Sete Anos no Tibet
7 a Cidade Proibida
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Dalai Lama, um cargo honroso mas arriscado. Quando o décimo terceiro Dalai Lama morreu aos cinquenta e quatro anos de idade levantaram toda a espécie de suspeitas, e o abade de então pôde considerar-se feliz por escapar apenas com uma despromoção, pois poderia ter sido condenado a um açoitamento.
Nas cidades e nos mosteiros é possível ser-se vacinado contra a varíola,
mas essa é a única forma de inoculação praticada e muitas vidas se perdem desnecessariamente em epidemias por falta de tratamento profiláctico. O que salva o Tibete é o clima frio e o ar puro da montanha. Mas a poluição universal e as péssimas condições sanitárias poderão ocasionar pragas catastróficas. Nós pregámos sempre a necessidade de melhores meios sanitários e projectámos um sistema de drenagem para Lassa. A superstição é o inimigo. Descobrimos que as pessoas tinham mais confiança nas curas pela fé e toques de mão do que nas práticas dos monges das Escolas de Medicina. Muitas vezes os Lamas besuntam os pacientes com a sua saliva sagrada. Tsampa, manteiga e a urina de algum homem santo são transformadas numa espécie de papa que é administrada ao doente. Os carimbos de oração em madeira que são submersos em água benta e então aplicados nos locais doloridos não fazem mal a ninguém. Nada é mais cotado como remédio do que objectos que tenham pertencido ao Dalai Lama. Todos os nobres costumavam mostrar-me orgulhosamente relíquias do décimo terceiro Dalai Lama cuidadosamente cosidas dentro de pequenas bolsas de seda. Tsarong, como seu antigo favorito, possuía muitos artigos de uso pessoal que lhe tinham pertencido, e eu ficava atónito por Tsarong e o seu filho, que tinham sido educados na índia, serem supersticiosos ao ponto de darem valor a estas relíquias.
Muitos homens e mulheres vivem de interpretar horóscopos e ler sinas.
Uma característica de Lassa são as velhinhas que rastejam ao longo da estrada dos peregrinos e lêem a sina em troca de uma pequena quantia. Perguntam a data de nascimento, fazem uns pequenos cálculos com os seus rosários e as pessoas seguem o seu caminho consoladas com as suas misteriosas palavras. A máxima confiança é depositada nos poderes proféticos dos Lamas e das Encarnações e ninguém faz nada sem consultar antes os presságios. Ninguém pensaria iniciar uma peregrinação ou um novo trabalho antes de saber qual é a data mais propícia.
Num passado recente vivia em Lassa um Lama muito celebrado, cujas
visitas e consultas estavam preenchidas com meses de antecedência. Ele costumava viajar com os seus discípulos de um lugar para o outro recebendo hospitalidade. Os seus pacientes davam-lhe tantos presentes que ele e o seu grupo viviam muito confortavelmente. Tinha uma tal reputação que até mesmo o Sr. Fox, o inglês operador de rádio, que há anos era uma vítima da gota, pediu ao Lama que o visitasse. Mas o pobre Fox perdeu a sua vez pois o velho homem morreu antes de poder visitá-lo.
O velho Lama tinha sido inicialmente um simples monge. Depois de
estudar durante vinte anos num dos principais mosteiros, passou nos exames com distinção e retirou-se para uma eremitagem de vários anos. Vivia numa das celas solitárias espalhadas por todo o país e nas quais os monges se refugiam para um período de meditação. Muitos deles pedem aos seus discípulos para os emparedar e vivem apenas de tsampa e chá. Este monge ficou célebre pela sua vida exemplar. Nunca comeu nada a que tivesse sido tirada a vida, e abstinha-se inclusivamente de comer ovos. Tinha a reputação de não precisar de dormir e de nunca ter usado uma cama. Posso confirmar este último detalhe pois viveu perto de mim alguns dias. Também se dizia que realizava milagres. Uma vez, os poderosos raios que emanavam das mãos incendiaram o seu próprio rosário. Ofereceu à cidade de Lassa uma grande estátua de Buda banhada a ouro que ele próprio tinha pago com o dinheiro que recebia dos seus pacientes e admiradores.
No Tibete só havia uma Encarnação feminina. O seu nome, traduzido,
seria a «Javalina dos Relâmpagos. Eu costumava vê-la frequentemente em cerimónias na Bar-khor, uma estudante de aparência insignificante com aproximadamente dezasseis anos, vestida com um hábito de freira. No entanto, era a mulher mais sagrada do Tibete e onde quer que fosse o povo pedia a sua bênção. Mais tarde tornou-se abadessa num convento junto ao Lago Yamdrok.
Em Lassa circulavam sempre inúmeros rumores e histórias sobre freiras
beatificadas e Lamas, e eu teria investigado com prazer alguns dos seus milagres. Mas não devemos ofender as crenças do povo. Os tibetanos são felizes com as suas próprias convicções e nunca tentaram converter-nos. Contentávamo-nos em estudar os seus costumes, visitar os seus templos como espectadores e oferecer écbarpes brancas como recomendava a etiqueta.
11 A VIDA EM LASSA
O Oráculo do Estado — Outono em Lassa — A minha festa de Natal — A vida dos estrangeiros em Lassa.
Tal como as pessoas recorrem aos adivinhos e Lamas para
aconselhamento e ajuda nas preocupações do seu dia-a-dia, também o governo consulta o Oráculo do Estado antes de tomar qualquer decisão importante. Uma vez pedi ao meu amigo Wangdiila para me levar a uma consulta oficial, e assim uma manhã dirigimo-nos para o mosteiro de Nechung. Nessa altura um monge de dezanove anos era o porta-voz do oráculo.
