'Salem

Stephen King · Capítulo 21 de 22

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'Salem

Epílogo

 

Entre essas vilas dizimadas

Sobre o pontal, exposto ao vento sul

Com as montanhas se estendendo adiante,

nos escondendo,

Quem entenderá nossa decisão de esquecer?

Quem aceitará nossa oferta nesse final

de outono?

— GEORGE SEFERIS

Ela, sem olhos, agora.

As cobras que um dia abrigara

Devoram suas mãos.

— GEORGE SEFERIS

1

 

Do álbum de recortes feito por Ben Mears (com artigos do Press-Herald, de Portland):

19 de novembro de 1975 (p. 27):

JERUSALEM’S LOT — A família de Charles V. Pritchett, que comprou uma fazenda na cidade de Jerusalem’s Lot, no município de Cumberland, há apenas um mês, está se mudando por causa dos barulhos que ouvem durante a noite, segundo Charles e Amanda Pritchett, que vieram de Portland. A fazenda, no monte do Pátio da Escola, é um marco da região e pertenceu antes a Charles Griffen. O pai de Griffen era o proprietário da Laticínios Sunshine, que foi incorporada pela Empresa de Laticínios Slewfoot em 1962. Charles Griffen, que vendeu a propriedade através de um corretor de Porland por “preço de banana”, segundo o próprio Pritchett, não foi encontrado pela reportagem. Amanda Pritchett falou ao marido sobre os “barulhos estranhos” no palheiro logo depois que...

4 de janeiro de 1976 (p. 1):

JERUSALEM’S LOT — Um estranho acidente de carro aconteceu na noite de ontem ou na manhã de hoje na pequena cidade de Jerusalem’s Lot, no sul do Maine. Baseando-se em marcas no asfalto encontradas perto do local, a polícia presume que o carro, um sedã de modelo recente, andava em alta velocidade quando saiu da estrada e bateu num poste da Usina Elétrica do Centro do Maine. O carro ficou totalmente destruído, e embora marcas de sangue tenham sido encontradas no banco da frente e no painel, os passageiros estão desaparecidos. Segundo a polícia, o carro estava registrado em nome do Sr. Gordon Phillips, de Scarborough. Segundo um vizinho, Phillips e a família planejavam visitar parentes em Yarmouth. A hipótese da polícia é que Phillips, a mulher e os dois filhos saíram do carro desnorteados e se perderam. Planos de busca foram...

14 de fevereiro de 1976 (p. 4):

CUMBERLAND — A Sra. Gertrude Hersey, sobrinha da Sra. Fiona Coggins, uma viúva que morava sozinha na via Smith, no oeste de Cumberland, comunicou o desaparecimento da tia esta manhã à polícia do município de Cumberland. Segundo a Sra. Hersey, sua tia era uma reclusa e estava doente. Os policiais estão investigando, mas dizem que por enquanto é impossível...

27 de fevereiro de 1976 (p. 6):

FALMOUTH — John Farrington, um fazendeiro idoso que morou a vida inteira em Falmouth, foi encontrado morto esta manhã em seu celeiro pelo genro, Frank Vickery. Segundo Vickery, Farrington estava caído de bruços ao lado de um monte de feno, com um forcado perto da mão. O legista do município, David Rice, disse que Farrington parece ter morrido de hemorragia severa ou talvez interna...

20 de maio de 1976 (p. 17):

PORTLAND — O Serviço Florestal do Estado do Maine alertou os guardas florestais do município de Cumberland para que procurem uma matilha de cães selvagens que pode estar à solta na região de Jerusalem’s Lot, Cumberland e Falmouth. No último mês, várias ovelhas foram encontradas mortas com a garganta e a barriga rasgadas. Em alguns casos, os animais foram desventrados. O guarda florestal Warden Upton disse: “Como sabem, a situação piorou muito no sul do Maine...”

29 de maio de 1976 (p. 1):

JERUSALEM’S LOT — A polícia suspeita que foi criminoso o desaparecimento de Daniel Holloway e sua família, que haviam se mudado há pouco tempo para uma casa na via do córrego Taggart, nessa pequena comarca de Cumberland. A polícia foi avisada pelo avô de Daniel Holloway, que ficou preocupado porque ninguém atendia o telefone.

O casal e os dois filhos mudaram-se para a via do córrego Taggart em abril, e se queixavam a amigos e parentes de que ouviam “barulhos estranhos” à noite.

Jerusalem’s Lot tem sido palco de vários acontecimentos estranhos nos últimos meses, e muitas famílias...

4 de junho de 1976 (p. 2):

CUMBERLAND — A Sra. Elaine Tremont, uma viúva que mora numa casinha na via Back Stage, na região oeste dessa cidadezinha no município de Cumberland, foi internada no Hospital de Cumberland esta manhã depois de sofrer um ataque cardíaco. Ela disse ao repórter que ouviu um barulho na janela do quarto enquanto assistia à televisão e, quando foi verificar, viu um rosto olhando para ela.

