Sete Anos no Tibet
7 a Cidade Proibida
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Entretanto tinha chegado a Primavera e o tempo agradável e quente,
embora fosse apenas o princípio de Fevereiro. Lassa fica a sul do Cairo, e a altitudes elevadas os raios solares parecem sensivelmente mais fortes. Sentía-mo-nos muito bem mas faltava-nos uma ocupação permanente. A nossa vida reduzia-se a convites diários e visitas e banquetes que duravam horas, enquanto éramos passados de mão em mão como animais estranhos. Em pouco tempo estávamos fartos desta vida ociosa e ansiávamos por trabalho e desporto. Para além de um pequeno campo de basquetebol, Lassa não tinha infra-estruturas para jogos. Os jovens tibetanos e chineses que o jogavam ficavam muito contentes quando nos oferecíamos para jogar com eles. Também havia duches de água quente na praça, mas um simples duche custava dez rupias — um preço exorbitante se levarmos em conta que uma ovelha não custa mais.
Disseram-nos que há alguns anos atrás existira um campo de futebol na
cidade. Havia onze equipas e um campeonato. Um dia, durante uma partida ocorreu uma tempestade de granizo que causou imensos prejuízos, e por causa disso o futebol foi proibido. Talvez o Regente desaprovasse o desporto, muito provavelmente por o considerar uma ameaça à influência da Igreja, pois a população era entusiasta do jogo e muitos monges de Será e Drebung assistiam às partidas. De qualquer forma, a tempestade foi interpretada como um sinal de que os deuses desaprovavam este frívolo desporto, e o futebol foi abolido.
A propósito desta história, perguntámos aos nossos amigos se realmente
existiam Lamas que podiam deter tempestades de granizo ou convocar aguaceiros, uma crença fortemente difundida no Tibete. Em todos os campos há torres de pequenas pedras que contêm oferendas de conchas nas quais queimam incenso quando uma tempestade se aproxima. Na verdade, muitas aldeias têm o seu curandeiro oficial, habitualmente monges que gozam da reputação de terem poderes especiais para controlar as condições atmosféricas. Para executar o seu ritual mágico, sopram em conchas que fazem um som vibrante. Em muitas das aldeias de montanha tocam os sinos da igreja quando uma tempestade se aproxima, e o efeito destas conchas pode ser comparado à vibração dos sinos. Mas é claro que os tibetanos não reconhecem nenhuma explicação física — para eles é tudo mágica e feitiço e diversão dos deuses.
Contaram-nos uma bela história do tempo do décimo terceiro Dalai Lama,
que naturalmente tinha o seu feiticeiro da chuva, o feiticeiro mais famoso que já se conheceu. A sua especialidade era proteger o jardim de Verão do Rei Divino das tempestades. Um belo dia uma forte tempestade de granizo assolou o jardim destruindo todas as flores e arruinando a fruta madura. O curandeiro foi convocado à presença do Buda Vivo, que resmungava sentado no seu trono e que ordenou ao apavorado mágico que realizasse um milagre imediatamente, caso contrário seria demitido e castigado. O homem pros-trou-se a seus pés e pediu uma peneira — apenas uma peneira comum. Perguntou então ao Sagrado se ficaria satisfeito se deitasse a água na peneira e ela não vertesse do outro lado. O Dalai Lama assentiu — e a água que foi deitada na peneira não verteu. A reputação do mágico ficou salva e foi autorizado a manter o seu emprego.
Durante todo este tempo dávamos voltas à cabeça para encontrar uma
forma de ganhar a vida enquanto estávamos em Lassa. Até à data éramos tratados com toda a generosidade, recebendo encomendas de tsampa, farinha, manteiga e chá. Uma agradável surpresa foi receber 500 rupias do sobrinho de Kabshõpa como oferta do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Na nossa carta de agradecimento dissemos que estávamos preparados para trabalhar para o governo em troca de alimentação e alojamento.
Há três semanas que usufruíamos da hospitalidade de Thangme. Agora o
abastado Tsarong convidava-nos a ficar com ele e aceitámos com gratidão. Thangme tinha quatro filhos e precisava do nosso quarto. Tinha-nos tirado da rua quando éramos pobres vagabundos e provara ser um bom amigo. Nunca esqueceremos a sua bondade. Por altura do Ano Novo foi o primeiro a receber écharpes brancas da nossa parte; e mais tarde, quando eu já tinha a minha casa, era um convidado habitual das minhas festas de Natal.
Em casa de Tsarong deram-nos um amplo quarto com mobiliário europeu,
uma mesa, poltronas, camas e luxuosas carpetes. Na porta ao lado tínhamos um pequeno quarto para nos lavarmos. Também encontrámos algo cuja falta sentíramos muito — uma retrete para alívio da natureza. Neste aspecto os habitantes do Tibete são descontraídos ao máximo e qualquer lugar é considerado uma latrina apropriada.
Tsarong podia dar-se ao luxo de ter vários cozinheiros. O seu chef tinha
trabalhado vários anos no melhor hotel de Calcutá e entendia de culinária europeia. As suas carnes assadas eram maravilhosas e para além disso era um excelente pasteleiro. Um dos outros cozinheiros tinha sido enviado para a China e voltara com um repertório de pratos chineses. Tsarong gostava de impressionar os seus convidados com iguarias desconhecidas. Ficámos surpreendidos ao reparar que nas melhores casas as mulheres nunca eram cozinheiras — apenas ajudantes.
O horário das refeições no Tibete não é bem como o nosso. De manhã
cedo bebe-se chá tibetano e muito mais vezes ao longo do dia. Ouvi falar em pessoas que bebiam duzentas chávenas num só dia, mas será um exagero. Há duas refeições principais durante o dia, uma às dez da manhã e outra ao fim da tarde. A primeira compõe-se de um prato de tsampa e alguns acompanhamentos, e tomávamo-la juntos no nosso quarto. Para a refeição da noite éramos geralmente convidados a juntar-nos ao nosso anfitrião. A família toda sentava-se à volta de uma mesa grande e eram servidos muitos pratos; esta refeição era o principal momento do dia, durante o qual toda a gente se reunia e discutia os acontecimentos do dia.
