'Salem

Stephen King · Capítulo 14 de 22

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Capítulo Dez – A CIDADE (III)

Capítulo Dez

 

A CIDADE (III)

 

Capítulo Dez – A CIDADE (III)

 

1

 

A cidade conhecia a escuridão.

Conhecia a escuridão que cobria a terra quando o sol se escondia e também a escuridão da alma humana. A cidade era a soma de três partes que, juntas, eram maiores do que suas divisões. A cidade era seus moradores, os prédios onde moravam ou trabalhavam e a terra. Os moradores eram de origem anglo-escocesa e francesa. Havia outras descendências, mas não muitas — como um punhado de pimenta jogado num imenso caldeirão. Mas os ingredientes nunca se misturaram muito bem. Os prédios eram, quase todos, feitos de madeira. Muitas das casas antigas tinham o tradicional estilo da Nova Inglaterra, e a maioria das lojas tinha fachada falsa, embora ninguém soubesse o motivo. Os moradores sabiam que não havia nada por trás dessas fachadas, assim como sabiam que Loretta Starcher usava sutiã com enchimento. A terra tinha uma camada de granito coberta por outra, arável, mas que rachava facilmente. A lavoura era uma atividade sofrida, cansativa, ingrata. O rastelo atingia grandes pedaços da camada de granito e quebrava. Em maio, o lavrador saía com a camionete tão logo o chão secava. Com a ajuda dos filhos, retirava as pedras do solo e as transportava até a grande pilha que era formada desde 1955, quando aquele tormento começara. Depois, com os dedos sujos, inchados e entorpecidos de tanto carregar pedras, ele prendia o rastelo ao trator. Mas, mal começava a abrir os sulcos no solo, uma lâmina se quebrava numa pedra que passara despercebida. E, quando se abaixava para trocar a lâmina, pedindo para um dos filhos levantar a máquina, ouvia o primeiro mosquito da estação passar zumbindo, sedento de sangue — o mesmo som que os loucos deviam ouvir antes de matar os filhos, ou de fechar os olhos e pisar fundo no acelerador na rodovia, ou de apertar o gatilho da espingarda contra a cabeça. E os dedos suados do filho deixavam a máquina escorregar, e uma das lâminas redondas caía esfolando seu braço, e, ao olhar ao redor naquele instante desesperado e cruel, quando dava vontade de largar tudo e se afundar na bebida, ou de ir até o banco onde hipotecara as terras e declarar falência, nesse instante de ódio àquela terra que o prendia por uma força maior do que a da gravidade, ele também percebia que a amava, e que ela conhecia a escuridão e sempre a conhecera. Ele estava preso à terra, assim como à casa, à mulher por quem havia se apaixonado no colegial, aos filhos que haviam sido feitos na velha e lascada cama de cabeceira. Estava preso ao banco, assim como à concessionária de carros, à loja Sears de Lewinston e a John Deere em Brunswick. Mas, acima de tudo, estava preso à cidade porque a conhecia como conhecia o seio da própria esposa. Sabia quem fora despedido e estaria matando tempo na loja de Crossen, sabia quem estava sendo traído mesmo antes de o próprio interessado saber — como acontecia com Reggie Sawyer, porque o garoto da telefônica estava de caso com Bonnie Sawyer. Sabia o trajeto das estradas e, nas tardes de sexta, onde parar o carro com Hank e Nolly Gardener para tomar umas cervejas. Conhecia os acidentes do terreno e como atravessar o pântano em abril sem molhar o alto das botas. Sabia tudo. E a terra sabia tudo dele. Sabia como sua virilha doía depois de um dia sentado no banco do trator, e que o caroço em suas costas era apenas um cisto, e o médico dissera para não se preocupar, e como ele se afligia com as contas que chegavam na última semana do mês. A terra sabia quando mentia, até para si mesmo, quando dizia que levaria a mulher e as crianças à Disneylândia no ano seguinte ou no próximo, e que conseguiria comprar uma nova tevê em cores se cortasse madeira no outono, e, de modo geral, que tudo daria certo. Morar na cidade era uma contínua relação sexual, tão completa que aquilo que ele e sua mulher faziam na cama à noite parecia um aperto de mão. Morar na cidade era prosaico, sensual, inebriante. E à noite, a cidade era dele e ele era da cidade, e dormiam juntos como os mortos, ou como as pedras da plantação. Lá não existia vida, mas a lenta morte dos dias. E, quando o mal se instalou na cidade, o fato pareceu quase programado e natural. Era quase como se a cidade soubesse que o mal chegaria e a forma que assumiria.

A cidade tinha seus segredos, e sabia guardá-los. Os moradores não conheciam todos. Sabiam que a mulher do velho Albie Crane fugira com um viajante de Nova York — ou achavam que sabiam. Mas Albie rachara o crânio dela depois que o viajante a abandonara, prendera um bloco de cimento nos pés do cadáver e o derrubou no velho poço, e vinte anos depois Albie morreu serenamente enquanto dormia, assim como seu filho Joe morrerá mais tarde nesta história, e quem sabe um dia um garoto passará pelo poço escondido por trepadeiras e afastará a tampa desgastada pelo tempo e verá o velho esqueleto no fundo de pedra, o colar dado pelo viajante ainda pendurado, coberto de musgo, sobre a caixa torácica.

Sabiam que Hubie Marsten matara a mulher, mas não sabiam o que a obrigara a fazer antes, ou o que aconteceu entre eles naquela cozinha assombrada pelo sol momentos antes de ele atirar na cabeça dela, enquanto o opressor cheiro de madressilvas os envolvia com a doçura doentia de uma câmara mortuária. Não sabiam que ela implorara por aquele tiro.

Algumas velhas da cidade — Mabel Werts, Glynis Mayberry, Audrey Hersey — lembravam-se que Larry McLeod encontrara papéis carbonizados na lareira, mas não sabiam que eram os restos da correspondência de 12 anos entre Hubie Marsten e um pitoresco nobre austríaco chamado Breichen, nem que essa correspondência começara através de um singular livreiro de Boston, que tivera uma morte horrorosa em 1933, nem que Hubie queimara cada uma das cartas antes de se enforcar. Jogou-as no fogo uma a uma, e as chamas escureceram o papel cor de creme e a elegante e fina caligrafia. Não sabiam que ele sorria nesse momento, assim como Larry Crockett sorri ao pensar nos fabulosos títulos de propriedade guardados em seu cofre no banco de Portland.

Sabiam que Coretta Simons, a viúva do velho Jumpin’ Simons, agonizava lentamente devido a um câncer de intestino, mas ninguém sabia que mais de 30 mil dólares em dinheiro estavam escondidos atrás do cafona papel de parede da sala, resultado de uma apólice de seguro que ela recebeu, mas nunca investiu. E dos quais se esquecera completamente em suas horas finais.

Sabiam que um incêndio queimara metade da cidade em setembro de 1951, mas não sabiam que fora provocado, e que o garoto que o provocou foi o orador na formatura da turma de 1953 e que ganhou 100 mil dólares em Wall Street. E, mesmo que soubessem, não entenderiam a compulsão que o levara a esse ato nem o remorso que o devorou durante os vinte anos seguintes, até que uma embolia cerebral o matou aos 46 anos.

Não sabiam que o reverendo John Groggins acordava à meia-noite com horríveis pesadelos ainda vívidos em sua cabeça careca — sonhos em que pregava para as meninas do Curso Noturno nu em pelo, e elas se abriam para ele;

nem que Floyd Tibbits perambulou durante toda a sexta-feira num transe doentio, sentindo o sol castigar sua pele estranhamente pálida, lembrando-se vagamente de ter ido à casa de Ann Norton, esquecendo-se totalmente da agressão contra Ben Mears, mas recebendo com gratidão o frescor do pôr do sol, que trazia a expectativa de algo bom e formidável;

nem que Hall Griffen escondia no fundo do armário seis revistas pornográficas que usava para se masturbar sempre que podia;

nem que George Middler tinha uma mala cheia de combinações, sutiãs, meias e calcinhas de seda, e que às vezes fechava as venezianas de seu apartamento sobre a loja de ferragens, trancava bem a porta e se postava em frente ao espelho do quarto, até que começava a ofegar, caía de joelhos e se masturbava;

nem que Carl Foreman tentara gritar e não conseguiu quando Mike Ryerson começou a se mexer sobre a mesa de metal na sala sob o necrotério, mas o grito se congelou em sua garganta quando o defunto abriu os olhos e sentou;

nem que Randy McDougall, aos dez meses, nem sequer resistiu quando Danny Glick entrou pela janela do quarto, tirou-o do berço e enterrou os dentes no pescoço ainda roxo devido aos golpes da mãe.

Esses eram os segredos da cidade. Alguns serão conhecidos um dia, outros nunca serão revelados. A cidade guardava a todos com suprema indiferença.

