'Salem

Stephen King · Capítulo 2 de 22

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'Salem

Prólogo

 

Velho amigo, o que procuras?

Após tantos anos fora, voltas

Com imagens que cultivaste

Sob céus estrangeiros

Distante de tua própria terra.

GEORGE SEFERIS

1

 

Quase todos achavam que o homem e o menino fossem pai e filho.

Eles haviam cruzado o país seguindo um errante trajeto em direção ao sudoeste num velho sedan Citroën, mantendo-se quase todo o tempo em estradas secundárias, interrompendo e seguindo viagem. Pararam em três lugares pelo caminho antes de chegarem ao destino final: primeiro em Rhode Island, onde o homem alto de cabelo preto arranjara emprego numa fábrica de tecidos. Depois em Youngstown, Ohio, onde ele trabalhara durante três meses numa linha de montagem de tratores. E, finalmente, numa cidadezinha da Califórnia próxima à fronteira mexicana, onde trabalhou como frentista e mecânico de carros estrangeiros com um grau de sucesso que, para ele, era surpreendente e gratificante.

Onde quer que parassem, ele comprava um jornal do Maine chamado Press-Herald de Portland e o lia em busca de notícias concernentes a uma cidadezinha no sul do estado chamada Jerusalem’s Lot e a área ao redor. Tais notícias apareciam de tempos em tempos.

Ele escrevera o esboço de um romance em hotéis de beira de estrada antes de chegarem a Central Falls, Rhode Island, onde o enviou a seu agente. Ele fora um romancista de sucesso moderado um milhão de anos antes, quando a escuridão ainda não se apossara de sua vida. O agente levou o esboço para seu último editor, que expressou um interesse polido, mas nenhuma disposição de ceder adiantamentos monetários.

“Por favor” e “obrigado”, ele disse ao menino enquanto rasgava a carta do agente, ainda eram de graça. Disse-o sem muita amargura, e deu continuidade ao livro mesmo assim.

O menino não falava muito. Seu rosto guardava uma perpétua expressão aflita, e seus olhos eram escuros — como se estivessem sempre a sondar um lúgubre horizonte interior. Nas lanchonetes e postos de gasolina em que paravam pelo caminho, ele era educado e nada mais. Parecia não querer perder o homem de vista, e aparentava nervosismo até mesmo quando ele o deixava para ir ao banheiro. Recusava-se a falar sobre a cidade de Jerusalem’s Lot, embora o homem tentasse abordar o assunto de tempos em tempos, e não olhava para os jornais de Portland que o homem às vezes deixava deliberadamente a seu alcance.

Quando o livro foi escrito, eles moravam numa casinha de praia perto da estrada, e ambos nadavam bastante no oceano Pacífico. Era mais quente que o Atlântico e mais amistoso. Não despertava lembranças. O menino começou a ficar muito moreno.

Embora vivessem bem, fizessem três boas refeições por dia e tivessem um teto seguro, o homem começara a se sentir deprimido e a duvidar da vida que levavam. Ele dava aulas ao menino, e parecia que não ficava atrás da educação formal (o menino era esperto e amigo dos livros, como o homem alto também fora), mas não achava que obliterar ’salem’s Lot estivesse fazendo bem ao menino. Algumas noites, ele gritava durante o sono e atirava os cobertores no chão.

Uma carta chegou de Nova York. O agente do homem alto disse que a editora Random House oferecia um adiantamento de 12 mil dólares e que era quase certo que um clube do livro o aceitaria. Estava bem assim?

Estava.

O homem deixou o emprego no posto de gasolina, e ele e o menino cruzaram a fronteira.

 

2

 

Los Zapatos, que significa “os sapatos” (um nome que agradou imensamente ao homem), era um pequeno vilarejo próximo ao mar, desprezado pelos turistas. Não havia estradas boas, nem vista para o oceano (para isso, era preciso viajar oito quilômetros para o oeste), nem atrações históricas. Além disso, a cantina local era infestada de baratas e a única puta era uma avó de cinquenta anos.

Ao deixarem os Estados Unidos para trás, uma calma quase sobrenatural tomou conta da vida deles. Poucos aviões passavam no céu, não havia rodovias expressas e ninguém tinha um cortador de grama elétrico (nem queria ter) em centenas de quilômetros. Eles tinham um rádio, mas até aquele barulho era desprovido de sentido. Os noticiários eram todos em espanhol, que o menino começava a entender, mas que permanecia — e sempre permaneceria — uma algaravia para o homem. A música parecia se limitar à ópera. Algumas noites, conseguiam pegar uma estação de música pop de Monterey, animada pelo frenético DJ Wolfman Jack, mas entrava e saía de sintonia. O único motor ao alcance do ouvido era um antigo e pitoresco Rototiller de um fazendeiro da região. Dependendo do vento, seu barulho irregular e soluçante se tornava fracamente audível, como um espírito inquieto. Eles puxavam água do poço manualmente.

