Repensar a Educação
4. A nova pedagogia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
linguagem. Em medicina, os construtivistas opinam que dar um diagnóstico
é “marcar” o paciente, exercer poder sobre ele. Em sociologia, consideram
que a sociedade é patológica e não aceitam que o indivíduo tenha que se
responsabilizar sobre as condições sociais negativas das quais é vítima. Em
ética, um construtivista não pode falar de moral porque a moral é distinguir
algumas ações como melhores que as outras. Ao mesmo tempo que
sustentam que tudo é linguagem, os construtivistas desconfiam da linguagem porque a consideram um instrumento de opressão nas mãos de
pessoas com poder. Não enfocam os grandes males da humanidade, mas
sim, exclusivamente, os da vida diária ocidental, e nisso vemos sua filiação
política 56.
Para os construtivistas, na análise de conversação, o principal é tentar
entender o que os dialogantes querem “fazer” com o que dizem, isto é, qual
é o ato – de dominação, entende-se – que se realiza através das palavras.
Acreditam que não somente a realidade é construída através da linguagem,
mas também pelas identidades e pela subjetividade e que estas sempre
podem ser mudadas, renegociadas, através da linguagem. São críticos
contra o “discurso” da “maioria” que oprime a “minoria” através da
linguagem, uma atitude que é a origem do fenômeno da “linguagem
politicamente correta”. A ideia é criar uma nova realidade social através do
controle sobre o que o povo diz. Como se sabe, o politicamente correto foi
inclusive imposto através da legislação em muitos países e há coisas que
simplesmente não podem ser expressas sem que seja demonizado quem as
pronuncia.
A recusa ao conhecimento é notável e até há construtivistas que culpam
a invenção da imprensa de ter fomentado a introspecção, o individualismo e
o atomismo social, afastando o leitor do mundo 57. Além disso, acrescentam
que a culpa é dupla porque a leitura procura conhecimentos, e estes
exerceriam um possível poder sobre outras pessoas e, ao mesmo tempo,
fariam diminuir a influência da coletividade sobre o indivíduo em questão.
O chamado realismo crítico aparece quando se fala de “estruturas”
abaixo da superfície real. Apesar de não poder observá-las diretamente,
supostamente sim podemos saber algo delas por suas consequências. Por
isso, o realismo crítico, o criticismo, não prognostica acontecimentos ou
propõe melhorias, mas sim os identifica e avalia retrospectivamente. É uma
posição cômoda para o crítico, que pode atacar a sociedade sem ter que propor nada melhor. Na educação, o construtivismo acredita que a teoria
precede a observação e estuda as concepções prévias, errôneas na maioria
das vezes, dos estudantes. Isto deu lugar a uma curiosa situação: os futuros
professores devem se dedicar mais para comprovar os erros dos alunos do
que a aprender melhores métodos para transmitir conhecimentos 58.
Poderíamos recordar que, algumas décadas atrás, a universidade estava a
serviço da sociedade formando os futuros pilares e defensores da sociedade.
Agora chegamos a uma posição inversa: desde a universidade, prega-se o
desprezo pelos conhecimentos e a desconfiança perante a sociedade.
Pensando em sua importância social, pode-se constatar que o
construtivismo se transformou para muitos em uma “religião secular”
similar à da teoria evolucionista no século XIX.
4.6. O pedagogismo
Entende-se por pedagogismo uma combinação entre construtivismo e
sociologia da educação. O termo poderia ter um tom pejorativo para
alguns, motivo pelo qual seus defensores utilizarão, preferencialmente, a
expressão “nova pedagogia” ou outra análoga.
Os pedagogos não se interessam pelas disciplinas, mas pelas diferenças
sociais entre alunos. Por isso, toda sua energia é dedicada para trabalhar
precisamente nos múltiplos aspectos relacionados com estas diferenças.
Decidiram que a escola deve se transformar no lugar no qual se resolve de
uma vez para sempre o problema da desigualdade entre indivíduos. Com
esse fim, elaboram programas sobre os “valores”, definidos a partir da
igualdade entre as classes sociais, etnias, culturas, religiões, sexos e as
orientações sexuais. Concentram-se em criar “ambientes pedagógicos” em
vez de transmitir conteúdos e controlar que estes tenham sido realmente
assimilados. O pedagogismo se opõe a toda seleção e a qualquer livre opção
de tom qualitativo. Concebe o conceito de igualdade na educação como
igualdade não tanto de oportunidades como de direitos. Os jovens aprendem a não ter que assumir as consequências derivadas de seus atos. As
transgressões na esfera pública não somente não se sancionam, como
também não é infrequente que sejam celebradas como uma genialidade.
Novamente o apreço pela criatividade.
Os pedagogos exigem que a escola se abra para a vida, por exemplo,
através de excursões, visitas e trabalhos práticos que substituem o estudo
com livros de texto. Qualquer observador poderia notar que a escola se
abriu agora para a “vida” no sentido de se abrir para a rua. O resultado é um
descenso simultâneo do nível de conhecimentos e do prestígio da
instituição. A escola se “fechou” cada vez mais ao esforço prolongado, a
exigência, o entusiasmo pelo estudo, a pontualidade e a pulcritude. Deixou
entrar o trivial, o mundo da televisão, e sair a cultura. Agora um jovem
pode estar matriculado na escola até a idade de dezoito anos sem quase não
ter estudado mais que durante três ou quatro. Estar matriculado já não
significa somente estudar; a escola também passou a ser parte do ameno e
divertido. Pode-se falar de uma geração “desculturizada”. Os adultos estão
consentindo que os jovens sejam “devastados espiritualmente”59,
intelectualmente. Agora a ideia de que toda aprendizagem deve ser
divertida se difundiu na população e os pais também exigem para seus
filhos um ensino divertido.
Outra maneira de enfocar o tema é dizer que estamos educando os jovens
dos países desenvolvidos para que se comportem como os jovens de países
com problemas de desenvolvimento. Há alguns anos, estudar significava
aprender a se concentrar, fazer esforços sistemáticos e aceitar ser deixado
guiar pelos especialistas que tinham estudado o que nós devíamos aprender.
