'Salem

Stephen King · Capítulo 12 de 22

Páginas do PDF

'Salem

Capítulo Oito – BEN (III)

Capítulo Oito

 

BEN (III)

 

Capítulo Oito – BEN (III)

 

1

 

Alguém devia estar batendo na porta há muito tempo, porque o som parecia ecoar nas alamedas do sono enquanto ele se esforçava para despertar. Estava escuro na rua. Ele se virou para pegar o relógio e o derrubou no chão, sentindo temor e confusão.

— Quem é? — gritou.

— É a Eva, Sr. Mears. Telefone para o senhor.

Ele levantou, enfiou as calças e abriu a porta, sem camisa. Eva Miller vestia um roupão felpudo de algodão e tinha a expressão vulnerável de quem ainda não acordou direito. Trocaram um olhar aflito, enquanto ele pensava: Quem está doente? Quem morreu?

— É interurbano?

— Não, é Matthew Burke.

A informação não o aliviou como ela esperava.

— Que horas são?

— Quatro e pouco. O Sr. Burke parece muito nervoso.

Ben desceu e pegou o telefone.

— É o Ben, Matt.

Matt arquejava ao telefone.

— Você pode vir aqui, Ben? Agora mesmo?

— Claro. O que houve? Você está doente?

— Não posso falar pelo telefone. Venha logo.

— Estarei aí em dez minutos.

— Ben?

— Diga.

— Você tem um crucifixo? Uma medalha de São Cristóvão? Qualquer coisa assim?

— Não. Eu sou, era, batista.

— Tudo bem. Venha logo.

Ben desligou e subiu as escadas correndo. Eva esperava, preocupada e indecisa — por um lado, queria saber o que estava acontecendo; por outro, não queria se meter na vida do seu inquilino.

— O Sr. Burke está doente, Sr. Mears?

— Disse que não. Só me pediu... por acaso a senhora é católica?

— Meu marido era.

— A senhora tem um crucifixo, um rosário ou uma medalha de São Cristóvão?

— Bom, o crucifixo do meu marido está no quarto... O senhor quer...

— Quero, por favor.

Ela subiu o corredor, arrastando os chinelos felpudos pelo carpete desbotado. Ben entrou no quarto, vestiu a camisa do dia anterior e calçou rapidamente os sapatos. Quando saiu de novo, Eva estava ao lado da porta, segurando o crucifixo, que refletia um brilho prateado.

— Obrigado — disse ele, pegando-o.

— O Sr. Burke lhe pediu isso?

— Pediu.

Ela franzia a testa, mais desperta agora.

— Ele não é católico. Acho que não vai à igreja.

— Ele não me explicou o motivo.

— Ah. — Ela fingiu entender com um gesto de cabeça. — Por favor, tome cuidado com ele. É muito precioso para mim.

— Entendo. Pode deixar.

— Espero que o Sr. Burke esteja bem. É um bom homem.

Ele saiu da pensão. Não conseguia segurar o crucifixo e procurar as chaves do carro ao mesmo tempo e, em vez de mudá-lo de mão, pendurou-o no pescoço. A prata pousou sobre sua camisa, e ele entrou no carro, vagamente consciente da segurança que o objeto lhe transmitia.

 

2

 

Todas as luzes do andar inferior da casa de Matt estavam acesas, e logo que Ben parou na entrada e seus faróis iluminaram a fachada, Matt abriu a porta.

Ben estava pronto para tudo, mas assim mesmo a expressão de Matt o chocou. Estava de uma palidez mortal, os lábios tremiam, os olhos arregalados não piscavam.

— Vamos para a cozinha — disse ele.

Ben entrou, e a luz do corredor iluminou a cruz sobre seu peito.

— Você trouxe.

— É de Eva Miller. O que houve?

— Na cozinha — repetiu Matt. Quando passaram pela escada, ele olhou para o andar de cima e se encolheu.

A mesa onde eles haviam comido o espaguete estava vazia, com a exceção de três objetos: uma xícara de café, uma antiquada Bíblia com fecho e um revólver calibre 38.

— Agora fale, Matt. Você está com uma cara horrível.

— Pode ter sido apenas um sonho, mas graças a Deus você veio. — Ele apanhara o revólver e o manuseava com agitação.

— Conte o que foi. E pare de mexer com isso. Está carregado?

