'Salem

Stephen King · Capítulo 8 de 22

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'Salem

Capítulo Cinco – BEN (II)

Capítulo Cinco

 

BEN (II)

 

Capítulo Cinco – BEN (II)

 

1

 

No dia 25 de setembro, Ben voltou à casa dos Norton para jantar. Era uma noite de quinta-feira, e a refeição foi tradicional — salsicha com feijão. Bill Norton grelhou as salsichas na churrasqueira, e Ann deixara os feijões cozinhando no melado desde as nove da manhã. Depois de comer na mesa de piquenique, os quatro ficaram fumando e conversando sobre as poucas chances que o Boston tinha de ganhar o campeonato.

O tempo mudara sutilmente — continuava agradável, mesmo de mangas curtas, mas dava para sentir um começo de frio. O outono aguardava nos bastidores, quase se deixando ver. O grande e antigo bordo em frente da pensão de Eva Miller já começara a avermelhar.

Nada mudara na relação de Ben com os Norton. O afeto de Susan por ele era claro, franco e natural. E ele gostava muito dela. Sentia em Bill uma simpatia crescente, contida por um tabu inconsciente, comum a todos os pais na presença de homens que os visitavam por causa das filhas, e não por eles mesmos. Um homem, quando simpatiza com outro, fala abertamente, sobre mulheres e política, entre uma cerveja e outra. Mas é impossível se abrir totalmente com um homem que é, potencialmente, o deflorador da filha. Depois do casamento, o potencial se concretizava, refletiu Ben, e seria possível ser realmente amigo de um homem que penetrava sua filha noite após noite? Devia haver uma moral ali, mas Ben duvidava.

Ann Norton continuava fria. Susan lhe falara um pouco de Floyd Tibbits na noite anterior — que sua mãe achava que já havia encontrado nele um genro satisfatório. Floyd era um elemento previsível, confiável. Ben Mears, por outro lado, viera do nada e podia sumir de uma hora para outra, levando o coração da filha no bolso. Ela desconfiava de homens criativos com uma aversão instintiva e interiorana (que Edward Alington Robinson ou Sherwood Anderson conheciam muito bem). Ben suspeitava que ela tivesse um lema: ou eram bichas, ou eram mulherengos. Também podiam ser homicidas, suicidas ou loucos. Costumavam cortar as orelhas esquerdas para mandá-las a mocinhas. A participação de Ben na busca de Ralphie Glick parecia ter aumentado as suspeitas dela, em vez de aplacá-las, e ele começava a achar que conquistá-la seria um feito impossível. Será que ela sabia que Parkins Gillespie o visitara?

Era o que ele pensava preguiçosamente quando Ann disse:

— Terrível o que aconteceu com o filho dos Glick.

— Ralphie? É mesmo — disse Bill.

— Não, o mais velho. Morreu.

Ben teve um sobressalto.

— Quem? Danny?

— Morreu na madrugada de ontem. — Ann parecia surpresa com o fato de os homens não saberem. Não se falava de outra coisa.

— Ouvi uns comentários no Milt — disse Susan. Procurou a mão de Ben sob a mesa, e ele a segurou de bom grado. — Como estão os pais?

— Como eu estaria — limitou-se a dizer Ann. — Fora de si.

E com razão, pensou Ben. Dez dias antes a vida deles seguia um ciclo costumeiro e seguro; e agora a família estava destruída, em pedaços. Um calafrio o percorreu.

— Você acha que o outro menino pode aparecer com vida? — Bill perguntou a Ben.

— Não. Acho que também está morto.

— Parece aquele caso em Houston, dois anos atrás — disse Susan. — Se ele estiver morto, eu quase torço para que não seja encontrado. Quem seria capaz de fazer algo assim com um menininho indefeso...

— A polícia deve estar investigando — disse Ben. — Procurando criminosos sexuais conhecidos, interrogando-os.

— Quando encontrarem o sujeito, deviam arrancar o couro dele — disse Bill. — Que tal uma partida de badminton, Ben?

— Não, obrigado — disse Ben, levantando. — Além do mais, parece que você está jogando buraco comigo no papel de morto. Obrigado pelo jantar delicioso. Ainda preciso trabalhar hoje.

Ann Norton ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.

— Como vai o novo livro? — disse Bill, levantando.

— Bem — disse ele brevemente. — Quer descer comigo e tomar um refrigerante na Spencer’s, Susan?

— Não sei — Ann apressou-se a dizer. — Depois do que aconteceu com Ralphie Glick, eu ficaria mais sossegada se...

— Mãe, já estou grandinha — disse Susan. — E o monte Brock é todo iluminado.

— Vou trazê-la de volta, é claro — disse Ben, quase com formalidade. Ele deixara o carro na pensão para aproveitar o belo fim de tarde.