Depois do jantar sentávamo-nos todos na sala de estar, que com os seus
numerosos tapetes, armários e estatuetas parecia atravancada. Fumávamos cigarros e bebíamos cerveja. Também tínhamos oportunidade de admirar as aquisições mais recentes do nosso anfitrião, pois comprava sempre algo de novo. Tinha um maravilhoso tran-sístor portátil que captava todas as estações do mundo. A sintonia era excelente, pois no «tecto do mundo» não existe interferência atmosférica. Depois havia os últimos discos para ouvir, uma máquina de filmar para inspeccionar, um novo aparelho que ampliava fotografias, e uma noite desembrulhou um teodolito! Tsarong estava perfeitamente familiarizado com todos estes instrumentos. Suponho que tinha mais passatempos do que qualquer outra pessoa na cidade. Não poderíamos ter desejado um melhor lar do que a sua casa. Coleccionava selos e mantinha correspondência com gente de todas as partes do mundo — o seu filho sabia inglês e ajudava-o nesta tarefa; possuía também uma biblioteca bem seleccionada, incluindo uma esplêndida colecção de livros ocidentais, muitos dos quais eram ofertas, pois todo o europeu que vinha a Lassa ficava em sua casa e a maioria deles deixava livros como recordação da sua visita.
Tsarong era um homem extraordinário. Tinha-se empenhado
constantemente em introduzir reformas, e sempre que o governo se deparava com um problema importante era chamado para dar o seu parecer. Era responsável pela única ponte de ferro do país, que mandara construir na índia, sendo transportada peça por peça para o Tibete por iaques e carregadores. Tsarong era um vencedor da mais moderna estirpe e a sua habilidade teria feito dele uma personalidade de destaque mesmo nos países ocidentais.
O seu filho George — tinha mantido o seu nome da escola indiana —
seguia os passos do pai. No nosso primeiro encontro tínhamos ficado impressionados com o seu conhecimento e variedade de interesses. Nesta altura a sua paixão era a fotografia e o seu trabalho merecia ser apreciado. Certa noite surpreendeu-nos com um filme a cores feito por ele. Estava tão bem realizado e tão pouco ruidoso que à primeira vista parecia que estávamos num cinema de primeira classe. Contudo, depois ocorreram problemas com o motor e a bobina, que Aufschnaiter e eu ajudámos a consertar.
Os nossos jantares com Tsarong e os livros que ele e a Legação Britânica
nos emprestavam constituíam a nossa única forma de entretenimento nocturno. Em Lassa, não havia cinemas ou teatros, nem sequer hotéis ou bares. A vida social estava reduzida às casas particulares.
Passávamos os dias a recolher impressões, pois receávamos ter de partir
antes de ter visto tudo. Não havia motivos para apreensão, mas achávamos que não poderíamos contar com o apoio dos nossos amigos no caso de haver problemas, pois já tinham feito muito por nós. Tínhamos ouvido várias vezes uma história que soava como um aviso. Um professor inglês tinha sido convidado pelo governo para criar em Lassa uma escola do tipo europeu e tinha assinado um contrato a longo prazo. Ao fim de seis meses fez as malas e foi-se embora. Os monges reaccionários conseguiram minar a sua tarefa.
Continuámos a retribuir visitas diariamente — muita gente tinha-nos visitado — e assim adquirimos um bom conhecimento da vida doméstica dos tibetanos. Havia um aspecto em que podíamos comparar favoravelmente os habitantes de Lassa com os das nossas cidades: tinham sempre tempo.
O Tibete ainda não foi contaminado pela pior doença da vida moderna, a
pressa constante. Aqui ninguém faz horas extras e os funcionários têm uma vida calma. Chegam ao escritório a meio da manhã e regressam a casa a meio da tarde. Se um funcionário tem visitas ou outra razão para não ir trabalhar, simplesmente manda um criado ter com um colega e pede-lhe para o substituir.
As mulheres nada sabem sobre igualdade de direitos e estão perfeitamente
felizes assim. Passam horas a maqui-Ihar-se, a apertar os seus colares de pérolas, a escolher um novo tecido para vestidos e a pensar como ofuscar as outras na próxima festa. Não têm que preocupar-se com as tarefas domésticas, todas feitas por criados. Mas para mostrar que são as senhoras da casa, trazem sempre um enorme molho de chaves (em Lassa qualquer bugiganga é guardada e fechada a sete chaves).
Depois há o 1 mdh-jong, que em tempos foi uma paixão universal. As
pessoas estavam simplesmente fascinadas e jogavam dia e noite, negligenciando tudo o mais — deveres oficiais, tarefas domésticas e família. As apostas eram
frequentemente muito altas e toda a gente jogava — até os criados, que por vezes perdiam em poucas horas as quantias que tinham levado anos a amealhar. Por fim o governo achou que era demais. Proibiu o jogo, comprou todos os conjuntos de mah-jong e impôs pesadas multas e trabalhos forçados aos infractores. E conseguiram erradicá-lo! Para meu espanto, embora toda a gente resmungasse e ansiasse por jogar novamente, respeitaram a proibição. Depois do mah-jong ter sido abolido, gradualmente tornou-se evidente como tudo o mais tinha sido negligenciado durante a epidemia. Aos sábados — o dia de descanso — as pessoas jogavam agora xadrez ou 2 balma ou ocupavam-se inofensivamente com jogos de palavras ou puzzles.
A 16 de Fevereiro fez precisamente um mês desde a nossa chegada a
Lassa. O nosso destino ainda estava por decidir: não tínhamos trabalho e preocupávamo-nos com o nosso futuro. Nesse mesmo dia Kabshõpa veio ter connosco com um olhar muito solene, como enviado do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Pela sua expressão pressentimos que trazia más notícias. Disse-nos que o governo não aprovava a nossa permanência no Tibete e que deveríamos seguir prontamente para a índia. No nosso íntimo sempre tivéramos consciência dessa possibilidade mas ficávamos desconcertados com a realidade. Começámos a protestar, mas Kabshõpa encolheu os ombros e disse-nos que deveríamos fazê-lo a um nível mais elevado.
