'Salem

Stephen King · Capítulo 9 de 22

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'Salem

Capítulo Seis – A CIDADE (II)

Capítulo Seis

 

A CIDADE (II)

 

Capítulo Seis – A CIDADE (II)

 

1

 

O outono e a primavera chegam a Jerusalem’s Lot de modo tão súbito como a aurora e o crepúsculo nos trópicos. A linha de demarcação pode ser apenas um dia. Mas a primavera não é a estação mais bela na Nova Inglaterra — é curta e incerta demais, e pode ficar turbulenta de uma hora para outra. Mesmo assim, alguns dias de abril são tão inesquecíveis quanto o toque da pessoa amada, ou a sensação da boca desdentada do bebê sugando o seio. Mas, já em meados de maio, o sol emerge da névoa matinal com força e autoridade, e você sairá para a varanda às sete da manhã com sua marmita na mão, sabendo que o orvalho terá evaporado da grama às oito e que a poeira nas estradas de terra pairará imóvel no ar durante cinco minutos após a passagem de um carro, e que à uma da tarde fará 35 graus no terceiro andar da fábrica e o suor escorrerá pelos braços como óleo, fazendo a camisa grudar nas costas, formando um círculo molhado, como se fosse julho.

Mas depois de meados de setembro, o outono chega expulsando o traiçoeiro verão, e se instala por algum tempo como um velho e saudoso amigo, que senta na sua cadeira favorita, acende o cachimbo e enche a tarde com histórias dos lugares onde esteve e as coisas que fez desde sua última visita.

O outono fica durante todo o mês de outubro e, raramente, durante o mês de novembro. Dia após dia, o céu ganha um azul intenso e límpido, e as nuvens que deslizam por ele, sempre em direção ao leste, são navios calmos e brancos com quilhas cinzentas. O vento começa a soprar durante o dia e não para mais, apressando as pessoas nas ruas e triturando as folhas caídas em espirais frenéticas e variadas. O vento causa uma ânsia profunda e ancestral. Talvez toque um ponto na alma, uma antiga memória coletiva que diz Migre ou morra, migre ou morra. Mesmo em sua casa, atrás de sólidas paredes, o vento açoita a madeira e o vidro e curva os beirais, obrigando-o a interromper o que está fazendo para ir olhar. E você pode sair até a varanda ou a porta da casa no meio da tarde e ver as sombras das nuvens correrem sobre o pasto dos Griffen e subirem o morro do Pátio do Colégio, clareando e sombreando a relva, como se alguém abrisse e fechasse as persianas do céu. As varas-de-ouro, essas tenazes, belas e perniciosas flores da Nova Inglaterra, curvam-se contra o vento como uma imensa e silenciosa congregação. E quando não há nem carros nem aviões, se ninguém estiver no bosque a oeste da cidade atirando numa codorna ou num faisão, se o único som for o lento bater de seu coração, você talvez escute outro som, o som da vida declinando rumo a seu fecho cíclico, aguardando a primeira neve do inverno para receber a extrema-unção.

 

2

 

Naquele ano, o primeiro dia do outono (do verdadeiro, não o do calendário) foi 28 de setembro, o dia em que Danny Glick foi enterrado no Cemitério Harmony Hill.

A cerimônia na igreja fora fechada, mas a do cemitério seria aberta, e um grande número de moradores compareceu, entre colegas de classe, curiosos e pessoas de idade, para quem os enterros vão se tornando uma compulsão à medida que são envolvidas pela mortalha do tempo.

O longo cortejo subiu a rua Burns, dobrando uma esquina e sumindo atrás do monte. Todos os carros estavam com os faróis acesos, apesar do esplendor do dia. À frente ia o carro fúnebre de Carl Foreman, a traseira cheia de flores; depois, o Mercury 1965 de Tony Glick, o velho amortecedor soltando gemidos e estouros. Atrás, nos quatro carros seguintes, vinham parentes de ambos os lados da família, de lugares tão distantes quanto Tulsa, Oklahoma. Outros participantes do longo desfile eram: Mark Petrie (o menino que Ralphie e Danny iam visitar na noite em que o primeiro desapareceu) com a mãe e o pai; Richie Boddin e família, Mabel Werts num carro junto com o Sr. e Sra. William Norton (sentada no banco de trás com a bengala plantada entre as pernas inchadas, ela falava ininterruptamente sobre outros enterros a que ela assistira desde 1930); Lester Durham e a mulher, Harriet; Paul Mayberry e a mulher, Glynis; Pat Middler, Joe Crane, Vinnie Upshaw e Clyde Corliss, todos num carro dirigido por Milt Crossen (Milt abrira a geladeira antes de partirem, e cada um tomou uma cerveja solenemente diante do fogão); Eva Miller seguia num carro ao lado das amigas Loretta Starcher e Rhoda Curless, ambas ainda donzelas; Parkins Gillespie e seu vice, Nolly Gardener, iam no carro de polícia de Jerusalem’s Lot (era o Ford de Parkins com uma estrela colada no painel); depois ainda vinham Lawrence Crockett e sua lívida mulher; Charles Rhodes, o rabugento motorista de ônibus, que comparecia a todos os enterros por uma questão de princípio; a família de Charles Griffen, incluindo a mulher e os dois filhos, Hal e Jack, o único que ainda não saíra de casa.

Mike Ryerson e Royal Snow haviam aberto a cova de manhã, estendendo faixas de grama falsa sobre a terra fresca retirada do chão. Enquanto hasteava a Flâmula da Memória que os Glick haviam especificado, Mike notou que Royal estava diferente naquela manhã. Geralmente não parava de caçoar da tarefa reservada a eles (cantava, desafinado: “Eles te enrolam num lençol branco, e te enterram no fundo do barranco”), mas naquele dia ele estava estranhamente silencioso, quase emburrado. Pode ser ressaca, pensou Mike. Deve ter ido ao Dell’s com Peters, seu amigo cheio de músculos, e enchido a cara ontem à noite.

Cinco minutos antes, ele vira o carro fúnebre de Carl subindo o monte a uns dois quilômetros de distância e escancarara os portões de ferro, olhando para as altas lanças de ferro como sempre fazia desde que encontrara Doc espetado numa delas. Depois voltou até a cova recém-aberta, onde o padre Donald Callahan, responsável pela paróquia de Jerusalem’s Lot, esperava ao lado da sepultura. Usava uma estola sobre os ombros, e o missal em sua mão estava aberto no capítulo sobre funerais infantis. Era o que eles chamavam de terceira estação, Mike sabia. Primeira estação, a casa do falecido, segunda estação, a igrejinha católica de St. Andrew, e a última estação, cemitério de Harmony Hill. Desçam todos.

Um arrepio o percorreu e ele olhou para a vistosa grama plástica, perguntando-se por que era parte integrante de todo funeral. Era exatamente o que parecia: uma imitação barata da vida, mascarando a terra arrancada para abrir a morada final.

— Eles estão chegando, padre — disse ele.

