'Salem

Stephen King · Capítulo 16 de 22

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'Salem

Capítulo Doze – MARK

Capítulo Doze

 

MARK

 

Capítulo Doze – MARK

 

1

 

Quando ouviu os passos de alguém se aproximando sobre os gravetos, ele se escondeu atrás do tronco de uma grande árvore e esperou para ver quem era. Eles não podiam sair de dia, mas deviam ter outros a seu serviço que podiam. Dar-lhes dinheiro era um jeito de conseguir isso, mas não o único. Mark vira o tal de Straker na cidade — tinha olhos como os de um sapo esquentando-se ao sol. Parecia ser capaz de quebrar o braço de um bebê com um sorriso.

Apalpou a pesada pistola do pai que trazia no bolso do casaco. Balas não adiantavam contra eles — fora balas de prata, talvez —, mas um tiro no meio da testa daria um jeito naquele Straker.

Olhou de relance para o objeto cilíndrico que estava encostado na árvore, enrolado numa toalha velha. Havia uma pilha de lenha atrás de sua casa — achas de freixo que ele e o pai haviam cortado com a motosserra de McCulloch em julho e agosto. Henry Petrie era metódico, e Mark sabia que cada acha teria exatamente 90 centímetros. Seu pai sabia o tamanho certo, assim como sabia que o inverno vinha depois do outono e que o freixo produzia um fogo mais duradouro e higiênico na lareira da sala.

Mas o filho sabia de outras coisas, como o que fazer para acabar com aquela coisa. Naquela manhã, enquanto os pais davam seu passeio dominical, ele pegou uma acha e, com a machadinha dos escoteiros, talhou uma das extremidades formando uma ponta. O resultado ficou grosseiro, mas serviria.

Ele viu um lampejo colorido e se encolheu atrás da árvore, espiando por trás do tronco. Não demorou para que visse a pessoa que subia o monte. Era uma moça. Ele sentiu um misto de alívio e decepção. Não era nenhum ajudante do demônio que se aproximava, e sim a filha da Sra. Norton.

Apurou a visão mais uma vez. Ela também trazia uma estaca! Quando ela chegou mais perto, ele sentiu vontade de rir. Era a ripa de uma cerca, que podia ser partida em dois com um simples golpe de martelo.

Ela passaria por ele pela direita. Quando chegou mais perto, ele começou a deslizar cuidadosamente para o lado esquerdo da árvore, evitando pisar em gravetos e revelar sua presença. Finalmente ele completou o movimento sincronizado, e ela estava de costas para ele, subindo o monte em direção à margem da floresta. Andava com muito cuidado, notou ele com aprovação. Isso era bom. Apesar da ridícula estaca de cerca, ela parecia ter alguma ideia do que estava fazendo. Mas, se avançasse muito, teria problemas. Straker estava em casa. Mark chegara lá ao meio-dia e meia e vira Straker sair até a entrada para carros, olhar a estrada e voltar para a casa. Estava justamente tentando decidir o que fazer quando aquela moça entrou em cena, perturbando a equação.

Talvez não acontecesse nada a ela. Parara atrás de uma barreira de arbustos e se agachara lá, olhando para a casa. Mark refletiu por um momento. Era óbvio que ela sabia. Não importava como, mas ela não teria trazido aquela estaca lamentável se não soubesse. Precisava avisá-la que Straker ainda estava na casa, de guarda. Ela não devia ter uma arma, nem uma pequena como a dele.

Estava pensando em como abordá-la sem que ela gritasse feito uma louca quando o motor do carro de Straker rugiu. Ela deu um salto, e ele temeu que saísse correndo, desembestando pela mata e anunciando sua presença. Mas ela se agachou novamente, agarrando a grama como se tivesse medo que o chão lhe faltasse. Ela tem coragem, mesmo sendo burra, pensou ele com aprovação.

O carro de Straker saiu de ré da garagem — ela devia estar vendo bem melhor de onde estava; ele via apenas o teto preto do Packard —, hesitou um pouco e depois pegou a estrada em direção à cidade.

Mark decidiu que precisavam se unir. Qualquer coisa era melhor do que entrar naquela casa sozinho. Ele já provara a atmosfera envenenada que a cercava. Sentira-a a meio quilômetro de distância, e ela se acentuava quanto mais ele chegava perto.

Ele subiu de mansinho a elevação acarpetada de folhas e apoiou a mão no ombro da moça. Sentiu o corpo dela enrijecer, percebeu que ia gritar e disse:

— Não grite. Está tudo bem. Sou eu.

Ela não gritou. Apenas deixou escapar o ar com expressão aterrorizada. Olhou para ele, pálida.

— Eu... quem?

Mark se sentou ao lado de Susan.

— Meu nome é Mark Petrie. Eu conheço você. É Sue Norton. Meu pai conhece seu pai.

— Petrie...? Henry Petrie?

— Isso, é meu pai.

— O que você está fazendo aqui? — Ela não parava de olhá-lo de cima a baixo, como se ainda não tivesse conseguido assimilar sua presença.