Tudo isto vai se perdendo para que o aluno siga o impulso do momento. No
entanto, o estudo é baseado no pensamento, requer silêncio, concentração,
conhecimentos prévios e um esforço de vontade ano após ano. Está sendo
cometido o mesmo erro nos países desenvolvidos que nos menos desenvolvidos, quando pensam que a educação falha por falta de dinheiro
para comprar computadores. O que falta é o esforço intenso e sistemático.
Assim, a autonomia á apresentada como o grande ideal dos pedagogos e
prevê que o aluno tome a iniciativa. No entanto, para os alunos com
problemas de concentração, esta concepção se traduz em tempo perdido
porque não se decidem a começar. Esta nova pedagogia não leva em
consideração a experiência de muitas gerações com relação à importância
do professor para criar entusiasmo pelo conhecimento.
Quanto ao fracasso escolar, os pedagogos o consideram como quase
automático para os alunos de baixo nível socioeconômico. Concentram seus
esforços em minimizar a importância do fracasso escolar e não em preveni-
lo. “Lutam” contra a seleção, mas não a favor de bons programas que
evitem o fracasso. Apostam na escola compreensiva a partir de uma
perspectiva mais sociológica que educativa. Introduzem fórmulas tais como
“o aluno no centro”; baixam o nível das exigências; proíbem falar de
disciplina; evitam medir o progresso dos alunos. Apresentam a educação
privada como um esnobismo por parte dos pais que a buscam atualmente
mais que antes. Os pedagogos resistem em admitir que os colégios públicos
já não garantem a aprendizagem nem a proteção física ou psíquica do
estudante diante dos insultos por parte de outros alunos.
O resultado do novo ensino de valores é que os jovens são moralistas,
mas não críticos. Para ser crítico, deve-se conhecer o campo em questão.
Para ter uma opinião sobre a guerra na ex-Iugoslávia, deve-se saber algo
sobre a ex-Iugoslávia. Já que os alunos não aprenderam história nem
geografia nem ética, são incapazes de formar uma opinião argumentada. O
historicamente novo é que temos uma “deserção escolar” dentro da escola.
Críticas similares foram formuladas nos diferentes países onde foram
introduzidas as ideias do pedagogismo, mas poucos são os que retificaram
esta linha de pensamento que não dá o resultado prometido pelos reformadores. Nos Estados Unidos, foi publicado, já nos anos cinquenta,
um livro chamado Por que Joãozinho não sabe ler60. O autor denuncia o
construtivismo e aponta que é um escândalo que seja introduzido em um
país com excelentes resultados em leitura. Considera absurdo esperar que o
aluno se sinta “pronto” para que lhe ensinem. Precisamente quando aprende
a ler, o aluno passa a se sentir preparado para aprender mais. O autor critica,
então, o método construtivista, também chamado “global”, que obriga
crianças sem problemas a usar métodos inadequados.
Na Espanha, o que se opina sobre tudo isso? Um dos personagens centrais
das recentes reformas, Marchesi, ilustra algumas destas tendências em
Controversias en la educación española. Nesta obra, atribui-se o rótulo de
progressista, o qual serve para sugerir que, forçosamente, os que não
pensam como ele devem ser menos progressistas. Quase não fala dos
conhecimentos que devem adquirir os alunos, o qual é revelador. Tampouco
reconhece que as reformas impulsionadas por ele e seus colaboradores
tenham levado ao aumento de violência nas salas de aula. Qualifica de
velhos e antiquados, de “gerontocracia”, a todos os que se atrevem a
recordar que os alunos antes sabiam mais. Sua “técnica narrativa” consiste
em mencionar os problemas, dizer que são difíceis e terminar
desqualificando as pessoas que afirmam que se poderiam resolver,
sobretudo, se o que propõem for oferecer diversas especializações e
introduzir exigências com relação à conduta dos alunos. Marchesi não
deseja que seja avaliado o nível de conhecimentos dos alunos porque,
segundo ele, isso somente levaria ao aumento da concorrência entre eles.
No entanto, como este autor pode saber que seu modelo é eficaz se não quer
medir os resultados? Marchesi não formula essa pergunta porque, para ele,
a meta não é a aprendizagem, mas sim a igualdade social.
Outro livro similar é o intitulado El fracaso escolar, no qual também
colabora Marchesi 61. Os diferentes autores que assinam o volume asseguram que um aluno nunca é responsável por seu baixo rendimento: a
culpa é da sociedade e da escola. Tampouco neste livro se fala das matérias
nem do esforço, mas sim unicamente das diferenças entre os alunos. Não é
mencionado que as recentes reformas possam ter potencializado o fracasso
escolar. É um livro que pertence à corrente da sociologia da educação.
Para se aprofundar mais nestas teorias, pode-se estudar uma obra que
tenta dar uma visão global do pensamento pedagógico de nossos dias; um
catedrático muito conhecido de pedagogia, o sueco Säljö., publicou um
livro representativo do que é descrito atualmente 62. Primeiro se pode
destacar tudo aquilo que não diz o livro: não se fala de disciplinas, de
professores, de resultados de aprendizagem, tampouco de esforço nem de
vontade de aprender; não são temas nem o mercado de trabalho nem o fluxo
de imigrantes em busca de melhores condições de vida. O verdadeiro tema
é falar da aprendizagem como um “processo coletivo de apropriação”. A
aprendizagem seria uma destreza social. Diante do fato de que nem todos os
alunos obtêm os mesmos resultados apesar de estudar em uma escola
compreensiva, a reação de Säljö é considerar o plano de estudo muito difícil
e, além disso, injusto, porque nem todos partem do mesmo treinamento
prévio. Desse modo, nos encontramos diante de um livro de pedagogia que
não propõe métodos para aprender e que se contenta com enumerar o
motivo pelo qual é muito difícil assimilar o que a escola quer que seja
aprendido. Deve-se destacar a tentativa de dissolver a aprendizagem escolar
afirmando que toda a vida é uma aprendizagem e que todos aprendemos.
Ocorre como com a cultura: tudo é cultura. Assim, tanto a aprendizagem
como a cultura desaparecem como conceitos.
O autor diz várias vezes que como seres biológicos os humanos estão
muito limitados e que a vida social é que nos forma. Acrescenta que o
conhecimento não permite que seja formada uma imagem “neutra” da
realidade, mas sim que está influenciado pela perspectiva “sociogenética” do indivíduo. Menciona que a aprendizagem é algo coletivo, uma maneira
de se relacionar com o mundo. É lógico que o tom do livro é hostil ao
conhecimento, aos professores, à escola e à sociedade. Säljö sustenta que a
aprendizagem pode ser negativa – no Ocidente, acrescenta – e ilustra com
este curioso exemplo: o aprender a consumir drogas. Apresenta a ciência
como pouco importante já que contém, opina, uma massa de perspectivas
contraditórias e irreconciliáveis. A noção de conhecimento lhe parece
somente um mito.
