Sete Anos no Tibet

Heinrich Harrer · Capítulo 6 de 8 · parte 3/4

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Sete Anos no Tibet

7 a Cidade Proibida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

E por isso que todos os tibetanos cheiram rapé. Os leigos e os monges

usam os seus próprios preparados de rapé, que consideram estimulante. Toda a gente se orgulha de ter a sua própria mistura e quando dois tibetanos se encontram, a primeira coisa que fazem é sacar das suas caixinhas e trocar uma pitada. As caixas de rapé também são motivo de orgulho. Existem em todos os materiais, desde jade a chifre de iaque. O consumidor inveterado de rapé espalha a sua dose no polegar, e depois de a inalar sopra uma nuvem de pó pela boca sem sequer sonhar espirrar. Se alguém espirrava assustadoramente, era sempre eu, que invariavelmente provocava o riso da audiência.

Também há nepaleses em Lassa, ricamente vestidos e bem constituídos fisicamente. Vê-se, mesmo à distância, que são prósperos. Graças a um velho tratado, estão isentos de impostos e dispõem dos meios para explorar esta situação favorável da melhor forma. Os melhores negócios da rua Barkhor pertencem-lhes. São peritos em comércio, com um sexto sentido para um bom negócio. A maioria deixa as famílias em casa e de tempos a tempos regressam, ao contrário dos chineses, que são propensos a casar com mulheres tibetanas dando maridos exemplares. Nas festividades oficiais, os representantes do Nepal suplantam mesmo os coloridos tibetanos com a exuberância do seu vestuário, e as túnicas vermelhas dos Gurkhas, que formam a sua escolta, são conspícuas à distância. Estes Gurkhas adquiriram uma certa reputação em Lassa. Só eles se arriscam a desobedecer à proibição da pesca. Quando o governo tem conhecimento de tais violações da lei, manda solenes protestos para a Legação do Nepal. Isto dá azo a uma pequena comédia. Naturalmente que os infractores devem ser punidos, uma vez que a Legação preza muito as boas relações com o governo tibetano. Mas na realidade geralmente estão envolvidas pessoas importantes e não os meros soldados - aliás, muitos tibetanos da classe alta apreciam um prato de peixe sempre que o podem obter. Os pobres culpados recebem um terrível sermão e são sentenciados a chicotadas, mas o açoitamento é infligido de maneira a não os magoar.

Ninguém se atreveria a pescar em Lassa. Em todo o Tibete só há um lugar

onde é permitido pescar, num ponto em que o rio Tsangpo atravessa um deserto de areia. Aqui não há plantações nem pastos para os animais: de facto nao existe nada para comer senão peixe, e por isso a lei foi atenuada. O povo desta região é menosprezado, como os ferreiros e os carniceiros. Em termos numéricos, os muçulmanos representam uma parte considerável da população de Lassa. Têm uma mesquita própria e gozam de total liberdade para praticar a sua religião. (Uma das melhores características do povo tibetano é a sua total tolerância para com outros credos. A sua teocracia monástica nunca tentou a conversão de infiéis.) A maioria dos muçulmanos imigrou da índia e misturou-se com os tibetanos. O seu zelo religioso levou—os inicialmente a exigir que as suas mulheres se convertessem à sua religião, mas o governo tibetano interveio e impôs a condição de que as mulheres nativas só podem casar com muçulmanos se mantiverem a sua própria fé.

Durante o festival é possível apontar exemplos de todos os grupos étnicos.

Vêem-se ladhakis, butaneses, mongóis, sikkimeses, kazaks e representantes de todas as tribos vizinhas, entre as quais se encontram os hui-huis — chineses muçulmanos da província de Kuku-Nor. Esta gente é proprietária dos matadouros situados num quarteirão especial nos arredores do Lingkhor. Os budistas olham para eles de soslaio porque matam animais, mas permitem-lhes ter o seu próprio santuário.

No fim do festival os nobres e os notáveis caminham de regresso à cidade

formando uma resplandecente procissão. O povo assiste na berma da estrada e admira o esplendor dos seus semideuses. E o seu quinhão de excitação e drama e durante muito tempo reterão na memória estas estupendas cerimónias durante as quais o Rei Divino apareceu em pessoa. O trabalho do dia-a-dia recomeça. As lojas abrem e comercia-se com o mesmo entusiasmo de sempre. Os jogadores de dados aparecem nas esquinas das ruas e os cães, que durante o jejum do Lenten migraram para os arredores do Lingkhor, regressam à cidade. A nossa vida continuava pacificamente. O Verão aproximava-se. A minha ciática melhorou e nada foi dito sobre a nossa expulsão. Eu recebia regularmente tratamento do médico inglês, mas nos dias bons podia trabalhar no jardim. E tinha muito que fazer, pois quando se soube que eu era responsável pelo chafariz e vários outros arranjos no jardim de Tsarong, muitos outros notáveis pediram —me que fizesse o mesmo para eles.

Aufschnaiter estava muito ocupado a construir o seu canal desde manhã

cedo até à noite, só parando nos dias de festa. Era muito bom ele ter sido contratado pelos monges, pois embora os nobres tenham um papel importante na administração do país, quem tem a última palavra em tudo é um pequeno grupo de monges. Por esta razão a minha satisfação foi enorme quando um dia fui convocado para o jardim dos Tsedrungs.

Os monges desta congregação são funcionários que formam uma espécie

de ordem monástica. Educados para serem estritamente leais à sua própria comunidade, tor-naram-se mais poderosos do que os funcionários seculares. São eles que formam a comitiva mais próxima do Dalai Lama, e todos os criados pessoais do jovem deus pertencem a esta ordem. Os seus camareiros, o seu tutor e os seus guardas pessoais são todos monges Tsedrung de alto nível. Para além disso, o Dalai Lama assiste às obrigatórias reuniões diárias para discutir os problemas da sua comunidade.