— O mesmo que você. Só que sua estaca não vai funcionar. É muito... — Ele procurou uma palavra que entrara em seu vocabulário graças às leituras, mas que ele nunca usara. — É muito tênue.

Ela olhou para sua ripa de cerca e chegou a corar.

— Isto? Eu encontrei no meio do mato. Alguém podia cair em cima e se machucar, então eu...

Mark a interrompeu com impaciência.

— Você veio matar o vampiro, não é?

— De onde você tirou essa ideia de vampiro?

— Um vampiro tentou me atacar ontem à noite. E quase conseguiu — disse ele, sério.

— Que absurdo. Um mocinho como você não devia inventar essas...

— Era Danny Glick.

Susan recuou e seus olhos se apertaram como se ele a tivesse acertado com um soco, e não com palavras. Estendeu a mão trêmula e pegou o braço de Mark. Olhou nos olhos dele.

— Você está inventando isso, Mark?

— Não — disse ele, e contou o que lhe acontecera em poucas frases simples.

— E você veio até aqui sozinho? — perguntou Susan quando ele terminou. — Você acreditou nisso e veio até aqui sozinho?

— Se eu acreditei? — Ele a olhou, francamente intrigado. — Claro que acreditei. Eu vi, não foi?

Susan ficou sem resposta. De repente, sentiu vergonha de ter duvidado (não, dúvida era uma palavra suave demais) da história que Matt contara e que Ben aceitara depois de tanta hesitação.

— E você, como veio parar aqui?

Ela hesitou um pouco, e depois disse:

— Algumas pessoas na cidade desconfiam que tem um homem naquela casa que ninguém viu ainda. E que ele pode ser um... um... — Susan ainda não conseguia dizer a palavra, mas ele assentiu num gesto de compreensão. Mesmo conhecendo-o tão pouco, ele lhe parecia um menino extraordinário. Abreviando tudo que podia ter acrescentado, ela disse: — E eu vim ver se é verdade.

Ele indicou a estaca com um gesto de cabeça.

— E trouxe isto para espetar no peito dele?

— Não sei se seria capaz.

— Eu seria — declarou ele calmamente. — Depois do que eu vi ontem... Danny se grudou do lado de fora da minha janela como uma mosca gigante. E seus dentes.... — Ele sacudiu a cabeça, afastando o pesadelo.

— Seus pais sabem que você está aqui? — perguntou Susan, já sabendo a resposta.

— Não. Domingo é o dia de encontrarem a natureza. Vão observar pássaros de manhã e de tarde fazem outras coisas. Às vezes vou com eles, às vezes não. Hoje foram dar uma volta pela costa.

— Você é um menino e tanto — disse ela.

— Não sou, não — disse Mark, sem se abalar com o elogio. — Mas vou dar um jeito nele! — Olhou para a casa.

— Tem certeza...

— Claro que tenho. E você também tem. Não sente como ele é mau? A casa não dá medo, só de olhar para ela?

— Dá — admitiu ela. A lógica dele era a dos terminais nervosos, e, ao contrário dos argumentos de Ben ou Matt, era irresistível.

— Como vamos fazer? — perguntou ela, passando automaticamente a liderança para ele.

— Vamos até lá e entramos na casa. Encontramos ele, enfiamos a estaca, minha estaca, no coração dele e saímos de novo. Ele deve estar no porão. Eles gostam de lugares escuros. Você trouxe uma lanterna?

— Não.

— Droga, nem eu. — Ele raspou os pés calçados com tênis sobre as folhas. — E também não deve ter trazido uma cruz.

— Isso eu trouxe — disse Susan. Ela puxou a corrente de dentro da blusa e a mostrou. Mark assentiu e puxou uma corrente de dentro de sua própria camisa.

— Espero conseguir pôr isto de volta no lugar antes de meus pais chegarem — disse ele. — Tirei da caixa de joias da minha mãe. Vai ser um inferno se ela descobrir. — Ele olhou ao redor. As sombras haviam se alongado mais enquanto conversavam, e ambos sentiam um impulso de adiar e adiar.

— Quando a gente o encontrar, não olhe nos olhos dele — disse Mark. — Ele não pode sair do caixão antes de escurecer, mas pode prender a gente com os olhos. Você sabe alguma reza de cor?

Eles haviam começado a andar pelos arbustos entre a floresta e a grama alta da Casa Marsten.

— Bom, sei o Pai-Nosso...

— Já está bom. Essa eu sei também. Vamos dizer ao mesmo tempo enquanto espeto o coração dele.

Mark viu a expressão de Susan, de desânimo e repulsa, e apertou-lhe a mão. Sua calma e controle eram desconcertantes.

— Ouça, a gente tem de fazer isso. Aposto que ele pegou metade da cidade ontem à noite. Se a gente esperar mais, ele vai pegar a cidade toda. Agora vai ser rápido.

— Ontem à noite?

— Eu tive um sonho — disse ele. Sua voz continuava calma, mas seus olhos estavam sombrios. — Sonhei que eles batiam nas portas das casas ou ligavam para as pessoas implorando para entrar. Algumas pessoas no fundo sabiam quem eles eram, mas deixavam entrar assim mesmo. Era mais fácil do que achar que uma coisa tão ruim podia ser verdade.

