'Salem

Stephen King · Capítulo 15 de 22

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'Salem

Capítulo Onze – BEN (IV)

Capítulo Onze

 

BEN (IV)

 

Capítulo Onze – BEN (IV)

 

1

 

Eram 9h10 da manhã de domingo — uma manhã luminosa e ensolarada. Ben começava a se preocupar seriamente com Susan quando o telefone ao lado da cama tocou. Ele o agarrou rapidamente.

— Onde você está?

— Relaxe. Estou no andar de cima com Matt Burke, que gostaria de ter o prazer de sua companhia assim que você puder.

— Por que não veio...

— Passei por aí ainda há pouco. Você dormia como um bebê.

— Eles sedam a gente à noite para roubar nossos órgãos e vendê-los a pacientes bilionários. Como está Matt?

— Suba e veja você mesmo.

Mal ela desligara, ele já vestia o roupão e saía do quarto.

 

2

 

Matt estava bem melhor, quase rejuvenescido. Susan, de vestido azul-turquesa, estava sentada ao lado dele. Quando Ben entrou, saudou-o com um aceno de mão e disse:

— Puxe uma pedra.

Ben puxou uma das cadeiras extremamente desconfortáveis do hospital e sentou.

— Como está se sentindo?

— Muito melhor, mas ainda um pouco fraco. Tiraram o soro ontem à noite e me deram um ovo poché no café da manhã. Ahrg. Preâmbulos do asilo para idosos.

Ben beijou Susan de leve e notou uma serenidade forçada em seu rosto, como se seu controle estivesse por um fio.

— Alguma novidade desde que você me ligou ontem à noite?

— Não soube de mais nada. Mas saí de casa às sete, e a cidade acorda um pouco mais tarde no domingo.

Ben olhou para Matt.

— Está disposto a conversar sobre isso?

— Acho que sim — disse ele. A cruz dourada que Ben colocara em seu pescoço cintilava sobre seu peito. — A propósito, obrigado pela cruz. Ela me passa muita segurança, mesmo tendo-a comprado no balcão de saldos da Woolsworth’s na tarde da sexta.

— Como você está?

— “Estabilizado” foi o termo pomposo que o Dr. Cody usou quando me examinou ontem à tarde. Segundo o eletrocardiograma, foi um ataque cardíaco menor, sem formação de coágulo. Espero, pelo bem dele, que tenha sido — resmungou. — Como aconteceu só uma semana depois do check-up que fiz com ele, eu o processaria por quebra de promessa. — Olhou para Ben. — Ele disse que casos assim podem ser causados por um grande choque emocional. Fiquei de bico calado. Fiz bem?

— Claro que sim. Mas a situação evoluiu. Susan e eu vamos falar com o Dr. Cody e contar tudo. Se ele não me der alta imediatamente, vamos mandá-lo falar com você.

— E vou lhe encher os ouvidos — disse Matt, mal-humorado. — O metido me proibiu de encostar no cachimbo.

— Susan já lhe contou o que aconteceu em Jerusalem’s Lot desde a noite de sexta?

— Não, ela preferiu esperar você chegar.

— Antes, gostaria de saber exatamente o que aconteceu na sua casa.

A expressão de Matt se fechou, e por um instante a máscara da convalescença caiu, e Ben voltou a ver o velho que encontrara dormindo no dia anterior.

— Se não estiver disposto...

— Não, claro que estou. Preciso estar, se metade das minhas suspeitas for verdadeira. — Ele abriu um sorriso amargo. — Sempre me considerei um livre-pensador, alguém que não se choca facilmente. Mas é incrível como a mente bloqueia algo que considera ameaçador. Como as lousas mágicas que tínhamos quando crianças. Se a gente não gostasse do desenho, era só puxar a superfície superior para que desaparecesse.

— Mas o contorno ficava no material debaixo para sempre — disse Susan.

— Isso mesmo. — Matt sorriu para ela. — Uma bela metáfora da interação entre consciente e inconsciente. É uma pena que Freud tenha preferido falar de cebolas. Mas estamos divagando. — Ele olhou para Ben. — Susan já lhe contou o que houve?

— Já, mas...

— Claro. Eu só queria saber se podia pular os antecedentes.

Ele contou a história com voz monótona, quase sem inflexão, parando apenas quando uma enfermeira entrou com passos sussurrantes para saber se ele queria um copo de ginger ale. Matt aceitou, e terminou a história enquanto sorvia o líquido pelo canudo. Ben notou que, quando ele chegou à parte em que Mike caía da janela de costas, os cubos de gelo tilintaram levemente no copo. Assim mesmo, a voz dele não se alterou — manteve a mesma tonalidade serena e modulada que ele devia usar na sala de aula. Ben pensou, e não pela primeira vez, que ele era um homem admirável.

Fez-se um silêncio depois que Matt terminou, e ele mesmo se interrompeu.

— E então? — disse ele. — Vocês que não viram nada com seus próprios olhos, o que acham dessa história?

— Falamos bastante sobre isso ontem — disse Susan. — Deixarei que Ben lhe conte.

Com certa timidez, Ben expôs cada uma das explicações razoáveis, descartando-a logo em seguida. Quando falou da tela que fechava por fora, da terra mole, da ausência de marcas de escada, Matt o aplaudiu.

— Bravo, detetive!

Matt olhou para Susan.

— E você, Srta. Susan, que escrevia redações tão bem organizadas, com parágrafos como tijolos e subtítulos como cimento? O que acha?

Ela olhou para as mãos, que seguravam uma prega da saia, e voltou a olhar para ele.

— Ontem Ben me deu uma aula sobre o sentido linguístico da expressão não posso, e não vou usá-la. Mas é muito difícil para mim acreditar que vampiros estejam perambulando por ’salem’s Lot, Sr. Burke.

— Se pudermos dar um jeito de fazer isso discretamente, concordo em passar por um detector de mentiras — disse Matt baixinho.

Susan corou um pouco.

— Não, não me entenda mal. Estou convencida de que algo está acontecendo na cidade. Algo... horrível. Mas... isso...

Ele pousou a mão sobre a dela.

— Entendo, Susan, mas faça uma coisa por mim.

— Se eu puder...

— Vamos raciocinar sob a premissa de que tudo isso é real. Vamos mantê-la até que algo prove sua falsidade. É o método científico. Ben e eu já discutimos como testar essa premissa. E ninguém deseja mais do que eu que seja descartada.

— Mas não acha que será, não é?

— Não — disse ele, serenamente. — Após uma longa conversa comigo mesmo, cheguei a uma decisão. Acredito no que vi.

— Vamos esquecer essas questões de crença ou descrença por um minuto — propôs Ben. — Por enquanto são controvertidas.

— Concordo — disse Matt. — Como acha que devemos prosseguir?

— Bom — disse Ben. — Quero indicá-lo como pesquisador-chefe. Com sua formação, é o mais preparado para essa função. E assim não precisará se deslocar.

Os olhos de Matt brilharam, como quando lembrou a perfídia de Cody por proibir seu cachimbo.

— Ligarei para Loretta Starcher assim que a biblioteca abrir. Ela me trará os livros nem que seja de carrinho de mão.

— Hoje é domingo — lembrou Susan. — A biblioteca está fechada.

— Ela terá de abri-la para mim — declarou Matt. — Ou terá de se explicar.

— Peça tudo que tenha a ver com o assunto — disse Ben. — Nas áreas de psicologia, patologia e mito. Entendeu? O pacote completo.

— Vou anotar tudo num caderno — disse Matt. — Deixe comigo! — Ele olhou para os dois. — Desde que acordei neste hospital, pela primeira vez me sinto um homem. E o que você vai fazer?

— Primeiro, falar com o Dr. Cody. Ele examinou Ryerson e Floyd Tibbits também. Podemos tentar convencê-lo a exumar Danny Glick.

— Será que ele fará isso? — Susan perguntou a Matt.

Matt deu um gole na ginger ale antes de responder.

— O Jimmy Cody que foi meu aluno faria sem hesitar. Era um menino imaginativo e de mente aberta, que detestava falsos dogmas. Até que ponto a faculdade de medicina o tornou um empirista, isso eu já não sei.

