'Salem
Capítulo Três – A CIDADE (I)
Capítulo Três
A CIDADE (I)
Capítulo Três – A CIDADE (I)
1
A cidade não tardava a despertar — as tarefas não esperavam. Ainda com o sol sob a linha do horizonte e a escuridão sobre a terra, as atividades já se iniciavam.
2
4h00.
Os filhos dos Griffen — Hal, de 18 anos, e Jack, de 14 — e os dois ajudantes haviam começado a ordenhar as vacas. O celeiro caiado brilhava de tão limpo. No centro, entre as passarelas impecáveis que davam para as baias dos dois lados, estendia-se um bebedouro de cimento. Hal ligou a água apertando um botão e abrindo uma válvula. A bomba elétrica que puxava água de um dos dois poços artesianos que abasteciam o local começou a funcionar com um murmúrio constante. Era um rapaz rude, taciturno, especialmente mal-humorado naquele dia. Havia tido uma briga com o pai na noite anterior. Hal queria parar de estudar. Odiava a escola. Odiava a chatice, a exigência de que ficasse parado por longos períodos de 55 minutos. E odiava todas as matérias, com a exceção de Marcenaria e Artes Gráficas. Inglês era irritante, história era uma estupidez, matemática era incompreensível. E não serviam para nada, aquilo era o pior. As vacas não se importavam se você falasse errado, não ligavam para quem era o comandante do maldito exército do Potomac durante a maldita Guerra Civil, e, quanto à matemática, seu próprio pai não conseguia somar dois quintos e uma metade nem com uma arma na cabeça. Por isso tinha um contador. Era um coitado. Fizera faculdade e ainda trabalhava para uma besta como o seu pai. E seu pai mesmo lhe dissera muitas vezes que estudar não era o segredo para ter um negócio de sucesso (e a pecuária era um negócio como qualquer outro), conhecer as pessoas era o segredo. Era mestre em falar bobagens sobre as maravilhas da educação, justo ele que parara na sexta série. Nunca lia nada além da Reader’s Digest, e a fazenda lucrava 16 mil dólares por ano. Conheça as pessoas. Aperte as mãos delas e pergunte pelas esposas pelo primeiro nome. Bom, Hal conhecia as pessoas. Havia dois tipos: as que se deixavam manipular e as que não se deixavam. As primeiras excediam em número as últimas numa proporção de dez a um.
Infelizmente, seu pai pertencia à segunda categoria.
Olhou por cima do ombro para Jack, que lenta e sonhadoramente tirava feno de um fardo e o colocava nas primeiras quatro baias. Lá estava o rato de biblioteca, o queridinho do papai. O merdinha.
— Vamos! — gritou. — Ponha logo esse feno.
Ele abriu os armários e tirou a primeira das quatro máquinas de ordenhar. Arrastou-a pelo corredor, franzindo a testa com fúria sobre a brilhante superfície de aço inoxidável.
Escola. Maldita e insuportável escola.
Os nove meses seguintes se estendiam diante dele como uma interminável tumba.
3
4h30.
Os frutos da ordenha do dia anterior haviam sido processados e voltavam para Lot, dessa vez em caixas de papelão e não em latas de aço galvanizado, com o rótulo colorido dos Laticínios Slewfoot Hill. O pai de Charles Griffen vendera seu próprio leite, mas aquilo não era mais viável. Os conglomerados haviam devorado os últimos independentes.
O leiteiro da Slewfoot Hill na parte oeste de Salem, Irwin Purinton, começava seu trajeto pela rua Brock (conhecida na cidade como via Brock ou Aquela Maldita Buraqueira). Depois passava pelo centro da cidade e saía de novo dela pela via Brooks.
Win fizera 61 anos em agosto, e pela primeira vez sua aposentadoria parecia real e possível. Sua mulher, uma megera odiosa chamada Elsie, morrera no outono de 1973 (partir antes fora a única atenção que ela tivera com ele em 27 anos de casamento), e quando se aposentasse, ele pegaria o cachorro, um mestiço de cocker chamado Doc, e mudaria para Pemaquid Point. Planejava dormir até as nove todos os dias e nunca mais ver um nascer do sol.
Ele parou em frente à casa dos Norton e encheu seu cesto de metal com a entrega da família: suco de laranja, dois litros de leite, uma dúzia de ovos. Ao sair da perua, sentiu uma pontada no joelho, mas fraca. O dia seria bom.
Ele viu um acréscimo na encomenda habitual da Sra. Norton, escrito com a letra redonda e cultivada de Susan: “Por favor, deixe um creme de leite pequeno, Win. Obrigada.”
Purinton voltou à perua para buscar o creme, pensando que seria um daqueles dias em que todo mundo quer algo especial. Creme de leite! Provou o negócio uma vez e sentiu vontade de vomitar.
O céu começava a clarear no leste e, nos campos que se estendiam até a cidade, o denso orvalho brilhava como uma fortuna em diamantes.
4
5h15.
Eva Miller já estava de pé há vinte minutos, usando um gasto vestido caseiro e frouxos chinelos cor-de-rosa. Preparava seu café da manhã — quatro ovos mexidos, oito fatias de bacon, uma porção de batatas fritas. Reforçava esse humilde repasto com duas torradas com geleia, um copo de suco de laranja e duas xícaras de café com creme para terminar. Era uma mulher grande, embora não exatamente gorda. Sempre trabalhara demais em sua pensão para chegar a ser gorda. Seu corpo tinha curvas heroicas, rabelaisianas. Vê-la em ação diante do fogão elétrico de oito bocas era como ver os movimentos agitados da maré ou a migração de dunas.
Ela gostava de fazer a refeição matinal em total solidão, planejando as tarefas do dia. E havia muito a fazer — quarta-feira era o dia de trocar as roupas de cama. Ela estava com nove pensionistas, contando o novo, o Sr. Mears. A casa tinha três andares e 17 quartos, e era preciso lavar os pisos, esfregar as escadas, encerar o corrimão e virar o tapete na sala comunitária. Pediria que Weasel Craig a ajudasse, se ele não estivesse curando uma bebedeira.
A porta de trás abriu no momento em que ela sentou à mesa.
— Oi, Win. Como vai?
— Mais ou menos. O joelho está incomodando um pouco.
— Que pena. Quer deixar mais um litro de leite e quatro litros daquela limonada?
— Claro — disse ele, resignado. — Eu sabia que o dia seria assim.
Ela atacou os ovos, ignorando o comentário. Win Puriton sempre encontrava motivo para se queixar. E no entanto, era para ser o homem mais feliz do mundo desde que aquela bruxa com quem ele se juntara caiu da escada do porão e quebrou o pescoço.
Às 5h45, quando ela terminava a segunda xícara de café e fumava um Chesterfield, o Press-Herald foi jogado na parede da casa e caiu nas roseiras. Era a terceira vez naquela semana; o filho dos Kilby tinha dado para isso. Entregar jornais devia estar fazendo mal para sua cabeça. Ela deixaria o jornal lá por enquanto. A primeira luz da manhã, fino e precioso ouro, entrava, oblíqua, pelas janelas. Era a melhor hora do dia, e ela não perturbaria sua paz por nada.
Seus pensionistas podiam usar o fogão e a geladeira — estava incluído no aluguel, como a troca da roupa de cama — e em breve a paz seria interrompida quando Grover Verrill e Mickey Sylvester descessem para engolir o cereal com leite antes de partirem para a fábrica de tecidos em Gate Falls, onde trabalhavam.
Como se seus pensamentos tivessem evocado esse momento, a descarga do banheiro no segundo andar foi acionada e Eva ouviu as pesadas botas de trabalho de Sylvester nas escadas.
Ela se levantou pesadamente e foi resgatar o jornal.
5
6h05.
O choro miúdo do bebê penetrou o sono superficial de Sandy McDougall, e ela levantou para ver o filho com os olhos ainda turvos e fechados. Bateu a canela na mesa de cabeceira e exclamou:
— Caca!
O bebê, ouvindo-a, chorou mais alto.
— Cale a boca! — gritou ela. — Já estou indo!
Ela cruzou o estreito corredor do trailer até a cozinha, uma moça esguia que perdia a pouca e marginal beleza que um dia tivera. Tirou a mamadeira de Randy da geladeira, pensou em esquentá-la, mas mudou de ideia. Se você quer tanto, meu chapa, tome gelada mesmo.
Ela foi para o quarto do menino e o olhou com frieza. Tinha dez meses, mas era doentio e choroso. Engatinhava há apenas um mês. Talvez tivesse pólio ou algo assim. E agora tinha algo em suas mãos, e na parede também. Ela avançou, pensando o que ele andara aprontando, minha Nossa Senhora.
Ela tinha 17 anos, e havia completado um ano de casamento em julho. Quando se casara com Royce McDougall, grávida de seis meses e parecendo o dirigível da Goodyear, o casamento lhe parecera uma bênção, como dissera o padre Callahan — uma saída de emergência. Agora parecia apenas um monte de caca.
E era exatamente isso, ela notou com desespero, que Randy espalhara nas mãos, na parede e nos cabelos.
Ela ficou parada, olhando-o estupidamente, segurando a mamadeira gelada.
Fora por isso que ela desistira do colégio, dos amigos, da esperança de se tornar modelo. Por aquele trailer decrépito escondido na Curva, a fórmica já descolando em tiras dos balcões, por um marido que trabalhava o dia todo na fábrica e saía de noite para beber e jogar pôquer com os amigos vagabundos do posto de gasolina. Por um filho que se parecia com seu inútil pai e espalhava caca por toda parte.
Ele chorava a plenos pulmões.
— Cale a boca! — ela gritou de repente, e atirou a mamadeira de plástico no menino, atingindo-o na testa. Ele caiu de costas no berço, berrando e agitando os braços. Um círculo vermelho brotou logo abaixo da linha dos cabelos, e ela sentiu na garganta um horrível misto de satisfação, piedade e ódio. Arrancou-o do berço como se fosse um pedaço de trapo.
— Cale a boca! Cale a boca! Cale a boca! — Deu-lhe dois murros antes de conseguir se controlar e os gritos de dor de Randy se tornarem altos demais. Ele jazia no berço, ofegante, o rosto arroxeado.
— Desculpe — murmurou ela. — Ai, meu Deus do céu. Desculpe. Você está bem, Randy? Espere, mamãe vai te limpar.