Matt largou a pistola e passou a mão pelos cabelos.

— Sim, está. Mas acho que não adiantaria muito. A não ser que eu o usasse contra mim mesmo. — Ele soltou uma risada áspera e doentia.

— Pare com isso.

O tom firme de Ben dissolveu o olhar fixo e vidrado de Matt. Ele sacudiu a cabeça, como um animal sacode o pelo ao sair da água gelada.

— Há um morto lá em cima.

— Quem?

— Mike Ryerson. Um funcionário público, cuida das áreas verdes do cemitério.

— Tem certeza de que está morto?

— Meus instintos dizem que sim, mas ainda não fui olhar. Não tive coragem. Porque pode ser que ele não esteja nada morto.

— Matt, isso não faz sentido.

— Você acha que eu não sei? Estou falando absurdos e pensando loucuras. Mas eu não podia chamar ninguém, a não ser você. Em toda a cidade, você é o único que pode... que pode... — Ele sacudiu a cabeça e recomeçou. — É que conversamos sobre Danny Glick.

— Sim.

— E que ele teria morrido de anemia perniciosa... O que nossos avós chamavam de “fraqueza”.

— Sim.

— Foi Mike quem o enterrou. E encontrou o cachorro de Win Purinton empalado no portão do cemitério Harmony Hill. Encontrei Mike Ryerson no Dell’s ontem, e...

 

3

 

— ... e não consegui entrar no quarto — terminou ele. — Não consegui. Fiquei sentado na minha cama durante quase quatro horas. Depois desci pé ante pé como um ladrão e liguei para você. O que acha?

Ben tirara o crucifixo. Agora brincava com a corrente amontoada sobre a mesa com ar pensativo. Eram quase cinco horas. A leste, a aurora já pintava o céu de rosa.

— Acho melhor olharmos o quarto de hóspedes. Por enquanto, é tudo que consigo pensar.

— Tudo isso parece o pesadelo de um louco, agora que o dia está nascendo. — Ele deu uma risada trêmula. — E espero que seja. Espero que Mike esteja dormindo como um bebê.

— Bom, vamos ver.

Matt firmou os lábios com esforço.

— Ok. — Olhou para a mesa e em seguida para Ben, interrogativamente.

— Claro — disse Ben, e passou a corrente com o crucifixo pelo pescoço de Matt.

— Na verdade, ele faz com que eu me sinta melhor. — Riu, envergonhado. — Será que vão me deixar usá-lo quando me despacharem para Augusta?

— Quer a arma? — perguntou Ben.

— Acho que não. Eu acabaria guardando na calça e estourando meu saco.

Eles subiram, Ben na frente. Em cima, um corredor levava a duas direções. De um lado, a porta do quarto de Matt estava aberta, deixando escapar um pálido feixe de luz sobre o carpete laranja.

— Do outro lado — disse Matt.

Ben atravessou o corredor e parou diante da porta do quarto de hóspedes. Não acreditava na atrocidade que Matt insinuara, mas mesmo assim foi tomado por uma onda de medo como nunca sentira antes.

Quando abrir a porta, ele estará pendurado na viga, a cara inchada e escura, e então os olhos se abrirão, saltando das órbitas, e ele o verá, e ficará satisfeito por ter vindo.

A lembrança emergiu com força num paralelo sensorial, paralisando-o por um instante. Ele quase sentia o cheiro de argamassa e de animais hibernando. Parecia-lhe que a porta simples e envernizada do quarto de hóspedes interpunha-se entre ele e os segredos do inferno.

Então ele girou a maçaneta e empurrou a porta. Matt estava logo atrás, agarrando o crucifixo de Eva.

A janela do quarto dava diretamente para leste, e o sol começava a clarear o horizonte. Os primeiros raios cristalinos do sol entravam pela janela, iluminando partículas douradas ao incidir sobre o lençol de linho branco que cobria Mike Ryerson até o peito.

Ben olhou para Matt.

— Ele está bem — sussurrou. — Está dormindo.

— A janela está aberta. Estava fechada e trancada. Eu mesmo a tranquei.

Ben olhou para a bainha do lençol de uma brancura impecável que cobria Mike. Viu uma única mancha de sangue sobre ela, seca e escura.

— Acho que ele não está respirando — disse Matt.

Ben avançou alguns passos e parou.

— Mike? Mike Ryerson? Acorde, Mike!