Fora criado em circunstâncias simples mas tinha atraído muitas atenções
com os seus dons mediúnicos. A sua técnica não era tão impressionante como a do seu antecessor (que tinha colaborado na descoberta do actual Dalai Lama), mas esperava-se muito dele. Muitas vezes me interroguei se seria graças a um esforço de concentração inaudito que ele conseguia entrar em transe tão rapidamente perante centenas de pessoas ou se usaria drogas ou outros expedientes. Para poder funcionar como oráculo, o monge tem de libertar o seu espírito do corpo para permitir ao deus do templo apossar-se dele e falar através da sua boca. Nesse momento o deus manifesta-se nele. Esta é a crença dos tibetanos, e Wangdúla estava convencido desta verdade.
Conversámos sobre estas coisas durante o percurso de oito quilómetros
até ao claustro. Fomos recebidos por uma música irreal e estranha. No interior o espectáculo era pavoroso. De todas as paredes espreitavam caretas hediondas e o ar era sufocante com fumos de incenso. O jovem monge tinha acabado de ser trazido dos seus aposentos para o sombrio templo. Usava um espelho redondo de metal ao peito. Assistentes vestiram-lhe um robe em seda colorida e conduziram-no para o seu trono. Então toda a gente se afastou dele. Só a sinistra música quebrava o silêncio. Observei-o cuidadosamente, nunca tirando os olhos do seu rosto — nem o mais ligeiro movimento das feições me escapou. Parecia que a vida lhe fugia. Agora estava perfeitamente imóvel, o seu rosto uma máscara estática. Então, subitamente, como se tivesse sido atingido por um raio, o seu corpo curvou-se para cima como um arco. Os observadores sustiveram a respiração. O deus apossava-se. O médium começou a tremer; todo o seu corpo estremecia e o suor escorria da sua fronte. Alguns servos aproximaram-se e colocaram-lhe um enorme e fantástico toucado na cabeça, tão pesado que foram necessários dois homens para o levantar. O delgado corpo do monge afun-dou-se ainda mais nas almofadas do trono sob o peso desta monstruosa mitra. Não admira que estes médiuns morram jovens. O esforço espiritual e físico destas sessões deve ser letal.
Os tremores tornaram-se mais violentos. A cabeça sobrecarregada do médium balançava de um lado para o outro e os olhos pareciam querer saltar das órbitas. O seu rosto estava inchado e coberto de manchas de um vermelho febril. Sons sibilantes perpassavam pelos seus dentes cerrados. De repente levantou-se de um salto. Os criados correram para o ajudar mas ele esgueirou-se por entre eles e começou a rodopiar numa estranha e exótica dança ao som lamuriento do oboé. Para além da música, os seus gemidos e o ranger dos dentes eram o único som que se ouvia no templo. Agora começava a bater no seu peito reluzente com um grande anel polegar, fazendo um ruído que abafava o monótono rufar dos tambores. Então girou num só pé, erecto sob o peso do gigantesco toucado que há momentos dois homens mal tinham conseguido levantar. Os assistentes encheram-lhe as mãos com grãos de cevada, que ele atirou sobre o aterrorizado grupo de espectadores. Todos se curvaram perante ele e receei que notassem a minha presença. O médium ficou mais calmo. Alguns servos agarraram-no e um ministro do Gabinete aproximou-se e atirou-lhe uma écharpe sobre a cabeça. Começou então a fazer-lhe perguntas cuidadosamente preparadas pelo Gabinete a respeito da nomeação de um governador, a descoberta de uma nova Encarnação, assuntos que envolviam guerra e paz. Foi pedido ao oráculo que decidisse sobre todas estas questões. Muitas vezes a pergunta tinha que ser repetida várias vezes até que o médium começasse a resmungar. Tentei apanhar palavras inteligíveis, mas não consegui entender nenhum daqueles sons. Enquanto o ministro ali humildemente especado tentava entender as respostas, um velho monge anotava-as com uma velocidade incrível. Tinha feito isto centenas de vezes na sua vida pois também fora secretário do oráculo anterior. Não consegui afastar da minha mente a suspeita de que talvez o verdadeiro oráculo fosse o secretário. As respostas que ele anotava, embora ambíguas, sugeriam uma linha a ser seguida e aliviavam o Gabinete de uma pesada responsabilidade. Quando um oráculo começa a dar maus conselhos, fazem pouco caso do porta-voz e dispensam-no do seu cargo. Isto sempre me pareceu ilógico. Afinal o deus falava através do médium ou não?
Apesar dos riscos, o cargo de oráculo do Estado é muito desejado, pois
também acumula o título de Dalama, correspondente à terceira classe nas ordens da nobreza, e o seu detentor é prior do claustro de Nechung com todos os seus benefícios.
As últimas perguntas feitas pelo ministro ficaram sem resposta. Estaria o
médium exausto ou o deus sem disposição?
Saí do templo e parei sob o sol ofuscante, sentindo-me completamente
entorpecido pelo que tinha presenciado. A minha mentalidade europeia estava perplexa com a experiência. Posteriormente, assisti a muitas consultas ao oráculo, mas nunca consegui sequer chegar a uma explicação aproximada do enigma.
Era sempre uma experiência curiosa encontrar o Oráculo do Estado na
vida normal. Nunca me acostumei a sentar-me à mesa com ele e ouvi-lo comer ruidosamente a sopa de massa. Quando nos encontrávamos na rua, eu costumava tirar o meu chapéu e ele retribuía o cumprimento com uma vénia e um sorriso. Era um jovem bem parecido e não tinha qualquer semelhança com a máscara inchada, distorcida e manchada de vermelho do estático médium.
O Oráculo do Estado também tem um papel muito importante na famosa Grande Procissão, quando o Dalai Lama é levado à cidade para visitar a Catedral. A cerimónia é designada Grande Procissão para se distinguir da procissão ao Jardim de Verão que já descrevi.