Quando ela voltou com um pano úmido, os olhos de Randy haviam inchado e perdiam a cor. Mas aceitou a mamadeira e, quando ela começou a limpar seu rosto com o pano, ele lhe abriu um sorriso sem dentes.
Direi a Roy que ele caiu da mesa de trocar, pensou ela. Ele vai acreditar. Meu Deus, ele tem que acreditar.
6
6h45.
A maioria da população operária de ’salem’s Lot estava a caminho do trabalho. Mike Ryerson era um dos poucos que trabalhava na cidade. No relatório anual do município, ele aparecia como zelador das áreas verdes, mas na verdade era responsável pelos três cemitérios da cidade. No verão, era quase um trabalho em período integral. Mas, mesmo no inverno, não era bolinho, como alguns, entre eles o presunçoso George Middler da loja de ferragens, pareciam pensar. Ele trabalhava meio período para Carl Foreman, o agente funerário da cidade, e a maioria dos velhos batia as botas no inverno.
Ele seguia para a via Burns em sua camionete, levando podadeiras, um aparador movido a bateria, uma caixa de flâmulas, um pé-de-cabra para levantar lápides tombadas, uma lata com dez galões de gasolina e dois cortadores de grama Briggs & Stratton.
Ele cortaria a grama do cemitério Harmony Hill naquela manhã, e faria os consertos necessários nas lápides e no muro de pedra. À tarde, ele cruzaria a cidade até o cemitério do monte do Pátio do Colégio, onde professores às vezes iam estudar as lápides, devido a uma extinta colônia de Shakers que haviam enterrado seus mortos lá. Mas Harmony Hill era seu preferido entre os três. Não era tão velho como o cemitério do monte do Pátio do Colégio, mas era agradável e sombreado. Esperava um dia ser enterrado lá também — dali a uns cem anos, mais ou menos.
Ele tinha 27 anos, e fizera três anos de faculdade ao longo de uma carreira bastante diversificada. Esperava voltar um dia e terminar o curso. Era bonitão e, com seu jeito aberto e agradável, não tinha a menor dificuldade em conhecer mulheres nas noites de sábado no Dell’s ou em Portland. Algumas ficavam desiludidas com seu emprego, coisa que Mike sinceramente não entendia. Era um trabalho agradável, sem patrões o vigiando o tempo todo, e era ao ar livre, sob o céu azul. E daí se ele às vezes abria algumas covas ou dirigia o carro funerário de Carl Foreman? Alguém tinha de fazer isso. Na cabeça dele, a única coisa mais natural do que a morte era o sexo.
Cantarolando, ele virou na rua Burns e engatou segunda marcha para subir o morro. A poeira seca crescia atrás dele. Entre a vegetação sufocada pelo calor ao longo da estrada, ele via os troncos esqueléticos das árvores queimadas no grande incêndio de 1951, como velhos ossos em decomposição. Ele sabia que lá se escondiam armadilhas mortais, onde os mais descuidados podiam quebrar a perna. Mesmo passados 25 anos, as cicatrizes do grande incêndio permaneciam. Bom, era assim mesmo. Em plena vida, a morte nos cercava.
O cemitério ficava no alto do morro, e Mike embicou na entrada para carros, pronto para sair e abrir o portão... e brecou a camionete bruscamente.
O corpo de um cão fora pendurado de cabeça para baixo no portão de ferro forjado, e seu sangue enlameava a terra embaixo.
Mike saiu da camionete e correu para o cachorro. Tirou as luvas de trabalho dos bolsos traseiros e levantou a cabeça do animal, que cedeu com horrível flacidez, e ele viu os olhos vazios e vidrados de Doc, o vira-lata de Win Purinton. O cão fora espetado num dos altos espigões do portão, como um pedaço de carne num gancho de metal. Moscas, lentas no frescor da manhã, já rastejavam preguiçosamente sobre a carcaça.
Mike puxou o corpo do animal com dificuldade até arrancá-lo, nauseado pelos sons molhados que acompanharam seus movimentos. Vandalismo em cemitérios não era novidade para ele, principalmente na época do Halloween, mas ainda faltava um mês e meio para a festa, e ele nunca vira nada parecido antes. Geralmente eles se contentavam em derrubar algumas lápides, pichar algumas obscenidades ou pendurar um esqueleto de papel no portão. Mas, se aquela carnificina fora obra de moleques, que bando de canalhas... Win ia ficar arrasado.
Ele ficou pensando se levava o cachorro logo para a cidade e o mostrava a Parkins Gillespie, mas concluiu que não valia a pena. Era melhor levar o pobre Doc de volta quando fosse almoçar — não que ele fosse ter muito apetite naquele dia.
Ele destrancou o portão e olhou para as luvas, cobertas de sangue. Teria de limpar as barras de ferro do portão, e não daria mais para ir ao monte do Pátio do Colégio naquela tarde. Ele entrou e estacionou, sem cantarolar. O prazer se esvaíra do dia.
7
8h00.
Os lentos ônibus escolares faziam seus trajetos de costume, apanhando crianças que esperavam em frente de casa segurando as lancheiras e fazendo travessuras. Charlie Rhodes era um dos motoristas, e seu trajeto cobria a rua Taggart Stream, no leste de ‘salem, e a metade superior da avenida Jointner.
As crianças que andavam no ônibus de Charlie eram as mais bem-educadas da cidade — de todo o distrito escolar, aliás. Ninguém gritava, nem fazia traquinagens, nem puxava rabos de cavalo no ônibus 6. Ou ficavam quietinhas e comportadas ou andavam os três quilômetros até a escola primária da rua Stanley e se explicavam na secretaria.
Sabia o que achavam dele, e imaginava perfeitamente do que o chamavam pelas costas. Mas não importava. Ele não admitiria nenhuma peraltice nem porcarias no seu ônibus. Essa parte eles podiam guardar para os molengas dos professores.
O diretor da escola tivera a audácia de lhe perguntar se não agira “impulsivamente” quando suspendeu o filho dos Durham por três dias só por falar alto demais. Charlie se limitou a encará-lo, até que o diretor, um pirralho formado há apenas quatro anos, desviou os olhos. O responsável pela frota de ônibus escolares do Distrito Escolar 21, David Felsen, era um velho amigo seu — haviam lutado juntos na Coreia. Eles se entendiam. Entendiam o que acontecia no país. Sabiam que o menino que “apenas falara alto demais” no ônibus escolar em 1958 era o mesmo que mijara na bandeira em 1968.
Ele deu uma olhadela no amplo espelho retrovisor e viu Mary Kate Griegson passando um bilhete a seu amiguinho, Brent Tenney. Amiguinho... Agora as crianças começavam com a sacanagem já na sexta série.
Ele parou o ônibus, ligando o pisca-pisca. Mary Kate e Brent levantaram os olhos, amedrontados.
— Vocês têm muito o que conversar? — perguntou para o espelho. — Então, podem ir começando.
Abriu as portas dobráveis e esperou que os dois dessem o fora de seu ônibus.
8
9h00.
Weasel Craig rolou para fora da cama — literalmente. O sol que entrava pela sua janela no segundo andar era ofuscante. Sua cabeça latejava. No andar de cima o tal do escritor já estava martelando as teclas. Santo Deus, era preciso ser muito maluco para ficar naquele tec-tec-tec, dia após dia.
Ele levantou e procurou o calendário em sua blusa para ver se era o dia de pegar o cheque de seguro desemprego. Não. Ainda era quarta-feira.
A ressaca não estava tão forte como outras vezes. Ele ficara no Dell’s até fechar, à uma, mas levara apenas dois dólares e não conseguira filar muita cerveja depois de gastá-los. Estou perdendo minha lábia, pensou, esfregando o rosto.
Ele vestiu a camiseta térmica que sempre usava, fosse inverno ou verão, as calças verdes de trabalho, e depois abriu o armário e pegou o café da manhã — uma garrafa de cerveja quente para tomar no quarto e uma caixa de aveia doada pelo governo para comer lá embaixo. Ele odiava aveia, mas prometera à viúva que a ajudaria a virar o tapete, e ela devia ter planejado outras tarefas para ele.
Ele não se importava, não muito, mas era um declínio em relação ao tempo em que dormira com Eva Miller. O marido dela morrera num acidente na serraria em 1959, o que foi até engraçado, se é que dá para achar engraçado um acidente horrível como aquele. Naquele tempo, a serraria empregava sessenta ou setenta homens, e Ralph Miller estava cotado para a presidência da serraria.
O que acontecera com ele foi meio engraçado porque Ralph Miller não encostava numa máquina desde 1952, sete anos antes, quando fora promovido de capataz para administrador. Era gratidão empresarial, sem dúvida, e Weasel supunha que Ralph fizera por merecer. Quando o grande incêndio saíra dos pântanos e tomara a avenida Jointner impulsionado por um vento leste de 50 quilômetros por hora, todos pensavam que era o fim da serraria. Os corpos de bombeiros de seis cidades vizinhas tinham que tentar salvar a cidade, e não podiam gastar tempo nem homens com a Serraria de Jerusalem’s Lot. Ralph Miller organizou todos os operários do segundo turno e formou uma brigada de incêndio. Sob sua direção, eles molharam o teto e fizeram o que todos os bombeiros reunidos não haviam conseguido fazer a oeste da avenida Jointner — criaram uma barreira que deteve o fogo e o desviou para o sul, onde foi totalmente contido.
Sete anos depois, ele caiu numa trituradora enquanto conversava com alguns executivos de uma companhia de Massachusetts. Ele lhes mostrava as instalações, tentando convencê-los a comprar ações. Mas escorregou numa poça d’água e, por azar, caiu dentro da trituradora diante dos olhos deles. Obviamente qualquer possibilidade de um negócio foi para o brejo junto com Ralph Miller. A serraria que ele salvara em 1951 fechou para sempre em fevereiro de 1960.
Weasel olhou para o espelho salpicado de água e penteou os cabelos brancos, ainda revoltos e sexy aos 67 anos. Era a única parte dele que o álcool parecia conservar. Depois vestiu a camisa de trabalho cáqui, pegou a caixa de aveia e desceu.
E lá estava ele, quase 16 anos depois que tudo acontecera, trabalhando como um reles zelador para uma mulher com quem já deitara — uma mulher que ele ainda achava tremendamente atraente.