Não houve resposta. Os cílios de Mike se destacavam contra a tez suave. Seus cabelos estavam desalinhados sobre a testa, e Ben achou que, à luz delicada da manhã, ele estava belo como uma estátua grega. Suas faces estavam rosadas, e seu corpo não tinha nada da palidez mortal que Matt mencionara.

— Claro que está respirando — disse com um pouco de impaciência. — Está num sono profundo. Mike... — Ele o sacudiu delicadamente. O braço esquerdo do rapaz, antes pousado naturalmente sobre o peito, tombou inerte ao lado da cama, raspando o chão com um som sobrenatural.

Matt curvou-se e pegou o braço imóvel, pressionando o indicador sobre o pulso.

— Nada.

Ia soltar o braço, mas, lembrando-se do som fantasmagórico da mão raspando o chão, decidiu colocá-lo de novo sobre o peito de Mike. O braço começou a resvalar de novo, e ele o firmou fazendo uma careta.

Ben não acreditava. O rapaz só podia estar dormindo. O rubor saudável, o vigor dos músculos, os lábios entreabertos como se para absorver o ar... uma sensação de irrealidade o tomou. Apalpou o ombro de Mike. A pele estava fria. Molhou o dedo e o colocou diante dos lábios entreabertos. Nada. Nem sinal de respiração.

Ele e Matt se entreolharam.

— E as marcas no pescoço? — perguntou Matt.

Ben pegou o queixo de Ryerson e o virou suavemente. O movimento deslocou o braço esquerdo, que voltou a cair e raspar o chão.

Não havia marca nenhuma no pescoço dele.

 

4

 

Eles estavam de volta à mesa da cozinha. Eram 5h35. À distância, ouviam o mugido das vacas de Griffen enquanto entravam no pasto na base do monte, além do matagal que ocultava o riacho Taggart.

— Segundo a lenda, as marcas desaparecem — disse Matt de repente. — Quando a vítima morre, as marcas desaparecem.

— Eu sei — disse Ben. Lembrava-se tanto de Drácula de Bram Stoker quanto dos filmes da Hammer, estrelados por Christopher Lee.

— Temos que atravessar seu coração com uma estaca.

— Pense bem — disse Ben, dando um gole no café. — Isso não seria nada fácil de explicar a um legista. No mínimo, você seria preso por profanar um cadáver. Ou iria para o hospício.

— Acha que estou louco? — perguntou Matt serenamente.

— Não — respondeu Ben, sem hesitação aparente.

— Acredita no que eu disse sobre as marcas no pescoço?

— Não sei. Acho que devo acreditar. Por que mentiria para mim? Não ganharia nada com isso. A não ser que o tenha matado.

— Então, vamos supor que o matei — disse Matt, observando-o.

— Há três argumentos contra essa tese. Primeiro, qual seria seu motivo? Desculpe, Matt, mas você é velho demais para os motivos clássicos como ciúme ou dinheiro. Segundo, qual foi seu método? Não pode ter sido veneno, porque a aparência dele está muito serena.

— E o terceiro argumento?

— Nenhum assassino em seu juízo perfeito inventaria uma história como a sua para ocultar um crime. Seria uma insanidade.

— Voltamos a falar de minha saúde mental — disse Matt. — Eu sabia.

— Eu não acho que esteja louco — disse Ben, enfatizando a primeira palavra. — Você parece bem lúcido.

— Mas você não é médico, certo? E muitos loucos conseguem fingir sanidade com bastante sucesso.

Ben concordou.

— Então, onde ficamos?

— Na estaca zero.

— Não. Não podemos nos dar a esse luxo, porque há um morto lá em cima, e logo teremos de prestar contas disso. O delegado, o legista, o chefe da polícia estadual, todos vão querer uma explicação. Matt, será que Mike não passou a semana doente com algum vírus e acabou morrendo na sua casa?

Pela primeira vez desde que haviam descido, Matt se mostrou agitado.

— Ben, você sabe o que ele me disse! Vi as marcas no pescoço dele! E o ouvi convidando alguém para entrar na minha casa! Depois eu ouvi... Meu Deus, ouvi aquele riso! — Seus olhos voltaram a ficar fixos e aterrados.

— Está bem — disse Ben. Levantou-se e foi até a janela, tentando organizar as ideias. Aquilo não ia bem. Como dissera a Susan, tudo parecia querer fugir ao controle. Olhou em direção à Casa Marsten.