— Não tem perigo — disse Bill. — Você se preocupa demais, mãe.

— É, acho que sim. E os jovens sempre sabem de tudo, não é? — Ela deu um sorriso forçado.

— Vou só pegar uma jaqueta — Susan murmurou para Ben. Usava uma minissaia vermelha, e suas pernas ficaram ainda mais à mostra enquanto subia os degraus até a porta. Ben admirou-as, sentindo o olhar de Ann sobre si. Bill apagava o carvão da churrasqueira.

— Quanto tempo pretende ficar na cidade, Ben? — Ann perguntou, fingindo interesse educado.

— Pelo menos até acabar o livro — disse ele. — Depois, não sei. As manhãs aqui são lindas, o ar é uma delícia. — Ele sorriu para ela. — Pode ser que eu fique mais.

— Faz frio no inverno, Ben — disse ela, também sorrindo. — Um frio terrível.

Mas Susan já voltava, com uma jaqueta leve sobre os ombros.

— Pronto? Vou tomar um chocolate. É melhor minha pele ficar esperta.

— Sua pele vai sobreviver — disse ele, e se virou para o Sr. e a Sra. Norton. — Obrigado mais uma vez.

— Disponha — disse Bill. — Volte amanhã à noite e traga cerveja, se quiser. Vamos dar risada daquele maldito Yastrzemski.

— Ótimo — disse Ben. — Mas o que faremos se o jogo acabar no primeiro tempo?

A risada de Bill, forte e cordial, seguiu-os enquanto saíam da casa.

 

2

 

— Eu não queria ir à Spencer’s — disse ela enquanto desciam o monte. — Você não prefere ir ao parque?

— E os assaltantes, mocinha? — perguntou ele, imitando o sotaque do Bronx.

— Em Lot, todos os assaltantes precisam voltar para casa às sete. É lei municipal. E agora são exatamente oito horas e três minutos. — A escuridão caiu sobre eles enquanto desciam o monte, e suas sombras cresciam e encolhiam à luz dos postes.

— Os assaltantes daqui são muito comportados — disse ele. — Ninguém vai ao parque à noite?

— Às vezes alguns adolescentes, quando não têm dinheiro para o drive-in — disse ela, e piscou para ele. — Então, se você vir algum movimento nas moitas, olhe para o outro lado.

Entraram pelo lado oeste, que dava para o Paço Municipal. O parque estava sombrio e um pouco fantasmagórico, os muros de concreto se curvando sob as árvores pesadas, a piscina brilhando silenciosamente sob a luz refratada da rua. Se alguém estava lá, Ben não via.

Contornaram o Memorial da Guerra, com suas longas listas de nomes, os mais antigos da Guerra da Independência, os mais novos da Guerra do Vietnã, todos gravados sob a Guerra de 1812. Seis nomes haviam sido acrescidos após o conflito mais recente, as letras talhadas no latão fulgindo como feridas abertas. O nome desta cidade está errado, pensou ele. Devia ser Tempo. E, como se movido por esse pensamento, ele tentou avistar a Casa Marsten, mas o Paço Municipal a ocultava.

Ela seguiu o olhar dele e franziu a testa. Enquanto estendiam as jaquetas na grama e sentavam (haviam desprezado tacitamente os bancos do parque), ela disse:

— Mamãe disse que Parkins Gillespie foi procurar você hoje. É que nem o menino novo da escola, suspeito de roubar o dinheiro do leite.

— Ele é uma figura — disse Ben.

— Para minha mãe, você já estava julgado e condenado. — Ela disse com leveza, mas sem conseguir ocultar a seriedade.

— Sua mãe não gosta muito de mim, não é?

— Não — disse Susan, segurando a mão dele. — Foi um caso de antipatia à primeira vista. Eu sinto muito.

— Tudo bem — disse ele. — Um gol eu já marquei.

— Com meu pai? — Ela sorriu. — Ele sabe reconhecer quando alguém tem classe. — Ela ficou séria. — Ben, sobre o que é seu novo livro?

— É difícil dizer. — Ele tirou os sapatos e enfiou os dedos dos pés na grama orvalhada.

— É melhor mudar de assunto.

— Não, não me importo em lhe dizer. — E ele descobriu, com surpresa, que era verdade. Sempre comparara um livro em andamento a uma criança, uma criança fraca, que precisava ser protegida e acalentada. Excesso de atenção poderia matá-la. Ele não dissera uma palavra a Miranda sobre Conway’s Daughter e Air Dance, embora ela tivesse ficado louca de curiosidade. Mas Susan era diferente. Miranda ficava sempre sondando-a, e suas perguntas pareciam mais um interrogatório.

— Deixe-me pensar como explicar — disse ele.

— Pode me beijar enquanto pensa? — ela perguntou, deitando na grama. Ele foi obrigado a notar como a saia dela era curta, e agora subira ainda mais.