A viúva caiu em cima de Weasel como um abutre assim que ele entrou na cozinha ensolarada.
— Escute, será que você pode encerar o corrimão da frente depois de tomar café, Weasel? Você tem tempo? — Eles conservavam a delicada ficção de que ele fazia aquilo como favores, e não para pagar os 14 dólares por semana do aluguel do quarto.
— Claro, Eva.
— E o tapete da sala da frente...
— Precisa ser virado. Eu lembro.
— Como está sua cabeça hoje? — ela fez a pergunta de modo prático, evitando demonstrar qualquer sentimento de piedade, mas ele o percebeu assim mesmo.
— Está boa — disse, meio ofendido, fervendo água para o mingau de aveia.
— Você chegou tarde. Por isso estou perguntando.
— Está de olho em mim, não é? — Ele ergueu a sobrancelha com malícia e se alegrou ao ver que ela ainda era capaz de corar como uma colegial, mesmo que tivessem parado com gracinhas há quase nove anos.
— Ora, Ed...
Ela era a única que ainda o chamava assim. Para o resto dos habitantes de Lot ele era apenas o Weasel. Mas tudo bem. Eles podiam chamá-lo do que bem quisessem. O urso o pegara, com certeza.
— Deixe para lá — disse ele, bruscamente. — Acordei do lado errado da cama.
— Caiu dela, pelo barulho. — Eva falou mais rapidamente do que pretendera, mas Weasel apenas resmungou. Ele cozinhou e comeu o odioso mingau de aveia e saiu com a lata de cera para móveis e os trapos sem olhar para trás.
No andar de cima, o tec-tec da máquina de escrever continuava. Vinnie Upshaw, cujo quarto ficava em frente ao do escritor, disse que ele começava todas as manhãs às nove, parava ao meio-dia, recomeçava às três, parava às seis, começava de novo às nove e prosseguia sem parar até a meia-noite. Weasel não conseguia imaginar como alguém podia ter tantas palavras na cabeça.
No entanto, ele parecia um sujeito decente, e podia render algumas cervejas no Dell’s uma noite daquelas. Ouvira dizer que escritores bebiam como condenados.
Ele começou a lustrar o corrimão metodicamente, e seus pensamentos voltaram para a viúva. Ela transformara a casa numa pensão com o seguro de vida do marido, e se saíra muito bem. E por que não? Ela trabalhava como uma mula. Mas devia ter se acostumado a deitar todas as noites com o marido, e, depois que a dor passara, a necessidade continuara. Meu Deus, como ela mostrara gosto pela coisa!
Naquele tempo, em 1961 e 62, as pessoas ainda o chamavam de Ed e não de Weasel, e ele ainda controlava a garrafa, e não o contrário. Tinha um bom emprego na B&M, e uma noite, em janeiro de 1962, acontecera.
Ele parou um pouco de lustrar a maçaneta e olhou, pensativo, pela estreita janelinha do patamar do segundo andar. Por ela entravam os últimos raios dourados e risonhos do verão, desafiando o frio outono e o rigoroso inverno que viriam depois.
Naquela noite, tanto ela como ele se quiseram, e depois, deitados na escuridão do quarto, ela começara a chorar e lhe dissera que haviam feito algo errado. Ele lhe dissera que fora certo, sem saber se fora certo ou não e sem se importar, e o vento norte uivara e gritara em torno do telhado, e o quarto dela era quente e seguro, e eles acabaram dormindo juntos, como talheres numa gaveta.
Ah, meu Menino Jesus, o tempo era como um rio, e ele se perguntou se o tal escritor sabia disso.
Voltou a lustrar o corrimão, com movimentos longos e impetuosos.
9
10h00.
Era hora do recreio na escola primária da rua Stanley, o mais novo e imponente prédio escolar de Lot. Era uma construção baixa e vítrea, com quatro salas de aula, que o distrito escolar ainda estava pagando — tão luminosa, nova e moderna como a escola da rua Brock era velha e escura.
Richie Boddin, o valentão da escola (com muito orgulho) saiu para o pátio majestosamente, procurando pelo menino novo, um espertinho que sabia todas as respostas de matemática. Nenhum menino novo podia ir entrando na sua escola sem antes saber quem mandava lá. Principalmente um quatro-olhos puxa-saco e maricas como aquele.
Richie tinha 11 anos e pesava 70 quilos. Durante toda a vida, sua mãe chamara a atenção de todos para como seu filho era um menino enorme. E ele sabia que era grande. Às vezes lhe parecia sentir o chão tremer sob seus pés quando andava. E, quando crescesse, fumaria Camel, igualzinho a seu pai.
As crianças da quarta e quinta séries morriam de medo dele, e os menorezinhos o viam como um totem da escola. Quando ele passasse para a sétima série e fosse para a escola da rua Brock, o panteão deles perderia o demônio. Tudo isso o enchia de satisfação.
E lá estava o pequeno Petrie, esperando ser escolhido para um dos times de futebol.
— Ei! — gritou Richie.
Todos olharam, exceto Petrie. Cada par de olhos parecia vidrado e cada par de olhos revelou alívio quando viu que os de Richie não se fixavam neles.
— Ei, você, quatro-olhos!
Mark Petrie virou-se e olhou para Richie. Seus óculos de aros de aço faiscaram no sol da manhã. Tinha a altura de Richie, sendo, portanto, mais alto do que os outros meninos da classe, mas era esguio e seu rosto parecia indefeso e letrado.
— Você falou comigo?
— “Você falou comigo?” — imitou Richie, em falsete. — Você parece uma bichinha falando, quatro-olhos. Sabia?
— Não, não sabia — disse Mark Petrie.
Richie deu um passo adiante.
— Aposto que você gosta de chupar, sabia, quatro-olhos? Aposto que você gosta de fazer chupeta.
— É mesmo? — Seu tom educado era enfurecedor.
— É, ouvi dizer que você gosta. E não só às quintas. Você não vive sem. É todo dia.
As crianças se aproximavam aos poucos para ver Richie massacrar o menino novo. A Srta. Holcomb, que supervisionava o pátio aquela semana, estava na frente, vigiando os pequenos nos balanços e gangorras.
— Qual é a sua? — Mark Petrie perguntou. Ele olhava para Richie como se tivesse descoberto um interessante besouro.
— “Qual é a sua?” — Richie imitou em falsete. — Não é da sua conta. Só ouvi dizer que você é uma bicha louca, só isso.
— Sério? — Mark perguntou, ainda educado. — E eu ouvi dizer que você é um cretino burro e desengonçado.
Silêncio total. Os outros meninos ficaram boquiabertos (mas interessados; era a primeira vez que viam alguém assinar sua própria sentença de morte). Richie, pego de surpresa, ficou tão atônito como os outros.
Mark tirou os óculos e os entregou ao menino a seu lado.
— Segure, por favor.
O menino os pegou e olhou para Mark em silêncio reverente.
Richie atacou. Foi um golpe lento e pesado, sem um pingo de graça ou sutileza. O chão tremeu sob seus pés. Ele estava cheio de confiança e de vontade de bater e quebrar. Armou o soco direitinho, de modo a acertar o quatro-olhos bem na boca e fazer seus dentes voarem como teclas de piano. Prepare-se para o dentista, florzinha. Lá vou eu.
Mark Petrie abaixou-se e desviou a tempo de fazer o soco passar por cima de sua cabeça. Richie se desequilibrou com a força de seu próprio golpe, e Mark só precisou estender o pé. Richie Boddin desabou no chão com um grunhido. A plateia de crianças fez “Aaah”.
Mark sabia muito bem que se o grandalhão recuperasse a vantagem, ele seria espancado. Era ágil, mas a agilidade não adiantava muito numa briga de colégio. Se fosse uma briga de rua, aquela seria a hora de correr, deixar o lento adversário para trás e depois virar e lhe mostrar a língua. Mas não estava na rua nem na cidade grande, e ele sabia que se não derrotasse aquele brutamontes cretino naquela hora, a perseguição não teria fim.
Esses pensamentos passaram por sua cabeça numa fração de segundo.
E ele saltou sobre as costas de Richie Boddin.
Richie grunhiu. A plateia fez “Aaah” de novo. Mark agarrou o braço de Richie, sobre a manga da camisa para que ele não escorregasse e se soltasse, e o torceu sobre suas costas. O grandalhão gritou de dor.
— Peça penico — disse Mark.
A resposta de Richie teria agradado a um marinheiro de vinte anos.
Mark puxou o braço de Richie até as omoplatas e ele gritou de novo. Estava cheio de indignação, medo e perplexidade. Aquilo nunca lhe acontecera antes. Não podia estar acontecendo agora. Nenhum florzinha quatro-olhos podia estar sentado nas suas costas, torcendo seu braço e o obrigando a gritar diante de seus súditos.
— Peça penico — repetiu Mark.
Richie se ergueu penosamente sobre os joelhos. Mark apertou seus próprios joelhos ao redor do outro menino, como se montasse um cavalo a pelo. Ambos estavam cobertos de poeira, mas o estado de Richie era bem mais lastimável. Seu rosto estava vermelho e tenso, seus olhos saltavam para fora e tinha um arranhão na bochecha.
Richie tentou derrubar Mark por cima dos ombros, mas o menino puxou seu braço para cima de novo. E dessa vez Richie não gritou — urrou.
— Peça penico, ou vou acabar quebrando seu braço.
A camisa de Richie escapara de dentro das calças. Sua barriga estava quente e arranhada. Ele começou a soluçar e a sacudir os ombros, tentando se libertar. Mas o detestável quatro-olhos continuava em cima dele. Sentia o braço gelado, o ombro pegando fogo.
— Sai de cima de mim, seu filho de uma puta! Você não briga limpo!
Uma explosão de dor.
— Peça penico.
— Não!
Ele perdeu o equilíbrio e caiu de cara na poeira. A dor em seu braço era paralisante. Ele comia poeira. Entrava terra em seus olhos. Ele agitava as pernas, impotente. Esquecera que era enorme. Esquecera que a terra tremia sob seus pés. Esquecera que fumaria Camel, igualzinho a seu pai, quando crescesse.
— Penico! Penico! Penico! — Richie gritou. Poderia gritar penico durante horas, dias, para libertar o braço.
— Diga, sou um cretino feio e burro.