Os elementos desta ordem são, sem excepção, rigorosamente treinados. A

sua escola está situada na ala leste do palácio Potala e os seus professores são, por tradição, oriundos do famoso claustro de Mõndroling, especializado em caligrafia tibetana e gramática. Qualquer um pode entrar para a escola, mas ser adoptado pela ordem é muito difícil. Uma regra com vários séculos de existência prevê que o número de membros da ordem Tsedrung não deverá exceder os 175.

Quando um estudante chega ao décimo oitavo ano e passa nos exames,

poderá entrar na ordem se tiver um poderoso apadrinhamento. Começando por baixo, e se for suficientemente capaz, poderá alcançar a terceira classe na ordem. Os monges Tsedrung usam os tradicionais hábitos vermelhos e ainda vestimentas que distinguem o seu escalão. A maioria dos estudantes na escola de Tsedrung são oriundos da população e constituem um útil contrapeso à influência dos nobres hereditários. Têm um vasto campo de actividade pois qualquer departamento governamental tem pelo menos um funcionário monástico para cada leigo. Este sistema de controlo duplo é considerado uma segurança contra o exercício de poder ditatorial, que é um dos maiores perigos do feudalismo.

Foi o camareiro-mor que mandou chamar-me. Propôs que eu

reorganizasse o jardim dos Tsedrungs. Era uma grande oportunidade para mim. Disseram-me que também seriam feitos melhoramentos no jardim do Dalai Lama; e se o meu trabalho fosse satisfatório, recorreriam de novo a mim. Meti mãos à obra imediatamente com a maior dedicação. Colocaram alguns homens às minhas ordens e em pouco tempo tínhamos os trabalhos em andamento. Agora não tinha tempo para as lições particulares de Inglês e Matemática que vinha dando a alguns jovens nobres.

Inesperadamente, quando eu começava a sentir-me seguro da nossa

posição, dada a poderosa protecção de que agora usufruíamos, tive um choque assustador. Certa manhã recebemos a visita do Sr. Kyibub, um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros e o último dos quatro tibetanos que tinham recebido educação em Rugby há muitos anos atrás. Estava visivelmente incomodado com a sua missão. Depois de muitas desculpas e manifestações de pesar, disse-nos que o médico inglês tinha agora certificado que eu estava apto para viajar e o Governo esperava que partíssemos imediatamente. Para confirmar, mostrou-nos o certificado que declarava que embora eu não estivesse completamente curado, poderia viajar sem pôr a minha vida em perigo.

Para Aufschnaiter e para mim era um estonteante e inesperado golpe.

Recompusemo-nos e tentámos, calma e educadamente, expor o nosso lado da questão. Explicámos que a minha doença poderia reaparecer a qualquer momento. O que faria eu se, no meio de uma dura viagem, descobrisse que não podia dar mais um passo? Além disso, a estação quente na índia começara e quem vivia há tanto tempo no saudável ar de montanha do Tibete não suportaria a transição sem prejudicar a saúde. E o que ia acontecer às tarefas de que tínhamos sido encarregados pelas mais altas autoridades e que nos tínhamos comprometido a terminar? Prometemos submeter uma nova petição ao Governo.

Desse dia em diante nunca mais ouvimos uma palavra sobre a ordem de

expulsão, embora durante algum tempo tivéssemos vivido numa expectativa constante.

Entretanto tínhamo-nos ambientado em Lassa e as pessoas tinham-se

acostumado a nós. Já não recebíamos visitas de pessoas curiosas — só de amigos. A Legação Britânica parecia convencida de que não éramos perigosos, pois embora Deli tivesse pedido a nossa rendição, a questão fora protelada. As autoridades tibetanas asseguraram—nos de que não éramos considerados indesejáveis. Agora ganhávamos tão bem que já não dependíamos da hospitalidade de Tsarong. No decorrer do nosso trabalho fazíamos muitos amigos e o tempo passava rapidamente. A única coisa por que ainda ansiávamos eram notícias de casa. Já não tínhamos notícias há dois anos. Mesmo assim confortávamo-nos com o pensamento de que a nossa vida era agora muito tolerável e de que tínhamos muitas razões para satisfação. Tínhamos um bom telhado sobre as nossas cabeças e já não precisávamos de lutar para existir. Não sentíamos falta das comodidades do Ocidente e a Europa, com a sua vida conturbada, parecia muito distante. Frequentemente sentávamo-nos a ouvir na rádio relatos do nosso país e sacudíamos a cabeça com as deprimentes notícias. Não parecia haver qualquer razão para ir para casa.

 

10 A VIDA EM LASSA

O filho mais novo da Grande Mãe — A procissão a Norbulingka — A religião tibetana — A seca e o oráculo de Gadong — O dia-a-dia — Médicos, curandeiros e adivinhos.

Todas as minhas experiências anteriores foram eclipsadas pela primeira

festa oficial a que assisti na casa dos pais do Dalai Lama. Estava ali por mero acaso. Estava a plantar canteiros novos no jardim quando a Grande Mãe mandou chamar-me e disse-me para terminar o trabalho por esse dia e juntar-me aos seus convidados. Foi com algum embaraço que me juntei ao resplandecente grupo no salão de entrada. Alguns trinta nobres estavam aí reunidos, todos trajando os seus melhores robes e a cena era de digno esplendor. A recepção era para celebrar o nascimento do filho mais novo da nossa anfitriã, nascido três dias antes. Hesitante, gaguejei os meus parabéns e ofereci uma écharpe branca que tinha conseguido pedir emprestada. A Grande Mãe sorriu graciosamente. Era maravilhoso observá-la a andar despreocupada pela sala e a entreter os seus convidados. As mulheres aqui recuperam do parto com uma velocidade miraculosa, e são muito discretas em relação ao facto de dar à luz. Não chamam médicos e as mulheres ajudam-se mutuamente. Todas elas se orgulham de ter muitos filhos saudáveis. A mãe cuida da sua própria criança e por vezes continua a amamentá-la durante três ou quatro anos.