A nossa reacção a esta pesarosa notícia foi recolher todos os mapas do
Tibete Oriental que conseguimos encontrar em Lassa. De noite dedicámo-nos a traçar uma rota e a fazer planos. Duma coisa tínhamos a certeza — arame farpado outra vez, não! Preferíamos fugir e tentar a nossa sorte na China. Tínhamos algum dinheiro e estávamos bem equipados. Não seria difícil conseguir mantimentos. Mas eu tinha que pensar na minha ciática, que não estava a melhorar. Aufschnaiter já tinha chamado o médico da Legação Britânica para me examinar, que me receitara alguns medicamentos e aplicara umas injecções, mas não tinham surtido efeito. Será que esta maldita doença ia arruinar os nossos planos? Sentia-me desesperado.
No dia seguinte, desalentado como estava, arrastei-me até à casa dos pais
do Dalai Lama. Pensámos que a sua intervenção poderia ajudar-nos. A «Grande Mãe e Lobsang Samten prometeram contar toda a história ao jovem Rei Divino e tinham a certeza de que ele iria interceder a nosso favor. Embora o jovem Dalai Lama ainda não tivesse quaisquer poderes executivos, a sua boa vontade certamente iria ser-nos útil. Entretanto, Aufschnaiter contactava os nossos conhecimentos com o objectivo de pôr a engrenagem a funcionar. E para que nenhuma precaução fosse descurada, compusemos uma petição em inglês na qual enumerámos todos os argumentos favoráveis à autorização da nossa permanência no Tibete.
O destino parecia conspirar contra nós pois subitamente a minha ciática
piorou tanto que eu não podia mexer-me. Tinha imensas dores e tive que permanecer na cama, enquanto Aufschnaiter corria pela cidade até criar calos nos pés.
A 21 de Fevereiro apareceram alguns soldados à nossa porta e disseram-
nos para fazermos as malas pois tinham ordens para nos escoltar até à índia. Deveríamos partir na manhã seguinte. Isto parecia ser o fim de tudo, mas como poderia eu viajar? Não conseguia sequer caminhar até à janela, como tentei demonstrar ao tenente, cujo rosto mostrava uma expressão de impotência. Como todos os soldados, ele tinha que obedecer a ordens e não estava qualificado para receber explicações. Fazendo um esforço para compor-me, pedi-lhe para explicar ao seu superior que eu não poderia sair de Lassa a menos que fosse transportado. Os soldados foram-se embora.
Recorremos imediatamente à ajuda e aos conselhos de Tsarong, mas ele
não tinha nada de novo para nós. Dis-se-nos que não se podia contrariar uma ordem do governo. Sozinhos no nosso quarto, amaldiçoámos a minha ciática. Se eu estivesse em forma nada nos impediria de escapar e teríamos partido nessa mesma noite. Preferíamos o sofrimento e o perigo aos mais confortáveis aposentos atrás do arame farpado. Como estava impossibilitado de caminhar decidi amargamente adoptar uma atitude de resistência passiva.
Mas na manhã seguinte não aconteceu nada — os soldados não vieram
nem houve notícias. Ansiosos, pedimos a presença de Kabshõpa, que veio pessoalmente e parecia embaraçado. Aufschnaiter explicou como eu estava doente e começou a discutir o problema. «Não seria possível, disse ele, com uma expressão séria, «chegar a um acordo?.
Entretanto, começámos a suspeitar de que os ingleses estavam por trás
desta história, tendo pedido ao Tibete para nos extraditar.
Compreendíamos que o Tibete era uma nação pequena e que era do seu
interesse manter um bom relacionamento com os seus vizinhos. Para quê arriscar um desentendimento com a Inglaterra por causa de um assunto tão insignificante como um par de alemães prisioneiros de guerra? Assim, Aufschnaiter propôs que o médico inglês, presentemente Secretário Geral da Legação, emitisse um atestado sobre a minha condição. Kabshõpa aceitou a sugestão com tanta prontidão que nós, com uma troca de olhares, tivemos a certeza de que as nossas suspeitas eram justificadas.
O médico visitou-me no decorrer do dia e informou—me que o governo
deixara a seu cargo a decisão relativa à data da nossa partida. Aplicou-me injecções que não melhoraram nada. Recebi mais conforto do presente que Tsa-rong me deu, alguma lã termogénea.
Agora dedicava-me a superar a minha doença, pois não deveria atrapalhar
mais os nossos planos. Exercendo toda a minha força de vontade, forcei-me a mim próprio a fazer exercícios todos os dias. Um Lama tinha-me recomendado que rolasse um pau para trás e para a frente com as plantas dos pés. Fazia isto durante horas todos os dias, sentado numa cadeira. O exercício era extremamente doloroso, mas a minha condição melhorou gradualmente e conseguia ir até ao jardim e aquecer-me, como um velho, ao sol da Primavera.
Estávamos agora em plena Primavera. Março tinha começado e no dia
quatro iniciou-se o Festival do Ano Novo — a maior das festas tibetanas, que dura semanas. Ai! Eu não poderia participar. Ouvia à distância os tambores e os trombones e pela excitação que reinava na casa via como tudo isto era importante. Tsarong e o seu filho vinham visitar-me todos os dias e exibir os seus esplêndidos robes novos de seda e brocados. Aufschnaiter, claro, ia a toda a parte e à noite contava-me tudo.
