'Salem

Stephen King · Capítulo 19 de 22 · parte 1/4

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'Salem

Capítulo Catorze – A CIDADE (IV)

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Capítulo Catorze

 

A CIDADE (IV)

 

Capítulo Catorze – A CIDADE (IV)

 

1

 

Do “Almanaque do Velho Lavrador”:

Domingo, 5 de outubro de 1975: pôr do sol às 19h02. Segunda-feira, 6 de outubro de 1975: nascer do sol às 6h49. A noite em Jerusalem’s Lot durante aquela específica rotação da Terra, 13 dias após o equinócio vernal, durou 11 horas e 47 minutos. Era lua nova. A frase do dia do Velho Lavrador era: “O dia dura menos, a colheita está perto do fim.”

Da Estação Meteorológica de Portland:

A temperatura máxima no período noturno foi de 16 graus, registrada às 19h05. Mínima de 8 graus, registrada às 4h06. Nuvens esparsas, índice pluviométrico, zero. Ventos de noroeste de 8 a 15 quilômetros por hora.

Do registro da polícia do Condado de Cumberland:

Nada.

 

2

 

Ninguém decretou a morte de Jerusalem’s Lot na manhã de 6 de outubro. Ninguém sabia que a cidade estava morta. Como os corpos dos dias anteriores, ela ainda parecia viver.

Ruthie Crockett, que passara o fim de semana na cama, doente e pálida, sumiu na manhã de segunda. Ninguém comunicou o desaparecimento. Sua mãe estava no porão, deitada atrás do armário de conservas, com um encerado de lona sobre o corpo, e Larry Crockett, que acordou muito tarde, simplesmente supôs que a filha tivesse ido para a escola. Decidiu não ir para o escritório naquele dia. Sentia-se fraco, aéreo e exausto. Devia ser uma gripe. Seus olhos ardiam na luz. Ele levantou e puxou as cortinas, dando um grito quando o sol incidiu diretamente sobre seu braço. Precisava trocar aquela janela quando melhorasse. Vidraças defeituosas não eram brincadeira. Um cidadão pode chegar em casa num belo dia de sol, encontrar a casa pegando fogo e ouvir dos pilantras da seguradora que foi combustão espontânea e não receber um tostão. Mas esperaria até melhorar. Pensou numa xícara de café e sentiu o estômago virar. Estranhou vagamente a ausência da esposa, mas logo depois esqueceu. Voltou para a cama, passando o dedo num estranho corte de navalha bem abaixo do maxilar, puxou o lençol sobre o rosto pálido e voltou a dormir.

Sua filha, enquanto isso, dormia ao lado de Dud Rogers na escuridão esmaltada de um freezer abandonado. No mundo sombrio de sua nova existência, ela achava as investidas do corcunda, em meio aos montes altos de lixo, bastante aceitáveis.

Loretta Starcher, a bibliotecária, também desaparecera, embora não houvesse ninguém na vida da solteirona que notasse o fato. Ela agora residia no escuro e mofado terceiro andar da Biblioteca Pública de Jerusalem’s Lot. O terceiro andar ficava sempre trancado (ela era a única que tinha as chaves, que levava numa corrente pendurada ao pescoço), exceto quando alguém especial conseguia convencê-la de que tinha inteligência e moral fortes o bastante para receber uma autorização especial.

Agora ela mesma se fechara lá, um outro tipo de primeira edição, pura como quando viera ao mundo. Sua encadernação, digamos, nunca fora tocada.

O desaparecimento de Virgil Rathbun também passou despercebido. Franklin Bokkin acordou no barraco que dividiam às nove horas, viu que o colchão de palha de Virgil estava vazio e, sem dar importância ao fato, levantou e foi procurar uma cerveja. Mas caiu de costas, com as pernas moles, a cabeça girando.

Nossa, pensou, voltando a cair no sono. O que a gente bebeu ontem? Querosene?

E, debaixo do barraco, no frescor das folhas de outono e entre uma galáxia de latas de cerveja jogadas pelas tábuas do piso da sala, Virgil esperava pelo anoitecer. Sua mente argilosa talvez ansiasse por um líquido mais ardente do que o melhor uísque, mais reconfortante do que o melhor vinho.

Eva Miller notou a ausência de Weasel Craig no café da manhã, mas não se importou. Estava ocupada supervisionando a refeição matinal de seus inquilinos, que engoliam a comida e saíam para encarar mais uma semana de trabalho. Em seguida precisou arrumar a cozinha e lavar os pratos do maldito Grover Verrill e do imprestável Mickey Sylvester, que faziam questão de ignorar o cartaz escrito “Favor lavar a louça que sujar” pregado sobre a pia havia anos.

Mas, quando o silêncio voltou a impregnar o dia e a atividade frenética do café da manhã deu lugar à rotina das tarefas habituais, Eva voltou a sentir falta de Weasel. Segunda-feira era o dia em que o caminhão de lixo passava na rua da Ferrovia, e ele sempre levava os grandes sacos verdes de lixo até a sarjeta para que Royal Snow os colocasse em seu velho e arruinado caminhão International Harvester. Naquele dia, os sacos verdes continuavam sobre a escadinha que dava para o quintal.

Ela subiu até o quarto dele e bateu na porta de leve.

— Ed?

Não houve resposta. Se fosse outro dia, ela concluiria que ele estava bêbado e levaria o lixo para fora sozinha, apertando os lábios mais do que o normal. Mas naquela manhã uma apreensão a tomou, e ela girou a maçaneta e introduziu a cabeça pela fresta da porta.

— Ed? — chamou ela.

Não havia ninguém no quarto. A janela ao lado da cama estava aberta, as cortinas balançando ao sabor da brisa. A cama estava desfeita, e ela a arrumou automaticamente. Ao contornar a cama, pisou em algo. Olhou para baixo e viu o espelho de Weasel com cabo de chifre espatifado no chão. Apanhou-o e o examinou, franzindo a testa. O espelho pertencera à mãe de Weasel. Certa vez ele se recusara a vendê-lo por dez dólares a um antiquário. E já bebia nessa época.

Ela buscou a pá de lixo no armário do corredor e recolheu os cacos do espelho com gestos lentos e pensativos. Sabia que Weasel fora dormir sóbrio na noite anterior, e não havia onde comprar cerveja depois das nove horas, a não ser que ele tivesse ido de carona ao Dell’s ou a Cumberland.

Ela jogou os fragmentos do espelho na lixeira de Weasel, vendo seu próprio reflexo multiplicar-se nos cacos por um breve segundo. Revistou a lixeira, mas não viu nenhuma garrafa vazia. De qualquer modo, beber escondido não era o estilo de Ed Craig.

Bom, uma hora ele aparece.

Mas, quando ela desceu, a preocupação a acompanhou. Sem admitir conscientemente, ela sabia que o que sentia por Weasel ia um pouco além da amizade.

— Senhora?