Nesta ocasião Lassa inteira está a pé; não existe praticamente nenhum
lugar para se estar. Há uma tenda montada numa pequena clareira e à sua volta estão postados os monges-guardas que, como habitualmente, estão atarefados em manter os curiosos à distância com os seus chicotes. Esta tenda encerra um grande mistério. No seu interior o Dalama de Nechung prepara-se para entrar em transe. Entretanto o Rei Divino aproxima-se lentamente na sua cadeirinha com os seus trinta e seis carregadores. Agora o Sagrado parava em frente à tenda até sair o monge possuído com passos cambaleantes, rosto inchado, a boca emitindo sons sibilantes e o peso do seu toucado quase o pregando ao chão. Faz sinal aos carregadores para se afastarem, abre caminho por entre eles e coloca os ombros debaixo das barras que suportam o palanquim e corre alguns metros. Parece incomodar o seu Fardo Sagrado, mas está tudo bem. Os outros carregadores retomam a carga e o Dalama cai ao chão desmaiado, sendo transportado dali numa liteira preparada para o efeito. A procissão retoma então o seu solene andamento. Nunca consegui entender o significado exacto deste ritual. Talvez pretenda simbolizar a sujeição da Divindade Protectora aos poderes superiores do Buda Vivo.
Para além do Oráculo do Estado e do Feiticeiro da Chuva, existem em
Lassa pelo menos seis médiuns, incluindo uma velha que é considerada uma manifestação de uma deusa protectora e que, por uma pequena quantia, se dispunha a entrar em transe e a permitir que a deusa se manifestasse. Havia dias em que ela se submetia a este processo quatro vezes!
Também há médiuns que durante o transe conseguem dobrar longas
espadas em espiral. Vários amigos meus guardam estas espadas em frente aos seus altares particulares. Já tentei várias vezes repetir esta façanha, mas não consegui sequer começar.
A consulta aos oráculos remonta a tempos pré budistas, quando os deuses
exigiam sacrifícios humanos, e penso que o ritual continuou quase inalterado desde os seus primórdios. Eu ficava sempre muito impressionado com estas misteriosas manifestações, mas feliz por saber que as minhas próprias decisões não estavam sujeitas às orientações de um oráculo.
Quando o Outono chegou já estávamos há vários meses em Lassa e
tínhamo-nos adaptado completamente ao clima. Esta é a melhor estação do ano. Os jardins de flores em que eu tinha trabalhado tanto estavam a florescer plenamente e as árvores tinham começado a mudar de cor. Havia fruta em abundância — pêssegos, maçãs e uvas das províncias do sul. Esplêndidos tomates e pequenas abóboras eram expostos no mercado, e era durante esta estação que a pequena nobreza organizava as suas grandes festas nas quais ofereciam aos convidados uma inacreditável variedade de iguarias.
Também era a altura do ano apropriada para excursões, mas infelizmente
nenhum tibetano escalava uma montanha por prazer. Em dias especiais os monges saem em peregrinação a algum pico sagrado de montanha, e os nobres mandam os seus criados com eles para propiciarem os deuses acendendo incenso nos cumes. Os topos das montanhas assolados pelo vento ecoam com orações e novas bandeiras são hasteadas, enquanto os corvos voam em redor à espera das ofertas de tsampa. Cabe acrescentar que toda a gente fica feliz por regressar à cidade ao fim de dois ou três dias nas montanhas.
Aufschnaiter e eu fazíamos questão de escalar todos os picos nas
proximidades. Não ofereciam a atracção das dificuldades técnicas mas as panorâmicas eram esplêndidas. A sul podíamos avistar os Himalaias, e bem próximo de nós, a 7000 metros de altitude, erguia-se o pico da cordilheira de Nyenchenthanghla pela qual tínhamos passado há oito meses atrás no nosso caminho para Lassa.
Da cidade não se consegue avistar nenhum glaciar. A suposição de que se
encontra neve e gelo em toda a parte no Tibete não é correcta. Gostaríamos de esquiar, mas mesmo que pudéssemos repetir a nossa experiência com esquis caseiros, as distâncias eram muito grandes. Iríamos precisar de cavalos, tendas e criados. O desporto em regiões desabitadas sai caro.
Por isso tínhamos que nos contentar com as nossas excursões de
alpinismo. O nosso equipamento não era exactamente profissional. Usávamos botas do exército e outros artigos de vestuário — restos vendidos ao Tibete por negociantes americanos, mas que serviam para os nossos propósitos. Os tibetanos não conseguiam evitar o espanto que lhes causava a velocidade com que completávamos os nossos passeios. Uma vez tive que acender uma grande fogueira de incenso no topo de uma montanha para que os meus amigos a avistassem do telhado de suas casas. De outra forma ninguém acreditaria que já tínhamos chegado lá. Aufschnaiter e eu costumávamos percorrer num dia a mesma distância que os criados dos nossos amigos faziam em três. O primeiro tibetano em quem consegui criar algum entusiasmo pelas expedições na montanha foi o meu amigo Wangdúla, que tinha uma óptima resistência. Mais tarde, outros amigos nos acompanharam e todos apreciaram imenso as paisagens e deslumbraram-se com as maravilhosas flores da montanha que encontrávamos.
A minha expedição favorita era a um pequeno lago de montanha apenas a
um dia de marcha de Lassa. A primeira vez que lá fui foi durante a estação das chuvas, quando se temia que as águas transbordassem e inundassem a cidade. De acordo com uma antiga lenda, este lago está ligado por um túnel a um lago subterrâneo que dizem existir por debaixo da catedral. Todos os anos o governo costumava enviar monges para agraciarem os espíritos do lago com orações e oferendas. Os peregrinos também costumavam lá ir e atirar anéis e moedas para a água. Na margem do lago havia algumas cabanas de pedra onde nos podíamos abrigar. Descobri que o lago não ameaçava minimamente a segurança da cidade. Mesmo que transbordasse não causaria prejuízo nenhum. Era um lugar idílico e pacífico. Rebanhos de ovelhas selvagens, gazelas, marmotas e raposas deambulavam descontraidamente por ali, e lá no alto a águia-pesqueira descrevia círculos com o seu voo. Para todas estas criaturas o homem não era um inimigo. Ninguém se atreveria a caçar nas proximidades da Cidade Sagrada. A flora em volta do lago é de tal forma que aceleraria a pulsação de qualquer botânico. Maravilhosas pa-poilas amarelas e azuis crescem nas margens. São uma especialidade do Tibete, e só se encontram também em Kew.