— Tudo isso me parece muito tortuoso — disse Susan. — Principalmente procurar o Dr. Cody e arriscar ouvir um não. Por que Ben e eu não vamos até a Casa Marsten e acabamos logo com isso? Era nosso plano semana passada.

— Vou lhe dizer o porquê — disse Ben. — Porque estamos trabalhando com a premissa de que tudo isso é verdadeiro. Quer mesmo colocar sua cabeça na boca do leão?

— Achei que vampiros dormissem durante o dia.

— Straker pode ser muitas coisas, mas não um vampiro — disse Ben. — A não ser que as antigas lendas estejam totalmente erradas. Ele tem se mostrado de dia constantemente. Na melhor das hipóteses, seríamos presos como invasores de propriedade privada. Na pior, ele nos subjugaria e manteria lá até o anoitecer. Um lanchinho para quando o Conde acordasse.

— Barlow? — perguntou Susan.

Ben encolheu os ombros.

— Por que não? Essa história de que está em Nova York fazendo compras para a loja é certinha demais para ser verdade.

Susan continuou com uma expressão obstinada, mas se calou.

— O que vai fazer se Cody rir na sua cara? — perguntou Matt. — Supondo que ele não peça uma camisa de força na hora.

— Irei para o cemitério ao anoitecer. E vigiarei o túmulo de Danny Glick. Será um teste de campo.

Matt se ergueu dos travesseiros.

— Prometam que tomarão cuidado. Prometa, Ben!

— Não se preocupe — disse Susan, acalmando-o. — Vamos nos cobrir de cruzes da cabeça aos pés.

— Não brinque — murmurou Matt. — Se tivessem visto o que eu vi... — Ele virou a cabeça e olhou pela janela, que mostrava uma árvore com folhas encharcadas de sol contra o luminoso céu de outono.

— Ela pode estar brincando, mas eu não — disse Ben. — Tomaremos todas as precauções.

— Procure o padre Callahan — disse Matt. — Peça-lhe um pouco de água benta... e, se possível, algumas hóstias.

— Que tipo de homem ele é? — perguntou Ben.

Matt encolheu os ombros.

— Um pouco estranho. Acho que bebe. De qualquer forma, é culto e educado. Parece que se exaspera um pouco com o cabresto do catolicismo romano.

— Tem certeza de que o padre Callahan... bebe? — perguntou Susan, arregalando os olhos.

— Não absoluta. Mas um ex-aluno meu, Brad Campion, que trabalha na loja de bebidas Yarmouth, disse que Callahan é cliente habitual. Bebe Jim Beam. Tem bom gosto.

— Dá para conversar sobre isso tudo com ele? — perguntou Ben.

— Não sei. Mas acho que deve tentar.

— Quer dizer que você não o conhece?

— Muito pouco. Está escrevendo a história da Igreja Católica da Nova Inglaterra e é um conhecedor dos poetas da chamada idade de ouro. Whittier, Longfellow, Russell, Holmes e outros. Chamei-o para falar aos meus alunos de literatura americana no ano passado. Sua mente é rápida e penetrante. Os alunos gostaram dele.

— Vou procurá-lo. E seguirei meu instinto.

Uma enfermeira espiou dentro do quarto, fez um sinal com a cabeça, e Jimmy Cody entrou com um estetoscópio ao redor do pescoço.

— Vieram perturbar meu paciente? — perguntou amavelmente.

— Quem me perturba é você — disse Matt. — Quero meu cachimbo.

— Não pode fumar — Cody disse distraidamente, lendo o prontuário de Matt.

— Maldito charlatão — resmungou Matt.

Cody devolveu o prontuário a seu lugar e puxou a cortina verde que contornava a cama num cano em forma de C.

— Terei de pedir que vocês saiam daqui a pouco. Como está a cabeça, Sr. Mears?

— Até agora, nada vazou.

— Soube o que aconteceu com Floyd Tibbits?

— Susan me contou. Gostaria de falar com você, se tiver um tempinho depois de ver seus pacientes.

— Então, deixarei para examiná-lo por último, lá pelas 11 horas.

— Ótimo.

Cody segurou a cortina de novo.

— E agora, se me dão licença...

— Lá vou eu amigos, para o exílio — disse Matt. — Diga a palavra secreta e ganhe cem dólares...

A cortina separou Ben e Susan da cama. Por trás do tecido, Cody disse:

— A próxima vez que lhe der anestesia, vou cortar sua língua e metade de seu lóbulo pré-frontal.

Eles sorriram um para o outro, como jovens namorados quando o sol brilha e não há nada de errado no mundo. Mas os sorrisos se apagaram quase simultaneamente. Por um momento, os dois se perguntaram se não estavam loucos.

 

3

 

Quando Jimmy Cody finalmente entrou no quarto de Ben, eram 23h20.

— Precisava falar com você porque... — começou Ben.

— Primeiro a cabeça, depois a conversa. — Cody dividiu os cabelos de Ben delicadamente, observou algo e depois disse. — Vai doer. — Puxou o curativo, e Ben deu um salto. — Que galo enorme! — exclamou o médico, e cobriu o machucado com um curativo um pouco menor.

Examinou os olhos de Ben com a lanterninha e bateu em seu joelho esquerdo com um martelo de borracha. Com súbita morbidez, Ben se perguntou se era o mesmo que ele usara no joelho de Mike Ryerson.

— Tudo parece satisfatório — disse ele, guardando os instrumentos. — Qual é o nome de solteira de sua mãe?

— Ashford — disse Ben. Já haviam lhe feito essas perguntas quando ele recobrara a consciência.

— Professora no primeiro grau?

— A Sra. Perkins. Ela passava rinçagem no cabelo.

— Nome do meio do pai?

— Merton.

— Sente tontura ou náusea?

— Não.

— Sente aromas ou vê cores estranhas ou...

— Não, não e não. Estou ótimo.

— Isso sou eu quem decido — disse Cody, empertigando-se. — Teve visão dupla?

— A última vez foi quando comprei um litro de Thunderbird.

— Certo — disse Cody. — Eu o declaro curado pelos poderes da medicina moderna e pela graça de uma cabeça dura. Agora, sobre o que quer falar comigo? Sobre Tibbits e o bebê dos McDougall, imagino. Só posso lhe dizer o que já disse a Parkins Gillespie. Primeiro, estou feliz por não ter saído nos jornais. Um escândalo por século já basta para uma cidade pequena. Segundo, não imagino quem possa ter feito algo tão pervertido. Não pode ser alguém daqui. Temos os nossos malucos de plantão, mas...

Ele parou de falar, vendo a expressão confusa de Ben e Susan.

— Vocês ainda não sabem?

— O quê? — perguntou Ben.

— Parece um filme com Boris Karloff ou uma novela de Mary Shelley. Alguém roubou os corpos do necrotério de Cumberland, em Portland, ontem à noite.

— Santo Deus — disse Susan, entre lábios rígidos.

— O que foi? — perguntou Cody, subitamente preocupado. — Vocês sabem de algo a respeito disso?

— Estou começando a pensar seriamente que sim — disse Ben.

4

 

Eram 12h10 quando eles terminaram de contar tudo. A bandeja com o almoço que a enfermeira trouxera para Ben permanecia intocada ao lado da cama.

A última palavra fora dita, e o único som era o barulho de copos e talheres que entrava pela porta entreaberta, enquanto pacientes mais famintos almoçavam.

— Vampiros — murmurou Jimmy Cody. — E Matt Burke, justo ele... Assim fica mais difícil achar graça de tudo isso.

Ben e Susan não disseram nada.

— E querem que eu exume Danny Glick — meditou ele. — Santa Mãe de Deus...

Cody tirou um frasco da maleta e o jogou para Ben, que o pegou no ar.

— Aspirina — disse ele. — Já usou?

— Muitas vezes.

— Meu pai dizia que era a melhor enfermeira do médico. Sabe como funciona?

— Não — disse Ben, girando o frasco de aspirina entre as mãos. Não conhecia Cody a ponto de saber o que costumava ocultar, mas sabia que nenhum de seus pacientes já o vira assim, com o rosto infantil, parecido com o de Norman Rockwell, pensativo e introspectivo. E não quis interromper suas reflexões.