— Sou um cretino feio e burro! — gritou Richie, com a boca contra o chão.
— Está bem.
Mark Petrie saiu de cima de Richie e, enquanto este se levantava, andou até uma distância segura. Suas coxas doíam de tanto que as havia apertado. Torcia para que Richie não tivesse mais forças para brigar. Caso contrário, seria esmagado.
Richie levantou. Olhou ao redor. Todos desviaram os olhos. Deram-lhe as costas e voltaram para aquilo que faziam antes. O miserável do Glick estava ao lado do florzinha, olhando-o como se fosse um deus.
Richie mal podia acreditar na rapidez com que a ruína se abatera sobre ele. Seu rosto estava coberto de poeira, com a exceção dos sulcos abertos por suas lágrimas de raiva e vergonha. Pensou em se lançar contra Mark Petrie, mas o vexame e o medo, imensos agora, não permitiram. Não ainda. Seu braço latejava como um dente cariado. Filho de uma puta. Quando eu colocar as mãos em você…
Mas não naquele dia. Ele se virou, e quando se afastou, o chão não tremeu nem um pouco. Olhou pra baixo para não precisar olhar para ninguém.
Alguma menina soltou um riso — um som agudo e escarnecedor que se espalhou com cruel nitidez no ar da manhã.
Ele não levantou os olhos para ver quem era.
10
11h15.
O Depósito de Lixo de Jerusalem’s Lot havia sido uma simples cascalheira até o solo argiloso ter aparecido e gerado lucros em 1945. Ficava no fim de um desvio que saía da estrada Burns três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill.
Dud Rogers ouvia o distante resfolegar do cortador de grama de Mike Ryerson mais à frente. Mas aquele som logo seria abafado pelo crepitar das chamas.
Dud era o zelador do depósito desde 1956, e sua renomeação a cada ano na reunião de eleitores era rotineira e unânime. Ele morava num limpo galpão de encerado, com uma placa dizendo “Zelador” pendurada na porta inclinada. Conseguira arrancar um aquecedor portátil dos mesquinhos membros do conselho municipal três anos antes, e deixara seu apartamento na cidade para sempre.
Além de corcunda, sua cabeça se inclinava num ângulo peculiar, como se Deus tivesse lhe dado um último e atrevido puxão antes de colocá-lo no mundo. Seus braços, que pendiam de modo simiesco quase até os joelhos, eram espantosamente fortes. Fora preciso quatro homens para colocar o velho cofre da loja de ferragens no caminhão e levá-lo até o depósito quando o estabelecimento fora reformado. Os pneus do caminhão haviam afundado consideravelmente quando recebeu a carga. Mas Dud Rogers o tirara da carroceria sozinho, tendões se projetando do pescoço, veias inchando na testa, antebraços e bíceps como cabos azuis. E o empurrara para o fundo do depósito sozinho.
Dud gostava do depósito. Gostava de expulsar as crianças que iam até lá quebrar garrafas, gostava de dirigir o trânsito para o local onde estava sendo depositado o lixo em determinado dia. Gostava de remexer no lixo, que era seu privilégio como zelador. Supunha que riam dele, andando pelas montanhas de entulho com botas altas e impermeáveis e luvas de couro, a pistola no coldre, um saco sobre os ombros, o canivete na mão. Que rissem. Lá ele encontrava fios de cobre e às vezes motores inteiros com o revestimento de cobre intacto, e o metal alcançava um bom preço em Portland. Encontrava cômodas, cadeiras e sofás semidestruídos, que consertava e vendia para antiquários na Rota 1. Dud enganava os lojistas e estes, por sua vez, enganavam os turistas, o que provava como o mundo sabia dar suas voltas. Dois anos antes, ele encontrara uma antiga cama com detalhes em espiral, mas com o estrado quebrado, e a vendera para uma bicha de Wells por duzentos dólares. O veado entrara em êxtase, achando que fosse uma autêntica cama da Nova Inglaterra, sem desconfiar que Dud lixara cuidadosamente a inscrição Made in Grand Rapids de trás da cabeceira.
Nos fundos do depósito ficavam os carros velhos — Buicks, Fords, Chevrolets, tinha de tudo. Os donos os jogavam fora desprezando peças em ótimo estado. Os radiadores eram os melhores, mas um bom carburador de quatro canos rendia sete dólares depois de mergulhado em gasolina. Sem falar nas correias de ventilador, lanternas traseiras, capas de distribuidor, para-brisas, volantes e tapetes.
Sim, o depósito era legal. Uma mistura de Disneylândia e Shangri-lá. Mas o melhor não era nem o dinheiro, guardado na caixa preta enterrada debaixo de sua poltrona.
O melhor eram as fogueiras — e os ratos.
Dud incendiava parte do depósito nas manhãs de domingo e quarta e nas tardes de segunda e sexta. As fogueiras noturnas eram as mais bonitas. Ele adorava o brilho rosado e fosco que escapava dos plásticos verdes de detritos, dos jornais e das caixas. Mas as fogueiras matinais eram melhores em termos de ratos.
Agora ele estava na poltrona, observando o fogo se expandir e começar a manchar o ar com sua viscosa fumaça preta, espantando as gaivotas. Segurava a pistola calibre 22 frouxamente e esperava a saída dos ratos.
Quando eles vinham, era em batalhões. Eram grandes, de um cinza sujo e olhos cor-de-rosa. Pequenas pulgas e carrapatos saltitavam em seu couro. Arrastavam as caudas como grossos fios rosados. Dud adorava atirar nos ratos.
— Você comprou uma bela carga de balas, Dud — George Middler, da loja de ferragens, dizia com sua voz pegajosa, empurrando as caixas de Remingtons para ele. — A prefeitura paga?
Era uma velha piada. Alguns anos antes, Dud fizera uma ordem de compra de dois mil cartuchos calibre 22 de ponta oca, e Bill Norton fechara a cara e o mandara às favas.
— Escute, George — dizia Dud —, você sabe que só estou prestando um serviço público.
Veja aquele gordão, mancando com a pata traseira. Aquele era George Middler. Tinha algo na boca que parecia um pedaço de fígado de galinha.
— Lá vai, George. Esta é para você — disse Dud, e apertou o gatilho. A explosão do 22 era curta e discreta, mas o rato rolou duas vezes e parou, se contorcendo. Balas de ponta oca, essas eram as melhores. Um dia ele compraria uma .45 ou uma .357 Magnum de diâmetro grande para ver o que fariam com aqueles viadinhos.
A próxima era aquela putinha da Ruthie Crockett, que não usava sutiã para ir à escola e vivia cutucando os amigos e dando risinhos quando ele passava. Bang. Tchauzinho, Ruthie.
Os ratos corriam loucamente para se proteger no outro lado do depósito, mas, antes que escapassem, Dud acertara seis deles — uma boa safra matinal. Se ele chegasse perto, veria os carrapatos fugindo dos corpos que esfriavam como... ora, como ratos fugindo de um navio afundando.
Ele achava aquele passatempo incrivelmente divertido, e atirou para trás a cabeça enviesada, recostou a corcunda e deu longas gargalhadas enquanto o fogo crepitava entre os detritos com ávidos dedos alaranjados.
A vida era mesmo uma festa.
11
12h00.
O apito da cidade soou ao meio-dia com alarde, anunciando a hora do almoço para as três escolas e inaugurando a tarde. Lawrence Crockett, o segundo membro do conselho de Lot e proprietário da Imobiliária Southern Maine, largou o livro que estava lendo (As Escravas Sexuais de Satã) e acertou o relógio pelo apito. Foi até a porta e pendurou a placa “Volto à uma hora” na maçaneta. Sua rotina era sempre a mesma. Andava até o Excellent Café, comia dois cheesebúrguer, tomava uma xícara de café e contemplava as pernas de Pauline enquanto fumava um William Penn.
Balançou a maçaneta para ver se a tranca fechara e seguiu para a avenida Jointner. Parou na esquina e olhou para a Casa Marsten. Havia um carro na entrada. Mal podia discerni-lo, brilhando na distância. A visão lhe causou um aperto no peito. Ele vendera a Casa Marsten e a extinta Lavanderia da Vila num só pacote havia mais de um ano. Fora o negócio mais estranho de sua vida, e olha que ele já fizera negócios bem esquisitos. O dono do carro era, com toda a certeza, um homem chamado Straker. R. T. Straker, de quem ele recebera uma correspondência naquela manhã mesmo.
Ele chegara ao escritório de Crockett numa ensolarada tarde de julho havia mais de um ano. Saiu do carro e ficou um instante na calçada antes de entrar. Era alto e vestia um sóbrio terno de três peças, apesar do calor. Era careca como uma bola de bilhar, e igualmente imune ao suor. Suas sobrancelhas eram um risco negro, e sob elas as órbitas dos olhos pareciam buracos escuros abertos em seu rosto angular com uma broca. Tinha consigo uma fina pasta preta. Larry estava sozinho no escritório. Sua secretária, uma moça de Falmouth com o mais belo par de peitos do mundo, trabalhava para um advogado de Gates Fall na parte da tarde.
O careca sentou-se na cadeira reservada ao cliente, pousou a pasta no colo e encarou Larry Crockett. Era impossível decifrar a expressão de seus olhos, e aquilo incomodou Larry. Gostava de conseguir ler as intenções das pessoas antes mesmo que elas abrissem a boca. Aquele homem não olhara as fotos das propriedades locais exibidas no mural, não estendera a mão e se apresentara — nem sequer dissera olá.
— Como posso servi-lo? — perguntou Larry.
— Fui incumbido de comprar uma residência e um estabelecimento comercial em sua aprazível cidade — disse o careca. Falava com uma voz plana e monótona que fazia lembrar as informações meteorológicas da companhia telefônica.
— Ora, com prazer — disse Larry. — Temos várias excelentes propriedades que talvez...
— Não é preciso — disse o careca, levantando a mão. Larry notou, fascinado, que os dedos dele eram incrivelmente longos, o dedo médio parecia ter mais de dez centímetros. — O estabelecimento comercial fica uma quadra depois do Paço Municipal, de frente ao parque.
— Pois não, podemos fazer negócio. Era uma lavanderia, mas faliu o ano passado. Pode ficar um imóvel muito bom se o senhor...
— A residência — interrompeu-o o careca — é a que os moradores chamam de Casa Marsten.