— Matt, você sabe o que vai acontecer se contar a mais alguém o que me contou, não é?

Matt não respondeu.

— As pessoas vão bater na testa e sacudir a cabeça quando você passar. As crianças vão persegui-lo nas ruas com máscaras de Halloween. Seus alunos rirão de você. Seus colegas começarão a olhá-lo de modo estranho. Receberá telefonemas anônimos de gente dizendo ser Danny Glick ou Mike Ryerson. Sua vida vai virar um pesadelo. Seria expulso da cidade em seis meses.

— Não, os moradores me conhecem.

Ben virou-se para ele.

— Quem eles conhecem? Um velho excêntrico que mora sozinho numa casa afastada. Só por não ser casado, acharão que tem um parafuso a menos. E que apoio posso lhe dar? Vi o corpo e nada mais. E, mesmo que eu tivesse visto mais, eles diriam que não passo de um forasteiro. Diriam até que somos um casal de bichas e que essa é uma de nossas taras.

Matt o olhava com crescente horror diante daquele quadro.

— Uma palavra, Matt. Basta uma palavra para destruí-lo em ’salem’s Lot.

— Então, nada pode ser feito.

— Pode, sim. Você tem uma teoria sobre quem, ou o quê, matou Mike Ryerson. É relativamente simples provar ou refutar essa teoria. Estou numa sinuca de bico. Não acredito que você esteja louco, mas não consigo acreditar que Danny Glick ressuscitou dos mortos e sugou o sangue de Mike Ryerson durante uma semana antes de matá-lo. Mas vou testar sua teoria, e você vai me ajudar.

— Como?

— Ligue para o seu médico. Chama-se Cody, não é? Depois ligue para Parkins Gillespie e ponha a engrenagem em movimento. Faça de conta que não ouviu coisa alguma durante a noite. Você foi ao Dell’s e encontrou Mike. Ele disse que não se sentia bem desde domingo. Você o convidou para dormir na sua casa. Foi ver como ele estava por volta das três e meia, não conseguiu acordá-lo e me ligou.

— Só isso?

— Só. Quando falar com Cody, nem diga que ele está morto.

— Não?

— Como ter certeza de que ele está? — explodiu Ben. — Você não conseguiu encontrar o pulso. Eu não percebi sinais de respiração. Se soubesse que alguém podia me enterrar com base só nisso, eu ficaria preocupado. Principalmente se eu estivesse com um ar saudável como o dele.

— Isso também o incomoda, não é?

— É, incomoda — admitiu Ben. — Ele parece uma estátua de cera.

— Certo, o que você diz faz sentido, na medida em que é possível numa situação como essa. Nesse ponto, acho que pareci um louco.

Ben começou a protestar, mas Matt o interrompeu com um gesto.

— Mas suponha... é só uma hipótese... suponha que minha primeira suspeita esteja correta. Será que não existe sequer uma remota possibilidade? De que Mike... volte?

— Como eu disse, é fácil provar ou refutar essa teoria. Mas não é isso que me incomoda nessa história.

— E o que é?

— Espere, uma coisa de cada vez. Para provar ou refutar essa teoria, não basta um exercício de lógica. É preciso excluir possibilidades. Primeira: Mike morreu de alguma doença, causada por um vírus ou algo assim. Como confirmar ou descartar isso?

Matt encolheu os ombros.

— Com um exame médico.

— Exato. É o mesmo método para confirmar ou excluir a hipótese de assassinato. Se alguém o envenenou ou lhe deu um tiro ou um bolo com cacos de vidro...

— Nem sempre assassinatos são detectados.

— Eu sei. Mas vamos apostar no médico legista.

— E se o veredicto dele for “causa desconhecida”?

— Então — disse Ben com decisão —, visitaremos o túmulo depois do enterro e veremos se ele sairá de lá. Se sair, o que me parece inconcebível, teremos certeza. Se não sair, enfrentaremos a questão que me incomoda.

— Minha insanidade — Matt disse lentamente. — Ben, juro em nome da minha mãe que vi as marcas, que ouvi a janela ser levantada, que...

— Acredito em você — disse Ben.

Matt parou. Tinha a expressão de alguém que se preparara para uma pancada que não viera.

— Acredita? — perguntou, incerto.

