Ela lhe mostrou?

– Sim, vi todos os bilhetes que escreveram.

– Quando recebi o primeiro bilhete de Marianne (o que aconteceu imediatamente, pois eu estava na cidade o tempo todo), o que senti foi... como dizem... é impossível de se expressar; em palavras simples... talvez simples demais para despertar alguma emoção... meus sentimentos foram muito, muito dolorosos. Cada linha, cada palavra era... uma adaga no meu coração – em uma vulgar metáfora que tomo emprestada de um de seus mais queridos escritores, que se ela estivesse aqui certamente proibiria. Saber que Marianne estava na cidade era, na mesma linguagem, era um trovão. Trovões e punhaladas! Como ela me repreenderia! Seu gosto, suas opiniões... creio que os conheço melhor que os meus próprios, e com toda certeza os aprecio mais.

O coração de Elinor, que tinha sofrido muitas mudanças durante esta conversa, agora estava mais calmo novamente. Mas ainda assim sentia que era seu dever evitar pelo menos que seu visitante falasse certas coisas.

– Isto não está certo, Mr. Willoughby. Lembre-se que agora é um homem casado. Fale somente aquilo que sua consciência acredita ser necessário que eu ouça.

– O bilhete de Marianne, assegurando-me que eu ainda lhe era tão querido como antes, que apesar das muitas e muitas semanas que estivemos separados, mantinha-se constante em seus sentimentos, e tão confiante na constância dos meus como sempre, despertou-me um grande remorso. Digo que despertou, porque o tempo e Londres, os negócios e a vida dissipada, de alguma maneira os tinham adormecido e eu me transformara em um vilão completamente endurecido, acreditando que era indiferente a ela e insistindo em acreditar que ela também me era indiferente; dizendo a mim mesmo que nosso compromisso passado era apenas um passatempo, uma coisa à toa, e sacudia os ombros como prova disso, silenciando qualquer censura, passando por cima de qualquer escrúpulo, dizendo-me uma vez ou outra: “Ficarei feliz de todo coração se souber que ela se casou bem”. Mas este bilhete fez com que eu me conhecesse melhor. Senti que a amava muito mais do que qualquer outra mulher no mundo, e que eu estava me comportando de maneira infame. Mas, tudo já estava então acertado entre Miss Grey e eu. Era impossível retroceder. Tudo o que tinha a fazer era evitar encontrar-me com as duas. Não enviei nenhuma resposta para Marianne, tentando evitar que ela tivesse mais notícias minhas, e por algum tempo estava decidido a não visitá-las em Berkeley Street... Mas, finalmente, julgando ser melhor apenas fingir um sentimento de fria e comum amizade que qualquer outra coisa, esperei que saíssem de casa, em uma manhã, e deixei meu cartão.

– Esperou que saíssemos de casa!

– Sim, isso mesmo. Ficaria surpresa se soubesse quantas vezes eu as vi, quantas vezes estive prestes a encontrá-las. Entrei em muitas lojas para evitar que me vissem, enquanto a carruagem passava. Vivendo em Bond Street, não havia quase um dia em que não avistasse uma das duas, e a única coisa que nos manteve separados por tanto tempo foi minha constante observação, e um forte desejo de manter-me longe de seus olhos. Evitava os Middletons tanto quanto possível, assim como qualquer outra pessoa que pudesse ser um amigo em comum. Sem saber que eles estavam na cidade, entretanto, eu topei com Sir John, creio que no dia de sua chegada, que foi o dia seguinte à minha visita à casa de Mrs. Jennings. Ele me convidou para uma festa, um baile em sua casa à noite. Mesmo que não tivesse dito, para convencer-me, que você e sua irmã estariam ali, senti que isso era muito provável para atrever-me a ir. Na manhã seguinte chegou um novo bilhete de Marianne, ainda afetuosa, sincera, ingênua, confiante... Tudo que podia tornar minha conduta mais odiosa. Não pude responder o bilhete. Tentei... Mas não consegui sequer escrever uma frase. Mas pensei em Marianne em cada momento do dia. Se puder sentir pena de mim, Miss Dashwood, tenha piedade da situação em que me encontrava então. Com minha cabeça e coração cheios de sentimentos por sua irmã, fui forçado a representar o papel de feliz enamorado de outra mulher! Aquelas três ou quatro semanas foram as piores de todas. Bem, finalmente, como não é necessário que o diga, nós nos encontramos. E que doce imagem encontrei! Que noite de agonia foi aquela! De um lado, Marianne bonita como um anjo, dizendo meu nome da maneira mais doce possível! Oh, Deus! Estendendo-me a mão, exigindo uma explicação, com seus belos olhos fixos em mim com tão expressiva solicitude! E Sophia, ciumenta como o demônio, do outro lado, olhando tudo o que... Enfim, o que importa agora, já está tudo acabado. Que noite aquela! Fugi de vocês tão logo pude, porém não antes de ter visto o doce rosto de Marianne branco como a morte. Essa foi a última, a última visão que tive dela, o modo como a vi pela última vez. Foi horrível! Mas quando hoje pensei que ela estava realmente morrendo, senti uma espécie de conforto ao imaginar que eu sabia perfeitamente a exata aparência que teria para os que a vissem pela última vez. Ela estava diante de mim, constantemente na minha frente, durante toda a viagem, com o mesmo olhar e a mesma palidez.

