Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 21 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 19

 

Edward ficou uma semana no chalé. Mrs. Dashwood insistiu para que ficasse mais tempo, mas, como se tivesse inclinação apenas para a autopunição, ele resolveu ir embora quando a diversão entre os amigos estava no auge. Seu estado de ânimo, nos últimos dois ou três dias, embora ainda fosse muito instável, havia melhorado muito. Dia após dia, sua afeição pela casa e arredores foi crescendo. Nunca falava em ir embora sem um suspiro, afirmou que dispunha de tempo, inclusive não tinha certeza para onde iria quando as deixasse. Mas mesmo assim, precisava ir. Nunca uma semana se passou tão rápido, e ele mal acreditava que já tivesse passado. Disse isso muitas vezes, disse outras coisas também, algumas que demonstravam a mudança de seus sentimentos e outras que contradiziam suas ações. Não sentia prazer em Norland, detestava Londres, mas deveria escolher um dos dois lugares para ir.

Estimava-lhes a gentileza acima de tudo, e sua maior felicidade fora estar com elas. Apesar disso tudo, teria que partir até o final da semana – mesmo contrariando os desejos de ambas as partes e sem ter uma definição quanto ao tempo.

Elinor atribuiu esse modo estranho de agir à influência da mãe dele, e ficou feliz por não conhecê-la, já que, desta forma, poderia atribuir-lhe a responsabilidade por qualquer comportamento estranho do filho. Embora desapontada e aborrecida, e, por vezes descontente com o comportamento incerto que o rapaz tinha para com ela, estava com a melhor disposição para considerar suas ações com as mais sinceras concessões e as generosas qualificações que, em relação à Willoughby, lhe haviam sido arrancadas de maneira mais trabalhosa por Mrs. Dashwood. O fato de Edward não ter ânimo, não ser franco ou coerente, era geralmente atribuído à sua falta de independência e ao conhecimento dos planos e disposições de Mrs. Ferrars. A brevidade de sua visita e o firme propósito de deixá-las tinham origem na mesma inclinação reprimida e na mesma necessidade inevitável de transgredir os desejos da mãe. A antiga e tão conhecida disputa entre o dever o desejo, entre pais e filhos, era a causa de tudo. Elinor gostaria de saber quando essas dificuldades acabariam, quando essa oposição terminaria, quando Mrs. Ferrars mudaria de opinião e seu filho teria a liberdade de ser feliz. Mas, desses vãos desejos, era obrigada a voltar para o conforto da renovação de sua confiança no afeto de Edward, para a recordação de todos os sinais de interesse que seus olhares ou palavras haviam deixado escapar enquanto estavam em Barton, e, sobretudo, para aquela prova lisonjeira que ele usava constantemente em seu dedo.

– Eu acho, Edward, que você seria um homem mais feliz se tivesse uma profissão com que empregar seu tempo e dar interesse a seus planos e ações – disse Mrs. Dashwood, enquanto tomavam café na última manhã – Poderia provocar alguns inconvenientes aos seus amigos, de fato, pois não poderia dedicar tanto tempo a eles. Mas – disse sorrindo – seria materialmente benéfico em pelo menos um aspecto, você saberia aonde ir quando os deixasse.

– Garanto-lhe – respondeu ele – que pensei muito sobre a questão, do mesmo modo como a senhora faz agora. Foi, e provavelmente sempre será um grande infortúnio para mim, não ter tido nenhum negócio para me ocupar, nenhuma profissão que me desse emprego ou me garantisse algo parecido com uma independência. Mas, infelizmente, meu próprio refinamento e o de meus amigos, fez de mim um homem inútil e incapaz. Nunca concordamos na escolha de uma profissão. Eu sempre preferi a igreja, e ainda prefiro. Mas, segundo minha família, não é uma profissão adequada. Eles sugeriram a carreira militar. Mas aquilo era elegante demais para mim. Concordavam que o direito era uma carreira bastante requintada;

muitos rapazes que possuem gabinetes na Câmara dos Comuns[1] tiveram uma recepção muito boa nos círculos mais importantes, e passeiam pela cidade em carruagens muito elegantes. Mas não tenho nenhuma inclinação para o direito, mesmo nos estudos menos complexos, como minha família queria. Quanto à marinha, tem certo encanto, mas eu já

passara da idade[2] quando o assunto veio à tona pela primeira vez, e, como eu não tinha necessidade de ter nenhuma profissão, pois eu poderia ser tão alinhado e refinado com ou sem uniforme, finalmente decidiram que o ócio era o mais vantajoso e honrado. Além disso, um rapaz de dezoito anos não está tão ansioso para ter uma ocupação a ponto de resistir aos

pedidos dos amigos para não fazer nada. Então, ingressei em Oxford[3] e desde então tenho estado em completo ócio.

