Rumo ao interior: médicos, saúde da família e mercado de trabalho
3 - O Programa de Interiorização do Trabalho em Saúde (Pits)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
pelo Ministério revelou que 43,8% dos médicos participantes do Pits a qualificaram como ‘boa’; mas outros 43,8% a consideravam ‘insuficiente’; e mais 12,5% como ‘regular’, o que totaliza quase 57% de médicos insatisfeitos (Brasil, 2002e). Esses dados são compatíveis com as respostas dos médicos ao questionário aplicado pelo estudo da Rede Observatório de Recursos Humanos em Saúde, quando indagados acerca dos fatores que consideraram satisfatórios no Programa
(apresentados na Tabela 25). Na referida tabela, observa-se que a tutoria contou com um percentual de apenas 2,7% de citação como fator satisfatório.
Os tutores foram selecionados pelas secretarias estaduais de Saúde e
remunerados pelo Ministério, via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de uma bolsa no valor de R$ 1.500,00. A tutoria foi realizada com o uso da internet e visitas periódicas de acompanhamento, tendo como objetivo “(…) atender às demandas dos profissionais referentes à capacitação e atuação prática no serviço de saúde” (Brasil, 2002e: 59).
Há mensagens no fórum do Pits que confirmam a insatisfação e até
mesmo a inexistência de tutoria em algumas localidades:
(…) os tutores não receberam das Secretarias Estaduais de Saúde condições
para exercerem adequadamente suas funções (…) (Fórum Pits)
(…) Que diferença entre o discurso e a prática. Basta analisar o que foi
prometido e o que está sendo oferecido. Nem tutor médico existe aqui para
[nome do município]. Quem é o culpado por tanta bagunça? (Fórum Pits)
O ex-secretário de Políticas de Saúde admite que houve problemas
com a tutoria: “(…) um problema operacional, a tutoria, mas foi pelo menos a primeira experiência de tutoria que se teve, quer dizer, havia o tutor, então algumas funcionaram, outras não funcionaram (…)” (Maciel Filho, 2007: 160).
Já no que se refere ao curso de especialização, ainda segundo a
avaliação promovida pelo Ministério da Saúde, 60% dos médicos o consideraram ‘bom’ (Brasil, 2002e). No entanto, o curso foi reputado como ‘regular’ por 22% e ‘ruim’ por 9%, o que totaliza 31% de médicos insatisfeitos. Esse percentual é expressivo se considerarmos que o curso foi encomendado pelo Ministério especificamente para o Pits. E é agravado quando se verifica que:
somente para 52% dos profissionais, o conteúdo ministrado foi considerado ‘bom’ para o desempenho das demandas de atendimento do Pits (33% o avaliaram como ‘regular’ e 9% como ‘ruim’);
a metodologia do curso foi reportada como ‘boa’ por 50%, ‘regular’ por 32% e ‘ruim’ por 11%;
as atividades planejadas para o período de dispersão foram referidas como ‘compatíveis’ por 64% e ‘incompatíveis’ por 22% (somente 44% dos profissionais executavam ‘totalmente’ as atividades previstas para o período de dispersão, 26% realizavam
‘parcialmente’ e 17% ‘não executavam’).11
Um problema relevante enfrentado pela coordenação nacional para a
oferta do curso de especialização é apontado pelo ex-secretário de Políticas de Saúde, que admite ter sido difícil administrar o deslocamento dos profissionais para freqüentarem o curso nas capitais.
O que a gente sentiu de maior dificuldade nesses cursos de especialização
foram os deslocamentos, quer dizer, havia deslocamentos dos municípios para
as capitais, uma certa dificuldade das faculdades de interiorizarem o curso para
os municípios, até porque os municípios eram de regiões diferentes, um
problema operacional (…). (Maciel Filho, 2007: 161)
De qualquer forma, a coordenação nacional procurou superar essa
dificuldade da melhor forma possível e estimular a formação e o interesse dos profissionais na área de saúde da família, como, por exemplo, patrocinando passagens aéreas para os que desejassem fazer a prova de especialista em medicina de família e comunidade, da SBMFC.
No entanto, em alguns estados houve atrasos consideráveis no início
do curso e mesmo nas atividades de educação continuada,12 conforme mensagens disponíveis no fórum do Pits. Houve demora também na emissão dos certificados de conclusão do curso de especialização, de participação no Pits e do Diploma de Serviços Prestados à Nação, o que foi tema de diversas mensagens no fórum, inclusive com dúvidas a respeito da própria titulação obtida com o curso:
Ontem, 28 de novembro, houve uma reunião (…) entre profissionais do Pits 1,
2 e 3, tutores e coordenação estadual. (…) solicitamos à coordenadora estadual
que se informasse sobre algumas coisas que estão nos regulamentos do pits e
que até então não foram cumpridas, tais como:
Diploma de serviços prestados à nação; Certificado de participação no Pits (O Pits 1 recebeu apenas referente ao 1° ano);
Certificado de participação no curso de acompanhamento para egressos do Pits 1 (realizado pela UFC no caso do Ceará); (…) Como fica a situação de nós médicos a respeito da possibilidade de ter direito a fazer prova de titulação pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade???? Segundo o que sabemos, o CFM não reconhece nosso diploma de especialização e não sabemos se a AMB nos permitirá fazer a prova, já que nosso tempo de especialização e trabalho de campo não foram devidamente supervisionados. (…) (Fórum Pits)
(…) não consigo entender por que todo esse mistério em torno de resposta
tão simples. Temos direito a estes certificados e também temos direito a uma
resposta uma vez que é motivo de orgulho e conta pontos em nossos currículos
(…) Aqui no Ceará está para sair um edital para concurso público e estes
certificados são de suma importância (…). (Fórum Pits)
Vários profissionais ressaltaram a relevância que atribuem ao Diploma
de Serviços Prestados à Nação e o orgulho em vir a recebê-lo.