Larry tinha experiência o bastante no ramo para disfarçar sua surpresa e perplexidade.
— É mesmo?
— É. Meu nome é Straker. Richard Throckett Straker. Todos os papéis estarão no meu nome.
— Está bem — disse Larry. O homem falava sério, não havia dúvida. — Meus clientes estão pedindo 14 mil pela Casa Marsten, mas acho que aceitam um pouco menos. Quanto à velha lavanderia...
— Nada feito. Fui autorizado a pagar um dólar.
— Um...? — Larry inclinou a cabeça para frente como se não tivesse ouvido direito.
— Sim. Um momento, por favor.
Os longos dedos de Straker abriram os fechos da pasta e tiraram vários papéis contidos numa pasta azul transparente.
Larry Crockett olhou-o, franzindo a testa.
— Leia, por favor. Assim pouparemos tempo.
Larry abriu a pasta plástica e olhou para a primeira folha com o ar de um homem que faz a vontade de um louco. Seus olhos foram de um lado para o outro por algum tempo, mas depois se fixaram em algo.
Straker esboçou um sorriso. Tirou do bolso do terno uma cigarreira dourada e pegou um cigarro. Bateu-o na mesa e o acendeu com um fósforo. O aroma forte do tabaco turco espalhou-se pela sala, movido pelo ventilador.
Fez-se um silêncio de dez minutos no escritório, interrompido apenas pelo murmúrio do ventilador e pelo barulho surdo do tráfego na rua. Straker fumou o cigarro até o toco, esmagou as cinzas incandescentes e acendeu outro.
Larry levantou os olhos, o rosto pálido e abalado.
— Só pode ser uma piada. Quem o mandou? John Kelly?
— Não conheço nenhum John Kelly. E não sou de piadas.
— Esses papéis... documento de cessão... título de propriedade... Santo Deus, não sabe que aquele terreno vale um milhão e meio de dólares?
— Não o subestime — disse Straker com frieza. — Vale quatro milhões. E logo valerá mais, quando o shopping for construído.
— O que você quer? — perguntou Larry, com voz rouca.
— Já disse o que quero. Meu sócio e eu planejamos abrir um negócio na cidade. E morar na Casa Marsten.
— Que tipo de negócio? Assassinato e Companhia?
Straker abriu um sorriso frio.
— Uma loja de móveis perfeitamente normal. Com uma linha de antiguidades especiais para colecionadores. Meu sócio é especialista nessa área.
— Merda — disse Larry asperamente. — A Casa Marsten vocês podem levar por oito milhões e meio, a loja, por 16. Seu sócio deve saber disso. E os dois devem saber que esta cidade não vai sustentar uma loja chique de móveis e antiguidades.
— Meu parceiro é muito versado em todos os assuntos que lhe interessam — disse Straker. — Sabe que a cidade fica numa estrada usada por turistas e veranistas. É com essas pessoas que esperamos fazer o grosso dos nossos negócios. Mas isso não lhe diz respeito. Viu se os papéis estão em ordem?
Larry tamborilou na mesa com a pasta azul.
— Parece que estão. Mas você não vai me passar a perna, não importa o que diz querer.
— Não, claro que não. — A voz de Straker estava carregada de polido desdém. — O senhor tem um advogado em Boston, creio eu. Um tal de Francis Walsh.
— Como sabe disso? — vociferou Larry.
— Não importa. Mostre-lhe os papéis. Ele confirmará que são válidos. O terreno onde o shopping center será construído passará a ser seu sob três condições.
— Ah — disse Larry, aliviado. — Condições... — Ele recostou na cadeira e tirou um William Penn da charuteira de cerâmica que tinha sobre a mesa. Acendeu um fósforo na sola do sapato e deu uma baforada. — Agora estamos chegando a algum lugar. Pode falar.
— Primeiro. O senhor me venderá a Casa Marsten e o estabelecimento comercial por um dólar. Seu cliente, no que diz respeito à casa, é uma corporação imobiliária em Bangor. O estabelecimento comercial pertence agora a um banco de Portland. Creio que as duas partes concordarão se o senhor pagar a diferença ao preço mais baixo possível. Fora sua comissão, é claro.
— Onde conseguiu essas informações?
— Isso não lhe diz respeito, Sr. Crockett. Segunda condição. O senhor não dirá nada sobre nossa transação. Nada. Se o assunto vier à tona, o senhor só sabe o que eu lhe disse: somos dois sócios que vão abrir um negócio destinado a turistas e veranistas. Isso é muito importante.
— Não sou fofoqueiro.
— Seja como for, quero enfatizar a importância dessa condição. Chegará um dia, Sr. Crockett, em que desejará contar a alguém sobre o negócio maravilhoso que fez hoje. Se contar, vou descobrir. E vou arruiná-lo. Entendeu?
— Você parece um personagem de um suspense barato — disse Larry. Parecia sereno, mas sentia um secreto tremor de medo. Ele dissera “vou arruiná-lo” como quem diz “boa-tarde”, e esse tom trivial deu à ameaça um sabor de verdade. E como aquele palhaço sabia de Frank Walsh? Nem sua mulher sabia de Frank Walsh.
— Entendeu, Sr. Crockett?
— Entendi — disse Larry. — Estou acostumado a não mostrar as cartas.
Straker abriu o mesmo sorriso tênue.
— Claro. Por isso estou negociando com você.
— A terceira condição?
— A casa precisará de certas reformas.
— É um modo gentil de dizer — disse Larry secamente.
— Meu sócio pretende se encarregar disso pessoalmente. Mas o senhor será seu agente. De vez em quando, faremos pedidos. De vez em quando, precisarei dos serviços dos homens que costuma empregar para levar certas coisas até a casa ou até a loja. Não falará a ninguém desses serviços. Entendeu?
— Sim, entendi. Mas o senhor não é dessas bandas, não é?
— Isso tem alguma pertinência? — perguntou Straker erguendo as sobrancelhas.
— Claro que tem. Não estamos em Boston ou Nova York. Não adianta só eu ficar de bico calado. As pessoas vão comentar. Por exemplo, tem uma velha xereta na rua da Ferrovia, Mabel Werts, que passa o dia com um binóculo...
— Não estou interessado nos moradores. Meu sócio não está interessado nos moradores. Eles sempre comentam. São iguais aos pássaros sobre os fios telefônicos. Logo nos aceitarão.
Larry deu de ombros.
— A festa é sua.
— Exato — concordou Straker. — O senhor pagará por todos os serviços e guardará todas as contas e faturas. E será reembolsado. Concorda?
Larry estava, como dissera a Straker, acostumado a não mostrar as cartas, e tinha fama de ser um dos melhores jogadores de pôquer de Cumberland. Embora tivesse mantido uma fachada calma durante toda a conversa, ele queimava por dentro. O negócio que aquele louco lhe oferecia era do tipo que só aparecia uma vez na vida, quando aparecia. Talvez o patrão dele fosse um daqueles bilionários loucos e reclusos que...
— Sr. Crockett. Estou esperando.
— Eu também tenho duas condições — disse Larry.
— Sim? — Straker mostrou um interesse educado.
Ele agitou a pasta azul.
— Primeiro, esses papéis têm que estar corretos.
— É claro.
— Segundo, se pretendem fazer algo ilegal lá em cima, não quero ficar sabendo. Estou me referindo a...
Mas foi interrompido. Straker jogou a cabeça para trás e deu uma risada singularmente fria e sem emoção.
— Eu disse algo engraçado? — perguntou Larry, sem sombra de sorriso.
— Ah... claro que não, Sr. Crockett. Perdoe minha explosão. Achei seu comentário engraçado por razões próprias. O que ia dizendo?
— Sobre as reformas. Não vou lhe arranjar nada que me cause encrencas. Se está planejando fabricar bebida ilegal, LSD ou explosivos para algum grupo hippie radical, você que se arranje.
— Concordo — disse Straker. — O sorriso sumira de seu rosto. — Negócio fechado?
Com uma estranha relutância, Larry disse:
— Se estes papéis estiverem certos, acho que faremos negócio. Embora pareça que você fez toda a negociação e eu fiquei com todo o dinheiro.
— Hoje é segunda — disse Straker. — Posso passar na quinta à tarde?
— É melhor vir na sexta.
— Muito bem. — Ele levantou. — Bom dia, Sr. Crockett.
Os papéis estavam corretos. O advogado de Larry disse que o terreno onde o shopping center de Portland seria construído fora comprado por um grupo chamado Imobiliária Continental, uma companhia falsa com escritórios no prédio Chemical Bank, em Nova York. Não havia nada neles além de alguns arquivos vazios e muita poeira.
Straker voltara naquela sexta e Larry assinou a escritura do terreno. Mas o fez com um gosto amargo na boca. Ele abandonara sua própria máxima pela primeira vez na vida: nunca cuspa no prato que comeu. E, embora a recompensa fosse alta, ele percebeu, quando Straker guardou os documentos de posse da Casa Marsten e da antiga Lavanderia Village na pasta, que acabara de se colocar nas mãos daquele homem. E do seu sócio, o ausente Sr. Barlow.
O mês de agosto passara, e o verão se tornara outono, e o outono, inverno, e ele começara a sentir um indefinível sentimento de alívio. Na primavera, ele já quase esquecera o negócio que fizera para conseguir os papéis que agora jaziam em seu cofre em Portland.
E então as coisas começaram a acontecer.
Aquele escritor, Mears, procurou-o havia uma semana e meia perguntando se a Casa Marsten estava para alugar, e o olhara de um modo estranho quando lhe disse que fora vendida.
No dia anterior, encontrara um longo tubo em sua caixa de correio e uma carta de Straker. Um bilhete, na verdade, dizendo: “Por favor, prenda o cartaz que está recebendo na vitrine da loja. R. T. Straker.” O cartaz em si era bastante comum, e mais discreto que a maioria. Dizia apenas: “Abriremos em uma semana. Barlow & Straker. Móveis finos e antiguidades. Venha nos conhecer.” Ele chamou Royal Snow para colocá-lo imediatamente.
E agora havia um carro na entrada da Casa Marsten. Ele ainda a olhava quando alguém disse a seu lado:
— Está dormindo em pé, Larry?
Ele deu um salto e deu com Parkins Gillespie, ao seu lado, acendendo um Pall Mall.
— Não — disse ele, com um sorriso nervoso. — Estava só pensando.