Callahan era um homem alto, de penetrantes olhos azuis e tez avermelhada. Seus cabelos eram de um cinza metálico. Ryerson, que não pisava na igreja desde os 16 anos, gostava mais dele do que dos outros religiosos locais. John Groggins, o ministro metodista, era um velho chato e hipócrita, e Patterson, da Igreja dos Santos do Último Dia e Seguidores da Cruz, era louco de pedra. No funeral de um dos diáconos da igreja dois ou três anos antes, Patterson se jogara no chão e se pusera a rolar. Mas Callahan era um bom sujeito, apesar de papista, e seus funerais eram calmos, confortantes e sempre curtos. Ryerson duvidava que seu rosto tivesse ficado tão vermelho de tanto rezar, mas se tinha bebido um pouco na vida, quem podia condená-lo? Do jeito que o mundo estava, era um milagre que todos os sacerdotes não acabassem no hospício.

— Obrigado, Mike — disse ele, e olhou para o céu luminoso. — Este vai ser difícil.

— Parece. Quanto tempo vai demorar?

— Dez minutos, no máximo. Não vou prolongar o sofrimento dos pais. Eles ainda terão muito pela frente.

— Ok — disse Mike, e andou em direção aos fundos do cemitério. Saltaria o muro de pedra e comeria seu almoço na floresta. Sabia de longa experiência que a última coisa que os parentes e amigos do falecido queriam ver na terceira estação era o coveiro com seu macacão manchado de terra. Era uma visão que interferia com a imagem do paraíso pintada pelo sacerdote.

Perto do muro, ele se curvou para examinar uma lápide que havia caído para frente. Endireitou-a e voltou a sentir um arrepio ao limpar a terra da inscrição:

HUBERT BARCLAY MARSTEN

6 de outubro de 1889

12 de agosto de 1939

O anjo da Morte

empunhando a brônzea Lâmpada

além dos portões dourados

levou-o a turvas Águas

E embaixo, quase apagadas por 36 estações de geadas, as palavras:

Que Deus o conserve lá

Ainda vagamente inquieto e ainda sem saber o porquê, Mike Ryerson entrou na mata para almoçar ao lado do riacho.

 

3

 

Nos primeiros anos de seminário, um amigo do padre Callahan lhe dera um álbum com bordados blasfemos que lhe causara acessos de riso horrorizado na época, mas que pareciam mais verdadeiros e menos sacrílegos com o passar do tempo: Deus, dai-me SERENIDADE para aceitar o que não posso mudar, TENACIDADE para mudar o que posso e SORTE para não fazer muita merda. Isso escrito em caligrafia antiga e rebuscada, com um sol nascente ao fundo.

Agora, diante dos parentes e amigos de Danny Glick, a velha oração voltou a lhe ocorrer.

Os carregadores do caixão, dois tios e dois primos do menino, haviam pousado o ataúde no chão. Marjorie Glick, de casaco preto e chapéu preto com véu, o rosto se revelando por entre a rede, era amparada pelo braço protetor do pai e agarrava uma bolsinha preta como se fosse um salva-vidas. Tony Glick estava longe dela, o rosto chocado e distante. Várias vezes durante a cerimônia na igreja ele olhara ao redor, como para confirmar sua presença entre aquelas pessoas. Tinha a expressão de alguém preso num sonho.

A igreja não pode tirá-lo desse sonho, pensou Callahan. Nem toda a serenidade, tenacidade e sorte do mundo. A merda já tinha acontecido.

Ele espargiu água benta no caixão e no túmulo, santificando-os para todo o sempre.

— Rezemos, irmãos — as palavras escorreram melodiosas de sua boca como sempre, na alegria e na tristeza, na lucidez e na embriaguez. Os presentes inclinaram a cabeça.

— Senhor, graças a Vossa piedade, os que vivem na fé encontram a paz eterna. Abençoai esta sepultura e enviai um anjo para guardá-la. Recebei o espírito de Daniel Glick enquanto enterramos seu corpo, e que ele encontre a vida eterna em seu seio. É o que pedimos em nome de Jesus Cristo, Nosso Senhor, Amém.

— Amém — a congregação murmurou, e o vento levou a palavra para longe. Tony Glick olhava ao redor com olhos escancarados e aflitos. Sua mulher pressionava um Kleenex contra a boca.

— Com a fé em Jesus Cristo, trazemos humildemente o corpo desta criança para ser enterrado com suas imperfeições humanas. Rezemos, confiando em Deus, que dá vida a todos os seres, que ele atinja a perfeição na companhia dos santos.

Ele virou as páginas do missal. Uma mulher na terceira fileira do grupo que cercava o túmulo como uma ferradura começou a soluçar roucamente. Um pássaro gorjeou em algum lugar da floresta.

— Rezemos por nosso irmão Daniel Glick a nosso Senhor Jesus Cristo — prosseguiu o padre Callahan —, que nos disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá ainda que morra e nunca conhecerá a morte eterna. Senhor, que chorastes na morte de Vosso amigo Lázaro, confortai-nos em nossa dor. Pedimos em nossa fé.”

— Senhor, ouvi nossa prece — os católicos responderam.

— Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao nosso irmão Daniel a vida eterna. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece — responderam. Algo parecia estar despertando nos olhos de Tony Glick; uma revelação, talvez.

— Nosso irmão Daniel foi purificado pelas águas do batismo. Concedei-lhe um lugar entre os santos. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

— Ele comungou de vossa carne e vosso sangue. Concedei-lhe um lugar à mesa no Reino dos Céus. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Marjorie Glick começara a balançar para a frente e para trás, gemendo.

— Consolai-nos em nossa dor pela morte de nosso irmão. Que nossa fé seja nosso consolo e a vida eterna nossa esperança. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Ele fechou o missal.

— Vamos rezar a oração que o Senhor nos ensinou — disse ele serenamente. — Pai-Nosso que estais no céu...

— Não! — gritou Tony Glick, lançando-se para frente. — Ninguém vai jogar terra no meu filho!

Mãos tentaram detê-lo, mas foram afastadas. Ele cambaleou por um instante na beira da cova, e então a grama falsa cedeu. Tony caiu dentro do buraco, atingindo o caixão com um baque horrível.

— Danny, saia daí já! — berrou ele.

— Minha nossa — disse Mabel Werts, e apertou o lenço de seda preta contra os lábios. Seus olhos estavam ávidos e brilhantes, guardando a cena como um esquilo armazena nozes para o inverno.

— Danny, quer parar com essa molecagem!

O padre Callahan fez um sinal para dois dos carregadores, e eles avançaram, mas foram precisos mais três homens, inclusive Parkins Gillespie e Nolly Gardener, para conseguir tirar Glick da cova, chutando e gritando.

— Danny, pare com isso! Você assustou sua mãe! Vou esquentar seu traseiro! Me soltem! Quero meu filho... me soltem, seus cretinos.... ahhh... Meu Deus!

— Pai-Nosso que estais no céu — Callahan recomeçou, e outras vozes se juntaram à dele, elevando-se em direção à cúpula indiferente do céu.

— ...santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita...

— Danny, venha aqui, está me ouvindo? Está me ouvindo?

— ...assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai...

— Danneee!

— as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...

— Ele não está morto, ele não está morto, me soltem, seus desgraçados...

— e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, amém.

— Ele não está morto — soluçava Tony Glick. — Não pode estar. Ele tem só 12 anos, porra. — Ele começou a chorar convulsivamente, e se arrastou para frente, apesar do esforço dos homens que o retinham, o rosto contorcido e riscado de lágrimas. Caiu aos pés de Callahan e agarrou suas calças com as mãos enlameadas.

— Por favor, devolva meu filho. Por favor, pare com essa brincadeira.

Callahan pegou a cabeça dele delicadamente entre as mãos.