— Melhor dizendo, recuso-me a acreditar que você está louco ou teve uma alucinação. Também tive uma experiência... uma experiência ligada àquela maldita casa... que me torna extremamente solidário com pessoas cujas histórias parecem insanas à luz da razão. Um dia lhe contarei.

— Por que não agora?

— Não temos tempo. Você tem telefonemas a fazer. E eu tenho mais uma pergunta. Pense bem antes de responder. Você tem algum inimigo?

— Nenhum que aprontaria algo assim.

— Algum ex-aluno ressentido, talvez?

Matt, que sabia exatamente até que ponto influenciara a vida de seus alunos, riu educadamente.

— Está bem, acredito em sua palavra. — Ben sacudiu a cabeça. — É terrível. Primeiro aquele cachorro no portão do cemitério. Depois Ralphie Glick desaparece, seu irmão morre, e agora Mike Ryerson. Talvez haja alguma ligação. Mas não posso acreditar nisso.

— Vou ligar para a casa de Cody — disse Matt, levantando. — Parkins também deve estar em casa.

— Ligue para a escola e diga que está doente.

— Certo — disse Matt com uma risada triste. — Será a primeira vez que isso acontece em três anos. Uma ocasião histórica.

Ele foi para a sala e começou a fazer as ligações, esperando longamente que os toques arrancassem alguém do sono. A mulher de Cody aparentemente lhe deu o telefone da recepção do hospital, porque ele voltou a discar, pediu para falar com ele e lhe contou brevemente a história combinada. Desligou e gritou para Ben, ainda na cozinha.

— Jimmy chegará em uma hora.

— Ótimo — disse Ben. — Vou subir.

— Não encoste em nada.

— Pode deixar.

Quando chegou ao patamar do andar de cima, Ben ouviu Matt falar ao telefone com Parkins Gillespie. As palavras se dissolveram num murmúrio indistinto enquanto ele atravessava o corredor.

A sensação de um terror entre a lembrança e a imaginação o dominou de novo enquanto contemplava a porta do quarto de hóspedes. Mentalmente, ele se viu avançando, abrindo-a. O quarto parece maior, visto da perspectiva de uma criança. O corpo está como antes, o braço esquerdo pendurado ao lado da cama, o rosto contra o travesseiro. Os olhos de repente se abrem, cheios de vigor inumano e visceral. A porta se fecha com um baque. O braço esquerdo se ergue, os lábios formam um sorriso vulpino e exibem dentes incisivos extraordinariamente longos e afiados...

Ele avançou e abriu a porta com cuidado. As dobradiças rangeram levemente.

O corpo estava como antes, o braço esquerdo caído, o rosto contra a fronha do travesseiro...

— Parkins está vindo — disse Matt no corredor, e Ben quase deu um grito.

 

5

 

Ben pensou que sua frase fora bastante apropriada: coloque a engrenagem em movimento. Era mesmo uma engrenagem, como as complicadas engenhocas alemãs feitas com dentes e peças de relógio, movendo-se lentamente.

Parkins Gillespie chegou primeiro, usando uma gravata verde presa com um broche dos veteranos de guerra. Seus olhos ainda estavam sonolentos. Disse que já notificara o médico-legista do condado.

— Ele mesmo não virá, o filho da mãe — disse Parkins, metendo um Pall Mall no canto da boca. — Mas vai mandar um assistente e um sujeito para tirar fotos. Vocês encostaram no defunto?

— O braço caiu do lado da cama — disse Ben. — Tentei colocá-lo de volta, mas não parou.

Parkins o olhou de cima a baixo, mas não disse nada. Ben lembrou do som sobrenatural que a mão fizera ao raspar no chão do quarto e sentiu um riso irracional se formar na garganta. Mas ele logo o engoliu.

Matt subiu na frente, e Parkins andou ao redor do corpo várias vezes.

— Vocês têm certeza de que ele está morto? — finalmente perguntou. — Tentaram acordá-lo?

O doutor James Cody chegou depois, tendo acabado de fazer um parto no hospital. Depois da troca de cortesias, Matt subiu mais uma vez com o grupo. Se cada um tocasse um instrumento, pensou Ben, o rapaz teria um belo bota-fora musical. O riso voltou a coçar sua garganta.