— Acho que vai interferir no meu raciocínio — disse ele, suavemente. — Vamos ver.

Ele se inclinou e a beijou, apoiando a mão de leve em sua cintura. Ela se entregou ao beijo, fechando as mãos sobre as dele. Ele sentiu a língua dela pela primeira vez, e a envolveu com a sua. Ela mudou de posição para se oferecer mais ao beijo, e o roçar suave do algodão de sua saia era quase enlouquecedor.

Ele deslizou a mão para cima, e ela arqueou as costas, oferecendo-lhe o seio macio e cheio. Pela segunda vez desde que a conhecera, ele se sentia um impetuoso rapaz de 16 anos, com o mundo diante de si, nenhum obstáculo à frente.

— Ben?

— Sim.

— Faça amor comigo. Você quer?

— Eu quero.

— Aqui na grama — disse ela.

— Sim.

Ela olhava para ele, os olhos largos e escuros.

— Faça ser bom.

— Vou tentar.

— Devagar — disse ela. — Devagar. Aqui...

Eles se tornaram sombras na escuridão.

— Aí — disse ele. — Ah, Susan...

 

3

 

Eles andaram pelo parque, primeiro sem destino, depois com mais resolução em direção à rua Brock.

— Está arrependida? — perguntou ele.

Ela olhou para ele e sorriu, sem artifícios.

— Não. Estou contente.

— Que bom.

Eles andaram de mãos dadas, em silêncio.

— E o livro? — perguntou ela. — Você ia me falar sobre o livro quando fomos tão docemente interrompidos.

— O livro é sobre a Casa Marsten — disse ele, lentamente. — No começo, não era para ser, não totalmente. Achei que seria sobre a cidade. Mas acho que estou me enganando. Pesquisei Hubie Marsten, sabe. Ele era um mafioso. A transportadora era só uma fachada.

Ela o olhou, surpresa.

— Como descobriu?

— Uma parte com a polícia de Boston e o resto com uma mulher chamada Minella Corey, a irmã de Birdie Marsten. Está com 79 anos. Não se lembra do que comeu no café da manhã, mas nunca se esqueceu de uma coisa que aconteceu antes de 1940.

— E ela lhe contou...

— Tudo o que sabia. Está numa casa de repouso em New Hampshire, e acho que fazia anos que ninguém se dava ao trabalho de ouvi-la. Perguntei se Hubert Marsten fora mesmo um assassino profissional na região de Boston, como a polícia acreditava, e ela fez que sim. “Quantos ele matou?”, perguntei. Ela levantou os dedos na frente do rosto e os balançou de um lado para outro e disse: “Quantas vezes consegue contar meus dedos?”

— Meu Deus.

— A organização em Boston começou a ficar muito apreensiva com Hubert Marsten em 1927 — continuou Ben. — Ele foi interrogado duas vezes, uma pela polícia municipal e outra pela polícia de Malden. O caso em Boston era um assassinato no submundo do crime, e ele foi solto depois de duas horas. Mas o caso em Malden não fora um acerto de contas. Um menino de 11 anos fora assassinado e eviscerado.

— Ben... — disse ela, com a voz nauseada.

— Os chefes de Marsten livraram a pele dele, provavelmente porque ele sabia onde alguns corpos haviam sido enterrados, mas estava acabado em Boston. Mudou-se discretamente para ’salem’s Lot, parecendo ser apenas um executivo aposentado que recebia um cheque todo mês. Não saía muito de casa. Pelo menos até onde sabemos.

— Como assim?

— Passei muito tempo na biblioteca, consultando números antigos do Ledger, de 1928 a 1939. Quatro crianças desapareceram nesse período. Isso não é muito raro numa zona rural. Muitas crianças se perdem e às vezes morrem de frio. Ou são soterradas em algum deslizamento numa pedreira. É horrível, mas acontece.

— Mas você não acha que foi isso que aconteceu.

— Não sei. Mas sei que nenhuma das quatro crianças jamais foi encontrada. Nenhum esqueleto nunca foi encontrado por caçadores nem por pedreiros pegando cascalho para fazer cimento. Hubert e Birdie moraram naquela casa durante 11 anos e as crianças desapareceram. É tudo que se sabe. Mas fico pensando naquele menino de Malden. Penso muito. Você conhece o livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson?

— Conheço.

— “E o que por lá andasse, andava só.” Você perguntou sobre o que é meu livro. Basicamente, é sobre o poder recorrente do mal.

Ela apoiou a mão no braço dele.

— Você não acha que Ralphie Glick...

— Foi engolido pelo espírito vingativo de Hubert Marsten, que volta à vida a cada três anos na lua cheia?

— Algo assim.

— Está falando com a pessoa errada, se quer ser tranquilizada. Lembre-se de que eu fui a criança que abriu uma porta no andar de cima e o viu pendurado numa viga.