— Foi só um sonho — disse ela, inquieta.

— Aposto que tem muitas pessoas deitadas na cama hoje, com as cortinas fechadas, achando que pegaram um resfriado ou uma gripe. Sentindo-se fracas e confusas. Não conseguem comer. Só de pensar em comer sentem vontade de vomitar.

— Como você sabe tudo isso?

— Leio revistas de monstros e vejo filmes desse tipo sempre que posso. Tenho de dizer a minha mãe que vou ver filmes do Walt Disney. Mas não dá para acreditar em tudo. Às vezes eles inventam coisas só para a história ficar mais sangrenta.

Estavam ao lado da casa. Somos uma equipe e tanto, pensou Susan. Um velho professor meio doido de tanto ler, um escritor obcecado com pesadelos da infância, um menino especialista em vampiros graças a filmes B e revistas baratas. E eu? Será que acredito? Fantasias paranoicas podem ser contagiosas?

Ela acreditava.

Como Mark dissera, era impossível duvidar estando perto da casa. Todos os processos mentais, o próprio ato de conversar, eram encobertos por uma voz mais fundamental, que gritava perigo! perigo! de modo inarticulado. Seu batimento cardíaco e ritmo respiratório haviam se acelerado, mas sua pele estava fria, porque a adrenalina dilatava os vasos capilares e fazia o sangue se retrair durante momentos de estresse. Sentia os rins pesarem. Seus olhos estavam estranhamente atentos, notando cada lasca e cada mancha na lateral da casa. E nenhum estímulo externo acionara todas essas reações. Não havia homens armados, cães ameaçadores, cheiro de fogo. Um vigia mais alerta do que seus cinco sentidos havia sido acordado depois de um longo sono. E era impossível ignorá-lo.

Susan espiou por uma fresta da veneziana.

— Nossa, eles não fizeram nada para restaurar a casa — disse ela, quase indignada. — Está uma bagunça.

— Deixe-me ver. Levante-me.

Ela entrelaçou os dedos para que Mark pudesse se apoiar e espiar a sala decrépita da Casa Marsten. Ele viu um cômodo deserto de linhas retas, com uma espessa camada de poeira no chão, papel de parede descascado, duas ou três poltronas velhas, uma mesa danificada. Teias de aranha enfeitavam os cantos das paredes, perto do teto.

Antes que Susan pudesse protestar, ele arrebentou a tranca que fechava a veneziana com a ponta lisa da estaca. A tranca enferrujada caiu no chão em dois pedaços, e a veneziana se abriu uns cinco centímetros.

— Ei! — protestou ela. — Você não devia...

— O que você quer fazer? Tocar a campainha?

Mark empurrou a persiana direita e deu uma pancada numa das vidraças empoeiradas. O vidro se quebrou por dentro. Susan sentiu o medo crescer dentro dela, quente e palpitante, deixando um gosto de cobre em sua boca.

— Ainda podemos fugir — disse ela, quase que para si mesma.

Mark a olhou sem nenhum desdém ou desprezo — só honestidade e um medo tão grande quanto o dela.

— Vai, se precisa ir — disse ele.

— Não. Não preciso. — Ela tentou engolir o nó na garganta, sem muito sucesso. — Rápido. Você está ficando pesado.

Mark quebrou os cacos restantes na vidraça, passou a estaca para a outra mão, passou o braço pelo buraco e abriu a janela, que gemeu fracamente quando ele a empurrou. O caminho estava aberto.

Ele desceu das mãos de Susan, e os dois olharam em silêncio para a janela. Depois ela deu um passo adiante, empurrou a veneziana até o fim, apoiou as mãos no peitoril da janela e se preparou para entrar. O medo que sentia era estonteante, insano. Finalmente ela entendia como Matt se sentira ao subir as escadas ao encontro daquilo que o aguardava no quarto de hóspedes.

Susan sempre dominara seus medos usando uma equação, consciente ou inconsciente: medo = desconhecido. Sendo assim, bastava resolver em termos algébricos. Desconhecido = tábua rangendo (por exemplo), tábua rangendo = nenhum motivo para ter medo. No mundo moderno, todos os temores podiam ser vencidos usando-se o axioma transitivo da igualdade. Alguns temores eram justificados (não se deve dirigir depois de beber, nem estender a mão para um cachorro raivoso, nem ir a lugares escuros com rapazes desconhecidos), mas até então ela não sabia que alguns medos iam além da compreensão, apocalípticos e quase paralisantes. Aquela equação era insolúvel. O simples ato de avançar um passo se tornava heroísmo.

Ela se ergueu agilmente, passou uma perna pelo peitoril, pulou para o chão poeirento da sala e olhou ao redor. Sentiu um cheiro no ar. Escoava das paredes num miasma quase visível. Tentou se convencer de que era apenas reboco velho ou o esterco acumulado de todos os animais que haviam se aninhado por trás do estuque rachado — marmotas, ratos, guaxinins. Mas não era isso. O cheiro era mais entranhado e profundo do que emanações animais. Lembrava lágrimas, vômito e trevas.