A cidade zelava mais pelas obras do demônio do que pelas obras divinas ou humanas. Conhecia a escuridão. E a escuridão lhe bastava.

 

2

 

Sandy McDougall sabia que algo estava errado, mesmo antes de levantar, mas não sabia o quê. O outro lado da cama estava vazio — era o dia de folga de Roy, e ele fora pescar com uns amigos. Voltaria por volta do meio-dia. Nada estava queimando e ela não sentia nenhuma dor. Então, o que podia estar errado?

O sol. O sol estava errado.

Já estava alto e projetava sobre o papel de parede a sombra da árvore logo ao lado da janela. Mas Randy sempre a acordava antes de o sol subir e lançar a sombra da árvore na parede...

Assustada, ela olhou para o relógio sobre a cômoda. Eram 9h10.

O medo fechou sua garganta.

— Randy? — ela gritou, a camisola inflando enquanto ela corria pelo curto corredor do trailer. — Randy, querido...

O quarto do bebê estava banhado pela luz que entrava pela única e pequena janela sobre o berço... que estava aberta. Mas ela a fechara quando fora dormir. Sempre a fechava.

O berço estava vazio.

— Randy — ela sussurrou.

E então o viu.

O pequeno corpo, ainda com o macacãozinho desbotado, fora atirado a um canto como um traste. Uma perna se erguia grotescamente, como um ponto de exclamação invertido.

— Randy!

Ela caiu de joelhos ao lado do corpo, o rosto deformado pelo choque. Tomou a criança nos braços, sentindo a frieza da pele.

— Randy, meu benzinho. Acorde, Randy. Acorde.

As contusões haviam desaparecido. Sumiram da noite para o dia, e o rostinho estava incólume e perfeito. Estava corado. Pela primeira vez desde seu nascimento ela o achou lindo, e gritou diante daquela visão, um grito horrível e desamparado.

— Randy! Acorde! Randy! Randy!

Ela se levantou com o menino nos braços e correu pelo corredor, uma alça da camisola caindo do ombro. O cadeirão ainda estava na cozinha, a tampa salpicada com os restos do jantar da criança. Ela colocou Randy na cadeira, que estava no centro de uma poça de luz. A cabeça do menino caiu sobre o peito, e ele escorregou de lado lentamente até ficar alojado entre a tampa e um dos braços da cadeira.

— Randy? — disse ela, sorrindo, os olhos saltando das órbitas como bolas de gude azuis. Deu tapinhas no rosto dele. — Acorde, Randy. Vamos tomar café da manhã. Não está com fominha? Não, meu Deus, por favor...

Ela abriu um armário sobre o fogão e começou a remexer dentro dele, derrubando uma caixa de arroz instantâneo, uma lata de ravióli pronto, uma garrafa de óleo Wessel. A garrafa de óleo quebrou, espalhando o líquido viscoso pelo fogão e depois pelo chão. Ela encontrou um potinho de creme de chocolate Gerber e pegou uma colher de plástico do escorredor de louça.

— Olha, Randy. Você adora. Acorde pra comer o creme. É de chocolate, Randy. Chocolatinho gostoso. — O terror e a fúria a sacudiram. — Acorde! — ela gritou, atingindo com gotículas de saliva o rosto translúcido do menino. — Acorde! Acorde, pelo amor de Deus, seu merdinha! ACORDE!

Ela tirou a tampa do pote e encheu a colher com o creme de chocolate. Sua mão, que já sabia a verdade, tremia tanto que derrubou quase todo o creme. Empurrou o que restara entre os pequenos lábios flácidos, e mais caiu sobre a tampa da cadeira. A colher bateu contra os dentes do menino.

— Randy! — suplicou ela. — Pare de enganar a mamãe.

Ela puxou o queixo do bebê com a outra mão e meteu o resto da calda em sua boca.

— Pronto — disse Sandy McDougall, abrindo um sorriso de louca esperança. Sentou na cadeira da cozinha, relaxando os músculos. Agora tudo daria certo. Ele teria certeza de que ela ainda o amava e pararia com aquela brincadeira cruel.

— Está bom? — murmurou ela. — O chocolatinho está bom, Randy? Dá um sorriso para a mamãe. Seja bonzinho e dá um sorriso para a mamãe.

Ela estendeu a mão trêmula e empurrou o canto da boca de Randy.

O chocolate caiu na bandeja — plop.

Ela começou a gritar.

 

3

 

Tony Glick acordou na manhã de sábado quando sua mulher, Marjorie, caiu na sala.

— Margie? — chamou ele, colocando os pés no chão. — Marge?

Depois de um longo intervalo, ela respondeu.

— Está tudo bem, Tony.

Ele sentou na beira da cama, olhando fixamente para os pés. Usava só as calças do pijama listrado, cujos cordões pendiam entre as pernas. Seu cabelo estava emaranhado. Seus dois filhos haviam herdado seu cabelo preto e espesso. Muita gente pensava que ele era judeu, mesmo com aquele cabelo mediterrâneo revelando suas origens. O nome de seu avô era Gliccucchi. Quando lhe disseram que sua vida seria mais fácil com um nome americano, curto e grosso, ele o mudou legalmente para Glick, sem saber que passava de uma minoria real para outra disfarçada. O corpo de Tony Glick era forte e moreno, torneado por músculos. Seu rosto tinha a expressão aturdida de alguém que levou um soco ao sair do bar.

Tirara uma licença do trabalho e não parara mais de dormir a semana toda. A dor passava quando dormia. Não tinha sonhos. Deitava-se às 19h30 e acordava às 10h00, e tirava um cochilo das 14h00 às 15h00. O tempo que transcorrera desde a cena que fizera no enterro de Danny e aquela ensolarada manhã de domingo parecia nebuloso e irreal. Os amigos lhes levavam comida — ensopados, conservas, bolos, tortas. Margie dizia que não sabia o que fazer com tudo aquilo. Nenhum dos dois tinha fome. Na noite de quarta, quando ele tentou fazer amor com ela, ambos começaram a chorar.

Margie não parecia nada bem. Seu método de suportar a dor era limpar a casa de cima a baixo, com um zelo obsessivo que não a deixava pensar. A trilha sonora daqueles dias era o bater dos baldes de lata e o zumbido do aspirador de pó. O ar tinha o cheiro permanente de amoníaco e Lysol. Ela mandara todas as roupas e brinquedos, em caixotes bem-arrumados, para o Exército da Salvação e instituições de caridade. Quando ele levantara na quinta-feira de manhã, encontrara todos os caixotes enfileirados perto da porta da frente, cuidadosamente etiquetados. Ele nunca vira nada tão horrendo como aqueles caixotes mudos. Ela arrastara todos os tapetes para o quintal, pendurara-os nos varais e batera neles sem perdão. E até Tony, em sua exaustão, percebera como ela estava pálida desde terça ou quarta-feira. Até os lábios haviam perdido a cor natural, e ela ganhara olheiras escuras.

Esses pensamentos passaram por sua cabeça sem que ele os articulasse, e já estava a ponto de desabar de novo na cama quando ouviu a mulher mais uma vez. Dessa vez, ela não respondeu a seu chamado.

Ele levantou, foi até a sala e a viu deitada no chão, respirando lentamente, os olhos vidrados fixos no teto. Ela mudara os móveis da sala de lugar, e nada estava na posição habitual, dando ao ambiente um ar estranho e deslocado.

O estado de Marjorie piorara durante a noite, e seu aspecto era tão preocupante que o despertou de seu torpor como um banho de água fria. Ainda estava vestindo seu roupão, que se abrira revelando as pernas. Estavam brancas como mármore, tendo perdido todo o bronzeado das férias de verão. Suas mãos moviam-se como fantasmas. Abria a boca, como se não conseguisse respirar direito, e ele notou os dentes estranhamente proeminentes, mas não deu atenção. Podia ser o ângulo da luz.

— Margie? Meu bem...

Ela tentou responder, mas não conseguiu. Movido pelo medo, ele levantou para chamar o médico. Pegava o telefone quando ela disse, com dificuldade:

— Não... não...

Conseguira se sentar, e sua respiração laboriosa era audível na casa quieta e ensolarada.

— Ajude-me... a levantar... o sol está tão quente...

Ele correu para ela e a levantou, chocado com sua leveza. Estava leve como um punhado de gravetos.

— No sofá...

Ele a deitou no sofá, com as costas apoiadas no braço do móvel. Fora do feixe de luz que passava pela janela formando um quadrado no tapete, a respiração dela pareceu melhorar. Ela fechou os olhos, e mais uma vez a brancura dos dentes em contraste com os lábios o impressionou. Sentiu um impulso de beijá-la.

— Deixe-me chamar o médico — disse ele.