Estas expedições não saciavam completamente o meu apetite por
desporto. Estava sempre a imaginar que mais poderia fazer, e por fim surgiu-me a ideia de construir um campo de ténis. Consegui interessar muita gente na ideia e preparei uma lista de futuros membros do Ténis Clube de Lassa. Também angariei alguns fundos antecipadamente. A lista de membros era impressionante e tinha um carácter quase internacional. Havia indianos, sikkimeses, nepaleses e naturalmente imensos jovens cavalheiros de Lassa. Estes tinham inicialmente hesitado em inscrever-se, tendo em conta a atitude do governo em relação ao futebol. Mas consegui afastar os seus receios explicando que o ténis não atraía espectadores nem causava discórdias. Mesmo a Igreja deveria perceber que se tratava de um jogo inofensivo. Para além disso, já existia um campo de ténis na Legação Inglesa.
Contratei então uma equipa de trabalhadores e dei instruções para que
nivelassem um bocado de terreno junto ao rio. Não foi fácil encontrar o tipo de solo adequado para a superfície do campo, mas num mês estava tudo pronto. Eu estava bastante orgulhoso do trabalho. Já tínhamos encomendado da índia redes, raquetes e bolas e organizámos uma pequena festa para inaugurar o Ténis Clube de Lassa.
Havia uma competição acirrada entre as crianças para serem apanha-
bolas. Eram assustadoramente desastrados pois nunca tiveram uma bola nas mãos. Mas quando convidámos membros da Legação Britânica para jogar connosco, os soldados do corpo da guarda da Legação Nepalesa vieram apanhar bolas para nós. Custava imenso vê-los a correr de um lado para o outro nos seus esplêndidos uniformes.
Em pouco tempo já tínhamos um grande número de jogadores. O melhor
era incontestavelmente o Sr. Liu, secretário da Legação Chinesa; a seguir estava o Sr. Richard-son, o Representante Britânico, um escocês magro, astucioso e severo na sua área profissional. Tinha um grande passatempo — o seu esplêndido jardim de flores e vegetais.
Quando o visitávamos, sentíamo-nos como num jardim de um conto de fadas.
As partidas de ténis proporcionavam novas ocasiões para um agradável
relacionamento social. Organizavam—se partidas, ora nos nossos campos, ora nos da Legação Britânica, após os quais tomávamos chá e jogávamos brí-dege. Eu considerava estes encontros como passeios sociais de domingo e costumava aguardá-los com prazer. Era necessário vestirmo-nos decentemente e, por um momento, ficávamos com a impressão de ter regressado ao meio de onde viéramos. O meu amigo Wangdúla provou o seu valor nesta área também. Era um tenista aplicado e um excelente parceiro para o brídege.
Os nossos campos de ténis tinham outra vantagem, pois podíamos usá-los
o ano todo. Mas durante a época das tempestades de areia tínhamos de ser cuidadosos. Em vez de vedações de arame tínhamos usado cortinas altas para cercar os campos e assim, quando avistávamos as nuvens de pó a acumularem-se sobre o Potala, tínhamos que ser rápidos e retirá-las antes que fossem levadas pela tempestade.
No Outono, os tibetanos praticam o seu ancestral passatempo de soltar
papagaios. Quando as chuvas acabam e o tempo seco de Outono se estabelece, os bazares enchem—se de papagaios coloridos. O desporto começa pontualmente no primeiro dia do oitavo mês. Mas não é apenas uma brincadeira de crianças, como acontece connosco. O dia de abertura é um festival popular e os nobres entusiasmam-se tanto com o passatempo como as pessoas mais simples. O primeiro papagaio sobrevoa o Potala e pouco depois o céu está cheio deles. Crianças e adultos ficam horas nos telhados a soltarem os seus papagaios com uma concentração tão intensa como a dos campeões de xadrez ou de ténis. Os papagaios são atados a barbante resistente tratado com cola e vidro moído. O principal objectivo do jogo é cruzar a linha do adversário e cortá-la. Quando isso acontece, ouvem-se gritos de alegria vindos dos telhados. O papagaio cortado cai lentamente e as crianças atiram-se a ele. Agora pertence-lhes. Durante um mês este jogo é praticado em todas as horas de lazer. A temporada chega então ao fim e os papagaios desaparecem tão repentinamente como apareceram.
Um dia, enquanto eu passeava por um bazar a apreciar os papagaios,
aconteceu uma coisa insólita. Um estranho abordou-me para me vender um relógio — quer dizer, os restos de um relógio velho e ferrugento já sem o mostrador. O homem explicou que estava avariado e que não sabia o que fazer com ele. Como eu era europeu, talvez o pudesse reparar. E podia pagar o que quisesse por ele. Peguei nele e reconheci-o imediatamente. Era o relógio de pulso de Aufschnaiter, que ele tinha vendido quando estávamos no Tibete Ocidental — um Rolex à prova de água que ele usara durante a expedição a Nanga Parbat. Aufschnaiter tinha-se desfeito dele com muita pena. Pensei que gostaria de o reaver mesmo que não funcionasse. De qualquer forma, seria uma recordação. Embora tivesse poucas esperanças de sucesso, entreguei-o a um inteligente artesão maometano para que experimentasse. Ele ficou deslumbrado com o mecanismo e em pouco tempo pô-lo a trabalhar novamente. Devolvi-o a Aufschnaiter como prenda de aniversário. Deviam ter visto a cara dele quando recebeu o relógio!
