'Salem
Capítulo Nove – SUSAN (II)
Capítulo Nove
SUSAN (II)
Capítulo Nove – SUSAN (II)
1
Susan chegou de Portland pouco depois das três. Entrou em casa com três sacolas marrons de uma loja de departamentos. Vendera dois quadros por um total de oitenta dólares e resolvera se dar alguns presentes — duas saias novas e uma blusa de lã.
— Suze? — gritou a mãe. — É você?
— Cheguei. Eu...
— Venha aqui. Precisamos conversar.
Ela reconheceu o tom de voz na hora, embora não o ouvisse com aquela intensidade desde o tempo do colégio, quando as discussões sobre namorados e saias curtas eram sofridas e diárias.
Susan largou as sacolas e entrou na sala. Sua mãe rejeitava cada vez mais seu namoro com Ben, e devia estar pronta para dar sua palavra final. Encontrou-a sentada na cadeira de balanço ao lado da janela, tricotando. A televisão estava desligada. Eram indícios de tempestade.
— Acho que não ouviu a última — disse a Sra. Norton, movendo as agulhas rapidamente, transformando a lã verde-escura em pontos exatos. Devia estar fazendo um cachecol para alguém. — Você saiu muito cedo.
— A última?
— Mike Ryerson morreu na casa de Matthew Burke ontem à noite. E quem estava ao lado do leito de morte, se não seu amigo escritor, Ben Mears?
— Mike... Ben... como assim?
A Sra. Norton abriu um sorriso severo.
— Mabel me ligou cedo e me contou. O Sr. Burke diz que encontrou Mike na taverna de Delbert Markey na noite passada, agora, me diga o que um professor fazia num lugar como aquele, e o levou para casa porque o rapaz não parecia bem. E morreu durante a noite. Mas o que ninguém consegue entender é o que o Sr. Mears estava fazendo lá.
— Eles se conhecem — disse Susan, com o olhar perdido. — Ben me disse que eles se deram muito bem... O que aconteceu com Mike, mãe?
Mas a Sra. Norton se recusou a mudar de assunto.
— Seja como for, tem gente achando que a cidade ficou agitada demais desde que Ben Mears deu as caras por aqui.
— Isso é bobagem — disse Susan, exasperada. — Mas o que houve com Mike?
— Ainda não sabem — disse a Sra. Norton, soltando o fio do novelo de lã. — Alguns acham que ele pegou alguma doença de Danny Glick.
— Mas, então, por que ninguém mais pegou? Nem os pais dele?
— Alguns jovens acham que sabem tudo — observou a Sra. Norton, movendo agulhas.
— Acho que vou sair e ver se... — disse Susan, levantando.
— Sente um pouco — disse a mãe. — Ainda não acabei de falar.
Susan sentou, a expressão neutra.
— Mas às vezes os jovens não sabem de tudo — disse Ann Norton, com um falso tom carinhoso que deixou Susan desconfiada.
— Do que está falando, mãe?
— Ao que parece, o Sr. Ben Mears sofreu um acidente de moto há alguns anos, logo depois da publicação do seu segundo livro. Estava bêbado, e sua mulher morreu.
Susan levantou.
— Não quero ouvir mais nada.
— Estou lhe dizendo para o seu próprio bem — disse a Sra. Norton, calmamente.
— Quem lhe contou? — perguntou Susan. Não sentia mais a raiva impotente, a vontade de fugir daquela voz calma e dominadora e chorar no quarto. Sentia-se fria e distante, como se flutuasse no ar. — Foi Mabel Werts, não foi?
— O que importa é que é verdade.
— Claro. Assim como ganhamos a guerra do Vietnã e Jesus Cristo passeia pelo centro da cidade todos os dias de tarde.
— Mabel achou que já tinha visto a cara dele — disse Ann Norton. — E olhou os números antigos de sua caixa de jornais um por um.
— Aqueles jornais de fofoca? Especializados em astrologia, fotos de acidentes e modelos peladas? Ah, são fontes muito fidedignas...
— Não precisa ser grosseira. A matéria estava lá, preto no branco. A mulher dele, se é que eram mesmo casados, estava na garupa. Ele derrapou no asfalto e bateu na lateral de um caminhão de mudança. O artigo diz que ele fez o teste do bafômetro na mesma hora. Na mesma horinha — ela enfatizou cada palavra batendo a agulha de tricô no braço da cadeira.
— Então, por que não está preso?
— Essa gente famosa sempre conhece pessoas influentes — disse ela, com uma calma certeza. — Quem tem dinheiro sempre dá um jeitinho. É só ver o caso dos Kennedy.
— Ele foi julgado?
— Já disse, ele fez o teste...
— Eu sei, mas ele estava bêbado?
— Já disse que estava! — Manchas vermelhas começavam a se formar no rosto dela. — Eles não fazem teste do bafômetro em quem está sóbrio. A mulher dele morreu. É igualzinho àquele caso em Chappaquiddick! Igualzinho!