— Não, estou melhor. O sol estava... me queimando. Senti tontura, mas estou melhor agora.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Está trabalhando demais, querida.

— Eu sei — disse ela, com olhos desatentos.

Ele passou as mãos pelos cabelos.

— Temos de reagir, Margie. Precisamos. Você está... — ele fez uma pausa, sem querer magoá-la.

— Estou horrível — disse ela. — Eu sei. Olhei no espelho do banheiro ontem, antes de dormir, e parecia que eu era transparente. Por um minuto, eu... — Ela esboçou um sorriso. — Achei que dava para ver a banheira atrás de mim. Parecia que eu estava sumindo, e o que restava estava... tão pálido...

— Vou chamar o Dr. Reardon.

Mas ela não o escutava.

— Tive um sonho maravilhoso nas últimas três ou quatro noites. Era tão real, Tony. Danny apareceu para mim no sonho. Disse: “Mamãe, estou tão feliz por estar em casa!” E depois ele disse...

— O quê? — perguntou ele delicadamente.

— Ele disse... que era meu bebê de novo. Meu filho queria meu peito de novo. Eu lhe dei e... tive uma sensação doce e dolorida ao mesmo tempo, como era quando os dentes dele estavam começando a nascer, e ele mordia... Que horror! Você deve estar achando que é conversa para um psiquiatra.

— Não — disse ele. — Não.

Ele ajoelhou ao lado da mulher, que abraçou seu pescoço e chorou baixinho. Tinha os braços frios.

— Por favor, não chame o médico, Tony. Vou repousar hoje.

— Está bem — cedeu ele, mas com preocupação.

— É um sonho tão lindo, Tony — disse ela, com o rosto contra o seu pescoço. Os movimentos de seus lábios, a dureza dos dentes por trás deles, tudo isso lhe pareceu extremamente sensual. Ele começou a ficar excitado. — Queria que o sonho voltasse esta noite.

— Talvez volte — disse ele, acariciando-lhe os cabelos. — Talvez volte.

 

4

 

— Meu Deus, você está ótima — disse Ben.

De fato, em contraste com os anêmicos tons brancos e verdes do hospital, Susan Norton estava radiante. Usava uma blusa amarela com listras pretas verticais e uma minissaia de brim azul.

— Você também — disse ela, e atravessou o quarto em direção a ele.

Ben lhe deu um longo beijo, escorregando a mão até a curva do quadril dela.

— Ei — disse Susan, interrompendo o beijo. — Vão expulsar alguém por causa disso.

— Eu, não.

— Não, eu.

Eles se olharam.

— Eu te amo, Ben.

— Eu também te amo.

— Se eu pudesse, pulava na cama com você.

— Espere, vou puxar a manta.

— E o que vou dizer às enfermeiras?

— Que está me dando a comadre.

Ela sacudiu a cabeça, sorrindo, e puxou uma cadeira.

— Muita coisa tem acontecido na cidade, Ben.

Ele ficou sério.

— O quê?

Ela hesitou.

— Nem sei como lhe contar, ou em que acreditar. Estou confusa, no mínimo.

— Fale tudo e deixe que eu me viro.

— Qual é seu estado, Ben?

— Estou sarando. O médico de Matt, James Cody...

— Estou falando de sua mente. Até que ponto acredita nessa história de conde Drácula?

— Ah, bom. Matt te contou tudo?

— Matt está aqui no hospital. No andar de cima, na UTI.

— O quê? — Ele se apoiou nos cotovelos. — O que aconteceu com ele?

— Teve um infarto.

— Um infarto?

— O Dr. Cody disse que ele está estável. Classificaram seu estado como grave, mas isso é obrigatório nas primeiras 48 horas. Eu estava lá quando aconteceu.

— Conte-me tudo, Susan.

O prazer se esvaíra de seu rosto. Estava atento, concentrado, abatido. Entre as paredes brancas, os lençóis e o avental branco do hospital, ele mais uma vez pareceu a Susan um homem à beira de um precipício, segurando-se a uma corda frágil.

— Não respondeu à minha pergunta, Ben.

— Sobre o que achei da história de Matt?

— É.

— Deixe-me responder dizendo o que você acha. Acha que a Casa Marsten me perturbou a tal ponto que estou vendo fantasmas onde só existem sombras. Estou correto?

— Acho que sim, mas não havia pensado em termos tão... cruéis.

— Sei disso, Susan. Deixe-me descrever a progressão de meus pensamentos. Será bom para mim examiná-los. Vejo pela sua cara que algo também a impressionou muito. Estou certo?

— Está, mas não acredito. Não posso...

— Espere. Essa frase, “não posso”, bloqueia tudo. Era o que me atrapalhava. O tom categórico dessa frase. Não posso. Eu não podia acreditar em Matt, porque essas coisas não existem. Mas não conseguia encontrar um furo na história dele, por mais que tentasse. A conclusão mais óbvia era que ele enlouquecera de alguma forma, certo?

— Certo.

— Ele lhe pareceu louco?

— Não, não, mas...

— Pare — disse ele, levantando a mão. — Você está pensando em termos de não posso, não é?

— Acho que sim — disse ela.

— Ele também não me pareceu louco nem irracional. E nós dois sabemos que fantasias paranoicas e manias de perseguição não aparecem da noite para o dia. Vão se desenvolvendo com o tempo. Já ouviu alguém dizer que Matt tinha um parafuso a menos? Já ouviu Matt dizer que alguém queria matá-lo? Ele já se envolveu em causas duvidosas ou fanáticas? Já mostrou interesse fora do comum por assuntos místicos, como sessões espíritas ou reencarnação? Já foi preso?

— Não — disse ela. — Não a todas as perguntas. Mas Ben... não queria dizer isso sobre Matt, mas algumas pessoas enlouquecem serenamente. Enlouquecem por dentro.

— Não concordo — disse ele. — Sempre há sinais. Às vezes não os percebemos na hora, só depois. Se você fizesse parte de um júri, acreditaria no testemunho de Matt em relação a um acidente de carro?

— Acreditaria.

— Acreditaria se ele lhe dissesse que viu um ladrão matar Mike Ryerson?

— Acho que sim.

— Mas não acredita no que ele lhe disse.

— Ben, não posso...

— Pronto, de novo essa frase. — Ele viu que ela protestaria, e ergueu a mão. — Não estou defendendo a versão dele, Susan. Só estou mostrando minha linha de raciocínio, certo?

— Certo, continue.

— Minha segunda hipótese era que alguém tivesse armado tudo isso para incriminá-lo.

— Isso também me ocorreu.

— Matt disse que não tem inimigos. Acredito nele.

— Todos têm inimigos.

— Mas há graus. Não esqueça o mais importante, um homem foi morto. Se alguém queria acabar com a vida de Matt, precisou matar Mike Ryerson para isso.

— Por quê?

— Porque toda essa confusão não faz sentido sem um corpo. Mas Matt disse que encontrou Mike totalmente por acaso. Ninguém o levou ao Dell’s na noite de quinta. Não recebeu telefonemas anônimos, bilhetes, nada. A coincidência do encontro já basta para descartar uma armadilha.

— O que resta em termos de explicações racionais?

— Que Matt sonhou que ouviu a janela se abrindo, a risada e o som de sucção. E Matt morreu de causas naturais, mas desconhecidas.

— Mas você também não acredita nisso.

— Não acredito que ele sonhou com a janela se abrindo. Estava aberta. E a tela externa estava no jardim. Eu notei e Parkins Gillespie também. E notei outra coisa. As telas da casa de Matt são do tipo que tem o trinco para fora, não para dentro. Não dá para tirá-las de dentro, a não ser com uma chave de fenda ou um formão. Mesmo assim, seria trabalhoso e deixaria marcas. Não vi nenhuma marca. E outra coisa: o chão do jardim é relativamente macio. Para tirar a tela do segundo andar, seria preciso uma escada, que deixaria marcas. Não vi nenhuma. É isso o que mais me incomoda. Uma tela no segundo andar tirada de fora e nenhuma marca de escada no chão.

Eles trocaram um olhar sombrio.

— Era o que eu estava raciocinando esta manhã — retomou ele. — E, quanto mais eu pensava, mais plausível se tornava a versão de Matt. Então, resolvi arriscar. Esqueci da frase não posso. Agora, conte-me o que aconteceu na casa dele ontem. Se explicar tudo que tem acontecido, ninguém ficará mais feliz do que eu.

— Não explica — disse ela, desanimada. — Apenas piora. Ele tinha acabado de me contar o que aconteceu com Mike Ryerson quando disse que tinha ouvido alguém no andar de cima. Estava apavorado, mas subiu. — Ela dobrou as mãos sobre o colo e as apertou com força, como se pudessem fugir. — Por alguns instantes, nada aconteceu. Depois Matt gritou algo, tipo que retirava o convite. Depois... não sei bem como...