— Nem eu. Ninguém sabe. Mas é bom para dor de cabeça, artrite e reumatismo. E também não sabemos o que são esses males. Por que nossa cabeça dói? Não existem nervos no cérebro. Sabemos que a composição da aspirina é semelhante à do LSD, mas por que uma cura a dor de cabeça e o outro a enche de flores? Não entendemos isso porque no fundo não entendemos o cérebro. Mesmo o médico mais bem-formado do mundo está ilhado em meio a um mar de ignorância. Brandimos nossas varinhas de condão e lemos mensagens no sangue. E é surpreendente como funciona a maioria das vezes. É magia branca. Bene gris-gris. Meus professores de medicina arrancariam os cabelos se me ouvissem falar assim. Alguns arrancaram mesmo quando eu lhes disse que ia praticar medicina na zona rural do Maine. Um deles me disse que Marcus Welby sempre lancetava os furúnculos na bunda do paciente durante as vinhetas da emissora. Mas eu nunca quis ser Marcus Welby. — Ele sorriu. — Eles teriam um ataque e rolariam no chão se soubessem que vou pedir a exumação de Danny Glick.

— Vai mesmo? — perguntou Susan, francamente surpresa.

— Que mal pode fazer? Se estiver morto, pronto. Se não estiver, terei algo para chocar o congresso de medicina no ano que vem. Direi ao legista do município que preciso procurar sinais de encefalite infecciosa. É a única explicação razoável que me ocorre.

— Pode ser isso então? — perguntou ela, esperançosa.

— É muito improvável.

— Pode fazer isso o mais rápido possível? — perguntou Ben.

— Amanhã, no máximo. Se tiver algum contratempo, terça ou quarta.

— Como ele estará? — perguntou Ben. — Quero dizer...

— Eu sei o que quer dizer. A família não mandou embalsamar o menino, não é?

— Não.

— Faz uma semana?

— Isso.

— Quando o caixão for aberto, provavelmente sairá uma onda de gás e um cheiro bastante repulsivo. O corpo pode estar inchado. O cabelo terá crescido até o colarinho. Continua a crescer durante bastante tempo. As unhas também estarão compridas. E os olhos, quase com certeza, terão afundado.

Susan tentava manter uma expressão de neutralidade científica, sem muito sucesso. Ben sentiu alívio por não ter almoçado.

— O corpo ainda não terá entrado em decomposição radical — prosseguiu Cody, em seu melhor tom magistral. — Mas a umidade presente já pode ter levado ao surgimento, no rosto e nas mãos, de uma substância musgosa chamada... — Ele parou. — Desculpe. Estou chocando vocês.

— Existem coisas piores do que a decomposição — disse Ben, tentando manter a voz neutra. — Mas e se você não encontrar nenhum desses sinais? E se o corpo estiver com o aspecto idêntico ao do dia em que foi enterrado? O que fará? Enterrará uma estaca em seu coração?

— Dificilmente — disse Cody. — Para começar, o médico-legista ou seu assistente estarão presentes. Acho que nem Brent Norbert acharia profissional se eu tirasse uma estaca da maleta e a enterrasse no cadáver de uma criança.

— E o que você vai fazer? — perguntou Ben, curioso.

— Bom, Matt Burke que me perdoe, mas não acho que isso vai acontecer. Mas, se o corpo estiver nesse estado, sem dúvida será levado ao Centro Médico do Maine para um exame mais demorado. Lá, eu esperaria até o anoitecer... e observaria os fenômenos que ocorressem.

— E se ele se levantar?

— Assim como você, acho isso inconcebível.

— Estou achando cada vez mais concebível — disse Ben, seriamente. — Posso estar presente quando isso acontecer? Se acontecer?

— Posso dar um jeito.

— Certo. — Ben levantou da cama e foi até o armário, onde suas roupas estavam penduradas. — Vou...

Susan deu uma risadinha, e Ben se virou.

— O que foi?

Cody sorria de orelha a orelha.

— Os aventais de hospital costumam abrir atrás, Sr. Mears.

— Caramba — disse Ben, instintivamente fechando a abertura traseira do avental. — É melhor me chamar de Ben.

— E, aproveitando a deixa, Susan e eu vamos sair — disse Cody, levantando-se. — Encontre com a gente no café quando estiver decente. Nós dois temos afazeres esta tarde.

— Temos?

— Precisamos contar aos pais de Danny Glick a história da encefalite. Pode fingir que é meu colega, se quiser. Não diga nada. Apenas ponha a mão no queixo e faça cara de sábio.

— Eles não vão gostar nada disso, não é?

— Você gostaria?

— Não.

— Precisa da permissão deles para a exumação? — perguntou Susan.

— Tecnicamente, não. Mas é melhor pedir. Minha única experiência com exumações foi na faculdade de medicina. Mas acho que, se forem contra, os pais podem entrar com um processo. Isso levaria de duas semanas a um mês, e até lá minha teoria sobre a encefalite não se sustentaria mais. — Ele fez uma pausa e os olhou. — O que me leva à questão mais perturbadora de todas, fora a história do Sr. Burke. Danny Glick é o único corpo que podemos examinar. Os outros desapareceram sem deixar vestígios.

 

5

 

Ben e Jimmy Cody chegaram à casa dos Glick por volta da 1h30. O carro de Tony Glick estava na garagem, mas a casa estava silenciosa. Como ninguém atendeu quando bateram, eles atravessaram a rua até a casinha estilo campestre que ficava em frente — um melancólico casebre pré-fabricado que se sustentava sobre duas escoras. O nome na caixa de cartas era Dickens. Um flamingo cor-de-rosa enfeitava o gramado, e um cocker spaniel abanou a cauda ao vê-los.

Pauline Dickens, garçonete e sócia do Excellent Café, abriu a porta logo depois que Cody tocou a campainha. Estava de uniforme.

— Oi, Pauline — disse Jimmy. — Você sabe onde estão os Glick?

— Então você não sabe?

— O quê?

— A Sra. Glick morreu esta manhã. Levaram Tony Glick ao Hospital Central do Maine. Ele está em choque.

Ben olhou para Cody, que tinha a expressão de alguém que levara um chute no estômago. Resolveu assumir o controle da situação.

— Para onde levaram o corpo?

Pauline alisou o uniforme.

— Falei com Mabel Werts pelo telefone há uma hora, e ela disse que Parkins Gillespie ia levar o corpo direto para a funerária daquele judeu em Cumberland, já que ninguém sabe onde Carl Foreman está.

— Obrigado — Cody disse lentamente.

— Que coisa horrível — disse ela, olhando para a casa vazia do outro lado da rua. O carro de Tony Glick, na entrada, parecia um cachorro grande e cinzento, acorrentado e depois abandonado. — Se eu fosse supersticiosa, ficaria com medo.

— Medo do quê, Pauline? — perguntou Cody.

— Ah, sei lá... — Ela sorriu vagamente, segurando uma corrente que tinha no pescoço.

Era uma medalha de São Cristóvão.

 

6

 

Estavam de volta ao carro. Viram Pauline sair para o trabalho sem dizer nada...

— E agora? — disse Ben finalmente.

— Que catástrofe — disse Jimmy. — O judeu que ela falou é Maury Green. Acho melhor irmos até Cumberland. Há nove anos o filho de Maury quase se afogou no lago Sebago. Por acaso eu estava lá com uma namorada, e salvei o menino com respiração boca a boca. Talvez seja o momento de eu pedir um favor em troca.

— Do que adiantará? O legista já deve ter levado o corpo para a sala de autópsia.

— Duvido. Hoje é domingo, lembra? O legista deve estar na floresta com seu martelo para colher rochas. É geólogo amador. Norbert... lembra-se dele?

Ben fez que sim.

— Norbert deve estar de plantão, mas não é confiável. Deve ter tirado o telefone do gancho para assistir ao jogo do Packers contra o Patriots. Se formos à funerária de Maury Green agora, é bem provável que encontremos o corpo intocado.

— Certo — disse Ben. — Vamos lá.