— Rezemos — disse ele, e sentiu os soluços dilacerantes de Glick contra as coxas.

— Senhor, consolai este homem e sua mulher nesse momento de dor. Vós purificastes esta criança nas águas do batismo e lhe destes vida nova. Que um dia nós o encontremos e juntos gozemos da vida eterna. Pedimos em nome de Jesus. Amém.

Quando ergueu a cabeça, viu que Marjorie Glick desmaiara.

 

4

 

Quando todos haviam ido embora, Mike Ryerson voltou e sentou à beira da cova aberta para comer seu último meio sanduíche e esperar pela volta de Royal Snow.

O enterro fora às quatro horas, e já eram quase cinco. As sombras se alongavam e o sol já se escondia atrás dos altos carvalhos. Aquele malandro do Royal prometera que voltaria às 16h45 no máximo. Onde estaria ele?

O sanduíche era de bolonha e queijo, o seu preferido. Todos os sanduíches que ele comia eram seus favoritos; e essa era uma das vantagens de ser solteiro. Ele terminou e limpou as mãos, espalhando algumas migalhas sobre o caixão.

Alguém o vigiava.

De repente, veio-lhe essa certeza, e ele sondou o cemitério com olhos escancarados e aflitos.

— Royal? Você está aí, Royal?

Ninguém respondeu. O vento sussurrava misteriosamente entre as árvores. À sombra oscilante dos elmos além do muro de pedra, ele via a lápide de Hubert Marsten, e de repente pensou no cachorro de Win, empalado no portão de ferro.

Olhos. Imóveis e frios. Vigiando.

Não deixe a noite te pegar aqui.

Ele se levantou de um salto, como se a frase tivesse sido dita em voz alta.

— Royal, seu desgraçado — disse ele, mas não muito alto. Já não achava que Royal estivesse por perto nem que voltaria. Teria de fazer o trabalho sem ele, e levaria muito tempo sozinho.

Talvez até o anoitecer.

Ele se pôs a trabalhar, sem tentar entender o pavor que o dominava, sem se perguntar por que aquele trabalho, que nunca o incomodara antes, incomodava-o tanto agora.

Com gestos rápidos e econômicos, ele puxou as faixas de grama artificial de cima da terra fresca e as dobrou. Colocou-as sobre o braço e as levou à camionete, parada na frente do portão, e assim que saiu do cemitério, a horrível sensação de ser vigiado desapareceu.

Guardou a grama na traseira da camionete e pegou uma pá. Começou a voltar, mas hesitou. Olhou para a cova aberta, que parecia zombar dele.

Ocorreu-lhe que a sensação de ser vigiado sumira assim que ele deixara de ver o caixão instalado no fundo da cova. E veio-lhe a súbita imagem de Danny Glick deitado sobre o pequeno travesseiro de cetim com os olhos abertos. Não, que bobagem. Eles fechavam os olhos dos defuntos com goma. Vira Carl Forman fazer isso várias vezes. Claro que fechamos os olhos, Carl dissera certa vez. Não queremos que o corpo pisque para a congregação, não é?

Encheu a pá e jogou a terra, que atingiu a superfície do caixão de mogno com uma pancada surda. Mike fez uma careta. O som o enjoou um pouco. Ele se endireitou e olhou nervosamente para as coroas de flores. Que desperdício. No dia seguinte as pétalas estariam espalhadas em flocos vermelhos e amarelos. Não entendia por que faziam aquilo. Se queriam gastar, por que não davam o dinheiro a alguma sociedade beneficente ou até mesmo à Associação de Senhoras? Pelo menos, assim serviria para alguma coisa.

Ele atirou outra pazada e descansou de novo.

O caixão era outro desperdício. Um lindo caixão de mogno, que custara no mínimo mil dólares, e lá estava ele o cobrindo todo de terra. Os Glick não tinham tanto dinheiro assim, e quem faz seguro de vida para crianças? Deviam ter se enterrado em dívidas, e tudo por um caixão que ficaria todo imundo e enlameado.

Ele se inclinou, voltou a encher a pá e jogou a terra com relutância. De novo aquele horrível baque agourento. A superfície do caixão estava toda salpicada de terra, mas o fino mogno lustrava por trás, quase com reprovação.

Pare de olhar para mim.

Ele encheu a pá, mas não muito, e jogou a terra.

Pá!

As sombras estavam muito longas agora. Ele parou, olhou para cima e viu a Casa Marsten, as persianas fechadas. O lado leste, o primeiro a se despedir da luz do sol, dava diretamente para o portão de ferro do cemitério, onde Doc...

Ele se forçou a pegar outra pazada de terra e atirá-la na cova.

Pá!

A terra escorreu pelos lados, empilhando-se sobre as dobradiças de metal. Agora, se alguém o abrisse, ouviria um rangido áspero como a porta de uma tumba se abrindo.

Pare de olhar pra mim, cacete.

Ele começou a encher a pá, mas veio-lhe uma lembrança tão pesada que ele teve de descansar um pouco. Certa vez ele lera — no National Enquirer, achava — que um magnata do petróleo declarara no testamento que queria ser enterrado num Cadillac Coupe de Ville novo em folha. E foi o que fizeram. Abriram a cova com um trator e colocaram o carro no fundo com um guindaste. Tanta gente dirigindo carros velhos e caindo aos pedaços, e aquele porco milionário enterrado atrás do volante de um carro de dez mil dólares, com todos os acessórios e...

Ele de repente estremeceu e recuou um passo, cauteloso. Parecia que entrara numa espécie de transe. A sensação de ser vigiado estava muito mais forte agora. Olhou para o céu, alarmado ao ver como escurecera rápido. Só o andar superior da Casa Marsten estava em plena luz do sol agora. Seu relógio indicava 18h10. Santo Deus, uma hora se passara, e ele não jogara nem meia dúzia de pazadas na cova!

Mike se atirou ao trabalho, tentando bloquear os pensamentos. Depois de algumas pazadas, o som de terra contra a madeira se tornou abafado — o alto do caixão fora coberto, e a terra escorria pelas laterais em riscos marrons, quase alcançando a tranca.

Ele jogou mais duas pazadas e parou.

Tranca?

Mas por que cargas d’água colocar uma tranca num caixão? Era para ninguém tentar entrar? Devia ser. Com certeza não era para que ninguém tentasse sair...

— Pare de me olhar — disse Mike em voz alta, e sentiu o coração se contrair no peito. Um súbito impulso de fugir daquele lugar, de correr pela estrada até chegar à cidade, tomou conta dele. Foi com muito custo que conseguiu se controlar. Era só um ataque de nervos. Quem, trabalhando num cemitério, não ficaria assim de vez em quando? Parecia um maldito filme de terror, ter de enterrar aquele menino, só 12 anos e os olhos arregalados...

— Droga, pare! — exclamou ele, e olhou com ansiedade para a Casa Marsten. Agora só o telhado ainda estava claro. Eram 18h15.

Ele voltou a trabalhar com mais rapidez, jogando terra na cova e tentando manter a mente totalmente vazia. Mas a sensação de ser vigiado parecia crescer em vez de diminuir, e cada pazada de terra parecia mais pesada que a anterior. O topo do caixão estava coberto agora, mas ainda dava para ver seu contorno envolto em terra.

A oração fúnebre dos católicos começou a ecoar em sua mente por nenhum motivo, como costuma acontecer com essas coisas. Ouvira Callahan dizendo-a enquanto almoçava ao lado do riacho. Ouvira também os gritos desesperados do pai.

