Razão e Sensibilidade

Jane Austen · Capítulo 19 de 103

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Razão e Sensibilidade

Capítulo 17

 

Ao vê-lo, Mrs. Dashwood ficou surpresa por apenas um momento, pois a vinda de Edward a Barton era, em sua opinião, algo muito natural. Sua alegria e manifestações de afeto ultrapassaram em muito seu espanto. Ele recebeu a mais gentil acolhida por parte dela, e sua timidez, frieza ou reserva não puderam resistir a tal recepção. Antes de entrar na casa já começavam a desaparecer, e a maneira encantadora com a qual Mrs. Dashwood o tratou acabou por vencê-lo. Na verdade, um homem não poderia estar enamorado de uma de suas filhas sem estender a paixão por ela. Elinor teve a satisfação de vê-lo voltar a se comportar como antes. Sua afeição por todas pareceu reanimar-se, e seu interesse pelo bem-estar delas tornou-se perceptível. Ele não estava animado, entretanto, elogiou a casa, admirou a vista, era atencioso e gentil, mas, ainda assim, não estava animado. A família inteira percebeu e Mrs. Dashwood atribuindo este desânimo a alguma falta de generosidade de sua mãe, sentou-se à mesa indignada contra todos os pais egoístas.

– Quais são os planos de Mrs. Ferrars para você no momento, Edward? – disse ela, quando terminaram o jantar e encontravam-se reunidos ao redor da lareira. – Você ainda tem que ser um grande orador, mesmo contra a vontade?

– Não. Espero que minha mãe esteja convencida de que não tenho nem talento nem inclinação para a vida pública!

– Mas, como então alcançará a fama? Já que você tem que ser famoso para satisfazer toda sua família, sem ser propenso a vida luxuosa, sem interesse por estranhos, sem profissão e sem futuro garantido, pode ser difícil alcançá-la.

– Não vou tentar alcançá-la. Não tenho a intenção de distinguir-me e tenho todos os motivos para esperar que nunca precise disso. Graças a Deus! Não podem obrigar-me a ser genial e eloquente.

– Você não é ambicioso, isso eu sei bem. Todos seus desejos são moderados.

– Tão moderados como os de todo mundo, imagino. Desejo o mesmo que os demais, ser muito feliz; mas, assim como os demais, quero sê-lo à minha maneira. A fama não me fará feliz.

– Seria estranho se o fizesse! – exclamou Marianne. – O que a fama e a riqueza têm a ver com a felicidade?

– A fama tem muito pouco – disse Elinor –, mas a riqueza tem muito a ver.

– Que vergonha Elinor! – disse Marianne – O dinheiro só pode trazer felicidade quando uma pessoa não tem mais nada para ser feliz. Além do bem-estar, não pode dar real satisfação, pelo menos no que se refere ao nosso íntimo.

– Talvez – disse Elinor sorrindo – possamos chegar a um ponto em comum. Seu bem-estar e minha riqueza são bastante parecidos, e sem eles, do modo que o mundo é agora, nós duas devemos concordar que faltará todo tipo de conforto externo. Suas ideias são apenas mais nobres do que as minhas. Diga-me, quanto acha ser o suficiente para viver com conforto?

– Cerca de mil e oitocentas a duas mil libras por ano, não mais que isso.

Elinor riu.

– Duas mil libras por ano! A minha ideia de riqueza é mil ! Já imaginava como isso acabaria.

– Mas ainda sim duas mil libras por ano é uma renda bastante moderada – disse Marianne. Uma família não pode se sustentar com menos que isso. Tenho certeza que não sou extravagante em minhas pretensões. Um número adequado de empregados, uma carruagem, talvez duas, e cães de caça, não podem ser mantidos por menos.

Elinor sorriu de novo, ao escutar sua irmã descrever com tantos detalhes seus futuros

gastos em Combe Magna[1].

– Cães de caça! – repetiu Edward – mas porque você teria cães de caça? Nem todo mundo costuma caçar.

Marianne respondeu corada:

– Mas a maioria das pessoas caça.

– Eu gostaria – exclamou Margaret, expressando uma situação novelesca – que alguém nos deixasse uma grande fortuna!

– Ah, se isso acontecesse! – exclamou Marianne, com os olhos brilhantes de animação, e as faces radiantes pelo prazer daquela felicidade imaginária.

– Suponho que todas somos unânimes em desejar isso – disse Elinor – apesar da riqueza por si só não ser o suficiente.

– Oh, minha querida – exclamou Margaret – como eu seria feliz! Imagino o que seria capaz de fazer com tanta riqueza!

Marianne olhou como se não tivesse nenhuma dúvida a respeito disso.

– Eu ficaria confusa se tivesse tamanha riqueza só para mim – disse Mrs. Dashwood –, se todas as minhas filhas fossem ricas sem minha ajuda.

– Deveria começar com as melhorias no chalé – observou Elinor, assim suas dificuldades logo acabariam.

– Que magníficas encomendas essa família faria em Londres – disse Edward – em uma situação como essa! Seria um dia feliz para os livreiros, vendedores de partituras e lojas de gravuras! Você, Miss Dashwood, faria uma encomenda geral para que lhe fosse enviada cada nova gravura de qualidade. Quanto a Marianne, conheço a grandeza de sua alma, não haveria partituras suficientes em Londres para lhe contentar. E livros! Thomson, Cowper, Scott... Ela compraria todos eles novamente; compraria cada cópia, creio eu, para evitar que caiam em mãos indignas, e compraria todos os livros que lhe ensinassem como admirar uma velha árvore retorcida. Não é verdade, Marianne? Perdoe-me se estou sendo muito insolente. Mas queria mostrar-lhe que não me esqueci de nossas antigas desavenças.