Lembrou-se da visita que deveria fazer ao padre Callahan, mas teria de ficar para depois. Tudo estava indo rápido demais para o gosto dele. Fantasia e realidade haviam se fundido.

 

7

 

Viajaram em silêncio até chegarem à estrada, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ben refletia sobre o que Cody dissera no hospital. Carl Foreman desaparecera. Os corpos de Floyd Tibbits e do bebê haviam sumido debaixo do nariz dos dois funcionários do necrotério. Mike Ryerson também desaparecera, e só Deus sabia quem mais. Quantas pessoas em ’salem’s Lot podiam sumir sem que ninguém notasse sua falta durante muito tempo? Centenas, talvez. Suas mãos começaram a suar.

— Isso está começando a parecer uma alucinação — disse Jimmy. — Ou os quadrinhos do Gahan Wilson. O mais assustador, do ponto de vista acadêmico, é a facilidade relativa com que uma colônia de vampiros pode se formar, se admitirmos a existência deles. ’Salem’s Lot é uma cidade-dormitório para quem trabalha em Portland, Lewiston e Gates Falls. Não existem indústrias locais que notariam se muitos empregados começassem a faltar. As escolas são unificadas com as de duas outras cidades, e se as faltas começarem a aumentar, quem repara? Muita gente vai à igreja em Cumberland, e mais gente ainda não vai a igreja alguma. E a televisão acabou com as antigas reuniões de bairro, descontando os coitados que matam tempo na loja de Milt. Tudo isso pode se desenrolar com muito sucesso nos bastidores.

— É — disse Ben. — Danny Glick infectou Mike. Mike infectou... não sei, Floyd, talvez. Aquele bebê pode ter infectado o pai ou a mãe. Como estão eles, por falar nisso? Alguém foi verificar?

— Não são meus pacientes. O Dr. Plowman deve ter ligado para eles esta manhã e comunicado o sumiço do corpo. Mas não tenho certeza.

— Alguém deveria verificar como estão. — Ben começou a se sentir acossado. — É uma bola de neve. Uma pessoa de fora pode passar pela cidade e não notar nada de errado. Mais uma cidadezinha mixuruca onde todos se deitam às nove. Mas ninguém sabe o que se passa por trás das portas. Os moradores podem estar na cama... ou dentro dos armários, como vassouras... ou nos porões, esperando o sol se pôr. E, a cada amanhecer, menos pessoas saem às ruas. Menos a cada dia. — Ele engoliu em seco.

— Calma — disse Jimmy. — Nada está provado.

— Estão chovendo provas — retorquiu Ben. — Se estivéssemos lidando com algo aceitável, como uma epidemia de febre tifoide ou de gripe, a cidade inteira estaria de quarentena a essa altura.

— Duvido. Não esqueça que apenas uma pessoa realmente viu alguma coisa.

— E não foi exatamente o bêbado da cidade.

— Matt seria crucificado se sua história se espalhasse — disse Jimmy.

— Por quem? Por Pauline Dickens é que não. Ela só falta pintar talismãs na porta de sua casa.

— Em tempos de Watergate e escassez de petróleo, ela é uma exceção.

Continuaram a viagem em silêncio. A funerária Green ficava no norte de Cumberland. Dois carros funerários estavam parados nos fundos, entre a capela ecumênica e uma cerca alta. Jimmy desligou o carro e olhou para Ben.

— Pronto?

— Acho que sim.

Eles saíram do carro.

 

8

 

A revolta que vinha crescendo dentro de Susan explodiu por volta das duas da tarde. Eles estavam dando voltas, tentando provar algo que (desculpe, Sr. Burke) provavelmente não passava de uma bobagem. E ela decidiu ir até a Casa Marsten naquela tarde mesmo.

Desceu e pegou a bolsa. Sua mãe estava preparando biscoitos e seu pai estava na sala, assistindo ao jogo.

— Aonde você vai? — perguntou a Sra. Norton.

— Vou dar uma volta.

— Vamos jantar às seis. Tente voltar a tempo.

— Voltarei no máximo às cinco.

Ela saiu e entrou no carro, que era seu maior orgulho — não porque era o primeiro de sua vida (embora fosse), mas porque o comprara (ainda faltavam seis prestações, lembrou ela) com seu próprio dinheiro, seu próprio talento. Era um Vega pequeno, com quase dois anos. Tirou-o cuidadosamente da garagem e acenou para a mãe, que a olhava da janela da cozinha. A relação delas ainda estava abalada, embora não falassem mais a respeito. As outras discussões, mesmo que amargas, tinham sido esquecidas com o tempo — a vida simplesmente continuava, enterrando as mágoas, que só voltavam a aflorar na briga seguinte, quando eram contadas como pontos numa disputa. Mas aquela guerra fora completa. As feridas não podiam ser curadas. A amputação era a única saída. Ela já começara a fazer as malas, com sensação de justiça. Estava mais do que na hora.

Seguiu pela rua Brock, sentindo prazer e determinação (e uma agradável sensação de absurdidade). Tomaria uma atitude concreta, e a ideia a estimulava. Era uma pessoa direta. Os fatos do fim de semana a haviam confundido e deixado à deriva. Mas agora ela remaria numa direção certa.

Parou no acostamento de terra na saída da cidade e andou pelo pasto de Carl Smith até uma cerca de neve vermelha, enrolada à espera do inverno. A sensação de absurdidade cresceu, e ela não pôde deixar de sorrir ao dobrar uma das ripas para frente e para trás até romper o arame que o prendia aos outros. Era uma estaca perfeita, de quase um metro, pontuda na extremidade. Levou-a para o carro e a colocou no banco de trás, sabendo para que era (ela vira filmes da produtora Hammer suficientes para saber como se matavam vampiros), mas não parou para pensar se seria capaz de cravá-la no peito de um homem se fosse preciso.

Saiu dos limites da cidade e entrou em Cumberland. Viu à esquerda uma lojinha que abria aos domingos, onde seu pai comprava o jornal. Lembrou-se que havia uma vitrine de bijuterias baratas ao lado do caixa.

Comprou o jornal e um pequeno crucifixo dourado. Suas compras, no valor de quatro dólares e cinquenta centavos, foram registradas por um balconista gordo que não tirou os olhos da televisão, onde Jim Plunkett era expulso do jogo.

Em seguida ela pegou a estrada municipal, que fora recém-asfaltada. Tudo parecia novo, fresco e vivo naquela tarde ensolarada, e a vida parecia muito preciosa. E para, a partir disso, pensar em Ben era um pulo.

O sol saiu de trás de uma grande e vagarosa nuvem, cobrindo o asfalto de faixas claras e escuras ao incidir sobre as árvores que margeavam a estrada. Num dia como aquele, pensou ela, era possível acreditar em finais felizes.

Cerca de oito quilômetros depois, ela saiu da estrada e entrou na via Brooks, que não era asfaltada, e voltou a entrar em ’salem’s Lot. A estrada subia, descia e serpenteava pela densa vegetação dessa área, que encobria boa parte da luminosidade do dia. Não se viam casas nem trailers. Aquelas terras pertenciam a uma indústria de papel conhecida por pedir aos clientes que não amassassem o papel higiênico. A cada 30 metros, apareciam placas proibindo a caça e a passagem ao lado da estrada. Ao passar pelo desvio que levava ao depósito de lixo, Susan sentiu uma onda de inquietação. Naquele trecho sombrio da estrada, possibilidades nebulosas tornavam-se mais reais. Começou a se perguntar — e não pela primeira vez — por que uma pessoa normal compraria a casa arruinada que pertencera a um suicida e manteria as janelas sempre fechadas, tapando a luz do dia.

A estrada desceu bruscamente e depois começou a subir pelo flanco oeste do monte Marsten. Susan conseguiu divisar o telhado da Casa Marsten por entre as árvores.

Estacionou na entrada de uma antiga trilha para lenhadores no final da inclinação e saiu do carro. Após um instante de hesitação, pegou a estaca e pendurou o crucifixo no pescoço. Ela ainda se sentia absurda, mas se sentiria ainda mais se algum conhecido passasse por ali e a visse subindo o monte com a estaca de uma cerca na mão.