Rezemos por nosso irmão a nosso Senhor Jesus Cristo, que disse...

(Pai, conceda-me seus favores.)

Ele parou e olhou para a cova. Era funda, muito funda. As sombras da noite já começavam a se insinuar dentro dela, como algo vivo e viscoso. Ainda faltava muito. Ele nunca conseguiria enchê-la antes de escurecer. Nunca.

Sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá mesmo que morra...

(Senhor das Moscas, conceda-me seus favores.)

Sim, os olhos estavam abertos. Por isso ele se sentia vigiado. Carl não usara goma o bastante, e as pálpebras haviam subido como persianas. E agora, Danny olhava para ele. Aquilo não podia ficar daquele jeito.

...e quem acreditar em mim não conhecerá a morte eterna...

(Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa.)

Tirar a terra de cima. Era essa a solução. Tirar a terra, quebrar a tranca com a pá, abrir o caixão e fechar aqueles terríveis olhos fixos. Ele não tinha goma de coveiro, mas tinha duas moedas no bolso. Serviriam. Eram de prata. Sim, era de prata que o menino precisava.

O sol estava em cima do telhado da Casa Marsten agora, e apenas tocava os mais altos e antigos abetos no lado oeste da cidade. Mesmo com as persianas fechadas, a casa parecia olhar para ele.

Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao irmão Daniel a vida eterna.

(Ofereço este sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda.)

De repente, Mike Ryerson saltou dentro da cova e começou a trabalhar loucamente com a pá, jogando terra para cima e para fora em lampejos marrons. Finalmente a pá atingiu a madeira, e ele começou a tirar o resto da terra das laterais. Depois se ajoelhou sobre o caixão e começou a bater na tranca de metal com a pá.

As rãs do riacho haviam começado a saltar, um bacurau cantava nas sombras das árvores e, perto dali, curiangos começavam a soltar seu grito estridente.

18h50.

O que estou fazendo?, ele se perguntou. O que estou fazendo, meu Deus? Ajoelhado sobre o caixão, ele tentava refletir, mas algo no fundo da sua mente mandava-o se apressar, o sol estava se pondo... Não deixe o escuro te pegar aqui. Ele levantou a pá, bateu-a sobre a tranca mais uma vez e ouviu um estalo. Ela quebrara. Ele olhou para cima por um instante, num último vislumbre de sanidade, o rosto manchado de terra e suor, os olhos arregalados e salientes.

Vênus brilhou contra o manto do céu. Ofegando, ele deitou por inteiro no chão e tateou em busca das alças da tampa do caixão. Encontrou-as e puxou. A tampa se abriu, as dobradiças rangendo como ele imaginara, revelando primeiro apenas cetim rosa, e depois uma manga escura (Danny Glick fora enterrado com o terno da primeira comunhão), e depois... o rosto. A respiração ficou presa na garganta de Mike. Os olhos estavam abertos. Como ele sabia que estariam. Bem abertos e nem um pouco vidrados. Pareciam horrendamente vivos à luz agonizante do dia. Não havia nenhuma palidez mortal naquele rosto. As faces estavam rosadas, transbordando vitalidade. Tentou afastar os olhos daquele olhar reluzente e gelado, mas não conseguiu. — Meu Deus — murmurou. O arco decrescente do sol submergiu no horizonte.

 

5

 

Mark Petrie montava um modelo do monstro de Frankenstein no seu quarto e ouvia a conversa dos pais na sala. Seu quarto ficava no segundo andar da casa de fazenda que haviam comprado no sul da avenida Jointner, e embora fosse aquecida por uma moderna fornalha a petróleo, as grades do antigo aquecedor permaneciam. Antes, quando a casa fora aquecida por um fogão central na cozinha, as grades impediam que o segundo andar ficasse frio demais — mesmo assim, a primeira mulher que morara na casa de 1873 a 1896, com seu austero marido batista, dormia com um tijolo quente embrulhado numa flanela —, mas agora serviam a outro propósito. Eram excelentes condutoras de som.

Seus pais estavam na sala, mas parecia que conversavam bem em frente a sua porta.

Certa vez, quando o pegou ouvindo atrás da porta na outra casa — Mark tinha apenas seis anos na época —, seu pai lhe dissera um antigo provérbio inglês: Nunca ouça atrás da árvore para não se aborrecer. Ou seja, explicou o pai, você pode ouvir algo e não gostar. Havia outro ditado. Quem avisa amigo é. Aos 12 anos, Mark Petrie era um pouco menor do que os outros meninos e de aparência um pouco delicada. No entanto, movia-se com uma graça e flexibilidade que não era comum em meninos de sua idade, que pareciam ser todos joelhos, cotovelos e cascas de ferida. Sua tez era clara, quase leitosa, e seus traços, que seriam considerados aquilinos mais tarde, agora eram um pouco femininos. Isto lhe causara inconvenientes mesmo antes da briga com Richie Boddin no pátio da escola, e ele decidira resolver o problema sozinho. A maioria dos valentões, concluiu ele, eram grandes, feios e desajeitados. Assustavam as outras crianças porque eram capazes de machucá-las. Jogavam sujo. Logo, se você não tivesse medo de se machucar um pouco, e se estivesse disposto a jogar sujo, podia levar a melhor sobre o valentão. Richie Boddin fora a primeira confirmação de sua teoria. Ele e o valentão da Escola Primária Kittery haviam empatado (o que não deixara de ser uma vitória; o valentão, sangrando mas sem se curvar, proclamara para toda a plateia no pátio que ele e Mark eram amigos. Mark, que achava o valentão um cretino estúpido, não o contradisse. Sabia o valor da discrição). Conversas não adiantavam com valentões. A dor era a única linguagem que os Richie Boddins do mundo pareciam entender, e Mark supunha que por isso o mundo sempre tivera tanta dificuldade de comunicação. Ele fora mandado para casa naquele dia, e seu pai ficara muito zangado até que Mark, resignando-se a receber as rituais pancadas com uma revista enrolada, disse-lhe que Hitler fora no fundo um Richie Boddin. Isso fez seu pai cair na gargalhada, e até sua mãe rira baixinho. Conseguiu evitar a surra. Agora June Petrie dizia:

— Você acha que tudo isso o afetou, Henry?

— É difícil... dizer. — E Mark percebeu pela pausa que seu pai acendia o cachimbo. — Ele está com uma cara bem normal.

— Quem vê cara não vê coração. — Sua mãe estava sempre dizendo coisas como quem vê cara não vê coração ou é um caminho sem retorno. Ele amava os dois profundamente, mas às vezes pareciam tão graves como os livros da seção in-fólio da biblioteca... e igualmente empoeirados.

— Eles vinham visitar Mark para brincar com o trenzinho — ela continuou. — Agora um está morto e o outro, desaparecido! Não se engane, Henry. O menino deve estar sentindo alguma coisa.

— Os pés dele estão bem plantados no chão — disse o Sr. Petrie. — Seja quais forem suas emoções, tenho certeza de que ele as controla.

Mark colou o braço esquerdo do monstro de Frankenstein no ombro. Era um modelo Aurora especial, que tinha um brilho verde no escuro, como o Jesus de plástico que ele ganhara por memorizar o salmo 119 inteiro na escola dominical de Kittery.