Já tenho em minhas mãos o 1º certificado, aquele assinado pelo Ministro
Barjas Negri, e estou ansioso para receber os restantes. Deve ser tocante
receber diploma de serviços prestados à nação, é o que está faltando no meu
currículo. (…)(Fórum Pits)
(…) estou feliz e lisonjeada em receber estes certificados. (Fórum Pits)
Sou do Pits l e só recebi o certificado de participação do primeiro ano. Quero
saber quando receberemos os outros dois certificados e por onde anda o nosso
certificado de serviços relevantes prestados a nação. Um mérito e orgulho
pessoal de cada um tê-lo e eu não abro mão. (Fórum Pits)
Algumas das dificuldades da tutoria, do curso de especialização e da
educação continuada podem ser atribuídas aos problemas de conectividade com a internet, enfrentados em várias localidades. O Ministério da Saúde formou uma Comissão de Conectividade, composta por representantes do próprio Ministério e do CNPq, encarregada da aquisição e distribuição de equipamentos de informática para uso dos profissionais do Pits nos municípios, devendo ainda, “(…) viabilizar a instalação de linhas telefônicas para acesso a e-mail, web, biblioteca virtual, e o acesso a tutores e a cursos de especialização e a educação a distância” (Brasil, 2002e: 59). O processo de compra e distribuição dos equipamentos foi iniciado em outubro de 2001, “(…) tendo sido adquiridos 315 computadores completos. Até março de 2002, foram entregues 95,6% dos equipamentos” (Brasil, 2002e: 59). As linhas telefônicas, não residenciais, foram instaladas nos postos de saúde ou na residência dos profissionais, com serviço de discagem direta gratuita (0800) específico para o Pits, com alcance estadual, para contato com as coordenações estaduais. As linhas também contavam com serviço discado para acesso à internet. Mas, das 2.490 linhas necessárias, só haviam sido instaladas 151, até agosto de 2002 (Brasil, 2002e, 2002f).
Os profissionais que não enfrentavam esse tipo de problema serviam,
muitas vezes, no fórum do Pits, como porta-vozes dos demais, com os quais se comunicavam por telefone. Mesmo assim, os que dispunham dos meios de comunicação, também enfrentavam problemas:
Creio que a maioria dos profissionais de saúde vive em cidades onde não
existe provedor para internet, nem serviços diferenciados (…); e para
participarmos deste fórum, por exemplo, pagamos taxas de interurbano. (Fórum
Pits)
Mas o processo de comunicação não foi dificultado apenas por fatores
tecnológicos. A comunicação entre a coordenação nacional e os profissionais não se mostrou muito eficaz ao longo do desenvolvimento do Programa. Inicialmente, a criação do fórum foi muito elogiada pelos profissionais nas próprias mensagens ali postadas, criando uma expectativa de que a partir de então a comunicação com a coordenação nacional estaria facilitada:
Olá, felicitações a todos os pitianos e coordenação federal do Pits, enfim, a
todos que colaboraram para que este Fórum fosse criado. (…) acho que este
novo espaço está nos dando a oportunidade de melhor aproximação também
com a coordenação federal do programa e isto muito nos interessa, além de
ampliarmos o nosso círculo de amizades com os colegas pitianos do Brasil
inteiro. Parabéns pelo fórum e a todos os participantes. Ainda acho poucos
integrantes, mas acredito que seja por conta da dificuldade técnica mesmo.
Vamos aproveitar, esta será uma oportunidade ímpar!!! (Fórum Pits)
Contudo, muito rapidamente, o fórum se transformou em instrumento
de comunicação usado eminentemente pelos profissionais, com pouca participação da coordenação nacional. Essa precária comunicação com a coordenação funcionou, por vezes, como um fator a mais de desgaste, chegando mesmo a agravar as críticas e o descrédito por parte de vários profissionais. O próprio fórum ilustra bem esse aspecto, com inúmeras mensagens de queixa acerca da falta de atenção e comunicação por parte da coordenação nacional. Eis alguns exemplos:
Aqui no Fórum nossas dúvidas têm sido respondidas pelos colegas e não
pela coordenação federal (…). (Fórum Pits)
Creio que boa parte do pessoal que está atualmente no Ministério da Saúde
antes queixava-se da falta de comunicação dos gestores anteriores. A história
está se repetindo. Não nos informam nada (…). O interessante é que foi
enfatizada a importância da comunicação durante o curso do Pits (…). (Fórum
Pits)
Quando paro e penso, olho para o meu passado, tudo que deixei para trás,
como muitos dos colegas, por acreditar em um Brasil melhor, vejo que somos
fantoches nas mãos de políticos e que apesar de tantos anos de estudo,
procurando sempre fazer o melhor para o próximo, muitas vezes somos
manipulados e enganados. (Fórum Pits)
Quando um dia, por qualquer razão, não estiveres ocupando um cargo,
porque é assim que acontece, um dia da caça, outro do caçador, não se
esqueça de todos esses e-mails encaminhados que permaneceram sem
respostas. Venha conhecer o Norte, o Nordeste, anonimamente, venha viver o
dia-a-dia de um profissional de saúde, venha ver como as verbas chegam à
população. (…) Continuem nos ignorando, continuem não mandando respostas.