Oi, Suze, aonde está indo?

Vou dar uma passada na Casa Marsten e matar um vampiro. Mas tenho que me apressar, porque o jantar é às seis.

Ela decidiu cortar caminho pela floresta.

Ao passar cuidadosamente por cima de um muro arruinado no final da vala da estrada, ficou feliz por estar de calças compridas. A mais alta-costura para destemidas matadoras de vampiros. E ainda enfrentou arbustos espinhosos e buracos encobertos antes de entrar na floresta.

Em meio aos pinheiros, o dia se tornou pelo menos dez graus mais frio e ainda mais sombrio. O chão estava acarpetado de folhas amareladas e o vento assobiava entre as árvores. Em algum lugar, um animal correu pela vegetação rasteira. Susan de repente se deu conta de que, se virasse à esquerda e andasse uns 700 metros, chegaria ao cemitério Harmony Hill — isso se conseguisse escalar o muro de trás.

Ela continuou a subir o monte, o mais silenciosamente possível. Ao se aproximar do topo, avistou a casa em meio aos ramos cada vez mais esparsos — o lado da casa que não se via da cidade. E começou a sentir medo. Não conseguia precisar o motivo, e por isso era como o medo que sentira na casa de Matt Burke. Sabia que ninguém ouvia seus passos e que o sol brilhava, mas o medo continuava a oprimir seu peito. Parecia brotar de uma região arcaica e geralmente silenciosa de seu cérebro. O prazer que o dia lhe proporcionara antes se foi. Assim como a sensação de que era tudo uma brincadeira. E sua determinação. Voltou a pensar nos filmes de terror em que a heroína se aventura por corredores estreitos em direção ao sótão para ver o que assustara a pobre senhora Cobham, ou entrava em porões escuros e cobertos de teias de aranha — simbolizando o útero. Nessas ocasiões, com o braço do namorado ao seu redor, ela pensava: Que idiota! Eu nunca faria isso. E lá estava ela, fazendo justamente aquilo. E refletiu como a distância entre o cérebro superior e inferior se tornara grande. O cérebro superior obrigava a pessoa a continuar, apesar dos alertas daquela região instintiva, tão parecida com a constituição física do cérebro de um jacaré. O cérebro superior podia obrigar a pessoa a continuar em frente, até que a porta do sótão se abrisse diante de um horror indizível ou até chegar a uma alcova oculta no porão e visse...

PARE!

Ela afastou esses pensamentos e notou que estava suando. Só porque vira uma casa comum com as janelas fechadas. Pare de ser idiota, disse a si mesma. Você vai lá dar uma espiada na casa, só isso. Do jardim dá para ver sua própria casa. O que pode acontecer com você diante de sua própria casa?

Mesmo assim, ela se abaixou um pouco e segurou a estaca com mais força. Quando as árvores começaram a ficar muito espaçadas para escondê-la, ela começou a andar de quatro. Pouco depois, ela não podia mais avançar sem revelar sua presença. De seu esconderijo atrás do último grupo de pinheiros, via o lado oeste da casa e os arbustos de madressilva, agora despidos pelo outono. A grama do verão amarelara, mas ainda estava alta. Ninguém se dera ao trabalho de cortá-la.

De repente um motor roncou no silêncio da tarde. O coração de Susan deu um salto. Ela se controlou apertando o chão com os dedos e mordendo o lábio inferior. Logo depois um carro preto e antigo saiu da garagem, cruzou a entrada para veículos e pegou a estrada em direção à cidade. Susan viu o motorista com clareza: a cabeça calva, os olhos tão fundos que pareciam ser apenas órbitas, as lapelas de um terno escuro. Straker. A caminho da loja de Crossen, talvez.

Notou que a maioria das venezianas tinha lâminas quebradas. Ótimo. Ela se aproximaria de fininho, espiaria e descobriria o que havia lá dentro. Provavelmente era só uma casa que passava por uma longa reforma, por uma troca de papel de parede e reboco, e ela veria apenas ferramentas, baldes e escadas. Tudo romântico e sobrenatural como um jogo de futebol na televisão.

Mas o medo voltou. Tomou-a subitamente, sufocando a lógica e a brilhante fórmica da razão, deixando um gosto de cobre em sua boca.

E ela sabia que alguém estava atrás dela antes mesmo de sentir a mão em seu ombro.

 

9

 

Era quase noite.

Ben levantou-se da cadeira dobrável de madeira, andou até a janela que dava para o gramado traseiro da casa funerária e não viu nada especial. Eram 18h45, e as sombras do anoitecer se alongavam sobre o chão. A grama continuava verde apesar da época do ano, e ele imaginou que o agente funerário tentaria mantê-la assim até que a neve a cobrisse. Um símbolo da continuidade da vida em meio à morte da natureza. Essa ideia o deprimiu, e ele se afastou da janela.

— Como eu queria um cigarro — disse ele.

— O cigarro mata — disse Jimmy, sem se virar. Assistia a um documentário sobre a vida animal na televisão de Maury Green. — Na verdade, eu também queria. Parei de fumar quando o ministro da Saúde condenou o cigarro há dez anos. Seria ruim para minha imagem se não parasse. Mas sempre acordo procurando o maço na mesa de cabeceira.

— Não tinha parado?

— Deixo o maço lá pelo mesmo motivo pelo qual alguns alcoólatras em recuperação sempre têm uma garrafa de uísque no armário da cozinha. Força de vontade, amigo.

Ben olhou para o relógio. Eram 18h47. Segundo o jornal que Maury Green deixara sobre a mesa, o anoitecer aconteceria oficialmente às 19h02.

Jimmy cuidara da situação com habilidade. Maury Green era um homenzinho que abrira a porta de colete preto desabotoado e camisa branca de colarinho aberto. Sua expressão sóbria e inquisitiva deu lugar a um largo sorriso de boas-vindas.

— Shalom, Jimmy — exclamou ele. — Que prazer ver você! O que tem feito?

— Salvado o mundo da gripe — disse Jimmy, sorrindo e apertando a mão de Green. — Quero que conheça um grande amigo meu, Ben Mears.

Maury apertou a mão de Ben calorosamente. Seus olhos brilhavam por trás dos óculos de aros pretos.

— Shalom para você. Amigos de Jimmy são meus amigos também. Entrem, entrem. Vou chamar Rachel e...

— Não precisa — disse Jimmy. — Viemos lhe pedir um favor. Um favor dos grandes.

Green olhou bem para o rosto de Jimmy.

— Um favor dos grandes — repetiu zombeteiramente. — E por quê? O que você já fez por mim, para que meu filho se formasse em terceiro lugar na Northwestern? Peça o que quiser, Jimmy.

Jimmy corou.

— Fiz o que qualquer um teria feito, Maury.

— Não vou discutir com você. Peça. O que está preocupando tanto você e o Sr. Mears? Sofreram um acidente?

— Não, nada do gênero.

Ele os conduzira a uma pequena cozinha atrás da capela e, enquanto conversavam, preparou café numa cafeteira velha sobre uma chapa elétrica.

— Norbert já veio buscar a Sra. Glick? — perguntou Jimmy.

— Não, nem sinal dele — disse Maury, colocando açúcar e creme sobre a mesa. — Aposto que vai aparecer às 11 da noite e reclamar porque não esperei por ele. Pobre mulher — suspirou. — Quanta tragédia numa só família. E ela está parecendo um anjo, Jimmy. Aquele imprestável do Reardon a trouxe. Era sua paciente?

— Não — disse Jimmy. — Mas Ben e eu... gostaríamos de observá-la esta noite, Maury. Lá embaixo.

Green parou no ato de apanhar o bule de café.

— Observá-la? Examiná-la, você quer dizer?

— Não — disse Jimmy calmamente. — Só observá-la.

— Está brincando? — Ele o olhou com atenção. — Não, vejo que não. Para que fazer isso?

— Não posso lhe dizer, Maury.

— Ah. — Ele serviu o café, sentou-se e deu um gole. — Ótimo, não ficou muito forte. Mas ela morreu de alguma doença infecciosa?

Jimmy e Ben trocaram um olhar.