Quando uma criança nasce numa família nobre, recebe imediatamente

uma ama especial, que nunca a deve deixar de dia ou de noite. Ao nascimento da criança seguem-se grandes celebrações, mas não existe nada semelhante à nossa cerimónia de baptismo e não há padrinhos. Antes de dar um nome à criança (ou melhor, nomes, pois toda a criança tem vários), os pais consultam um Lama, que decide como a criança deverá chamar-se depois de estudar os aspectos astrológicos do caso. Se a criança vier posteriormente a sofrer de uma doença grave, é habitual dar-lhe novos nomes. Um dos meus amigos adultos mudou de nome uma vez depois de um ataque de disenteria, para minha perpétua confusão.

Durante a celebração do nascimento do irmão mais novo do Dalai Lama

foi-nos oferecido um banquete Lucul-lan, durante o qual nos sentámos em almofadas à frente de pequenas mesas, na devida ordem de precedência. Por duas horas consecutivas os criados serviram prato após prato — eu contei quarenta, mas isso não foi tudo. Comer durante um jantar destes requer um treino especial. Será escusado mencionar todas as iguarias que nos ofereceram, mas lem-bro-me de que incluíam toda a espécie de pratos indianos picantes e terminavam com uma sopa de macarronete miúdo. Para beber tínhamos, entre outras coisas, cerveja, uísque e vinho do Porto. Quando o repasto terminou, muitos dos convidados estavam ébrios, mas isso não é nenhuma desgraça no Tibete; contribui para a alegria geral.

A festa acabou pouco depois do banquete. Lá fora, cavalos e criados

providenciados pelo anfitrião aguardavam os convidados para os levarem a casa. Convites para outras festas eram feitos indiscriminadamente e era preciso ter um ouvido perspicaz para distinguir os que eram autênticos daqueles que eram apenas uma forma de educação.

Aufschnaiter e eu éramos frequentemente convidados para esta casa e em

breve eu tinha consolidado uma amizade cordial com Lobsang Samten. Este cativante jovem estava precisamente a iniciar a sua carreira como monge. Como irmão do Dalai Lama, tinha perspectivas brilhantes. Um dia viria a desempenhar um importante papel como mediador entre o seu irmão e o governo. Mas o fardo de uma posição de tanta responsabilidade já começava a pesar-lhe. Não podia escolher livremente as suas amizades e o que quer que fizesse ou onde quer que fosse suscitava toda a espécie de interferências. Quando visitava um alto funcionário em alguma ocasião oficial, a sua entrada na sala provocava um silêncio de admiração e toda a gente, mesmo os Ministros do Gabinete, se levantava em sinal de respeito pelo irmão do Rei Divino. Tudo isto poderia facilmente ter subido à cabeça de um jovem, mas Lobsang Samten nunca perdeu a modéstia do seu comportamento.

Muitas vezes falava comigo sobre o seu irmão, que levava uma vida

solitária no Palácio Potala. Eu já tinha reparado que todos os convidados nas festas se escondiam quando a figura do Dalai Lama aparecia a passear pelo telhado plano do Palácio. Lobsang deu-me uma explicação comovente para isto. O jovem Deus possuía vários telescópios potentes e binóculos e divertia-o observar a vida e os afazeres dos seus súbditos na cidade. Para ele, o Potala era uma prisão dourada. Passava muitas horas nos salões escuros do Palácio a rezar e a estudar. Tinha pouco tempo livre e poucos prazeres. Quando os convidados de uma festa se sentiam observados, desapareciam o mais rapidamente do campo de visão. Não queriam entristecer o coração do jovem soberano, que nunca poderia ter a esperança de apreciar tais distracções!

Lobsang Samten era o seu único amigo e confidente e tinha acesso a ele a

qualquer hora. Servia de elo entre o irmão e o mundo exterior e tinha que contar-lhe tudo o que estava a acontecer. Através de Lobsang fiquei a saber que ele se interessava muito pelas nossas actividades e que frequentemente me observava através do telescópio enquanto eu trabalhava no jardim. Também me disse que o seu irmão estava ansioso por se mudar para a sua residência de Verão em Norbulingka. O bom tempo já tinha chegado e ele sentia-se atrofiado no Potala e ansiava por poder praticar exercícios ao ar livre.

Agora a época das tempestades de areia tinha terminado e os pessegueiros

estavam em flor. Nos picos de montanha mais próximos os últimos vestígios de neve brilhavam intensamente à luz do sol quente, com aquele charme peculiar da Primavera que eu recordava do cenário montanhoso da nossa terra natal. Um dia declararam oficialmente a temporada de Verão e já se podia usar roupas de veraneio. Não se podia largar os agasalhos quando se queria. Todos os anos, depois de analisar os presságios, era fixado um dia para os nobres e os monges vestirem as suas roupas de Verão. O tempo até podia já estar muito quente, ou ainda se podia esperar neve e tempestades. Isso não interessava. As roupas de Verão só podiam ser usadas a partir dessa data. A mesma coisa acontece no Outono, quando a roupa de Inverno é oficialmente reposta. Eu estava sempre a ouvir queixas de que a mudança tinha chegado muito cedo ou muito tarde e de que as pessoas estavam a sufocar ou semicongeladas.

A troca de vestuário é acompanhada por uma cerimónia que dura horas.

Os criados trazem as novas roupas atadas em fardos que carregam às costas. Para os monges a transição é mais fácil. Simplesmente trocam os seus chapéus debruados com pele por toucados rasos empapier—maché. A aparência da cidade altera-se quando subitamente toda a gente aparece com o novo vestuário.

Existe, contudo, uma outra ocasião para uma troca de roupa, quando toda

a comunidade oficial acompanha o Dalai Lama numa espectacular procissão até ao Jardim de Verão. Aufschnaiter e eu ansiávamos por essa ocasião. Achávamos que talvez conseguíssemos ver de perto o Buda Vivo.

