Razão e Sensibilidade
Capítulo 18
Elinor viu, com grande inquietude, o desânimo de seu amigo. Sua visita proporcionou-lhe apenas uma satisfação muito parcial, pois que a própria alegria dele parecia imperfeita. Era evidente que ele não estava feliz, e ela desejava que fosse igualmente evidente que ele ainda tivesse por ela o mesmo afeto, que antes não duvidava inspirar-lhe, mas até o momento a continuidade de sua afeição parecia muito duvidosa, e a reserva de sua atitude para com ela, contradizia em um momento o que um olhar mais expressivo sugerira no momento anterior.
Na manhã seguinte, ele se juntou a Elinor e Marianne na sala de café antes que os outros descessem; e Marianne, sempre ansiosa em promover a felicidade de ambos, logo os deixou a sós. Mas, antes que estivesse no meio da escada, ouviu a porta da sala se abrir, e, voltando-se, ficou admirada ao ver que Edward saía também.
– Estou indo à cidade para ver meus cavalos – disse ele – já que vocês ainda não estão prontas para o café da manhã, voltarei logo.
***
Edward retornou maravilhado pela beleza da região; em sua caminhada para a vila, tinha visto muitas partes do vale de um ângulo mais favorável, e a vila por si só, localizada em um ponto bem mais alto que o chalé, oferecia uma vista geral da região que o agradou bastante. Este era um tema que prendia a atenção de Marianne, e ela começou a descrever sua própria admiração pelas paisagens e a interrogá-lo sobre as coisas que o haviam impressionado de maneira especial, quando Edward a interrompeu dizendo:
– Você não deve fazer muitas perguntas, Marianne, lembre-se que eu não sei nada
sobre o que é pitoresco[1], e poderei lhe ofender por minha ignorância e falta de gosto, se descermos a detalhes. Poderia chamar as colinas de inclinadas, ao invés de dizer escarpadas; poderia chamar as superfícies de estranhas e singulares, quando deveria dizer irregulares e sinuosas; e falaria de coisas distantes que não se vê bem, quando poderia apenas dizer que estão fora do alcance da vista porque se encontram entre uma névoa. Você deve se satisfazer com a admiração que honestamente lhe concedo. Acho esta região muito bonita, as colinas são altas, os bosques parecem ricos em excelente madeira, e o vale é agradável e acolhedor, com ricas pastagens e várias fazendas por ali. Corresponde exatamente à minha ideia de uma ótima região, pois une beleza e utilidade, e estou certo de que é pitoresca também, pois você a
admira. Posso bem acreditar que a região é cheia de rochedos e promontórios [2], musgo cinzento e matas, mas tudo isso não tem significado para mim, não sei nada do pitoresco.
– Sinto dizer, mas é a mais pura verdade – disse Marianne. – Mas por que ostenta isso?
– Eu suspeito – disse Elinor – que para evitar cair em algum tipo de afetação, Edward caia aqui em outro. Pois ele acredita que muitas pessoas fingem sentir mais admiração pelas belezas da natureza do que realmente sentem, e como lhe desagrada tais pretensões, ele demonstra mais indiferença e menos discriminação a respeito do que sente de verdade. Ele é melindroso e quer ter uma afetação só sua.
– É verdade – disse Marianne – que a admiração por paisagens tornou-se apenas um jargão. Todos fingem senti-la e tentam descrevê-la com o gosto e a elegância daquele que foi o primeiro a definir o que é beleza pitoresca. Detesto qualquer tipo de jargão, e às vezes guardo meus sentimentos para mim, pois não consigo encontrar uma linguagem para descrevê-los que não seja algo já gasto e vulgarizado, que não tem mais qualquer sentido ou significado.
– Estou convencido – disse Edward – de que você realmente sente todo o prazer que diz sentir, quando observa uma linda vista. Mas, em troca, sua irmã deve permitir-me não sentir nada além do que demonstro. Gosto de uma bela paisagem, mas não por motivos pitorescos. Não gosto de árvores retorcidas, entrelaçadas ou ressecadas. Admiro-as muito mais se forem altas, retas e floridas. Não gosto de chalés em ruínas. Não sou apaixonado por urtigas, cardos ou flores de brejo. Aprecio muito mais uma confortável casa de campo do que uma torre de vigia..., e prefiro um grupo de camponeses felizes aos mais magníficos arruaceiros do mundo.
Marianne olhou com espanto para Edward, e com compaixão para sua irmã. Elinor apenas riu.
Encerraram o assunto rapidamente e Marianne se manteve em silêncio até que um objeto de repente chamou sua atenção. Estava sentada ao lado de Edward, e quando ele pegou a xícara de chá que lhe oferecia Mrs. Dashwood, sua mão passou bem diante dela, deixando à vista, em um de seus dedos, um anel com uma trança de cabelos no centro.