— Não no sentido mais comum da palavra — disse Jimmy.

— Você quer que eu fique de bico calado, não é?

— Isso mesmo.

— E se Norbert chegar?

— Eu cuido dele — disse Jimmy. — Direi que Reardon me pediu para procurar sinais de encefalite infecciosa. Ele nunca irá conferir se é verdade.

Green concordou com um gesto de cabeça.

— Norbert não sabe nem conferir o relógio.

— Pode ser, Maury?

— Claro que sim. Mas pensei que fosse um favor dos grandes.

— É maior do que pensa.

— Quando terminar meu café, vou para casa ver que horror Rachel preparou para o jantar de domingo. Aqui está a chave. Tranque a porta quando sair.

Jimmy guardou a chave no bolso.

— Pode deixar. Obrigado mais uma vez, Maury.

— Não precisa agradecer. Mas faça-me um favor em troca.

— Claro. O quê?

— Se ela disser alguma coisa, anote para a posteridade. — Ele começou a rir, mas viu a expressão no rosto deles e se calou.

 

10

Eram 18h55. Ben sentia a tensão enrijecer o corpo.

— Pare de olhar para o relógio — disse Jimmy. — Não vai fazer com que ande mais rápido olhando para ele.

Ben teve um sobressalto de culpa.

— Duvido muito que os vampiros, se é que existem, levantem-se no horário oficial do anoitecer — disse Jimmy. — Ainda está claro a essa hora.

Mesmo assim, ele se ergueu e desligou a televisão, calando o grasnado de um pato.

O silêncio caiu sobre eles como um manto pesado. Estavam na sala de trabalho de Green. O corpo de Marjorie Glick jazia sobre uma mesa de aço inoxidável equipada com calhas e apoios para os pés que podiam ser subidos e descidos. Pareciam macas de maternidades, pensou Ben.

Jimmy puxara o lençol que cobria o corpo quando entraram e fizera um breve exame. A Sra. Glick usava um roupão acolchoado cor de vinho e chinelos de lã. Um band-aid na canela esquerda talvez cobrisse um corte feito pelo aparelho de barbear. Ben tentara desviar os olhos do corpo, mas sem sucesso.

— O que você acha? — ele perguntara.

— Não quero me comprometer, já que dentro de três horas deveremos ter uma resposta. Mas seu estado é incrivelmente semelhante ao de Mike Ryerson. Nenhuma palidez, nenhum sinal de rigidez, nem mesmo incipiente. — E ele voltara a suspender o lençol e não dissera mais nada.

Eram 19h02.

— Onde está sua cruz? — Jimmy perguntou de repente.

Ben se sobressaltou.

— A cruz? Meu Deus, esqueci de trazer.

— Vejo que nunca foi escoteiro — disse Jimmy, abrindo sua maleta. — Eu, no entanto, estou sempre alerta.

Tirou dois depressores de língua, removeu o embrulho de celofane e os uniu com esparadrapo da Cruz Vermelha.

— Abençoe a cruz — disse a Ben.

— Como? Não sei fazer isso.

— Então, improvise — disse Jimmy, com o rosto simpático subitamente tenso. — Você não é escritor? Seja também um metafísico. Mas ande logo, pelo amor de Deus. Acho que algo vai acontecer. Não está sentindo?

Ben sentia. Algo parecia estar se acumulando no lento e arroxeado crepúsculo, ainda invisível, mas com o peso de uma carga elétrica. Sua boca secara, e ele teve de molhar os lábios para conseguir falar.

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. — E acrescentou. — Em nome da Virgem Maria também. Abençoe essa cruz e... e...

As palavras então lhe vieram com súbita e misteriosa firmeza.

— O Senhor é meu pastor. Nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes. Restaura as forças de minha alma.

Jimmy uniu a voz à dele.

— Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei...

Era difícil manter a respiração constante. Todo o corpo de Ben estava coberto de arrepios, e os cabelos de sua nuca se eriçaram.

— Vosso bordão e vosso báculo são meu apoio. Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça e transbordai minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de...

O lençol que cobria o corpo de Marjorie Glick começara a tremer. A mão resvalou para fora do lençol e os dedos começaram a se mover.

— Meu Deus, não posso estar vendo isso — sussurrou Jimmy. Seu rosto ficou branco e suas sardas se destacavam como respingos numa vidraça.

— ...seguir-me por todos os dias de minha vida — terminou Ben. — Jimmy, olhe para a cruz.

A cruz cintilava. A luz se derramava sobre sua mão com um clarão élfico.

Uma voz lenta e estrangulada fez-se ouvir, arranhando o silêncio como um caco de louça.

— Danny?

Ben sentiu sua língua se colar no céu da boca. A silhueta sob o lençol estava se sentando. Sombras deslizavam na sala escura.

— Danny, onde você está, querido?

O lençol caiu do rosto e se amontoou no colo do vulto.

O rosto de Marjorie Glick era um círculo branco na semi-obscuridade, marcado apenas pelos buracos negros dos olhos. Quando ela os viu, sua boca se abriu num horrível esgar. Os dentes cintilaram sob a luz morrente do dia.

Ela passou as pernas para o lado da mesa. Um dos chinelos caiu no chão, onde ficou esquecido.

— Sente aí! — disse Jimmy. — Não se mexa!

A resposta dela foi um rosnado canino, um som argênteo e medonho. Ela desceu da mesa, cambaleou e andou em direção a eles. Ben encontrou aqueles olhos profundos e se forçou a desviar o olhar. Eram galáxias negras cercadas de vermelho, onde ele se via refletido, onde mergulharia com prazer.

— Não olhe para a cara dela — alertou a Jimmy.

Eles recuavam sem pensar, deixando que ela os acuasse no corredor estreito que levava às escadas.

— Tente usar a cruz, Ben.

Ele quase se esquecera dela. Ergueu-a então, e a cruz pareceu faiscar com esplendor. Ele precisou franzir os olhos diante do brilho. A Sra. Glick emitiu um som sibilante e protegeu o rosto com as mãos. Seus traços se contraíram, contorcendo-se como um ninho de cobras. Ela recuou um passo.

— Deu certo! — gritou Jimmy.

Ben avançou em direção à Sra. Glick, estendendo a cruz a sua frente. Ela tentou derrubá-la com os dedos que pareciam garras. Ben conseguiu se desviar e continuou a investir sobre ela com a cruz. A morta-viva deu um grito ululante.

Para Ben, o que se seguiu teve as cores de um pesadelo. Apesar dos horrores piores que ainda viriam, ele sempre lembraria em seus sonhos de empurrar Marjorie Glick de volta à mesa funerária, onde o lençol que a cobrira jazia amontoado ao lado de um chinelo de lã.

Ela recuava a contragosto, o olhar passando da temível cruz para um ponto no pescoço de Ben. Os sons que saíam de sua garganta eram inarticulados, sibilantes, desumanos. Ela recuava com relutância tão cega que começou a lembrar um enorme e pesado inseto. Ben pensou: se eu não estivesse com essa cruz à minha frente, ela abriria minha garganta com as unhas e engoliria o sangue que esguicharia da jugular e da carótida como um homem morrendo de sede no deserto. Ela se banharia no meu sangue.

Jimmy saiu do lado dele e começara a cercá-la pela esquerda. Ela não o viu. Seus olhos estavam pregados em Ben, cheios de ódio... e de medo.

Jimmy contornou a mesa e, quando ela se aproximou, ele agarrou seu pescoço com as duas mãos e soltou um grito convulsivo.

Ela deu um berro agudo e terrível, contorcendo-se entre os braços dele. Ben viu as unhas de Jimmy arrancarem um pedaço da pele do ombro dela, mas nenhum sangue saiu. O corte permaneceu pálido e seco. Então, com força assustadora, ela o atirou até o outro lado da sala. Jimmy caiu, derrubando a televisão de Maury Green do suporte.

Ela investiu para o médico velozmente, correndo arqueada como uma aranha. Num relance, Ben a viu cair sobre ele, rasgar seu colarinho, e depois a inclinação predatória da cabeça, o escancarar das mandíbulas quando ela começou a sugá-lo.