— Vou mudar para a cidade — Susan disse lentamente. — Estava para contar para vocês. Já devia ter mudado há muito tempo, mãe, para o bem de todos nós. Babs Griffen me disse que viu uma casinha de quatro cômodos na rua Sister...
— Agora ela ficou ofendida! — disse a Sra. Norton. — Alguém acabou de estragar sua linda imagem do maravilhoso Ben Mears e ela ficou tão brava que está cuspindo fogo. — Essa frase costumava ser especialmente eficaz no passado.
— Mãe, o que aconteceu com você? — perguntou Susan, um pouco desolada. — Você não costumava... jogar tão baixo.
Ann Norton estremeceu. Deixou cair o tricô, levantou e sacudiu Susan pelos ombros.
— Escute aqui! Não vou deixar você andar por aí como uma rameira com um escritorzinho efeminado que encheu sua cabeça de ilusões! Ouviu bem?
Susan lhe deu um tapa na cara.
Ann Norton piscou e depois arregalou os olhos, incrédula. Elas se olharam, chocadas, durante um longo instante. Susan começou a dizer algo, mas parou.
— Vou subir — terminou dizendo. — Terça-feira, no máximo, estou saindo daqui.
— Floyd veio aqui — disse a Sra. Norton, seu rosto ainda tenso. As marcas dos dedos da filha delineavam-se em sua pele como pontos de exclamação.
— Não tenho mais nada com Floyd — disse Susan. — Acostume-se com a ideia. Pode contar àquela jararaca da Mabel. Talvez aí você comece a acreditar.
— Floyd te ama, Susan. Tudo isso está... acabando com ele. Ele me contou tudo. Abriu o coração para mim. — Os olhos dela brilharam. — No fim, ele chorou como um bebê.
Aquela cena não combinava com Floyd, pensou Susan. Olhou para a mãe para ver se estava mentindo, mas percebeu por seu olhar que não.
— É isso que você quer para mim, mãe? Um bebê chorão? Ou está louca para ter netos loiros? Sou um problema para você. Só sentirá seu dever cumprido quando eu me casar com um bom homem que você possa dominar. Alguém que me engravide e me transforme numa matrona num piscar de olhos. É essa a jogada, não? E o que eu quero, não conta?
— Susan, você não sabe o que quer.
Ela disse isso com uma certeza tão absoluta que, por um momento, Susan quase acreditou. Veio-lhe à mente a imagem dela e de sua mãe, como estavam naquele momento, a primeira na cadeira e a segunda perto da porta, mas ligadas por um fio de lã verde, um cordão que ficara puído e gasto depois de tantos puxões. Essa imagem foi substituída por outra de sua mãe com chapéu de palha, tentando desesperadamente pescar uma enorme truta de vestido amarelo. Tentava puxá-la pela última vez e jogá-la na cesta de vime. Mas para quê? Para dominá-la? Comê-la?
— Não, mãe. Sei exatamente o que eu quero. Ben Mears.
Ela lhe deu as costas e subiu para o quarto. Ann correu atrás dela e gritou com voz estridente.
— Você não pode nem alugar um quarto! Com que dinheiro?
— Tenho cem dólares na conta corrente e trezentos na poupança — Susan respondeu calmamente. — E posso trabalhar na Spencer. O Sr. Labree já me convidou várias vezes.
— Ele só quer olhar suas pernas — disse Ann, mas sua voz baixara uma oitava. Parte da raiva fora substituída por medo.
— Ele que olhe — disse Susan. — Vou usar ceroulas.
— Querida, não fique brava. — Ela subiu dois degraus. — Só quero o que é melhor...
— Poupe-se, mãe. Desculpe pelo tapa. Foi horrível da minha parte. Amo vocês dois, mas vou me mudar. Já passou da hora. Vocês sabem disso.
— Pense bem — disse a Sra. Norton, agora arrependida, além de assustada. — Mas acho que não falei nada despropositado. Já vi tipos metidos como esse Ben Mears antes. Ele só está interessado em...
— Não, chega — disse Susan, dando-lhe as costas.
Sua mãe subiu mais um degrau e gritou:
— Floyd saiu daqui arrasado. Ele...
Mas Susan fechou a porta do quarto, cortando suas palavras.
Ela deitou na cama, que não fazia muito tempo fora decorada com bichos de pelúcia e um cachorrinho com um rádio na barriga, e olhou para o teto, tentando não pensar. Havia alguns pôsteres da organização ambiental Sierra Club na parede, mas antes ela colava pôsteres que tirava das revistas Rolling Stones, Cream e Crawdaddy, de ídolos como Jim Morrison, John Lennon, Dave van Ronk e Chuck Berry. Os fantasmas daquele tempo a atormentavam como fotografias mentais de má qualidade.