Era um glorioso dia de Verão e a cidade inteira deslocava-se através do

portão ocidental, ao longo do trecho de três quilómetros que separa os palácios Potala e Norbu-lingka. Não era fácil arranjar espaço para caminhar sem ser atropelado.

Eu lamentava não ter uma câmara para fotografar a multidão multicolor.

Claro que só um filme a cores lhe faria justiça. Era um dia de regozijo para toda a gente, o dia de abertura do Verão, e eu estava contente pelo rapaz que ia trocar a sua soturna prisão por um adorável jardim de Verão. Ele já tinha muito pouca luz do sol na sua vida.

Apesar de externamente ser esplêndido e imponente, o Palácio Potala é terrivelmente escuro e desconfortável como lugar para viver. É provável que todos os Reis Divinos ficassem contentes por sair de lá quanto antes, pois a residência do Jardim de Verão de Norbulingka tinha sido planeada no tempo do reinado do sétimo Dalai Lama, mas apenas fora terminada durante o décimo terceiro reinado.

Este monarca era um grande reformador e ao mesmo tempo um homem

de ideias modernas. Na verdade importou três automóveis para o seu próprio uso, tendo sido desmontados na fronteira e transportados por carregadores e iaques através das montanhas, até à capital onde um mecânico treinado na índia os montou novamente. Este homem foi então nomeado motorista de Sua Majestade e frequentemente falava-me com tristeza dos seus três carros que agora estavam imobilizados num barracão. Eram dois Austin e um Dodge. Durante um breve período tinham sido a sensação no Tibete, e agora estavam de luto pelo seu falecido senhor e enferrujavam num honroso declínio. A história de como o décimo terceiro Dalai Lama usava os seus automóveis para escapar da sua prisão de Inverno ainda provoca risos. No Outono, ele costumava regressar ao Potala com toda a pompa e circunstância, mas assim que a multidão dispersava entrava num dos seus carros e regressava para Norbulingka.

Ouvimos o toque de trombetas. A procissão aproximava-se. Os

murmúrios da multidão calaram-se e reinava um silêncio reverente, pois a cabeça da coluna estava à vista. Uma comitiva de monges-criados formava a vanguarda. Traziam consigo os objectos pessoais e roupas do Rei Divino embrulhados em trouxas, cada trouxa envolta num pano de seda amarela. O amarelo é a cor da Igreja La-maística reformada, que também é conhecida como Igreja Amarela. Uma antiga lenda conta o motivo da escolha desta cor.

Tsong Kapa, o grande reformador do Budismo no Tibete, era o último de

uma fila de noviços no dia da sua entrada para o mosteiro de Sakya. Quando chegou a sua vez de receber a indumentária tinham-se esgotado os chapéus vermelhos. Para que ele não ficasse com a cabeça descoberta, alguém agarrou no primeiro chapéu que lhe veio à mão e pô-lo na sua cabeça. Calhou ser um chapéu amarelo. Tsong Kapa nunca desistiu de o usar e assim o amarelo veio a ser adoptado como a cor da Igreja Reformista. O Dalai Lama costumava usar sempre uma capa amarela em recepções e cerimónias, e todos os objectos que usava eram desta cor. O uso do amarelo era um privilégio exclusivamente seu.

Pouco depois vimos os pássaros favoritos do Rei Divino a serem

transportados nas suas gaiolas. De vez em quando um papagaio pronunciava uma palavra tibetana de boas-vindas, que a fiel multidão recebia com suspiros de êxtase, como se fosse uma mensagem pessoal do seu Deus. A uma certa distância dos servos vinham os monges com flâmulas decoradas com escrituras. A seguir veio uma banda de músicos a cavalo trajados de uma forma colorida e antiquada e a tocarem instrumentos obsoletos, com os quais produziam sons curiosamente lamurientos. Atrás deles vinha um exército de monges da ordem de Tsedrung, também a cavalo e ordenados hierarquicamente, seguidos por moços de estrebaria que conduziam pelas rédeas os cavalos favoritos do Dalai Lama, esplendidamente aparelhados com os seus arreios amarelos e os seus estribos e freios em ouro puro.

Vinha também um grupo de altos dignatários e membros seniores do

pessoal doméstico do Rei Divino, estes últimos todos monges com a categoria de abade. À excepção dos seus pais, irmãos e irmãs, estas são as únicas pessoas que têm o direito de dirigir a palavra ao Dalai Lama. A seu lado marchavam as imponentes figuras do corpo da guarda — indivíduos enormes escolhidos pela sua força e tamanho. Disseram-me que nenhum media menos de dois metros de altura e um deles media dois metros e quarenta centímetros. Os seus ombros almofadados fazem—nos parecer ainda mais formidáveis e trazem nas mãos longos chicotes. O único som que se ouvia provinha deles pois com a sua voz profundamente grave avisavam a multidão para se afastar e tirar os chapéus. Isto era obviamente parte do cerimonial pois as pessoas já estavam em absoluto silêncio, de cabeça baixa e com as mãos juntas na berma da estrada.

Depois surgiu o comandante geral do exército, segurando a espada em

continência. Comparado com as sedas e os brocados dos outros dignatários, o seu uniforme de caqui parecia extremamente modesto. No entanto, como podia escolher os adornos, as insígnias do seu posto e as suas dragonas eram de ouro puro. Na cabeça usava um capacete para o proteger do sol.

E agora aproximava-se o palanquim amarelo e forrado a seda do Buda

Vivo, reluzindo como ouro à luz do sol. Os carregadores eram homens de um metro e noventa que usavam capotes de seda verde e chapéus rasos vermelhos. Um monge segurava sobre o palanquim um enorme e iridescente guarda-sol feito com penas de pavão. A cena toda era um banquete para os olhos — uma imagem reconstituída de um conto de fadas do Oriente há muito esquecido.