Arrancada do devaneio, ela olhou para o estranho que entrara na cozinha. Era um menino, bem-vestido, com calças de veludo cotelê e camiseta azul limpinha. Parece que caiu da bicicleta. Achou que já o conhecia, mas não sabia de onde. Devia ser de uma das famílias que haviam se mudado recentemente para a avenida Jointner.

— O Sr. Ben Mears mora aqui?

Eva ia lhe perguntar por que não estava na escola, mas desistiu. A expressão do menino era muito séria, chegava a ser grave. Notou que ele estava com olheiras.

— Está dormindo.

— Posso esperar?

Homer McCaslin fora diretamente da funerária de Green para a casa dos Norton na rua Brock. Já eram 11 horas quando chegou. A Sra. Norton estava em prantos. Bill Norton aparentava calma, mas fumava um cigarro atrás do outro e tinha o rosto abatido.

McCaslin disse que divulgaria a descrição de Susan pelo rádio. Sim, avisaria assim que tivesse alguma notícia. Sim, ligaria para todos os hospitais da região, fazia parte da rotina (assim como ligar para o necrotério). Em segredo, concluiu que a moça fugira de casa. A mãe confessara que haviam brigado e que ela vinha falando em se mudar.

Por via das dúvidas, ele patrulhou algumas ruas secundárias, atento ao ruído da estática que vinha do rádio acoplado sob o painel. Alguns minutos depois da meia-noite, quando subia a via Brooks em direção à cidade, o refletor que ele dirigira para o acostamento da estrada produziu um lampejo metálico — era um carro estacionado na floresta.

Ele parou, deu ré, saiu. O carro estava estacionado numa velha estrada desativada. Um Chevy Vega novo, marrom-claro. McCaslin puxou a volumosa caderneta do bolso de trás, virou a página com o interrogatório de Ben e Jimmy e dirigiu a lanterna para o número da placa que a Sra. Norton lhe passara. Correspondia. Era o carro da moça. Isso tornava a situação mais séria. Apoiou a mão sobre o capô. Estava frio. Fazia tempo que estava parado.

— Xerife?

Uma voz leve, despreocupada, melodiosa. Por que, então, ele levou a mão à coronha da arma?

Ele se virou e deu com Susan Norton, incrivelmente bela, que andava em sua direção de mãos dadas com um estranho — um rapaz de cabelos pretos penteados para trás num estilo fora de moda. McCaslin dirigiu a lanterna para o rosto dele e teve a estranha impressão de que a luz o atravessava sem iluminá-lo. Além disso, quando andavam, eles não deixavam pegadas na terra macia. O medo se espalhou por cada nervo de seu corpo, sua mão apertou mais forte a arma... mas depois relaxou. Ele desligou a lanterna e esperou passivamente.

— Xerife — disse ela, a voz agora baixa e acariciante.

— É muita gentileza sua ter vindo — disse o estranho.

E eles o cercaram.

O carro-patrulha agora jazia no mato alto da trilha sem saída em que acabava a via Deep Cut, sem que o menor lampejo de cromo fosse visível por entre os ramos densos de árvores, samambaias e arbustos. McCaslin estava encolhido no porta-malas. O rádio o chamava a intervalos irregulares, em vão.

Naquela mesma madrugada, Susan fez uma breve visita à mãe, mas sem fazer muito estrago. Como uma sanguessuga que já encontrara sua presa, estava saciada. Mesmo assim, ela fora convidada para entrar, e podia voltar quando quisesse. Sentiria fome de novo naquela noite... e em todas as noites.

Charles Griffen acordou a mulher pouco depois das cinco naquela manhã de segunda, o rosto mal-humorado e sardônico. No pasto, as vacas mugiam, de tetas cheias. Ele resumiu o que acontecera em poucas palavras:

— Os meninos fugiram, desgraçados.

Mas não fora nada daquilo. Danny Glick se alimentara do sangue de Jack Griffen, e este por sua vez fora ao quarto do irmão, Hal, e terminara para sempre com suas angústias escolares. Agora ambos estavam escondidos no meio de uma imensa pilha de feno no celeiro mais afastado, com restos de palha nos cabelos e partículas de pólen dançando nas narinas imóveis e sem alento. Um rato eventualmente passeava sobre seus rostos.

A luz agora inundava a terra, e todas as coisas malignas dormiam. Seria um belo dia de outono, fresco e claro, banhado pelo sol. Aos poucos, a cidade (sem saber que estava morta) começava sua rotina, inconsciente do que se urdira durante a noite. Segundo o Almanaque do Velho Lavrador, anoiteceria na segunda às 19 horas em ponto.

Os dias se encurtavam com a proximidade do Halloween e do inverno, que não tardaria a chegar.

 

3

 

Quando Ben desceu às 8h45, Eva Miller, debruçada na pia, disse-lhe:

— Tem alguém esperando o senhor na varanda.

Ele assentiu e saiu pela porta de trás, ainda de chinelos, esperando ver Susan ou o xerife McCaslin. Mas seu visitante era um menino pequeno e esguio, que esperava sentado no último degrau da varanda, olhando para a cidade, que aos poucos despertava para a segunda-feira.

— Olá — disse Ben, e o menino se voltou rapidamente.

Eles se entreolharam por um breve instante, que para Ben pareceu estranhamente longo, e uma sensação sobrenatural o dominou. Fisicamente, o menino se parecia com ele quando criança, mas não era só isso. Um peso se abateu sobre seus ombros, como se ele pressentisse que suas vidas não haviam se cruzado por acaso. Lembrou do dia em que conhecera Susan no parque, e como a primeira conversa que tiveram, leve e informal, parecera-lhe pesada e cheia de presságios.

Talvez o menino sentisse algo semelhante, pois seus olhos se abriram mais e sua mão segurou a grade da varanda, em busca de apoio.

— Sr. Mears — disse o menino, não em tom de pergunta.

— Sou. Vejo que está em vantagem.

— Eu me chamo Mark Petrie — disse ele. — E tenho más notícias.

Não duvido, pensou Ben, e tentou se preparar mentalmente para o que estava prestes a ouvir. Mesmo assim, a surpresa e o choque o esmagaram.

— Susan Norton agora é um deles — disse o menino. — Barlow a pegou no casarão. Mas eu matei Straker. Pelo menos, é o que eu acho.

Ben tentou dizer algo, mas não conseguiu. Sua garganta estava travada.

O menino assentiu, assumindo a liderança da situação.

— Vamos dar uma volta no seu carro e conversar? Não quero que ninguém me veja por aí. Estou matando aula, e meus pais já estão no meu pé.