— Às vezes acho que devíamos ter tido outro filho — disse seu pai. — Entre outras coisas, teria sido bom para Mark. — E sua mãe, em tom brejeiro:

— Não foi por falta de tentativas, querido.

Seu pai resmungou. Fez-se uma longa pausa na conversa. Mark sabia que o pai estava folheando o Wall Street Journal. Sua mãe devia estar com um romance de Jane Austen no colo, ou talvez de Henry James. Ela os lia e relia várias vezes, e Mark não conseguia entender o sentido de ler um livro mais de uma vez. A gente já sabia como terminava.

— Será que é seguro deixá-lo entrar na mata atrás da casa? — sua mãe perguntou. — Dizem que tem areia movediça na cidade...

— A quilômetros daqui.

Mark relaxou um pouco e colou o outro braço do monstro. Ele tinha uma mesa coberta de monstros Aurora, formando uma cena que ele mudava a cada vez que um novo membro era adicionado. Era uma bela coleção. E era o que Danny e Ralphie queriam ver naquela noite em que... deixa para lá.

— Acho que sim — disse o pai. — Não depois de anoitecer, é claro. Espero que aquele horrível enterro não lhe dê pesadelos. — Mark quase podia ver seu pai encolher os ombros. — Tony Glick... Que cena lamentável. Mas a morte e o sofrimento fazem parte da vida, e já está na hora de ele se acostumar com essa ideia.

— Talvez. — Outra longa pausa. O que ela dirá agora?, ele se perguntou. O menino de hoje é o homem de amanhã. Ou é de pequenino que se torce o pepino. Mark colou o monstro na base, um túmulo com uma lápide inclinada ao fundo. — A morte nos cerca em plena vida. Mas estou achando que eu vou ter pesadelos.

— Ah, é?

— Aquele Sr. Foreman deve ser um artista e tanto, por mais horrível que seja dizer isso. Ele realmente parecia que estava dormindo. Que a qualquer momento abriria os olhos, daria um bocejo e... Não sei por que as pessoas insistem em se torturar deixando os caixões abertos nos velórios. É... bárbaro.

— Bom, acabou.

— É, parece. Ele é um bom menino, não, Henry?

— Mark? O melhor.

Mark sorriu.

— O que está passando na TV?

— Vou olhar.

Mark se desligou do resto; a discussão séria acabara. Colocou o modelo no parapeito da janela para secar e endurecer. Em 15 minutos sua mãe o chamaria lhe dizendo que era hora de dormir. Ele tirou os pijamas da cômoda e começou a se despir.

Na verdade, sua mãe se preocupava inutilmente com sua psique, que não era nada frágil, nem havia motivo para que fosse. Ele era um menino normal, apesar de sua graça e delicadeza. Sua família era de classe média alta e podia subir ainda mais, e o casamento dos pais era sólido. Eles se amavam de um modo intenso, embora um pouco maçante. Nunca houvera nenhum grande trauma na vida de Mark. As poucas brigas na escola não lhe deixaram marcas. Entendia-se com seus companheiros e, de modo geral, queria as mesmas coisas que eles.

Se havia algo que o destacava, era um certo distanciamento, um frio autocontrole. Ninguém lhe incutira isso; ele parecia ter nascido assim. Quando seu cachorrinho, Chopper, fora atropelado, ele insistira em ir com a mãe ao veterinário. E quando este dissera “Preciso colocar seu cachorro para dormir, rapazinho. Você entende por quê?”, Mark dissera “Você não vai colocar ele para dormir. Vai matá-lo com gás, não é?”. O veterinário disse que sim. Mark lhe disse para continuar, mas antes beijou Chopper. Sentiu tristeza, mas não chorou. Sua mãe chorara, mas três dias depois já havia esquecido Chopper. Mark nunca o esqueceria. E era esse o valor de não chorar. Chorar era como deixar vazar os sentimentos no chão.

Ele ficara chocado com o desaparecimento de Ralphie Glick, e depois com a morte de Danny, mas não sentira medo. Ouvira um homem na loja dizer que provavelmente um pervertido sexual pegara Ralphie. Mark sabia o que eram pervertidos. Faziam algo com você que os deixavam malucos e, quando acabavam, te estrangulavam (nas revistinhas, a pessoa estrangulada sempre dizia Arrrggh) e te enterravam numa cova ou sob as tábuas de um galpão deserto. Se um pervertido um dia lhe oferecesse doces, ele lhe chutaria o saco e sairia correndo como um raio.

— Mark? — era a voz da mãe, vinda da escada.

— Sou eu — disse ele, e sorriu de novo.

— Não se esqueça de lavar as orelhas quando tomar banho.

— Pode deixar.

Ele desceu para lhes dar um beijo de boa-noite, andando com leveza e agilidade, lançando um olhar para a mesa onde seus monstros se exibiam: Drácula com a boca aberta, mostrando os caninos, ameaçava uma moça deitada no chão, enquanto o Cientista Louco torturava uma mulher na maca e o Sr. Hyde espreitava um velho que caminhava para casa.

Se ele sabia o que era a morte? Claro. Era quando os monstros te pegavam.

 

6

 

Roy McDougall parou na entrada do seu trailer às oito e meia, acelerou o motor do seu velho Ford duas vezes e depois o desligou. O tubo do exaustor pifara, os faróis pisca-pisca não funcionavam e a inspeção seria no mês seguinte. Que beleza de carro. Que beleza de vida. O menino berrava dentro do trailer e Sandy gritava com ele. Que beleza de casamento.

Ele saiu do carro e tropeçou numa das lajes que comprara havia meses para o projeto, sempre adiado, de fazer uma passarela ligando o trailer à calçada.

— Merda — ele murmurou, lançando um olhar terrível para a laje e esfregando a canela.

Roy estava bêbado. Saíra do trabalho às três e desde então se pusera a beber no Dell’s com Hank Peters e Buddy Mayberry. Hank andava abonado e parecia disposto a beber todo o dinheiro extra, seja de onde viesse. Sabia o que Sandy achava de seus amigos. Ela que se danasse. Negar a um homem umas cervejinhas no sábado e domingo, depois de ele trabalhar a semana toda como um escravo na máquina de desatar fibras, e ainda fazendo hora extra no fim de semana? Quem era ela para reclamar? Passava o dia sem fazer nada além de limpar a casa, conversar com o carteiro e ver se o menino não entrava no forno. E nem cuidava bem dele ultimamente. Outro dia mesmo deixara-o cair da mesa de trocar.

O que você estava fazendo?

Eu estava segurando ele, Roy. É que ele não para quieto.

Não para quieto. Sei.

Ele andou até a porta, ainda bufando. A pancada na perna doía. Não que Sandy fosse se importar. E o que ela fazia enquanto ele suava feito um porco para aquele capataz cretino? Lia revistas de fofocas comendo bombons de cereja ou assistia a novelas comendo bombons de cereja ou tagarelava com as amigas ao telefone comendo bombons de cereja. Estava ficando com espinhas não só na cara, mas na bunda. Logo não daria para saber qual era qual.

Ele abriu a porta e entrou.

A cena o atingiu com violência, apagando o fogo da cerveja como um balde de água fria: o bebê gritava, nu, sangue escorrendo pelo nariz; Sandy o segurava, a blusa manchada de sangue, olhando para o marido com o rosto contraído de surpresa e medo; a fralda no chão.

Randy, com marcas escuras em torno dos olhos, estendia as mãos como numa súplica.