— Continue. Não fique enrolando.

— Acho que alguém, outra pessoa, fez um som parecido com um silvo. Ouvi uma pancada, como se alguém tivesse caído. — Ela o olhou, desolada. — E então uma voz disse: Você dormirá o sono dos mortos, professor. Foi assim, palavra por palavra. E quando entrei mais tarde para pegar um cobertor para Matt, encontrei isto.

Ela tirou o anel do bolso da blusa e entregou a Ben. Ele o virou na direção da janela para que a luz iluminasse as iniciais.

— M.C.R. Mike Ryerson?

— Mike Corey Ryerson. Eu o deixei cair e me obriguei a pegá-lo de novo. Achei que você ou Matt gostariam de vê-lo. Pode ficar com ele, não quero de volta.

— Faz com que se sinta...

— Mal. Muito mal. — Ela ergueu a cabeça num gesto de desafio. — Mas tudo isso é antirracional, Ben. Prefiro acreditar que Matt por algum motivo matou Mike e inventou toda essa história maluca de vampiros por motivos próprios. Pode ter armado a tela para que caísse. Deu uma de ventríloquo no quarto de hóspedes, deixou o anel de Mike à vista e...

— E provocou um infarto em si mesmo para ficar ainda mais realista — replicou Ben. — Ainda não desisti das explicações racionais, Susan. Estou torcendo, quase rezando, para que haja uma. Os monstros no cinema são divertidos porque sabemos que não estão soltos por aí. Concordo com você que a tela poderia ter sido armada. Bastaria uma corda e um gancho preso ao telhado. Mas continuemos. Matt é um cara culto. Alguns venenos devem causar os sintomas que Mike teve. Talvez venenos indetectáveis. Mas essa hipótese é um pouco remota, porque Mike comeu tão pouco...

— Só Matt sabe disso — ela observou.

— Ele não mentiria, sabe que o legista não deixaria de examinar o estômago da vítima. E injetar o veneno deixaria marcas. Mas vamos supor que isso pudesse ser feito. E ele pode ter tomado algo para simular um ataque cardíaco. Mas que motivo teria?

Ela sacudiu a cabeça, perdida.

— Mesmo que exista um motivo misterioso, por que ele faria algo tão absurdo e inventaria uma história tão extravagante para encobrir o crime? Ellery Queen poderia encontrar uma explicação, mas a vida não é um livro de Queen.

— Mas essa outra explicação é uma loucura, Ben.

— Sim, como Hiroshima.

— Pare com isso! — ela exclamou de repente. — Não dê uma de intelectual, não combina com você! Estamos falando de histórias fantásticas, pesadelos, psicose, seja o que for que...

— Bobagem — disse Ben. — Faça as correlações. O mundo está despencando ao nosso redor e você está chocada com um punhado de vampiros.

— ’Salem’s Lot é minha cidade — disse ela, com teimosia. — Se alguma coisa está acontecendo aqui, tem a ver com a realidade, e não com especulações filosóficas.

— Concordo totalmente — disse ele, e levou a mão ao curativo na cabeça. — Seu ex-namorado tem um soco de direita bem real.

— Desculpe. Eu não conhecia esse lado de Floyd. Não entendo essa atitude.

— Onde ele está agora?

— Na cadeia da cidade. Parkins Gillespie disse para minha mãe que o entregaria à polícia do condado, ao delegado McCaslin. Mas resolveu esperar para ver se você daria queixa.

— Você se importaria?

— Nem um pouco — disse ela com firmeza. — Ele saiu da minha vida.

— Não vou dar queixa.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Mas quero falar com ele.

— Sobre nós?

— Quero saber por que ele me procurou usando um sobretudo, chapéu, óculos escuros... e luvas de borracha Playtex.

— O quê?

— Bom — disse ele, olhando-a nos olhos. — O sol brilhava. Bem em cima dele. E acho que ele não estava gostando.

Eles se entreolharam em silêncio. Parecia não haver mais nada a dizer.

 

5

 

Quando Nolly levou a Floyd o café da manhã que trouxera do Excellent Café, encontrou-o dormindo profundamente. Nolly considerou uma maldade acordá-lo só para comer os dois ovos fritos e os seis pedaços de bacon gorduroso, e decidiu dar um fim na refeição ele mesmo em sua sala. E tomou o café também. Pauline Dickens fazia um café delicioso, ninguém podia negar. Mas quando levou o almoço de Floyd e o encontrou dormindo, ainda na mesma posição, ficou um pouco assustado. Colocou a bandeja no chão e bateu nas grades com uma colher.

— Ei, Floyd! Acorde! Trouxe o almoço!

Floyd não acordou, e Nolly tirou sua chave do bolso para abrir a porta do xadrez. Mas hesitou antes de inserir a chave. O episódio de A Morte Tem Seu Preço da semana anterior fora sobre um valentão que se fingira de doente para derrubar o carcereiro. Nolly nunca achara Floyd Tibbits um valentão, mas por outro lado fizera um belo estrago no escritor.

Ele hesitou, com a colher numa mão e a chave na outra, um homem grande cujas camisas brancas estavam sempre manchadas de suor nas axilas nos dias quentes. Pertencia à liga de jogadores de boliche e frequentava bares nos fins de semana, tendo na carteira uma lista de inferninhos e motéis de Portland ao lado do calendário de bolso luterano. Era um homem simples, o típico bode expiatório, que demorava para reagir e se zangar. Além disso, não tinha muita agilidade mental. Ficou parado vários minutos sem saber o que fazer, chamando Floyd com a colher na mão, desejando que ele se mexesse, roncasse, fizesse algo. Estava justamente pensando em ligar para Parkins e pedir instruções quando o próprio Parkins apareceu na porta do escritório.

— O que você está fazendo, Nolly? Chamando os porcos?

O rapaz ficou vermelho.

— Floyd não se mexe. Acho que ele está... sei lá, doente.

— E você acha que bater nas grades com a colher vai fazer ele melhorar? — Parkins se aproximou e abriu a cela.

— Floyd? — Ele sacudiu Floyd pelo ombro. — Tudo bem com...

Floyd rolou da cama para o chão.

— Caramba — disse Nolly. — Ele está morto, não está?

Mas Parkins não ouviu. Olhava para o rosto estranhamente sereno de Floyd, e lentamente seu próprio rosto foi se enchendo de pavor.

— O que aconteceu, Park?

— Nada. É só que... vamos dar o fora daqui — E continuou, para si mesmo. — Não devia ter encostado nele.

Nolly olhou para o corpo de Floyd sentindo uma ponta de terror.

— Mexa-se — disse Parkins. — Temos de buscar o médico.

 

6

 

No meio da tarde, Franklin Boddin e Virgil Rathbun passaram pelo portão de tábuas no final da bifurcação da via Burn, três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill. Estavam na picape Chevrolet ano 57 de Franklin, um veículo que já fora branco marfim no primeiro ano do segundo mandado de Eisenhower, mas que agora era cor de bosta misturada com vermelho. A picape estava cheia do que Franklin chamava de “tranqueiras”. Uma vez por mês, ele e Virgil levavam as “tranqueiras” para o depósito de lixo, sendo que a maior parte consistia em garrafas e latas de cerveja, barris de chope, garrafas de vinho e de vodca Popov.

— Fechado — disse Franklin, franzindo os olhos para ler a placa presa ao portão. — Mas que merda... — Deu um gole na cerveja encaixada entre suas pernas, perto da virilha, e enxugou a boca com o braço. — Hoje é sábado, não é?

— Claro que é — disse Virgil. Não tinha ideia se era sábado ou terça. Estava tão bêbado que não sabia nem que mês era.

— O depósito não fecha aos sábados, não é? — perguntou Franklin. Ele via três placas em vez de uma. Franziu os olhos de novo. As três placas diziam “Fechado”. A tinta vermelha só podia ser da lata que Dud Rogers guardava em sua cabana.

— Nunca fecha aos sábados — disse Virgil. Levantou sua garrafa de cerveja, errou a boca e derrubou o líquido no ombro esquerdo.

— Fechado — repetiu Franklin com crescente irritação. — Aquele filho da mãe deve estar atrás de mulher, isso sim. Ele vai ver. — Ele colocou a primeira marcha e apertou o acelerador. A cerveja transbordou da garrafa e molhou suas calças.

— Pé na tábua, Franklin! — gritou Virgil, e soltou um arroto gigantesco quando a picape arrombou o portão, derrubando-o sobre o acostamento entulhado de latas. Franklin trocou para a segunda e subiu a estrada esburacada. A picape se sacudia ruidosamente sobre as molas gastas. Garrafas caíram da traseira e se espatifaram no chão. Gaivotas alçaram voo gritando.