— Ei — Mark chamou baixinho, com as mãos sobre o peitoril. — Me dá uma mão.

Ela se inclinou, pegou-o pelas axilas e o puxou até ele se agarrar ao peitoril. Depois ele se içou facilmente. Saltou para o carpete, e a casa voltou a ficar silenciosa.

Eles ficaram escutando o silêncio, fascinados. Não ouviam nem sequer o fraco zumbido que reverbera na quietude total, o som dos terminais nervosos se estendendo no vazio. Sentiam apenas um silêncio morto e o pulsar do sangue nos ouvidos.

No entanto, ambos sabiam que não estavam sozinhos.

 

2

 

— Vamos — disse Mark. — Vamos dar uma olhada por aí. — Ele agarrou a estaca e, por um momento apenas, olhou com anseio para a janela.

Susan avançou lentamente para o corredor, e ele foi logo atrás. Ao lado da mesa havia uma mesinha e sobre ela um livro. Mark o pegou.

— Você sabe latim? — perguntou ele.

— Aprendi um pouco na escola.

— O que quer dizer isto? — Ele lhe mostrou a lombada do livro.

Ela murmurou as palavras, franzindo a testa. Depois, sacudiu a cabeça.

— Não sei.

Ele abriu o livro a esmo, depois se encolheu. Encontrara a imagem de um homem nu erguendo o corpo de uma criança estripada em direção a algo invisível. Ele largou o livro, aliviado assim que o soltou — seu toque lhe parecera estranhamente familiar —, e eles cruzaram o corredor em direção à cozinha. As sombras se acentuavam mais. O sol já estava do outro lado da casa.

— Está sentindo o cheiro? — perguntou ele.

— Estou.

— Está pior aqui, não é?

— Está.

Mark lembrou da despensa que sua mãe tinha na outra casa. Certo ano, três cestas de tomate apodreceram lá dentro, na escuridão. Era isso. Aquele cheiro parecia com o de tomates podres.

— Meu Deus, que medo... — sussurrou Susan.

Ele pegou a mão dela e a apertou forte.

O linóleo da cozinha era velho e esburacado, enegrecido em frente da velha pia de porcelana. Uma mesa grande e arranhada estava no centro, sobre ela um prato amarelo, uma faca e um garfo, um pedaço de hambúrguer cru.

A porta do porão estava entreaberta.

— É lá que temos de entrar — disse Mark.

— Ah... — disse Susan debilmente.

Pela fresta da porta, a luz não parecia penetrar. A língua da escuridão estendia-se faminta sobre a cozinha, esperando a noite chegar para engoli-la inteira. Aquela nesga de escuridão sugeria possibilidades terríveis. Susan permaneceu ao lado de Mark, imóvel e impotente.

Em seguida ele avançou, abriu a porta e ficou parado, olhando para baixo. Ela viu um músculo saltar sob seu maxilar.

— Acho que... — ele começou a dizer.

Foi então que Susan ouviu um ruído atrás de si e se virou, sabendo que era tarde demais. Straker estava lá, com um largo sorriso.

Mark se virou e o viu. Tentou correr e se desviar dele, mas o homem o acertou em cheio no queixo. E ele não viu mais nada.

 

3

 

Quando voltou a si, Mark estava sendo arrastado por uma escada — mas não era a do porão. Não sentiu a clausura da pedra, e o ar não era fétido. Ousou abrir as pálpebras somente uma fresta, sem mexer a cabeça, que manteve inerte. Uma escada que subia... para o segundo andar. Ele via claramente. O sol ainda não se pusera. Havia uma esperança, então.

Chegaram ao topo e, de repente, os braços que o seguravam o soltaram. Ele caiu pesadamente no chão, batendo a cabeça.

— Acha que não sei quando alguém está se fazendo de morto, jovem mestre? — perguntou Straker.

Mark o olhou. De onde estava, ele parecia ter três metros. Sua cabeça calva reluzia na semiobscuridade. O menino viu, com horror, que ele tinha uma corda sobre o ombro. Levou a mão ao bolso, onde guardara a pistola.

Straker riu, jogando a cabeça para trás.

— Tomei a liberdade de retirar a arma, jovem mestre. Meninos não devem brincar com armas... assim como não devem entrar com mocinhas numa casa onde sua presença não foi solicitada.

— O que você fez com Susan Norton?

Straker sorriu.

— Levei-a aonde ela pretendia ir, meu rapaz. Ao porão. Mais tarde, quando anoitecer, ela encontrará o homem que veio aqui para conhecer. Você também o conhecerá, se não esta noite, na de amanhã. Talvez ele o ofereça à moça... mas acho que preferirá cuidar de você pessoalmente. A moça terá seus amigos para encontrar, alguns deles intrometidos como você.

Mark chutou com ambos os pés a virilha de Straker, mas este se desviou, ágil como um bailarino. Sem perder tempo, deu um pontapé, atingindo em cheio os rins de Mark.

O menino mordeu os lábios e se contorceu no chão. Straker deu uma risada.

— Vamos, jovem mestre. Levante-se.

— Não... consigo.