No Outono, realizam-se os grandes mercados de cavalos. Caravanas com
centenas de cavalos chegam de Siling no noroeste da China. Há um intenso regateio, no qual os tibetanos são muito bons, e paga-se muito dinheiro por bons cavalos. Os nobres gostam de manter bons estábulos e insistem em ter todos os anos um novo puro-sangue para montar. Claro que só os ricos podem pagar por isto. A gente do povo, quando monta, usa póneis tibetanos, mas a nobreza gasta dinheiro em bons cavalos. Quando saem a cavalo levam consigo criados também montados. Um ministro do Gabinete, por exemplo, deve ir acompanhado por seis homens uniformizados. O número de cavalos de um nobre varia de acordo com a sua posição — alguns chegam a ter vinte.
Muitas vezes vi mulheres a cavalo. As suas saias são suficientemente
largas para poderem montar com uma perna para cada lado. Frequentemente acompanham os maridos em viagens que duram semanas, quando vão em peregrinação ou são transferidos de posto. Usam umas toucas semelhantes a telhados para se protegerem do sol, esfregam no rosto a seiva castanha escura de uma planta e tapam a boca com um xaile. Quando cavalgam pelas ruas com esta caracterização, parecem todas iguais, e eu receio ter cometido muitas gaffes por não reconhecer pessoas amigas em tais ocasiões.
Durante estas longas expedições a cavalo as crianças mais pequenas
viajam ao colo das suas amas, e as maiores numa espécie de berço com barras em madeira para evitar que caiam.
Lá para o princípio de Dezembro tivemos um acontecimento excitante.
Foi previsto um eclipse lunar e desde o cair da noite os telhados tinham estado apinhados de gente curiosa que aguardava ansiosamente o espectáculo. Quando a sombra da Terra começou lentamente a encobrir a superfície da Lua, ouviu-se um murmúrio por toda a cidade. Em breve todos começaram a bater palmas e a gritar alto para afugentar o demónio malvado que se tinha posto à frente da lua. Quando o eclipse acabou as pessoas regressaram a casa felizes e foram entreter-se com jogos para celebrar a vitória sobre o demónio.
O Natal aproximava-se e eu tinha imaginado uma surpresa. Queria
oferecer aos meus amigos uma autêntica festa de Natal com uma árvore e prendas. Tinha recebido tanta generosidade e hospitalidade que queria retribuir de alguma forma, dando aos meus amigos algum prazer, pelo menos por esta vez. Os preparativos mantiveram-me muito ocupado. O meu amigo Trethong, cujo falecido pai tinha sido ministro, emprestou-me a sua casa por alguns dias. Contratei empregados especializados e cozinheiros e comprei pequenas prendas para os meus convidados, tais como isqueiros eléctricos, canivetes, raquetes de pingue—pongue e jogos familiares. Pensei em presentes especiais para o meu anfitrião Tsarong e para a sua família. A principal atracção era a árvore de Natal. A Sra. Tsarong emprestou-me uma árvore de junípero num belo vaso e decorei-a com velas, maçãs, castanhas e doces. Parecia mesmo a árvore tradicional.
A festa começou de manhã, como é habitual em Lassa. Wangdiila ajudou-
me como mestre de cerimónias pois eu ainda tinha receio de cometer alguma incorrecção de etiqueta. Os meus convidados estavam cheios de curiosidade. Examinavam a árvore de todos os lados e olhavam para os embrulhos empilhados. Toda a gente estava excitada e ansiosa, tal como as crianças nas nossas casas. Passámos o dia entretidos com jogos e a comer e beber, e quando anoiteceu pedi aos meus convidados para passarem à sala ao lado. Acendi então a árvore de Natal e Wangdúla vestiu o seu casaco de peles ao contrário e fez de Pai Natal. Pusemos a tocar o disco de «Noite Feliz»: abriu-se a porta e com os olhos esbugalhados de espanto os meus convidados aglomeraram-se à volta da árvore. O Sr. Liu conduzia o coro e alguns dos convidados que tinham frequentado escolas inglesas também participaram pois conheciam a canção. Era uma cena estranha. Uma mistura de raças no coração da Ásia, reunida em volta de uma árvore de Natal e a cantar o velho e querido hino de Natal da nossa terra. Eu tinha-me tornado exímio em controlar as minhas emoções, mas devo confessar que neste momento não consegui evitar as lágrimas nos olhos e tive um súbito ataque de saudades.
A alegria dos meus convidados e o seu prazer com as suas prendas de
Natal — aumentado por um pouco de álcool — ajudaram-me a superar a minha nostalgia. Quando os meus amigos se foram embora disseram-me repetidamente o quanto tinham apreciado o nosso «Ano Novo alemão.
Há um ano atrás, nas planícies desertas do Chang-thang acháramos que
uns bocados de pão branco eram uma maravilhosa prenda de Natal. Hoje estávamos sentados à volta de uma mesa carregada de coisas boas e na companhia de almas amigas. Não tínhamos o direito de nos queixar da nossa vida.
Não fizemos nada de especial para celebrar o Ano Novo de 1947.
Aufschnaiter tinha terminado o seu canal e tinha um importante trabalho novo para executar. Havia em Lassa uma antiga central eléctrica que tinha sido instalada há vinte anos atrás por um dos antigos alunos de Rugby. Agora estava num estado de terrível abandono e praticamente não fornecia corrente. Nos dias de trabalho só havia energia suficiente para manter as máquinas da Casa da Moeda a trabalhar, mas só aos sábados é que havia corrente suficiente para as necessidades das casas particulares.
O Tibete produz o seu próprio papel-moeda e procede à sua cunhagem. A
unidade numismática é o Sang, que se divide e subdivide em décimas, o sko e o karma. As notas são feitas com o papel nativo de cores brilhantes e com marcas d’água. Os números são pintados à mão com enorme habilidade, e até agora todas as tentativas de falsificação falharam devido à dificuldade em os imitar. As notas bancárias têm muito boa aparência. Também são usadas moedas de ouro, prata e cobre cunhadas com o emblema do Tibete — montanhas e leões, que também aparecem nos selos postais ao lado do sol nascente.