— Isso não foi uma resposta.

— Tem razão. Deixe-me contar mais uma coisa antes de lhe dizer exatamente o que penso. Minella Corey disse que havia homens maus no mundo, maus de verdade. Às vezes ouvimos falar deles, mas geralmente eles agem em total anonimato. Disse que fora condenada a conhecer dois homens assim em sua vida. Um era Adolf Hitler. O outro era seu cunhado, Hubert Marsten. — Ele fez uma pausa. — Ela disse que no dia em que Hubie matou sua irmã, ela estava a 500 quilômetros de distância, em Cape Cod. Trabalhava como governanta para uma família rica naquele verão. Às duas e quinze da tarde, ela preparava uma salada numa grande vasilha de madeira. Uma dor aguda, “como um raio”, disse ela, atravessou sua cabeça, e ela ouviu um tiro. E desmaiou. Quando voltou a se levantar sozinha (não tinha mais ninguém na casa), vinte minutos haviam se passado. Olhou para a vasilha de madeira e gritou. Parecia que estava cheia de sangue.

— Meu Deus — murmurou Susan.

— Um instante depois, tudo estava normal de novo. A dor tinha passado, não havia nada na vasilha além da salada. Mas ela disse que tinha certeza de que a irmã estava morta, assassinada com um tiro.

— É a versão dela?

— Não foi comprovada, mas ela não é uma loroteira. É uma velha que não tem mais cabeça nem para mentir. Mas essa parte não me incomoda. Não muito, pelo menos. Hoje existem muitos dados sobre poderes extrassensoriais, que as pessoas racionais podem desprezar, se quiserem. É mais fácil para mim acreditar que Birdie tenha comunicado sua morte a uma distância de 500 quilômetros por um telégrafo psíquico do que acreditar na face do mal, essa face monstruosa, que às vezes penso ver entre os contornos daquela casa.

“Você me perguntou o que acho. Vou lhe dizer. Acho que é relativamente fácil para as pessoas aceitarem coisas na telepatia e na parapsicologia, porque não lhes custa nada. Não lhes tira o sono à noite. Mas a ideia de que um homem pode morrer e deixar o mal como legado é muito mais perturbadora.”

Ele olhou para a Casa Marsten e falou lentamente.

— Acho que aquela casa pode ser o monumento ao mal deixado por Hubert Marsten, uma caixa de ressonância psíquica. Ou um farol guiando o sobrenatural. Talvez guardando, durante todos esses anos, a essência do mal que Hubie deixou em seus alicerces velhos e decrépitos.

— E agora voltou a ser ocupada.

— E outra criança desapareceu. — Ele se virou e segurou o rosto de Susan entre as mãos. — Não tinha contado com isso quando voltei para cá, entende? Achei até que a casa tivesse sido derrubada, mas nunca imaginei que alguém a compraria. Pensei em alugá-la e... sei lá, confrontar meus velhos medos. Dar uma de exorcista, talvez. “Desapareça em nome de todos os santos, Hubie.” Ou talvez só absorver a atmosfera do lugar e escrever um livro assustador a ponto de me render um milhão de dólares. Mas, seja como for, eu sentia que tinha controle da situação, e isso faria toda a diferença. Eu não era mais um menino de nove anos, que sairia correndo aos berros de uma imagem que talvez só tenha existido na minha imaginação. Mas agora...

— O quê, Ben?

— Agora a casa está ocupada! — ele exclamou, batendo com o punho na mão. — Não estou mais no controle da situação. Um menino desapareceu, e não sei o que pensar disto. Pode não ter nada a ver com a casa, mas... Eu não acredito. — As últimas palavras saíram a intervalos tensos.

— Está falando de fantasmas? Espíritos?

— Não necessariamente. Talvez um cara inofensivo, que admirava a casa quando criança, resolveu comprá-la e ficou... possuído.

— Você sabe alguma coisa sobre... — ela começou, alarmada.

— O novo morador? Não. Estou só supondo. Mas, se a casa estiver por trás de tudo isso, eu quase prefiro que seja possessão e não outra coisa.

— O quê?

— A casa pode ter chamado outro homem maligno — disse ele simplesmente.

 

4

 

Ann Norton olhava pela janela. Já havia ligado para a drogaria. Não, dissera a Srta. Coogan, quase com satisfação. Eles não haviam estado lá.

Onde você está, Susan? Onde?

Sua boca se curvou numa expressão de impotência.

Vá embora, Ben Mears. Vá embora e deixe-a em paz.

 

5

 

Quando deixou os braços dele, ela disse:

— Faça algo importante por mim, Ben.

— Tudo que eu puder.

— Não mencione o que me disse para ninguém na cidade. Ninguém.

Ele abriu um sorriso triste.