— Então, rasteje — disse o homem com desdém. Chutou-o de novo, dessa vez acertando o músculo de sua coxa. A dor era terrível, mas Mark cerrou os dentes. Apoiou-se sobre os joelhos e depois sobre os pés.

Eles avançaram pelo corredor em direção à porta no final. A dor nos rins se transformara numa pontada surda e insistente.

— O que você vai fazer comigo?

— Vou amarrá-lo como um peru de natal, jovem mestre. Mais tarde, depois que meu Mestre tiver estabelecido relações com você, poderá ir.

— Como os outros?

Straker sorriu.

Quando Mark empurrou a porta e entrou no quarto onde Hubert Mastern se suicidara, algo singular aconteceu em sua mente. Não que o medo tivesse ido embora, mas ele parou de bloquear sua mente, de emperrar seu funcionamento. Seus pensamentos começaram a se processar com espantosa rapidez, não em palavras ou em imagens, mas num tipo de estenografia simbólica. Sentiu-se como uma lâmpada que acabara de receber uma carga de energia de uma fonte desconhecida.

O quarto em si era bastante prosaico. O papel de parede, rasgado, mostrava o reboco branco e a parede por trás. O chão, coberto pela poeira do tempo, revelava apenas uma sequência de pegadas, como se alguém tivesse entrado uma vez, olhado ao redor e saído. Mark viu duas pilhas de revistas, uma cama de ferro fundido, sem molas ou colchão, e uma pequena chapa de estanho com uma desbotada marca da Currier & Ives, que outrora bloqueara o buraco da chaminé. A veneziana da janela estava fechada, mas a luz que se filtrava pelas lâminas quebradas permitiu que Mark calculasse que ainda restava uma hora de luz do dia. Uma aura sórdida impregnava o cômodo.

Ele levou apenas cinco segundos para abrir a porta, ver tudo isso e chegar ao centro do quarto, onde Straker lhe disse para parar. Nesse curto período, sua mente correra por três faixas e vira três possíveis desfechos para a situação em que se encontrava.

Numa, ele saltava em direção à janela e tentava atravessar a veneziana e o vidro como o herói de um filme de caubói, atirando-se com esperança cega rumo ao desconhecido. Mentalmente, ele se viu atravessando a janela e caindo sobre uma pilha enferrujada de equipamentos agrícolas, passando os últimos segundos de sua vida empalado nas lâminas de um arado como um inseto num alfinete. Ou chocando-se contra o vidro sem que este se quebrasse. Viu Straker puxando-o para trás, suas roupas rasgadas, o corpo lacerado e sangrando em vários lugares.

Na segunda faixa, viu Straker amarrando-o e partindo. Viu-se amarrado no chão enquanto o dia morria, debatendo-se de modo cada vez mais frenético (e inútil) até finalmente ouvir os passos na escada de alguém mil vezes pior do que Straker.

Na terceira faixa, viu-se usando um truque que lera num livro sobre Houdini. Houdini fora um mágico famoso, que escapava de celas de cadeia, de caixas acorrentadas, de cofres de banco, de baús atirados em rios. Conseguia se livrar de cordas, de algemas, de armadilhas chinesas. O livro dizia que uma das coisas que ele fazia era prender a respiração e apertar bem as mãos enquanto um voluntário da plateia o amarrava. Inchava as coxas, os antebraços e os músculos do pescoço. Assim, quando relaxava os músculos, sobrava uma pequena folga. O truque era relaxar completamente e começar a fugir com calma e lentidão, sem deixar o pânico atrapalhar. Aos poucos, a transpiração agia como uma graxa, o que também ajudava. Pelo livro, parecia bem fácil.

— Vire-se — disse Straker. — Vou amarrá-lo. Não se mexa. Se você se mexer, vou usar isto — e ele mostrou o polegar para Mark, como alguém pedindo carona — para arrancar seu olho direito. Entendeu?

Mark fez que sim. Respirou o mais fundo que podia e contraiu todos os músculos. Straker jogou a corda sobre uma das vigas.

— Deite-se — disse ele.

Mark obedeceu.

Straker cruzou as mãos do menino atrás das costas e as amarrou com força. Depois, passou a corda pelo pescoço de Mark e fez um nó de enforcado.

— Você está preso à mesma viga em que o amigo e patrocinador de meu Mestre neste país se enforcou, jovem mestre. Sente-se honrado?

Passou a corda por baixo da virilha de Mark e apertou o laço com um puxão brutal, fazendo o menino gemer. Straker riu com monstruoso bom humor.

— Seu saco doeu? Logo não vai mais doer. Você vai levar uma vida de asceta, meu rapaz. Uma vida muito, muito longa.

Straker passou a corda pelas coxas contraídas de Mark, apertou o nó, passou-a pelos joelhos e também pelos tornozelos. O menino precisava desesperadamente de ar, mas continuou a prender a respiração.

— Você está tremendo, jovem mestre — escarneceu Straker. — Seu corpo está todo tenso e contraído. E sua pele está branca.... mas ficará ainda mais. Mas não precisa ter tanto medo. Meu Mestre sabe ser bondoso. Ele é muito amado, aqui mesmo, na sua cidade. É só uma picadinha, como uma injeção, e depois vem o bem-estar. E mais tarde você será libertado. E irá visitar seus pais, está bem? Irá visitá-los depois que dormirem.