Trezentos metros depois do portão, a via Burns terminava em uma ampla clareira, que era o depósito em si. O bosque cerrado de carvalhos e bordos se abria revelando uma grande área plana de terra vermelha, que fora sulcada pelo uso constante da velha escavadeira, agora estacionada ao lado da cabana de Dud. Depois da área plana ficava a cascalheira onde o lixo era depositado. O entulho, cintilante com suas garrafas e latas de alumínio, amontoava-se em dunas gigantescas.

— Maldito corcunda imprestável, parece que ele não queimou lixo a semana toda — disse Franklin. Meteu os dois pés no breque, que afundou até o piso com um grito mecânico. Depois de alguns segundos, a picape parou. — Deve estar de ressaca, isso sim.

— E Dud nem é de beber muito — observou Virgil, jogando a garrafa vazia pela janela e tirando outra do saco marrom no chão. Abriu-a no trinco da porta, e o líquido espumante transbordou sobre sua mão.

— Todos os corcundas bebem — disse Franklin com ar sábio. Cuspiu pela janela, descobriu que estava fechada e passou a manga da camisa no vidro riscado e embaçado. — Vamos procurar ele. Pode valer alguma coisa.

Ele deu ré com a picape fazendo uma grande trajetória circular e parou com a traseira virada para a última pilha de lixo. Quando desligou a ignição, o silêncio subitamente pesou sobre eles. Era completo, com a exceção dos gritos inquietos das gaivotas.

— Como tudo está quieto! — murmurou Virgil.

Eles desceram da picape e foram até a traseira. Franklin soltou as travas da tampa, que desceu com um estrondo. As gaivotas que se alimentavam do outro lado do depósito levantaram voo numa ruidosa nuvem.

Os dois subiram na carroceria sem dizer palavra e começaram a descarregar o lixo. Sacos plásticos verdes voavam pelo ar e se abriam ao cair. Era uma tarefa habitual para eles. Ambos eram uma parte da cidade que os turistas raramente viam, ou queriam ver — primeiro, porque a cidade os ignorava, tacitamente. E segundo, porque haviam criado uma coloração protetora própria. Um morador que visse a picape de Franklin na estrada esquecia-a assim que sumia do espelho retrovisor. Se avistasse a cabana deles, com a chaminé de lata lançando uma fina fumaça no céu, ignorava-a. Se encontrasse Virgil saindo de uma loja em Cumberland com uma garrafa de vodca barata num saco marrom, cumprimentava-o sem saber direito quem era — o rosto era familiar, mas o nome não vinha à mente. Derek Boddin, pai de Richie (imperador deposto da escola elementar da rua Stanley), era irmão de Franklin, mas praticamente se esquecera que ele ainda vivia na cidade. Passara do estágio de ovelha negra para o de uma sombra.

Depois de esvaziar a picape, Franklin chutou uma última lata — clink! — e suspendeu as calças verdes de trabalho.

— Vamos visitar o Dud — disse ele.

Quando desceram da carroceria, Virgil tropeçou num dos próprios cadarços de couro cru e caiu sentado no chão.

— Que droga de cadarço — murmurou indistintamente.

Eles se aproximaram da cabana de Dud. A porta estava fechada.

— Dud! — berrou Franklin. — Ei, Dud Rogers! — Ele socou a porta, e toda a cabana tremeu. O fecho de ilhós da porta se rompeu, dando passagem. A cabana estava vazia, mas emanava um cheiro adocicado e nauseante. Eles se entreolharam com uma careta, justo eles, veteranos de bares e seus cheiros insalubres. Franklin pensou em picles guardados num pote durante muitos anos, até o líquido ficar branco.

— Filho da mãe — disse Virgil. — Fede mais que gangrena.

Mas a cabana estava impecavelmente limpa. A segunda camisa de Dud estava pendurada num cabide sobre a cama, a cadeira lascada fora encostada à mesa da cozinha e a cama em si estava arrumada em estilo militar. A lata de tinta vermelha, com gotas recentes nas laterais, estava sobre um jornal dobrado atrás da porta.

— Vou vomitar se a gente não sair daqui — disse Virgil, com o rosto esverdeado.

Franklin, também enjoado, recuou e fechou a porta.

Lançaram um olhar ao depósito de lixo, deserto e estéril como as montanhas da lua.

— Ele não está por aqui — Franklin disse. — Deve estar escondido no mato.

— Frank?

— O quê? — retrucou Franklin, irritado.

— A porta estava trancada por dentro. Se ele não está lá, como foi que saiu?

Alarmado, Franklin se virou e olhou para a cabana. Pela janela, ele ia dizer, mas desistiu. A janela não passava de um quadrado recortado na lona e fechado com plástico impermeável. Não era grande bastante para que Dud passasse por ela, ainda mais com a corcunda.

— Deixe para lá — disse Franklin, mal-humorado. — Se ele não quer dividir com a gente, dane-se. Vamos embora.

Enquanto voltavam para a picape, Franklin sentiu algo atravessar a membrana protetora da embriaguez — algo de que não lembraria mais tarde, nem desejaria lembrar: uma sensação arrepiante, de que algo lá estava terrivelmente errado. Era como se o depósito tivesse um coração, que pulsava com lenta e terrível vitalidade. De repente, ele desejou sumir dali o quanto antes.

— Onde estão os ratos? — disse Virgil de repente.

Não havia nenhum à vista. Apenas gaivotas. Franklin tentou se lembrar se alguma vez levara o lixo para o depósito e não vira ratos. Não se lembrou de nenhuma. Era muito esquisito.

— Ele deve ter espalhado veneno, não é, Frank?

— Vamos logo — disse Frank. — Vamos embora desta droga de lugar.

 

7

 

Depois do jantar, o médico deixou Ben subir e visitar Matt Burke. Foi uma visita curta, pois Matt dormia. Mas o balão de oxigênio fora removido, e a enfermeira-chefe disse a Ben que provavelmente Matt despertaria na manhã seguinte e poderia receber visitas breves.

Ben achou o rosto dele cansado e cruelmente envelhecido, pela primeira vez o rosto de um velho. Imóvel, com a pele flácida do pescoço acima do avental hospitalar, ele parecia vulnerável e indefeso. Se for tudo verdade, pensou Ben, os médicos não estão fazendo nada para ajudá-lo. Se for tudo verdade, estamos na cidadela da descrença, onde os pesadelos são eliminados com bisturis e quimioterapia, ao invés de estacas, bíblias e cabeças de alho. Eles confiam em seus aparelhos, injeções e clisteres cheios de solução de bário. Se a muralha da razão tiver um furo, eles não sabem nem querem saber.

Ele se aproximou da cama e virou a cabeça de Matt delicadamente. Não havia marcas no pescoço. A pele estava intacta.

Ele hesitou, depois foi até o armário e o abriu. Lá estavam as roupas de Matt e, pendurado num gancho, o crucifixo que ele usava quando Susan o visitou. Sua corrente filigranada brilhava suavemente à luz branda do quarto.

Ben o pegou e o pendurou no pescoço de Matt.

— Ei, o que você está fazendo?

Uma enfermeira entrara com um jarro d’água e uma comadre decorosamente coberta com uma toalha.

— Estou colocando o crucifixo no pescoço dele.

— Ele é católico?

— Agora, é — respondeu Ben em tom sombrio.

 

8

 

Já era noite quando alguém bateu de mansinho na porta de trás da casa dos Sawyer, na via Deep Cut. Bonnie Sawyer, com um sorrisinho nos lábios, foi atender. Usava um avental curto amarrado na cintura, salto alto e mais nada.

Quando ela abriu a porta, Corey Bryant arregalou os olhos e deixou cair o queixo.

— Mas... — disse ele. — Mas... Bonnie...

— Qual é o problema, Corey? — Ela apoiou a mão na maçaneta, empinando os seios nus. Ao mesmo tempo, cruzou os pés, modelando as pernas para ele.

— Cruzes, Bonnie, e se fosse...

— O homem da companhia telefônica? — disse ela, com um risinho. Pegou a mão dele e a levou ao seio direito. — Quer ler meu medidor?

Com um gemido de exasperação, ele a puxou contra si e agarrou suas nádegas nuas, amassando ruidosamente o avental engomado.

— Puxa — disse ela, roçando-se nele. — Você vai testar meu fone, Sr. técnico? Estou esperando um telefonema importante...

Ele a levantou do chão e chutou a porta atrás de si. Não precisou que ela lhe mostrasse o caminho do quarto.

— Você tem certeza de que ele não vai chegar?

Os olhos dela brilharam na escuridão.

— De quem está falando, Sr. técnico? Do meu maridinho? Ele está em Burlington, Vermont.

Ele a deitou de viés na cama, com as pernas para fora.

— Acenda a luz — disse ela, com a voz lenta e arrastada. — Quero ver o que vai fazer.