(Fórum Pits)
Houve também problemas no cumprimento de garantias previstas no
regulamento do Programa, quanto ao provimento de recursos básicos para o exercício das atividades dos profissionais e condições de trabalho. Esses problemas incluíram atrasos e até mesmo não recebimento do kit de assistência farmacêutica básica, do kit de equipamentos básicos e dos livros didáticos. Diversas mensagens no Fórum do Pits ilustram os problemas enfrentados pelos profissionais:
Gostaria de saber se ainda este ano [novembro de 2003] receberemos o kit
da farmácia básica (…) Estes kits nos ajudam muito, pois a prefeitura compra
muito pouco (…).(Fórum Pits)
Espero que a verba seja viabilizada de forma que possamos realmente
recebê-la, pois a situação de nossos municípios é péssima quanto a isso. A
farmácia básica é imprescindível para a implementação dos programas, pois é
só o que temos de medicamentos para oferecer à população e aqui no
Maranhão há muito tempo não recebemos. (Fórum Pits)
Sou do município do [nome do município] e também gostaria de saber quando
iremos receber nosso kit básico da farmácia, pois o mesmo faz muita falta, pela
carência da população, distância da capital de 600Km, estrada de chão (…).
(Fórum Pits)
Aqui em [nome do município], recebemos os kits A e B há cerca de duas
semanas atrás e eles vieram violados. É a segunda vez que isso acontece e
faltam-nos medicações importantes para os programas de atenção básica,
inclusive as sacolas de distribuição. (…) Mas realmente gostaria de saber se é
só aqui que isso acontece… Aliás, já começo a sentir saudades dos kits de
atenção à mulher e preservativos; notamos diferença no perfil de gestações.
Aliás, também sinto falta dos kits do programa de prevenção de colo uterino…
(…). (Fórum Pits)
O nosso kit também foi violado e ‘filtrado’. Tudo que o violador achou bom
ficou para ele. Já reclamei com quem de direito em Brasília (…) e nada
aconteceu, continua o problema. (Fórum Pits)
Só respondo agora, pelo longo período sem comunicação pela internet no
Pits. Quero aqui aproveitar para questionar. (…) o programa não vem cumprindo
as propostas do início, tais como: kit com oftalmoscópio e outros materiais,
inclusive livros (…). (Fórum Pits)
No segundo semestre de 2003, começaram a surgir comentários, no
fórum do Pits, dando conta de que o Programa seria extinto ainda naquele ano. Isso gerou muitas dúvidas e angústias por parte dos profissionais, manifestadas no próprio fórum, onde indagavam à coordenação nacional sobre a veracidade dessas informações. A falta de respostas por parte da coordenação acirrou o desgaste entre as duas partes. Somente em novembro a coordenação nacional informou, por meio do fórum, que:
Após a realização do Seminário de Avaliação realizado em Brasília nos dias
01 e 02 de julho de 2003, iniciamos o processo de reformulação do Programa
de Interiorização do Trabalho em Saúde – Pits, com o objetivo de integrá-lo às
estruturas do SUS, particularmente à atenção básica, desencadeando a
transição do Programa para os sistemas municipais de saúde e buscando
assegurar a permanência das equipes nos municípios. Na certeza de sua
compreensão, peço a gentileza que aguarde novas informações mais precisas e
concretas com relação ao referido Programa, pois ainda estamos em fase de
negociação. (Fórum Pits)
O informe não foi suficiente para aplacar a ansiedade dos profissionais
que continuaram se manifestando a respeito no fórum:
Olá, companheiros do Pits. (…) Vou aproveitar para fazer um desabafo e tirar
um pouco dessa tristeza que teima em chegar devagarzinho, quando penso no
futuro de nosso trabalho. Está ficando difícil dar respostas para meus amigos
das comunidades onde trabalho, a respeito da continuidade do Pits. Estão
acontecendo várias consultas, onde meus pacientes querem apenas saber se
vamos continuar ou não. E eu procuro, da melhor forma, explicar que ainda está
para ser definido. Depois de 2 anos e meio de luta, de resistência, de
persistência, de construção de laços de confiança e de amizade, estamos
sedimentando todas as nossas frentes de trabalho, e o melhor, com a ajuda da
população. Agora que começamos a sentir e ver os frutos de nossa semeadura,
vem a tristeza de pensar que tudo isso pode ficar pra trás. Que me desculpem
as pessoas da coordenação nacional, mas até agora não entendi exatamente o
que querem dizer com ‘fazer parte efetivamente da estrutura do SUS’, pois
sempre me considerei uma ‘fazedora’ do SUS. Se isso significa depender da
estrutura dos municípios em que estamos, para continuidade do projeto, não
posso falar por todos, mas a realidade aqui é que não teremos como continuar.
Sinto dizer que um dos fatores que manteve a permanência e o respeito pelo
Pits foi o fato de estarmos ligados ‘diretamente’ ao MS, o que possibilitou a
implementação de várias ações, uma vez que de certa forma atuamos como
‘fiscalizadores’. (…) espero de coração, assim como vários dos meus amigos-
pacientes que aqui conheci, que o Pits não passe a ser mais um desses
‘projetos-foguete’, brilham muito quando iniciados, mas apagam-se, deixando
um vazio para aqueles que participaram do espetáculo. Um grande abraço a
todos. (…). (Fórum Pits)
É (…), aqui em [nome do município], a situação não é diferente… tem
pacientes que começam a chorar, quando também não me fazem chorar. Tanto
o secretário quanto o prefeito mostram as mais belas intenções de manter
nossa equipe, mas sei que o município não tem condições, tudo devido à má
administração do dinheiro público, diga-se de passagem. Estes últimos meses
têm sido estressantes e angustiantes visto a não decisão em todas as
instâncias. (Fórum Pits)
Poucos dias depois, também por meio do fórum, a coordenação
nacional divulgou ofício da Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, com a informação de que o Pits passaria a integrar os sistemas municipais de saúde, mediante repasse direto de recursos financeiros, com os profissionais sendo incorporados como equipes de PSF locais:
O Ministério da Saúde informa que está promovendo a integração e a
incorporação das equipes do Pits às equipes de Saúde da Família. Isso quer
dizer que está assegurada a possibilidade de permanência de todos os
profissionais atualmente lotados no Pits em suas atuais equipes e local de
trabalho, mediante vinculação ao sistema local de saúde.