Ele se levantou e olhou Mark com benevolência.

— Direi adeus por enquanto, jovem mestre. Preciso cuidar do conforto de sua linda companheira. Quando nos encontrarmos novamente, você gostará mais de mim.

Ele saiu, batendo a porta. Uma chave girou na fechadura. E, enquanto ele descia as escadas, Mark soltou a respiração e relaxou os músculos com um grande suspiro de alívio.

As cordas que o amarravam se afrouxaram — um pouco.

Ele ficou imóvel, se recobrando. Sua mente continuava a funcionar com a mesma velocidade sobrenatural. De onde estava, olhou por sobre o piso irregular para a cama de ferro. Viu a parede ao lado. O papel de parede que se soltara daquele local jazia ao lado da cama como uma pele de cobra descartada. Ele fixou o olhar numa pequena porção da parede. Expulsou todo o resto do cérebro. O livro sobre Houdini dizia que a concentração era a chave. Nenhum medo ou pânico podia se insinuar na mente. O corpo precisava estar totalmente relaxado. E a fuga tinha de ocorrer na mente antes que qualquer movimento fosse feito. Cada etapa precisava existir concretamente na mente.

Ele olhava para a parede enquanto os minutos passavam. A parede era branca e irregular, como a tela de um velho drive-in.

Finalmente, quando seu corpo estava relaxado até o último grau, ele começou a se projetar naquela tela, um menino de camiseta azul e jeans Levi’s. O menino estava de lado, com os braços para trás, os pulsos presos logo acima dos quadris. Um nó corrediço envolvia seu pescoço, e qualquer movimento brusco apertaria aquele nó inexoravelmente até bloquear sua respiração e obscurecer sua mente.

Ele olhava para a parede. Sobre ela, a figura começara a se mexer cuidadosamente, embora ele mesmo continuasse totalmente imóvel. Fascinado, ele observava cada movimento do simulacro. Seu nível de concentração era semelhante ao dos faquires e iogues indianos, que são capazes de contemplar os dedos dos pés ou a ponta do nariz durante dias, ou o de certos médiuns, que fazem mesas levantar ou extraem longas tiras de teleplasma do nariz, da boca, dos dedos. Era um estado próximo ao sublime. Ele não pensava em Straker ou no dia que expirava. Não via mais o piso áspero, a cama de ferro, nem mesmo a parede. Via apenas o menino, que executava uma pequena coreografia com músculos cuidadosamente controlados.

Ele olhava para a parede.

E finalmente começou a mexer os próprios punhos em semicírculos, um em direção ao outro. No final de cada semicírculo, as laterais de suas palmas se tocavam. Os únicos músculos que se moviam eram os das extremidades dos antebraços. Ele não se apressava. Olhava para a parede.

Quando o suor brotou de seus poros, seus pulsos começaram a girar com mais facilidade. Os meios círculos se ampliaram. No final de cada um, ele pressionava os dorsos das mãos um contra o outro. As cordas que os prendiam se afrouxaram um pouquinho mais.

Ele parou.

Depois de um momento, ele começou a flexionar os polegares contra as palmas e pressionar os dedos num movimento sinuoso. Seu rosto estava totalmente inexpressivo, como o de um manequim numa vitrine.

Cinco minutos se passaram. Suas mãos suavam profusamente agora. O nível extremo de sua concentração lhe permitia controlar parcialmente seu sistema nervoso simpático, outro traço dos iogues e faquires, e, sem perceber, ele começou a controlar as funções involuntárias de seu organismo. O suor abundante não se justificava apenas por seus movimentos cuidadosos. Suas mãos estavam gordurosas. Gotículas de suor caíam de sua testa, escurecendo a poeira do chão.

Ele começou a mexer os braços para cima e para baixo como um êmbolo, passando a usar os bíceps e os músculos das costas. O nó se apertou um pouco, mas ele sentiu que um dos laços começava a escorregar em direção a sua mão direita. Encostou no seu polegar e parou. O entusiasmo o invadiu, e ele parou imediatamente até que a emoção se extinguisse por completo. Depois, recomeçou. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Ganhava uma fração de centímetro a cada vez. E, de repente, sua mão direita estava livre.

Ele não a mexeu, apenas a flexionou. Quando viu que não estava dormente, passou os dedos sob o laço que prendia seu pulso esquerdo e o puxou. A mão esquerda se libertou.

Ele trouxe as duas mãos para frente e as apoiou no chão. Fechou os olhos por um instante. O truque agora era não achar que já conseguira. O truque era agir com grande deliberação.

Apoiando-se na mão esquerda, ele apalpou com a direita o nó áspero que prendia o laço em seu pescoço. Viu imediatamente que teria de quase se enforcar para se libertar, e aumentaria ainda mais a pressão sobre seus testículos, que já latejavam.