— O que está acontecendo aqui? — Roy perguntou lentamente.

— Nada, Roy. Ele só...

— Você bateu nele — disse Roy, com voz monótona. — Ele não parava quieto para você pôr a fralda e você bateu nele.

— Não — ela disse rapidamente. — Ele rolou e bateu o nariz, só isso. Só isso.

— Eu devia arrancar seu couro — disse ele.

— Roy, ele só bateu o nariz...

Ele deixou cair os ombros.

— O que tem para comer?

— Hambúrgueres. Mas queimaram — disse ela com petulância, tirando a ponta da blusa de dentro dos jeans para limpar o nariz de Randy. Roy viu a baleia que ela estava virando. Nunca recuperara o corpo depois da gravidez. Nem tentara.

— Faça ele calar a boca.

— Ele não está...

— Faça ele calar a boca! — gritou Roy, e Randy, que na verdade já parara de chorar e fungava, voltou a gritar com força.

— Vou buscar a mamadeira — disse Sandy, levantando.

— E traga meu jantar. — Ele começou a tirar a jaqueta de brim. — Santo Deus, que bagunça que está este lugar. O que você faz o dia todo, fica tocando siririca?

— Roy! — exclamou ela, em tom ofendido. Depois deu um risinho. Sua louca explosão de raiva porque o bebê não parava quieto para que ela prendesse as fraldas começou a se tornar distante, nebulosa. Como se tivesse acontecido numa das novelas da TV.

— Traga meu jantar e depois arrume essa porcaria de lugar.

— Está bem, está bem... — Ela tirou uma mamadeira da geladeira e colocou Randy no chiqueirinho. Ele começou a sugar o leite com apatia, os olhos indo da mãe para o pai em círculos sem saída.

— Roy?

— Hum. Fale.

— Acabou.

— O quê?

— Você sabe. Você quer? Hoje?

— Claro — disse ele. — Claro. — E pensou de novo: Que beleza de vida. Que beleza de vida.

 

7

 

Nolly Gardener ouvia rock and roll pela WLOB estalando os dedos quando o telefone tocou. Parkins deixou as palavras cruzadas de lado e disse:

— Abaixe um pouco.

— Claro, Park. — Nolly abaixou o rádio e continuou estalando os dedos.

— Alô? — disse Parkins.

— Delegado Gillespie?

— Eu mesmo.

— Aqui é o agente Tom Hanrahan. Tenho as informações que pediu.

— Obrigado pela rapidez.

— Mas não sei se vai adiantar muito.

— Tudo bem — disse Parkins. — O que descobriram?

— Ben Mears foi investigado devido a um acidente de moto fatal no norte de Nova York em maio de 1973. Não foi indiciado. A mulher dele, Miranda, morreu. As testemunhas disseram que ele ia devagar e o teste de álcool deu negativo. Parece que só escorregou no asfalto. Quanto à política, tende para a esquerda. Participou de uma passeata pacifista em Princeton em 1966. Falou num comício antiguerra no Brooklyn em 1967. Participou de passeatas em Washington em 1968 e 1970. Foi preso durante uma passeata pacifista em San Francisco em novembro de 1971. E é tudo que sabemos dele.

— O que mais?

— Kurt Barlow, Kurt com “k”. É britânico, mas naturalizado. Nasceu na Alemanha e foi para a Inglaterra em 1938, ao que parece fugindo da Gestapo. Não tivemos acesso a seus registros anteriores, mas deve estar com uns setenta anos. Seu nome de batismo é Breichen. Trabalha com importação e exportação em Londres desde 1945, mas não aparece muito. Straker é seu sócio desde então, e parece que é ele que lida com o público.

— E ele?

— Straker é britânico nativo. Tem 58 anos. Seu pai era marceneiro em Manchester. Parece que deixou bastante dinheiro para o filho, que também se deu muito bem na vida. Os dois pediram vistos de estada prolongada nos Estados Unidos há 18 meses. É tudo que sabemos. E há suspeitas de que podem ser um casal.

— É — disse Parkins, e suspirou. — Foi o que eu pensei.

— Se precisar de mais informações, podemos entrar em contato com a Divisão de Investigação Criminal e a Scotland Yard.

— Não, não precisa.

— E não há nenhuma ligação entre Mears e os dois comerciantes. Só se for muito secreta.

— Certo. Obrigado.

— É para isso que estamos aqui. Se precisar de ajuda, ligue.

— Pode deixar. Obrigado mais uma vez.

Colocou o fone no gancho e o contemplou com ar pensativo.

— Quem era, Park? — perguntou Nolly erguendo o rádio.

— O Excellent Café. Acabou o sanduíche de presunto. Tem só salada de ovo e queijo quente.

— Tem bolo de framboesa na minha mesa, se quiser.

— Não, obrigado — disse Parkins, e suspirou de novo.

8

 

O depósito de lixo ainda estava em lenta combustão.

Dud Rodgers andava ao redor do lixão, saboreando o aroma de carne queimada. A cada passo, esmagava garrafas e fazia subir uma nuvem de cinzas. Na imensidão do depósito, o clarão das brasas aumentava e diminuía ao sabor do vento, como um imenso olho vermelho abrindo e fechando... o olho de um gigante. De vez em quando se ouvia um estrondo abafado quando uma lata de aerossol ou uma lâmpada explodiam. Um grande número de ratos havia saído do depósito quando ele o queimara naquela manhã, mais do que ele jamais vira. Ele matara pelo menos três dúzias, e sua pistola estava quente quando ele finalmente a guardou no coldre. Eram ratões grandes, alguns com até setenta centímetros. Engraçado como eles surgiam em maior ou menor quantidade, dependendo do ano. Devia ter algo a ver com o clima. Se continuasse assim, ele teria de começar a espalhar iscas envenenadas, algo que não precisava fazer desde 1964.

Lá estava outro, rastejando sob um dos cavaletes amarelos que serviam de barreiras antifogo.

Dud sacou a pistola, puxou o pino de segurança, apontou e disparou. O tiro atingiu a terra na frente do rato, salpicando seu pelo. Mas, em vez de fugir, ele se ergueu nas patas traseiras e o encarou, os olhinhos vermelhos brilhando entre as brasas. Como alguns deles eram atrevidos!

— Tchauzinho, rato — disse Dud, apontando com cuidado.

Bum. O rato capotou, se contorcendo.

Dud andou até o animal e o empurrou com a pesada bota de trabalho. O rato mordeu fracamente o couro da bota, arquejando.

— Filho da mãe — Dud disse baixinho, e esmagou sua cabeça.

Ao se acocorar para examiná-lo, voltou a pensar em Ruthie Crockett, que nunca usava sutiã. Quando ela punha aqueles suéteres justos de cardigã, dava para ver os bicos contra o tecido, eretos devido à fricção contra a lã. Ele apostava que era só roçar um pouco naqueles peitos, só um pouco mesmo, para aquela putinha subir pelas paredes.

Ele pegou o rato pelo rabo e o balançou como um pêndulo.

— E se você encontrasse esse ratinho na sua latinha de salsicha, Ruthie?

Dud achou graça na ideia e seu inesperado duplo sentido, e deixou escapar um riso estridente, sacudindo a cabeça torta.

Jogou o rato para longe, no meio do depósito. Ao fazê-lo, girou e deu de cara com um vulto — uma silhueta alta e extremamente magra a cinquenta passos dele.