Seguiu-se uma breve pausa de mútua reflexão. Willoughby se levantou primeiro, e quebrou o silêncio dizendo:

– Bem, devo apressar-me e ir embora. Tem certeza que sua irmã está melhor, está fora de perigo?

– Temos certeza disso.

– E sua mãe também! Gosta tanto de Marianne.

– Mas e sobre a sua carta, Mr. Willoughby, tem algo a dizer sobre ela?

– Sim, sim, essa em particular. Sua irmã escreveu-me novamente, como sabe, na manhã seguinte. Você leu o que ela escreveu. Eu estava tomando o café da manhã na casa dos Ellisons, e a carta de Marianne me foi entregue, assim como outras que me foram enviadas da minha pousada. Aconteceu de a carta chamar a atenção de Sophia antes de eu mesmo vê-la, e pelo tamanho, pela elegância do papel, a letra, tudo foi motivo para que ela suspeitasse. Já chegara aos seus ouvidos notícias sobre minha relação com uma jovem de Devonshire, e o ocorrido na noite anterior havia indicado quem era a moça em questão, tornando-a mais ciumenta do que nunca. Fingindo aquele ar de brincadeira, que só é delicioso na mulher que se ama, abriu a carta e leu seu conteúdo. Foi bem recompensada por sua imprudência. Leu as palavras que a deixaram infeliz. Eu poderia suportar sua infelicidade, mas sua ira... sua maldade... Tive que acalmá-la de qualquer maneira. E, em suma, o que você acha do estilo de escrita da minha esposa? Não é delicado, terno, verdadeiramente feminino?

– Sua esposa! A carta foi escrita com a sua própria letra!

– Sim, mas meu único mérito foi ter copiado servilmente as sentenças sob as quais tive vergonha de assinar meu nome. A original foi inteiramente dela, foram dela aqueles felizes pensamentos e gentil redação. Mas, o que eu poderia fazer! Estávamos noivos, estavam preparando tudo, a data já estava quase marcada... Mas... Falo como um tolo. Preparações! Data! Falando honestamente, o dinheiro de Sophia me era necessário, e em uma situação como a minha, tinha que fazer qualquer coisa para evitar um rompimento. E, além disso, que importância poderia ter para a opinião de Marianne e de seus amigos sobre o meu caráter, a linguagem em que fora escrita minha resposta? Devia servir apenas a um único propósito. Restava apenas declarar-me um patife, e pouco importava se eu o fizesse educadamente ou de forma grosseira. “Estou completamente arruinado na opinião elas” – foi o que disse a mim mesmo. “Estou banido para sempre de seu convívio, se já pensam que sou um homem sem princípios, esta carta só fará com que pensem que eu seja um canalha.” Estes eram meus pensamentos enquanto, em uma espécie de calma desesperada, copiei as palavras de minha esposa e me separei das últimas relíquias de Marianne. Os três bilhetes que me enviara, infelizmente estavam na minha carteira, ou eu teria negado a existência deles e os teria conservado para sempre. Fui forçado a devolvê-los e nem sequer pude beijá-los. E o cacho de cabelo – também sempre carregava comigo em minha carteira, que agora era vasculhada pela minha mulher com a mais cativante virulência... Meu querido cacho de cabelos... Tudo, todas as recordações foram arrancadas de mim.