Este era o «Ano do Cão de Fogo. A 4 de Março (ou numa data próxima, já
que o Ano Novo tibetano é flexível, à semelhança da nossa Páscoa) o Magistrado da Cidade entrega a sua autoridade aos monges — simbolizando a devolução do ofício pelo poder secular à religião, a quem originalmente pertencia. Isto marca o princípio de um rígido e formidável regime. Para começar, toda a cidade é limpa e durante esta época Lassa é famosa pelo seu asseio — o que não é habitual. Simultaneamente é proclamada uma espécie de trégua civil. Todos os conflitos param. Os escritórios públicos são encerrados, mas o comércio de rua torna-se mais animado do que nunca, excepto durante as procissões do festival. Crimes e outras ofensas, incluindo o jogo, são punidos com especial severidade. Os monges são juízes implacáveis e estão acostumados a infligir açoi-tamentos assustadores que ocasionalmente provocam a morte da vítima (embora seja verdade que o Regente intervém em tais casos punindo os responsáveis).
Nós parecíamos ter sido esquecidos no meio de todas estas celebrações e
tínhamos cuidado para não atrair as atenções. O governo provavelmente estava satisfeito com a declaração do médico inglês sobre a minha impossibilidade de viajar. Estávamos a ganhar um tempo precioso. O ideal seria eu recuperar e então talvez pudéssemos concretizar a nossa fuga para a China.
Tomava banhos de sol no jardim dia após dia e apreciava o calor que
aumentava, por isso foi ainda maior a minha surpresa quando uma manhã acordei e deparei com toda a verdura da Primavera mergulhada em neve. Nesta altura do ano é muito raro cair neve em Lassa, que se situa tão profundamente no coração da Ásia que as depressões atmosféricas raramente a atingem. Mesmo durante o Inverno a neve não dura por muito tempo. Nesta ocasião, derreteu pouco depois. De certa forma foi conveniente, pois ao transformar a areia e o pó em lama minimizou os incómodos causados pela tempestade de areia que se seguiu.
Estas tempestades ocorrem regularmente na Primavera e continuam por
um período de aproximadamente dois meses. Geralmente atingem a cidade ao princípio da tarde. É possível observar a sua aproximação a uma rapidez incrível, envoltas numa enorme nuvem preta. O Palácio Pota-la desaparece e imediatamente toda a gente foge para casa. A vida nas ruas pára, as janelas rangem, e os animais nos campos resignadamente viram as caudas contra o vento e esperam pacientemente até poderem recomeçar a pastar. Os inúmeros cães vadios amontoam-se nas esquinas. (Habitualmente não são tão pacíficos. Um dia Aufschnaiter voltou para casa com o capote rasgado — tinha sido atacado por cães, que tinham matado e devorado um cavalo ainda moribundo; a matilha já tinha provado sangue.)
O período das tempestades de areia é a altura mais desagradável do ano.
Mesmo dentro de um quarto fica-se cheio de areia entre os dentes pois não há janelas duplas em Lassa. A única consolação que se obtém destas tempestades primaveris é saber que o Inverno realmente acabou. Todos os jardineiros sabem que daí em diante já não têm que temer mais geada. Nesta época, os prados ao longo dos canais recebem a sua primeira camada de verde e o «cabelo de Buda começa a florescer. É assim que chamam ao famoso salgueiro chorão junto ao portão da catedral. Na Primavera, os ramos delgados e pendentes com delicadas flores amarelas dão verdadeiro significado a este nome poético.
Assim que pude começar a coxear novamente pelas redondezas estava
ansioso por me tornar útil de qualquer forma. Tsarong tinha plantado centenas de pequenas árvores de fruta no seu jardim. Todas elas tinham crescido e até agora não tinham dado fruto. Acompanhado por Geor-ge (o filho do meu anfitrião), agora dedicava-me a enxertá-las sistematicamente. Isto deu à família novos motivos para risota. No Tibete, a prática de enxerto é quase desconhecida e não existe uma palavra para a descrever. Chamam-lhe «casamento e acham tudo muito divertido.
Os tibetanos são um povo feliz cheio de um humor infantil. Ficam gratos
por qualquer oportunidade para rir. Se alguém tropeça ou escorrega é motivo para riso durante horas. O prazer com o azar dos outros é quase universal mas, de alguma forma, não é mal intencionado. Satirizam tudo e todos. Como não têm jornais, veiculam o seu criticismo sobre acontecimentos inconvenientes ou pessoas reprováveis através de canções e sátiras. Rapazes e raparigas passeiam ao longo da Barkhor à noite cantando os seus versos. Mesmo as mais destacadas personagens têm que estar preparadas para serem feitas em bocados. Às vezes o governo proscreve uma cantiga em particular, mas ninguém é punido por a cantar. Deixa de ser cantada em público mas passa a ser ainda mais ouvida em particular.
A Barkhor é mais frequentada no Ano Novo. Esta rua forma um círculo à
volta da Catedral e é aí que está concentrada a maior parte da vida da cidade e muitas das grandes casas comerciais; é aqui que começam e acabam todas as procissões militares e religiosa. Ao anoitecer, especialmente nos feriados nacionais, cidadãos devotos enchem a Barkhor murmurando as suas preces, e muitos dos fiéis cobrem toda a sua distância de rastos. Mas nem só a religiosidade está representada na Barkhor. Também se encontram bonitas mulheres exibindo os seus vestidos e namoriscando com a jovem nobreza. Damas de vida fácil também lá estão a título profissional.
Em suma, a rua Barkhor é um centro de negócios, sociabilidade e
futilidade.
A 15 do primeiro mês tibetano eu já tinha melhorado tanto que também
podia participar nas festividades. Nesse dia realiza-se uma imponente procissão na qual o Dalai Lama participa. Tsarong tinha-nos prometido uma janela numa das suas casas com vista para a Barkhor. Os nossos lugares eram no rés-do-chão pois ninguém é autorizado a ficar a um nível superior ao das cabeças dos nobres, que marcham a passos regulares ao longo da rua. Nenhuma casa em Lassa pode ter mais de dois andares pois é blasfémia competir com a Catedral ou o Potala. Esta regra é estritamente observada e as cabanas de madeira — facilmente desmontáveis — que alguns nobres montam nos telhados planos das suas casas durante o Verão desaparecem como que por magia quando o Dalai Lama ou o Regente participam numa procissão.