“Estava sorrindo”, relatou a Sra. Tremont. “Foi horrível. Nunca senti tanto medo em minha vida. Desde que mataram aquela família na via do córrego Taggart, a apenas um quilômetro e meio de casa, eu vivo assustada.”

A Sra. Tremont se referia à família de Daniel Holloway, que desapareceu da própria casa em Jerusalem’s Lot no começo da semana passada. A polícia disse que investiga a ligação entre os casos, mas...

2

 

O homem alto e o menino chegaram a Portland em meados de setembro e se hospedaram num motel durante três semanas. Estavam acostumados ao calor, mas depois do clima seco de Los Zapatos, estranharam a umidade do local. Os dois passavam muito tempo nadando na piscina do motel e contemplando o céu. O homem comprava o Press-Herald de Portland todos os dias — jornais novos agora, sem marcas do tempo ou de urina de cachorro. Lia a previsão do tempo e procurava artigos a respeito de Jerusalem’s Lot. No nono dia da estada deles em Portland, um homem desapareceu em Falmouth. Seu cão foi encontrado morto no quintal. A polícia investigava o caso.

O homem acordou cedo no dia 6 de outubro e saiu para o pátio do motel. A maioria dos turistas já havia voltado para suas casas, em Nova York, Nova Jersey ou Flórida, em Ontário ou Nova Scotia, na Pensilvânia ou Califórnia. Partiram deixando lixo e dólares, enquanto os nativos aproveitavam a mais linda estação da região.

Naquela manhã havia algo novo no ar. O cheiro dos motores que vinha da estrada não era tão forte. Não havia névoa no horizonte, nem neblina leitosa repousando aos pés do outdoor que se erguia no campo ao longe. O céu matinal estava muito claro, e o ar, gelado. O veranico se fora da noite para o dia.

O menino saiu e parou ao lado do homem.

— Hoje — disse o homem.

 

3

 

Era quase meio-dia quando chegaram à entrada de ’salem’s Lot. Ben sentiu dor ao lembrar do dia em que chegara lá, cheio de confiança, disposto a exorcizar os demônios que o perseguiam havia tanto tempo. Naquele dia, fazia mais calor, o vento oeste não estava tão forte, e o veranico apenas começava. Ele vira dois meninos levando varas de pescar. O céu naquele dia estava de um azul mais intenso, mais frio.

O rádio do carro proclamava que o índice de risco de incêndio atingira cinco pontos, o segundo nível mais alto. Praticamente não chovia no sul do Maine desde a primeira semana de setembro. O locutor da WJAB alertou os motoristas para apagarem bem o cigarro antes de jogá-lo pela janela e em seguida tocou uma música sobre um homem que ia se atirar de uma torre d’água por amor.

Seguiram pela rodovia 12, passaram pela placa de boas-vindas e entraram na avenida Jointner. Ben notou que a luz de advertência estava apagada. Ninguém precisava tomar cuidado agora.

Entraram na cidade. Cruzaram-na lentamente. Ben sentiu o velho medo cair sobre ele, como um casaco encontrado no sótão, que apertava mas ainda servia. Mark estava sentado rigidamente ao seu lado, segurando um frasco de água benta que trouxera de Los Zapatos. Fora presente de despedida do padre Gracon.

Com o medo, vieram as lembranças, ameaçando partir o coração.

Uma drogaria da rede LaVerdiere substituíra a Spencer’s, mas não tivera sorte melhor. As janelas fechadas estavam nuas e sujas. A placa de ônibus da Greyhound fora retirada. Uma placa de “Vende-se” pendia, meio torta, na vitrine do Excellent Café — os bancos do balcão haviam sido arrancados e transportados para alguma lanchonete mais próspera. Mais adiante, a placa na porta do que antes fora uma lavanderia ainda dizia “Barlow e Straker — Móveis Finos”, mas as letras douradas, que ninguém mais lia, haviam perdido o brilho. A vitrine estava vazia, e sujo o carpete que a revestia. Ben pensou em Mike Ryerson, perguntando-se se ainda estaria naquela caixa no fundo da loja. A ideia secou-lhe a boca.

Ben diminuía a velocidade nos cruzamentos. Viu a casa dos Nortons no alto do monte, cercada de grama alta e amarela, cobrindo a churrasqueira que Bill Norton construíra. Algumas janelas estavam quebradas.

Um pouco mais adiante, ele parou e foi olhar o parque. O Memorial de Guerra erguia-se em meio a uma selva de arbustos e capim. A piscina infantil fora encoberta por plantas aquáticas. A tinta verde dos bancos estava descascada. Os balanços estavam enferrujados, e produziriam um rangido insuportável se alguém resolvesse usá-los. O escorregador caíra de lado e jazia com as pernas rígidas e esticadas, como um antílope morto. E, num canto da caixa de areia, o braço mole caído sobre a grama, jazia um boneco de pano esquecido por alguma criança. Seus olhos de botão pareciam exprimir um horror sem nome, como se tivessem visto todos os segredos das trevas durante sua longa estada na caixa de areia. E talvez tivessem mesmo.