Este autor não fala de construtivismo, mas sim de aprendizagem “sócio-
histórica” ou “sociocultural”, mas a perspectiva é a mesma. Säljö acredita
que o indivíduo não recebe a informação “passivamente”, mas sim que
constrói ativamente seu conhecimento. Menciona Piaget e a enorme
influência deste na ideia de que as crianças devem ser ativas e buscar o
conhecimento, a tese fundamental da pedagogia centrada na criança. A
única observação crítica do autor é que esta ideia não leva em consideração
as diferenças entre as experiências socioculturais dos alunos. No entanto,
não oferece nenhuma alternativa à pedagogia centrada na livre busca da
criança. Apoiando-se em diversos estudos etnográficos, Säljö destaca que
crianças de culturas não ocidentais poderiam aprender certas destrezas com
mais rapidez que os europeus, ainda que possivelmente sejam mais lentos
na lectoescrita. Säljö chama de “eurocêntrica” a insistência na escrita e na
lógica. Não declara se considera importante o saber usar a lógica, mas não
reivindica o acesso à lógica por parte das crianças europeias, apesar dele
mesmo indicar que é uma característica essencial da cultura destas crianças.
Säljö também desconfia da linguagem, sendo que não pode estar a favor
da aprendizagem escolar, baseada na linguagem; manifesta-se contra a
importância concedida à escrita, técnica muito difícil para muitos alunos e
que ele qualifica de ocidental, como também à ênfase na linguagem
abstrata. Para Säljö, se alguns leem livros e redigem textos complexos e
outros somente leem e escrevem uma palavra ou outra, ambas as atitudes constituem maneiras igualmente válidas de se relacionar com a escrita. O
autor também se manifesta contra o uso dos manuais, porque mostram uma
determinada imagem do mundo e poderiam impor aos alunos certa
perspectiva. O que lhe entusiasma é ver a aprendizagem como um evento
oral e coletivo, ou seja, que seu ideal é o uso da linguagem dos grupos pré-
modernos.
Desse modo, Säljö despreza a ideia de que o conhecimento seja algo
adquirido e guardado individualmente porque não vê o pensamento e a
comunicação como coisas separadas, ideia que ele considera típica da
atitude racionalista. Acrescenta que não se pode saber se o pensamento de
um aluno está mais ou menos evoluído porque a progressão ocorre por fases
e a memória funciona de maneira diferente conforme a situação. De
qualquer modo, o êxito escolar depende de ter aprendido a se comunicar. O
conhecimento não é outra coisa que uma destreza social.
Com relação a estas avaliações de Säljö, o leitor poderia se perguntar: Por
que trabalha como professor universitário se desconfia da ciência? Por que
escreve e publica este manual se desconfia dos manuais? Por que nega que
os alunos precisam adquirir um bom domínio de leitura e escrita quando
ele mesmo vive de sua competência para ler e escrever?
A pedagogia como disciplina acadêmica se voltou para a etnografia,
dedicando-se menos à escola e mais à aprendizagem na vida profissional,
com particular ênfase nos ofícios em vias de extinção 63. Como pura
documentação de aprendizagens não teóricas, mas sim práticas, parece
querer indicar que a pedagogia é “tudo”. Qualquer coisa “conta” como
pedagogia. Para os especialistas desta tendência já não lhes interessam as
pesquisas precisas sobre como melhorar a aprendizagem de certos alunos
em determinada matéria, algo que os pedagogos agora chamam
desdenhosamente de “empirismo”.
Dois textos de uma antologia recente projetam, no entanto, uma luz
irônica sobre estas novas correntes pedagógicas. Um deles fala sobre a
disciplina de trabalhos manuais, e revela que os professores aprenderam –
durante sua formação como tais – a repetir que não importa o “produto”,
mas sim somente o “processo”. No entanto, esta atitude cria neles um
conflito tanto com os artesãos como com os alunos, já que os dois grupos
identificam os produtos como a meta da aprendizagem. Por isso, agora os
que participam desta disciplina denunciam esta atitude de desprezo como
perigosa. Com o desenvolvimento industrial, os objetos produzidos em
oficinas manuais cumprem uma função diferente da que cumpriam. Agora,
são exemplares de um tipo de produção já arcaica e se os artigos produzidos
pelos alunos já não são indispensáveis nem tampouco possuem qualidade,
por que os estudantes iriam querer aprender estas técnicas? O artesão busca
a perfeição. Simplesmente não pode sobreviver se os clientes não acharem
seus objetos atrativos.
Em outro texto do mesmo volume, desta vez sobre o balé clássico,
enfatiza-se com respeito à necessidade do esforço e da concentração,
destacando que se deve começar nesta arte o mais tardar aos doze anos,
para poder ter tempo de formar passo a passo o corpo nas diferentes
técnicas. Nesta especialidade, é imprescindível adquirir logo uma maneira
profissional de pensar, pois a carreira ativa do bailarino é breve, as
possibilidades de trabalhar poucas e a concorrência internacional feroz.
Essa é a realidade com a qual se deve contar. Por isso, os alunos devem
praticar todo dia em grupo e com um professor. A aprendizagem é realizada
imitando em primeiro lugar um modelo, praticando até automatizar o
movimento, adquirindo assim experiência. Aprende-se repetindo várias
vezes, dia após dia, ano após ano. Somente depois de ter automatizado os
movimentos do corpo, pode-se falar de uma interpretação artística.
Se for comparar isto com o que dizem os pedagogos da aprendizagem
intelectual, são observadas notáveis diferenças já que, segundos estes, deve reinar o igualitarismo: não se recomenda a repetição, nem se fala de
entrega, de assiduidade, de esforço nem do professor como modelo.
Tampouco se menciona o rendimento nem se compara os diferentes alunos.
A imitação é sempre recusada como forma de aprender e não se exige a
concentração total como requisito indispensável para aprender. Assim, estes
dois breves textos nos recordam a realidade da aprendizagem e as
divagações que emanam do atual “discurso” pedagógico.