Uma ou duas vezes por mês (nem sempre juntos) eles assistiam à missa na igrejinha da cidade. Nenhum dos dois entendia a cerimônia, mas iam assim mesmo. O homem às vezes cochilava no calor sufocante, ao som dos ritmos constantes e familiares e das vozes que lhes davam expressão. Um domingo, o menino foi até a frágil varanda dos fundos, onde o homem escrevia um novo romance, e lhe disse que conversara com o padre sobre entrar para a igreja. O homem assentiu e perguntou se seu espanhol lhe permitia receber lições. O menino disse que achava que não haveria problema.

O homem viajava 65 quilômetros semanalmente para comprar o jornal de Portland, Maine, sempre datado de uma semana e às vezes amarelado pela urina de algum cachorro. Duas semanas depois que o menino lhe contara suas intenções, ele encontrou uma reportagem sobre ’salem’s Lot e uma cidade de Vermont chamada Momson. O nome do homem alto era mencionado ao longo da matéria.

Ele deixou o jornal à vista sem muita esperança de que o menino o lesse. O artigo o deixou perturbado por vários motivos. Ao que parecia, nada ainda acabara em ’salem’s Lot.

O menino o procurou um dia depois com o jornal aberto na mão, expondo a manchete: “Cidade-Fantasma no Maine?”

— Estou com medo — disse ele.

— Eu também — o homem alto respondeu.

 

3

 

CIDADE-FANTASMA NO MAINE?

John Lewis

Editor de Reportagem do Press-Herald

Jerusalem’s Lot — Jerusalem’s Lot é uma cidadezinha ao leste de Cumberland e a 30 quilômetros ao norte de Portland. Não é a primeira cidade da história americana a sumir do mapa, e provavelmente não será a última, mas é uma das mais estranhas. Cidades-fantasma são comuns no sudoeste americano, onde comunidades nasceram quase da noite para o dia em torno de ricos filões de ouro e prata e depois desapareceram quase tão rapidamente quando os veios minerais se esgotaram, deixando lojas, hotéis e tabernas vazios, apodrecendo em silêncio.

Na Nova Inglaterra, o único outro caso além do misterioso esvaziamento de Jerusalem’s Lot, ou ’salem’s Lot, como preferem os moradores, parece ser o de uma cidadezinha em Vermont chamada Momson. Durante o verão de 1923, Momson aparentemente sumiu do mapa, assim como os seus 312 residentes. As casas e poucos prédios comerciais no centro da cidade continuam de pé, mas, desde aquele verão, há 52 anos, estão desertos. Em alguns casos os móveis foram levados, mas quase todas as casas permaneceram mobiliadas, como se no meio do dia um vento poderoso tivesse arrastado as pessoas. Numa casa, a mesa fora posta para o jantar, no centro um arranjo de flores murchas. Noutra, as cobertas haviam sido afastadas caprichosamente no quarto por alguém que se preparava para dormir. No armazém da cidade, um rolo de tecido de algodão fora encontrado sobre o balcão, e o preço, um dólar e 22 centavos, fora marcado na caixa registradora. Os investigadores acharam quase 50 dólares em caixa, intocados.

As pessoas da região gostam de divertir os turistas com a história, insinuando que a cidade é assombrada, o que explica o fato de nunca mais ter sido habitada. Um motivo mais plausível é que Momson fica numa região remota do Estado, longe de qualquer estrada importante. Nada existe lá que não possa ser reproduzido em centenas de outras cidades — exceto, é claro, o mistério do extraordinário sumiço de sua população.

Um caso muito semelhante é o de Jerusalem’s Lot.

No censo de 1970, ’salem’s Lot tinha 1.319 habitantes — exatamente 67 a mais do que no censo anterior, de dez anos antes. Era uma cidadezinha próspera e confortável, chamada carinhosamente de Lot pelos antigos moradores, onde jamais acontecia nada digno de nota. O único assunto que as pessoas de idade, que se reuniam no parque e ao redor do aquecedor do Mercado Agrícola de Crossen, tinham para discutir era o incêndio de 1951, quando o descuido de alguém ao jogar um fósforo aceso provocara um dos maiores incêndios florestais na história do estado.