— Não se preocupe. Não quero que as pessoas comecem a achar que fiquei biruta.

— Você tranca seu quarto na pensão?

— Não.

— Eu trancaria. — Ela o olhou com seriedade. — Precisa lembrar que está sob suspeita.

— De sua parte também?

— Estaria, se eu não te amasse.

E então ela se afastou rapidamente em direção à estrada, deixando-o a olhá-la, espantado com tudo que dissera e mais espantado ainda com as cinco ou seis palavras que ela lhe dissera no final.

 

6

 

De volta à pensão, ele se deu conta de que não conseguiria nem escrever nem dormir. Estava agitado demais. Então entrou no Citroën e, após um instante de indecisão, partiu em direção ao Dell’s.

O bar estava lotado, barulhento e enfumaçado. Uma banda de música country chamada The Rangers tocava uma versão de “You’ve never been this far before”, que compensava em volume o que perdia em qualidade. Uns quarenta casais giravam pelo salão, a maioria usando jeans. Ben sorriu, lembrando da dança que Edward Albee inventara em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?.

Os bancos na frente do balcão eram ocupados por pedreiros e operários da fábrica, todos bebendo copos idênticos de cerveja e usando botas de trabalho idênticas, amarradas com couro cru.

Duas ou três garçonetes, com penteados bufantes e os nomes bordados com linha dourada nas blusas brancas (Jackie, Toni, Shirley), circulavam entre as mesas e reservados. Atrás do balcão, Dell tirava cerveja, e no outro lado, um homem parecido com um falcão, brilhantina no cabelo, preparava drinques. Seu rosto permanecia inalterável enquanto media as bebidas em copos de dose, jogava-as na coqueteleira prateada e adicionava os outros ingredientes.

Ben andava em direção ao balcão, contornando a pista de dança, quando alguém o chamou.

— Ben! Você por aqui! Tudo certo, amigo?

Ben olhou ao redor e viu Weasel Craig sentado a uma mesa perto do balcão, segurando uma cerveja pela metade.

— Oi, Weasel — disse Ben, sentando-se. Sentiu alívio ao ver um rosto conhecido, e gostava de Weasel.

— Decidiu curtir um pouco a noite, amigo? — Weasel sorriu e lhe deu um tapa no ombro. “O cheque dele deve ter saído”, pensou Ben. Só seu bafo era capaz de levar Milwaukee para os noticiários.

— Pois é — disse Ben. Tirou um dólar do bolso e o colocou sobre a mesa, coberta com os vestígios circulares dos muitos copos de cerveja que haviam estado lá. — E aí, tudo bem?

— Tudo ótimo. O que está achando desse conjunto novo? Bom, não?

— É razoável — disse Ben. — Termine logo essa cerveja antes que esquente. Hoje é por minha conta.

— Estou esperando alguém dizer isso a noite toda. Jackie! — ele berrou. — Traga uma jarra para o meu amigo aqui. Budweiser!

Jackie trouxe a jarra numa bandeja coberta de moedas molhadas de cerveja e a colocou sobre a mesa, seu braço direito se dilatando como o de um lutador. Olhou para o dólar como se fosse uma nova espécie de barata.

— Custa um dólar e quarenta — disse ela.

Bill colocou outra nota sobre a mesa. Ela pegou as duas, pescou sessenta centavos em meio às poças da bandeja, colocou as moedas na mesa e disse:

— Weasel Craig, quando você grita daquele jeito, parece que alguém está torcendo o pescoço de um galo.

— Você é uma graça, amor — disse Weasel. — Este é Ben Mears. É escritor.

— Prazer — disse Jackie, e desapareceu nas sombras do bar.

Ben encheu um copo e Weasel fez o mesmo, enchendo o seu profissionalmente até o topo. A espuma ameaçou transbordar e depois recuou.

— A sua saúde, amigo.

Ben ergueu o copo e bebeu.

— E então, como vai o livro?

— Vai indo, Weasel.

— Vi você com a filha dos Norton. Ela é uma uva. Você não podia ter escolhido melhor.

— É, ela...

— Matt! — berrou Weasel, quase fazendo Ben derrubar seu copo. Nossa, pensou. Ele parece mesmo um galo sendo esganado.

— Matt Burke! — Weasel acenava freneticamente, e um homem de cabelos brancos cumprimentou-o com um aceno e abriu caminho entre a multidão.

— Você precisa conhecer o Matt — Weasel disse a Ben. — É um sujeito inteligente.

O homem que se aproximava parecia ter cerca de sessenta anos. Era alto, usava uma camisa de flanela limpa aberta no pescoço, e seu cabelo, branco como o de Weasel, tinha corte à escovinha.

— Olá, Weasel — disse ele.