– Gosto de recordar o passado, Edward – seja ele melancólico ou alegre, adoro recordá-lo. E você nunca me ofenderá falando dos velhos tempos. Você está bastante certo ao imaginar como eu gastaria meu dinheiro, pelo menos parte dele. Boa parte do meu dinheiro seria usada para aumentar minha coleção de partituras e livros.

– E o grosso de sua fortuna seria gasto com pensões anuais para os escritores e seus herdeiros.

– Não, Edward, eu teria um emprego diferente para esse dinheiro.

– Talvez, então, você premiaria a pessoa que escrevesse a melhor defesa de sua máxima favorita, a de que ninguém pode apaixonar-se mais de uma vez na vida. Presumo que sua opinião a este respeito não mudou, não é mesmo?

– Sem dúvida nenhuma. Na minha idade, as opiniões são bastante firmes. Não creio que seja provável que veja ou ouça algo que me faça mudar de opinião.

– Pode ver que Marianne continua firme como sempre – disse Elinor. – Ela não mudou em nada.

– Apenas está um pouco mais séria do que antes.

– Não, Edward – disse Marianne – você não deve me censurar. Você mesmo não está muito alegre.

– Como pode pensar isso! – respondeu ele, com um suspiro. – A alegria nunca fez parte do meu caráter.

– Tampouco do de Marianne – disse Elinor. – Dificilmente diria que ela é uma moça alegre. É muito intensa, muito determinada em tudo o que faz, às vezes fala muito, e sempre com grande animação... Mas raramente é alegre de verdade.

– Creio que você está certa – respondeu ele. – No entanto, eu sempre a considerei uma moça alegre.

– Frequentemente, vejo-me cometendo esse tipo de erro – disse Elinor – com ideias totalmente falsas sobre o caráter de alguém em um ou outro aspecto; imaginando as pessoas muito mais alegres ou tristes, ou inteligentes ou estúpidas do que realmente são. E dificilmente posso dizer o porquê ou baseado em que esse erro tem origem. Às vezes, nos deixamos guiar por aquilo que as pessoas dizem de si mesmas, e muitas vezes por aquilo que as outras pessoas dizem delas, sem parar um momento para refletir e julgar.

– Mas achei que fosse certo, Elinor – disse Marianne –, deixar-se guiar completamente pela opinião dos outros. Penso que nossos julgamentos nos são dados apenas para serem subservientes aos de nossos vizinhos. Estou certa de que esta sempre foi a sua doutrina.

– Não, Marianne, nunca. Minha doutrina nunca teve a intenção de subjugar a inteligência. Tudo o que sempre tentei influenciar foi o comportamento. Você não deve confundir o que quero dizer. Confesso que sou culpada de às vezes ter desejado que você tratasse nossos amigos em geral com maior atenção. Mas quando eu lhe aconselhei a adotar os sentimentos ou submeter-se às opiniões deles em assuntos importantes?

– Você nunca foi capaz de persuadir sua irmã a concordar com o seu plano de civilidade generalizada – disse Edward a Elinor. – Não conquistou nenhum terreno?

– Muito pelo contrário – respondeu Elinor, olhando expressivamente para Marianne.

– Meu julgamento – respondeu ele – está ao seu lado nesta questão, mas receio que minhas ações sejam mais parecidas com as de sua irmã. Nunca desejei ofender, mas sou estupidamente tímido, tanto que às vezes pareço negligente, quando apenas me retraio devido à minha natural falta de jeito. Frequentemente penso que, por natureza, devo estar predestinado a gostar de pessoas mais simples, pois me sinto pouco à vontade entre pessoas nobres que me sejam estranhas!

– Marianne não tem nenhuma timidez que possa desculpar qualquer desatenção da parte dela – disse Elinor.

– Ela conhece muito bem seu valor para sentir uma falsa vergonha – respondeu Edward. – A timidez é apenas o efeito de uma sensação de inferioridade em um ou outro sentido. Se eu me convencesse de que minhas maneiras são perfeitamente naturais e elegantes, não seria tímido.

– Mas ainda assim você seria reservado – disse Marianne – e isso é pior.

Edward espantou-se:

– Reservado! Acha que sou reservado, Marianne?

– Sim, muito.

– Não entendo você – respondeu ele, corando. – Reservado! Como? De que maneira? O que eu deveria lhe dizer? O que supõe?

Elinor pareceu surpresa com a emoção dele, mas tentando rir do assunto, disse para Edward:

– Você não conhece minha irmã o suficiente para entender o que ela quer dizer? Por acaso não sabe que ela chama de reservada qualquer pessoa que não fale tão rápido quanto ela, nem admire o que ela admira com igual entusiasmo?

Edward não respondeu. Voltou a ficar mais sério e pensativo do que costumava ser, e durante um momento ficou ali sentado, silencioso e sombrio.

 

[1] Combe Magna, é a casa ficcional de John Willoughby criada por Jane Austen, localiza-se no Condado de Somersetshire. (N.

T.)