Jimmy Cody gritou com o desespero dos condenados.

Ben se atirou sobre a criatura, tropeçando e quase caindo sobre a televisão quebrada no chão. Ouvia a áspera respiração dela, e, por trás desse som, o ruído repugnante de lábios que chupavam e sorviam.

Ele a agarrou pelo colarinho do roupão e a puxou para cima, esquecendo-se da cruz por um momento. Ela girou a cabeça com rapidez assustadora. Os olhos estavam dilatados e brilhantes, os lábios e queixo manchados de sangue que parecia negro na escuridão quase total.

Ben sentiu no rosto a respiração da criatura, incrivelmente pútrida, o hálito das tumbas. Como em câmera lenta, viu-a passar a língua nos dentes.

Ergueu a cruz bem quando ela o puxava para seus braços, com uma tal força que ele se sentiu feito de pano. A ponta redonda do depressor de língua atingiu-a sob o queixo e continuou a penetrar a carne sem resistência. Os olhos de Ben foram ofuscados por uma luz que não estava diante deles, mas atrás. Sentiu o cheiro quente e nauseante de carne queimada. A morta soltou um grito de dor e desespero. Ele a viu recuar bruscamente, tropeçar na televisão e cair no chão, amortecendo a queda com o braço pálido. Ergueu-se de novo com agilidade lupina, os olhos apertados de dor, mas ainda cheios de fome insana. A carne de seu maxilar estava escura e fumegante. Ela rosnava para ele.

— Vem, sua vaca — arquejou ele. — Vem.

Ben estendeu a cruz diante de si novamente e a encurralou no canto esquerdo da sala. Preparou-se para cravar a cruz na testa da criatura. Mas, mesmo pressionada contra a parede, ela soltou um riso alto e estridente que o fez contrair o rosto. Era como o som de um garfo arranhando uma superfície de porcelana.

— Alguém se alegra agora! E seu círculo está menor!

E, diante dos olhos de Ben, o corpo pálido se alongou e se tornou translúcido. Num momento ela estava lá, rindo dele, e no outro apenas a luz branca do poste de rua brilhava sobre a parede nua. Uma sensação em seus terminais nervosos lhe informava que ela se infiltrara pelos poros da parede, como fumaça.

Ela sumira.

E Jimmy gritava.

 

11

 

Ele acendeu as luzes fluorescentes do teto e correu para Jimmy, mas ele já estava de pé, com as mãos na lateral do pescoço, os dedos escarlates.

— Ela me mordeu! — ele gritou. — Santo Deus, ela me mordeu!

Ben foi até ele, tentou tomá-lo nos braços, mas ele o empurrou. Seus olhos moviam-se freneticamente nas órbitas.

— Não encoste em mim. Fui contaminado.

— Jimmy...

— Me dá minha maleta. Meu Deus, Ben, estou sentindo. Está se espalhando dentro de mim. Pelo amor de Deus, me dá minha maleta!

A maleta estava num canto. Ben foi buscá-la, e Jimmy arrancou-a de suas mãos. Foi até a mesa funerária e apoiou a maleta sobre ela. Seu rosto, de uma palidez mortal, estava coberto de perspiração. O sangue pulsava impiedosamente do talho em seu pescoço. Ele sentou na mesa, abriu a maleta e remexeu dentro dela, respirando penosamente.

— Ela me mordeu — murmurou inclinado sobre a maleta. — Aquela boca... Meu Deus, aquela boca imunda...

Ele tirou um frasco de desinfetante e jogou a tampa no chão de ladrilhos. Depois se inclinou, apoiando-se no braço, e verteu o frasco sobre o pescoço, derramando o líquido sobre a ferida, as calças, a mesa. O sangue se soltou em filamentos. Ele fechou os olhos e gritou uma vez, e depois outra, sem balançar o frasco.

— Jimmy, o que posso...

— Daqui a pouco — murmurou Jimmy. — Espere. Acho que está melhorando. Espere.

Ele atirou o frasco no chão, estilhaçando-o. A ferida, agora limpa, estava nitidamente visível. Não era um, mas dois furos próximos da jugular, um deles horrivelmente lacerado.

Jimmy tirou uma ampola e uma seringa da maleta. Removeu a capa protetora da agulha e a enfiou na ampola. Suas mãos tremiam tanto que ele teve de tentar duas vezes. Ele encheu a seringa e a entregou para Ben.

— É antitetânica — disse ele. — Aplique em mim. Aqui. — Ele levantou o braço de modo a expor a axila.

— Jimmy, isso vai te derrubar.

— Não, não vai. Aplique.

Ben pegou a seringa e olhou interrogativamente para Jimmy. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, e Ben injetou o líquido.

O corpo de Jimmy retesou-se como aço flexível. Por um momento, ele se tornou a imagem da agonia, cada tendão de seu corpo destacando-se sob a pele. Aos poucos, começou a relaxar. Seu corpo estremeceu, e Ben viu que as lágrimas haviam se misturado ao suor em seu rosto.

— Ponha a cruz em cima de mim — disse ele. — Se eu ainda estiver contaminado, a cruz... fará algo comigo.

— Será?

— Tenho certeza. Quando você estava lutando com ela, eu olhei para cima e quis atacar você. Deus me perdoe, mas eu quis. Olhei para a cruz e... meu estômago virou.

Ben colocou a cruz no pescoço dele. Nada aconteceu. Seu brilho — se é que houvera mesmo um brilho — sumira totalmente. Ben removeu a cruz.

— Certo — disse Jimmy. — Acho que é tudo que podemos fazer. — Remexeu na maleta de novo, encontrou um envelope contendo dois comprimidos e os meteu na boca. — Tranquilizantes — disse ele. — Santa invenção. Ainda bem que fui ao banheiro antes... antes de acontecer. Acho que mijei na calça, mas saiu só umas gotas. Você consegue fazer um curativo no meu pescoço?

— Acho que sim — disse Ben.

Jimmy lhe deu gaze, esparadrapo e tesouras cirúrgicas. Ao se inclinar para fazer o curativo, Ben viu que a pele ao redor das feridas ganhara um horrível tom de vermelho. Jimmy se contraiu quando ele apertou delicadamente o curativo no lugar.

— Por alguns minutos — disse ele —, achei que ia ficar louco. Clinicamente louco. Os lábios dela no meu pescoço, me mordendo... — Sua garganta se moveu quando ele engoliu. — E, enquanto ela fazia isso, eu gostava. Isso é o pior, Ben. Cheguei a ter uma ereção. Dá para acreditar? Se você não a tivesse puxado de cima de mim, eu teria... teria deixado que...

— Deixe para lá — disse Ben.

— Preciso fazer mais uma coisa desagradável.

— O quê?

— Olhe para mim um pouco.

Ben terminou o curativo e se afastou um pouco para olhar para Jimmy.

— O que...

Sem mais nem menos, Jimmy lhe deu um murro. Estrelas dançaram em seu cérebro, e ele recuou três passos e sentou pesadamente no chão. Balançou a cabeça e viu Jimmy descendo cuidadosamente da mesa e andando em sua direção. Procurou freneticamente a cruz, pensando: Que jeito idiota de morrer, seu imbecil, seu imbecil...

— Você está bem? — Jimmy lhe perguntou. — Desculpe, mas é um pouco melhor quando é de surpresa.

— Mas que droga...

Jimmy sentou-se ao lado dele no chão.

— Ouça a história que vamos contar — disse ele. — É bem esfarrapada, mas acho que Maury Green a confirmará. Vai salvar minha carreira e impedir que nós dois acabemos na cadeia ou no hospício. E, no momento, não estou preocupado com isso, e sim em ficar livre para poder combater essas coisas, seja lá o que forem. Entendeu?

— A ideia geral, sim — disse Ben. Levou a mão ao maxilar e contraiu o rosto. Sentiu uma saliência no queixo.

— Alguém invadiu a sala enquanto eu examinava a Sra. Glick — disse Jimmy. — O cara nocauteou você e me usou como saco de pancadas. Durante a luta, ele me mordeu para eu soltá-lo. É tudo que conseguimos lembrar. Tudo. Entendeu?