Dud enxugou as mãos nas calças verdes, suspendeu-as e se aproximou.

— O depósito está fechado, senhor.

O homem se virou para ele. O rosto que o clarão vermelho das brasas iluminou era anguloso e pensativo. Os cabelos eram brancos, riscados de mechas cinzentas curiosamente másculas. O sujeito as afastara da testa ampla e pálida, como faziam os pianistas de concerto. Os olhos refletiam o fulgor vermelho das brasas e pareciam injetados de sangue.

— É mesmo? — perguntou o homem educadamente, revelando um leve sotaque em suas palavras, embora perfeitamente articuladas. Devia ser francês, ou talvez até mesmo russo. — Vim contemplar o fogo. É lindo.

— É — disse Dud. — O senhor é daqui?

— Sim, acabei de me mudar para sua aprazível cidade. Você mata muitos ratos?

— Bastante. Ultimamente apareceram milhões desses filhos da mãe. Escute, por acaso o senhor é o sujeito que comprou a Casa Marsten?

— Predadores — o homem disse, cruzando as mãos atrás das costas. Dud notou, surpreso, que ele estava todo arrumado, de terno com colete e tudo. — Adoro os predadores da noite. Os ratos... as corujas... os lobos. Existem lobos nesta região?

— Não — disse Dud. — Um cara em Durham pegou um coiote há uns dois anos. E um bando de cachorros do mato anda espantando os cervos...

— Cachorros... — o estranho disse, e fez um gesto de desprezo. — Animais inferiores que se encolhem e uivam ao ouvir passos estranhos. Servem apenas para choramingar e rastejar. Deviam ser todos estripados.

— Eu nunca tinha pensado nisso — disse Dud, recuando um passo. — É bom quando aparece alguém aqui para bater um papo, mas o depósito fecha às seis aos domingos, agora já passa das nove e...

— Certamente.

Mas o estranho não fez menção de ir embora. Dud pensava consigo mesmo que passara a perna na cidade. Todos estavam se perguntando quem estaria por trás daquele tal de Straker, e ele era o primeiro a saber — fora, talvez, Larry Crockett, que era uma raposa. Na próxima vez que fosse à cidade para comprar balas daquele santinho do George Middler, diria, como quem não quer nada: encontrei aquele sujeito outro dia. Quem? Aquele que comprou a Casa Marsten. Um sujeito decente. Tem um sotaque meio russo.

— Já apareceu algum fantasma naquela casa velha? — perguntou quando viu que o velho não ia mesmo se mandar dali.

— Fantasmas! — O velho sorriu de modo inquietante. Parecia o sorriso de um tubarão. — Não, fantasmas, não. — Ele enfatizou levemente a palavra, como se houvesse algo na casa que fosse ainda pior.

— Bom, está ficando tarde... É melhor ir agora, senhor...?

— Mas nossa conversa está tão agradável — disse o velho, e pela primeira vez virou-se para Dud e o olhou diretamente. Seus olhos, muito separados, refletiam o fogo mortiço do depósito. Era impossível parar de olhar para eles. — Vamos continuar um pouco mais.

— É, pode ser — disse Dud, e sua voz soou distante. Os olhos dele pareciam se expandir, crescer, até parecerem poços escuros rodeados de fogo, poços onde alguém podia se afogar.

— Obrigado — disse ele. — Diga-me... essa sua corcunda não o incomoda no trabalho?

— Não — disse Dud, ainda se sentindo distante. Pensou vagamente: aposto que ele está me hipnotizando. Que nem aquele sujeito da Feira de Topsham... como ele se chamava? Mr. Mephisto. Ele punha as pessoas para dormir e elas faziam um monte de coisas engraçadas, imitavam galinhas, corriam como cachorros ou lembravam coisas que tinham acontecido quando eram pequenas. Ele hipnotizou Reggie Sawyer, e como a gente riu...

— Então o atrapalha de outras maneiras?

— Não... bom... — Dud olhava para os olhos dele, fascinado.

— Vamos, vamos — o velho o induziu gentilmente. — Somos amigos, não é? Pode me dizer.

— Bom, as mulheres... você sabe...

— Claro que sei — disse o velho, compreensivo. — As mulheres riem de você, não é? Não conhecem sua masculinidade. Sua força.

— Isso mesmo — sussurrou Dud. — Elas riem. Ela ri.

— Ela, quem?

— Ruthie Crockett. Ela... ela... — O pensamento lhe escapou. Ele permitiu. Não importava. Nada importava a não ser aquela paz. Aquela paz repousante e completa.

— Ela faz gracejos quando você passa? Ri escondido? Cutuca os amigos?

— Isso...

— Mas você a deseja — insistiu a voz. — Não é mesmo?

— É...

— Você a terá. Tenho certeza.

Havia algo... agradável naquela situação. Na distância, ele parecia ouvir vozes suaves cantando palavras obscenas. Um tocar de sinos... rostos brancos... a voz de Ruthie Crockett. Ele quase podia vê-la, as mãos erguendo os peitinhos, fazendo-os surgir sobre o V do seu suéter em maduros círculos brancos, e sussurrando: Beije eles, Dud... morda eles... chupe eles...

Era como se afogar. Se afogar nos círculos vermelhos em torno dos olhos do velho.

E quando ele se aproximou, Dud entendeu tudo e aceitou, e quando a dor veio, era doce como prata, verde como a água parada nas profundezas.

9

 

As mãos dele tremiam. Quando tentou pegar a garrafa, derrubou-a da mesa para o chão, e o uísque de primeira se espalhou sobre o carpete de lã verde.

— Merda! — disse o padre Donald Callahan, e abaixou-se logo para apanhá-la antes de desperdiçar mais. Na verdade, já não havia muito. Ele voltou a colocar a garrafa sobre a mesa (bem longe da borda) e foi até a cozinha buscar um trapo e um detergente debaixo da pia. Não podia deixar a Sra. Curless encontrar uma mancha de uísque perto da mesa do escritório. O olhar dela, bondoso e penalizado, era duro de suportar nas longas e ásperas manhãs quando ele se sentia um pouco...

De ressaca, você quer dizer.

Sim, de ressaca. Vamos admitir a verdade, pelo amor de Deus. Conheça a verdade, e a verdade te libertará. Viva a verdade.

Ele encontrou uma garrafa de algo chamado E-Vap e a levou para o escritório. Seu andar não estava trôpego. Nem um pouco. Olhe, seu guarda, vou andar por cima da faixa branca até o sinal vermelho.

Callahan impressionava aos 53 anos, com seu tipo irlandês, os cabelos prateados, os olhos azuis e diretos — cercados por rugas miúdas —, os lábios firmes, o queixo furado. Certas manhãs, quando se olhava no espelho, ele pensava em largar a batina e ir para Hollywood arranjar um papel de Spencer Tracy quando fizesse sessenta anos.

— Padre Flanagan, onde está quando preciso de você? — murmurou, acocorando-se para limpar a mancha. Apertou os olhos, leu as instruções no rótulo do frasco e colocou duas tampinhas de E-Vap sobre a mancha. O local imediatamente embranqueceu e começou a borbulhar. Callahan se alarmou um pouco e voltou a consultar o rótulo.

— Para manchas muito resistentes — leu ele em voz alta, a voz forte e melodiosa que o tornara tão querido na paróquia, acostumada aos longos sermões acompanhados por um bater de dentaduras do velho padre Hume. — Deixe agir de sete a dez minutos.