— Tudo bem, amigo? — Weasel disse. — Quero te apresentar Ben Mears, que está hospedado na Eva. Ele é escritor, um sujeito muito decente. — Olhou para Ben. — Matt e eu crescemos juntos, só que ele pegou um diploma e eu peguei a enxada. — Weasel deu uma risada estridente.

Ben se levantou e apertou a mão de Matt Burke calorosamente.

— Como vai?

— Bem, obrigado. Li um de seus livros, Sr. Mears. Air Dance.

— Pode me chamar de Ben. Espero que tenha gostado.

— Gostei muito mais do que os críticos, ao que parece — disse Matt, sentando-se. — Mas acho que vai ganhar espaço com o tempo. Como vão as coisas, Weasel?

— Uma beleza. Não podiam estar melhores. Jackie! — berrou ele. — Traga um copo para o Matt!

— Espere um pouco, velho maluco! — gritou Jackie, provocando risos nas mesas próximas.

— Ela é um doce de menina — disse Weasel. — Filha da Maureen Talbot.

— Eu sei — disse Matt. — Ela foi minha aluna na turma de 71. A mãe dela era da turma de 51.

— Matt ensina inglês e literatura no colégio — Weasel disse a Ben. — Vocês dois devem ter muito o que conversar.

— Lembro de uma garota chamada Maureen Talbot — disse Ben. — Ela buscava a roupa lavada da minha tia e a trazia passada numa cesta de vime. A cesta só tinha uma alça.

— Então você é daqui, Ben? — perguntou Matt.

— Passei alguns anos aqui na infância. Com minha tia Cynthia.

— Cindy Stowens?

— Ela mesma.

Jackie voltou com um copo limpo e Matt o encheu.

— Como o mundo é pequeno. Sua tia estava no último ano quando comecei a ensinar em ’salem’s Lot. Como ela está?

— Morreu em 1972.

— Sinto saber.

— Ela teve uma morte muito tranquila — disse Ben, voltando a encher o copo. A banda terminara de tocar, e os membros marchavam em direção ao bar. O volume das vozes baixou um pouco.

— Você veio a Jerusalem’s Lot para escrever um livro sobre nós? — perguntou Matt.

Um alarme soou na cabeça de Ben.

— De certo modo — disse ele.

— Esta cidade conseguiu um cronista melhor do que merece. Air Dance é um belo livro. Acho que pode haver outro belo livro nesta cidade. Um dia pensei em escrevê-lo.

— Por que não o escreveu?

Matt sorriu, um sorriso tranquilo, sem amargura, cinismo ou malícia.

— Me faltou um ingrediente vital. Talento.

— Não acredite nele — disse Weasel, enchendo o copo com a espuma que restara na jarra. — O velho Matt tem talento para dar e vender. Ensinar é um trabalho maravilhoso. Ninguém dá valor aos professores, mas eles são... — Ele balançou um pouco na cadeira, buscando um final para a frase. Estava ficando muito bêbado. — O sal da terra — completou. Deu um grande gole na cerveja, fez uma careta e se ergueu. — Com a licença de vocês, vou mijar.

Ele se afastou, esbarrando nas pessoas e saudando-as pelo nome. Elas o deixavam passar com impaciência ou bom humor, e sua trajetória até o banheiro era como a de uma bola de fliperama descendo e se debatendo em direção aos botões da máquina.

— Lá vai o que restou de um bom homem — disse Matt, e levantou um dedo. Uma garçonete apareceu imediatamente e o tratou como Sr. Burke. Parecia um pouco escandalizada ao ver seu velho professor de literatura inglesa bebendo com gente como Weasel Craig. Quando ela se afastou para buscar outra jarra, Ben achou Matt um pouco absorto.

— Gosto de Weasel — disse Ben. — Tenho a sensação de que ele já teve muito potencial. O que aconteceu?

— Ah, não tem muito o que contar — disse Matt. — A garrafa tomou conta dele. Foi tomando mais a cada ano e agora o domina totalmente. Ganhou uma medalha por bravura na Segunda Guerra. Um cínico diria que sua vida teria sido mais significativa se ele tivesse morrido lá.

— Não sou um cínico — disse Ben. — E gosto dele assim mesmo. Mas acho melhor levá-lo para casa hoje.

— Seria uma boa ação. Venho aqui de vez em quando para ouvir música. Gosto de música alta. Mais ainda depois que comecei a ouvir mal. Soube que você está interessado na Casa Marsten. Seu livro é sobre ela?

Ben deu um salto na cadeira.

— Quem lhe disse isso?

Matt sorriu.