A ideologia do pedagogismo aparece criticada com abundância de
exemplos concretos em um livro escrito por um professor francês, Le
Bris64. Durante trinta anos, Le Bris ensinou grupos de alunos a ler, a
escrever e a fazer cálculo. O autor declara enfaticamente que uma criança
tem que praticar muito e automatizar para alcançar a qualidade pela
quantidade e, baseando-se em sua experiência, Le Bris rejeita a nova
pedagogia que pretende chegar a um bom resultado através da reflexão e a
estratégia: falar de estratégia em vez de ensinar a ler equivale a falar de
leitura sem ler. Em vez de ensinar, a nova pedagogia significa instaurar um
novo terceiro-mundismo para crianças que provêm de culturas avançadas.
“Respeitar a cultura da criança” se transformou em um modo de respeitar a
incultura. Em vez de ensinar a racionalidade, são valorizadas a intuição e a
criatividade. Não se utiliza a memória nem tampouco se enfatiza a estrutura
do pensamento. A humanidade precisou de três mil anos para chegar a
elaborar o alfabeto, mas agora se considera que qualquer criança de ensino
primário pode “construir” o conhecimento, não considerando a experiência
que o adulto possa oferecer. As pessoas alheias ao mundo do ensino não
conseguem entender que já não se ensinam matérias organizadas, mas sim
que é enfatizado “o despertar do interesse do aluno”, com o qual jamais se
chega a ensinar as disciplinas. São organizadas oficinas sobre todo o tipo de
assuntos, mas não se ensina a sentir apreço pelos livros. Em muitas escolas,
as crianças estão sendo submetidas a um tipo de violência moral ao lhes privar a autêntica formação e são deixadas à deriva em sua própria
ignorância.
Le Bris denuncia a inversão geral na maneira de organizar o ensino da
língua, a matemática, a história, enfim, todas as matérias. Não se controla o
resultado da aprendizagem, mas sim se pede ao aluno que seja autônomo e
construa seu conhecimento. Este enfoque trouxe grandes mudanças em
como são apresentados os materiais e algumas das novas ideias são:
1. Um texto é estudado segundo o modelo top down: começa-se com a
totalidade para depois ir descompondo-a .
2. O exercício é apresentado antes que a regra.
3. O som é apresentado antes que a letra.
4. A exceção é apresentada ao mesmo tempo em que a regra.
5. Há um salto direto à abstração sem que se tenha consolidado antes o
primeiro conhecimento.
6. Não é trabalhado o vocabulário, mas sim se permite que os alunos
utilizem um vocabulário impreciso.
A experiência de Le Bris é que o amadurecimento do aluno é mais rápido
quando aprende do que quando “investiga”. Assegura que o antigo método
de aprender a ler é cinco vezes mais rápido que os atuais e não deixa quase
nenhuma criança pelo caminho. Constata que esta nova pedagogia é
cientificamente vazia. Também considera impossível que a escola funcione
sem que a criança obedeça.
Um pormenorizado estudo norte-americano sobre o pensamento das
crianças contradiz várias das ideias mais queridas dos pedagogos65. As
crianças aprendem mais com a ajuda dos adultos que de seus colegas
porque os adultos sabem mais e ensinam melhor. Entre pares, somente de
vez em quando costuma ser obtido um bom resultado, mas não há garantias. O trabalho em equipe entre companheiros deixa de fora a retroalimentação,
muito importante para a aprendizagem, porque os alunos ignoram se sua
resposta é correta ou não.
Em contraste, com a ênfase atual nas estratégias, foi demonstrado que se
o aluno conhece a área da qual provém a tarefa, raciocina melhor. Em
outras palavras, a faculdade de pensar não é um conhecimento neutro,
aplicável a qualquer tarefa com o mesmo resultado. As pessoas pensam
melhor nos contextos que lhes são familiares. Dito de outro modo, é
importante que os alunos aprendam conteúdos.
Tampouco é uma estratégia favorável deixar com que a criança brinque
ano após ano sem receber uma educação estruturada. Junto ao trabalho, a
brincadeira era a única atividade a qual tinham acesso os filhos dos
operários, enquanto que as classes médias e altas optavam por um ensino
estruturado. Com a implantação da nova pedagogia, foi feito com que se
estendesse a todas as crianças o tipo de educação com a qual tinham que se
conformar os menos favorecidos.
Além da necessidade e utilidade das atividades lúdicas, os psicólogos
também destacam a necessidade de saber inibir um impulso através do
exercício da vontade e da razão. Uma criança que não sabe se concentrar
em uma tarefa e se distrai facilmente, não alcança um bom resultado, mas já
observamos que a concentração não é uma capacidade que é muito
mencionada entre os pedagogos.
Uma crítica tenaz às novas tendências vem de Lurçat (2004), professora
francesa dedicada a investigar a aprendizagem da leitura e a escrita em
crianças pequenas. Acredita que a hostilidade ao ensino sistemático poderia
vir da ideia de acreditar que ensinar é sinônimo de opressão e
doutrinamento, e se surpreende pelo fato de que pessoas cultas possam se
basear na espontaneidade das crianças para algo tão sério como aprender a
ler e escrever. O ensino nos primeiros anos de escolarização costumava consistir na aquisição de automatismos que liberassem a mente para que o
indivíduo pudesse ocupá-la mais tarde em tarefas mais complexas. A autora
rejeita por completo a ideia de separar o ensino da leitura do da escrita,
posto que se apoiam um no outro. A escrita ajuda a desenvolver o
pensamento permitindo reter uma ideia e elaborá-la passo a passo. Foi
observado que a excessiva liberdade outorgada às crianças na educação pré-
escolar e escolar prejudica sua capacidade de concentração e dificulta sua
estruturação mental.
Para aprender a escrever, a criança deve primeiro traçar partes de uma
letra, copiá-la, relacionar letra e som, organizar o escrito em uma linha,
distinguir onde está o limite entre uma palavra e outra e finalmente
aprender a usar os sinais de pontuação. Pensar que todas as crianças
separadamente irão buscar e encontrar, por curiosidade e interesse, este
conhecimento preciso, parece utópico. A autora oferece muitos exemplos de
como é longo o processo até chegar a escrever e a acentuada diferença entre
os alunos na maneira de realizar estas tarefas. Agora que cada vez mais
crianças sem nenhum problema intelectual se transformam em candidatos
às classes de apoio, deve-se perguntar como era o ensino.