Parkins olhou para a Casa Marsten, onde o sol fazia brilhar o cromo e o metal do carro, e depois para a velha lavanderia com o novo cartaz na vitrine.
— E você não é o único. É sempre bom receber gente nova na cidade. Você os conheceu, não é?
— Um deles, o ano passado.
— O Sr. Barlow ou o Sr. Straker?
— O Sr. Straker.
— Ele lhe pareceu um bom sujeito?
— Não deu para saber — disse Larry, com vontade de molhar os lábios. Mas não o fez. — Só falamos sobre negócios. Ele me pareceu decente.
— Ótimo. Venha, vou andar com você até o Excellent.
Cruzaram a rua, enquanto Lawrence Crockett pensava em pactos com o diabo.
12
13h00.
Susan Norton entrou no Salão de Beleza da Babs, sorriu para Babs Griffen (a irmã mais velha de Hal e Jack) e disse:
— Ainda bem que deu para você me atender, assim, em cima da hora.
— Não tem problema no meio da semana — disse Babs, ligando o ventilador. — Nossa, o tempo está fechando. Vai chover de tarde.
Susan olhou para o céu, de um azul imaculado.
— Você acha?
— Ahã. Como você quer, meu bem?
— Natural — disse Susan, pensando em Ben Mears. — Como se eu nunca tivesse vindo aqui.
— É o que todas dizem — suspirou Babs, aproximando-se de Susan.
O suspiro exalou um aroma de chiclete tutti frutti, e Babs perguntou se Susan tinha visto que iam abrir uma nova loja de móveis na antiga Lavanderia Village. Estava com jeito de ser cara, mas seria ótimo se eles tivessem um lampião com vela para combinar com o que ela tinha no apartamento, e por falar nisso, sair de casa e morar na cidade fora a melhor coisa que ela já fizera na vida, e o verão não estava uma delícia? Pena que tinha de acabar.
13
15h00.
Bonnie Sawyer estava deitada na grande cama de casal em sua casa na rua Deep Cut. Era uma casa normal, com alicerce e porão, e não um trailer ordinário. Seu marido, Reg, ganhava bem como mecânico na oficina de Jim Smith, em Buxton.
Estava nua, exceto por uma fina calcinha azul, e olhava com impaciência para o relógio na mesa de cabeceira: 15h02 — onde estaria ele?
Como se seus pensamentos o tivessem chamado, a porta do quarto abriu uma fresta, e Corey Bryant espiou para dentro.
— Posso entrar? — sussurrou. Corey tinha só 22 anos, trabalhava para a companhia telefônica há dois, e um caso com uma mulher casada, especialmente com um mulherão como Bonnie Sawyer, que fora Miss Cumberland em 1973, fazia com que se sentisse fraco, nervoso e excitado.
Bonnie sorriu para ele com seus lindos dentes restaurados.
— Se não pudesse, querido, você estaria com um buraco no peito tão grande que daria para ver televisão atrás.
Ele entrou na ponta dos pés, o cinto de ferramentas de guarda-fios balançando de modo ridículo.
Bonnie deu risada e abriu os braços.
— Gosto de você, Corey. Você é uma graça.
Os olhos de Corey deram com a mancha escura sob o justo náilon azul, e ele começou a se sentir mais excitado do que nervoso. Esqueceu-se do passo cauteloso e caiu nos braços dela, e, quando se uniram, uma cigarra começou a cantar em algum lugar no bosque.
14
16h00.
Ben Mears afastou-se da escrivaninha, tendo terminado o trabalho da tarde. Havia renunciado a sua caminhada no parque para que pudesse ir jantar na casa dos Norton com a consciência tranquila, e escrevera quase o dia todo sem descanso.
Ele se ergueu e se espreguiçou, ouvindo o estalo de sua coluna. Seu tronco estava molhado de suor. Foi até o armário na cabeceira da cama, pegou uma toalha limpa e foi tomar um banho antes que os outros moradores chegassem do trabalho e atravancassem o banheiro.
Jogou a toalha sobre o ombro, virou-se para a porta e depois voltou-se para a janela, onde algo chamara sua atenção. Não na cidade, que cochilava no calor da tarde sob um céu de um azul intenso típico da Nova Inglaterra em dias de verão.
De onde estava, seu olhar se estendia sobre os prédios baixos da avenida Jointner, de telhados planos e asfaltados, e sobre o parque onde as crianças, agora livres da escola, brincavam, andavam de bicicleta ou faziam arruaça, até a região noroeste da cidade, onde a rua Brock desaparecia atrás do flanco do primeiro morro florestado. Seus olhos seguiram com naturalidade até o intervalo na floresta onde a via Burns e a via Brooks se cruzavam formando um T — e até onde a Casa Marsten se erguia, contemplando a cidade.
De lá, parecia uma miniatura, reduzida ao tamanho de uma casa de bonecas. E ele a preferia assim. Daquele tamanho, ela podia ser confrontada. Bastava levantar a mão diante do rosto para eliminá-la.
Havia um carro na entrada da casa.
Ele ficou parado, com a toalha sobre o ombro, olhando para a casa, sentindo dentro de si uma ponta de terror que não tentou analisar. Duas das persianas caídas haviam sido trocadas, dando à casa um ar cego e sigiloso que ela não possuíra antes.
Seus lábios se moveram silenciosamente, como se formassem palavras que ninguém — nem ele mesmo — podia entender.
15
17h00.
Matthew Burke saiu da escola, levando a valise na mão esquerda, e cruzou o estacionamento vazio até seu velho Chevy Biscayne, que continuava com os pneus para neve do ano anterior.
Tinha 63 anos — faltavam dois para a aposentadoria compulsória — e ainda mantinha um grande número de aulas de inglês e de atividades extracurriculares. A atividade do outono era a peça escolar, e ele acabara de realizar os testes para uma farsa em três atos chamada O Problema de Charley. Havia aparecido a costumeira multidão de casos perdidos, talvez uma dúzia de candidatos passáveis, capazes pelo menos de memorizar suas falas (e depois dizê-las em tom trêmulo e monótono), e três garotos que mostraram algum talento. Ele os escalaria na sexta e começaria a marcação de cenas na semana seguinte. Ensaiariam até 30 de outubro, o dia da peça. Segundo a teoria de Matt, uma peça escolar devia ser como um prato de sopa de letrinhas Campbell: sem sabor, mas não totalmente repulsiva. Os parentes iriam adorar. O crítico de teatro do Ledger de Cumberland entraria em êxtase polissilábico, como era pago para fazer com qualquer peça local. A protagonista (Ruthie Crockett naquele ano, provavelmente) cairia de amores por algum membro do elenco e possivelmente perderia a virgindade depois da festa de estreia. E então ele voltaria para as discussões do Clube de Debates.
Aos 63 anos, Matt Burke ainda gostava de ensinar. Era péssimo como disciplinador, e por isso perdera todas as chances que um dia tivera de conseguir um cargo administrativo (tinha um jeito sonhador demais para ser eficaz como vice-diretor), mas sua falta de disciplina nunca o detivera. Ele lera os sonetos de Shakespeare em classes frias e barulhentas, entre aviõezinhos e bolinhas de papel, sentara sobre tachas e as afastara distraidamente enquanto dizia aos alunos para abrirem o livro de gramática na página 457, abrira gavetas para apanhar composições e descobrira grilos, sapos e uma vez até uma cobra preta de dois metros.
Ele percorrera de cima a baixo a língua inglesa como um solitário e estranhamente complacente Antigo Marinheiro, de Coleridge: primeiro período, Steinbeck; segundo período, Chaucer; terceiro período, sentença tópica, e a função do gerúndio um pouco antes do almoço. Seus dedos eram permanentemente manchados de giz em vez de nicotina, mas ainda assim era o resíduo de uma substância que vicia.
As crianças não o veneravam nem amavam — ele não era um Sr. Chips mofando num recanto rústico da América, esperando que Ross Hunter o descobrisse, mas muitos de seus alunos o respeitavam, e alguns poucos aprendiam com ele que a dedicação, por mais excêntrica ou humilde, podia ser algo notável. Ele gostava de seu trabalho.
Entrou no carro, pisou fundo demais no acelerador e afogou o motor, esperou e começou de novo. Ligou o rádio numa estação de rock-and-roll de Portland e aumentou o volume quase até o ponto de distorção do alto-falante. Achava o rock um ritmo admirável. Saiu de ré de sua vaga no estacionamento, o carro morreu e ele voltou a dar partida.
Morava numa casinha na via Taggart Stream e recebia pouquíssimas visitas. Nunca havia se casado e não tinha parentes, fora um irmão que trabalhava numa refinaria de petróleo no Texas e nunca escrevia. Ele não sentia muita falta desses vínculos. Era um homem solitário, mas a solidão de modo algum o amargurara.
Ele parou na luz de alerta no cruzamento da avenida Jointner e da rua Brock e virou em direção a sua casa. As sombras se alongavam agora, e a luz ganhava uma coloração curiosamente cálida e dourada, como uma cena do impressionismo francês. Ele olhou de relance para a esquerda, viu a Casa Marsten e olhou de novo.
— As venezianas — disse ele em voz alta, contra o ritmo pulsante da música. — As venezianas foram recolocadas.
Olhou no espelho retrovisor e viu um carro parado na entrada da casa. Ele dava aulas em ’salem’s Lot desde 1952, e nunca vira um carro estacionado naquela entrada.
— Será que alguém está morando lá? — perguntou a si mesmo enquanto seguia em frente.
16
18h00.
O pai de Susan, Bill Norton, o primeiro membro do conselho municipal de Lot, ficou surpreso ao perceber que gostara de Ben Mears. E muito. Bill era um homem grande e robusto, de cabelos pretos, e que passara dos cinquenta anos sem engordar. Trocara a escola pela Marinha no último ano do colegial, com a permissão do pai, e lutara pelo seu futuro a partir de então, conseguindo o diploma de segundo grau aos 24 anos por meio de um teste de nivelamento. Não se tornara um tipo anti-intelectual e truculento, como outros trabalhadores quando não obtêm o nível de escolaridade de que são capazes, por obra do destino ou deles mesmos, mas não tinha paciência com os “intelectualoides”, que era seu epíteto para os rapazes cabeludos e de olhar mole que Susan trazia às vezes da escola. O cabelo e as roupas deles não o incomodavam, e sim o fato de que nenhum parecia ter intenções sérias. Não simpatizava, como sua mulher, com Floyd Tibbits, o rapaz com quem Susie saía desde que se formara, mas também não antipatizava. Floyd tinha um bom emprego de nível executivo no Falmouth Grant’s, e Bill Norton o considerava moderadamente sério. E era um rapaz da cidade. Mas aquele Mears também era, de certa maneira.