Ben disse algo — não sabia bem o quê. Depois do acidente de moto que matara Miranda, ele se levantara do asfalto, abalado mas intacto (exceto por um arranhão no dorso da mão esquerda — era importante lembrar. Medalhas já haviam sido atribuídas por menos do que isso). O motorista do caminhão andara em sua direção, projetando duas sombras sob a luz do poste e dos faróis do caminhão. Era um homem grande, semicalvo, com uma caneta no bolso da camisa branca. “Frank’s Transporta”, estava escrito em letras douradas na caneta, e ele adivinhara que as letras ocultas pelo bolso da camisa eram “dora”. Elementar, meu caro Watson. O motorista lhe dissera algo, ele não lembrava o quê, e depois tomara-lhe o braço delicadamente, tentando tirá-lo dali. Mas ele vira uma das sapatilhas de Miranda perto das rodas traseiras do caminhão e se livrara do motorista. Andara em direção às rodas, mas o homem lhe dissera É melhor não chegar perto, amigo. Ben olhara para ele estupidamente, incólume, exceto pelo arranhão na mão, querendo lhe dizer que cinco minutos antes nada daquilo tinha acontecido, que, num mundo paralelo, ele e Miranda haviam dobrado à esquerda uma quadra antes e avançavam para um futuro inteiramente diferente. Uma multidão se formara, saindo de uma loja de bebidas numa esquina e de uma pequena lanchonete na outra. E ele começara a sentir o que sentia naquele momento: a complexa e terrível interação física e mental que é o começo da aceitação. E a única sensação equivalente era a do estupro. O estômago parece encolher. Os lábios se amortecem. O céu da boca se cobre de uma fina espuma. Os ouvidos zumbem. A pele dos testículos se retesa. A mente se retrai, como diante de uma luz forte e insuportável. Ele afastou mais uma vez o bem-intencionado motorista e apanhou a sapatilha. Virou-a para cima. Colocou a mão em seu interior, que ainda conservava o calor do pé dela. Com a sapatilha na mão, deu mais dois passos e viu as pernas esparramadas sob as rodas da frente do caminhão, vestidas com a calça amarela de brim que ela vestira, risonha e despreocupada, no apartamento. Era impossível acreditar que a mulher que vestira aquelas calças estava morta — e no entanto a aceitação estava lá, em seu estômago, sua boca, seus testículos. Ele gemeu em voz alta, e foi então que o fotógrafo do tabloide tirou a foto para o jornal que Mabel lia. Um pé calçado, um pé descalço. As pessoas olhando como se nunca tivessem visto um pé antes. Ele recuou dois passos, se dobrou e...

— Vou vomitar — disse ele.

— Tudo bem.

Ben foi para trás do Citroën e se dobrou, segurando a maçaneta da porta. Fechou os olhos e a escuridão o envolveu, e na escuridão ele viu o rosto de Susan, olhando e sorrindo para ele com seus lindos olhos profundos. Ele levantou a cabeça. Ocorreu-lhe que o menino poderia estar mentindo, ou confuso, ou podia ser totalmente maluco. Mas essa ideia não lhe trouxe conforto. Ele não passava essa impressão. Ele se voltou e olhou para o rosto do menino, e tudo que viu foi preocupação — nada mais.

— Vamos — disse ele.

O menino entrou no carro e eles partiram. Eva Miller acompanhou a cena da janela da cozinha, a testa franzida. Algo muito ruim estava acontecendo. Ela sabia, sentia, era o mesmo temor obscuro e vago que se apossara dela no dia em que o marido morrera.

Eva se ergueu e ligou para Loretta Starcher. O telefone tocou, sem resposta, e ela o recolocou no gancho. Onde estaria ela? Com certeza não na biblioteca. Não abria às segundas.

Continuou olhando para o telefone, pensativa. Sentia que um grande desastre estava no ar — quem sabe algo tão terrível quanto o incêndio de 1951.

Finalmente, pegou o telefone e ligou para Mabel Werts, que tinha as últimas fofocas da hora e estava louca para ouvir mais. A cidade não via um fim de semana como aquele há anos.

 

4

 

Ben dirigiu a esmo, sem rumo definido, enquanto Mark lhe contava sua história. Contou direitinho, desde a noite em que Danny Glick aparecera em sua janela até a visita espectral daquela madrugada.

— Tem certeza de que era Susan? — perguntou Ben.

Mark Petrie fez que sim.

Ben fez uma abrupta curva de 180 graus e correu pela avenida Jointner em sentido contrário.

— Para onde está indo? Para a...

— Não. Ainda não.

 

5

 

— Espere. Pare.

Ben parou e eles desceram do carro. Vinham lentamente pela via Brooks, na base do monte Marsten. A estrada de terra onde Homer McCaslin avistara o carro de Susan. Ambos viram o reflexo do sol sobre o metal. Subiram em silêncio pela estrada abandonada. O caminho era sulcado por profundas marcas de roda, cercado por grama alta. Ouviram o distante trinado de um pássaro.

Não demoraram a achar o carro.

Ben hesitou e em seguida estacou. Voltou a sentir náuseas. Suava frio.

— Olhe você — disse a Mark.

Mark andou até o carro e se debruçou na janela do motorista.

— As chaves estão aqui — informou.

Ben começou a andar em direção ao carro e chutou um objeto no chão. Olhou para baixo e viu um revólver calibre 38 na poeira do chão. Apanhou-o e o examinou. Parecia-se muito com um revólver policial.

— De quem será? — perguntou Mark, aproximando-se com as chaves de Susan na mão.

— Não sei. — Ele verificou a trava de segurança e guardou a arma no bolso.

Mark estendeu-lhe as chaves, e Ben as pegou. Andou em direção ao Vega, sentindo-se num sonho. Suas mãos tremiam, e ele teve dificuldade para colocar a chave na fechadura do porta-malas. Girou-a e puxou a tampa, sem se permitir uma pausa para pensar.

Olharam juntos. O porta-malas continha um estepe, um macaco e nada mais. Ben soltou a respiração num jato.

— E agora? — perguntou Mark.

Ben demorou um momento para responder. Quando sentiu que controlava a voz, disse:

— Vamos visitar Matt Burke, um amigo meu que está no hospital. Ele está pesquisando vampiros.

O menino o fitava com urgência nos olhos.

— Você acredita em mim?

— Acredito — disse Ben, e, ao pronunciar a palavra, ela ganhou peso e autenticidade. Não dava mais para recuar. — Sim, acredito em você.

— O Sr. Burke dá aula no colégio, não é? Ele sabe de tudo isso?

— Sabe. E o médico dele também.

— O Dr. Cody?

— Ele mesmo.

Enquanto falavam, ambos olhavam para o carro como se fosse uma relíquia de uma raça obscura e extinta, descoberta na luminosa floresta que cercava a cidade. O porta-malas lembrava uma boca escancarada, e, quando Ben o fechou com força, o baque surdo ecoou em seu coração.

— E, depois da conversa — disse Ben — a gente vai até a Casa Marsten para pegar o filho da mãe que fez isso.

Mark olhou para ele sem se mexer.

— Pode não ser tão fácil quanto você pensa. Ela também vai estar lá. Ela é dele agora.

— Ele vai desejar nunca ter vindo a ’salem’s Lot — murmurou Ben. — Vamos.

 

6

 

Chegaram ao hospital às 9h30. Jimmy Cody estava no quarto de Matt. Olhou para Ben, com semblante grave, e depois considerou Mark Petrie com curiosidade.

— Tenho más notícias para você, Ben. Sue Norton desapareceu.

— Ela é uma vampira agora — disse Ben, sem rodeios. Matt gemeu na cama.