Ela quase podia ver a manchete, saltando do jornal sensacionalista. JOVEM ESCRITOR INICIANTE E SUA MULHER ENVOLVIDOS EM ACIDENTE FATAL. E a matéria cheia de insinuações discretas. Talvez com uma foto do local do acidente, sangrenta demais para os grandes jornais, mas perfeita para o tipo que Mabel consumia.
E o pior era que uma semente de dúvida fora plantada. Bobagem. Por acaso ela achava que ele chegara à cidade puro e casto? Embrulhado em celofane higiênico como um copo de motel? Bobagem. Mas a semente fora plantada. E por isso ela sentia mais do que rancor adolescente contra a mãe. Sentia algo que beirava o ódio.
Ela afastou os pensamentos, colocou o braço sobre o rosto e caiu num sono superficial, que foi interrompido pelo toque estridente do telefone e pela voz mais aguda ainda de sua mãe no andar de baixo.
— Susan! É para você!
Ela desceu, notando que eram 17h30. O sol já se punha. Sua mãe estava na cozinha, começando a preparar o jantar. Seu pai ainda não chegara.
— Alô?
— Susan? — A voz era familiar, mas ela não a reconheceu de imediato.
— Sim, quem é?
— Eva Miller. Tenho más notícias.
— Aconteceu algo com Ben? — Sua boca ficou seca, e ela levou a mão ao pescoço. A Sra. Norton saiu da cozinha com uma espátula na mão e a observou.
— Aconteceu uma briga. Floyd Tibbits apareceu aqui esta tarde...
— Floyd!
A Sra. Norton contraiu o rosto.
— Eu disse que o Sr. Mears estava dormindo. Ele disse que tudo bem, educado como sempre, mas estava com umas roupas muito esquisitas. Perguntei se ele se sentia bem. Usava um casaco antiquado e um chapéu estranho, e não tirava as mãos dos bolsos. Nem pensei em dizer isso ao Sr. Mears quando ele acordou. Depois de um dia tão agitado...
— O que aconteceu? — Susan quase gritou.
— Floyd lhe deu uma surra — disse Eva, penalizada. — Bem no meu estacionamento. Sheldon Corso e Ed Craig tiveram de tirá-lo de cima dele.
— E Ben? Como ele está?
— Nada bem.
— O que houve? — Ela apertava o telefone com força.
— No fim Floyd jogou o Sr. Mears em cima do carrinho importado dele, e ele bateu a cabeça. Carl Foreman o levou para o hospital de Cumberland. Ele estava desmaiado. Não sei de mais nada. Se você quiser...
Ela desligou, correu para o armário e tirou o casaco.
— Susan, o que foi?
— Floyd, aquele anjo de rapaz... — disse ela, mal percebendo que chorava —, mandou Ben para o hospital.
E saiu correndo, sem esperar uma resposta.
2
Ela chegou ao hospital e esperou numa desconfortável cadeira plástica, olhando estupidamente para um exemplar de Casa e Decoração. Só eu vim, pensou ela. Era desolador. Pensou em ligar para Matt Burke, mas desistiu quando lembrou que o médico podia chegar e não encontrá-la.
Os minutos se arrastavam no relógio da sala de espera. Às 18h50, um médico com um maço de papéis na mão entrou e disse:
— Srta. Norton?
— Isso mesmo. Como está Ben?
— Ainda não posso responder. — Ele viu o temor no rosto dela e acrescentou. — Ele parece estar bem, mas precisa ficar internado mais dois ou três dias. Está com uma fratura pequena, várias contusões e um olho bem roxo.
— Posso vê-lo?
— Hoje, não. Ele foi sedado.
— Só um minuto. Por favor...
Ele suspirou.
— Pode ir até o quarto, se quiser. Deve estar dormindo. Não fale nada a não ser que ele fale com você.
Ele a levou para o terceiro andar e depois para um quarto no fim do corredor que cheirava a remédios. O outro paciente lia uma revista e os olhou com indiferença.
Ben estava deitado de olhos fechados, o lençol puxado até o queixo. Estava tão pálido e imóvel que, por um momento de pânico, Susan achou que tivesse morrido enquanto ela e o médico conversavam. Depois notou a respiração lenta que movia seu peito e sentiu um alívio tão intenso que chegou a cambalear. Olhou para o rosto dele atentamente, mal notando os ferimentos. “Efeminado”... Susan entendia de onde sua mãe tirara aquela ideia. Seus traços eram fortes, mas delicados (ela procurou uma palavra melhor do que “delicado”, que se aplicava mais ao bibliotecário da cidade, que escrevia pomposos sonetos spenserianos no tempo livre, mas era a única que se encaixava). Só os cabelos eram viris no sentido tradicional. Negros e densos, pareciam flutuar sobre seu rosto. O curativo branco na têmpora esquerda se destacava com nítido contraste.