Como a operação de cunhagem dependia tanto da corrente eléctrica,
abordaram Aufschnaiter e perguntaram-lhe se poderia reparar a antiga instalação. Ele conseguiu convencer as autoridades de que não havia vantagem nenhuma em fazer isto pois o mais adequado seria aproveitar a energia hidroeléctrica do rio Kyichu. A central existente usava o fraco caudal de um pequeno afluente da corrente principal. Mas manifestaram o receio de que os deuses castigassem Lassa se as águas do rio sagrado fossem usadas para tal propósito, e Aufschnaiter teve o grande mérito de conseguir persuadir as autoridades do contrário. Deram-lhe instruções para começar o levantamento topográfico imediatamente e, para evitar a longa viagem diária de ida e volta, ele instalou-se fora da cidade, na casa de campo de uma quinta.
Agora víamo-nos com muito menos frequência. O meu trabalho de
professor prendia-me à cidade, e também dava lições de ténis. Os meus pupilos, grandes e pequenos, faziam bons progressos mas infelizmente os tibetanos não são famosos pela sua perseverança. Cheios de entusiasmo no princípio, e sempre prontos para qualquer coisa nova, o seu interesse desvanecia em pouco tempo. Por isso eu estava sempre a perder alunos e a substituí-los, o que não era nada satisfatório para mim. As crianças de boas famílias que eu ensinava eram inteligentes e atentas, em nada inferiores às nossas crianças em termos de compreensão. Nas escolas indianas os alunos tibetanos equiparam-se aos europeus pela sua inteligência. É preciso lembrarmo-nos de que eles têm que aprender a língua dos seus professores. Apesar dessa desvantagem, estão frequentemente adiantados em relação ao resto da classe. Havia um rapaz de Lassa no colégio St. Joseph em Darjeeling que era não só o melhor aluno como também o melhor em todos os jogos e desportos.
Para além das minhas lições eu tinha descoberto várias outras maneiras de
aumentar os meus rendimentos. Em Lassa quase se pode apanhar dinheiro do chão. Só é preciso um pouco de iniciativa. Eu poderia, por exemplo, ter aberto uma leitaria para vender leite fresco e manteiga ou encomendado um frigorífico para produzir gelados. Relojoeiros, sapateiros e jardineiros tinham uma enorme procura, e se uma pessoa soubesse inglês podia facilmente arranjar emprego numa casa comercial. Mas não tínhamos intenções de nos tornar comerciantes ou simplesmente de ganhar dinheiro. Precisávamos de trabalho que simultaneamente nos desse satisfação. E acima de tudo queríamos ser úteis ao governo e assim retribuir, em certa medida, a sua hospitalidade. Éramos consultados sobre toda a espécie de assuntos e ficávamos muito contentes por ser úteis. Mas éramos exageradamente considerados polivalentes e às vezes era embaraçoso quando nos pediam conselhos sobre assuntos que não conhecíamos tão bem como eles supunham.
Uma vez convidaram-nos para restaurar com um banho dourado os ídolos
de um templo. Por sorte encontrámos num dos livros da inesgotável biblioteca de Tsarong a receita para preparar tinta dourada a partir de ouro em pó. Tivemos que encomendar vários químicos da índia, pois os nepaleses de Lassa, entre os quais se encontram ourives profissionais, são muito zelosos das suas técnicas.
O Tibete dispõe de consideráveis depósitos de ouro, mas os métodos
modernos de exploração mineira são desconhecidos. Desde tempos remotos que escavam o solo das planícies do Changthang com chifres de gazela. Um inglês disse-me certa ocasião que seria com certeza lucrativo tratar com métodos modernos o solo já explorado pelos tibetanos. E apesar de muitas províncias terem que pagar as suas taxas em ouro, só extraíam o absolutamente necessário, por receio de perturbar os deuses da terra e atrair represálias, e assim mais uma vez o progresso é retardado.
Muitos dos grandes rios da Ásia têm as suas nascentes no Tibete e nos
seus caudais transportam ouro das montanhas. Mas só quando os rios alcançam os países vizinhos é que o seu ouro é explorado. O garimpo nos rios é praticado em poucas partes do Tibete, apenas onde é particularmente rentável. Existem rios no Tibete Oriental onde a corrente abre no leito do rio cavidades em forma de banheira. O ouro em pó deposita-se nestas cavidades e é preciso apenas ir recolhê-lo de tempos a tempos. Regra geral, o governador do distrito confisca estas colectas para o governo.
Sempre perguntei a mim próprio por que razão ninguém tinha ainda
pensado em explorar estes tesouros para
lucro pessoal. Quando se nada debaixo de água em qualquer dos rios próximos de Lassa, pode ver-se o ouro em pó a brilhar à luz do sol. Mas tal como em tantas outras partes do país, esta riqueza natural está por explorar, principalmente porque os tibetanos consideram este trabalho — relativamente fácil — demasiado complicado para eles.
Mesmo antes do nosso segundo Ano Novo em Lassa, recebemos as
primeiras cartas da família em três anos. Já tinham sido enviadas há muito tempo. Um dos envelopes tinha um carimbo de Reykjavik e já tinha dado a volta ao mundo. É fácil imaginar a nossa alegria por saber que por fim existia uma linha de comunicação entre a nossa distante e jamais esquecida terra natal e o «Tecto do Mundo em que vivíamos. Infelizmente, esta linha era muito frágil e a pobre comunicação postal não melhorou durante todos os anos da nossa permanência no Tibete. As notícias da Europa não eram encorajantes. Na verdade, reforçaram o nosso desejo de permanecer onde estávamos e de fazer de Lassa o nosso lar permanente. Nenhum de nós tinha laços muito fortes com as nossas antigas casas. O tempo que tínhamos passado neste pacífico canto do mundo tivera um efeito formativo no nosso carácter. Tínhamos compreendido a natureza e a mentalidade dos tibetanos e o nosso conhecimento da língua tinha progredido muito para além do estágio da simples comunicação. Agora sabíamos utilizar todas as fórmulas da conversação esmerada.