A nossa volta todas as cabeças estavam inclinadas numa profunda vénia e

ninguém se atrevia a levantar o olhar. Aufschnaiter e eu devemos ter chamado a atenção com as nossas cabeças apenas ligeiramente inclinadas. Tínhamos absolutamente que ver o Dalai Lama! E lá estava ele — sorridente, a cumprimentar-nos com um aceno de cabeça por detrás da vidraça da sua cadeirinha. Os seus traços finos eram cheios de charme e dignidade, mas o seu sorriso era o de um rapaz, e adivinhámos que também ele estava curioso por nos ver.

O auge da procissão já tinha passado. Agora vinham as autoridades

seculares. Os quatro ministros do Gabinete montavam esplêndidos cavalos de ambos os lados do Soberano. Atrás deles vinha um outro magnífico palanquim, transportado por menos carregadores, no qual estava sentado o Regente, Tagtra Gyeltsap Rinpoche, conhecido como «A Rocha do Tigre», um idoso cavalheiro de setenta e três anos. Olhava severamente para a frente e não sorria para cumprimentar ninguém. Parecia não ver o povo. Severo e rígido no cumprimento dos seus deveres, tem tantos amigos como inimigos. Atrás dele vinham a cavalo os representantes dos Três Pilares do Estado, os abades de Será, Drebung e Ganden. Seguiram-se os nobres na devida ordem hierárquica, cada grupo trajando o vestuário apropriado ao seu estatuto. As ordens juniores usavam barretes absurdamente pequenos que só lhes cobriam o cocuruto da cabeça e estavam atados por baixo do queixo com uma fita.

Absorto na contemplação do espectáculo, subitamente ouvi o som de uma

música familiar. Sim — não havia dúvida, era o hino nacional britânico! A banda do corpo da guarda tinha tomado o seu lugar a meio do trajecto, e a Cadeira Real já deveria ter chegado. Assim, para honrar o seu Deus, tocaram God Save the Queen. Já ouvi boas interpretações, mas jamais alguma me causou tanto espanto. Mais tarde fiquei a saber que o maestro da banda tinha sido treinado no exército indiano. Tinha percebido que esta melodia tinha um papel importante em todas as cerimónias e por isso trouxera a música consigo. Foi adaptada para o tibetano, mas nunca a ouvi ser cantada. A banda de metais terminou o hino razoavelmente, com excepção de algumas notas desafinadas dos clarins devido ao ar rarefeito, e então gaiteiros da banda da polícia tocaram uma selecção de melodias escocesas.

A música tibetana desconhece harmonias, mas as suas melodias são

agradáveis ao ouvido. A mesma música passa facilmente de melancólica para alegre, e as mudanças de ritmo são frequentes.

A procissão desapareceu atrás dos portões do Palácio de Verão e a

multidão dispersou, na sua maioria para passar o resto do dia ao ar livre. Os nómadas, a suarem dentro dos seus capotes de pele de carneiro, desmontam as suas tendas e partem rumo aos seus abrigos nas terras altas do Changthang. Nenhum tibetano está disposto a ir em peregrinação à índia no Verão, e nenhum nómada vem de livre vontade para Lassa durante a época quente. A capital fica apenas a 3650 metros acima do nível do mar, e como a maioria dos nómadas vive a uma altitude de 4500 metros, acham o calor opressivo.

Regressámos profundamente impressionados por tudo o que tínhamos

visto. Não poderíamos ter testemunhado um melhor exemplo da distribuição da autoridade no Tibete do que naquela procissão que tinha passado à nossa frente — com o Dalai Lama e o Regente destacando-se, e as diferentes classes escalonadas em ordem descendente da frente para trás. O facto de os monges caminharem à frente era significativo do seu poder no Estado.

A religião é o coração da estrutura do Estado. Peregrinos das mais

remotas partes do Changthang sujeitam-se a infinitas provações para virem uma vez por ano e testemunhar esta brilhante manifestação da sua fé; e alimen-tam-se da memória durante as suas vidas duras e solitárias. O quotidiano dos tibetanos é regulado pela sua crença religiosa — há sempre palavras devotas nos seus lábios; os moinhos de oração giram sem parar; as bandeiras de oração flutuam nos telhados das casas e nos cumes das cordilheiras; a chuva, o vento, todos os fenómenos da natureza, os picos solitários das montanhas cobertas de neve são testemunhas da presença universal dos deuses cuja cólera se manifesta através das tempestades de granizo, e cuja benevolência é demonstrada pelos frutos e fertilidade da terra. A vida do povo é regulada pela vontade divina, cujos intérpretes são os Lamas. Antes de qualquer coisa ser feita, eles devem avaliar os prognósticos. Deve-se suplicar incessantemente aos deuses, aplacá-los ou agra-decer-lhes. Lamparinas de oração ardem em toda a parte, na casa do nobre e na tenda do nómada — é a mesma fé que as mantém acesas. A existência terrena tem pouco valor no Tibete e a morte é encarada sem terrores. Os homens sabem que vão nascer novamente e têm esperança numa forma mais elevada de existência na próxima vida, merecida por uma conduta piedosa na vida actual. A Igreja é a mais alta instância de apelo, e o mais simples dos monges é respeitado pelo povo e tratado pelo título de Kusho, como se fosse um membro da nobreza. Em todas as famílias, pelo menos um filho dedica-se ao claustro em sinal da reverência pela Igreja e para garantir à criança um bom começo na vida.

Em todos estes anos nunca conheci ninguém que tivesse as mínimas

dúvidas sobre a verdade dos ensinamentos de Buda. Existem, é verdade, muitas escolas, mas diferem apenas em questões externas. E impossível fecharmos o coração ao fervor religioso que erradia de toda a gente. Depois de algum tempo no país, já não era possível ma-tar-se uma mosca irreflectidamente, e na presença de um tibetano nunca esmaguei um insecto que me incomodasse. A atitude das pessoas nestas questões é comovente. Se durante um piquenique uma formiga trepa pela nossa roupa, é gentilmente retirada e posta no chão. É uma catástrofe quando uma mosca cai dentro de uma chávena de chá. Deve ser salva do afogamento a todo o custo pois pode ser a reencarnação da nossa falecida avó. No Inverno quebram o gelo dos lagos para salvar os peixes de morrerem congelados, e no Verão resgatam-nos antes dos lagos secarem, mantendo-os em baldes ou latas até poderem ser devolvidos à sua origem. Entretanto os salvadores fizeram algo de bom pelas suas próprias almas. Quanto mais vidas se puder salvar mais feliz se é.