Na próxima semana, serão divulgados os detalhes operacionais e políticos
desse processo de integração, que será apresentado primeiramente ao Conass
e Conasems. Afirmamos, no entanto, que a proposta do Ministério da Saúde,
além de qualificar e fortalecer a política de atenção básica em saúde, vai
assegurar integralmente os recursos financeiros atualmente comprometidos
com o Pits, garantindo dessa forma as condições de remuneração dos atuais
profissionais bolsistas.
Informamos ainda, que os cursos de especialização aos profissionais do Pits
que ingressaram em agosto de 2003, serão mantidos e ampliados para os
profissionais das equipes de Saúde da Família. (Fórum Pits)
O ofício gerou imediata reação por parte dos profissionais, no fórum do
Pits. As duas mensagens a seguir ilustram bem os efeitos do comunicado sobre os médicos:
Após a leitura atenciosa do citado documento, penso oportuno tecer algumas
considerações, até para que possamos dirimir dúvidas que acredito comuns a
muitos.
A primeira questão surge quando colocado que o Ministério da Saúde ‘stá
promovendo a integração e a incorporação das equipes do Pits às equipes de
Saúde da Família’. A princípio, do ponto de vista estrutural, nos parece um
processo de consecução aparentemente simples, se considerarmos que nesses
municípios a gestão optou por organizar a atenção básica, tendo como
estratégia estruturante o Saúde da Família. Também, teoricamente, estariam
facilitados os repasses financeiros, visto que esses municípios ora recebem
recursos para manutenção e implementação das equipes já existentes –
transferências ‘fundo-a-fundo’. Minha dúvida diz respeito aos municípios onde,
até então, só existem atuando as equipes do Pits, que por ironia não são
consideradas equipes do Saúde da Família nem pelo Siab (SIA/SUS), e onde
não é permitido o cadastramento das mesmas nesse sistema. Logo, como se
daria o repasse financeiro para remuneração dos profissionais e manutenção
das futuras equipes do Saúde da Família nessas localidades? Prosseguindo, o
texto diz que ‘está assegurada a possibilidade de permanência de todos os
profissionais…’. Não suponham sarcástica minha exposição, e perdoem-me a
confusão, mas não entendo como pode-se assegurar uma possibilidade. Por
definição assegurar é ‘garantir; afirmar com segurança ou certeza’. Então me
pergunto como assegurar uma possibilidade? Ou seja, assegurar algo que pode
ser, acontecer ou praticarse, ou não! (Fórum Pits)
Quero concordar com a interpretação do colega (…) e chamar a atenção para
as entrelinhas, já que passaremos à sujeição de normas municipais que
sabemos sequer existirem em muitos dos municípios atendidos pelo Pits, já que
pela própria proposta inicial do programa, não estavam (mudou?) aptos a
assumir equipes de Saúde da Família.
Creio ser imprescindível a representatividade dos integrantes do programa em
todas as fases desta discussão, pois quando aceitamos participar do programa
foi em grande parte pela credibilidade gerada pelo MS; também por crer que a
experiência gerada pelo tempo de programa pode ser útil na elaboração das
novas propostas (…). (Fórum Pits)
Em função das dificuldades de comunicação, por meio do fórum, com
a coordenação nacional, os profissionais procuravam obter informações por conta própria sobre a continuidade do Programa e as postavam para compartilhar com os demais. Um dos profissionais postou o que denominou ‘Alerta aos Pitianos’, informando sobre uma reunião prestes a ser realizada entre a coordenação nacional e os gestores estaduais e municipais para decidir sobre os rumos do Programa. O ‘alerta’ contou com repercussão imediata, por meio de sucessivas mensagens de apoio de outros profissionais.
Com a falta de resposta ao ‘alerta’ por parte da coordenação nacional,
os profissionais mais uma vez se encarregaram de obter informações, dessa vez sobre os resultados da reunião, divulgando-as no fórum:
Caros colegas!!! Segundo notícia divulgada por gestores locais, o resultado
da reunião de hoje em Brasília foi que, a partir de janeiro de 2004, já estaremos
vinculados aos municípios (processo de municipalização). Não quero ser
precipitada em nenhum comentário, uma vez que a notícia ainda é extra-oficial e
não sabemos de que forma o processo se deu, nem ao menos os detalhes
técnicos. Peço que os colegas que tiverem informações socializem com o grupo.
Aguardamos a posição da coordenação nacional do Pits (…). (Fórum Pits)
Estamos em plena Conferência Estadual de Saúde, lutando, articulando por
participação social, como profissionais que somos, dando a nossa contribuição
para o SUS que queremos. E hoje somos surpreendidos por muitos comentários
de gestores, comentando que (…) acabou mesmo e que o nosso salário será
repassado pelas prefeituras com as devidas deduções e (…) quem quiser (…) a
Prefeitura decidirá os termos do contrato. (…) veja (…) novamente o que o
silêncio de vocês nos proporcionou: desgosto, descrédito desmotivação (…)
Meu sentimento hoje é de muita insatisfação, não valeu nada confiar!!!!!!!!!!!!!!