Um pequeno aparelho de rádio mantinha-nos em contacto com o mundo
exterior. Tinha-me sido oferecido por um dos ministros, que me pediu que lhe transmitisse todas as notícias políticas, particularmente as que estivessem relacionadas com a Ásia Central. Provocava uma sensação irreal conseguir uma recepção tão nítida a partir desta pequena caixa. Era preciso lembrarmo-nos de que em Lassa não havia dentistas com as suas brocas eléctricas, nem eléctricos, nem cabeleireiros com todos os seus aparelhos eléctricos — na verdade, nada que perturbasse o ouvinte de um receptor portátil.
A primeira coisa que eu fazia todos os dias era ouvir as notícias e muitas
vezes dava por mim a sacudir a cabeça, perplexo com as coisas a que o homem parecia dar importância. Aqui é o passo do iaque que dita o ritmo da vida, e tem sido assim ao longo de milhares de anos. Será que o Tibete ficaria feliz com transformações? Uma auto-estrada para a índia iria sem dúvida melhorar imenso o nível de vida, mas ao acelerar o ritmo da existência poderia roubar ao povo a sua paz e o seu lazer. Não se deveria forçar um povo a introduzir invenções que estão muito adiantadas em relação ao seu estágio de evolução. Eles têm um bonito provérbio aqui — «Não se pode chegar ao quinto andar do Potala sem começar pelo rés-do-chão.
A questão é saber se a cultura e o modo de vida tibe-tanos não
compensam mais do que as vantagens das técnicas modernas. Haverá no Ocidente algo semelhante à perfeita cortesia deste povo? Aqui ninguém é desacreditado e a agressividade é desconhecida. Os próprios inimigos políticos tratam-se com consideração e educadamente e cumprimentam-se cordialmente quando se encontram na rua. As mulheres das classes superiores são cultas e elegantes, as suas roupas reflectem o seu bom gosto e são perfeitas anfitriãs. As pessoas teriam considerado perfeitamente normal se nós, solteiros, tivéssemos trazido uma ou mais mulheres para governarem a nossa casa. Os nossos amigos sugeriram, de facto, que deveríamos ter pelo menos uma companhia feminina. Em momentos de solidão ponderei muitas vezes a ideia mas, por mais atraentes que achasse muitas das raparigas, não conseguia decidir-me a comprometer-me. Havia poucos aspectos de comunhão espiritual e sem eles uma vida a dois não me teria satisfeito. Gostaria imenso de ter trazido uma esposa de casa, mas inicialmente não tinha dinheiro para isso e mais tarde foi a política que interveio.
Por isso eu vivia sozinho, e a minha independência provou ser uma
grande vantagem quando posteriormente encetei uma amizade pessoal com o Dalai Lama. Os monges teriam desaprovado ainda mais os nossos encontros se eu fosse casado, pois vivem em severo celibato e estão proibidos de ter quaisquer contactos com mulheres. Infelizmente, a homossexualidade é muito comum e é inclusivamente perdoada, mais uma prova irrefutável de que as mulheres não têm lugar na vida dos monges que o praticam. Também acontece frequentemente monges apaixonarem-se por mulheres e pedirem para serem libertados dos seus votos para poderem casar, o que é concedido sem dificuldade. Quando um monge deixa uma ordem sagrada, se for um nobre de berço assume na sociedade civil um posto equivalente ao que tinha no convento; se for de origem humilde perde o seu título mas geralmente pode tor-nar-se comerciante. São aplicadas penas severas aos monges que se envolvem com mulheres sem antes terem pedido permissão para deixar a ordem.
Apesar da minha solidão voluntária descobri que o tempo passava muito
rápido. As minhas horas de lazer eram ocupadas com leitura e com visitas. Aufschnaiter e eu visitávamo-nos um ao outro frequentemente desde que tínhamos deixado de viver juntos. Precisávamos de trocar ideias. Não estávamos completamente satisfeitos com as nossas actividades e às vezes interrogávamo-nos se não poderíamos aproveitar melhor o nosso tempo. Havia tanto por fazer em termos de explorar esta terra praticamente virgem. Muitas vezes pensávamos em sair de Lassa e vaguear através do interior, como já uma vez tínhamos feito, como pobres peregrinos de localidade em localidade e assim ficar a conhecer o Tibete como jamais algum europeu conhecera. Aufschnaiter estava sempre a sonhar com a ideia de passar um ano junto ao Namtso, o grande e misterioso mar interno, e estudar as suas marés.
A nossa vida no Tibete gradualmente perdeu a sensação de novidade, mas
isso não nos impedia de compreender a sorte de podermos estar aqui. Os departamentos governamentais davam-nos com frequência cartas para traduzir vindas de todas as partes do mundo, e escritas por pessoas das mais variadas profissões. Eram principalmente pedidos de permissão para entrar no país. Muitos dos candidatos ofereciam-se para trabalhar para o governo em troca de alojamento e alimentação, de maneira a poderem conhecer o país. Outros eram pessoas que sofriam de tuberculose e tinham esperanças de se curarem com os ares de montanha do Tibete. A estes últimos respondia-se sempre transmitindo a bênção e os votos de felicidade do Dalai Lama e às vezes enviando um presente em espécie. Nunca era enviada resposta aos outros pedidos e ninguém recebia permissão para entrar no Tibete. A política inalterável era apresentar o Tibete como a Terra Proibida.
Os estrangeiros que conheci durante a minha permanência de cinco anos
em Lassa não eram mais do que sete.