Enquanto a multidão vivamente colorida passava pelas ruas, sentámo-nos
à janela com a Sra. Tsarong, uma simpática senhora idosa que sempre nos tinha acarinhado. Estávamos muito contentes com a sua companhia neste ambiente completamente estranho e a sua voz familiar e amiga explicava-nos todas as novidades com que os nossos olhos se deparavam.
Vimos uns estranhos objectos com aspecto de estruturas que se erguiam
do chão a uma altura de nove metros ou mais. Disse-nos que era para as imagens de manteiga. Pouco depois do pôr-do-sol traziam estas obras de arte feitas em manteiga pelos monges. Existem departamentos nos mosteiros onde monges particularmente talentosos, verdadeiros artistas na sua especialidade, amassam e modelam imagens em manteiga de diferentes cores. Este trabalho, que exige uma paciência inesgotável, frequentemente é feito em delicada filigrana. Há uma competição na produção destas obras-primas de uma só noite, pois o governo atribui um prémio à melhor. Por muitos anos o templo de Gyu tem sido o vencedor. Em breve, a fachada da rua Barkhor estaria encoberta por estas pirâmides de manteiga alegremente coloridas. À sua frente seguia uma interminável multidão e nós interrogávamo-nos se conseguiríamos ver alguma coisa. Começava a escurecer quando os regimentos de Lassa iniciaram a sua marcha ao som de clarins e tambores. Alinharam-se ao longo da rua e pressionaram os espectadores contra as casas para deixar o caminho livre.
A noite caiu rapidamente, mas logo o cenário foi brilhantemente
iluminado por inúmeras luzes. Havia milhares de lamparinas de manteiga que tremeluziam e alguns candeeiros a petróleo com o seu assustador clarão de luz. A lua surgiu sobre os telhados para iluminar ainda melhor os acontecimentos. Os meses no Tibete são lunares e por isso era lua cheia no dia 15. Tudo estava pronto: o palco estava preparado e o grande festival já podia começar. As vozes da multidão silenciaram-se com a expectativa. O grande momento tinha chegado.
As portas da Catedral abriram-se e o jovem Rei Divino saiu acompanhado
à direita e à esquerda por dois abades. O povo curvou-se em adoração; de acordo com o cerimonial deveriam prostrar-se, mas hoje não havia espaço. A medida que ele se aproximava, curvavam-se como um campo de milho perante a força do vento. Ninguém se atrevia a olhar. Com passos regulares, o Dalai Lama começou o seu solene circuito pela Barkhor. De vez em quando parava diante das imagens de manteiga e admirava-as. Era seguido por um brilhante séquito de altos dignatários e nobres. A seguir vinham os funcionários por ordem de importância. Reconhecemos o nosso amigo Tsarong, que seguia de perto atrás do Dalai Lama. Como todos os nobres, levava na mão incenso a arder.
A multidão mantinha-se silenciosa em sinal de respeito. Apenas a música
dos monges se fazia ouvir — os oboés, as tubas e os tamboretes. Era como uma visão de outro mundo, um acontecimento estranho e irreal. Sob a luz amarela das lamparinas bruxuleantes as grandes imagens de manteiga moldada pareciam ganhar vida. Imaginamos ver estranhas flores atiradas pela brisa sobre as suas cabeças e julgámos ouvir o roçagar dos robes dos deuses. Os rostos destas portentosas imagens estavam distorcidos num esgar demoníaco. Então o Deus levantou a mão numa bênção.
Agora o Buda Vivo aproximava-se. Passou muito perto da nossa janela.
As mulheres vergaram-se numa profunda vénia e mal se atreviam a respirar. A multidão estava paralisada. Profundamente comovidos, escondemo-nos atrás das mulheres como que para nos protegermos de ser arrastados para o círculo mágico deste Poder.
Repetíamos para nós próprios: «É apenas uma criança. Uma criança, de
facto, mas o coração da fé concentrada de milhares, a essência das suas orações, das suas aspirações e esperanças. Seja em Lassa ou em Roma, todos são unidos por um só desejo: encontrar Deus e servi-Lo. Fechei os olhos e concentrei-me nas orações murmuradas, na música solene e no doce incenso que se elevava em direcção ao céu nocturno.
Pouco depois o Dalai Lama tinha completado o seu passeio pela Barkhor
e desaparecia no interior do Tsug Lag Khang. Os soldados afastaram-se marchando ao som das bandas.
Como se tivessem acordado de um sono hipnótico, os milhares de
espectadores passaram da ordem ao caos. A transição foi incrivelmente súbita. A multidão começou aos gritos e a gesticular freneticamente. Há um momento atrás estavam a chorar e a rezar ou mergulhados numa meditação estática, e agora formavam um tropel de loucos. Os monges-guardas entraram em acção. São uns tipos enormes com os ombros almofadados e as caras pintadas de preto para os tornar mais terríveis. Faziam estalar os seus chicotes mas a populaça espremia-se freneticamente à volta das estátuas de manteiga, que agora corriam o risco de cair. Mesmo aqueles que já tinham apanhado voltavam para a barafunda. Poderia pensar-se que estavam possuídos por demónios. Seriam realmente as mesmas pessoas que ainda agora se curvavam humildemente perante uma criança?
Na manhã seguinte as ruas estavam desertas. As imagens de manteiga
tinham sido levadas e não restavam quaisquer vestígios da reverência ou da euforia da noite anterior. Barracas do mercado ocupavam agora o lugar dos palanques que tinham carregado as estátuas. As brilhantes e coloridas imagens dos santos tinham derretido e seriam usadas como combustível para candeeiros ou transformadas em remédios mágicos.
1
Jogo chinês para quatro jogadores, que consiste em movimentar pequenas peças pintadas de madeira, osso ou outros
materiais. Um conjunto completo contém 152 peças divididas em 7 séries. Depois de misturadas as peças, cada jogador constrói um pequeno muro com duas filas de altura com a face das peças para baixo e todos juntam as suas peças para formar um quadrado. O objectivo é obter combinações (uma série de 4 peças idênticas). O primeiro a conseguir essas combinações ganha e os outros jogadores pagam-lhe de acordo com o valor das peças reunidas.