Ele acendeu o abajur e olhou para Bonnie. O avental fora puxado para o lado. Seus olhos estavam lânguidos e quentes, as pupilas grandes e brilhantes.

— Tire esta coisa — disse ele, apontando para o avental.

— Tire você — disse ela. — Sei que entende de nós e fios, Sr. técnico.

Ele se inclinou para obedecer à ordem. Ela sempre fazia com que ele se sentisse como um garoto sedento bebendo da fonte pela primeira vez, e suas mãos sempre tremiam na presença dela, como se aquele corpo transmitisse uma corrente elétrica para a atmosfera ao redor. Ela nunca deixava sua mente por completo. Estava alojada lá dentro como uma ferida na boca, que a língua não consegue deixar de visitar e testar. Ela até passeava por seus sonhos, com sua pele dourada, perversamente sedutora. Tinha uma imaginação infinita.

— Não, de joelhos — disse ela. — Ajoelhe-se para mim.

Corey se ajoelhou desajeitadamente e rastejou até Bonnie, estendendo a mão para o laço do avental. Ela colocou os pés, calçados com saltos altos, sobre os ombros do rapaz. Ele se inclinou e beijou a parte interna da coxa dela, sentindo a carne firme e morna.

— Isso mesmo, Corey. Continue subindo, continue....

— Mas que beleza...

Bonnie Sawyer gritou.

Corey Bryant olhou para cima, piscando em sua confusão.

Reggie Sawyer estava encostado na porta do quarto. Trazia uma espingarda casualmente apoiada no antebraço, os canos apontando para o chão.

Corey sentiu um jorro quente quando sua bexiga se soltou.

— Então, é verdade — admirou-se Reggie, sorrindo. Entrou no quarto. — Ora, vejam só. Preciso pagar uma caixa de Budweiser para aquele bebum do Mickey Sylvester. Caramba...

Bonnie recuperou a voz primeiro.

— Ouça, Reggie. Não é o que você está pensando. Ele invadiu a casa, parecendo um louco, e ele...

— Cale a boca, vagabunda. — Ele ainda sorria. Era um sorriso cordial. Ele era enorme. Ainda usava o mesmo terno cinzento de quando ela lhe dera um beijo de adeus duas horas antes.

— Ouça — disse Corey debilmente, sentindo a boca cheia de saliva. — Por favor, não me mate. Eu sei que eu mereço, mas não vai querer acabar na cadeia por causa disso. Pode me bater, mas por favor, não...

— Levante-se, Perry Mason — disse Reggie Sawyer, ainda com seu sorriso cordial. — Seu zíper está aberto.

— Ouça, Sr. Sawyer...

— Ora, pode me chamar de Reggie. Somos amigos do peito. Tenho até ficado com seus restos, não é?

— Reggie, não é o que você está pensando. Ele me estuprou...

Reggie olhou para Bonnie com seu sorriso cordial e bondoso.

— Se disser mais uma palavra, vou enfiar isto na sua bunda e lhe dar um presentinho especial.

Bonnie começou a gemer. Seu rosto ficara da cor de iogurte natural.

— Sr. Sawyer... Reggie...

— Seu sobrenome é Bryant, não? O nome de seu pai é Pete Bryant, não é?

Corey assentiu com gestos frenéticos.

— Isso mesmo, isso mesmo. Ouça...

— Eu lhe vendia querosene número dois quando era motorista de Jim Webber — disse Reggie, com um sorriso de boas lembranças. — Isso foi quatro ou cinco anos antes de eu conhecer esta vagabunda. Seu pai sabe que está aqui?

— Não, ele ficaria arrasado. Pode me bater, senhor, eu mereço, mas se me matar, meu pai vai morrer de desgosto, e o senhor será responsável por duas...

— É, aposto que ele não sabe. Vamos até a sala um pouco. Precisamos discutir isso. Venha. — Ele sorriu gentilmente para Corey, mostrando que não lhe faria mal, e depois se voltou para Bonnie, que o olhava com olhos arregalados. — Não saia daqui, mulher, ou nunca saberá como acaba a novela. Venha, Bryant. — Ele fez um gesto com a espingarda em direção à porta.

Corey andou até a sala adiante de Reggie, arrastando os pés. Suas pernas haviam virado borracha. Um ponto entre suas espáduas coçava loucamente. É aí que ele vai apontar, pensou ele. Será que vou viver bastante para ver minhas tripas na parede?...

— Vire-se — mandou Reggie.

Corey se virou. Começou a chorar. Não queria, mas não conseguia evitar. E tanto fazia se chorasse ou não. Já molhara as calças mesmo.

A espingarda já não estava apoiada casualmente sobre o braço de Reggie. Os canos duplos apontavam diretamente para o rosto de Corey. Seus círculos negros pareciam se alargar como poços sem fundo.

— Você sabe o que andou fazendo? — perguntou Reggie. — O sorriso desaparecera. Sua expressão era muito grave.

Corey não respondeu. Era uma pergunta estúpida. Mas continuou tremendo e chorando.

— Você dormiu com a mulher de outro, Corey. É esse o seu nome?

Corey fez que sim, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Sabe o que acontece com gente que faz isso quando é pega em flagrante?

Corey fez que sim.

— Segure o cano da espingarda, Corey. Bem de leve. Coloquei três cartuchos nela. Finja... finja que está segurando os peitos da minha mulher.

Corey estendeu a mão trêmula e a colocou sobre o cano da espingarda. Sentiu o metal frio contra sua pele quente. Um gemido longo e doloroso saiu de sua garganta. Não havia mais o que dizer. Nem súplicas a fazer.

— Ponha na sua boca, Corey. Os dois canos. Isso... calma. Pronto, está vendo? Cabe na sua boca. E você entende bem disso, não é?

Corey não podia abrir mais os maxilares. Os canos da espingarda chegavam quase ao seu palato, e seu estômago se contraía em ânsias de terror. Sentia o aço oleoso contra os dentes.

— Feche os olhos, Corey.

Corey continuou a olhar para ele, com olhos imensos e líquidos como poças.

O sorriso bondoso voltou aos lábios de Reggie.

— Feche esses olhinhos azuis, Corey.

Corey os fechou.

Seu esfíncter cedeu — ele só se apercebeu vagamente do fato.

Reggie puxou os dois gatilhos. Os cães da arma fizeram um duplo clique nas câmaras vazias.

Corey caiu no chão desmaiado.

Reggie olhou para ele por um momento, sorrindo bondosamente, e depois virou a espingarda para baixo. Dirigiu-se ao quarto.

— Aqui vou eu, Bonnie, queira ou não.

Bonnie Sawyer começou a gritar.

 

9

 

Corey Bryant cambaleava pela via Deep Cut, onde estacionara o caminhão da companhia telefônica. Cheirava mal. Seus olhos estavam injetados e vítreos. Um grande galo crescera em sua cabeça depois que caíra no chão desmaiado. Arrastava as botas lentamente pelo acostamento. Tentava se concentrar apenas no som que elas faziam e em mais nada, para não pensar na súbita e total ruína de sua vida. Eram 20h15.

Reggie Sawyer ainda sorria gentilmente quando empurrou Corey para fora da casa. Os soluços uniformes e dilacerantes de Bonnie vinham do quarto, pontuando as palavras dele: “Agora seja um bom menino e vá embora. Pegue seu caminhão e volte para a cidade. Um ônibus chega de Lewiston e sai para Boston às 21h45. De lá você pode pegar um ônibus para qualquer lugar do país. O ônibus sai da Spencer’s. É melhor pegá-lo, porque, se eu botar os olhos outra vez em você, eu te mato. Ela vai ficar boa. Vai ter que usar calças e blusas de mangas compridas durante umas semanas, mas não deixei marcas no rosto. Saia logo de ’salem’s Lot, antes de se limpar e começar a achar que é um homem de novo.”

E lá estava ele, andando naquela rua, prestes a fazer o que Reggie Sawyer lhe dissera. Podia ir de Boston... para qualquer lugar. Tinha pouco mais de mil dólares no banco. Sua mãe sempre dizia que ele era muito econômico. Podia sobreviver com o dinheiro até arranjar um emprego e começar a longa tarefa de esquecer aquela noite — o gosto do cano da espingarda, o cheiro da própria merda amontoada nas calças.

— Olá, Sr. Bryant.

Corey sufocou um grito e olhou para a escuridão, sem ver nada de início. O vento sacudia as árvores, projetando sombras dançantes sobre o asfalto. De repente ele distinguiu uma sombra mais sólida, ao lado do muro de pedra entre a estrada e o pasto de Carl Smith. A sombra parecia ser de um homem, mas havia algo... algo...

— Quem é você?

— Um amigo muito observador, Sr. Bryant.

O vulto se mexeu e se destacou das sombras. À luz pálida, Corey viu um homem de meia-idade, com bigode preto e olhos fundos e brilhantes.