– Suponho que a consequência disso tudo será – disse Mrs. Dashwood –, já que o ócio não lhe trouxe nenhuma felicidade, que seus filhos serão criados com tantas atividades,

empregos, profissões como os filhos de Columella[4].

– Serão educados – disse ele seriamente – para serem totalmente diferentes de mim, quer seja em sentimentos, ações, condição, em tudo.

– Ora, tudo isso não é mais que uma consequência do seu desânimo, Edward. Você está melancólico e imagina que qualquer pessoa que seja diferente de você deve ser feliz. Mas lembre-se de que a dor de separar-se dos amigos é sentida por todos, não importa qual seja sua educação ou condição. Conheça sua própria felicidade. Você precisa ser paciente, ou para dar um nome mais atrativo, precisa ter esperanças. Com o tempo, sua mãe lhe concederá a independência que você tanto almeja, é função dela, e sempre será, impedir que sua juventude se perca em desgostos. E isso, alguns meses não conseguirão fazer!

– Eu acho – respondeu Edward – que serão necessários muitos meses para que alguma coisa boa aconteça comigo.

Este desânimo, embora não pudesse ser comunicado à Mrs. Dashwood, aumentou a dor de todos pela partida de Edward, que aconteceu logo, e deixou uma incômoda sensação, especialmente nos sentimentos de Elinor, que necessitou de tempo e ocupação para vencê-la. Mas como estava determinada a superar tais sentimentos e evitar parecer que sofria mais que o resto da família por causa da partida de Edward, não agiu como Marianne em uma ocasião semelhante – que para aumentar e demonstrar a dor, procurou o silêncio, a solidão e a ociosidade. Seus modos eram tão diferentes quanto seus objetivos, e igualmente adequados para a promoção de ambos.

Assim que Edward deixou a casa, Elinor sentou-se à mesa de desenho, e manteve-se ocupada durante todo o dia; não buscou nem evitou mencionar o nome do rapaz. Parecia ter o mesmo interesse de sempre com as preocupações gerais da família, e se, com esta conduta, não diminuiu seu sofrimento, pelo menos evitou que este aumentasse ainda mais, e sua mãe e irmãs pouparam muitas preocupações com ela.

Tal comportamento, exatamente o oposto do seu próprio, não pareceu para Marianne mais meritório do que o seu parecera errado para Elinor. O assunto do autocontrole ela resolveu com toda facilidade: se era impossível com sentimentos fortes, não tinha mérito com sentimentos fracos. Que os sentimentos de sua irmã fossem calmos, ela não ousava negar, embora corasse ao reconhecê-lo; e da força dos seus próprios, ela deu uma prova conclusiva, amando e respeitando sua irmã apesar dessa humilhante convicção.

Sem se afastar da família, nem sair de casa sozinha para evitar a companhia das outras, ou ficar acordada a noite inteira perdida em meditações, Elinor descobriu que o dia lhe oferecia tempo suficiente para pensar em Edward, em seu comportamento, de todas as maneiras possíveis que a mudança de seu estado de ânimo poderia produzir: com ternura, piedade, aprovação, censura ou dúvida. Havia momentos em que, se não pela ausência de sua mãe e irmãs, pelo menos em razão da natureza de suas ocupações, era impossível a conversa entre elas, e todos os efeitos da solidão se faziam sentir. Inevitavelmente sua mente libertava-se e seus pensamentos não podiam prender-se a nenhuma outra coisa, e o passado e o futuro, relacionados a um tema tão interessante, apresentavam-se a ela, chamando sua atenção, absorvendo sua memória, sua reflexão e sua imaginação.

Em uma certa manhã, logo depois da partida de Edward, Elinor estava sentada à mesa de desenho quando foi despertada de seus devaneios pela chegada de visitas. Estava completamente sozinha. O fechamento do portãozinho, na entrada do jardim em frente à casa, atraiu seus olhos para a janela, e viu um grande grupo de pessoas se dirigirem à porta. Entre eles estavam Sir John, Lady Middleton e Mrs. Jennings, porém havia duas outras pessoas que ela não conhecia: um cavalheiro e uma dama. Ela estava sentada perto da janela, e assim que Sir John a viu, se afastou do resto do grupo, deixando-os cerimoniosamente bater à porta, e caminhou pelo gramado, obrigando-a a abrir a janela para conversarem em particular; como o espaço entre a porta e a janela era pequeno, era impossível falar em uma delas sem ser ouvido na outra.