— Como é mesmo aquela velha música de Marvin Gaye? “I Heard it Trought the Grapevine”, uma expressão sedutora, viva, mas a imagem é um pouco obscura, pensando bem. Faz pensar num homem com o ouvido colado a uma garrafa de Concord ou Tokay... Estou divagando. Tenho divagado muito ultimamente, mas não tento mais evitar. Soube através do que a imprensa chamaria de “fonte informada”. Loretta Starcher, a guardiã de nossa cidadela de livros. Você esteve na biblioteca várias vezes para consultar artigos do Ledger de Cumberland relativos ao antigo escândalo, e ela também buscou para você dois livros com artigos sobre crimes. A propósito, o de Lubert é bom. Ele veio a Lot fazer uma pesquisa em 1946, mas o capítulo sobre Snow não passa de especulação.

— Eu sei — disse Ben, mecanicamente.

A garçonete trouxe uma nova jarra de cerveja, e Ben subitamente teve uma visão incômoda: um peixe nada livre e sem obstáculos, pairando sobre as algas e o plâncton. Mas, de longe, o quadro se revela — é um peixe num aquário.

Matt pagou a garçonete e disse:

— Foi horrível o que aconteceu lá. Ficou no inconsciente da cidade. É claro que histórias de maldades e assassinatos são sempre passadas com deleite mórbido de uma geração a outra, enquanto os alunos reclamam quando precisam ler um George Washington Carver ou um Jonas Salk. Mas acho que é mais do que isso. Talvez se deva a uma excentricidade geográfica.

— É verdade — disse Ben, atraído a contragosto. O professor acabava de formular uma ideia que o assediava desde o dia em que chegara à cidade, talvez até mesmo antes. — Ela fica naquele monte, olhando para a cidade como... como uma espécie de ídolo sinistro. — Ele riu para que a comparação parecesse trivial. Temia ter dito algo muito íntimo e revelador sem refletir, abrindo uma fresta de sua alma a um estranho. E o súbito olhar atento que Matt Burke lhe dirigiu não colaborou para que se sentisse melhor.

— Isso é talento — disse ele.

— Como?

— Você usou a expressão exata. A Casa Marsten nos contempla há quase cinquenta anos, testemunha de todos os nossos pequenos pecados e mentiras. Como um ídolo.

— Talvez tenha visto coisas boas também.

— O bem é escasso em cidadezinhas sedentárias. O que predomina é indiferença temperada com uma pitada de maldade inconsciente, ou pior, consciente. O tema rendeu a Thomas Wolfe boas páginas de literatura.

— Pensei que não fosse cínico.

— Você disse que não era, não eu.

Matt sorriu e bebericou a cerveja. A banda começou a deixar o balcão, com as camisas vermelhas, os coletes e lenços de pescoço reluzindo. O cantor pegou o violão e começou a afiná-lo.

— Ainda não respondeu à minha pergunta. Seu novo livro é sobre a Casa Marsten?

— É, de certo modo.

— Estou sendo indiscreto. Desculpe.

— Não tem problema — disse Ben, pensando em Susan e se sentindo um pouco culpado. — Por que será que Weasel está demorando? Faz tempo que ele foi ao banheiro.

— Posso abusar de nossa pequena amizade e pedir um grande favor? Se recusar, entenderei perfeitamente.

— Claro, pode pedir.

— Dou aula de redação para uma turma — disse Matt. — São crianças inteligentes, que estão terminando o ensino médio, e gostaria de lhes apresentar alguém que ganha a vida escrevendo. Alguém que, como direi?, transformou o verbo em carne.

— Será um prazer — disse Ben, sentindo-se absurdamente lisonjeado. — Quanto tempo dura a aula?

— Cinquenta minutos.

— Acho que não conseguirei entediá-los nesse espaço de tempo.

— Não? Eu consigo muito bem — disse Matt. — Mas tenho certeza de que você não irá entediá-los. Semana que vem?

— É só falar o dia e a hora.

— Terça, na quarta aula? Vai das onze até o meio-dia. Ninguém vai vaiá-lo, mas você ouvirá vários estômagos roncando.

— Levarei algodão para os ouvidos.

Matt riu.

— Fico muito contente. Posso encontrá-lo na secretaria, se preferir.

— Ótimo. Você...

— Sr. Burke? — Era Jackie, dos bíceps musculosos. — Weasel desmaiou no banheiro masculino. O senhor poderia...

— Meu Deus. Ben, vamos até lá?

— Claro.

Eles levantaram e atravessaram o salão. A banda recomeçara a tocar, uma música sobre como os garotos de Muskogee ainda respeitavam o reitor da faculdade.

O banheiro cheirava a urina e cloro. Weasel estava escorado contra a parede entre dois mictórios, e um sujeito de uniforme do exército mijava a cinco centímetros de sua orelha direita.

Sua boca estava aberta, e Ben reparou como ele parecia terrivelmente velho, velho e devastado por forças frias e impiedosas. A consciência de sua própria dissolução, que avançava a cada dia, veio-lhe de repente — não pela primeira vez, mas de modo chocante e inesperado. A piedade que lhe invadiu como águas turvas era tanto por ele mesmo como por Weasel.