(Fórum Pits)
(…) o Pits deixa de existir a partir de 30 de dezembro. E estaremos nas mãos
dos gestores locais. Se o município tiver o profissional do Pits no dia 01/01/04,
está garantido o repasse da verba fundo-a-fundo para o município nos pagar.
Por mais 180 dias. Porém, se o município quiser dispensar este profissional e
contratar outro após esta data, fica à vontade dele, o dinheiro continuará a vir.
Só quem fica na corda bamba somos nós. O acordo agora é com os gestores
municipais. (Fórum Pits)
Estamos recebendo muitas informações sobre nosso futuro e temos que
organizar nossas vidas. Até agora só nos foi demonstrada total falta de respeito
e consideração. A maneira com que as coisas foram feitas foi autocrática e não
levaram em conta nada do que tínhamos a dizer, ou o que poderíamos
acrescentar… (…). (Fórum Pits)
Somente um mês depois da reunião com os gestores estaduais e
municipais, a coordenação nacional postou novo comunicado, no fórum do Pits, datado de 17 de novembro e também assinado pela secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, com esclarecimentos sobre problemas jurídicos que o Programa vinha enfrentando desde o início do ano, ameaçando sua continuidade. O comunicado, no formato de um ofício, informa que os problemas surgiram a partir de auditoria de rotina realizada, no CNPq, pelo Tribunal de Contas da União, no início de 2003. Desde então, o Ministério da Saúde vinha estudando alternativas para garantir a continuidade do Programa, que, conforme esclarece o ofício, estaria assegurada somente até julho de 2004:
A partir do Seminário de Avaliação do Programa de Interiorização do Trabalho
em Saúde ocorrido em Brasília (julho/2003), o Ministério da Saúde vem
buscando alternativas para integração do Programa às estruturas do SUS,
particularmente à atenção básica, na perspectiva de fortalecer os sistemas
locais de saúde.
Esse processo ganhou ainda outra emergência quando no primeiro semestre
deste ano, em processo regular de auditoria no CNPq, o Tribunal de Contas da
União deferiu decisão considerando irregular a gestão financeira do Programa
mediante convênio entre esse órgão e o Ministério da Saúde. Na ocasião, foi
determinado o prazo de 180 dias, a partir de julho de 2003, para que o CNPq e
Ministério da Saúde indicassem caminhos para resolução do problema.
Dessa forma a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde
juntamente com a Secretaria de Atenção a Saúde elaboraram uma proposta em
caráter provisório, que previa transferência dos recursos diretamente aos
municípios, buscando assegurar a permanência das equipes nos municípios.
Essa proposta foi discutida em reunião realizada em Brasília no dia 24 de
novembro de 2003 com os gestores municipais, coordenadores estaduais do
Pits e coordenadores da atenção básica.
Simultaneamente a este processo, o Ministério da Saúde solicitou, junto ao
Tribunal de Contas da União, a dilatação do prazo estabelecido para término do
convênio. A deliberação do TCU a esse respeito ocorreu no último dia 10 de
dezembro, sendo favorável à prorrogação do prazo por mais 180 dias a contar
de 22 de janeiro de 2004.
Portanto, não será necessária a implementação da alternativa transitória, já
que seguirá sendo possível manter a remuneração dos profissionais através das
bolsas. Apesar disso, seguiremos adiante com o processo de integração do
programa com a atenção básica, e a gestão das equipes será transferida aos
municípios, conforme o que havíamos discutido.
Durante os próximos meses, o Ministério da Saúde apresentará ao Conass e
Conasems uma proposta de política definitiva para viabilizar a fixação de
profissionais em municípios de difícil acesso e com indicadores que merecem
atenção diferenciada. (Fórum Pits)
Ao longo de 2003, até a extinção do Programa, em julho de 2004,
houve uma série de contratempos ocasionados ou agravados por esse cenário. Foram contratempos de todas as ordens, que interferiram em vários aspectos do funcionamento do Programa, desde atraso no pagamento das bolsas, suspensão de diárias e transporte para que os profissionais pudessem freqüentar o curso de especialização nas capitais, até o agravamento do não cumprimento da contrapartida municipal. Foi um período de intensa troca de mensagens, no fórum do Pits, entre os profissionais, relatando os problemas enfrentados:
Colegas do Pits III. Esta mensagem vai para aqueles que por ventura estão
tentando realizar o curso de especialização. Tomamos conhecimento da
suspensão das diárias, para quem está fazendo o curso de especialização.
Gostaria de saber do posicionamento dos demais participantes que estão em
condições semelhantes a minha. No meu caso, será impossível de continuar, já
estou bancando meus gastos aqui em [nome do município], agora ter que gastar
com diárias, não dá, vou terminar pagando para trabalhar. (Fórum Pits)
É apenas uma impressão, ou estamos mesmo com atraso no pagamento de
nossos salários??? (…). (Fórum Pits)
Pois é, aqui estamos com mais um mês de atraso… (Fórum Pits)
Mas, desde o informe oficial, em novembro, de que o Programa só se
manteria até julho de 2004, a tônica das mensagens do fórum foi, essencialmente, a confirmação desse prazo final, as condições de trabalho até lá e o destino dos profissionais e suas angústias e ansiedades em relação ao futuro.
A coordenação nacional respondeu aos profissionais no fórum, em
março de 2004, com dois comunicados. O primeiro, no formato de ofício, esclarece algumas questões acerca do curso de especialização. O segundo faz uma espécie de balanço da trajetória de gestão do Programa:
O Programa de Interiorização do Trabalho em Saúde/Pits é uma iniciativa
desenvolvida pelo Ministério da Saúde, desde 2001, em parceria com as
Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde e o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq, com o objetivo de propiciar a
atenção à saúde em municípios que, por dificuldade de acesso ou escassez
extrema de recursos, não contavam com profissionais de saúde para o
desenvolvimento da atenção básica.