2
Jogo para o qual se utiliza um tabuleiro com 256 casas.
9 ASILO CONCEDIDO
Os nossos primeiros empregos — Desportos atléticos diante dos portões de Lassa — Uma população mista — Finalmente permitem-nos ficar.
Muitas pessoas vieram visitar-nos. Os tibetanos vinham de todos os lados
para assistirem ao Festival do Ano Novo em Lassa, entre eles muitas pessoas que tínhamos conhecido durante a nossa viagem. Não era difícil encontrarem-nos pois ainda éramos muito falados e qualquer criança sabia onde morávamos. Alguns trouxeram-nos presentes de carne seca, que é muito apreciada em Lassa. Ficámos também a saber que as autoridades cujos distritos tínhamos atravessado tinham sido severamente censuradas pelo governo. Deprimia-nos pensar que pessoas que nos tinham recebido tão amigavelmente tenham sofrido consequências tão desagradáveis por nossa causa. Mas parecia que não tinham ressentimentos contra nós. Encontrámos um Põnpo que tínhamos ludibriado com o nosso velho salvo-conduto e ele apenas se riu e parecia contente em nos rever.
As celebrações do Ano Novo não decorreram sem contratempos pois
ocorreu um acidente na Barkhor que atraiu muita atenção.
Todos os anos são erguidos altíssimos mastros de bandeira feitos de
pesados troncos encaixados uns nos outros. Estes troncos são trazidos de lugares distantes e transportá-los para Lassa é uma manobra complicada. E tudo feito de uma forma muito primitiva, e fiquei indignado quando vi, pela primeira vez, uma procissão destas a chegar. Fez-me lembrar os barqueiros do Volga. Cerca de vinte homens arrastam um tronco atado à cintura por cordas. Cantam uma toada monótona à medida que avançam, mantendo o passo acertado uns com os outros. Transpiram e ofegam, mas o capataz, que orquestra o coro, não lhes dá pausa para descanso. Este trabalho forçado é em parte uma substituição para o pagamento de impostos. Os carregadores são seleccionados nas aldeias ao longo da estrada e são dispensados quando chegam à próxima localidade. Os monótonos cânticos supostamente distraem as suas mentes da dureza da tarefa. Fariam melhor se poupassem o fôlego. A espécie de resignação fatalista com que se entregam a esta árdua labuta costumava enfurecer-me. Como filho da era moderna, eu não conseguia entender por que razão o povo do Tibete se opunha tão rigidamente a qualquer forma de progresso. Haveria de certeza melhor maneira de transportar estes fardos do que manualmente. Os chineses tinham inventado a roda e usavam-na há milhares de anos. Mas os tibetanos não queriam nada disso, embora o seu emprego tivesse representado um enorme impulso para o comércio e para o transporte e melhorado de uma forma geral o nível de vida em todo o país.
Mais tarde, quando eu estava envolvido em trabalhos de irrigação, fiz
várias descobertas que reforçaram a minha convicção de que os tibetanos tinham conhecido e usado a roda há muitos séculos atrás. Desenterrámos centenas de grandes blocos de pedra do tamanho de guarda-fatos e que só poderiam ter sido trazidos mecanicamente das remotas pedreiras de onde tinham sido talhados. Quando os meus trabalhadores queriam deslocar um destes blocos de um lado para outro, tinham primeiro que o partir em oito pedaços.
Cada vez mais me convencia de que os dias grandiosos do Tibete
pertenciam ao passado. Existe um obelisco datado de 763 d.C. e que confirma a minha teoria, pois regista o facto de nesse ano os exércitos tibetanos terem marchado até aos portões da capital chinesa e aí terem ditado aos chineses os termos de paz, que incluíam um tributo anual de cinquenta mil fardos de seda.
E há também o Palácio Potala, que deve datar da época áurea do Tibete.
Hoje em dia ninguém pensaria em erigir um edifício daqueles. Uma vez perguntei a um pedreiro que estava a trabalhar para mim por que já não se construíam tais edifícios. Respondeu indignado que o Potala era trabalho manual dos deuses. O homem nunca teria conseguido realizar nada parecido. Espíritos bons e seres sobrenaturais tinham trabalhado de noite neste maravilhoso templo. Esta opinião era mais um sintoma da indiferença ao progresso e à ambição que caracterizava a atitude dos homens que arrastavam os troncos.
Quando os troncos chegam a Lassa, são atados uns aos outros com tiras de
couro de iaque para formar um grosso mastro com quase vinte metros de altura. Pregam ao mastro uma enorme bandeira com orações inscritas que se estende desde o topo até à base. Nesta ocasião, os troncos que compunham o mastro eram provavelmente muito pesados para as tiras de couro pois soltaram-se e esmagaram mortalmente três pessoas e feriram várias outras. O Tibete inteiro interpretou o acidente como um mau presságio e o povo profetizou um futuro negro para o país, desde catástrofes, terremotos ou cheias. Os homens falavam de guerra e olhavam significativamente em direcção à China. Todos, mesmo aqueles que tinham tido uma educação inglesa, eram presas da superstição.
No entanto, não levaram os homens feridos neste acidente aos seus
Lamas, mas à Legação Britânica, onde havia um hospital com um determinado número de camas para tibetanos. O médico inglês tinha imenso trabalho. Todas as manhãs havia uma fila de clientes aguardando à sua porta, e à tarde visitava os seus pacientes na cidade. Os monges toleravam em silêncio esta intrusão no seu território. Dificilmente poderiam agir de outra forma, porque era impossível ignorar o sucesso do médico.
A política do governo em relação à medicina é um capítulo obscuro na
história do Tibete moderno. Os médicos das missões britânica e chinesa eram os únicos qualificados para uma população de três milhões e meio. O Tibete seria um rico campo de actividade para os médicos, mas o governo nunca consentiu que os estrangeiros exercessem. O poder estava todo nas mãos dos monges, que criticavam até funcionários do governo quando estes chamavam médico inglês.