Cody puxou os lençóis e olhou o corpo, franzindo a testa. Com uma calma que surpreendeu Ben, Matt disse:

— Lembrei do que você disse sobre Danny Glick, Jimmy.

— Foi um comentário confidencial, Sr. Burke — disse Jimmy Cody, brandamente. — Se os pais de Danny descobrirem que você disse isso, podem me processar.

— E ganhariam?

— Creio que não — disse Jimmy, e suspirou.

— O que tem Danny Glick? — perguntou Parkins, franzindo a testa.

— Nada — disse Jimmy. — Não há nenhuma ligação. — Utilizou o estetoscópio, levantou uma pálpebra e iluminou o globo ocular com uma pequena lanterna.

Ben viu a pupila se contrair e exclamou:

— Meu Deus!

— É um reflexo interessante, não? — disse Jimmy. Soltou a pálpebra, que voltou a se fechar com lentidão grotesca, como se o cadáver piscasse para eles. — David Prine, da Universidade Johns Hopkins, notou contrações pupilares em cadáveres até nove horas após a morte.

— Agora virou um erudito — provocou-o Matt. — Antes, só tirava C em Redação Dissertativa.

— É que você não gostava de textos sobre dissecação, seu implicante — retrucou Jimmy distraidamente, e pegou um pequeno martelo. Muito bem, pensou Ben. Ele mantém a compostura mesmo quando o paciente era um defunto, como diria Parkins. Ele voltou a sentir um desejo despropositado de rir.

— Está morto? — perguntou Parkins, e bateu a cinza do cigarro num vaso de flores vazio. Matt fez uma careta.

— Ah, sim — respondeu Jimmy. Ele se ergueu, descobriu os pés de Ryerson e bateu com o martelinho no joelho direito. Os dedos dos pés continuaram imóveis. Ben notou que Mike tinha calos amarelos nas plantas dos pés, o que lhe trouxe à mente o poema de Wallace Stevens sobre a mulher morta.

— “Que seja o final de parecer” — citou, algo erroneamente. — “O único rei é o do sorvete.”

Matt lhe lançou um olhar penetrante, e por um momento seu autocontrole fraquejou.

— Que negócio é esse? — perguntou Parkins.

— É de um poema — disse Matt. — De um poema sobre a morte.

— Parece mais um sorveteiro falando. — disse Parkins, e voltou a bater a cinza no vaso.

 

6

 

— Já fomos apresentados? — perguntou Jimmy, olhando para Ben.

— Foram, mas de passagem — disse Matt. — Jimmy Cody, médico do corpo, esse é Ben Mears, médico da alma. E vice-versa.

— Ele sempre foi espertinho — disse Jimmy. — Foi assim que ficou rico desse jeito.

Os dois apertaram as mãos sobre o cadáver.

— Ajude-me a virá-lo, Sr. Mears.

Sentindo um pouco de náusea, Ben o ajudou a virar o corpo de bruços. Estava frio, mas ainda não rígido. Jimmy o observou atentamente e puxou a cueca, revelando as nádegas do morto.

— Para que isso? — perguntou Parkins.

— Estou tentando determinar a hora da morte pela coloração da pele — disse Jimmy. — O sangue desce ao nível mais baixo quando o bombeamento cessa, como qualquer líquido.

— Que nem no comercial do desentupidor Drãno. Mas isso não é trabalho do legista?

— Ele vai mandar Brent Norbert, você sabe. E ele nunca foi de rejeitar uma mãozinha dos amigos.

— Norbert não sabe nem onde está o próprio nariz — disse Parkins, e jogou o toco do cigarro pela janela. — A tela desta janela caiu, Matt. Vi em cima da grama quando cheguei.

— Ah, é? — disse Matt, controlando a voz.

— É.

Cody tirara um termômetro da maleta e o introduzia no ânus de Ryerson. Pousou o relógio sobre o lençol branco, e o metal refletiu a forte luz do sol. Eram 18h45.

— Vou descer — disse Matt, com a voz levemente alterada.

— Vocês todos podem ir — disse Jimmy. — Ainda vou demorar um pouco. Você não quer fazer um café, Sr. Burke?

— Claro.

Eles saíram, e Ben fechou a porta, olhando uma última vez para a cena: o quarto inundado pelo sol, o lençol limpo afastado, o relógio de ouro projetando riscos luminosos sobre a parede, e o próprio Cody, com os flamejantes cabelos ruivos, sentado ao lado do corpo como uma gravura em aço.