Ele foi até a janela do escritório, que dava para a rua Elm e a igreja de St. Andrew.

Muito bem, pensou ele, mais uma bebedeira dominical.

Abençoai-me, Pai, porque pequei.

Bebendo devagar enquanto trabalhava (em suas longas e solitárias noites, o padre Callahan produzia suas Notas. Trabalhava nelas havia quase sete anos, supostamente para um livro sobre a Igreja Católica na Nova Inglaterra, mas ele suspeitava às vezes que o livro nunca sairia. Na verdade, as Notas e seu alcoolismo haviam começado ao mesmo tempo. Gênesis 1:1, “No começo havia o scotch”, e o padre Callahan disse “Que se façam as Notas.”), mal dava para notar a progressão lenta da embriaguez. E era possível treinar a mão para não sentir o peso da garrafa diminuindo.

Faz pelo menos um dia que não me confesso.

Eram onze e meia. Olhando pela janela, ele via uma escuridão uniforme, rompida apenas pelo círculo projetado pelo poste de luz em frente à igreja. A qualquer momento, Fred Astaire saltaria para dentro do círculo e dançaria, de cartola, smoking, polainas e sapatos brancos, girando uma bengala. Ginger Rogers se juntaria a ele e os dois valsariam pela noite.

Ele encostou a testa no vidro, e o rosto bonito, que até certo ponto fora sua perdição, assumiu uma expressão de cansaço e desalento.

Sou um padre bêbado e imprestável, Pai.

Com os olhos fechados, ele via a escuridão do confessionário, os próprios dedos abrindo a janela e desvendando todos os segredos do coração humano, sentia o cheiro de verniz e veludo velho dos genuflexórios e o suor de gente velha; vestígios de sal em sua saliva.

Abençoai-me, Pai...

(Eu quebrei a carroça do meu irmão, eu bati na minha mulher, eu espiei pela janela da Sra. Sawyer enquanto ela tirava a roupa, eu menti, eu enganei, eu tive pensamentos pecaminosos, eu...)

porque pequei.

Ele abriu os olhos e viu que Fred Astaire ainda não aparecera. Talvez à meia-noite. A cidade dormia. Com a exceção...

Ele levantou os olhos. Sim, lá em cima as luzes estavam acesas.

Lembrou daquela menina, sobrenome Bowie — não, era McDougall agora —, dizendo em sua voz fina e ofegante que batia no filhinho, e quando ele perguntara com que frequência, ele pressentiu (quase ouviu) as rodas girando na mente dela, multiplicando cinco por 12, ou cem por 12. Pobre projeto de ser humano. Ele batizara o bebê. Randall Fratus McDougall. Concebido no banco traseiro do carro de Royce McDougall, provavelmente durante um filme no drive-in. Pequena e sofredora criatura. Será que ela sabia que ele gostaria de passar os braços pela janelinha e apertar sua alma até lhe arrancar um grito? Sua penitência são seis tapas na cabeça e um bom chute na bunda. Vá embora e não peque mais.

— Que tédio.

Mas o confessionário não era apenas tedioso. Não era só ele que o nauseava e o empurrava para um clube cada vez mais populoso, a União dos Padres Católicos da Garrafa e do Cutty Sark. Era o motor uniforme e contínuo da igreja, abafando todos os pecados humanos em sua interminável busca do paraíso. Era o reconhecimento protocolar do mal por uma igreja mais preocupada com as mazelas sociais e com velhas beatas cujos pais falavam línguas europeias. Era a presença efetiva do mal no confessionário, real como o cheiro de veludo velho.

Mas era um mal inconsciente e estúpido, para o qual não havia nem piedade nem alívio. O rosto do bebê agredido, o pneu cortado com um canivete, a briga no bar, as lâminas inseridas em maçãs de Halloween, as soluções insípidas que a mente humana, em suas voltas labirínticas, era capaz de engendrar. Senhoras e senhores, a solução é melhorar as prisões. Melhorar a polícia. Melhorar os serviços sociais. Melhorar o controle da natalidade. As técnicas de esterilização. Os abortos. Senhoras e senhores, se tirarmos o feto do útero, ele nunca crescerá e matará uma mulher a golpes de martelo. Senhoras e senhores, se prendermos esse homem a uma cadeira elétrica e o fritarmos como uma costela de porco, ele nunca mais terá a chance de torturar meninos até a morte. Cidadãos, se a lei da eugenia for aprovada, garanto que vocês nunca mais...

Merda.

A verdade vinha se tornando cada vez mais clara para ele nos últimos três anos. Ganhara clareza e resolução como um filme fora de foco sendo ajustado, até definir cada linha. Ele ansiava por um Desafio. Os novos padres tinham causas como a democracia racial, igualdade de direitos para as mulheres, até mesmo para os gays, a luta contra a pobreza, a insanidade, a ilegalidade. Eles o incomodavam. Os únicos padres socialmente conscientes com quem ele se sentia à vontade eram os que haviam militado contra a guerra do Vietnã. Agora que a luta acabara, eles ficavam lembrando das passeatas e comícios como casais de idade se lembram da lua de mel. Mas Callahan não pertencia a nenhuma dessas categorias. Era um tradicionalista que já não conseguia acreditar em seus postulados. O que ele queria era liderar uma divisão do exército de Deus — ou do bem, da virtude, eram sinônimos — numa batalha contra o MAL. Queria combater, e não ficar na porta dos supermercados distribuindo panfletos sobre o boicote à alface ou a greve dos vinicultores. Ele queria ver o MAL sem seus sudários de dissimulação, mostrando todos os traços de sua cara. Queria lutar corpo a corpo com o Mal, como Muhammad Ali contra Joe Frazier, os Celtics contra os Knicks, Jacó contra o Anjo. Queria que sua luta fosse pura, livre da política que se colava a todas as questões sociais como um irmão siamês deformado. Era por isso que quisera ser padre. Sentira a vocação aos 14 anos, quando ouvira a história de Santo Estevão, o primeiro mártir cristão, que fora apedrejado até a morte e vira Cristo pouco antes de morrer. O paraíso não era nada comparado a lutar — e talvez perecer — servindo a Deus.

Mas não havia batalhas. Apenas embates destituídos de convicção. E o MAL não tinha apenas uma cara, mas várias, a maioria delas inexpressivas. De fato, ele se via obrigado a concluir que não existia o MAL, mas apenas o mal, ou o (mal), talvez. Nesses momentos, ele suspeitava que Hitler não passara de um burocrata atormentado e o próprio Satã era um débil mental com péssimo senso de humor, do tipo que acha engraçado dar bombinhas enroladas em pão a gaivotas.

As grandes batalhas sociais, morais e espirituais de toda a História se resumiam a Sandy McDougall espancando seu bebê ranhento às escondidas, e este cresceria e também espancaria seu filho em segredo, aleluia, irmãos.

Era mais do que tedioso. Trazia terríveis consequências para o conceito de vida plena, e até de paraíso. O que seria? Eternos bingos, parques de diversões e pistas de corrida?

Ele olhou para o relógio na parede. Era meia-noite e seis minutos, e nem sinal de Fred Astaire e Ginger Rogers. Nem sequer de Mickey Rooney. Mas o detergente já devia ter agido. Agora ele passaria o aspirador no carpete, e a Sra. Curless não o olharia com aquela expressão de pena. E a vida continuaria. Amém.