— Tem certeza? — perguntou Jimmy, sobressaltado.

Ben apontou Mark com o polegar e o apresentou.

— Mark recebeu uma visitinha de Danny Glick na noite de sábado. Ele pode contar o resto da história.

Mark a contou do começo ao fim, como contara a Ben pouco antes.

Quando ele terminou, Matt foi o primeiro a falar.

— Ben, não tenho palavras para lhe dizer o quanto eu lamento.

— Posso lhe dar algum calmante, se precisar — disse Jimmy.

— Só preciso de um remédio, Jimmy. Quero ir atrás de Barlow hoje. Agora. Antes que escureça.

— Tudo bem — disse Jimmy. — Cancelei todas as minhas consultas. E telefonei para a delegacia do município. McCaslin também está sumido.

— Talvez seja a explicação para isto — disse Ben, tirando a pistola do bolso e a colocando sobre a mesa de cabeceira de Matt. A arma parecia estranha e deslocada naquele quarto de hospital.

— Onde você a encontrou? — perguntou Jimmy, pegando a arma.

— Perto do carro de Susan.

— Então acho que já entendi tudo. McCaslin foi até a casa dos Norton depois de falar com a gente. Pegou informações sobre Susan, incluindo a marca, o modelo e a placa do carro dela. Foi patrulhar as estradas secundárias, só para garantir e...

A frase pairou no ar. Ninguém precisou completá-la.

— A funerária de Foreman continua fechada — disse Jimmy. — E os velhos que matam tempo na loja de Crossen estão se queixando do depósito de lixo. Faz uma semana que ninguém vê Dud Rogers.

Eles se entreolharam em silêncio.

— Falei com o padre Callahan ontem de noite — disse Matt. — Ele concordou em participar, desde que vocês dois, e Mark, naturalmente, antes passem na loja nova para falar com Straker.

— Acho que ele não vai falar com ninguém hoje — disse Mark calmamente.

— O que você descobriu sobre eles? — Jimmy perguntou a Matt. — Algo de útil?

— Bom, acho que consegui reunir algumas peças. Straker deve ser o cão de guarda e o segurança dessa coisa... um cúmplice humano. Deve ter chegado à cidade muito antes de Barlow. Alguns ritos precisavam ser realizados para aplacar o Pai das Trevas. Até Barlow está submetido a um Mestre, entendem? — Ele lhes lançou um olhar sombrio. — Inclusive suspeito que ninguém jamais achará vestígios de Ralphie Glick. Acho que ele foi o passaporte de Barlow. Straker o raptou e o sacrificou.

— Canalha — disse Jimmy com ar distante.

— E Danny Glick? — perguntou Ben.

— Straker o sangrou primeiro — disse Matt. — Foi uma dádiva do Mestre. O primeiro sangue para o fiel servo. Mais tarde, Barlow se encarregou dessa tarefa. Mas Straker prestou outro serviço para Barlow antes mesmo que ele chegasse. Algum de vocês sabe qual?

Fez-se silêncio por um momento, e depois Mark disse distintamente:

— O cachorro encontrado no portão do cemitério.

— O quê? — espantou-se Jimmy. — Por quê? Por que ele faria isso?

— Os olhos brancos — disse Mark, e lançou um olhar interrogativo para Matt, que assentiu com ar surpreso.

— Passei a noite inteira sem pregar o olho lendo esses livros, sem saber que tínhamos um sábio entre nós. — O menino corou um pouco. — Mark está totalmente certo. Segundo várias fontes sobre folclore e o sobrenatural, um dos modos de espantar um vampiro é pintar “olhos de anjo” sobre os olhos de um cachorro preto. O cachorro de Win era todo preto, exceto por duas manchas brancas. Win dizia que eram seus faróis, porque ficavam bem em cima de seus olhos. Ele deixava o cachorro solto à noite. Acho que Straker o viu e o matou, e depois o pendurou no portão do cemitério.

— E quanto a esse Barlow? — perguntou Jimmy. — Como ele chegou à cidade?

Matt encolheu os ombros.

— Não sei dizer. Acho que devemos supor, segundo as lendas, que ele é velho. Muito velho. Pode ter mudado de nome dezenas ou milhares de vezes. Já pode ter pertencido a vários países do mundo em diversos momentos, mas suspeito que suas origens sejam romenas, magiares ou húngaras. Na verdade não importa como ele chegou à cidade... embora eu não fosse ficar surpreso se descobrisse que Larry Crockett tem um dedo nisso. Ele está aqui, e isso é o que importa.

“Agora, eis o que devem fazer. Levem uma estaca quando forem à Casa Marsten. E uma arma, caso Straker ainda esteja vivo. O revólver do xerife McCaslin veio a calhar. A estaca deve perfurar o coração do vampiro para que ele não reviva. Jimmy, você pode verificar isso. Depois de cravar a estaca, precisam cortar a cabeça dele, encher a boca de alho e virar o rosto para baixo no caixão. Nas ficções do gênero, sejam de Hollywood ou não, o vampiro vira pó quase instantaneamente. Talvez não seja assim na vida real. Se não for, vocês precisam encher o caixão de pedras e jogá-lo em água corrente. Sugiro o rio Royal. Alguma pergunta?”

Ninguém tinha nenhuma.

— Ótimo. Precisam levar um frasco de água benta e algumas hóstias. E cada um deve se confessar com o padre Callahan antes de partir.

— Acho que nenhum de nós é católico — disse Ben.

— Eu sou — disse Jimmy. — Não praticante.

— Mesmo assim, confessem-se e façam um ato de contrição. Depois estarão puros, lavados no sangue de Cristo. Um sangue limpo, não corrompido.

— Certo — disse Ben.

— Ben, você foi para a cama com Susan? Perdoe-me, mas...

— Dormi — disse ele.

— Então você deve cravar a estaca, primeiro em Barlow, depois nela. Você é o único em nosso pequeno grupo que foi pessoalmente atingido. Vai agir como o marido. E não pode falhar. Será a libertação dela.

— Certo — ele repetiu.

— Acima de tudo — Matt abarcou a todos com o olhar —, não olhem nos olhos dele! Se olharem, ele os dominará e os voltará contra os outros, mesmo que isso lhes custe a vida. Lembrem-se de Floyd Tibbitis! Por isso é perigoso levar uma arma, mesmo sendo necessário. Jimmy, leve-a com você e fique para trás. Se tiver de examinar Barlow ou Susan, passe-a para Mark.

— Entendido — disse Jimmy.

— Não se esqueçam de comprar alho. E rosas, se for possível. Aquela floricultura pequena em Cumberland ainda está aberta, Jimmy?

— A Northern Belle? Acho que sim.

— Uma rosa branca para cada um. Prendam no cabelo ou ao redor do pescoço. E vou repetir, não olhem nos olhos dele! Eu poderia segurar vocês aqui e lhes dizer mais centenas de coisas, mas é melhor se apressarem. Já são dez horas, e o padre Callahan pode estar pensando duas vezes. Que minhas preces acompanhem vocês. Rezar é uma dificuldade para um velho agnóstico como eu, mas acho que não sou mais tão agnóstico como antes. Foi Carlyle quem disse que, se um homem derruba Deus do trono do seu coração, Satã deve tomar o Seu lugar?