Eu amo esse homem, pensou ela. Melhore, Ben. Melhore e termine seu livro para que possamos ir embora de Lot juntos, se você me quiser. A cidade se tornou um lugar ruim para nós dois.
— É melhor você ir agora — disse o médico. — Talvez amanhã...
Ben se mexeu e emitiu um som gutural. Suas pálpebras abriram lentamente, fecharam e voltaram a abrir. Seus olhos estavam sedados, mas notaram a presença de Susan. Pousou a mão sobre a dela. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela sorriu e apertou a mão dele.
Ele moveu os lábios e ela se inclinou para ouvir.
— O pessoal dessa cidade é de matar, não?
— Ben, eu sinto tanto...
— Acho que quebrei dois dentes dele antes de ele me derrubar — sussurrou Ben. — Nada mau para um escritorzinho.
— Ben...
— Agora, chega, Sr. Mears — disse o médico. — A cola do avião precisa secar.
Ben olhou para o médico.
— Só um minuto.
O médico girou os olhos para cima.
— Foi o que ela disse.
As pálpebras de Ben caíram e voltaram a se erguer com dificuldade. Ele disse algo ininteligível. Susan inclinou-se mais.
— O que foi, querido?
— Já escureceu?
— Já.
— Você pode ir à casa de...
— Matt?
Ele assentiu com a cabeça.
— Diga-lhe que... eu quero que você saiba de tudo. Pergunte se ele... conhece o padre Callahan. Ele vai entender.
— Pode deixar — disse Susan. — Darei seu recado. Agora, durma, Ben.
— Certo. Eu te amo. — Ele murmurou outra coisa, duas vezes, e depois fechou os olhos e começou a respirar mais pesado.
— O que ele disse? — perguntou o médico.
Susan franziu a testa.
— Acho que foi “tranque as janelas” — disse ela.
3
Eva Miller e Weasel Craig estavam na sala de espera quando ela voltou para buscar o casaco. Eva usava um antiquado casaco com uma gola de pele puída, obviamente reservado para grandes ocasiões, e Weasel parecia sumir dentro de uma jaqueta de motoqueiro grande demais para ele. Susan se alegrou ao vê-los.
— Como ele está? — perguntou Eva.
— Acho que vai ficar bom. — Ela repetiu o diagnóstico do médico, e o rosto de Eva relaxou.
— Que bom. O Sr. Mears parece ser um homem muito bom. Nunca aconteceu nada assim na minha pensão. Parkins Gillespie teve de trancar Floyd no xadrez dos bêbados. Mas ele não parecia bêbado. Só... abobado e confuso.
Susan sacudiu a cabeça.
— Floyd não é assim. Não mesmo.
Um momento de silêncio se seguiu.
— Ben é um ótimo sujeito — disse Weasel, dando um tapinha na mão de Susan. — Ele vai ficar bom logo, logo. Você vai ver.
— Vai, sim — disse Susan, apertando a mão dele entre as suas. — Eva, Callahan é o padre da igreja St. Andrew?
— É, por quê?
— Nada, curiosidade. Ouçam, obrigada por virem. Se puderem voltar amanhã...
— Vamos voltar — disse Weasel. — Claro que vamos, não é, Eva? — Ele passou o braço pela cintura dela, embora fosse difícil para ele abarcá-la em toda a sua extensão.
— Vamos, sim.
Susan andou até o estacionamento com eles e depois dirigiu de volta a Jerusalem’s Lot.
4
Quando ela bateu, Matt não abriu a porta nem gritou Entre!, como era seu costume. Em vez disso, uma voz cuidadosa que ela mal reconheceu disse: “Quem é?”, baixinho do outro lado da porta.
— Susie Norton, Sr. Burke.
Matt abriu a porta e ela sentiu um choque ao ver como ele mudara. Parecia velho e abatido. Em seguida ela notou que ele usava um pesado crucifixo dourado. Era tão estranho e ridículo ver aquele objeto cafona e barato por cima da camisa xadrez dele que ela quase riu — mas se conteve.
— Entre. Onde está o Ben?
Ela lhe contou o que houvera e ele sacudiu a cabeça, preocupado.
— Justo Floyd Tibbits resolveu dar uma de amante traído? Não podia ter acontecido em pior hora. Mike Ryerson foi trazido de Portland no fim da tarde para os preparativos fúnebres. E acho que nosso passeio até a Casa Marsten terá de ser adiado...
— Que passeio? E o que tem Mike?
— Você quer um café? — ele perguntou, desatento.
— Não. Quero saber o que está acontecendo. Ben disse que você pode me contar.
— Uma missão ingrata. É fácil para Ben pedir isso. Difícil é fazer. Mas vou tentar.
— O que...
Ele ergueu a mão.
— Antes, uma pergunta. Você e sua mãe foram à loja nova outro dia, não foram?