— Por favor, não o atormente com essa história de intelectualoide — disse Susan, levantando quando a campainha tocou. Usava um vestido de verão verde-claro, e prendera os cabelos “naturalmente penteados” para trás com uma fita de algodão verde.
Bill deu risada.
— Isso depende da cara dele, querida. Não vou envergonhá-la. Nunca envergonho, não é?
Ela lhe dirigiu um sorriso nervoso e foi abrir a porta.
O homem que voltou com ela era magricela e de aspecto ágil, dono de traços finos e espessos cabelos pretos que pareciam recém-lavados apesar da oleosidade natural. Bill aprovou suas roupas — jeans azul-claros, muito novos, e uma camisa branca arregaçada até os cotovelos.
— Ben, estes são meus pais, Bill e Ann Norton. Mãe, pai, Ben Mears.
— Oi, é um prazer conhecê-los.
Ele sorriu para a Sra. Norton com uma ponta de reserva, e ela disse:
— Olá, Sr. Mears. É a primeira vez que conhecemos um escritor de verdade. Susan ficou muito empolgada.
— Não se preocupem, não costumo citar passagens dos meus livros. — Ele sorriu de novo.
— Olá — disse Bill, e se levantou. Ele batalhara pela posição que ocupava no sindicato da zona portuária, e seu aperto de mão era firme e forte. Mas a mão de Mears não era mole nem frágil, como a daqueles “intelectualoides” de fundo de quintal, o que lhe agradou. E passou para a segunda fase do teste.
— Quer uma cerveja? Tem umas geladas lá atrás. — Ele fez um gesto em direção à churrasqueira, que ele mesmo construíra. Os intelectualoides geralmente diziam não. A maioria fumava maconha, e não podia desperdiçar sua preciosa consciência bebendo.
— Cara, eu adoraria uma cerveja — disse Ben, sorrindo francamente. — Duas ou três, até.
Bill deu sua risada estrondosa.
— Certo, você é dos meus. Vamos lá.
Ao som desse riso, uma estranha comunicação se deu entre as duas mulheres, que eram muito parecidas. A testa de Ann Norton se franziu, enquanto a de Susan se distendeu — o peso da preocupação fora transferido como que por telepatia.
Ben seguiu Bill até o quintal. Havia um isopor de gelo sobre um banco, cheio de latas de Pabst. Bill puxou uma lata e a jogou para Ben, que a pegou com uma mão só, mas de leve, para não estourar.
— Gostoso aqui — disse Ben, olhando para a churrasqueira. Era uma construção baixa de tijolos, que emitia ondas trêmulas de calor.
— Fui eu que a construí — disse Bill. — Espero que preste.
Ben deu um longo gole e arrotou — outro ponto a seu favor.
— Susie gostou muito de você — disse Norton.
— Ela é uma ótima moça.
— E sensata — acrescentou Norton, dando um arroto pensativo. — Disse que você escreveu três livros. E os publicou também.
— É verdade.
— Foram bem?
— O primeiro foi — disse Ben, e parou por aí. Bill Norton assentiu com a cabeça, aprovando um homem que tinha o bom senso de não sair contando os detalhes da sua vida.
— Você me dá uma mãozinha com os hambúrgueres e os cachorros-quentes?
— Claro.
— É preciso cortar as salsichas para tirar o líquido de dentro, sabia?
— Sabia. — Ele simulou cortes diagonais no ar com o dedo indicador, e abriu um sorriso. Os cortes nas salsichas impediam que formassem bolhas.
— Estou vendo que você é dessas bandas — disse Bill Norton. — Muito bem. Pegue aquele saco de carvão enquanto eu busco a carne. Traga a cerveja.
— Ninguém me separa dela.
Bill hesitou antes de entrar e ergueu a sobrancelha para Ben Mears.
— Você é um sujeito sério? — perguntou.
Ben abriu um sorriso um pouco amargo.
— Isso eu sou.
— Ótimo — disse Bill, e entrou.
Babs Griffen errara ao prever chuva, e o churrasco correu bem. A brisa suave uniu-se à fumaça da churrasqueira para espantar os mosquitos de final de verão. As mulheres levaram os pratos de papel e condimentos e depois voltaram para beber cerveja e dar risada enquanto Bill, que conhecia as traiçoeiras correntes de vento, ganhou de Ben de 21 a 6 numa partida de badminton. Ben recusou uma segunda partida com pesar, apontando para o relógio.
— Estou com um livro no forno — disse ele. — E preciso escrever mais seis páginas. Se beber demais, amanhã não vou conseguir nem ler o que escrevi.
Susan o acompanhou até o portão — ele viera andando da cidade. Bill apagou o fogo com ar pensativo. Ele dissera que era sério, e Bill estava disposto a acreditar. Não chegara contando histórias para impressionar, mas um homem que trabalhava depois do jantar tinha grandes chances de deixar seu nome marcado em alguma página da história.
Ann Norton, no entanto, não se deixou conquistar.
17
19h00.
Floyd Tibbits entrou no estacionamento de pedra britada do Dell’s pouco depois de Delbert Markey, o dono e bartender, acender o novo luminoso cor-de-rosa do bar, que dizia DELL’S em grandes letras, com um copo alto no lugar do apóstrofo.
No céu, a luz do dia era afastada por um anoitecer púrpura, e logo a névoa começaria a se formar nas áreas mais baixas. Os clientes habituais começariam a aparecer dentro de uma hora.
— Oi, Floyd — disse Dell, tirando uma Michelob do refrigerador. —
Como foi seu dia?
— Razoável. A cerveja está com uma cara boa.
Era um homem alto com barba loira e bem-aparada, que vestia calças de malha e uma jaqueta esporte — seu uniforme para trabalhar na Grant’s. Era o segundo encarregado do crédito, e gostava do emprego de um modo indiferente que podia se tornar tédio a qualquer momento. Sentia que estava perdendo tempo, mas a sensação não era de todo desagradável. E ele tinha Suze, uma boa moça. Ela logo mudaria de ideia quanto ao casamento, e então ele precisaria fazer algo da vida.
Ele deixou uma nota de um dólar no balcão, encheu o copo de cerveja, bebeu-o avidamente e o encheu novamente. Além dele, o único cliente do bar era um rapaz de macacão da companhia telefônica — o filho dos Bryant, pensou Floyd. Bebia cerveja em uma mesa enquanto ouvia uma melancólica canção de amor no jukebox.
— E então, quais são as novidades? — perguntou, já sabendo a resposta. Nunca havia novidades. Algum garoto podia ter aparecido bêbado na escola, mas nada mais.
— Bom, mataram o cachorro do seu tio. Isso é uma novidade.
Floyd parou com o copo a caminho da boca.
— O quê? Doc, o cachorro do tio Win?
— Isso mesmo.
— Foi atropelado?
— Pelo jeito, não. Mike Ryerson o encontrou. Foi cortar a grama do cemitério Harmony Hill e encontrou Doc pendurado nas lanças do portão, todo furado.
— Puta merda! — exclamou Floyd, atônito.
Dell assentiu gravemente, satisfeito com a impressão que causara. Ele tinha outra notícia quente que circulava pela cidade — a namorada de Floyd fora vista com aquele escritor que estava na pensão da Eva. Mas ele que descobrisse sozinho.
— Ryerson levou o corpo para Parkins Gillespie — continuou. — Ele achou que o cachorro já estava morto e uns moleques o penduraram de brincadeira.
— Gillespie não sabe nem em que ano a gente está.
— Pode ser. Mas vou lhe dizer o que eu acho. — Dell se apoiou nos grossos antebraços. — Acho que foram moleques, sim. Tenho certeza. Mas pode ser um pouco mais do que uma simples brincadeira. Dê uma olhada nisto. — Ele tirou um jornal debaixo do balcão e o abriu sobre ele.
Floyd o apanhou. A manchete dizia: ADORADORES DE SATÃ PROFANAM IGREJA NA FLÓRIDA. Passou os olhos pelo artigo. Dizia que uns garotos tinham invadido uma igreja católica em Clewiston, uma cidade da Flórida, depois da meia-noite e realizado ritos profanos. O altar fora violado, obscenidades haviam sido rabiscadas nos bancos, nos confessionários e na pia de água benta, e manchas de sangue haviam sido encontradas nos degraus que levavam à nave. Segundo a análise do laboratório, parte do sangue era animal (podia ser de cabra), mas a maioria era humano. O chefe de polícia de Clewiston admitiu que não tinha nenhuma pista do caso.
Floyd largou o jornal.
— Adoradores do demônio em Lot? Ora, Dell. Você está com minhocas na cabeça.
— A garotada está enlouquecendo — insistiu Dell. — Você vai ver. Daqui a pouco, vão fazer sacrifícios humanos no pasto do Griffen. Quer mais uma?
— Não, obrigado — disse Floyd, descendo do banco. — Vou ver como o tio Win está passando. Ele adorava aquele cachorro.
— Mande lembranças — disse Dell, guardando o jornal debaixo do balcão para exibi-lo a outros clientes. — Fiquei muito chateado com a notícia.
Floyd parou a caminho da porta e disse, como que para si mesmo:
— Penduraram ele nas barras, é? Meu Deus, como eu queria pegar os safados que fizeram isso.
— Adoradores do demônio — disse Dell. — Eu não ficaria nem um pouco surpreso. Não sei o que está dando nas pessoas ultimamente.
Floyd saiu. O filho dos Bryant colocou outra moeda no jukebox, e Dick Curless começou a cantar “Bury the Bottle with me”.
18
19h30.
— Não chegue tarde — Marjorie Glick disse ao filho mais velho, Danny. — Amanhã tem aula. E quero seu irmão na cama às nove e quinze.
Danny arrastou os pés.
— Não sei por que eu tenho que levar ele.
— Não precisa — disse Marjorie com ameaçadora amabilidade. — Você pode ficar em casa, se quiser.