– Está muito enganado, Mr. Willoughby, suas palavras são muito censuráveis – disse Elinor, enquanto sua voz, a despeito de si mesma, traía sua emoção compadecida. – O senhor não tem o direito de falar dessa maneira, não pode falar assim nem de Mrs. Willoughby nem de minha irmã. Fez sua escolha. Não foi forçado. Sua esposa tem direito a sua cortesia, ao seu respeito ao menos. Ela deve gostar de você, caso contrário não teria se casado. Tratá-la com indelicadeza, falar dela desrespeitosamente, não repara o dano que fez a Marianne... E acredito que também não alivie sua consciência.

– Não mencione minha esposa – disse ele com um profundo suspiro. – Ela não merece sua compaixão. Sabia que não gostava dela quando nos casamos. Bem, nos casamos, fomos a Combe Magna para sermos felizes, e depois voltamos a Londres para nos divertirmos. E agora, tem pena de mim, Miss Dashwood? Ou eu disse tudo isso em vão? Em sua opinião, sou, mesmo que seja um pouco, menos culpado do que antes? Minhas intenções nem sempre foram erradas. Justifiquei em parte minha culpa?

– Sim, você certamente removeu uma pequena parte da culpa. De um modo geral, provou ser menos culpado do que eu pensava. Demonstrou que seu coração é menos perverso, muito menos perverso. Mas é difícil saber... A dimensão da infelicidade que você causou, acho difícil pensar que poderia ter sido pior.

– Quando sua irmã se recuperar, irá contar-lhe tudo o que eu lhe disse? Por favor, permita que ela tenha uma melhor opinião a meu respeito, assim como a senhorita agora tem. Disse-me que ela já me perdoou. Permita-me acreditar que um melhor conhecimento de meu coração, de meus sentimentos atuais, conseguirá dela um perdão mais espontâneo, mais natural, mais gentil, menos superior. Conte-lhe sobre minha infelicidade e meu arrependimento, diga-lhe que meu coração nunca lhe foi infiel, e se desejar, diga-lhe que neste momento ela me é tão querida como sempre o foi.

– Eu direi a Marianne tudo o que for necessário para que, relativamente, possa ser chamado de sua justificativa. Mas você ainda não me explicou qual foi o motivo de sua visita, nem me disse como soube de sua doença.

– Ontem à noite, no saguão de Drury Lane[3], encontrei-me com Sir John Middleton, e quando ele viu quem era – foi nosso primeiro encontro nestes dois meses – dirigiu-me a palavra. Que ele tivesse me cortado de suas relações desde o meu casamento, não me deixou surpreso nem ressentido. Agora, entretanto, com sua boa, honesta e estúpida alma, cheio de indignação contra mim, e muito preocupado com sua irmã, não pôde resistir à tentação de contar-me o que achava necessário... embora ele provavelmente não tivesse pensado... que me afetaria terrivelmente. Contou-me, tão bruscamente como pôde, que Marianne Dashwood estava à beira da morte por causa de uma febre infecciosa em Cleveland... Uma carta enviada por Mrs. Jennings naquela manhã declarava o perigo eminente, e os Palmers já haviam se mudado, etc... O golpe foi demasiadamente forte para que pudesse fingir insensibilidade, mesmo diante de um homem tão pouco perspicaz quanto Sir John. Seu coração se abrandou ao ver o quanto eu sofria, e uma boa parte de sua má vontade passou, pois quando nos despedimos ele quase apertou minha mão, enquanto lembrava-me de uma antiga promessa que lhe fizera de lhe presentear com um filhote de pointer. O que senti ao ouvir que sua irmã estava morrendo... E morrendo acreditando que eu era o maior canalha do mundo, desprezando-me, odiando-me em seus últimos momentos... Como saber quais terríveis planos não me teria imputado? Uma pessoa, estava certo, seria capaz de apresentar-me como capaz de tudo... O que senti foi terrível! Rapidamente tomei uma decisão, e hoje às oito da manhã já estava em minha carruagem. Agora sabe de tudo.