Nunca mais esquecerei uma experiência que tive com o meu amigo

Wangdúla. Um dia fomos ao único restaurante chinês e observamos um ganso a correr pelo quintal, aparentemente a caminho da panela. Wangdtila rapidamente tirou do bolso uma nota de valor considerável e comprou o ganso ao dono do restaurante. Mandou então o seu criado levar o ganso para casa, e por muitos anos depois eu costumava ver a afortunada criatura a chapinhar no seu quintal.

Típica desta atitude para com todas as criaturas vivas era a escritura

emitida em todas as partes do país para as pessoas envolvidas em operações de construção — isto foi durante os três anos que o Dalai Lama passou em meditação. Esclarecia que minhocas e insectos poderiam morrer durante o trabalho de construção, e proibia a construção de edifícios em geral. Mais tarde, quando eu estava encarregado dos trabalhos de jardinagem, vi com os meus próprios olhos como os trabalhadores costumavam inspeccionar cada pazada de terra para retirarem qualquer coisa com vida.

Subjacente a este princípio está a ausência da pena capital no Tibete. O

assassínio é considerado o mais hediondo dos crimes, mas o assassino só é açoitado e agrilhoado nos tornozelos. E verdade que os açoitamentos são mais desumanos do que a pena de morte como ela é executada pelos ocidentais. A vítima sofre uma morte agonizante depois da pena lhe ter sido aplicada, mas o princípio religioso não foi infringido. Criminosos condenados a uma pena perpétua com grilhões são enviados para a prisão estatal de Shõ ou para um governador distrital que fica responsável pela sua custódia. O seu destino é seguramente preferível ao dos condenados nas prisões, que só podem sair da cela no dia de nascimento e morte de Buda, para pedir esmolas na rua Lingkhor acorrentados a outros prisioneiros.

O roubo e várias outras ofensas menores são punidos com açoitamentos

públicos. E pendurada uma tabuleta à volta do pescoço do prevaricador na qual está escrita a sua ofensa e ele tem que ficar por uns dias numa espécie de pelourinho. Mais uma vez, pessoas caridosas dão-lhe de comer e de beber. Quando salteadores da estrada ou ladrões são apanhados, geralmente são condenados a ter um pé ou uma mão decepados. Fiquei horrorizado ao ver como esterilizavam as feridas: o local da amputação é mergulhado em manteiga a ferver. Mas nem isso detém os malfeitores. Um governador contou-me que havia criminosos que estendiam as mãos num gesto de arrogância para serem punidos e que passadas umas semanas retomavam a sua actividade criminosa. Em Lassa, tais formas selvagens de punição foram agora banidas. As penalidades para ofensas políticas são muito severas. As pessoas ainda falam dos monges de Tengyeling que há quarenta anos atrás tentaram aliar-se aos chineses. O seu mosteiro foi destruído e os seus nomes apagados.

Não existe um sistema organizado de tribunais no Tibete. A investigação

dos crimes fica a cargo de duas ou três pessoas da nobreza, mas infelizmente a corrupção prevalece; na realidade poucos nobres são íntegros. As somas recebidas como suborno são consideradas por muitos como parte das vantagens do sistema feudal. Se um acusado considera ter sido injustamente condenado, é-lhe permitido apelar para o Dalai Lama. Se a sua inocência for provada, recebe o perdão, caso contrário o seu castigo é duplicado.

Em Lassa, o magistrado da cidade actua permanentemente como juiz,

excepto durante os vinte e um dias a seguir ao Ano Novo, quando toda a autoridade é exercida pelos monges. O magistrado é auxiliado por dois assessores que estão sempre muito ocupados, pois para além dos peregrinos há muitos malfeitores que vêm para a capital.

Depois de o Dalai Lama se ter mudado para a sua residência de Verão, o

tempo tornou-se muito quente, mas não desagradável. Nesta época, durante o dia a temperatura nunca ultrapassa os 30 graus e as noites são frescas. O ar é muito seco e raramente chove. Em pouco tempo toda a gente está a rezar para que chova. Existem algumas nascentes nos arredores de Lassa, mas quase todos os anos secam e então as pessoas têm que ir buscar água ao rio Kyi-chu, que corre límpido e frio devido aos glaciares.

Quando as nascentes deixam de brotar e os campos de cevada ficam secos

e murchos, o governo decreta que todo o cidadão deve regar as ruas até ordem em contrário. Toda a cidade mete imediatamente mãos à obra e apressa-se a correr para o rio com jarros e baldes para trazer água. Os nobres mandam os seus criados buscar a água, mas quando a trazem dão uma mão para a deitar nas ruas e ajudam os vizinhos. Existe um carnaval de água oficial em que todos participam sem distinção de posição ou classe social. Rios de água caem das janelas e dos telhados nas cabeças dos transeuntes, e é má educação ficar ofendido quando nos encharcam. As crianças divertem-se como nunca. Pelo que me toca, sendo alto e conspícuo, levei com mais do que o meu quinhão de água. Toda a gente achava que o «alemão Henrigla» era um alvo fácil.