– Bem, disse ele – trouxemos-lhe dois desconhecidos. Que acha deles?

– Cuidado! Podem escutá-lo.

– Não se preocupe se eles ouvirem. São só os Palmers. Posso dizer-lhe que Charlotte é muito bonita, você pode vê-la se olhar nesta direção.

Como Elinor estava certa de que a veria em alguns minutos, sem ter que tomar tal liberdade, pediu desculpas por não fazê-lo.

– Onde está Marianne? Será que fugiu ao nos ver chegar? Vejo que o piano está aberto.

– Creio que saiu para caminhar.

Nesse momento, Mrs. Jennings se uniu a eles, já que não teve paciência para esperar que Elinor abrisse a porta para contar-lhe sua história. Veio até a janela falando aos gritos:

– Como vai minha querida? Como vai Mrs. Dashwood? E onde estão suas irmãs? O quê! Está sozinha? Você se alegrará por ter alguém que lhe faça companhia. Trouxe meu genro e minha filha para você conhecê-los. Imagina só! Chegaram tão de repente! Pensei ter ouvido uma carruagem na noite passada, enquanto tomávamos chá, nunca imaginaria que poderiam ser eles. Pensei apenas que poderia ser o Coronel Brandon de volta; então eu disse a Sir John que tinha ouvido o barulho de uma carruagem, e que talvez fosse o Coronel de volta.

Elinor foi obrigada a se afastar dela, no meio da conversa, para receber o resto do grupo. Lady Middleton apresentou os dois desconhecidos; Mrs. Dashwood e Margaret desceram as escadas nesse mesmo momento, e todos começaram a olhar uns para os outros, enquanto Mrs. Jennings continuou sua história ao entrar pelo corredor da sala, acompanhada por Sir John.

Mrs. Palmer era vários anos mais jovem que Lady Middleton, e totalmente diferente dela em todos os aspectos. Era baixa e robusta, tinha um rosto bonito e possuía a maior expressão de bom humor que se pode imaginar. Seus modos não eram em absoluto tão elegantes como os de sua irmã, porém eram muito mais agradáveis. Chegou sorrindo e assim permaneceu por todo o tempo que durou a visita, exceto quando dava uma gargalhada. E sorriu quando foram embora. Seu marido era um homem jovem e sério, de vinte e cinco ou vinte e seis anos, com ar mais elegante e sensato que sua esposa, porém com menos desejo de agradar e ser agradado. Entrou no chalé com ar de autossuficiência, se inclinou levemente para cumprimentar as damas, sem pronunciar uma palavra e, após inspecionar as Dashwoods e os aposentos brevemente, pegou um jornal que estava sobre a mesa e permaneceu lendo-o até o final da visita.

Mrs. Palmer, pelo contrário, a quem a natureza havia dotado de grande disposição para ser invariavelmente cortês e feliz, mal havia se sentado e já demonstrava admiração pela sala e tudo que havia nela.

– Vejam! Que linda sala! Nunca vi algo tão encantador! Veja, mamãe, como está bem melhor desde a última vez em que estive aqui! Eu sempre achei este chalé um lugar agradável, (virando-se para Mrs. Dashwood), mas você o tornou ainda mais encantador! Veja, mana, como tudo aqui é delicioso. Como gostaria de ter uma casa assim! Você não gostaria, Mr. Palmer?

Mr. Palmer não respondeu, e sequer tirou os olhos do jornal.

–Mr. Palmer não me ouve – disse ela, rindo – ele nunca me ouve. É tão ridículo!

Esta era uma ideia bastante nova para Mrs. Dashwood, que não estava acostumada a achar divertido alguém faltar a atenção com outra pessoa, e não pôde deixar de olhar com surpresa para os dois.

Mrs. Jennings, entretanto, seguia falando o mais alto que podia e continuou seu relato sobre a surpresa que tivera na noite passada, ao ver seus amigos – e não cessou um minuto até que conseguisse contar tudo. Mrs. Palmer ria com grande entusiasmo ao recordar do seu espanto, e todos concordaram, duas ou três vezes, que havia sido uma surpresa muito agradável.