Ninguém respondeu, e Matt suspirou.

— Jimmy, quero ver seu pescoço mais de perto.

Jimmy aproximou-se da cama e levantou o queixo. Os ferimentos eram furos nítidos, mas ambos haviam formado casca e pareciam estar se fechando.

— Está doendo? Ou coçando? — perguntou Matt.

— Não.

— Você teve muita sorte — disse ele, olhando-o seriamente.

— Começo a pensar que tive mais sorte do que imagino.

Matt recostou-se na cama. O rosto estava encovado, os olhos, fundos.

— Vou aceitar o comprimido que Ben recusou.

— Direi a uma enfermeira.

— Vou dormir enquanto vocês cumprem sua missão — disse Matt. — Mais tarde haverá outra questão... bom, chega disso. — Olhou para Mark. — Você fez uma coisa admirável ontem, rapaz. Tola e imprudente, mas admirável.

— Ela pagou por isso — disse Mark baixinho, apertando as mãos diante de si. Elas tremiam.

— Sim, e você pode ter de pagar de novo. Digo isso a todos vocês. Não o subestimem! E agora, se não se importam, estou muito cansado. Passei quase a noite toda lendo. Liguem para mim assim que terminarem.

Eles saíram do quarto. No corredor, Ben olhou para Jimmy e perguntou:

— Ele não o fez lembrar de alguém?

— Fez — disse Jimmy. — Van Helsing.

 

7

Às 10h15, Eva Miller foi ao porão buscar dois potes de milho para levar para a Sra. Norton, que, segundo Mabel Werts, estava de cama. Eva passara o mês de setembro numa cozinha cheia de fumaça, labutando com suas conservas, curando legumes e guardando-os, selando potes com parafina para proteger suas geleias caseiras. Havia mais de duzentos potes de vidro cuidadosamente guardados nas prateleiras de seu impecável porão. As conservas estavam entre suas grandes alegrias. Mais tarde, com a chegada do inverno e a proximidade das festas, ela acrescentaria potes de carne moída com especiarias e frutas cristalizadas.

Ela sentiu o cheiro assim que abriu a porta do porão.

— Cruzes — murmurou, e desceu as escadas cuidadosamente, como se entrasse numa piscina poluída. Seu marido construíra o porão sozinho, com paredes de pedra para torná-lo fresco. De vez em quando um rato ou uma marmota entrava por uma rachadura e morria lá dentro. Era o que devia ter acontecido, embora ela nunca tivesse sentido um fedor tão forte antes.

Ela chegou ao último piso e examinou paredes, forçando a vista sob lâmpadas de 50 watts. Precisava trocá-las por lâmpadas de 75 watts, pensou. Pegou as conservas, em cujos rótulos escrevera MILHO com sua caligrafia caprichada (uma fatia de pimentão vermelho em cima de cada uma) e continuou a inspeção, procurando até atrás da enorme fornalha. Nada.

Voltou aos degraus que levavam à cozinha e olhou ao redor, franzindo a testa, as mãos nos quadris. O espaçoso porão estava bem mais arrumado desde que ela contratara dois empregados de Larry Crockett para erguer um depósito de ferramentas atrás da casa dois anos antes. Restara a fornalha, que parecia uma escultura impressionista da deusa Kali, com seus vários tubos contorcendo-se em várias direções; as janelas externas, que ela logo teria de instalar, porque outubro chegara e era preciso preservar o calor; a mesa de bilhar que pertencera a Ralph, agora coberta por um encerado. Ela limpava o feltro cuidadosamente todo mês de maio, mesmo que ninguém mais a usasse desde que o marido morrera em 1959. E não havia mais nada. Fora uma caixa de brochuras que ela guardara para o Hospital de Cumberland, uma pá de neve com o cabo quebrado, um quadro com algumas ferramentas de Ralph penduradas, um baú contendo cortinas que já deviam estar todas emboloradas.

Mas o odor persistia.

Seus olhos se demoraram na pequena porta do armário embutido onde guardava cebolas e batatas, mas ela não estava disposta a descer até lá. Além disso, as paredes do cubículo eram de concreto. Dificilmente algum animal teria entrado lá. Assim mesmo...

— Ed? — ela chamou subitamente, por nenhum motivo. O som da própria voz a assustou.

A palavra morreu no porão mal-iluminado. Ora, mas por que ela fizera aquilo? O que Ed Craig poderia estar fazendo lá, ainda que houvesse um lugar para se esconder? Bebendo? Não podia haver lugar mais deprimente na cidade para beber do que seu porão. Ele devia era estar na floresta com aquele seu amigo imprestável, Virge Rathbun, bebendo os dividendos de alguém.

No entanto, ela se deixou ficar mais um pouco, olhando ao redor. O cheiro de podridão era horrível. Ela esperava não ter que fumigar o porão.

Com um último olhar para a porta do armário, ela subiu a escada.

 

8

 

O padre Callahan ouviu o que os três tinham a lhe dizer. Já passava das 11h30 quando terminaram de colocá-lo a par da situação. Estavam na fresca e espaçosa sala do presbitério, e o sol entrava pelas grandes janelas da frente em lâminas luminosas que pareciam capazes de cortar. Observando as partículas de pó que dançavam nos feixes de luz, Callahan lembrou-se de um velho quadrinho que vira em algum lugar. Uma empregada com a vassoura na mão, olhando com surpresa para o chão — acabara de varrer parte de sua sombra. Ele se sentia um pouco daquele jeito. Pela segunda vez em 24 horas, defrontava-se com uma total impossibilidade — mas agora corroborada por um escritor, um menino aparentemente equilibrado e um médico respeitado na cidade. Mas uma impossibilidade continuava sendo uma impossibilidade. Era impossível varrer a própria sombra. Só que daquela vez aquilo parecia ter acontecido.

— Seria mais fácil acreditar nessa história se caísse uma tempestade e ficássemos no escuro — observou.

— É tudo verdade — disse Jimmy, apalpando o pescoço. — Posso lhe garantir.

O padre Callahan se levantou e tirou algo da maleta preta de Jimmy — dois tacos de beisebol truncados e com as pontas afiadas. Examinou um deles entre as mãos e disse:

— Um momento, Sra. Smith. Não vai doer nada.

Ninguém riu.

Callahan devolveu as estacas, foi até a janela e olhou para a avenida Jointner.

— Vocês são muito persuasivos — disse ele. — E preciso acrescentar algo que acho que ainda não sabem.

Virou-se para eles.

— Vi uma placa na vitrine da Loja de Móveis Barlow e Straker. “Fechado até segunda ordem.” Fui até lá pessoalmente às nove da manhã para discutir as alegações do Sr. Burke com esse misterioso Sr. Straker. A loja está trancada, tanto a porta da frente como a de trás.