Elinor não respondeu. Seus pensamentos estavam silenciosamente fixos no dano irreparável que uma independência muito precoce e os consequentes hábitos de ociosidade, dissipação e luxo fizeram na mente, no caráter, e na felicidade de um homem que possuía todas as vantagens pessoais e de talento, unidas a uma disposição naturalmente sincera e honesta e a um temperamento sensível e afetuoso. O mundo o tornara extravagante e vaidoso... A extravagância e a vaidade o tornaram frio e egoísta. A vaidade, que o levara a buscar seu próprio triunfo culposo à custa de outrem, envolveu-o em uma afeição de verdade, a qual a extravagância, ou pelo menos sua consequência, a necessidade, havia exigido que sacrificasse. Cada um de seus defeitos, ao conduzi-lo ao mal, também o conduziram ao castigo. O afeto,

que contra toda honra, contra todo sentimento, contra qualquer um de seus melhores interesses, arrancara de si, agora, quando não lhe era mais permitido, dominava todos os seus pensamentos. E a união, pela qual, sem o menor escrúpulo, deixara sua irmã à mercê do infortúnio, revelava-se para ele uma fonte de infelicidade de natureza muito mais incurável. De um devaneio como esse, após alguns minutos, Elinor foi chamada a realidade por Willoughby, que, despertando de um devaneio pelo menos tão doloroso quanto o dela, se preparava para sair, e disse:

– Não adianta ficar mais aqui, devo ir embora.

– Voltará a Londres?

– Não, irei a Combe Magna. Tenho negócios lá, e em um ou dois dias seguirei para Londres. Adeus.

Ele estendeu-lhe a mão. Elinor não poderia recusar-lhe a sua... Willoughby apertou-a com afeição.

– E agora pensa um pouco melhor a meu respeito? – disse ele, soltando sua mão e apoiando-se na proteção da lareira, como se tivesse esquecido que estava prestes a ir embora.

Elinor garantiu-lhe que sim, que o perdoava, tinha pena dele, e lhe desejava o bem... Inclusive desejava que fosse feliz... E acrescentou alguns conselhos gentis sobre como obter esta felicidade. A resposta de Willoughby não foi muito animadora.

– Quanto a isto – disse – viverei como puder. A felicidade doméstica está fora de questão. Se, entretanto, tiver o direito de pensar que você e sua família têm interesse em minha sorte e em meus atos, pode ser uma maneira... Pode colocar-me em guarda... Pelo menos, será um motivo pelo qual viver. Certamente Marianne está perdida para sempre. Mas se, por algum motivo abençoado, eu estiver livre novamente...

Elinor interrompeu-o com uma censura.

– Bem – ele respondeu – mais uma vez digo adeus. Agora devo partir e viver aterrorizado por um evento.

– O que quer dizer?

– O casamento de sua irmã.

– Você está muito enganado. Ela não poderia estar mais perdida para o senhor do que está agora.

– Mas ela será ganha por outro. E se esse outro for o mesmo que, entre todos os homens, considero o mais insuportável... Mas não permanecerei, para não perder toda a sua compassiva boa vontade, mostrando que a quem mais feri, é quem menos posso perdoar. Adeus! Deus a abençoe!

E com estas palavras, ele saiu quase correndo da sala.

 

[1] Cidade localizada no condado de Wiltshire, antigamente era o caminho que ligava Bath a Londres, sendo o caminho mais

utilizado.

[2] Cidade situada próxima ao Rio Otter, a 32 quilômetros de Exeter no condado de Devon. (N. T.)

[3] Famoso teatro inglês, localizado em Westminster. O teatro foi inaugurado em 1663, tendo sido reconstruído três vezes. (N.

T.)