– Você pode imaginar o quanto ficamos contentes ao vê-los – acrescentou Mrs. Jennings, inclinando-se para frente na direção de Elinor e falando em voz baixa como se não quisesse que mais ninguém a ouvisse, embora estivessem sentadas em lados opostos da sala – mas não posso deixar de desejar que eles não tivessem viajado tão rápido, nem feito tão longa jornada, pois deram uma volta para ir a Londres por causa dos negócios, porque, você sabe, (apontou para sua filha com uma expressiva inclinação da cabeça) é muito inconveniente viajar no estado dela. Eu queria que ela ficasse em casa e descansasse pela manhã, mas ela insistiu em vir conosco, queria muito conhecer vocês todas!

Mrs. Palmer riu, e disse que não havia mal algum.

– Ela espera dar à luz em fevereiro – continuou Mrs. Jennings.

Lady Middleton não aguentava mais ouvir aquela conversa e logo tratou de perguntar a Mr. Palmer se havia alguma notícia importante no jornal.

– Não, não há nada – respondeu Mr. Palmer e continuou lendo.

– Aí vem Marianne – exclamou Sir John. – Agora, Palmer, você verá uma menina terrivelmente bonita.

Ele foi imediatamente para o corredor, abriu a porta da frente e a acompanhou para dentro de casa. Assim que ela surgiu, Mrs. Jennings perguntou se ela não estivera em Allenham e Mrs. Palmer deu uma grande gargalhada, o que demonstrou que ela sabia da história. Mr. Palmer a observou enquanto entrava na sala, examinou-a durante alguns minutos e voltou a ler o jornal. Mrs. Palmer começou o observar os desenhos pendurados nas paredes da sala. Em seguida se levantou para examiná-los.

– Oh, querida! Como são belos! Como são encantadores! Estou encantada! Veja mamãe, como são lindos! Acho-os bastante charmosos, eu poderia passar a vida inteira olhando para eles – voltou a sentar-se e logo se esqueceu de que havia tais coisas na sala.

Quando Lady Middleton levantou-se para ir embora, Mr. Palmer também se levantou, deixou o jornal, esticou-se e olhou para todos à sua volta.

– Meu querido, você esteve dormindo? – disse a esposa, rindo.

Ele não respondeu, apenas observou, após examinar novamente o cômodo, que o teto era muito baixo e que estava torto. Então se inclinou diante delas e saiu com os demais.

Sir John havia insistiu para que passassem o dia seguinte em Barton Park. Mrs. Dashwood que não achava adequado jantar com eles mais vezes do que eles jantavam no chalé, recusou absolutamente o convite, mas permitiu que suas filhas aceitassem se quisessem. Mas elas não tinham nenhuma curiosidade de ver como Mr. e Mrs. Palmer comiam seu jantar, e a perspectiva de jantar com eles não prometia nenhuma diversão. Tentaram se desculpar também: o tempo estava instável e provavelmente não iria melhorar. Mas Sir John não se deu por satisfeito e disse que a carruagem seria enviada para buscá-las e elas teriam de ir. Lady Middleton também insistiu para que elas fossem, embora não pressionasse a mãe das moças. Mrs. Jennings e Mrs. Palmer juntaram-se aos pedidos, todos pareciam igualmente ansiosos por evitar uma reunião familiar, e as jovens Dashwoods foram obrigadas a ceder.

– Por que eles tinham que nos convidar? – disse Marianne, assim que eles saíram. – O aluguel do chalé é considerado baixo, mas as condições são muito duras, se temos que jantar em Barton Park cada vez que alguém os visita ou está nos visitando.

– Não, não querem ser menos educados e gentis conosco agora – disse Elinor – com esses convites frequentes, do que quando chegamos, há poucas semanas. Se suas reuniões agora são entediantes e aborrecidas para nós, não é culpa deles Temos que procurar essa mudança em outro lugar.

 

[1]Câmara dos Comuns (ou Casa dos Comuns) é o nome histórico da câmara inferior do parlamento; equivalente a Câmara dos

Deputados no Brasil. (N. T.)

[2] Na Inglaterra, os meninos que tinham a intenção de ingressar no Exército ou na Marinha, começavam o treinamento por

volta dos doze anos de idade. (N. T.)

[3]A Universidade de Oxford, situada na cidade de Oxford, na Inglaterra, é a mais antiga universidade do país, e uma das mais

antigas do mundo. (N. T.)

[4] Mrs. Dashwood se refere ao romance de Richard Graves (1715 – 1804), Columella or the Distressed Anchoret, de 1779. O livro

conta a história de um pai que nunca trabalhou, mas tinha aspirações profissionais variadas para seus filhos. (N. T.)