— Precisa admitir que isso combina com o que Mark disse — notou Ben.

— Talvez. Ou talvez seja só um acaso. Deixe-me perguntar outra vez. Precisam mesmo envolver a Igreja Católica no caso?

— Sim — disse Ben. — Mas continuaremos mesmo sem o senhor. Se for preciso, vou sozinho.

— Não será necessário — disse o padre Callahan, erguendo-se. — Venham comigo até a igreja, cavalheiros. Vou ouvir sua confissão.

 

9

 

Ben ajoelhou-se, desajeitado, na escuridão mofada do confessionário, a mente em turbilhão, os pensamentos inacabados. Vinha-lhe uma sucessão de imagens surreais: Susan no parque; a Sra. Glick recuando diante da cruz improvisada, a boca aberta como uma ferida; Floyd Tibbitis saltando de dentro do seu carro, vestido como um espantalho, atacando-o; Mark Petrie debruçando-se na janela do carro de Susan. Pela primeira e única vez, a possibilidade de que tudo aquilo não passasse de um sonho lhe ocorreu, e sua mente cansada a agarrou avidamente.

Ele avistou um objeto caído num canto do confessionário e o apanhou curioso. Era uma caixa vazia de bala de menta, que caíra do bolso de um menino, talvez. Um toque de realidade inegável. O papelão era real e tangível entre seus dedos. O pesadelo era real.

A portinhola de correr se abriu. Ele olhou para a abertura, mas não enxergou nada. Uma tela pesada a fechava.

— O que devo fazer? — perguntou à tela.

— Diga: “Perdoai-me, Pai, porque pequei.”

— Perdoai-me, Pai, porque pequei — disse Ben, sua voz soando estranha e pesada no espaço confinado.

— Agora, conte-me seus pecados.

— Todos? — perguntou Ben, horrorizado.

— Só os mais representativos — disse Callahan. — Sei que temos algo a fazer antes de escurecer.

Concentrando-se e tentando manter os Dez Mandamentos como uma espécie de filtro, Ben começou. Não ficou mais fácil à medida que prosseguia. Não sentiu nenhuma catarse — só o constrangimento de contar a um estranho os segredos de sua vida. Mas ele percebeu como aquele ritual podia se tornar compulsivo — tão compulsivo como álcool de farmácia para o bêbado crônico e a revista atrás da tábua solta do banheiro para o adolescente. Havia algo de medieval naquilo, algo de amaldiçoado — um ato ritual de regurgitação. Ele se lembrou de uma cena do filme de Bergman O Sétimo Selo, onde uma multidão de penitentes em andrajos perambulava por uma cidade atacada pela peste negra. Os penitentes se açoitavam com ramos de bétula, sangravam. A sensação odiosa de se despir daquela maneira (e, perversamente, ele não mentiu, embora pudesse fazer isso de modo bem convincente) tornou a missão que os esperava mais real, e ele quase conseguiu ver a palavra “vampiro” impressa na tela de sua mente, não como no cartaz de um filme, mas em letras pequenas e econômicas, como numa xilogravura ou num pergaminho. Sentiu-se impotente nas garras daquele estranho ritual, fora de sincronia com seu tempo. O confessionáro parecia ser uma linha direta com o tempo em que lobisomens, incubos e bruxas eram parte da realidade, e a igreja a única fonte de luz. Pela primeira vez na vida, ele sentiu o lento e terrível pulsar das eras e viu sua própria vida como uma débil centelha num todo que, se pudesse ser apreendido, enlouqueceria a humanidade. Matt não lhe contara que o padre Callahan via a igreja como uma Força, mas Ben teria compreendido essa ideia naquele momento. Sentia a Força naquele fétido compartimento, repercutindo nele, deixando-o nu e desprezível. Sentia-a como nenhum católico, habituado a se confessar desde criança, seria capaz de senti-la.

Quando saiu da cabine, o ar fresco que entrava pelas portas abertas o encheu de alívio. Enxugou o pescoço suado com a palma da mão.

Callahan também saiu.

— Ainda não acabou — disse ele.

Sem dizer nada, Ben voltou para dentro, mas não ajoelhou. Callahan lhe passou uma penitência — dez Pais-Nossos e dez Ave-Marias.

— Não conheço a segunda — disse Ben.

— Vou lhe dar um cartão com a oração — disse a voz do outro lado da tela. — Você pode dizê-las mentalmente a caminho de Cumberland.

Ben hesitou por um momento.

— Matt tinha razão quando disse que seria mais difícil do que pensávamos. Acho que vamos acabar suando sangue.

— Acha mesmo? — disse Callahan.

Se ele estava sendo educado ou duvidava, Ben não sabia dizer. Olhou para baixo e viu que ainda segurava a caixa de balas de menta, agora amassada e informe em sua mão direita.

 

10

Era perto de uma hora quando todos entraram no grande Buick de Jimmy Cody e partiram. Seguiram em silêncio. O padre Donald Callahan estava de batina, sobrepeliz e estola branca bordada de roxo. Dera a cada um deles um frasco de água benta e abençoara-os com o sinal da cruz. Levava no colo uma caixinha com várias hóstias.

Passaram primeiro no consultório de Jimmy, e ele deixou o motor ligado enquanto entrava. Quando saiu, vestia um casaco esporte largo que escondia o revólver de McCaslin e trazia um martelo Craftsman na mão direita.

Ben olhou o martelo com fascínio e viu com o canto dos olhos que Mark e Callahan também o olhavam. A peça tinha cabeça de aço azul e alça de borracha perfurada.

— Terrível, não? — disse Jimmy.

Ben imaginou-se usando aquele martelo para empurrar uma estaca entre os seios de Susan e sentiu o estômago dar uma lenta volta, como um avião girando no céu.

— É, terrível mesmo — concordou, molhando os lábios.

Depois, seguiram para um supermercado. Ben e Jimmy entraram e pegaram todo o alho que havia no setor de legumes — 12 caixas de bulbos cinzentos. A moça do caixa ergueu as sobrancelhas e disse:

— Ainda bem que não vou sair com vocês hoje à noite, rapazes.

Na saída, Ben perguntou:

— De onde vem a crença de que o alho combate vampiros? Da Bíblia, de algum antigo folclore ou...

— Acho que provoca alergia — disse Jimmy.

— Alergia?

Callahan ouviu o fim da conversa e pediu que a repetissem enquanto se dirigiam para a floricultura Belle Flower.

— Concordo com o Dr. Cody — disse ele. — Provavelmente é uma alergia, se é que isso é capaz de detê-lo. Lembrem-se, ainda não foi provado.

— É engraçado um padre dizer isso — observou Mark.

— Por quê? Se devo aceitar a existência de vampiros (e parece que devo, pelo menos no presente momento), devo também achar que são criaturas totalmente imunes às leis naturais? Alguns, certamente. Segundo o folclore, não são refletidos em espelhos, podem se transformar em morcegos, lobos ou pássaros, os chamados psicopompos, podem se encolher e escapar pelas frestas mais estreitas. Mas sabemos que eles enxergam, ouvem, falam... e certamente têm paladar. Talvez também sintam dor, desconforto...