Para quem queria saborear a aposentadoria numa cidadezinha rural, onde cada um cuidava de sua vida e o maior evento da semana podia ser o Chá da Associação de Senhoras, a cidade de Lot era uma boa escolha. Demograficamente, o censo de 1970 mostrou um quadro que tanto os sociólogos rurais quanto os antigos residentes de qualquer cidadezinha de Maine conheciam muito bem — muitas pessoas de idade, bastante gente pobre e muitos jovens que deixam a região com o diploma debaixo do braço, para nunca mais voltar.

Mas, há pouco mais de um ano, algo fora do comum começou a acontecer em Jerusalem’s Lot. As pessoas começaram a sumir. A maior parte delas, naturalmente, não desapareceu no sentido literal da palavra. O ex-chefe de polícia de Lot, Parkins Gillespie, mora com a irmã em Kittery. Charles James, dono do posto de gasolina em frente à farmácia, agora dirige uma oficina em Cumberland, uma cidade vizinha. Pauline Dickens mudou-se para Los Angeles e Rhoda Curless trabalha na Missão de São Mateus, em Portland. A lista dos falsos desaparecidos poderia se estender indefinidamente.

O que mais intriga nessas pessoas “encontradas” é a unânime recusa — ou incapacidade — de falar sobre Jerusalem’s Lot e o que aconteceu lá, se é que algo aconteceu. Parkins Gillespie simplesmente olhou para este repórter, acendeu um cigarro e disse: “Eu decidi ir embora, só isso.” Charles James afirma que foi obrigado a partir porque seu negócio se deteriorou com a cidade. Pauline Dickens, que trabalhara como garçonete no Excellent Café durante anos, não respondeu à carta enviada por este repórter. E a senhorita Curless se recusa a falar sobre ’salem’s Lot.

Alguns dos desaparecimentos podem ser explicados por suposições fundamentadas e um pouco de pesquisa. Lawrence Crockett, um corretor imobiliário, desapareceu com a mulher e a filha deixando vários empreendimentos comerciais e transações imobiliárias questionáveis, inclusive uma especulação com um terreno em Portland onde o shopping center de Portland está hoje em construção. O casal Royce McDougall, também entre os desaparecidos, perdera o filho pequeno no começo do ano, e não havia muito que os prendesse à cidade. Podem estar em qualquer lugar. Outros se encaixam na mesma categoria. “Mandamos investigadores atrás de muitos moradores de Jerusalem’s Lot”, disse Peter McFee, o chefe da polícia estadual. “Mas essa não é a única cidade do Maine onde as pessoas sumiram de uma hora para outra. Royce McDougall, por exemplo, devia para um banco e duas financeiras... na minha opinião, ele não passava de um caloteiro que quis se dar bem. Um dia desses, ele usará um dos cartões de crédito que tem na carteira e os credores vão cair em cima dele. Nos Estados Unidos, pessoas desaparecidas são a coisa mais comum do mundo. Vivemos numa sociedade comandada pelo automóvel. As pessoas fazem as trouxas e se mudam a cada dois ou três anos. Às vezes esquecem de deixar o endereço novo. Principalmente os pilantras.”

Mas, apesar do espírito prático do capitão McFee, perguntas continuam sem respostas em Jerusalem’s Lot. Henry Petrie desapareceu, assim como a mulher e o filho, e o Sr. Petrie, executivo de uma empresa de seguros consultiva, não tem exatamente o perfil de um caloteiro. O coveiro, o bibliotecário e a esteticista da cidade também estão no arquivo morto do correio. A lista é de uma extensão inquietante.

Nas cidades vizinhas, os boatos, que são a origem das lendas, já começaram. Comenta-se que ’salem’s Lot é mal-assombrada. Luzes coloridas já foram vistas sobre as linhas de transmissão de força que cruzam a cidade, e se alguém sugerir que os habitantes de Lot foram levados por OVNIs, ninguém achará graça. Já se comenta sobre uma “seita secreta” de jovens que praticavam a missa negra na cidade e teriam atraído a ira de Deus sobre essa homônima da cidade mais sagrada da Terra Santa. Outros, menos propensos ao sobrenatural, lembram-se dos jovens que “desapareceram” na região de Houston, Texas, há cerca de três anos, e foram descobertos em horrendas valas comuns.

Uma visita a ’salem’s Lot faz com que esses boatos pareçam menos fantasiosos. Não restou nenhum negócio aberto. O último a se render foi a Drogaria Spencer, que fechou as portas em janeiro. A Loja Agrícola Crossen, a casa de ferragens, a loja de móveis Barlow e Straker, o Excellent Café e até o Paço Municipal foram fechados. A nova escola primária está vazia, assim como o colégio que pertence ao distrito que reúne três municípios, construído em 1967. Os móveis e os livros da escola foram levados para instalações improvisadas em Cumberland à espera de um referendo nas outras cidades do distrito escolar, mas parece que nenhuma criança de ’salem’s Lot comparecerá quando o novo ano escolar começar. Não existem mais crianças — apenas lojas e estabelecimentos abandonados, casas desertas, gramados crescidos, ruas vazias e estradas secundárias.