Susan franziu a testa.
— Fomos. Por quê?
— Diga-me o que achou do lugar e, mais especificamente, do dono.
— O Sr. Straker?
— Sim.
— Bom, ele é muito cortês — disse ela. — “Palaciano” talvez seja um termo mais preciso. Elogiou o vestido de Glynis Mayberry, e ela corou como uma colegial. Interessou-se pelo curativo no braço da Sra. Boddin, que se queimou com óleo quente, e lhe deu a receita de um cataplasma. Escreveu para ela e tudo. E quando Mabel entrou... — Ela riu ao lembrar.
— Sim?
— Ele buscou uma cadeira para ela — continuou Susan. — Não uma cadeira qualquer. Parecia mais um trono, todo de mogno e decorado. Ele foi buscar sozinho nos fundos sem parar de sorrir e conversar com as outras senhoras. Mas devia pesar uns 150 quilos. Ele depositou a cadeira no meio da loja e conduziu Mabel até ela, pelo braço. E ela dava risinhos. Quem já viu Mabel dar risinhos, já viu tudo. Depois, ele serviu café. Muito forte, mas excelente.
— Você gostou dele? — perguntou Matt, olhando-a com atenção.
— Tudo isso está relacionado, não é? — perguntou ela.
— Pode ser que sim.
— Certo, vou lhe dar o ponto de vista feminino. Gostei e não gostei. Senti atração por ele de modo vagamente sexual. Um homem mais velho, urbano, muito cortês e refinado. Dava para ver que ele saberia o que pedir num restaurante francês e que vinho escolher, a safra e a vinícola. O oposto dos tipos que temos por aqui. Mas sem ser efeminado. Ágil, como um bailarino. E um homem tão despudoradamente careca sempre tem algo de atraente. — Ela sorriu, meio na defensiva, sabendo que estava vermelha, com medo de ter falado demais.
— Mas também não gostou — disse Matt.
Ela encolheu os ombros.
— Isso é mais difícil de definir. Acho... acho que senti um certo desprezo sob aquela fachada. Um certo cinismo. Como se ele estivesse interpretando um papel, e interpretando bem, mas sabendo que não teria de se esforçar demais para nos enganar. Um ar um pouco superior. — Ela pareceu incerta. — E senti um toque de crueldade nele. Não sei bem o porquê.
— Alguém comprou alguma coisa?
— Quase nada, mas ele não se importou. Mamãe comprou uma estante iugoslava para colocar bibelôs e a Sra. Petrie comprou uma linda mesinha dobrável, mas foi só. Ele não se importou. Só pediu que falássemos da loja aos amigos e que voltássemos sempre. O velho charme europeu.
— E acha que ele agradou?
— De modo geral, sim — disse Susan, comparando o entusiasmo de sua mãe por R. T. Straker com a antipatia imediata que sentira por Ben.
— Viu o sócio dele?
— O Sr. Barlow? Não, ele está em Nova York, fazendo compras.
Será que está mesmo?, disse Matt para si mesmo.
— Não sei. O misterioso Sr. Barlow.
— Sr. Burke, não é melhor me contar o que está acontecendo?
Ele deu um longo suspiro.
— Acho que devo tentar. O que você me contou agora é muito preocupante. Muito. Encaixa perfeitamente com...
— Com o quê?
— Preciso começar contando meu encontro com Mike Ryerson no Dell’s ontem à noite... que parece ter sido há um século.
5
Eram 20h20 quando ele terminou, depois de cada um ter tomado duas xícaras de café.
— Acho que isso é tudo — disse Matt. — E agora devo imitar Napoleão Bonaparte? Ou lhe contar minhas conversas astrais com Toulouse-Lautrec?
— Não seja bobo — disse ela. — Algo está acontecendo, mas não o que o senhor pensa. Deve saber disso.
— Sabia até a noite de ontem.
— Se ninguém tem nada contra o senhor, como Ben sugeriu, então Mike pode ter feito aquilo consigo mesmo. Talvez estivesse delirando. — Ela sabia que não fora convincente, mas continuou assim mesmo. — Ou talvez tenha dormido sem perceber e sonhado tudo isso. Já me aconteceu isso antes.
Ele encolheu os ombros, cansado.
— Como dar um testemunho que nenhuma pessoa racional vai aceitar? Eu sei o que ouvi. Não estava dormindo. E agora estou muito preocupado. Segundo a literatura gótica, vampiros não podem ir entrando na casa de alguém para sugar seu sangue. Precisam ser convidados. Mike Ryerson convidou Danny Glick para entrar ontem à noite. E eu convidei Mike!
— Matt, Ben lhe falou sobre seu novo livro?
Ele brincou com o cachimbo, mas não o acendeu.
— Muito pouco. Só que tinha ligação com a Casa Marsten.