Foi um óptimo presságio para o nosso futuro quando um alto funcionário
monástico convocou Aufschnaiter e o encarregou de construir um canal de irrigação. Não tínhamos palavras para expressar a nossa alegria! Era o nosso primeiro passo para uma vida estável em Lassa e eram os monges que nos davam a mão.
Aufschnaiter começou imediatamente a trabalhar nas suas medições. Eu
queria ajudá-lo já que ele não tinha um assistente treinado, e por isso dirigi-me ao seu local de trabalho em Lingkhor. Aguardava-nos uma cena indescritível: centenas, não, milhares de monges vestidos com os seus hábitos vermelhos estavam agachados a fazerem algo para o qual a privacidade é geralmente considerada essencial. Prosseguimos obstinadamente com o nosso trabalho sem olhar para a direita nem para a esquerda, mas prometemos a nós próprios sair daquela vizinhança o mais rapidamente possível.
Aufschnaiter fez bons progressos e em duas semanas estava pronto para
começar a escavar. Foram postos à sua disposição cento e cinquenta trabalhadores e começámos a sentirmo-nos como empreiteiros importantes. Mas ainda nos faltava aprender os métodos de trabalho praticados neste país.
Entretanto eu também tinha arranjado um trabalho. Ainda estava inválido,
e o jardim de Tsarong era o melhor lugar para um homem nas minhas condições; mas eu estava sempre a pensar no que poderia fazer para o tornar mais bonito. Então tive uma inspiração. Ia fazer um chafariz.
Tirei medidas e fiz desenhos e em breve tinha preparado uma bela planta.
Tsarong estava entusiástico. Escolheu os trabalhadores que iriam ajudar-me, e eu sentava-me confortavelmente ao sol e dirigia a minha equipa. Em pouco tempo instalaram os tubos subterrâneos e escavaram um tanque. Tsarong insistiu em ajudar pessoalmente na cimentação. Desde a montagem da famosa ponte de ferro que ele se tornara numa autoridade em cimento armado. Em seguida tivemos que construir uma cisterna no telhado da casa para abastecer o chafariz com água. Era um trabalho bastante pesado bombear a água para a cisterna, mas fiz da necessidade uma virtude e usei a bomba manual para treinar os músculos.
Por fim o grande momento chegou e pela primeira vez um jacto de água,
da altura da casa, esguichou do chafariz. Ficámos todos contentes como crianças. Este era o único repuxo no Tibete e de agora em diante era apièce de résistance das festas no jardim de Tsarong.
Novas impressões e uma invulgar actividade quase nos fizeram esquecer
as nossas preocupações. Um dia Thangme trouxe-nos um jornal em tibetano e mostrou-nos um artigo a nosso respeito, que relatava com um espírito solidário como tínhamos rompido as barreiras montanhosas e alcançado Lassa; e como agora pedíamos a protecção deste piedoso país neutro. Achámos que estas linhas amigáveis só poderiam ter uma influência favorável na opinião pública e esperávamos que pudessem dar alguma força à nossa petição. E verdade que o jornal em questão teria tido muito pouco impacto na Europa. Circulava uma vez por mês e era publicado em Kalimpong, na índia. A sua tiragem não excedia os quinhentos exemplares, mas era amplamente divulgado em certos círculos de Lassa e eram enviadas cópias individuais aos tibetólogos espalhados pelo mundo.
As celebrações do Ano Novo ainda não tinham acabado, apesar de já se
terem realizado as principais cerimónias. Agora aproximava-se a concentração atlética na Bar-khor diante do Tsug Lag Khang. Como já tinha sido atleta, estava particularmente interessado e todos os dias ao nascer do sol já me encontrava nos jogos que começavam de manhã cedo. Conseguimos assegurar lugares numa janela do segundo andar da Legação Chinesa, donde assistíamos bem escondidos atrás de uma cortina, pois era a única forma de contornar a ordem que proibia que alguém se sentasse acima do nível do chão na presença do Regente, que ficava instalado por trás de uma cortina de musselina no primeiro andar do Tsug Lag Khang. Os quatro ministros do Gabinete assistiam das janelas.
Os primeiros eventos foram combates de luta livre. Eu não conseguia
determinar se os métodos dos lutadores se assemelhavam mais à luta greco-romana ou ao estilo apa-nha-quem-puder. Obviamente tinham as suas regras. Aqui aplicava-se uma falta cada vez que qualquer parte do corpo sem ser os pés tocasse no chão. Não existem listas de concorrentes nem quaisquer avisos preliminares. Esten-de-se um tapete de feltro e homens saídos da multidão confrontam-se. Os lutadores usam apenas uma tanga e tremem com o ar frio da manhã. São indivíduos musculosos e bem constituídos. Pavoneiam-se em redor dos seus adversários com bizarros gestos de mímica e assumem um ar de coragem arrogante. Mas não têm noção da arte da luta livre e seriam facilmente derrotados por um verdadeiro lutador. Os assaltos acabam rapidamente e um novo par entra em cena. Nunca parece haver um verdadeiro esforço para vencer. Os vencedores não recebem nenhuma distinção especial, mas vencedores e perdedores recebem écharpes brancas. Fazem uma vénia ao Põnpo, que lhes entrega as écharpes com um sorriso benevolente, e prostram-se no chão três vezes em honra do Regente, regressando para o seio da multidão na melhor das camaradagens.
A seguir teve lugar uma competição de levantamento de pesos. O peso é
uma pedra lisa e pesada, que já deve ter participado em centenas de festivais do Ano Novo. Tem que ser levantada e carregada à volta do mastro da bandeira. Poucos conseguem realizar esta proeza. As pessoas riem-se à gargalhada quando um competidor se pavoneia até à pedra com um ar de presunçosa confiança e depois descobre que mal consegue levantá-la do chão; ou quando esta lhe escorrega das mãos, ameaçando esmagar-lhe os dedos dos pés.