Ele olhou para cima e viu a Casa Marsten, as persianas ainda fechadas, olhando para a cidade com trêmula malevolência. Era inofensiva àquela hora, mas e depois do anoitecer...?

As chuvas deviam ter levado as hóstias com as quais Callahan a selara. Podia voltar a ser deles se a quisessem — um santuário, um farol do mal pairando sobre a cidade morta e desertada. Será que eles se reuniam lá?, perguntou-se Ben. E perambulavam, pálidos, pelos corredores enoitecidos, e ofereciam festins e rituais perversos ao Criador do Criador que adoravam?

Ele desviou os olhos, sentindo-se frio por dentro.

Mark olhava para as casas. A maioria delas tinha as persianas fechadas. Em outras, as janelas nuas revelavam cômodos vazios. Eram piores do que as decentemente fechadas, pensou Ben. Pareciam olhar para eles, invasores diurnos, com a expressão apalermada dos deficientes mentais.

— Eles estão nessas casas — disse Mark, taciturno. — Estão aí, nesse exato momento. Atrás das cortinas, nas camas, nos armários, nos porões. Debaixo dos pisos. Escondidos.

— Calma — disse Ben.

A cidade ficou para trás. Ben entrou na via Brooks, e eles passaram pela Casa Marsten, as persianas ainda cerradas, o jardim um complexo labirinto de capim e grama alta.

Mark apontou e Ben olhou. Uma trilha bem marcada fora aberta através da grama. Atravessava o jardim da estrada até a varanda. Então eles a deixaram para trás, e ele sentiu o peito desafogar. Já haviam enfrentado o pior.

Na via Burns, não muito longe do cemitério Harmony Hill, Ben parou o carro e eles desceram. Entraram na floresta. A seca vegetação rasteira estalava sob seus passos. Eles sentiram o aroma ácido dos frutos dos juníperos e ouviram o som dos gafanhotos. Saíram num pequeno promontório que dava para uma clareira na mata, onde as linhas de força da Usina Elétrica do Maine brilhavam no vento frio. Algumas árvores começavam a mudar de cor.

— Os antigos moradores diziam que foi aqui que começou, em 1951 — disse Ben. — O vento soprava do oeste. Acham que alguém não tomou cuidado com o cigarro. Bastou um cigarro. O fogo se espalhou pelo pântano, e ninguém conseguiu apagá-lo.

Ele tirou um maço de Pall Mall do bolso, olhou para o emblema com ar pensativo — in hoc signo vinces — e removeu o celofane da ponta. Acendeu um cigarro e agitou o fósforo, apagando-o. Achou a fumaça espantosamente saborosa, embora não fumasse havia meses.

— Eles têm seus lugares — disse. — Mas podem perdê-los. Muitos podem ser mortos. Destruídos, melhor dizendo. Mas não todos. Entende?

— Sim — disse Mark.

— Não são muito inteligentes. Se perderem o esconderijo, não saberão se esconder direito depois. Duas pessoas procurando nos lugares óbvios podem resolver. Talvez esteja tudo terminado em ’salem’s Lot antes da primeira neve do inverno. Talvez nunca termine. Não há garantias, de um jeito ou de outro. Mas... sem algo para expulsá-los, para tirá-los de onde estão, não haverá nenhuma chance.

— É.

— Será horrível e perigoso.

— Eu sei.

— Mas dizem que o fogo purifica — refletiu Ben. — A purificação deve adiantar alguma coisa, não acha?

— Acho — disse Mark.

Ben levantou-se.

— Precisamos voltar.

Jogou o cigarro aceso sobre uma pilha de galhos secos e folhas mortas. O rolo branco de fumaça elevou-se contra os bastidores das árvores e depois foi levado pelo vento. A poucos metros, no sentido do vento, havia um grande emaranhado de galhos e ramos caídos.

Eles contemplaram a fumaça, hipnotizados, fascinados.

O incêndio ganhou corpo. Uma língua de fogo surgiu. Um pequeno estalido emergiu da pilha de vegetação morta quando os galhos se inflamaram.

— Esta noite eles não vão correr atrás de ovelhas nem visitar fazendas — disse Ben. — Esta noite eles vão fugir. E amanhã...

— Você e eu — disse Mark, e cerrou os punhos. Seu rosto já não estava pálido, e sim iluminado por uma chama interior. Seus olhos ardiam.

Voltaram para a estrada e partiram.

Na pequena clareira que dava para a usina, o fogo na floresta queimava com mais força, impelido pelo vento outonal que soprava do oeste.

Outubro de 1972

Junho de 1975