As observações de Lurçat sobre crianças que estão aprendendo a ler e a
escrever a levaram a declarar que a aprendizagem permite mostrar à criança
que a dignidade humana consiste, entre outras coisas, em adquirir o controle
de si mesmo, em poder se propor a uma meta e chegar nela, em aceitar o
aprender de outra pessoa e em poder participar de um grupo que está
aprendendo. Acredita que a disciplina a nível pré-escolar e elementar
permite desenvolver não somente os conhecimentos que transformarão a
criança em um cidadão eficiente e solidário, como também oferece uma
autodisciplina à criança que lhe servirá para orientar sua própria existência.
Para ela, o caos atual nos níveis superiores do colégio não tem somente a
ver com a adolescência, mas sim, sobretudo, com o desmantelamento da
preparação que ocorria antes de entrar nos estudos mais complexos. Agora se tem pouco tempo para automatizar habilidades porque os alunos perdem
dias letivos em excursões e porque os novos professores não estão formados
para ensinar a ler e a escrever.
Lurçat constata que os pedagogos reclamam para si resultados científicos,
mas, posto que estes métodos não funcionam, tampouco podem ser tão
científicos. A autora distingue três fases na destruição da aprendizagem por
parte do pedagogismo. A primeira corresponde à escola compreensiva; a
segunda, aos novos métodos chamados ativos; e a terceira, à nova formação
dos professores. Tudo isso fez com que desaparecesse as noções de
programa, de nível, de esforço e de exigências de conhecimentos. A escola
tinha por missão suprimir a ignorância, mas agora cultiva a comunicação e
a novidade. O mais grave de tudo é a hostilidade para com a leitura, que
costumava ser a base do ensino e da futura autonomia pessoal do aluno66.
Um colega francês de Lurçat, Bentolila, menciona que é perigoso dar a
entender a uma criança que sabe ler quando não é verdade. Isto soa
incompreensível para alguém que não seja professor, mas é uma prática que
existe e está relacionada com o método “global” e às observações já
mencionadas de Le Bris. A criança que tenta aprender a ler deste modo
acreditará que a leitura é um jogo chato de adivinhações e que não leva a
quase nada. Bentolila constata, como Lurçat, que os professores agora não
praticam o ensino da descodificação. Esta ideia pode ter sua origem na
constatação de que os alunos de classe média entendem melhor o conteúdo
que leem em comparação com as crianças de classe operária, que
permanecem frequentemente na fase da descodificação. Isto levou à
conclusão errônea de que é inútil descodificar e que os filhos dos operários
poderiam passar diretamente à compreensão e não perder seu tempo
descodificando. É um erro grave porque o problema destas crianças não é a
descodificação, mas sim a restrição de seu vocabulário quando começam a
ler. Depois de conseguir produzir o som que corresponde às letras, o aluno novato tem que consultar seu dicionário mental para ver se o que foi dito
em voz alta corresponde à alguma palavra que conheça, se quer dizer algo,
“se o número possui um assinante”67. Possui-se um dicionário mental
muito restrito, em geral, a combinação de sons não lhe diz nada e não
encontra nenhum sentido. O aluno poderia se desanimar, evitar ler e se
transformar em um fracassado escolar quase antes de ter começado a
estudar. Em resumo, o remédio é aumentar o vocabulário, não deixar de
descodificar.
4.7. A destruição da cultura
A inteligência possui uma parte individual muito importante, mas a
ferramenta do intelecto é uma criação coletiva no sentido de que depende
do acesso aos livros, à educação, aos bons professores, em uma palavra, a
um ambiente culto. Uma cultura intelectual é construída lentamente durante
séculos e, já que os humanos são seres biológicos, não existe outra maneira
de conservar o alcançado que não seja transmitindo à geração seguinte. Os
produtos do trabalho intelectual de nossos antepassados formam a base
imaterial sobre a qual está construída a sociedade. O desenvolvimento
técnico do que desfrutamos e que depende do desenvolvimento intelectual
geral também nos é entregue em herança para conservá-lo e desenvolvê-lo.
Se não aceitamos a responsabilidade pela transmissão dos conhecimentos, o
retrocesso intelectual e tecnológico é inevitável68.
Além disso, estamos diante de um retrocesso social se não for ensinado
aos jovens uma atitude positiva ante a sociedade. As bases antropológicas
da sociedade supõem que a criança aprenda a dar, a receber e a devolver,
com o qual se vincula aos outros homens através da experiência de viver
juntos e compartilhar experiências. A criança recebe tudo dos outros, com
os quais contrai uma dívida simbólica com a sociedade que a prepara para
não se ocupar somente de si mesma, mas sim para agir pelo bem desta
sociedade69.
No entanto, os que dirigem a formação dos jovens não tentam estabelecer
laços de solidariedade entre estes e a sociedade, mas sim querem formar
jovens que sintam urgência de mudar a sociedade. Em outras palavras, a
partir de uma instituição como a escola, que é para todos, os pedagogos
agem conforme sua agenda política, ainda que não seja o ideal apoiado pela
maioria dos votantes. Longe de desempenhar uma função neutra e a serviço
dos pais, dos alunos e da sociedade, os estão utilizando para seus próprios
fins.
Assim, é como que a “liberdade” e não o conhecimento se transformasse
no valor chave da escola. Supostamente, seria aumentada a liberdade ao
destruir a cultura, uma ideia anarquista. Há os que elogiam o caos por ver
nele possibilidades criativas. Este novo “regime” foi introduzido na escola
sem ter sido comprovado, de antemão, quais seriam seus resultados,
envolvendo a sociedade em um experimento de laboratório em escala
gigantesca para o qual não existe nenhum tipo de segurança. Os alunos de
hoje estudam mais anos, custam mais à sociedade, mas aprendem menos.
Parece que os pedagogos não se importam com isso, que simplesmente
negam os fatos, dizendo que os alunos não estariam aprendendo menos,
mas sim “outras coisas”. O fraudulento é que não exista o modo de medir
estas “outras coisas” e que, pelo mesmo, trata-se de afirmações gratuitas.