Matt fazia café quando Brenton Norbert, o assistente do médico-legista, chegou num velho Dodge cinzento. Entrou com outro homem, que trazia uma grande máquina fotográfica.

— Onde está? — perguntou Norbert.

Gillespie fez um gesto com o polegar em direção à escada.

— Jim Cody está lá em cima.

— Que ótimo... — disse Norbert. — O defunto já deve estar virado do avesso. — E subiu com o fotógrafo.

Parkins Gillespie colocou creme no café até transbordar no pires, testou-o com o dedo, limpou o dedo na calça, acendeu outro Pall Mall e disse:

— Como se meteu nessa história, Sr. Mears?

Ben e Matt recitaram a versão que haviam combinado. Nada do que disseram era exatamente mentira, mas o que não disseram os unia numa teia de cumplicidade. Ben se perguntou, inquieto, se não estava sendo cúmplice de uma inocente maluquice ou de algo mais sério e macabro. Matt lhe dissera que o chamara porque era a única pessoa em ’salem’s Lot que daria ouvidos a uma tal história. Matt podia não estar batendo muito bem, mas com certeza sabia interpretar personalidades. E isso também era enervante.

 

7

 

Às 21h30, tudo já estava acabado.

O carro funerário de Carl Foreman já levara o corpo de Mike Ryerson, e sua morte passou a ser assunto da cidade. Jimmy Cody voltara a seu consultório, e Norbert e o fotógrafo retornaram a Portland para conferenciar com o médico-legista.

Parkins Gillespie, um cigarro entre os lábios, saiu para o alpendre enquanto o carro funerário se afastava lentamente.

— Mike dirigiu tanto esse carro, e aposto que nem imaginava que logo estaria andando na traseira. — Voltou-se para Ben. — Você não vai embora da cidade já, não é? Queria que testemunhasse para o júri legista, se não se importa.

— Não, vou ficar.

O delegado o examinou com os olhos azuis descorados.

— Verifiquei sua ficha com a polícia federal e estadual, em Augusta — disse ele. — Está limpa.

— É bom saber — disse Ben.

— Ouvi dizer que está de caso com a filha de Bill Norton.

— Você me pegou.

— Ela é uma boa moça — disse Parkins, sério. O carro fúnebre já sumira de vista. Nem o som do motor era mais audível. — Acho que ela não tem saído mais com Floyd Tibbits.

— Você não tem que cuidar da papelada, Park? — cutucou Matt.

Parkins suspirou e jogou fora o toco do cigarro.

— Nem me fale. Tudo em duas ou três vias, carimbadas, seladas e assinadas. Estou tendo um trabalho de cão nas últimas semanas. Até parece maldição daquela Casa Marsten.

Ben e Matt não esboçaram reação.

— Bom, já vou indo. — Ele puxou a calça para cima e andou até o carro. Ao abrir a porta, olhou para eles. — Vocês dois não estão escondendo nada de mim, não é?

— Parkins — disse Matt —, não há nada para esconder. Ele morreu.

O delegado os examinou com os penetrantes olhos descorados durante mais alguns instantes e suspirou.

— Certo. Mas é esquisito pra diabo. O cachorro, o filho dos Glick, depois o outro filho dos Glick e agora Mike. É coisa pra mais de ano numa cidadezinha pacata que nem a nossa. Minha avó falava que as coisas ruins vinham em três, não em quatro.

Ele entrou no carro, ligou o motor e deu ré. No instante seguinte ele se afastava monte acima, despedindo-se com um toque na buzina.

Matt suspirou, aliviado.

— Acabou.

— Acabou — disse Ben. — Estou exausto. E você?

— Eu também. Mas me sinto... bizarro. Do jeito como os jovens usam essa palavra.

— Sei.

— Eles têm outro termo: chapado. Como depois de uma viagem de ácido ou anfetamina, quando até ficar normal é esquisito. — Ele passou a mão no rosto. — Meu Deus, você deve me achar um lunático. Tudo parece o delírio de um louco à luz do dia, não é?

— Sim e não — disse Ben, colocando a mão no ombro de Matt. — Mas Gillespie tem razão. Algo está acontecendo aqui. E cada vez tenho mais certeza de que tem a ver com a Casa Marsten. Fora eu, eles são os únicos novos moradores da cidade. E eu sei que não fiz nada. Nosso passeio até lá ainda está de pé? A expedição de boas-vindas?