Enquanto a guerra de água dura nas ruas, o oráculo de Gadong, o mais

famoso Feiticeiro da Chuva do Tibete, é convocado para o jardim do Dalai Lama. Aqui se reúnem os mais altos funcionários do governo, e o Grande Lama em pessoa preside à cerimónia. O Feiticeiro da Chuva, um monge, em breve entra em transe. Os seus membros começam a sacudir-se convulsivamente e ele emite uns estranhos grunhidos. Nesse momento uma das autoridades monásticas solenemente suplica ao oráculo para garantir a chuva e assim salvar as colheitas. Os movimentos do Feiticeiro da Chuva tornam-se cada vez mais extáticos, e esca-pam-lhe algumas palavras pronunciadas em falsete. Um escriturário anota a mensagem e entrega-a ao Gabinete de Ministros. Entretanto o corpo do extasiado médium, agora abandonado pela divindade que o possuía, cai inerte no chão e é transportado dali.

Depois deste ritual, toda a gente em Lassa aguarda a chuva com excitação.

Quer se acredite em milagres ou se procure uma explicação lógica, o facto é que pouco depois deste drama ser representado chove sempre. Os tibetanos não duvidam de que a Divindade Protectora se apossa do corpo do médium enquanto ele está em transe e que escuta e acede às súplicas do povo.

Naturalmente que essa explicação não me satisfazia e tentei encontrar

uma solução mais científica. Interroga-va-me se não seria talvez a intensa irrigação das ruas que tinha causado evaporação, ou se as chuvas da monção tinham alastrado ao Tibete. A Legação Britânica tinha montado uma estação meteorológica e media a precipitação cientificamente. Equivalia a uma média de 350 milímetros por ano e ocorria principalmente nesta estação. Aufs-chnaiter instalou depois um aparelho medidor do nível da água no Kyichu e registou a primeira subida no nível do rio quase no mesmo dia todos os anos. Se seguisse os métodos do Feiticeiro da Chuva poderia ter-se estabelecido com êxito como oráculo.

A precipitação em Lassa deve ter sido muito maior noutros tempos.

Costumavam existir grandes florestas que contribuíam para um tempo mais frio e chuvoso. A desflorestação ao longo dos séculos tinha feito o seu trabalho nas províncias. A própria Lassa, com os seus prados e bosques de choupos e salgueiros, era um pequeno oásis verde no vale desertificado do Kyichu.

Em Lassa éramos constantemente convidados para sair e para consultas.

Assim ficámos a conhecer a vida da cidade sob todos os ângulos. Tínhamos oportunidade de estudar os detalhes da administração pública e da vida familiar, as opiniões, os hábitos e a moral. Algo de novo surgia todos os dias e muitos mistérios deixaram de o ser para se tomarem coisas banais, mas não todos. Uma coisa tinha seguramente mudado na nossa situação. Já não éramos intrusos. Fazíamos parte da comunidade.

Tinha chegado a época balnear. Velhos e novos, grandes e pequenos

convergiam para os jardins na margem do rio e divertiam-se a nadar e a chapinhar na água pouco profunda. As pessoas elegantes organizavam piqueniques e montavam as suas tendas. Muitas raparigas que tinham estudado na índia exibiam os seus modernos fatos de banho. Nos intervalos das brincadeiras na água os banhistas comiam e jogavam dados, e à noite todos os grupos acendiam incenso junto ao rio, gratos aos deuses por um dia maravilhoso.

Eu estava muito admirado com as minhas proezas como nadador. Os

tibetanos não sabem muito sobre natação pois a água é demasiado fria para se aprender. Aqueles que sabem nadar minimamente conseguem apenas manter-se à superfície. Agora tinham um perito entre eles. Convidavam-me de todos os lados, claro, na esperança de que eu demonstrasse as minhas habilidades, mas a minha ciática tornava a natação um passatempo doloroso, pois a água era muito fria — nunca acima dos 5 graus. Às vezes mergulhava para divertir os meus amigos, mas raramente. Mesmo assim houve alturas em que a minha presença foi útil. Consegui salvar três pessoas de morrerem afogadas, pois havia alguns locais perigosos no rio onde obstruções tinham criado redemoinhos e correntes.

Um dia em que era convidado de Surkhang, o Ministro dos Negócios

Estrangeiros, e da sua família, que tinha montado a sua tenda junto à água, o único filho do ministro, Jigme (que significa «Destemido») estava lá em férias da sua escola na índia. Tinha aprendido a nadar, mais ou menos, na escola. Estava eu a flutuar pela corrente abaixo quando de repente ouvi gritos e vi pessoas a gesticularem desesperadamente na margem e a apontarem para a água. Nadei rapidamente para terra e corri para a tenda. Vi Jigme a rodopiar dentro de um redemoinho e mergulhei imediatamente; embora o turbilhão me apanhasse também, como era um bom nadador consegui agarrar no rapaz inconsciente e trazê-lo para a margem. Tendo sido instrutor, eu sabia como o reanimar, e em pouco tempo ele já respirava novamente para grande alegria do seu pai, que derramava lágrimas e grandes manifestações de gratidão. Eu tinha salvo uma vida e isso era considerado um grande mérito.

Como resultado deste episódio, o meu relacionamento com a família

Surkhang tornou-se íntimo e tive a oportunidade de estudar uma combinação conjugal que mesmo no Tibete era bastante invulgar.

O ministro estava separado da sua primeira mulher. A segunda, a mãe de

Jigme, tinha morrido. Surkhang partilhava agora a jovem esposa de um nobre de um estrato inferior. No contrato de casamento Jigme surgia como terceiro marido, porque o seu pai não queria deixar toda a sua fortuna à viúva. Complicações semelhantes aconteciam com muitas famílias. Uma vez tive conhecimento de um caso em que a mãe era também cunhada da própria filha. No Tibete encontra-se poligamia e poliandria, mas a maioria das pessoas são monógamas.

Quando um homem tem várias esposas, o seu relacionamento com elas é

diferente daquele que prevalece nos haréns muçulmanos. E uma prática comum um homem casar com várias filhas de uma família onde não exista um filho herdeiro. Este sistema evita que a fortuna da família se disperse. O nosso anfitrião Tsarong tinha casado com três irmãs e obtivera permissão do Dalai Lama para adoptar o seu apelido.