— Ele não contou que teve uma experiência muito traumática na Casa Marsten quando era criança?
Matt ergueu os olhos, surpreso.
— Na própria casa? Não.
— Ele queria ser aceito por um clube de meninos, e como prova de coragem teve de entrar na Casa Marsten e trazer algo de dentro. Ele entrou e, antes de sair, foi até o quarto no segundo andar, onde Hubie Marsten se enforcou. Quando abriu a porta, viu Hubie pendurado. Ele abriu os olhos, e Ben fugiu. Isso o perseguiu durante 24 anos. Agora voltou a Lot para tentar exorcizar esse fantasma através da escrita.
— Santo Deus — disse Matt.
— Ele tem... uma certa teoria sobre a Casa Marsten, que nasceu em parte de sua experiência e em parte de uma incrível pesquisa que ele fez sobre Hubert Marsten.
— Sobre sua tendência a adorar o demônio?
— Como sabe? — ela perguntou, surpresa.
Ele sorriu com melancolia.
— Nas cidades pequenas, nem todas as fofocas são públicas. Algumas são secretas. E uma delas dizia respeito a Hubie Marsten. Hoje só um punhado de pessoas mais velhas conhece essa história. Mabel Werts é uma delas. Mas nem mesmo ela a comenta com ninguém fora de seu círculo íntimo. Todos falam do suicídio, do assassinato. Mas se alguém perguntar sobre os dez anos em que ele morou com a mulher naquela casa, fazendo Deus sabe o quê, um pacto de silêncio se instala, talvez a coisa mais próxima de um tabu que a civilização ocidental conhece. Houve até boatos de que Hubert Marsten raptou e sacrificou crianças pequenas a seus deuses infernais. Estou surpreso que Ben tenha descoberto tudo isso. O sigilo em torno desse aspecto de Hubie e sua mulher é quase tribal.
— Ele não descobriu em Lot.
— Então está explicado. Desconfio que a teoria dele seja um velho clichê parapsicológico. Que os seres humanos fabricam o mal assim como produzem muco, excremento ou outras secreções. E que permanece no lugar. É como se a Casa Marsten tivesse se tornado uma pilha carregada de mal, uma bateria maligna.
— Isso mesmo, foram esses os termos que ele usou — disse ela, espantada.
Ele deu uma risada seca.
— Nós lemos os mesmos livros. Mas o que você acha, Susan? Sua filosofia vai além do céu e da terra?
— Não — disse ela com firmeza. — Casas não passam de casas. O mal só existe enquanto é perpetrado.
— Está sugerindo que posso arrastar Ben junto comigo para o caminho da loucura?
— Não, claro que não. Não acho que esteja louco, Sr. Burke, mas deve saber que...
— Silêncio!
Ele inclinou a cabeça, atento. Ela parou de falar e prestou atenção. Não ouviu nada, exceto talvez o rangido de uma tábua. Ela o olhou interrogativamente, mas ele sacudiu a cabeça.
— O que você dizia?
— Que infelizmente esse é um mau momento para Ben exorcizar demônios da infância. Tenho ouvido muitos boatos mesquinhos na cidade desde que a Casa Marsten voltou a ser habitada e que a loja abriu. E também ouvi boatos sobre Ben. Ritos de exorcismo às vezes saem do controle e se voltam contra o exorcista. Acho que Ben precisa sair desta cidade e que o senhor precisa passar uns tempos fora dela, Sr. Burke.
Ao falar de exorcismo, Susan lembrou que Ben lhe pedira que falasse do padre católico para Matt. Obedecendo a um impulso, ela decidiu não fazê-lo. O motivo do pedido se tornara claro, mas ela não queria colocar mais lenha numa fogueira que, na sua opinião, já estava alta demais. Se Ben lhe perguntasse, ela diria que esquecera.
— Sei que deve parecer uma loucura — disse Matt. — Até para mim, que ouvi a janela se abrindo, a risada, e vi a tela da janela no jardim esta manhã. Mas, para tranquilizá-la, devo dizer que a reação de Ben a tudo isso foi bastante sensata. Sugeriu que agíssemos como se fosse uma teoria a ser provada ou refutada, começando por... — Ele parou de falar outra vez e prestou atenção.
Dessa vez o silêncio se estendeu, e quando ele voltou a falar, a certeza serena na voz dele a assustou.
— Tem alguém lá em cima.
Ela prestou atenção. Nada.
— É imaginação.
— Conheço minha casa — disse ele. — Tem alguém no quarto de hóspedes. Agora, ouviu?
E daquela vez ela ouviu. Uma tábua rangendo, um som típico de casas velhas. Mas que pareceu a Susan furtivo e secreto.
— Vou subir — disse ele.
— Não! — exclamou ela impulsivamente, e pensou: Agora quem começou a acreditar em fantasmas?
— Tive medo ontem à noite e não fiz nada. E as coisas pioraram. Agora vou subir.