— Se você quiser...

— Eu quero. Agora, entre e durma. Falarei com Susan e viremos buscá-lo de noite.

— Está bem. — Ele fez uma pausa. — Tem outra coisa, que está me incomodando desde que você falou de autópsias.

— O quê?

— A risada que ouvi, ou pensei ouvir, era de uma criança. Horrível e cruel, mas de uma criança. Depois do que Mike disse, isso não faz pensar em Danny Glick?

— Claro que sim.

— Você sabe como é o processo de embalsamento?

— Não exatamente. Tiram o sangue do cadáver e o substituem por um tipo de líquido. Antes era formaldeído, mas hoje os métodos devem estar mais sofisticados. E o corpo é eviscerado.

— Será que fizeram tudo isso com Danny? — disse Matt.

— Conhece Carl Foreman bem o bastante para lhe fazer essa pergunta?

— Sim, acho que eu posso dar um jeito de perguntar.

— Então, faça isso.

— Pode deixar.

Eles se olharam mais um instante, e o olhar que trocaram era amigável mas indefinível. Da parte de Matt, o desconforto do homem racional que fora obrigado a dizer irracionalidades. E da parte de Ben, um vago medo de forças que ele ainda não era capaz de definir.

 

8

 

Eva passava roupa e assistia a “Dialing for Dollars” quando Ben chegou. O prêmio estava em 45 dólares, e o apresentador sorteava números de telefone, tirando-os de um grande vaso de vidro.

— Ouvi dizer — disse ela, enquanto ele abria a geladeira e pegava uma Coca. — Que horror! Coitado do Mike.

— É mesmo. — Ele tirou o crucifixo e a corrente do bolso.

— Já sabem o que...

— Ainda não — disse Ben. — Estou muito cansado, Sra. Miller. Vou dormir um pouco.

— Claro, vá. O quarto de cima é muito quente a essa hora, mesmo nessa época do ano. Durma no quarto do corredor de baixo, se quiser. Os lençóis estão limpos.

— Não, tudo bem. Conheço todos os rangidos do quarto de cima.

— É verdade, a gente se acostuma com o nosso quarto — ela disse, em tom casual. — Mas por que o Sr. Burke queria o crucifixo de Ralph?

Ben parou a caminho da escada, procurando o que dizer.

— Acho que ele pensou que Mike Ryerson fosse católico.

Eva colocou mais uma camisa sobre a mesa de passar.

— Ele devia saber. Afinal, foi professor de Mike. A família dele era luterana.

Para isso, Ben não tinha resposta. Subiu, tirou a roupa e deitou na cama. O sono veio rápido e pesado. E sem sonhos.

 

9

 

Quando acordou, eram 16h15. Seu corpo estava coberto de suor, o lençol fora chutado para longe. Mas ele sentia-se lúcido novamente. Os eventos daquela manhã pareciam vagos e distantes, e as fantasias de Matt Burke haviam perdido o impacto. Naquela noite, tentaria fazer com que ele as esquecesse.

 

10

 

Decidiu ligar para Susan da Spencer e pedir que o encontrasse lá. Iriam ao parque e ele lhe contaria tudo do começo ao fim. Queria ouvir a opinião dela antes de chegarem à casa de Matt e ele contar sua versão. De lá, iriam à Casa Marsten, pensou ele, sentindo um arrepio na espinha.

Estava tão perdido nesses pensamentos que não notou que já havia alguém em seu carro. Quando abriu a porta, um vulto alto saltou para fora. Por um momento, o espanto o deixou sem ação. Primeiro pensou ser um espantalho. O sol delineava a figura com nitidez e crueldade — o chapéu velho enterrado na cabeça, os óculos escuros, o casaco surrado com a gola erguida, as luvas industriais de borracha verde nas mãos.

— Quem... — foi tudo que Ben teve tempo de dizer.

A figura se aproximou, fechando os punhos. Ben sentiu um aroma de coisas velhas e amareladas, e percebeu que era naftalina. Ouviu uma respiração pesada.

— Você é o filho da mãe que roubou minha namorada — disse Floyd Tibbits com voz rouca e monótona. — Vou te matar.

E, enquanto Ben tentava entender a situação, Floyd Tibbits atacou.