O Programa foi concebido com caráter transitório e como indução aos
gestores municipais para implantação e reorganização de suas ações de saúde,
considerando a estratégia da saúde da família.
O prazo para o término do convênio com o CNPq firmado ainda no governo
anterior foi até junho de 2004.
Durante o primeiro semestre do ano de 2003 o Programa foi mantido em sua
estrutura original, tendo havido, inclusive, processo seletivo específico para
médicos, com o objetivo de completar equipes que só contavam com o
profissional enfermeiro.
Simultaneamente foi desencadeado processo de avaliação do Programa nos
estados que culminou na realização de um Seminário de Avaliação (julho/2003
– Brasília), com objetivo de identificar em conjunto com todos os atores
envolvidos, os problemas e avanços, bem como estratégias para o
enfrentamento das dificuldades.
Dentre os problemas apontados durante o Seminário destacamos a
desarticulação do Programa com as demais estruturas do SUS, particularmente
a atenção básica, verticalização/centralização das decisões no âmbito federal
sem levar em consideração a realidade local levando ao estabelecimento de
vínculo preferencial dos profissionais com o Ministério da Saúde em detrimento
dos gestores locais.
A partir desses resultados, iniciamos o processo de reformulação do
Programa com o objetivo de integrá-lo às estruturas do SUS, particularmente à
atenção básica, desencadeando a sua transição para os sistemas municipais de
saúde buscando assegurar a permanência das equipes nos municípios.
Esta necessidade ganhou ainda outra emergência quando, no primeiro
semestre de 2003, através de auditoria regular no CNPq, o Tribunal de Contas
da União deferiu decisão considerando irregular a gestão financeira do
Programa através de convênio entre esse órgão e o Ministério da Saúde,
determinando o prazo de 180 dias, a partir de julho de 2003 para que o CNPq e
Ministério da Saúde apontassem proposta para resolução do problema. Dessa
forma, a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde,
juntamente com a Secretaria de Atenção à Saúde, elaboraram uma proposta em
caráter provisório, garantindo a permanência das equipes nos municípios, que
foi discutida em reunião realizada em Brasília no dia 24 de novembro de 2003
com os gestores municipais, coordenadores estaduais do Pits e coordenadores
da atenção básica.
Simultaneamente a este processo, o Ministério da Saúde solicitou junto ao
Tribunal de Contas da União a dilatação do prazo estabelecido para término do
convênio. A deliberação do TCU ocorreu em dezembro de 2003, sendo
favorável à prorrogação do prazo por mais 180 dias a contar de 22 de janeiro de
2004.
Portanto, a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde,
juntamente com a Secretaria Executiva e Secretaria de Atenção à Saúde,
deverão apresentar ao Conass e Conasems até março de 2004 uma política
definitiva que viabilize a fixação de profissional em municípios de difícil acesso e
com indicadores que merecem atenção diferenciada, através da definição de
critérios que propiciem um financiamento diverso das ações de atenção básica
organizadas pela estratégia Saúde da Família.
Concluindo, estamos aguardando a aprovação da proposta em reunião da
Tripartite que deverá ser ainda em março/2004; o Programa será integrado ao
PSF e esses municípios terão um financiamento diferenciado, considerando os
critérios definidos. Além dos municípios do Pits serão incluídos municípios de
todos os estados desde que obedeçam a esses critérios. Estamos aguardando
parecer da Tripartite para que possamos oficializar as definições. (Fórum Pits)
A partir de então, os profissionais passaram a demonstrar, no fórum,
sua ansiedade por obter informações acerca da reunião da Tripartite, que acabou sendo transferida para o final de abril. Como o retorno a essa solicitação, por parte da coordenação nacional, mais uma vez demorou, os profissionais manifestaram sua insatisfação com o que consideraram descaso e desrespeito com sua situação, e compartilharam suas dúvidas:
Realmente (…), estamos numa situação muito desconfortável e nem um
pouco saudável. Não consigo entender o porquê deste silêncio todo da
Coordenação. Precisamos resolver nossas vidas (…) pela segunda vez peço à
coordenação que não mais adie a comunicação oficial do nosso destino (…).
(Fórum Pits)
É lamentável a falta de humanidade e eficiência desta coordenação para com
profissionais que saíram de seus estados para tão longe na tentativa de
trabalhar por uma saúde pública de melhor qualidade (…) Fica aqui o meu
protesto e desapontamento com a condução final deste programa, que com
certeza foi um marco importante na história da saúde pública do país, por ter
combatido o problema dos recursos humanos em regiões carentes e de difícil
acesso (…). (Fórum Pits)
Mais uma vez, o esclarecimento veio primeiro por meio dos próprios
profissionais, sem que a coordenação nacional tivesse se pronunciado:
Recebi da Coordenadoria do Pits [nome do estado] a seguinte mensagem:
‘Comunicação sobre o Pits (…) Senhores Profissionais, Estamos nos
aproximando do vencimento do contrato de bolsista do CNPq (Pits) que será em
30/06/2004. A coordenação nacional do Pits nos informou que a nova proposta
de continuidade de tratamento especial aos municípios com IDH abaixo de 0,7
passou na Tripartite no último dia 29/04/2004. A proposta ficou assim: todos os
municípios contratados com o Pits e os municípios com a população = 30.000
habitantes receberão incentivo por equipe do PSF cadastrada com 50% a mais
do valor inicial. Ex.: município com 70% de cobertura do PSF recebe hoje X e
passará a receber Y. Essa nova modalidade entrará em vigor a partir de
01/07/2004’ (…). (Fórum Pits)
Colegas, é profundamente preocupante a forma com que vem sendo
conduzido o término do Pits. Pois a coordenação do Pits no [nome do estado],
conforme comunicado do colega (…), já comunicou aos profissionais a data do
fim do Pits, bem como as decisões tomadas na Tripartite e, mesmo assim,
persiste o silêncio da coordenação nacional no tocante ao assunto em pauta,
cujo interesse dos profissionais é muito relevante. (…)
Relaciono preocupações pertinentes que não poderão, de forma alguma, ser
desconsideradas:
a diferenciação salarial existente hoje em um mesmo município entre o salário do Pits e PSF;
o atraso salarial dos profissionais do PSF, em sua maioria; autonomia do município para contratar profissionais; a não existência de uma política nacional de remuneração dos profissionais do PSF para execução de uma mesma atividade em um programa (estratégia) de âmbito nacional e com os mesmos objetivos (melhoria de indicadores, assistência integral e humanizada, acessibilidade, prevenção de doenças e promoção de saúde e estímulo ao controle social etc); educação continuada.