– Eu nunca vi você usar esse anel antes, Edward – exclamou ela. – É o cabelo de Fanny? Eu me lembro de vê-la prometer-lhe um cacho. Mas pensei que seus cabelos fossem mais escuros.
Marianne falou, sem maior reflexão, o que realmente sentia; mas quando percebeu o quanto Edward estava perturbado, sua vergonha pela falta de tato não foi menor que a dele. Ele ficou bastante corado, e olhando de relance para Elinor, respondeu:
– Sim, é o cabelo de minha irmã. O engaste sempre muda a cor do objeto, você sabe.
O olhar de Elinor cruzou com o dele e também pareceu perturbado. De imediato pensou, assim como Marianne, que aquele cabelo era o seu; a única diferença entre as duas era que Marianne pensava que se tratava de um presente dado voluntariamente por sua irmã, e para Elinor havia sido roubado sem que ela percebesse. Entretanto, ela não estava com humor para considerá-lo uma afronta, e fingiu não ter percebido o que se passara, pois instantaneamente mudaram de assunto. Elinor decidiu consigo mesma aproveitar qualquer oportunidade para observar o cabelo e se convencer, sem sombra de dúvida, que era mesmo dela.
O embaraço de Edward durou um pouco mais, e terminou levando-o a um estado de abstração ainda mais acentuado. Esteve particularmente sério a manhã inteira. Marianne não se perdoou pelo que havia dito, mas teria se perdoado com muito mais rapidez se soubesse quão pouco sua irmã havia se ofendido.
Antes do meio dia receberam a visita de Sir John e Mrs. Jennings que, ao saberem da chegada de um cavalheiro no chalé, vieram investigar quem era o visitante. Com a ajuda de sua
sogra, Sir John não demorou a descobrir que o nome do Sr. Ferrars começava com F, e isso já seria motivo de inúmeras zombarias contra a dedicada Elinor, que nada a não ser seu recente conhecimento do hóspede evitou que começasse imediatamente. Mas ela entendeu, através de olhares bastante significativos, o quanto a perspicácia deles foi longe, baseada nas indicações de Margaret.
Sir John nunca visitava as Dashwoods sem convidá-las para um jantar em Barton Park no dia seguinte, ou para tomar um chá na mesma tarde. Na atual situação, para melhor distração do hóspede, para a qual se sentiu obrigado a contribuir, quis fazer os dois convites.
– Vocês devem tomar chá conosco hoje à noite – disse ele – pois estamos muito sós, e amanhã devem obrigatoriamente jantar conosco, porque seremos um grupo muito grande.
Mrs. Jennings reforçou aquela necessidade, dizendo:
– E quem sabe não organizam um baile. E isso lhe será uma tentação Miss Marianne.
– Um baile! – exclamou Marianne. – Isso é impossível! Quem vai dançar?
– Quem! Vocês, as Careys e com certeza as Whitakers. Como assim? Achava que ninguém poderia dançar porque certa pessoa, que não devemos dizer quem é, não está presente?
– Desejava de todo coração – exclamou Sir John – que Willoughby estivesse entre nós de novo.
Isto e o rubor de Marianne despertaram novas suspeitas em Edward.
– Quem é Willoughby? – disse ele, em voz baixa para Miss Dashwood, que estava ao seu lado.
Ela deu-lhe uma resposta breve. O semblante de Marianne estava muito mais comunicativo. Edward viu o suficiente para entender não apenas o significado do que os outros diziam, mas também as expressões de Marianne que antes o haviam confundido. E quando os visitantes se foram, imediatamente se dirigiu a ela, e com um sussurro, disse:
– Estive imaginando algo. Devo lhe contar meu palpite?
– O que você quer dizer?
– Devo contar?
– Claro que sim.
– Pois bem, eu acho que Mr. Willoughby aprecia a caça.
Marianne ficou surpresa e confusa, ainda assim não conseguiu deixar de sorrir ante a sutileza de suas maneiras, e após um momento de silêncio, disse:
– Ah, Edward! Com pode fazer isso? Mas chegará o dia, espero... Tenho certeza que você gostará dele.
– Não tenho dúvidas – respondeu Edward, um pouco espantado com a seriedade e intensidade dela, pois se não tivesse imaginado que se tratava de uma brincadeira para a diversão de todos os conhecidos, baseada apenas em algo que ela poderia ter ou não com Mr. Willoughby, ele não teria coragem de mencioná-lo.
[1] Que chama a atenção pela beleza, pela originalidade, paisagem digna de ser pintada/ ilustrada. (N. T.)
[2] Um tipo de saliência natural, também conhecido como cabo elevado formado por rochas que avançam sobre o mar. (N. T.)