— E amor? — Ben perguntou, olhando direto para frente.

— Não — respondeu Jimmy. — Desconfio que o amor esteja além da capacidade deles.

Ele parou num pequeno estacionamento ao lado de uma floricultura ligada a uma estufa.

Um sininho tilintou acima da porta quando entraram, e o aroma forte de flores atingiu-lhes em cheio. Ben sentiu-se enjoado com a mistura exagerada de perfumes, que lembravam uma casa funerária.

— Olá — disse um homem alto de avental de lona, que se aproximou com um vaso de flores na mão.

Ben começou a explicar o que queriam, mas o homem logo o interrompeu, sacudindo a cabeça.

— Chegaram tarde. Na sexta, um homem comprou todas as rosas que eu tinha no estoque: vermelhas, brancas, amarelas. Agora só terei mais na quarta. Se quiserem encomendar...

— Como era esse homem?

— Muito diferente — disse o proprietário, pousando o vaso na mesa. — Era alto e totalmente careca. Fumava cigarros estrangeiros, pelo cheiro. Teve de levar as flores para fora em três viagens. Colocou-as na traseira de um carro bem antigo, acho que um Dodge...

— Um Packard — disse Ben. — Um Packard preto.

— Então você o conhece.

— De certa maneira, sim.

— Ele pagou em dinheiro, o que foi estranho, devido ao tamanho da compra. Fale com ele. Quem sabe ele lhe vende...

— Quem sabe — disse Ben.

De volta ao carro, eles discutiram o problema.

— Tem uma floricultura em Falmouth — disse o padre Callahan, em tom de dúvida.

— Não! — disse Ben. — Não! — E o timbre quase histérico de sua voz atraiu o olhar de todos. — E se a gente chegar a Falmouth e descobrir que Straker também passou por lá? O que vamos fazer? Ir para Portland? Kittery? Boston? Vocês não entendem o que está acontecendo? Ele previu nossos passos! Está nos segurando pela coleira!

— Ben, seja razoável — disse Jimmy. — Devíamos ao menos...

— Lembre-se do que Matt disse. “Não pensem que estão seguros só porque ele não pode se levantar durante o dia.” Veja que horas são, Jimmy.

— Duas e quinze — disse ele lentamente, e olhou para o céu como se duvidasse do relógio. Mas era verdade, as sombras já haviam mudado de lado.

— Ele se antecipou — prosseguiu Ben. — Tem passado a perna na gente desde o começo. Acham que ele nunca se deu conta de que existíamos? Que nunca considerou a possibilidade de ser descoberto e combatido? Temos de ir já, ou passaremos o resto do dia discutindo o sexo dos anjos.

— Ele tem razão — disse Callahan serenamente. — Chega de conversa e vamos logo.

— Então, pé na tábua — disse Mark, com impaciência.

Jimmy deu ré e saiu do estacionamento da floricultura, cantando os pneus. O dono ficou a olhá-los — um menino e três homens, entre eles um padre, dentro de um carro cuja placa indicava que pertencia a um médico, procurando rosas e gritando loucuras uns para os outros.

 

11

 

Quando Jimmy se aproximou da Casa Marsten pela via Brooks, no lado oposto ao da cidade, Donald Callahan, vendo-a sob esse novo ângulo, pensou: Puxa, realmente ela domina a cidade. Estranho como nunca percebi antes. A altura deve ser perfeita lá, já que o monte fica bem acima do cruzamento da avenida Jointner e da rua Brock. Deve proporcionar uma visão de 360 graus da cidade. Era uma casa enorme e angulosa e, com as venezianas fechadas, assumia uma configuração enorme e incômoda na mente — era como um monólito em forma de sarcófago, uma evocação do mal.

Além disso, fora palco de suicídio e assassinato — era um terreno maldito. Ele abriu a boca para dizer isso aos companheiros, mas mudou de ideia.

Jimmy entrou na via Brooks, e por um momento a casa foi oculta pelas árvores. Depois, estas ficaram esparsas, e Jimmy virou na entrada para carros da Casa Marsten. O Packard estava estacionado na frente da garagem. Quando desligou o carro, Jimmy sacou o revólver de McCaslin.

Callahan sentiu a atmosfera do lugar imediatamente. Tirou do bolso o crucifixo que pertencera a sua mãe e o pendurou no pescoço ao lado da cruz que sempre usava. Nenhum pássaro cantava naquelas árvores despidas pelo outono. A grama alta e irregular parecia mais seca e desidratada do que o normal naquela época do ano. O próprio solo parecia cinzento e sem vida.

Os degraus que levavam à varanda eram tortos, e um quadrado de tinta mais clara num dos pilares da varanda indicava o local em que estivera um cartaz alertando que a entrada era proibida. Um cadeado Yale novo em folha cintilava sob a velha e enferrujada tranca da porta da frente.

— Podemos entrar por uma janela, como Mark — arriscou Jimmy.

— Não — disse Ben. — Pela porta da frente, nem que a gente tenha de arrombá-la.

— Acho que não vai ser necessário — disse Callahan, e sua voz não parecia lhe pertencer. Quando saíram do carro, ele os guiou sem parar para pensar. Uma ânsia, a velha ânsia que ele pensava ter sumido para sempre, apoderou-se dele quando se aproximou da porta. A casa parecia se inclinar sobre eles, parecia vazar o mal pelos poros da pintura rachada. Mas ele não hesitou. Não era mais hora de contemporizar. Nos últimos momentos, ele os guiou na mesma medida em que era guiado.

— Em nome do Pai e do Filho! — gritou ele, e sua voz assumiu um tom de comando que atraiu os companheiros para mais perto dele. — Ordeno que o mal saia desta casa! Espíritos, afastem-se!

E, inconsciente do que fazia, golpeou a porta com o crucifixo que segurava.

Eles viram um clarão de luz — mais tarde, todos concordaram com isso —, sentiram um odor pungente de ozônio e ouviram um estalido, como se as próprias tábuas tivessem gritado. A claraboia de vidro da porta subitamente explodiu para fora, e a grande janela ao lado, que dava para o gramado, estilhaçou-se na mesma hora. Jimmy deu um grito. O novo cadeado jazia aos pés dele, derretido e quase irreconhecível. Mark se abaixou para cutucá-lo e gritou.

— Que quente!

Callahan se afastou da porta, tremendo. Olhou para a cruz que segurava.

— Sem sombra de dúvida, esta foi a coisa mais incrível que já aconteceu na minha vida — disse ele. Olhou para cima, como se esperasse ver a face de Deus, mas o céu permanecia indiferente.

Ben empurrou a porta, que se abriu com facilidade, mas esperou que Callahan entrasse primeiro. No vestíbulo, Callahan questionou Mark com o olhar.

— O porão — disse o menino. — A gente entra nele pela cozinha. Straker está lá em cima. Mas... — Ele fez uma pausa, franzindo a testa. — Algo está diferente. Não sei bem o quê. Algo não está como antes.