Considerando a situação em curso, ou seja, aproximação do término do Pits
concomitante com o prazo máximo para contratação de profissionais (de acordo
com a lei eleitoral), bem como a indefinição dos gestores no que diz respeito a
contratar os profissionais do Pits, concluímos que estamos correndo um grande
risco de ficarmos excluídos e com pouquíssimas opções (relação oferta x
procura) (…). (Fórum Pits)
Em função desse diagnóstico, os profissionais do Pits começaram a se
mobilizar, por meio do fórum, para tentar evitar a extinção do Programa:
Caros colegas, aceitando sugestão de um colega de trabalho que diz para
que todos os nossos prefeitos enviem carta pedindo a continuação do Pits,
endereçada à coordenação nacional do Pits, à coordenação estadual e ao
Jornal [nome do jornal], quem sabe aí então poderíamos ter uma resposta mais
efetiva. Vamos aceitar essa sugestão???? (Fórum Pits)
Vamos promover reuniões estaduais para discussão sobre os rumos do Pits?
Embora estejamos em situação irregular, pois muitos permanecem há quase
três anos sem vínculo ou direitos empregatícios, ainda acreditamos que o Pits
possa ser uma melhor opção, se comparado ao contrato feito com algumas
prefeituras, acostumadas a não cumprirem os seus compromissos, pagarem
mal a maioria dos seus empregados e atrasarem o salário de seus funcionários.
Seria o tempo, talvez, de tentarmos discutir saídas para o impasse. Sabemos
que o Pits só existiu porque determinadas cidades estavam com a saúde muito
deficiente. Então, o que melhor fazer para darmos continuidade às ações
realizadas até aqui? Uma proposta seria a continuação do Pits até dezembro. É
possível? Porém, como proceder após esta data? O ideal seria continuarmos
nas cidades em que fomos lotados, porém sob contrato empregatício. Se muitos
municípios não apresentam condições para nos oferecerem a tranqüilidade de
uma remuneração apropriada e estável, como contornar isto, sem ferir os
princípios do SUS? (…). (Fórum Pits)
O que está ocorrendo é política, logo, penso que o nosso alvo são os
senhores deputados estaduais, federais e senadores da oposição, aí sim, é
possível, que haja barulho e desta maneira poderemos ter alguma chance (…).
(Fórum Pits)
Concordo que o CNPq visa à pesquisa e não ao trabalho, que desde o início
sabíamos do término, mas peço aos coordenadores que implantem um novo
Programa de Interiorização de Profissionais, pois este povo brasileiro precisa
muito e está muito longe do SUS que queremos. O SUS que permanece no
papel para muitos, aqui se vê colocar fezes de papagaio no ouvido quando se
tem dor, tomar urina de cachorro quando tem diabetes, para tosse fezes de
cachorro bem clarinhas, e por aí afora. Eu tenho certeza, e vi sentindo na pele,
que precisamos fazer valer pelo menos um princípio do SUS neste país:
eqüidade. Saúde é direito do Povo e dever do Estado. Aguardamos com
ansiedade notícias oficiais quanto a prazos e outros pormenores. Sei que muitas
vezes opiniões neste fórum podem fazer um coordenador, que tem o poder nas
mãos, se questionar, repensar, dialogar, voltar atrás, resgatar princípios,
acredito no bom senso deste governo. (Fórum Pits)
Somente no final de maio a coordenação nacional respondeu, no
fórum do Pits, às inquietações dos profissionais, com a divulgação de um novo ofício:
Dirigimo-nos à Vossa Senhoria para informar que a proposta de Incentivo ao
Programa de Saúde da Família-PSF para pequenos municípios foi aprovada na
reunião da Comissão Intergestores Tripartite, de 29 de abril de 2004.
Por decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), a remuneração dos
bolsistas do Pits/CNPq somente poderá ser mantida pelo Ministério da Saúde
até 30 de junho de 2004. Mediante o exposto, orientamos que as Coordenações
Estaduais de Atenção Básica/PSF e os municípios envolvidos encaminhem,
com urgência, solicitação para a próxima reunião da Comissão Intergestores
Bipartite-CIB do seu Estado, proposta de qualificação de equipes de Saúde da
Família no número correspondente ao número de equipes Pits hoje existentes
em cada município (ad referendum).