— Você foi maltratado, Sr. Bryant.

— Como sabe da minha vida?

— Eu sei muito. É minha obrigação saber. Cigarro?

— Obrigado. — Corey aceitou o cigarro com gratidão e o meteu entre os lábios. O estranho acendeu um fósforo, e, ao brilho da chama, Corey viu que ele tinha maçãs do rosto altas e eslavas, testa branca e ossuda, cabelos pretos penteados para trás. A chama se apagou e Corey tragou a fumaça áspera. Era um cigarro gringo, mas qualquer cigarro estava bom. Começou a se sentir um pouco mais calmo.

— Quem é você? — perguntou de novo.

O estranho deu uma risada surpreendentemente larga e robusta, que foi levada pela brisa como a fumaça do cigarro de Corey.

— Nomes! — exclamou ele. — Como os americanos são obcecados por nomes! Sou Bill Smith, compre meu carro! Coma tal produto! Veja tal programa de televisão! Meu nome é Barlow, se isso o tranquiliza. — E ele soltou outra gargalhada, os olhos cintilando. Corey sentiu um sorriso repuxar seus lábios, e mal pôde acreditar. Seus problemas pareciam distantes e triviais em comparação ao humor sarcástico daqueles olhos escuros.

— Você é estrangeiro, não é? — perguntou Corey.

— Sou de muitos lugares, mas para mim este país... esta cidade... parece cheia de estrangeiros. Entendeu? Hein? — Ele deu outra gargalhada exuberante, e dessa vez Corey não se conteve e o acompanhou. O riso escapava de sua garganta quase com histeria.

— Sim, estrangeiros — continuou o outro. — Mas belos, sedutores, sanguíneos, explodindo de vitalidade. Você sabia como são belas as pessoas de seu país e de sua cidade, Sr. Bryant?

Corey apenas riu, um pouco constrangido. Mas não tirou os olhos do rosto do estranho. Ele o extasiava.

— O povo deste país não sabe o que é passar fome e necessidade. Há duas gerações que não conhecem nada parecido, e, mesmo quando conheceram, era apenas um eco distante. Acham que sabem o que é tristeza, mas é a tristeza de uma criança que derrubou o sorvete na grama. Mas elas não têm nenhuma... como é a palavra em sua língua... contenção. Derramam o sangue umas das outras com grande vigor. Você não concorda? Não vê?

— Vejo — disse Corey. E, de fato, dentro dos olhos do estranho ele via muitas coisas, todas maravilhosas.

— Este país é um fascinante paradoxo. Em outras terras, quando um homem come até se fartar dia após dia, esse homem fica sonolento, preguiçoso. Mas, aqui, parece que quanto mais vocês têm, mais agressivos ficam. Como o Sr. Sawyer. Tem tanto e se recusa a dar algumas migalhas de sua mesa. Como uma criança numa festa, que empurra outra, mesmo não conseguindo comer mais. Não é mesmo?

— É — disse Corey. Os olhos de Barlow eram tão grandes, tão compreensivos. Era tudo uma questão de...

— É tudo uma questão de perspectiva, não é?

— Isso! — exclamou Corey. O homem encontrara a palavra exata, perfeita. O cigarro caiu de sua mão sem que ele notasse.

— Eu poderia ter ignorado uma cidade rústica como esta — continuou o estranho, pensativo. — Poderia ter escolhido uma das grandes e fervilhantes cidades de seu país. Bah! — Ele se endireitou subitamente, e seus olhos faiscaram. — O que sei sobre cidades? Seria atropelado por uma carruagem ao atravessar a rua! Sufocaria com o ar fétido! Entraria em contato com diletantes sofisticados, com intenções... como vocês dizem?... hostis em relação a mim. Como um pobre rústico como eu poderia enfrentar o refinamento vazio de uma grande cidade... mesmo sendo americana? Não e não! Eu cuspo nas grandes cidades deste país!

— Isso mesmo... — murmurou Corey.

— Então vim para cá, para uma cidade que foi mencionada para mim por um homem brilhante, um antigo morador, que lamentavelmente faleceu. As pessoas daqui ainda são saudáveis e vitais, ainda cheias da agressão e da cegueira tão necessárias para... não existe palavra em sua língua para isso. Pokol; vurderlak; eyalik. Está entendendo?

— Estou — murmurou Corey.

— As pessoas não se separaram da vitalidade que flui da mãe-terra com uma carapaça de concreto e cimento. Têm as mãos mergulhadas nas águas da vida. Extraíram a vida da terra, íntegra e pulsante! Não é verdade?

— É, sim!

O estranho deu uma gargalhada bondosa e apoiou a mão no ombro de Corey.

— Você é um bom rapaz. Bom e forte. Não deve querer deixar esta cidade tão perfeita, não é?

— Não... — murmurou Corey, mas ficou em dúvida. O medo retornava. Mas não tinha importância. Aquele homem não deixaria que nada de mau lhe acontecesse.

— E não sairá. Nunca mais.

Corey tremia, preso ao chão, quando Barlow inclinou a cabeça em direção a ele.

— E há de se vingar daqueles que se fartam deixando outros à míngua.

Corey Bryant mergulhou num grande rio de esquecimeno, e esse rio era o tempo, e suas águas eram vermelhas.

 

10

 

Eram nove da noite. O filme de sábado passava na televisão do hospital quando o telefone ao lado da cama de Ben tocou. Era Susan, com a voz descontrolada.

— Ben, Floyd Tibbits morreu ontem à noite, na cela. O Dr. Cody disse que foi anemia aguda. Mas eu conhecia Floyd! Ele tinha pressão alta. Por isso o exército não o aceitou.

— Calma — disse Ben, soerguendo-se na cama.

— E tem mais. Um bebê de dez meses morreu. A família dele morava na Curva. A mãe, a Sra. McDougall, foi levada amarrada.

— Sabe como o bebê morreu?

— Minha mãe disse que a Sra. Evans ouviu Sandra McDougall gritando, foi até lá e chamou o velho Dr. Plowman. O médico não disse nada, mas a Sra. Evans contou para minha mãe que não tinha nada de errado com o bebê... só que estava morto.

— E os dois malucos da cidade, Matt e eu, estamos fora de ação — disse Ben, quase consigo mesmo. — Parece que foi planejado.

— E tem mais.

— O quê?

— Carl Foreman está desaparecido. Assim como o corpo de Mike Ryerson.

— Então é isso mesmo — ele se ouviu dizendo. — Tem de ser isso. Saio daqui amanhã.

— Eles já vão deixar você sair?

— Ninguém vai poder dizer nada — disse ele, distraidamente. Sua cabeça já estava em outro lugar. — Você tem um crucifixo?

— Eu? — perguntou ela, achando graça. — Não. Que pergunta...

— Não estou brincando, Susan. Nunca falei tão sério. Tem algum lugar onde possa conseguir um a essa hora?

— Bom, Marie Boddin deve ter um. Posso ir...

— Não, não saia. Fique dentro de casa. Faça um você mesma, nem que tenha de colar dois pedaços de pau. Deixe ao lado da cama.

— Ben, ainda não acredito nisso. Pode ser algum louco, que acha que é um vampiro, mas...

— Acredite no que quiser, mas faça a cruz.

— Mas...

— Você vai fazer? Mesmo que seja só para me agradar?

Ela hesitou um pouco.

— Vou, Ben.

— Pode vir ao hospital amanhã lá pelas nove?

— Claro.

— Ótimo, assim colocaremos Matt a par da situação juntos. Depois vamos conversar com o Dr. James Cody.

— Ele vai achar que você é louco, Ben. Você sabe disso, não é?

— Acho que sei. Mas tudo fica mais real à noite, não é?

— É — disse ela, baixinho. — E como...

Por algum motivo ele pensou em Miranda, em como ela morrera: a moto entrando no trecho molhado, derrapando, o grito dela, o pânico brutal que ele sentiu, o caminhão se precipitando velozmente em direção a eles.

— Susan?

— Sim.

— Cuide-se bem. Por favor.

Em seguida, ele colocou o telefone no gancho e olhou para a tevê, sem ver a comédia com Doris Day e Rock Hudson que começara a passar. Sentia-se nu, vulnerável. Não tinha nenhuma cruz. Voltou os olhos para a janela, que mostrava apenas a escuridão da noite. O medo das trevas, antigo e infantil, começou a dominá-lo, e ele olhou para a televisão, onde Doris Day dava um banho de espuma num cachorro felpudo.

11

 

O necrotério de Portland era um lugar frio e antisséptico, totalmente revestido de azulejos verdes. O piso e as paredes eram de um verde-escuro, e o teto era de um tom mais claro. Portas quadradas que pareciam grandes armários de rodoviária se estendiam pelas paredes. Lâmpadas tubulares de néon lançavam uma luz clara e neutra sobre o ambiente. Não era uma decoração muito vibrante, mas a clientela nunca reclamara.