— Pode passar o braço debaixo dele quando esse cavalheiro terminar de se aliviar? — disse Matt.

— Claro — disse Ben. Olhou para o homem de uniforme do exército, que sacudia as últimas gotas calmamente. — Dá para ir mais rápido, amigo?

— Para quê? Ele não está com pressa.

Assim mesmo, ele subiu o zíper e se afastou do mictório para que eles pudessem se aproximar.

Ben colocou o braço sob as costas de Weasel, segurou-o pela axila e o levantou. Pressionou o corpo contra a parede de azulejos e sentiu as pulsações do som da banda. Weasel, totalmente inconsciente, deixou-se suspender como um saco de farinha. Matt passou o outro braço de Weasel sobre os ombros, abraçou-o pela cintura e os dois o carregaram para fora.

— Lá vai o Weasel — alguém disse, e outros riram.

— Dell devia parar de servi-lo — disse Matt, ofegante. — Sabe como isso sempre termina.

Eles saíram até o vestíbulo e desceram os degraus de madeira que levavam ao estacionamento.

— Devagar — grunhiu Ben. — Não o derrube.

Desceram a escada, os pés inertes de Weasel se arrastando nos degraus como blocos de madeira.

— É o Citroën... na última fileira.

Eles o arrastaram até lá. O ar da noite estava mais cortante agora, e no dia seguinte as folhas sangrariam. Weasel começara a gemer fracamente, balançando a cabeça sobre o pescoço fino.

— Você consegue levá-lo para a cama quando chegarem na Eva? — perguntou Matt.

— Acho que sim.

— Ótimo. Olhe, dá para ver o telhado da Casa Marsten além das árvores.

Ben olhou. Matt tinha razão: o ângulo superior mal se deixava ver sobre o horizonte escuro do pinheiral, ocultando as estrelas na orla do mundo com a regularidade das obras humanas. Ben abriu a porta do passageiro e disse:

— Pronto, passe-o para mim.

Ben pegou o corpo pesado de Weasel, estendeu-o cuidadosamente no banco do passageiro e fechou a porta. A cabeça de Weasel rolou contra a janela, achatando-se de modo grotesco.

— Terça às onze?

— Pode contar comigo.

— Obrigado. E obrigado também por ajudar o Weasel. — Ele estendeu a mão e Ben a apertou.

Ele entrou, deu partida no Citroën e foi em direção à cidade. Depois que o luminoso do bar desapareceu atrás das árvores, a estrada ficou deserta e escura, e Ben pensou: essas estradas estão assombradas agora.

Weasel soltou um ronco e um gemido no banco de trás e Ben deu um salto, perdendo por um breve instante o controle do carro.

Por que fui pensar aquilo?

Nenhuma resposta.

 

7

 

Ele abriu a janela de trás, para que o vento entrasse em cheio sobre Weasel, e quando parou no pátio de entrada da pensão, ele já atingira um estado de semiconsciência.

Ben o arrastou, meio aos tropeções, pela escada da varanda traseira e depois até a cozinha, fracamente iluminada pela luz do fogão.

Weasel gemeu e depois murmurou:

— Ela é um amor de garota, Jack, e as mulheres casadas sabem...

Uma sombra emergiu do corredor. Era Eva, imensa num velho penhoar acolchoado, os cabelos presos com bobes e cobertos com uma rede. O creme de beleza tornava seu rosto pálido e espectral.

— Ed — disse ela. — Ed... você não toma jeito, não?

Ele abriu um pouco os olhos ao som da voz dela, e esboçou um sorriso.

— Não tomo mesmo — balbuciou. — E você sabe melhor do que ninguém.

— Você consegue levá-lo até o quarto? — ela perguntou a Ben.

— Claro, sem problemas.

Ele apertou Weasel mais forte e arrastou-o escada acima e depois até o quarto. A porta estava destrancada, e ele o levou para dentro. Assim que o deitou na cama, os sinais de consciência cessaram e ele mergulhou num sono profundo.

Ben fez uma pausa e olhou ao redor. O quarto era limpo, quase asséptico, os objetos guardados com organização militar. Quando começou a desamarrar os sapatos de Weasel, Eva Miller disse da porta:

— Pode deixar, Sr. Mears. Pode subir, se quiser.

— Mas ele precisa...

— Eu tiro as roupas dele. — Seu rosto expressava uma tristeza digna e comedida. — E vou esfregar álcool em seu corpo para aliviar a ressaca de amanhã. Já fiz isso antes, várias vezes.

— Está certo — disse Ben, e subiu sem olhar para trás. Despiu-se lentamente, pensou em tomar um banho mas mudou de ideia. Deitou na cama e ficou olhando para o teto durante muito tempo, sem conseguir dormir.