A aprovação de qualificação de equipes pode considerar, inclusive, as
equipes incompletas do Pits. Essa medida visa dar agilidade ao processo de
transição das equipes do Pits para equipes da Saúde da Família. Após a
aprovação na CIB, os estados devem informar ao Ministério da Saúde para
publicação. A partir daí, os municípios devem contratar os profissionais das
equipes e cadastrá-los via Siab como equipes da Saúde da Família. Em relação
às equipes incompletas, à medida que forem sendo completadas, devem ser
informadas como equipes da Saúde da Família, passando a receber os recursos
correspondentes.
Sugerimos que a qualificação pela CIB estabeleça um prazo de 60 (sessenta)
dias para regularização do processo, com encaminhamento do plano elaborado
pelo município e aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde.
Salientamos a necessidade do comprometimento de todos os gestores para
que não haja descontinuidade na atenção à saúde prestada à população e de
que a experiência e o acúmulo dos profissionais do Pits sejam levados em
conta. (Fórum Pits)
O ofício provocou reações de desânimo e desesperança dos
profissionais do Pits, manifestadas no fórum, particularmente entre os que ainda acalentavam a expectativa de que o Programa não viesse a ser extinto:
O ofício enviado nos deixou com mais tristeza, desmotivados para prosseguir
nosso trabalho. São sabidas, desde janeiro, as decisões que porventura seriam
tomadas na reunião da Tripartite e do prazo do TCU. Porém, achávamos que o
desfecho seria outro, quem sabe uma possível prorrogação até dezembro, ou
alguma ONG, pois o período eleitoral se aproxima, e a nossa realidade é de que
prevalecem aqueles que se comportarem como verdadeiros cabos eleitorais.
Não temos nenhuma garantia de sermos contratados, nem tão pouco de
recebermos nosso salário em dia. Será que depois de tudo o que enfrentamos e
de tanto investimento, não merecemos no mínimo isso?! (…) Acredito que
vamos passar por um momento de regressão na saúde, já que as propostas
destes municípios onde nos encontramos atualmente não estão oferecendo
uma proposta salarial digna, o que levará o profissional a sair do município e
pela precariedade exposta, o município poderá até ficar descoberto de
profissionais, acarretando novamente piora desses indicadores. Será que é isso
que a comunidade quer? Que o MS quer? Vocês não estão pensando nas
conseqüências dessas decisões verticalizadas? Lamento muito e acho que
devemos repensar e buscar outro caminho, ampliar nossos horizontes. (Fórum
Pits)
Manifestação do Pits/[nome do estado] – Redigida na penúltima reunião de
[nome do município].
Nós, enfermeiros e médicos, especialistas em Saúde da Família, dirigimos
nossas palavras de preocupação e alerta quanto à desativação do Programa de
Interiorização do Trabalho em Saúde (Pits), responsável pelo atendimento de
milhares de famílias, em todo o Brasil. Causa-nos estranheza e extrema
preocupação a inativação de um programa em que foram investidos grandes
esforços para a capacitação dos vários profissionais de saúde e colocação
destes nos vários municípios brasileiros, possuidores de indicadores de saúde
ruins e carentes de profissionais de saúde de nível superior. Fomos
selecionados pelo Ministério da Saúde e treinados sob a supervisão de
universidades de prestígio nacional, a fim de melhorarmos os principais
indicadores de saúde dos municípios assistidos pelo Pits. Hoje, em plena época
de eleições políticas, em um período tão difícil para encontrarmos boas
propostas de trabalho, estamos sendo ‘exonerados’ (…) A contrapartida da
coordenação nacional do Programa de Interiorização do Trabalho em Saúde
(Pits) é de incorporação dos profissionais do Pits ao sistema de saúde dos
municípios em que fomos lotados, sendo que nossos salários seriam pagos, a
partir de julho, pelos gestores municipais. Conseqüentemente, ficaremos à
mercê de administrações municipais que talvez não cumpram, de modo regular,
os seus compromissos salariais para com os seus novos contratados (…).
(Fórum Pits)
Mas a decisão de extinguir o Pits, incorporando os profissionais aos
sistemas municipais de saúde, estava tomada e já se mostrava irreversível. Em 18 de junho de 2004, a coordenação nacional divulgou, no fórum, novo ofício com detalhes dos procedimentos operacionais para a finalização das atividades do Programa.
Diante da irreversibilidade da decisão e da contundência do ofício,
restou aos profissionais deixarem seu desabafo registrado no fórum. Um desabafo lúcido, que chama a atenção para o fato de o Pits ter, na realidade, estabelecido uma relação de trabalho entre o Ministério da Saúde, o CNPq e os profissionais, com todas as implicações jurídicas daí decorrentes, apontadas inclusive pelo TCU. Um desabafo que evidencia aspectos determinantes para iniciativas destinadas à interiorização de médicos e que serão explorados nas conclusões deste capítulo:
É lamentável a falta de seriedade das instituições, nesse país. O que o
Ministério da Saúde fez com o pessoal do Pits, principalmente, o Pits III, foi o
que se chama quebra de contrato. (…) É preciso informar aos demais
participantes que é lícito e legal processar o Ministério da Saúde por quebra de
contrato (…). (Fórum Pits)
A coordenação nacional (…) estará aprofundando cada vez mais a tão
abominável precarização do trabalho em saúde (tão discutida no seminário
nacional de avaliação do Pits e repudiada pela atual gestão do Ministério da
Saúde). (…) Pela valorização, respeito e dignidade aos recursos humanos do
SUS. (Fórum Pits)
Prezados senhores que acreditaram no Pits. (…) me gerou um sentimento de
revolta e vergonha, por saber que certos programas dependem de elementos
que se dizem brasileiros, e mais a sensação de mais uma vez ter sido vencido e
enganado pelo sistema onde predomina a corrupção e o desmando. Prezados
colegas, cidadãos brasileiros, pais de família, idealistas (otários no nosso país),