Depois de esvaziar a escola de sua tradição, abrem-se as portas ao capricho,
à moda, à comunicação, ao lúdico, enfim: a qualquer coisa que não requeira
a longa aprendizagem prévia característica da cultura.
A que “outras coisas” supostamente aprendidas pelos alunos se referem os
que desejam “desenvolver” a educação? Todos mencionam o mesmo: usar
um navegador na internet, saber imprimir um texto em uma impressora e
não ter medo de questionar os conteúdos curriculares. Este último é
denominado como “ter adquirido pensamento crítico”. O debate
proveniente entre os professores sobre a constatação de que os alunos
copiam textos encontrados na internet ilustra a nova situação. Muitos alunos simplesmente desconhecem em que consiste o trabalho intelectual. Ignoram
o que significa entender e argumentar. Chegaram a pensar que o trabalho
intelectual é produzir textos. Ouviram que os textos devem estar escritos
com palavras “próprias”, mas não entendem o motivo. Muitos acreditam
agora que o “trabalho escolar” consiste em transformar parágrafos de livros
e fragmentos tirados da internet em alguns textos próprios.
Além disso, o moderno é apresentado como livre, aberto, sem limites,
criativo, o que se traduz na prática como “vale tudo”. Qualquer opinião vale
o mesmo que as conclusões de alguém que tenha estudado um campo de
conhecimentos. Em vez de dar ênfase à aprendizagem, desculpabiliza-se a
ignorância. A escola já não ajuda os incultos a tornarem-se cultos, mas faz
com que acreditem que são cultos. A diferença entre o inculto de antes e o
de hoje se baseia no fato de que o primeiro sabia que não era culto. Agora
se trata de bajular o inculto. A destruição da tradição é a destruição da
cultura. Se não se ensina aos jovens a cultura, deverá voltar a ser feito tudo
desde o princípio. O que se pretende é começar a partir do zero porque,
assim, todos os jovens ficariam no mesmo nível, precisamente esse nível
zero, o que lembra a concepção maoísta durante a revolução cultural 70. No
entanto, no Ocidente, isto é combinado com uma forte ênfase no conceito
de liberdade e em uma noção consumista da educação. Todos devem poder
participar de qualquer aula sem conhecimentos prévios e sem precisar
realizar um teste depois. Tudo deve ser livre. Aqui sim os construtivistas
têm razão quando dizem que tudo são palavras.
O ataque ao ensino da literatura e a língua começa em muitos países
ocidentais pelos anos sessenta e setenta. O ensino do uso correto da língua e
o conhecimento da literatura passam a ser considerados disciplinas
burguesas, parte de um sistema de dominação, segundo Foucault e
Bourdieu. Os novos psicopedagogos sugerem que a leitura seja considerada
como algo puramente instrumental, sem diferenciar entre ler publicidade ou fragmentos de jornais e textos literários. Dá no mesmo ler algo escrito por
um colega de classe e uma obra literária importante. Estas inovações são
apresentadas ao mesmo tempo como uma modernização e uma adaptação às
necessidades e interesses dos “novos” alunos.
Os pedagogos sempre falam de como tudo estava ruim “antes”, dando a
entender que o que vem depois será melhor. Sem comprová-lo. É típico dos
ministros que introduziram o pedagogismo em nível político se
apresentarem como cruzados da modernidade e, para isso, usarem quase
sempre metáforas bélicas 71.
Foram reduzidas a uma sombra do que eram disciplinas fundamentais
como literatura, língua e história. No ensino secundário, costumava-se ler
muito para que os alunos conhecessem bem sua cultura e, depois de uma
instrução sobre o uso da língua escrita, chegassem a dominar o melhor
possível seu idioma. Agora dedica-se menos tempo para a leitura. Assim, os
estudantes nunca chegam a adquirir um vocabulário suficientemente amplo
que por sua vez lhes facilite a leitura de documentos cada vez mais variados
e profundos. Com isso, entra-se em um círculo vicioso no qual os alunos
somente podem ler materiais fáceis e esses materiais os deixam entediados.
Além disso, o tempo da leitura não pode ser comprimido. Portanto, deve-se
adjudicar muitas horas a estas disciplinas se tiverem como objetivo a
melhor aprendizagem72. Alguns alunos tentam enganar o professor lendo
resumos em vez dos livros obrigatórios, enganando somente a si mesmos
porque, assim, nunca chegarão a reunir um rico vocabulário que os capacite
para entender materiais complexos ou ter acesso à cultura literária.
Em vez de estudar a história da literatura, os grandes autores e os grandes
críticos literários, o plano de estudo propõe a aprendizagem de uma
terminologia para “produzir trabalhos”. Em vez de ler, desfrutar e admirar
as grandes obras do passado, alguns estudantes bastante incultos dominam
uma terminologia que aplicam mecanicamente a textos muitas vezes desconhecidos para produzir textos próprios que pareçam científicos pela
presença de certos tecnicismos. Continuam desconhecendo a grande
literatura, mas acreditam que são capazes de criticá-la. Frequentemente a
consideram inferior à terminologia, que é o que lhes foi ensinado. Duas
professoras francesas, Laux e Weiss, destacam a contradição que supõe
buscar o concreto em forma de um trabalho de aluno, mas aceitar a
vacuidade com relação ao conteúdo dessa concreção 73. Assim, os alunos
“produzem” trabalhos literários sem que tenham estudado nem língua nem
literatura. Foi transmitida a eles a ideia de que a criação não precisa de
estudo prévio. O mesmo ocorre com os estudos críticos. A crítica se reduz,
assim, a dar opiniões sobre textos dos quais o aluno desconhece o contexto.
A mesma coisa acontece no campo da língua, onde deixou de ser estudada a
linguagem dos grandes escritores para fomentar, ao invés disso, a expressão
do próprio estudante antes que tenha entrado em contato com os bons
modelos. Tudo isso, combinado com a fragmentação, produz uma
“democratização” da arte, que também poderia ser chamada de
dessacralização das obras principais ou simplesmente ignorância. Um
desenvolvimento paralelo pode ser observado no ensino das línguas
estrangeiras, no qual cada vez mais desaparece a literatura e são enfocados
os diálogos cotidianos e a expressão das opiniões do estudante.
É chamativo também o novo desprezo pelo conhecimento de história.