Virou-se para a pia, onde limpava um peixe, e Ralphie pôs a língua para fora. Danny brandiu o punho para ele, mas seu irmãozinho nojento se limitou a sorrir.
— A gente não demora — murmurou ao sair da cozinha, seguido pelo irmão.
— Às nove.
— Está bem, está bem.
Na sala, Tony Glick estava sentado diante da TV com os pés para cima, assistindo ao jogo dos Red Sox contra os Yankees.
— Aonde vocês vão, meninos?
— Na casa daquele menino novo — disse Danny. — Mark Petrie.
— É — disse Ralphie. — Vamos ver seu... trenzinho.
Danny lançou um olhar sinistro para o irmão, mas o pai não notou nem a pausa nem a ênfase. Doug Griffen acabara de bater a bola.
— Voltem cedo — disse ele, distraído.
Quando saíram, o céu ainda guardava resquícios do dia. Enquanto cruzavam o quintal, Danny disse:
— Eu devia te dar uma surra, peste.
— Se você me bater — disse Ralphie, com presunção — eu conto por que você quer ir lá.
— Sua praga — disse Danny, desanimado.
No fim do quintal bem-aparado, uma trilha descia o monte e dava no bosque. A casa dos Glick ficava na rua Brock, e a de Mark Petrie, no sul da avenida Jointner. O atalho economizava bastante tempo para meninos de 12 e nove anos que se equilibravam com facilidade sobre as pedras do riacho Crockett. Folhas e ramos de pinheiro estalavam sob os pés deles. Em algum lugar na floresta, um pássaro cantou, e grilos chiavam em torno deles.
Danny cometera o erro de contar ao irmão que Mark Petrie tinha a coleção completa dos monstros plásticos Aurora — o lobisomem, a múmia, Drácula, Frankenstein, o cientista louco e até a Câmara de Horrores. A mãe deles não gostava dessas coisas, achava que faziam mal para a cabeça, e Ralphie logo passara para a chantagem. Ele era gosmento mesmo.
— Você é gosmento, sabia? — disse Danny.
— Eu sei — disse Ralphie com orgulho. — O que é “gosmento”?
— É gente verde e grudenta, que nem ranho.
— Vá pro inferno — Ralphie disse.
Eles andavam pela margem do riacho Crockett, que corria preguiçosamente sobre o leito de cascalho, mantendo um tom perolado na superfície. Dois quilômetros ao leste, ele se unia ao córrego Taggart, que por sua vez desaguava no rio Royal.
Danny começou a atravessar o riacho pelas pedras, apertando os olhos na penumbra para ver onde pisava.
— Vou te empurrar! — gritou Ralphie alegremente atrás dele. — Cuidado, Danny, eu vou te empurrar!
— E eu vou te empurrar na areia movediça, bobão. — disse Danny.
Chegaram à outra margem.
— Não tem areia movediça por aqui — zombou Ralphie, chegando perto do irmão por precaução.
— Não? — disse Danny em tom sinistro. — Um menino morreu na areia movediça não faz muitos anos. Ouvi aqueles velhos que ficam na loja comentando.
— É mesmo? — perguntou Ralphie, arregalando os olhos.
— É. Ele afundou gritando, sua boca encheu de areia e foi o fim dele. Ahhhhhhh!
— Vamos — disse Ralphie, inquieto. Já estava quase totalmente escuro no bosque, e sombras se moviam. — Vamos sair daqui.
Eles subiram a outra margem, escorregando de vez em quando nas folhas de pinheiro. O menino de quem Danny ouvira falar na loja era Jerry Kingfield, de dez anos. Se ele afundara na areia movediça gritando, ninguém o ouvira. Ele simplesmente desaparecera nos pântanos seis anos antes enquanto pescava. Alguns achavam que fora a areia movediça; outros, que um pervertido o matara. Havia pervertidos por toda parte.
— Dizem que o fantasma dele ainda assombra este bosque — disse Danny em tom solene, sem contar ao irmãozinho que os pântanos ficavam a cinco quilômetros ao sul.
— Pare, Danny — pediu Ralphie. — Não fale isso aqui no escuro.
As árvores rangiam ao redor deles. O pássaro noturno parara de cantar. Um galho estalou atrás deles, furtivamente. A luz do dia sumira quase totalmente do céu.
— De vez em quando — continuou Danny —, quando algum menininho chato sai no escuro, ele salta das árvores, com a cara toda gosmenta e coberta de areia...
— Danny, pare...
Danny ouviu um terror verdadeiro na voz do irmão, e parou. Quase assustara a si mesmo. As árvores escuras e volumosas os cercavam, balançando lentamente à brisa noturna, roçando umas nas outras e rangendo.
Outro galho estalou ao lado deles.
Danny subitamente desejou que tivessem pego a estrada.
Outro galho estalou.
— Danny, estou com medo — Ralphie sussurrou.
— Não seja bobo — disse Danny. — Venha.
Eles recomeçaram a andar. As folhas crepitavam sob os pés deles. Danny tentou se convencer de que não ouvira galho nenhum estalando. Não ouvira nada a não ser eles mesmos. O sangue latejava em suas têmporas. Suas mãos estavam frias. Conte os passos, disse a si mesmo. Vamos chegar à avenida Jointner daqui a duzentos passos. E na volta pegaremos a estrada, para que esse chorão não fique com medo... Daqui a um minuto vamos ver as luzes da rua e nos sentir idiotas, mas vai ser gostoso se sentir idiota, então conte os passos. Um... dois... três...
Ralphie soltou um grito.
— Estou vendo! Estou vendo o fantasma! Estou vendo!
O terror, como ferro quente, penetrou o peito de Danny. Fios elétricos pareciam subir por suas pernas. Ele queria virar e correr, mas Ralphie o agarrava.
— Onde? — ele sussurrou, esquecendo que ele inventara o fantasma. — Onde? — Olhou para a floresta, com medo do que pudesse ver, mas viu somente a escuridão.
— Não está mais aí, mas eu vi. Eu vi olhos. Ai, Dannee... — ele chorava.
— Não tem fantasma nenhum, seu bobo. Vamos.
Danny segurou a mão do irmão e eles começaram a andar. Parecia que suas pernas haviam virado borracha. Seus joelhos tremiam. Ralphie se apertava contra ele, quase o tirando da trilha.
— Ele está nos vigiando — Ralphie sussurrou.
— Ouça, não vou...
— Não, é verdade, Danny. Você não está sentindo?
Danny parou. E, como acontece com crianças, ele sentiu algo e percebeu que não estavam sozinhos. Um pesado silêncio caíra sobre a floresta, mas era um silêncio maligno. Sombras, movidas pelo vento, arrastavam-se ao redor deles.
E Danny sentiu um cheiro brutal, mas não com o nariz.
Fantasmas não existiam, mas existiam pervertidos. Vinham em carros pretos e te ofereciam doce ou ficavam nas esquinas ou... ou te seguiam na floresta...
E então...
E então eles...
— Corra — ele disse bruscamente.
Mas Ralphie tremia a seu lado, paralisado de medo. Agarrava sua mão com a força de uma tenaz. Seus olhos estavam fixos na mata, e começaram a se arregalar.
— Danny...
Um galho estalou.
Danny virou-se e olhou na mesma direção que o irmão.
E a escuridão se fechou sobre eles.
19
21h00.
Mabel Werts era uma mulher imensa de gorda. Completara 74 anos, e suas pernas ficavam cada vez menos confiáveis. Era a depositária da história e das fofocas da cidade, e sua memória abarcava cinco décadas de necrologia, adultério, roubos e insanidade. Era uma fofoqueira, mas não deliberadamente cruel (embora aqueles que ela manchara com suas histórias pudessem discordar). Simplesmente vivia na e para a cidade. De certo modo, ela era a cidade, uma viúva gorda que agora pouco saía e que passava quase o tempo todo na janela, usando uma camisola de seda que parecia um balão, os cabelos brancos amarelados arrumados numa coroa de tranças grossas, o telefone na mão direita e os potentes binóculos japoneses na mão esquerda. A combinação dos dois, e tempo de sobra para usá-los, fazia dela uma aranha benevolente, sentada no centro de uma rede de comunicações que se estendia da Curva ao leste de ’salem.
Ela vinha observando a Casa Marsten por falta de coisa melhor para olhar quando as venezianas do lado esquerdo da varanda se abriram, deixando escapar uma luminosidade dourada que não se parecia nada com luz elétrica. Ela teve um vislumbre do que podia ser a cabeça e os ombros de um homem recortados contra a luz, o que lhe causou uma emoção estranha.
Não vira mais nenhum movimento na casa.
Ela pensou: Que tipo de pessoas eram aquelas que só abriam a janela quando ninguém podia dar uma olhada decente nelas?
Tirou os óculos e pegou o telefone. Duas vozes — ela logo as identificou como as de Harriet Durham e Glynis Mayberry — falavam sobre o cachorro de Irwin Purinton, encontrado por Mike Ryerson.
Ela ficou em silêncio, respirando pela boca, sem dar o menor sinal de sua presença na linha.
20
23h59.
O dia se aproximava do fim. As casas dormiam na escuridão. No centro da cidade, luzes na loja de ferragens, na Casa Funerária Foreman e no Excellent Café lançavam uma fraca luminosidade sobre a calçada. Alguns continuavam acordados — George Boyer, que acabara de entrar em casa depois de trabalhar das três às onze no Gates Mill, Win Purinton, que jogava paciência e pensava em Doc, cuja morte o abalara bem mais do que a da mulher — mas a maioria dormia o sono dos justos e trabalhadores.
No cemitério Harmony Hill, um vulto sombrio aguardava silenciosamente no interior dos portões a extinção do dia. Quando falou, sua voz era macia e cultivada.
— Pai, conceda-me seus favores. Senhor das Moscas, conceda-me seus favores. Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa. Ofereço esse sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda. Dê-me um sinal neste terreno, consagrado em seu nome. Espero um sinal para iniciar sua obra.
A voz se calou. Um vento se elevou, suave, trazendo consigo o sussurro de galhos e folhas e um cheiro de carniça do depósito adiante.
Não se ouviu mais nada, fora o som da brisa. O vulto permaneceu silencioso e pensativo por um instante. Depois se inclinou e se ergueu com uma criança em seus braços.
— Trouxe-lhe isto.
E o indizível se fez.