Em 1947, por recomendação da Legação Britânica, foi oficialmente
convidado um jornalista francês chamado Amaury de Riencourt. Ficou três semanas em Lassa. Um ano mais tarde chegou de Roma o Professor Tucci, o famoso tibetólogo. Era a sua sétima visita ao Tibete, mas a primeira a Lassa. Era a maior autoridade em história e civilização do Tibete, e tinha traduzido vários livros tibetanos e publicado vários originais. Conseguia surpreender chineses, ne-paleses, indianos e tibetanos com o seu conhecimento da história desses países. Encontrei-o frequentemente em festas e certa ocasião colocou-me numa posição delicada perante uma enorme audiência ao tomar o partido dos tibetanos contra mim numa discussão sobre o formato da Terra. No Tibete, a crença tradicional é a de que a Terra tem o formato de um prato. Isto estava a ser discutido na festa e eu defendi a teoria de que a Terra é esférica. Os meus argumentos pareciam estar a convencer os tibetanos e eu apelei ao Professor Tucci para que me apoiasse. Para minha grande surpresa ele adoptou uma atitude céptica, afirmando que na sua opinião os cientistas deviam rever as suas teorias continuamente, e que um dia a doutrina tibetana poderia perfeitamente revelar-se verdadeira! Toda a gente riu baixinho pois era sabido que eu dava lições de Geografia. O Professor Tucci ficou oito dias em Lassa e depois partiu numa visita ao mais famoso templo do Tibete, Samye; após o que deixou o país, levando consigo amostras científicas e muitos livros valiosos da Imprensa do Potala.
Outros visitantes interessantes em Lassa foram os americanos Lowell
Thomas e o seu filho, em 1949. Também permaneceram por uma semana e participaram em muitas recepções em sua honra. Tiveram uma audiência com o Dalai Lama. Ambos tinham câmaras de filmar e registaram esplêndidas imagens. O filho escreveu um best—seller de estilo bajulador e sensacionalista e o pai, um comentador radiofónico nos E.U.A., fez gravações para os seus futuros programas. Eu invejava sobremaneira o seu esplêndido equipamento fotográfico e especialmente a sua abundância de película. Mais ou menos por essa altura eu tinha-me associado a Wangdúla na compra de uma Leica, mas estávamos totalmente desprovidos de película. Os americanos ofereceram-me dois rolos a cores, os primeiros e únicos que tive.
Nesta altura, a conjuntura política tinha contribuído para uma resposta
favorável ao pedido de admissão dos dois americanos no Tibete. A atitude ameaçadora da China, embora habitual, intensifícara-se. Todos os governos chineses, quer imperialistas, quer nacionalistas ou comunistas, tinham sempre considerado o Tibete uma província chinesa. Esta pretensão era absolutamente contrária aos desejos dos tibetanos, que amavam a sua independência e tinham claramente direito a ela. Consequentemente, o governo tinha decidido admitir os dois americanos para organizar uma campanha publicitária a nível mundial a favor da independência do Tibete.
Para além destes quatro convidados do governo, vieram ao Tibete um
engenheiro inglês e um mecânico numa missão profissional. O engenheiro fora contratado pela Companhia Geral de Electricidade para instalar novas máquinas na central. Falou muito bem do trabalho já realizado por Aufschnaiter. O mecânico, Nedbailoff, era um russo que vagueava pela Ásia desde a Revolução. Tinha finalmente ido parar a Dehra-Dun e, em 1947, estava prestes a ser repatriado para a Rússia. Para salvar a vida, tinha fugido para o Tibete mas tinha sido recapturado na fronteira. Finalmente, decidiram permitir-lhe ficar em Sikkim já que se tratava de um mecânico profissional. Daí foi convocado para Lassa a fim de reparar as máquinas da antiga central eléctrica, mas poucos meses depois da sua chegada os exércitos da China Vermelha invadiram o Tibete e mais uma vez teve de fugir. Acredito que acabou por ir parar à Austrália. A sua vida era uma fuga contínua. Era um aventureiro nato e parecia imune aos perigos e provações.
A declaração de independência da índia determinou o destino da Legação
Britânica em Lassa. O pessoal inglês foi substituído por indianos, mas o Sr. Richardson ficou até Setembro de 1950, pois os indianos não tinham nenhum candidato qualificado para o cargo. Reginald Fox foi contratado pelo governo tibetano como operador de rádio. Recebeu instruções para instalar postos de rádio em todos os pontos estratégicos, pois o receio de uma invasào-surpresa pelas forças da China comunista aumentava diariamente. Era necessário um homem de confiança para Chamdo, um ponto vital no Tibete Oriental, e Fox trouxe um jovem inglês chamado Robert Ford, que pouco depois conheci em Lassa. Adorava dançar e introduziu o samba em Lassa. Dançava-se bastante nas festas tibetanas. As danças nacionais, parecidas com as das estepes do nordeste, eram as mais populares mas o foxtrot também era apreciado, apesar de ser encarado com apreensão pelos mais velhos, que achavam impróprio que os pares dançassem tão agarrados.
Ford partiu com uma grande caravana para Chamdo e em breve podia-se
falar com ele através do radiotrans-missor. Parece que rádio-amadores de todo o mundo competiam pelo privilégio de falar com o solitário europeu no seu remoto posto, e Ford e Fox recebiam montanhas de cartas e presentes. Infelizmente, os apontamentos que Ford fez destas conversas inofensivas mais tarde revelaram-se um erro. Quando fugia aos invasores chineses foi interceptado e capturado. Foram levantadas contra ele as acusações mais absurdas, entre outras a de envenenar um Lama e os apontamentos nos seus cadernos foram interpretados como espionagem. Este simpático e inocente jovem ainda é prisioneiro dos Vermelhos, não obstante todos os esforços do embaixador britânico em Pequim para o libertar.
Conheci um outro branco durante a minha permanência no Tibete — o
americano Bessac. Mais adiante relatarei o que lhe aconteceu.
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