Segundo a visão dos pedagogos, tudo o que é associado com o passado
perdeu prestígio e tudo que ainda não existe, o futuro, a moda de amanhã, é
valorizado. Conforme a sua visão, o futuro será sempre algo positivo e
melhor que o atual. O erro de pensamento que consiste isto poderá ser
ilustrado com o exemplo seguinte: a dor de cabeça depois de uma festa não
é sempre melhor que a própria festa.
Deveríamos refletir profundamente sobre a quase total abolição dos
programas de história. O desconhecimento histórico causa um efeito social muito negativo: os cidadãos não se reconhecem como membros de uma
comunidade porque perderam suas referências comuns. Os cidadãos dos
países democráticos não possuem a menor noção da longa luta de seus
antepassados para conseguir este tipo de sistema, enquanto que, sob o
presente modo de ensinar, os imigrantes poderão desconhecer, ao mesmo
tempo, a história de seu país e a do de adoção. O que acontece em um país
quando os cidadãos não têm em comum nenhum acervo cultural? Já não
poderão viver em uma sociedade coerente e organizada, mas sim em uma
de vários grupinhos justapostos. A sociedade se diluirá na simples
coexistência em um mesmo espaço. Faltará o impulso de colaborar em um
projeto em comum e bastará com se tolerar uns aos outros 74. Deveríamos
recordar que todos os regimes autoritários se destacaram por querer impor a
amnésia histórica a seus súditos. Convém-lhes que a história comece com
eles e que seja transmitida a sua versão do passado.
Atualmente, estuda-se em muitos colégios uma história fragmentada:
somente certas épocas e de maneira superficial. Seguindo Foucault, a linha
fundamental tal como se ensina é centrada em compreender quem são os
dominadores e quem são os dominados; os primeiros sempre desempenham
o papel de maus e os segundos o de bons. O criticismo não é plural nem
multicultural: para eles é interessante somente criticar o Ocidente. Na
história ocidental, costuma-se estudar o negativo, mas não se costumam
destacar os aspectos negativos de outras culturas. Também em história,
privilegia-se o trabalho próprio dos alunos que – como é natural – aparece
cheio de anacronismos e generalizações75. Provavelmente, os alunos não
entendem o que está ocorrendo com a sua educação nem podem se defender
porque não sabem como poderia ser uma escola alternativa nem o que
contêm realmente as matérias. Muitos, talvez a maioria, nunca chegarão a
experimentar o prazer do conhecimento. Nos manuais há agora textos
breves, supostamente divertidos e muitas fotos coloridas. Assim, o aluno
não abandona a ignorância, a infância. Os livros não o preparam para sua futura vida de adulto, somente servem para entretê-lo enquanto ainda é
criança, prolongando sua imaturidade. Poderíamos falar de uma
“pedagogização” dos livros como sinônimo do infantilismo que está
usurpando o lugar dos conhecimentos das matérias 76.
Tudo isto é apresentado como democratização. A palavra foi estendendo
seu campo de significação. Foi tirada do campo político e introduzida na
vida social como igualitarismo, para ir mais além ainda e se transformar na
aceitação do multicultural. O professor “democrático” não é o que já inicia
os alunos em sua matéria, mas sim alguém “simpático” que se consagra
exclusivamente para os maus alunos. Quando estas tendências são
combinadas com o construtivismo e o igualitarismo, o resultado é que não é
pedido nenhum esforço aos estudantes: afirmando sua identidade e
tolerando os outros já cumprem sua obrigação. Por exemplo, ler deixa de
ser um instrumento de abertura ao mundo e ao conhecimento para se
transformar em escolher “o meu” para me identificar comigo mesmo 77.
Entendida a liberdade na escola como diversão, repete-se o lema de que
deve ser divertido aprender. Dentro de cada disciplina, os alunos cada vez
mais podem escolher a que parte da disciplina querem se dedicar, o qual
significa que a vontade dos estudantes é mais importante na escola que a
estrutura e as exigências da matéria. Contra tudo o que se sabe a propósito
dos longos períodos de aprendizagem pelos quais passaram os grandes
professores, agora se considera que qualquer aluno pode ir diretamente para
a criatividade pessoal sem passar pela aprendizagem da tradição da matéria.
Esta forma de entender a liberdade leva à destruição da tradição e ao
aumento da violência. Grupos cada vez mais ignorantes desprezam os
professores pois não precisam deles, já que a aprendizagem das matérias
deixou de ser a verdadeira meta da educação. Estes jovens vivem em um
vazio no qual as relações de poder entre os alunos facilmente chegam a ser
o verdadeiro conteúdo da jornada escolar. Os professores aceitaram o aumento de violência por diferentes motivos que tem a ver com as novas
tendências descritas aqui. Poderiam não estar seguros de ter o respaldo da
sociedade adulta se intervirem. Nem sempre distinguem entre violência,
liberdade e criatividade. Alguns consideram que a destruição é um ato de
liberação e, por isso, de criatividade.
Um estudo publicado na Argentina destaca que os valores da educação
estão sendo atacados de vários ângulos ao mesmo tempo78. Os novos
professores contam com um capital cultural muito abaixo do que
costumavam ter os antigos. A leitura em geral, a literatura e a história
perderam o prestígio. Em vez de ensinar a ler e praticar a leitura, o âmbito
da escola cada vez mais aceita a oralidade, a expressão da opinião e a
fragmentação. A escola já não defende como valores os conhecimentos, a
argumentação e a ética, mas sim, muito ao contrário, contribui para encher
de prestígio a “cultura da incultura”. Nestas condições, falar de estudos
“interdisciplinares” significa ocultar a realidade. Estamos regressando a um
nível pré-disciplinar ou protodisciplinar.
Em outra pesquisa argentina, os pesquisadores constatam as grandes
diferenças no pensamento científico entre indivíduos e culturas. Por
exemplo, destacam que se a técnica da dedução não é ensinada, muitos
jovens não chegam nunca a dominar esta maneira de pensar. Se os alunos
têm que dominar duas operações mentais no marco de uma mesma tarefa,
têm menos possibilidades de êxito que se somente precisassem de uma, ou
seja: muitos alunos não chegarão a saber dominar um raciocínio
minimamente complexo 79. Se os alunos não dominam o campo do qual
provém uma tarefa, não se sairão muito bem. Curiosamente, se saem
melhor na compreensão escrita baseada em textos literários que na baseada
em diferentes áreas de conteúdo. Tradicionalmente, pensava-se que a
linguagem literária fosse mais complexa que o “fático” por permitir
diferentes tipos de jogos de associações. O que os pesquisadores descobriram é que para entender um texto “fático” também se deve ter
preparação. Sempre é preciso conhecer o campo de conhecimentos em
questão e o vocabulário adequado para falar desse campo. Hoje em dia, os
únicos conhecimentos prévios de muitos alunos parecem ser os de tipo
social, adquiridos fora da escola e aproveitados para interpretar textos
literários.