Primeiro, foram ao andar de cima. Mesmo não estando na frente, Ben sentiu o ferrão do antigo pavor quando se aproximaram da porta ao fim do corredor. Agora, quase um mês depois que voltara a ’salem’s Lot, ele entraria pela segunda vez naquele quarto. Quando Callahan empurrou a porta, ele olhou para cima... e sentiu o grito subir pela garganta e sair pela boca antes que pudesse impedi-lo — alto, feminino, histérico.

Mas não era Hubert Marsten quem estava pendurado na viga nem seu espírito.

Era Straker. Fora pendurado de ponta-cabeça como um porco num matadouro, sua garganta rasgada de um lado a outro. Seus olhos vidrados olhavam para eles, através deles.

Fora sangrado até a última gota.

12

 

— Santo Deus — exclamou o padre Callahan. — Santo Deus...

Eles entraram lentamente no quarto, Callahan e Cody um pouco à frente, Ben e Mark atrás, grudados um ao outro.

Os pés de Straker haviam sido amarrados, e seu corpo fora içado e amarrado à viga. Ocorreu a Ben, num ponto distante de seu cérebro, que fora preciso uma força sobre-humana para puxar o corpo de Straker para cima até que as mãos pendidas não mais tocassem o chão.

Jimmy encostou a mão na testa do cadáver e em seguida segurou uma das mãos do morto.

— Ele morreu há umas 18 horas — disse ele. Soltou a mão com um calafrio. — Meu Deus, que jeito horrível de... Não consigo entender isto. Por quê... quem...

— Foi Barlow — disse Mark. Ele fitava o corpo de Straker com olhar inabalável.

— E Straker se encrencou — disse Jimmy. — Nada de vida eterna para ele. Mas por que deste jeito, pendurado de cabeça para baixo?

— É uma prática muito antiga — disse o padre Callahan. — Pendurar o corpo do inimigo ou traidor para baixo de modo que a cabeça fique em direção à terra e não ao céu. São Paulo foi crucificado assim, numa cruz em forma de X, com as pernas quebradas.

— Ele ainda está desviando nossa atenção — disse Ben, com uma voz que pareceu antiga e cansada. — Ele tem centenas de truques. Vamos.

Seguindo-o, eles desceram a escada e foram para a cozinha. Lá, Ben voltou a passar a liderança ao padre Callahan. Por um momento, eles olharam um para o outro, e depois para o porão, cujas escadas levavam para baixo, assim como 25 anos antes escadas que levavam para cima colocaram Ben diante de um enigma esmagador.

 

13

 

Quando o padre abriu a porta, Mark sentiu o odor rançoso e fétido invadir suas narinas novamente. Mas estava diferente. Menos forte. Menos malévolo.

O padre começou a descer as escadas. Mesmo assim, Mark precisou de toda a força de vontade para acompanhá-lo até aquele covil de mortos.

Jimmy sacou uma lanterna da maleta e a ligou. O feixe de luz percorreu o chão, uma parede e o chão de novo. Depois, iluminou uma caixa comprida e em seguida uma mesa.

— Vejam — disse ele. — Em cima da mesa.

Era um envelope, impecável e reluzente na escuridão abissal, de caro papel pergaminho.

— É um truque — disse o padre Callahan. — Não encostem nisso.

— Não — disse Mark, sentindo alívio e decepção ao mesmo tempo. — Ele não está aqui. Deixou a carta para nós. Deve estar cheia de maldades.

Ben avançou e pegou o envelope. Girou-o na mão duas vezes — Mark via à luz da lanterna que seus dedos tremiam — e depois o abriu.

Havia uma folha dentro, de papel pergaminho como o envelope. Todos se aproximaram. Jimmy dirigiu a lanterna para a página, escrita numa caligrafia elegante e rebuscada. Leram juntos, Mark um pouco mais lentamente do que os outros.

4 de outubro.

Caros e Jovens Amigos,

Quanta gentileza virem me visitar!

Sempre gostei de companhia. Tem sido uma das minhas maiores alegrias numa vida longa e muitas vezes solitária. Se tivessem vindo à noite, eu os teria recebido em pessoa, com o maior prazer. No entanto, como imaginei que chegariam durante o dia, achei melhor me ausentar.

Mas deixei um pequeno sinal de meu afeto. Uma pessoa muito íntima e querida de um de vocês está no lugar onde eu mesmo passei meus dias até me transferir para aposentos mais convenientes. Ela é adorável, Sr. Mears — muito saborosa, se me permite um pequeno bon mot. Não tenho mais necessidade dela, e portanto a deixei como aquecimento para a prova principal. Para abrir o apetite, digamos. Vejamos que tal lhes parece a entrada para o prato principal a que tanto almejam.

Mestre Petrie, você me privou do servo mais fiel e competente que já tive. Obrigou-me, de modo indireto, a participar de sua ruína. Fez com que meus apetites me traíssem. Sem dúvida o atacou por trás. Terei muito prazer em travar contato com você. Primeiro, com seus pais. Esta noite... ou a de amanhã... ou a próxima. E depois com você. Mas entrará para o coral da minha igreja como um castrato.

E, padre Callahan... eles o convenceram a vir? Foi o que pensei. Tenho observado-o desde que cheguei a Jerusalem’s Lot. Assim como um bom enxadrista estuda os movimentos do adversário, concorda? Mas a Igreja Católica não é a mais antiga das minhas adversárias! Eu já era velho quando ela nascia, quando seus membros se escondiam nas catacumbas de Roma e pintavam desenhos de peixes no peito para poderem se reconhecer. Eu já era forte quando o tímido clube dos adoradores do cordeiro era fraco. Meus ritos já eram antigos quando os de sua Igreja sequer haviam sido concebidos. No entanto, não a subestimo. Sou sábio no bem assim como no mal. Não baixo a guarda.

E vou vencê-los. Mas como?, podem se perguntar. Callahan não porta o símbolo da Fé? Callahan não pode agir de dia bem como de noite? Não existem encantos e poções, tanto cristãos como pagãos, como meu bom amigo Matthew Burke lhes informou? Sim, sim e sim. Mas eu sou mais velho do que vocês. Sou engenhoso. Não sou a serpente, mas o pai das serpentes.

Mesmo assim, vocês dizem que isso não é bastante. E não é. No fim, padre Callahan, você vai se arruinar. Sua fé é fraca e vacilante. Você fala de amor sem conhecê-lo. Só sabe do que fala quando o assunto é a garrafa.

Meus bons amigos — Sr. Mears, Sr. Cody, Mestre Petrie, padre Callahan —, aproveitem sua estada. O Médoc é excelente, trazido especialmente para mim pelo antigo dono da casa, cuja companhia nunca tive o prazer de desfrutar. Por favor, sirvam-se, caso ainda tenham sede de vinho depois que terminarem a tarefa que os aguarda. Voltaremos a nos encontrar, em pessoa, e nessa ocasião expressarei minhas felicitações a cada um de uma maneira mais pessoal.

Continuar: parte 2 de 4