— Sr. Burke...
Os dois falavam a meia-voz. A tensão corria nas veias dela, enrijecendo os músculos. Talvez houvesse mesmo alguém lá em cima. Um ladrão.
— Depois que eu sair, continue falando — disse ele. — Sobre qualquer coisa.
E, antes que ela pudesse protestar, ele levantou e se dirigiu para o corredor com uma agilidade espantosa. Olhou para trás, mas ela não conseguiu interpretar seu olhar. E começou a subir a escada.
Susan sentiu uma aura de irrealidade com aquela súbita reviravolta. Dois minutos antes, eles discutiam a situação calmamente, sob a luz racional das lâmpadas. E agora ela sentia medo. Pergunta: se um psicólogo ficasse numa sala com um homem que acredita ser Napoleão durante um ano (ou dez ou vinte), qual seria o resultado final? Dois cientistas ou dois homens com a mão no peito da camisa?
Ela se pôs a falar:
— Ben e eu íamos até Camden no domingo. Sabe, onde filmaram A Caldeira do Diabo. Mas agora acho que teremos de esperar. Tem uma igrejinha linda lá, e...
Ela falava com desenvoltura, embora suas mãos estivessem contraídas sobre o colo. Sua mente estava clara, não tendo sido afetada por aquela conversa de vampiros e mortos-vivos. Era de sua espinha dorsal, de uma rede muito mais primitiva de nervos e gânglios, que o terror emanava em ondas.
6
Subir a escada foi a coisa mais difícil que Matt Burke fizera na vida. Nada mais sequer se comparava. A não ser, talvez, uma coisa.
Aos oito anos, ele fizera parte de uma equipe de escoteiros. A sede ficava a um quilômetro de distância, e a ida pela estrada era tranquila, enquanto o sol da tarde ainda brilhava. Mas na volta a noite começava a cair, liberando as sombras que cruzavam a estrada em longas formas. E quando as reuniões eram mais animadas e acabavam tarde, ele precisava voltar no escuro. Sozinho.
Sozinho. Sim, é essa a palavra mais terrível de todas. “Assassinato” não chega aos pés, e “inferno” é apenas um sinônimo inferior.
Havia uma igreja metodista abandonada no caminho, que se erguia em ruínas no atol de um gramado coberto de geada. E quando ele passava pelas janelas silenciosas que o observavam, seus passos pareciam ficar mais altos, o assobio morria em seus lábios, e ele pensava como devia ser lá dentro — os bancos virados, os hinários apodrecidos, o altar decrépito onde apenas ratos ainda se reuniam, e se perguntava o que haveria lá além de ratos — loucos, monstros. Talvez eles o espiassem com olhos amarelos de répteis. E talvez uma noite não se contentassem em espiar, e aquela porta lascada e torta subitamente se abriria, e ele veria algo que o enlouqueceria na mesma hora.
Ele não podia explicar aquilo aos pais, que eram criaturas da luz. Assim como não podia lhes explicar que, aos três anos, o cobertor aos pés do berço se transformava em cobras que o observavam com olhos fixos e sem pálpebras. Nenhuma criança consegue vencer esses medos, pensou ele. Ninguém supera medos que nunca foram articulados. E os temores presos nas mentes infantis são grandes demais para caber em palavras. Com o tempo, todos se acostumam a passar na frente de casarões abandonados. Até aquela noite. Naquela noite, ele descobriu que seus velhos medos não haviam morrido. Permaneciam vivos, guardados nos baús da infância.
Ele não acendeu a luz. Subiu um a um os degraus, evitando o sexto, que rangia. Agarrava o crucifixo com a mão suada e trêmula.
Chegou ao alto e se virou em silêncio para o corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta. Ele a deixara fechada. Do andar de baixo, vinha o som constante da voz de Susan.
Andando com cautela para não fazer barulho, ele foi até a porta e parou diante dela. A base de todos os medos humanos, pensou ele. Uma porta entreaberta.
Ele a empurrou.
Mike Ryerson estava deitado na cama.
O luar entrava pelas janelas, tornando o quarto um lago prateado. Matt sacudiu a cabeça, tentando clareá-la. Parecia que ele voltara no tempo, para a noite anterior. Desceria e ligaria para Ben, porque ele ainda não fora para o hospital, e...
Mike abriu os olhos.
Eles cintilaram por um momento à luz do luar, prateados entre círculos vermelhos. Estavam inexpressivos e sem vida. Não havia nada de humano neles. Os olhos são as janelas da alma, dissera Wordsworth. Se era verdade, aquelas janelas davam para um cômodo vazio.
Mike sentou, derrubando o lençol e descobrindo o peito, e Matt viu os pontos grosseiros com que o patologista fechara o corte da autópsia.