Ben fez que sim.

— Ele usava um casaco de oficial escuro, talvez azul ou preto, e um boné de malha verde ou cinza. É tudo que você viu. Está bem?

— Já pensou em trocar a medicina pela carreira de escritor?

Jimmy sorriu.

— Só sou criativo em momentos de extremo interesse próprio. Você vai se lembrar da história?

— Claro. E não a acho tão esfarrapada assim. Afinal, o corpo dela não foi o primeiro a desaparecer ultimamente.

— Espero que levem isso em conta. Mas o delegado municipal é bem mais esperto do que Parkins Gillespie. Temos que tomar cuidado. Não enfeite a história.

— Você acha que alguma autoridade começará a entender o que está se passando?

Jimmy balançou a cabeça.

— Não existe a menor chance. Teremos que nos virar sozinhos. E lembre-se que, daqui em diante, somos criminosos.

Em seguida, ele pegou o telefone e ligou para Maury Green e depois para o delegado municipal, Homer McCaslin.

 

12

 

Ben voltou para a pensão por volta da meia-noite e quinze e preparou um café na cozinha deserta. Bebeu-o lentamente, relembrando os acontecimentos da noite com a intensa emoção de um homem que por pouco não caíra de um precipício.

O delegado municipal era um homem alto e parcialmente calvo que mascava tabaco. Movia-se lentamente, mas seus olhos eram vivos e observadores. Tirara do bolso da calça uma enorme e surrada caderneta presa por uma corrente e uma antiga caneta-tinteiro do colete de lã verde. Interrogara Ben e Jimmy enquanto dois policiais recolhiam digitais e tiravam fotos. Maury Green assistiu a tudo em silêncio, lançando um olhar confuso para Jimmy de vez em quando.

Por que haviam ido à Funerária Green?

Jimmy se encarregou da resposta, falando da suspeita de encefalite.

O velho doutor Reardon sabia disso?

Não, Jimmy achou melhor fazer uma investigação discreta antes de comunicar suas suspeitas. O doutor Reardon às vezes falava demais.

E a mulher tinha essa tal de encefalite?

Era quase certo que não. Ele já havia terminado o exame quando o homem de casaco de oficial apareceu. Não era capaz de dizer do que a mulher morrera, mas com certeza não fora de encefalite.

Eles podiam descrever o sujeito?

Deram a resposta que tinham combinado. Ben acrescentou que o homem usava botas marrons para que não parecesse muito ensaiado.

McCaslin fez mais algumas perguntas, e quando Ben começava a achar que haviam se safado, o delegado se virou para ele e perguntou:

— E o que estava fazendo aqui, Mears? Você não é médico.

Ele o olhou atentamente. Jimmy abriu a boca para responder, mas o delegado o silenciou com um gesto de mão.

Se McCaslin quisera pegar Ben de surpresa e arrancar uma expressão de culpa, seu objetivo fracassou. Ben estava abalado demais para reagir. Ser pego em contradição não era tão terrível assim comparado a tudo que acontecera.

— Sou escritor, não médico. No momento, estou escrevendo um romance em que um dos personagens é filho de um agente funerário. Eu só queria dar uma olhada na sala, e Jimmy me deu uma carona. Ele me disse que preferia não revelar por que tinha vindo, e não lhe perguntei. — Esfregou o queixo, onde um calombo nascera. — Consegui mais do que esperava.

McCaslin não pareceu nem contente nem descontente com a resposta de Ben.

— Parece que sim. Foi você que escreveu Conway’s Daughter, não foi?

— Foi.

— Minha mulher leu parte da história numa revista feminina. Na Cosmopolitan, eu acho. Achou muito divertida. Dei uma olhada e não vi nada engraçado numa menina viciada em drogas.

— Não — disse Ben, olhando McCaslin nos olhos. — Também não vi nada engraçado nisso.

— Esse novo livro é o que dizem que você está escrevendo em Lot?

— Esse mesmo.

— Por que não dá para Moe Green ler? — perguntou McCaslin. — Ele pode lhe dizer se a parte funerária está certa.

— Ainda não escrevi essa parte — disse Ben. — Sempre pesquiso antes de escrever. Fica mais fácil.

McCaslin sacudiu a cabeça, intrigado.

— Sabe, essa história está me parecendo aqueles livros com o Fu Manchu. Um sujeito invade o necrotério, domina dois homens fortes e foge com o corpo de uma pobre mulher que morreu de causas desconhecidas.

— Ouça, Homer... — começou Jimmy.

— Não me chame de Homer — disse McCaslin. — Não gosto. E não estou gostando de nada disso. Essa tal de encefalite é contagiosa, não é?

— Sim, é transmissível — Jimmy respondeu com cautela.

— E assim mesmo trouxe esse escritor junto? Sabendo que a mulher podia estar com uma doença assim?

Jimmy encolheu os ombros, irritado.

— Não questiono suas decisões profissionais, delegado. Terá de aceitar as minhas. A encefalite é uma infecção menor, que se espalha lentamente pela corrente sanguínea humana. Achei que nenhum de nós correria perigo. Agora, não seria melhor tentar descobrir quem levou o corpo da Sra. Glick? Ou acha mais divertido nos interrogar?

McCaslin extraiu um profundo suspiro de sua considerável barriga, fechou a caderneta e voltou a guardá-la nas profundezas do bolso.

— Vamos dar o alerta, Jimmy. Duvido que façamos algum avanço a não ser que esse maluco resolva agir de novo. Se é que esse maluco existe, o que eu duvido.

Jimmy ergueu as sobrancelhas.

— Vocês estão mentindo para mim — McCaslin disse pacientemente. — Eu sei, esses policiais sabem, até o velho Moe deve saber. Não sei se estão mentindo muito ou um pouco, mas sei que não poderei provar que estão mentindo enquanto não caírem em contradição. Poderia levar os dois para o xadrez, mas sou obrigado a deixar que façam um telefonema, e até um recém-formado em direito poderia libertá-los, já que não tenho prova nenhuma, só suspeitas. E aposto que seu advogado não é um recém-formado, certo?

— Não, não é — disse Jimmy.

— Eu os levaria assim mesmo só pela amolação, mas tenho a sensação de que estão mentindo não porque fizeram alguma coisa ilegal. — Ele pisou no pedal da lixeira de aço inoxidável ao lado da mesa funerária. A tampa subiu com estrondo, e ele cuspiu uma massa marrom de tabaco no interior da lixeira. Maury Green deu um salto. — Não é melhor me contarem essa história direito? — ele perguntou calmamente, sem o sotaque caipira e nasalado de antes. — A coisa é séria. Aconteceram quatro mortes em Lot, e os quatro corpos sumiram. Quero saber o que está acontecendo.

— Já lhe dissemos tudo que sabíamos — disse Jimmy com firmeza, olhando diretamente para McCaslin. — Diríamos mais se pudéssemos.

McCaslin retribuiu o olhar penetrante.

— Você está cagando de medo — disse ele. — Você e esse escritor, os dois. Estão parecendo aqueles soldados quando voltaram da guerra da Coreia.

Os policiais olhavam para eles. Ben e Jimmy não disseram nada.

McCaslin suspirou de novo.

— Vão, sumam daqui. Quero os dois na minha sala amanhã às dez horas, para prestar depoimento. Se não estiverem lá às dez, mando um carro-patrulha buscar vocês.

— Não será preciso — disse Ben.

McCaslin o olhou com decepção e sacudiu a cabeça.

— Você devia escrever livros mais sensatos. Como aquele sujeito que escreve as histórias com Travis McGee. Nelas a gente sente firmeza.

13

 

Ben levantou da mesa e lavou a xícara de café na pia, parando para olhar a escuridão da noite pela janela. Quem vagaria pelas ruas àquela hora? Marjorie Glick, enfim ao lado do filho? Mike Ryerson? Floyd Tibbits? Carl Foreman?

Deu as costas para a janela e subiu as escadas.

Ele dormiu o resto da noite com o abajur aceso e a cruz feita com depressores de língua na cabeceira da cama. Seu último pensamento antes de adormecer foi se perguntar se Susan estaria sã e salva.