Respirou fundo e começou a soltar o nó. A corda retesava-se gradualmente, apertando seu pescoço e virilha. As cerdas grosseiras da corda enterravam-se em seu pescoço. O nó resistiu durante um tempo que pareceu infinito. Sua visão se obscurecia, invadida por grandes flores negras que brotavam por trás dos olhos. Mas ele não se apressava. Continuava puxando o nó, até que finalmente o sentiu afrouxar. Por um momento, a pressão sobre sua virilha aumentou insuportavelmente. E então, com um gesto abrupto, ele puxou o laço sobre a cabeça e a dor abrandou.

Ele se sentou e inclinou a cabeça, arquejando, segurando os testículos doloridos. A dor aguda se tornara surda e difusa, deixando-o nauseado. Quando se aplacou um pouco, ele olhou para a janela fechada. A luz que entrava pelas lâminas quebradas já se avermelhava. E a porta estava trancada.

Ele puxou a corda para baixo, soltando-a da viga, e começou a afrouxar os nós que prendiam suas pernas. Estavam tão apertados que, no intenso esforço de desfazê-los, sua concentração começou a vacilar.

Ele libertou as coxas, os joelhos e, após uma luta aparentemente interminável, os tornozelos. Ergueu-se fracamente entre os montes inertes de corda e cambaleou. Começou a esfregar as coxas.

Ouviu um ruído no andar de baixo: passos.

Levantou os olhos, em pânico, as narinas se dilatando. Capengou até a janela e tentou abri-la. Estava fechada com pregos, encurvados sobre a madeira barata do peitoril como grampos.

Os passos vinham pelas escadas.

Ele olhou desesperadamente ao redor do quarto. Duas pilhas de revistas. Uma pequena chapa de estanho com a gravura de um piquenique em 1890. A cama de ferro.

Ele correu até a cama e a levantou. E deuses distantes, vendo quanta sorte ele conquistara sozinho, resolveram lhe conceder mais uma quota.

Os passos haviam chegado ao corredor e avançavam em direção à porta quando ele acabou de desparafusar a perna da cama e a soltou.

 

4

 

Quando a porta abriu, Mark estava atrás dela empunhando a perna da cama, como um índio com um tacape.

— Jovem mestre, vim para...

Straker viu as cordas soltas no chão, e a surpresa o paralisou durante um segundo sobre a soleira da porta.

Para Mark, tudo se desenrolou com a lentidão de uma manobra de futebol vista em câmera lenta. Parecia que tinha minutos, e não poucos segundos, para mirar a fração do crânio visível além da porta.

Segurando a arma improvisada com as duas mãos, ele a baixou (sacrificando parte da força à precisão do golpe) sobre a cabeça de Straker, atingindo-o na têmpora, quando ele se virava para olhar atrás da porta. Seus olhos, arregalados, fecharam-se de dor. O sangue brotou do ferimento num jorro abundante.

Straker se contraiu e recuou, cambaleando. Seu rosto estava contorcido numa careta assustadora. Ele avançou para Mark, que o golpeou de novo. Dessa vez, o ferro atingiu o crânio logo acima da testa, causando um novo jato de sangue.

E ele desabou molemente, virando os olhos para cima.

Mark se aproximou do corpo, com os olhos arregalados de assombro. A ponta do ferro estava coberta de sangue. Sangue mais vermelho do que o dos filmes em tecnicolor. Essa visão lhe provocou náuseas, mas ele não sentiu nada ao olhar para Straker.

Eu o matei, pensou ele. E logo depois: Ainda bem.

A mão de Straker se fechou em seu tornozelo.

Mark ofegou e tentou se libertar. A mão o prendia como uma armadilha de aço. Straker o fitava, os olhos frios e brilhantes por trás de uma máscara de sangue. Seus lábios se mexeram, mas nenhum som saiu. Mark puxou o pé com mais força, em vão. Com um gemido, começou a bater na mão de Straker com o pé da cama. Uma vez, duas, três, quatro. Mark ouviu o estalo horrível dos dedos. A pressão sobre seu tornozelo cessou, e ele o puxou com tanta força que foi arremessado para trás, tropeçando até o corredor.

A cabeça de Straker tombara novamente, mas sua mão lacerada se abria e fechava com tenebrosa vitalidade, como as patas de um cão que sonha em pegar um gato.

Mark soltou a perna da cama e recuou, tremendo. O pânico o dominou, e ele desceu correndo as escadas, saltando dois ou três degraus de uma vez, deslizando a mão pela balaustrada.

O vestíbulo estava tomado pela escuridão.

Ele entrou na cozinha e lançou um olhar desvairado para o porão aberto. O sol se punha numa explosão de tons vermelhos, amarelos e púrpura. Numa funerária a 25 quilômetros dali, Ben Mears via o ponteiro do relógio hesitar entre 7h01 e 7h02.

Mark não sabia disso, mas sabia que a hora do vampiro se aproximava. Ficar mais era arriscar um confronto; entrar no porão e tentar salvar Susan era entrar para as fileiras dos mortos-vivos.

Mesmo assim, ele se aproximou do porão, e chegou a descer os primeiros três degraus antes que o medo o cercasse de modo quase físico e o impedisse de avançar. Chorava, e seu corpo tremia como se tomado por uma febre.