Entre outros moradores que a polícia estadual gostaria de localizar ou pelo menos saber informações a respeito estão John Groggins, pastor da Igreja Metodista de Jerusalem’s Lot; Donald Callahan, padre da paróquia de St. Andrew; Mabel Werts, uma viúva que participava ativamente de atividades sociais e religiosas; Lester e Harriet Durham, um casal que trabalhava na fábrica de tecidos Gates; Eva Miller, dona de uma pensão...

 

4

 

Dois meses depois que o artigo saiu no jornal, o menino foi aceito pela igreja. Confessou pela primeira vez. E confessou tudo.

 

5

 

O padre do vilarejo era um velho com cabelos brancos e rosto marcado por uma teia de rugas. Sob a testa curtida pelo sol, seus olhos examinavam o mundo com surpreendente vivacidade. Eram olhos azuis, irlandeses. Quando o homem alto chegou a sua casa, ele bebia chá na varanda. Um homem de terno formal estava de pé a seu lado. Seu cabelo, dividido ao meio com brilhantina, fazia lembrar retratos da década de 1890.

O homem disse com rigidez:

— Sou Jesús de la rey Muñoz. O padre Gracon me pediu para ser seu intérprete, já que não sabe inglês. Ele prestou um grande serviço a minha família, que não posso mencionar. Da mesma forma, não revelarei nada do que ele deseja discutir com o senhor. Está de acordo?

— Estou. — Ele apertou a mão de Muñoz e depois a de Gracon. Este respondeu em espanhol e sorriu. Só lhe restavam cinco dentes, mas o sorriso era luminoso e alegre. Ele disse: — Aceita uma xícara de chá? É chá verde, muito refrescante.

— Com prazer.

Depois da troca de cortesias, o padre disse:

— O menino não é seu filho.

— Não.

— Ele fez uma estranha confissão. Para dizer a verdade, nunca ouvi uma confissão mais estranha em todos os meus anos de sacerdócio.

— Não estou surpreso.

— Ele chorou — disse o padre Gracon, sorvendo o chá. — Foi um pranto fundo e terrível. Veio das profundezas de sua alma. Devo fazer a pergunta que essa confissão despertou em meu coração?

— Não — disse o homem com voz inalterável. — Ele disse a verdade.

Gracon assentiu com a cabeça mesmo antes de Muñoz traduzir, e seu rosto assumiu uma expressão grave. Inclinou-se com as mãos unidas entre os joelhos e falou por muito tempo. Muñoz ouviu com atenção, o rosto cautelosamente inexpressivo. Quando o padre terminou, Muñoz disse:

— Ele disse que o mundo está cheio de coisas estranhas. Há quarenta anos, um lavrador de El Graniones lhe trouxe um lagarto que gritava como se fosse uma mulher. Viu um homem com os estigmas da paixão de Cristo, cujas mãos e pés sangraram na Sexta-feira Santa. Disse que esse é um caso terrível e sinistro. Grave para você e para o menino. Principalmente para o menino. Ele está sendo consumido. Diz que...

Gracon falou algo, brevemente.

— Perguntou se você compreende o que fez nessa Nova Jerusalém.

— Jerusalem’s Lot — disse o homem alto. — Sim, compreendo.

Gracon falou de novo.

— Ele perguntou o que pretende fazer a respeito.

O homem alto balançou a cabeça muito lentamente.

— Eu não sei.

Gracon falou de novo.

— Ele disse que rezará por vocês.

6

 

Uma semana depois, ele acordou de um pesadelo, suando, e chamou o menino.

— Vou voltar — disse ele.

O menino empalideceu, apesar da tez bronzeada.

— Você vem comigo? — o homem perguntou.

— Você me ama?

— Claro. Claro que sim...

O menino começou a chorar e o homem alto o abraçou.

 

7

 

Mesmo assim, o sono não lhe vinha. Rostos espreitavam na escuridão, indistintos, como numa tempestade de neve, e quando o vento empurrou um galho de uma árvore contra o telhado, ele deu um salto.

Jerusalem’s Lot.

Ele fechou os olhos, cobriu-os com o braço, e tudo começou a voltar. Quase podia ver o peso de papel feito de vidro, do tipo que cria uma pequena nevasca quando o balançamos.

’Salem’s Lot...