Mike sorriu, mostrando os caninos e os incisivos brancos e afiados. O sorriso não passava de uma flexão de músculos. Não afetava o olhar, que mantinha uma inexpressividade mortal.
Mike disse com muita clareza.
— Olhe para mim.
Matt olhou. Sim, os olhos estavam vazios, mas muito profundos. Dava quase para ver pequenos camafeus de si mesmo nos poços daqueles olhos, boiando docemente, tornando o mundo sem importância, os medos sem importância...
Ele recuou um passo e gritou:
— Não! Não!
E estendeu o crucifixo.
A criatura que seria Mike Ryerson silvou como se tivesse recebido água fervente no rosto. Levantou os braços num gesto de defesa. Matt avançou um passo, fazendo Ryerson recuar.
— Saia daqui! — bradou Matt. — Eu retiro meu convite!
Ryerson gritou, um som agudo e ululante, cheio de ódio e dor. Deu quatro passos vacilantes para trás. As pernas encostaram no peitoril da janela aberta, e ele cambaleou, perdendo o equilíbrio.
— Você dormirá o sono dos mortos, professor.
E ele caiu de costas na escuridão, com as mãos estendidas sobre a cabeça, como um mergulhador, o corpo pálido feito mármore contrastando com os pontos pretos que cruzavam seu tronco formando um Y.
Matt soltou um grito aterrorizado e correu até a janela. Não conseguiu ver nada na noite enluarada, a não ser partículas móveis que podiam ser de poeira, suspensas no ar sob a janela e sobre o quadrado de luz da sala. Elas rodopiaram, uniram-se formando um vulto humanoide e depois desapareceram no nada.
Matt se virou para correr dali, e foi então que a dor atravessou seu peito e o fez cambalear. Ele levou a mão ao coração e se dobrou. A dor parecia subir pelo seu braço em ondas pulsantes. O crucifixo oscilava sob seus olhos.
Saiu do quarto com os braços cruzados sobre o peito, ainda agarrando a corrente do crucifixo, ainda pensando em Mike Ryerson suspenso na escuridão como um lívido mergulhador.
— Sr. Burke!
— Meu médico é James Cody — disse ele entre lábios frios como neve. — Está na agenda. Acho que estou tendo um infarto.
E ele desabou no meio do corredor.
7
Ela discou o número marcado ao lado das palavras JIMMY CODY, CHARLATÃO. As palavras estavam escritas com a clara letra de forma que ela lembrava tão bem de seus tempos de colégio. Uma voz feminina atendeu, e Susan disse:
— O médico está? É uma emergência!
— Está — disse a mulher calmamente. — Um segundo.
— Aqui é o Dr. Cody.
— Aqui é Susan Norton. Estou na casa do Sr. Burke. Ele teve um infarto.
— Quem? Matt Burke?
— Sim. Ele está inconsciente. O que devo...
— Chame uma ambulância — disse ele. — Em Cumberland, o número é 841-4000. Fique ao lado dele. Cubra-o com um cobertor, mas não o tire do lugar. Entendeu?
— Sim.
— Chegarei em vinte minutos.
— Você vai...
Mas ele desligara, e ela ficou sozinha.
Ligou para a ambulância e depois voltou a ficar sozinha, diante da missão de subir até onde Matt estava.
8
Ela olhou para a escada com um temor que lhe pareceu incrível. Desejava que nada daquilo tivesse acontecido, não pelo bem-estar de Matt, mas para não ter de sentir aquele medo doentio. Não acreditara naquela história espantosa, e interpretara o que Matt lhe contara em termos puramente racionais. Mas a firme descrença que a sustentara até então começava a se esvair, e ela se sentia em queda livre.
Ouvira a voz de Matt e depois um terrível augúrio: Você dormirá o sono dos mortos, professor. A voz que dissera aquelas palavras não tinha nada de humana.
Ela voltou a subir, obrigando-se a vencer cada degrau. A luz do corredor não ajudava muito. Matt estava onde ela o deixara, o rosto virado de lado contra o carpete gasto do corredor, respirando de modo ofegante e entrecortado. Ela abriu os dois botões superiores da camisa, e a respiração pareceu melhorar um pouco. Depois entrou no quarto de hóspedes para pegar um cobertor.
O quarto estava frio, a janela, aberta. A cama estava despida, exceto pelo revestimento do colchão, mas havia uma pilha de cobertores na última prateleira do armário. Quando se virou para voltar ao corredor, algo no chão perto da janela brilhou ao luar. Ela parou para apanhar o objeto e o reconheceu imediatamente. Era um anel do Colégio de Cumberland. As iniciais gravadas no interior eram M.C.R.
Michael Corey Ryerson.
E por um momento, na escuridão, ela acreditou. Acreditou em tudo. Um grito nasceu em sua garganta e ela o sufocou, mas derrubou o anel, que caiu no chão perto da janela, brilhando sob o luar de outono.