Para realizar bem uma tarefa intelectual, é necessário ter conhecimentos
devidamente hierarquizados e solidamente aprendidos. Se o aluno provém
de um ambiente cultural pobre, terá um marco cognitivo estreito,
caracterizado por uma linguagem pobre e ideias não fundadas em
verdadeiros conhecimentos. Para aprender mais, o aluno precisa de
conhecimentos do mundo, concentração e vontade de aprender. Em suma,
não se centrar em sua própria pessoa, mas sim se interessar pelo mundo.
Os pesquisadores argentinos tentaram analisar o motivo pelo qual certos
alunos não vão bem em matemática. As causas que influenciam nas
dificuldades podem ser: 1. Não ter conhecimentos de questões quantitativas.
2. Não ter praticado com conjuntos quantitativos. 3. Não ter treinado sua
memória de trabalho. 4. Não ter treinado sua memória de longo prazo. 5.
Carecer de conhecimentos específicos. Por outro lado, declaram que sem
um domínio da gramática é impossível alcançar uma ortografia correta.
Em resumo, estas pesquisas indicam que se os alunos não seguirem um
programa de leitura, de matemática, de aprendizagem de diferentes matérias
e de treinamento da memória, não poderão desenvolver sua capacidade para
resolver problemas. Em comparação com as gerações anteriores, que
seguiram programas organizados, é muito possível que esteja baixando o
nível cultural dos países industrializados.
Tem-se consciência do que está acontecendo? Em geral, não. Por
exemplo, o CEPAL realizou uma pesquisa com os estudantes uruguaios
formados no ensino médio e o resultado foi que os estudantes não sabem que não sabem. Vivem em uma inconsciência feliz, desinformados. É por
isso que a população precisa de informação para poder tomar decisões,
entre outras, políticas, mas não possui suficientes especialistas que
entendam a situação. Vemos também em muitos países cada vez mais
grupos de jovens com demandas desproporcionadas a suas capacidades
reais 80.
Para citar uma referência literária, pode-se dizer que o pedagogismo
escolheu um caminho similar ao mundo narrado por Aldous Huxley, o da
desmemória, descrito em Admirável mundo novo. Já que os conhecimentos
escolares são um instrumento para pensar por conta própria, impede-se que
os cidadãos do mundo narrado tenham acesso à muita cultura, em particular
à historia e à literatura. Ao invés de educá-los, são “condicionados”,
inculcando-lhes ordens que repetem de maneira automática.
Desde 1969, a Suécia tem uma escola compreensiva até os dezesseis anos,
e o país investiu muito dinheiro para que este sistema fosse um êxito. No
entanto, cada vez são mais numerosas as vozes descontentes com os
resultados. Larsson menciona a crítica de um grupo de trabalho da central
sindical operária mais importante na Suécia, de inspiração social-
democrata81. As observações constituem um comentário, ao mesmo tempo,
sobre o igualitarismo e o pedagogismo. Larsson primeiro menciona que seu
sindicato e seu partido possuem uma ideia muito negativa da escola
tradicional. É vista como uma instituição autoritária, fechada, na qual os
professores exerciam um poder ilimitado e injusto. A escola compreensiva,
igual para todos, prometia tornar a sociedade mais harmônica. No entanto,
depois de ser felicitado pelo progresso na educação da classe operária,
Larsson manifesta com preocupação que a escola compreensiva não
beneficiou as crianças da classe trabalhadora como se havia previsto.
Quando chegam ao ensino médio e à formação profissional, estes alunos
apresentam um baixo nível em linguagem e em história, duas disciplinas fundamentais para poder dar a conhecer seu ponto de vista e fazer com que
seja respeitado.
Larsson fala sobre a suplantação da aprendizagem por valores “fracos”
como o cuidado, a compreensão e a convivência em vez da aprendizagem.
Não aceita a ideia da caducidade dos conhecimentos; pelo contrário,
acredita que os conhecimentos constituem a base das futuras possibilidades
de atuar de uma pessoa. Por isto, considera inadmissível falar de metas sem
controlar se são cumpridas. É por isso que uma escola quase sem notas nem
tarefas prejudique, sobretudo, os filhos de pais operários. Sem metas claras
e avaliações apropriadas, estas crianças se sentem desorientadas. Este tipo
de escola poderia representar um autoengano por parte da classe
trabalhadora. É uma política de avestruz pensar que se a diferença não se
mede, não existe. Larsson acredita que a ideia contrária poderia ser um
estímulo mais eficaz: dar qualificações bem diversificadas com muitos
degraus para que as melhorias modestas também possam ser vistas.
Larsson adverte contra o mito da facilidade de adquirir conhecimentos,
por exemplo, através de projetos ou trabalhos em equipe, nos quais alguns
alunos poderiam camuflar sua ausência de esforço. “Há conhecimentos que
somente são alcançados através de um trabalho constante, entediante,
monótono e individual, mas depois de ter realizado o trabalho, o prêmio é a
satisfação”. Larsson declara que não é reacionário exigir ordem, disciplina e
respeito aos adultos. Se não há ordem, o tempo se perde em coisas sem
relação com o ensino e todos saem prejudicados. Por isso, deve-se voltar a
criar regras de comportamento dentro da escola e reagir contra os que não
acatam essas normas. Também opina que os filhos dos membros de seu
sindicato poderiam sair mais prejudicados que outros se não lhes for
oferecido um entorno tranquilo, e afirma que os membros de seu sindicato
desejam ordem e tranquilidade para seus filhos.
Larsson intitulou seu livro Viagem de primeira classe. O movimento
operário queria dar a seus filhos uma educação “de primeira classe”. O
título poderia ser uma crítica sutil à ideia de que a educação “ocorre”, como
se fosse um privilégio e não um trabalho. Os que reformaram a escola
talvez não tiveram uma percepção cabal da natureza do fenômeno de
educar.