— Susan! — gritou ele. — Corra!

— M-Mark? — A voz dela parecia fraca e aturdida. — Não estou vendo nada. Está escuro...

Mark ouviu um súbito estrondo, como um tiro, seguido por uma profunda e perversa risada.

Susan gritou... um som que morreu num gemido e depois silenciou.

Mark ainda esperou, embora seus pés, leves como pluma, quisessem arrancá-lo dali.

Então, uma voz veio de baixo, uma voz cordial, incrivelmente parecida com a de seu pai.

— Desça, meu rapaz. Eu o admiro.

A força contida só nessa voz era tão grande que ele sentiu o medo refluindo, as plumas em seus pés se transformando em chumbo. Começou a descer outro degrau, mas se dominou — e para isso precisou de toda a pouca disciplina que ainda lhe restava.

— Desça — disse a voz, mais próxima agora. Sob o tom terno e paternal, havia um férreo comando.

— Eu sei seu nome! É Barlow! — gritou Mark.

E fugiu.

Quando chegou ao vestíbulo, o medo o atingiu em cheio de novo, e se a porta não estivesse destrancada, ele a teria atravessado bem no meio, deixando recortada uma silhueta de si mesmo como nos desenhos animados.

Ele saiu em disparada pela entrada para carros (como aquele outro menininho, Benjamin Mears, tanto tempo atrás) e depois pela rua Brooks, em direção à relativa segurança da cidade. Afinal, o rei dos vampiros podia estar vindo atrás dele.

Mark saiu da estrada e abriu caminho cegamente pela floresta, chapinhando no riacho Taggart, caindo sobre arbustos emaranhados na outra margem e finalmente saindo no quintal de sua casa.

Ele cruzou a cozinha e parou na porta da sala, onde sua mãe, com a preocupação estampada no rosto, falava ao telefone com a lista telefônica aberta no colo.

Ela levantou a cabeça e, quando o viu, o alívio se espalhou por seu rosto como uma onda física.

— Ele chegou.

Ela desligou o telefone sem esperar uma resposta e andou em direção ao filho. Mark notou, com mais compaixão de que ela o julgaria capaz, que a mãe estivera chorando.

— Mark... onde você estava?

— Ele chegou? — gritou o pai, do escritório. Seu rosto, ainda que invisível, era ameaçador.

— Onde você estava? — Ela o pegou pelos ombros e o sacudiu.

— Na rua — disse Mark debilmente. — Eu caí quando corria para casa.

Não havia mais nada a dizer. A característica essencial da infância não é a fusão de sonho e realidade, mas a alienação. Não há palavras para os mecanismos ocultos da mente de uma criança. Quando sábia, ela reconhece o fato e se submete às consequências. Quando contabiliza os danos, não é mais uma criança.

— Perdi a noção do tempo e...

E então seu pai se encarregou dele.

 

5

 

Ainda era a madrugada de segunda-feira.

Alguém arranhava a janela.

Mark despertou sem passar pelo intervalo entre a sonolência e a lucidez. Para ele, não havia mais diferença entre as insanidades do sono e as da vigília.

O rosto pálido do outro lado do vidro era de Susan.

— Mark... deixe-me entrar.

Mark levantou da cama. O chão sob seus pés estava frio. Ele tremia.

— Vá embora — disse ele, sem entonação na voz. Viu que ela ainda usava a mesma blusa, as mesmas calças. Será que os pais dela estão preocupados?, pensou ele. Será que chamaram a polícia?

— Não é tão ruim assim, Mark — disse ela, com os olhos vítreos e inexpressivos. Sorriu, mostrando os dentes, que se destacavam vivamente sob as gengivas lívidas. — É delicioso. Deixe-me entrar. Vou te mostrar. Vou te beijar, Mark. Vou te beijar inteiro, como sua mãe nunca beijou.

— Vá embora — repetiu ele.

— Um de nós vai te pegar mais cedo ou mais tarde — disse ela. — Somos muitos agora. Deixe-me entrar, Mark. Eu estou... com fome. — Ela tentou sorrir, mas produziu apenas um esgar malévolo que gelou o sangue dele.

Mark levantou a cruz e a encostou na janela.

Ela emitiu um silvo, como se tivesse sido escaldada, e soltou-se do caixilho da janela. Durante um momento, ficou suspensa no ar, seu corpo se tornando vago e indistinto. No momento seguinte, desapareceu. Mas não antes que ele visse (ou achasse ter visto) uma expressão de desespero e tristeza em seu rosto.

A noite voltou a ser tranquila e silenciosa.

Somos muitos agora.

Mark pensou nos pais, que dormiam inconscientes do perigo que corriam, e o pavor tomou conta de suas entranhas.

Susan dissera que algumas pessoas sabiam, ou desconfiavam.

Quem?

O escritor, claro. O namorado dela. Chamava-se Mears e morava na pensão da Eva. Escritores eram muito sabidos. Seria ele. Mark teria de procurá-lo antes de Susan.

Ele estacou a caminho da cama.

Se é que ela já não o procurara.