 

Não obstante as relações frequentemente invulgares criadas por estas

alianças, os casamentos desfeitos não são mais comuns no Tibete do que entre nós. Isto deve-se principalmente ao facto de que estas pessoas não se deixam arrastar pelos seus sentimentos. Quando vários irmãos partilham a mesma mulher, o mais velho é o chefe da casa e os outros só têm direitos na sua ausência ou quando ele está ocupado noutro lado qualquer. Mas ninguém fica prejudicado pois existe uma enorme população feminina. Muitos homens vivem uma vida celibatária nos templos. Em cada aldeia há um claustro. As crianças de casamentos irregulares não têm direito a herdar, e todas as propriedades vão para os filhos da esposa legítima. E por isso que não é tão importante qual dos irmãos é o pai da criança. O importante é que a propriedade se mantenha na família.

O Tibete desconhece as desvantagens do excesso de população. Durante

séculos o número de habitantes tem permanecido aproximadamente igual. Para além das práticas de poliandria e celibato, a mortalidade infantil contribui para este estado de coisas. Calculo que a média da expectativa de vida entre os tibetanos é de apenas trinta anos. Um grande número de crianças morrem muito novas e entre toda a multidão de funcionários públicos só existe um septuagenário.

Eu tinha lido em muitos livros sobre o Tibete que o anfitrião está

acostumado a oferecer a sua mulher ou filha ao convidado. Se eu contasse com isso teria ficado muito desapontado. Às vezes acontecia que uma jovem e bonita criada era oferecida por brincadeira, mas as raparigas não se oferecem a menos que sejam cortejadas. Claro que se pode encontrar raparigas perdidas em todas as partes do mundo, e mesmo em Lassa há algumas beldades que fazem amor a nível profissional.

Antigamente os casamentos eram arranjados pelos pais, mas hoje em dia

os jovens escolhem os seus próprios companheiros. Casam muito novos, as raparigas aos dezasseis e os rapazes aos dezassete ou dezoito no máximo. Os aristocratas só podem casar com os da sua classe e esta regra é rigidamente observada. Os familiares não podem casar entre si, excepto ao fim de sete gerações, de forma a evitar consanguíneos. Só o Dalai Lama pode autorizar excepções a esta regra. Ocasionalmente são promovidos à nobreza homens competentes do povo e isso traz algum sangue novo ao pequeno círculo de cerca de duzentas famílias da aristocracia.

Os divórcios são raros e têm que ser aprovados pelo Governo. São

impostos castigos drásticos às esposas infiéis, como por exemplo cortar-lhes o nariz. Mas, na realidade, nunca ouvi falar em nenhum caso em que este castigo fosse executado. Uma vez mostraram-me uma velha mulher sem nariz, que alegadamente teria cometido uma infidelidade — mas pode muito bem ter sido apenas um caso de sífilis.

As doenças venéreas são comuns no Tibete. Muitos casos ocorrem em

Lassa mas não lhes é atribuída muita importância. São geralmente negligenciados e o médico é chamado quando já é muito tarde para resolver o problema. O ancestral remédio do mercúrio é conhecido dos monges nas escolas de medicina.

Quanto se poderia fazer pelo Tibete se as condições médicas e sanitárias

fossem melhoradas! A cirurgia é completamente desconhecida no país. Aufschnaiter e eu costumávamos entrar em pânico só de pensar num ataque de apendicite. Qualquer dor suspeita nos alarmava. Parecia absurdo morrer desta doença no século xx. Os tibetanos não sabem nada sobre operações ao corpo humano à excepção de lancetar furúnculos. O uso de instrumentos em partos é igualmente desconhecido. A única ligação à cirurgia que os tibetanos têm é nas actividades da tribo que disseca corpos, os Domdens, que frequentemente participam aos familiares a causa da morte e informam os estudantes de medicina interessados sempre que encontram qualquer característica interessante no corpo.

Infelizmente, as escolas de Medicina opõem-se a qualquer progresso. As

doutrinas ensinadas por Buda e os seus apóstolos são uma lei suprema que não pode ser adulterada. Existem duas escolas, a mais pequena situada no Chag-pori ou Montanha de Ferro, e a maior na cidade. Todos os mosteiros enviam alguns jovens inteligentes para estas escolas. O curso dura de dez a quinze anos. Sábios monges ensinam os rapazes, que se sentam de pernas cruzadas no chão com as suas ardósias sobre os joelhos. Muitas vezes existem na parede ilustrações coloridas. Uma vez eu estava presente quando um professor explicava por meio das ilustrações os sintomas de envenenamento causado por uma determinada planta. Mostravam aos pupilos desenhos da planta, dos sintomas, dos antídotos e das suas reacções — tal como os diagramas de parede nas nossas escolas.

A Astronomia é uma parte integrante da ciência médica. O calendário

lunar anual é explicado nas escolas de Medicina após a consulta de antigos trabalhos. Os eclipses do sol e da lua são cuidadosamente registados e são preparadas previsões meteorológicas mensais e anuais.

No Outono, toda a escola saí em busca de ervas nas montanhas. Os

rapazes apreciam imenso a expedição embora tenham muito trabalho. Todos os dias acampam num lugar novo e no fim da sua excursão conduzem os seus iaques sobrecarregados para Tra Yerpa, um dos lugares mais sagrados no Tibete, onde as ervas são separadas e postas a secar numa espécie de templo. No Inverno, os mais novos destes pequenos monges têm de moer as ervas secas e transformá-las em pós, que são guardados em bolsas de cabedal à prova de ar e cuidadosamente rotuladas pelo abade encarregado da escola. Estas escolas funcionam como farmácias onde qualquer um pode obter medicamentos gratuitos, que também servem como um pequeno presente. Os tibetanos são realmente avançados no estudo das ervas e das suas propriedades medicinais, e eu já recorri muitas vezes a elas. Os seus comprimidos não resultaram muito com a minha ciática, mas já curei muitas constipações e febres com os seus chás de ervas.

O abade da Escola de Medicina de Lassa é também o médico pessoal do

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