Às 21h45 daquela noite de sábado, dois funcionários empurravam numa maca o corpo de um jovem homossexual que fora baleado num bar no centro da cidade. Era o primeiro corpo que recebiam naquela noite. Os acidentes fatais na rodovia geralmente aconteciam entre uma e três da manhã.

Buddy Bascomb interrompeu uma piada sobre um francês e olhou, boquiaberto, para a fileira de armários que iam de M a Z. Dois deles estavam abertos.

Ele e Bob Greenberg deixaram o recém-chegado e correram até os armários. Buddy conferiu a etiqueta na primeira porta, enquanto Bob se aproximava da outra.

TIBBITS, FLOYD MARTIN

Sexo: M

Entrada: 4/10/75

Data da autópsia: 5/10/75

Declarante: J. M. Cody, médico.

Ele puxou a alça interior, e a laje correu sobre roldanas silenciosas.

Vazia.

— Ei! — gritou Greenberg. — Esta merda está vazia! Quem teve a ideia infeliz de...

— Fiquei na recepção o tempo todo — disse Buddy. — Ninguém passou por mim. Tenho certeza. Deve ter acontecido no turno de Carty. Qual o nome desse aí?

— McDougall, Randal Fratus. O que significa “b”?

— Bebê — disse Buddy, lentamente. — Minha nossa, acho que estamos numa fria.

 

12

Algo o acordara.

Ele continuou deitado no escuro, olhando para o teto.

Um barulho. Mas a casa estava silenciosa.

Mais uma vez. Alguém arranhava a janela.

Mark Petrie virou-se na cama, olhou pela janela e viu Danny Glick, olhando-o fixamente do outro lado do vidro, pálido como a morte, os olhos vermelhos e brutais. Uma substância escura manchava seus lábios e queixo, e, quando viu que Mark o olhava, ele sorriu e mostrou dentes horrivelmente longos e afiados.

— Deixe-me entrar — a voz sussurrou, sem que Mark soubesse se as palavras haviam chegado até ele ou só existiam em sua mente.

Percebeu que estava apavorado — o corpo o avisara antes de sua mente. Nunca sentira tanto medo, nem quando não aguentava mais nadar voltando da boia na praia Popham e achou que fosse se afogar. Sua mente, ainda de uma criança, fez uma avaliação precisa da situação em poucos segundos. Corria risco, e não só de vida.

— Deixe-me entrar, Mark. Quero brincar com você.

A medonha entidade não tinha nada em que se apoiar. A janela do quarto ficava no segundo andar e não tinha nenhuma saliência. Mas estava suspensa no espaço... ou se agarrava às telhas como um inseto nefasto.

— Mark... eu finalmente cheguei. Por favor, deixe-me entrar.

É claro. Eles só entram se forem convidados. Lera nas revistas de monstros, as mesmas que sua mãe achava que lhe fariam mal.

Levantou da cama e quase caiu. Percebeu que “medo” era uma palavra muito branda. Nem “terror” era capaz de expressar o que sentia. O rosto pálido do outro lado da janela tentou sorrir, mas já não se lembrava como, depois de tanto tempo na escuridão. Mark viu apenas um esgar trêmulo, uma máscara trágica e sangrenta.

No entanto, quando olhava para os olhos dele, não era tão ruim. Não sentia mais tanto medo, e via que tinha apenas de abrir a janela e dizer: “Entre, Danny.” E depois não sentiria mais nenhum medo, porque estaria próximo de Danny e de todos eles, e dele. Estaria...

Não! É assim que eles pegam a gente!

Mark obrigou-se a desviar os olhos, mas precisou de toda a sua força de vontade para isso.

— Mark, deixe-me entrar! Eu ordeno! Ele ordena!

Mark começou a andar em direção à janela. Não tinha alternativa. Não havia como se opor àquela voz. Quando ele se aproximou do vidro, o malévolo rosto infantil começou a se crispar de avidez. As unhas, sujas de terra, arranhavam a vidraça.

Pense em outra coisa! Rápido!

— Na Espanha — sussurrou ele roucamente. — Na Espanha chove principalmente nas planícies. Em vão esmurrou a amurada, pois ainda via o fantasma.

Danny Glick gritou com voz rouca:

— Mark! Abra a janela!

— Batatinha quando nasce...

— A janela, Mark! Ele ordena!

— ...esparrama pelo chão.

Ele fraquejava. A voz sussurrante penetrava sua barricada mental, o comando era irresistível. Mark olhou para a escrivaninha, coberta pelos monstros de montar, agora tão tolos e infantis...

Seus olhos se fixaram subitamente numa parte do cenário. O monstro de plástico andava por um cemitério, e um dos monumentos era em forma de cruz.

Sem parar para pensar e ponderar (atitude que teria arruinado um adulto, como seu pai, por exemplo), Mark agarrou a cruz com força e disse em voz alta:

— Entre, então.

O rosto foi tomado por uma expressão de triunfo voraz. Danny abriu a janela, entrou e avançou dois passos. O cheiro que exalava daquela boca era indescritivelmente fétido: de restos apodrecendo num sepulcro. Mãos frias e escorregadias pousaram nos ombros de Mark. A cabeça se inclinou, como a de um cão, e o lábio superior descobriu os brilhantes caninos.

Mark levantou a cruz bruscamente e a pressionou contra o rosto de Danny Glick.

O grito foi medonho, sobrenatural... e silencioso. Ecoou apenas nos labirintos da mente de Mark. O sorriso de triunfo da criatura se tornou uma horrível careta de agonia. Fumaça começou a sair da carne pálida, e por um instante, antes de a criatura recuar e fugir pela janela, Mark sentiu a pele ceder como água.

E estava tudo acabado, como se nunca tivesse acontecido.

Por um momento, a cruz brilhou com uma luz vívida, como se estivesse acesa por dentro. Depois se apagou, deixando apenas um vago fulgor azulado.

Através da grade no chão, ele ouviu o inconfundível clique do abajur do quarto debaixo e a voz do pai:

— Que diabo foi isso?

 

13

A porta do quarto abriu dois minutos depois, tempo suficiente para que Mark colocasse tudo em ordem.

— Filho? — Henry Petrie chamou baixinho. — Está acordado?

— Acho que sim — Mark respondeu com voz sonolenta.

— Você teve um pesadelo?

— Acho... que sim. Não lembro.

— Você gritou enquanto dormia.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpa. — Ele hesitou, lembrando-se de como era seu filho no passado, um menino de macacãozinho azul, que dava muito mais trabalho mas era infinitamente mais fácil de entender. — Quer um copo d’água?

— Não, obrigado, pai.

Henry Petrie examinou o quarto rapidamente, sem conseguir entender a sensação de pavor mortal que o despertara, e que ainda permanecia com ele — uma premonição de perigo iminente. Tudo parecia bem. A janela estava fechada. Nada estava fora do lugar.

— Mark, alguma coisa está errada?

— Não, pai.

— Bom... Então, boa noite.

— Boa noite.

A porta se fechou de mansinho, e Mark ouviu o pai descer as escadas. Sentiu o corpo todo amolecer de alívio. Um adulto teria tido um ataque histérico nesse momento, assim como uma criança um pouco mais nova ou mais velha. Mas Mark sentiu o terror se esvair de maneira quase imperceptível, uma sensação semelhante à do vento na pele depois de nadar num dia frio. A sonolência foi aos poucos tomando o lugar do medo.

Antes de mergulhar no sono, ele refletiu — não pela primeira vez — sobre como os adultos eram curiosos. Tomavam álcool, laxantes ou soníferos para espantar os medos e conseguir dormir, mas eram medos mansos e domésticos: trabalho, dinheiro, o que a professora vai pensar se eu não vestir Jennie melhor, será que minha mulher ainda me ama, quem são meus verdadeiros amigos. Eram suaves comparados aos medos que toda criança enfrenta a cada noite na escuridão do quarto, sem esperar que ninguém a entenda a não ser outra criança. Não existe terapia em grupo, nem psiquiatra, nem assistente social para a criança que tem de lidar com a coisa debaixo da cama ou dentro do porão todas as noites, a coisa que a ameaça e provoca além do limite da visão. A mesma batalha é travada noite após noite, e a única cura é a eventual ossificação da imaginação, que também se chama idade adulta.

De uma maneira mais simples e sucinta, esses pensamentos passaram pela mente de Mark. Na noite anterior, Matt Burke enfrentara essa coisa malévola, e o medo lhe provocara um ataque cardíaco. Mark Petrie também a enfrentara, e dez minutos depois dormia profundamente, ainda segurando a cruz de plástico como um bebê segura um chocalho. Essa era a diferença entre homens e meninos.