Então subitamente ouve-se à distância o baque surdo do galopar de
cavalos. O levantamento de pesos termina. As corridas de cavalos estão a começar. Aí vêm os animais envoltos numa espessa nuvem de poeira. Nestas corridas não existe um percurso delineado. Os cavalos, sem cavaleiro, escolhem o seu próprio trajecto frequentemente através da multidão, que os monges-guardas tentam afastar com as suas mocas. Estas corridas, assim como alguns outros eventos, são difíceis de compreender. Os animais sem cavaleiro partem em manada de um local a alguns quilómetros da cidade e irrompem pelo meio do público excitado, que é forçado a afastar-se para os lados da pista para os deixar passar a caminho da meta. Só os cavalos de raça tibetana podem participar e cada cavalo traz no dorso um pano com o nome do dono. A competição entre as estrebarias é acirrada, mas quando o Dalai Lama ou um ministro têm um cavalo na competição, é óbvio que este tem que ganhar. Quando um cavalo desconhecido parece estar prestes a vencer um cavalo «oficial, os moços de estrebaria correm para o deter antes que possa alcançar a meta. As corridas são acompanhadas com enorme excitação. A multidão e os criados dos proprietários urram e gritam para encorajar os animais, enquanto os nobres senhores que possuem estes animais tentam manter uma pose digna.
Os cavalos passam num galope furioso a caminho da meta, que fica um pouco além nas traseiras da cidade.
A nuvem de poeira levantada pelos cascos dos cavalos ainda não
assentara e já chegavam, ofegantes, os primeiros corredores a pé. E que turba formavam! Qualquer um pode participar nas corridas, desde velhos a crianças. Aqui vinham eles — com os pés cheios de bolhas e a sangrar, sem fôlego e com os rostos distorcidos. Vê-se que nunca treinaram nas suas vidas. Muitos desistem antes de completarem o percurso de oito quilómetros, sem terem ganho nada com o seu esforço à excepção das gargalhadas dos espectadores.
Os últimos corredores ainda chegam a coxear quando começa o evento
seguinte. Desta vez é uma corrida de cavalos montados por cavaleiros vestidos com trajes históricos. São recebidos com gritos de entusiasmo e usam os seus chicotes brutalmente para obterem o máximo das suas montadas. A multidão agita os braços e grita, um cavalo escoiceia e o seu cavaleiro é lançado pelo ar para o meio dos espectadores. Ninguém liga. Esta é a última prova atlética do evento, e em seguida os vencedores aproximam-se, cada um com uma tabuleta de madeira indicando a sua ordem de chegada. Há aproximadamente cem corredores e praticamente o mesmo número de cavaleiros nas duas provas. Recebem écbarpes coloridas ou brancas dos juízes, mas os espectadores não aplaudem.
Para encerrar as actuações realiza-se uma prova de equitação num enorme
campo fora de Lassa. Apressámo-nos a seguir a multidão e ficámos contentes por sermos convidados por um nobre para a sua tenda. Estas tendas festivas constituem um maravilhoso cenário, montadas em fileiras organizadas por categoria hierárquica e cada uma recheada de acordo com o estatuto do seu dono. Muitas delas têm cortinados de seda e brocados e estão decoradas com esplêndidos ornamentos. Acrescente-se os belos robes dos homens e mulheres e obtém-se uma autêntica sinfonia de cores. Autoridades civis de quarta categoria ou superiores usam brilhantes robes de seda amarela com chapéus de aba larga em forma de prato e debruados com pele de raposa azul (estas peles vêm de Hamburgo! Os ti-betanos não consideram as suas raposas suficientemente boas).
A competição na elegância da indumentária não se limita às mulheres. Os
homens também participam. A sua paixão asiática pelos adornos coloca-os em contacto com várias partes do mundo. Assim, as raposas azuis vêm de Hamburgo, as pérolas cultivadas do Japão, as turquesas da Pérsia via Bombaim, os corais da Itália e o âmbar de Berlim ou Kõnisberg. Escrevo muitas cartas a pedido de nobres ricos destinadas a endereços em todo o mundo, encomendando este ou aquele artigo de luxe. Aqui, a pompa e a decoração são uma necessidade e esta ostentação ocorre privilegiadamente no vestuário e no recheio das casas. O povo comum não gosta do luxo para si próprio mas aprecia-o nos seus superiores.
Os grandes festivais são realmente uma ocasião para exibir pompa e
poder, e os altos dignatários sabem que devem oferecer ao povo a oportunidade de um bom espectáculo. No último dia da festa, os quatro membros do Gabinete de Ministros trocam os seus caros toucados pelos chapéus de franjas vermelhas dos seus criados para mostrarem por um momento a sua igualdade com o povo, e então o entusiasmo e a admiração do público ultrapassam todos os limites.
Esta prova de equitação é o mais popular de todos os espectáculos. É
provavelmente uma reminiscência das grandes paradas militares de outros tempos. No passado, os senhores feudais tinham por vezes que desfilar as suas tropas diante do seu suserano e assim mostrar a sua prontidão para a guerra: mas esse significado desapareceu há muito. Não obstante, há muitas características destes jogos que lembram os tempos de guerra de influência mongol, quando maravilhosos feitos equestres estavam na ordem do dia.
Tivemos oportunidade de assistir a algumas proezas incrivelmente
habilidosas dos cavaleiros tibetanos. Todas as famílias nobres inscrevem um certo número de participantes para estes jogos e naturalmente existe o maior interesse em escolher o melhor homem para que a equipa possa obter uma boa classificação final. Os concorrentes têm que exibir a sua habilidade como cavaleiros e como atiradores. Quando vi o que faziam, simplesmente não quis acreditar! Punham-se de pé na sela e enquanto os seus cavalos passavam a galope por um alvo pendurado, apontavam as suas espingardas e disparavam acertando no centro do alvo. Antes de chegarem ao alvo seguinte, a vinte metros de distância, já tinham trocado os seus mosquetes por arcos e flechas. O arqueiro a cavalo que acertava no alvo era aclamado com gritos de alegria. É incrível a destreza dos tibetanos em trocarem uma arma por outra.
Nestas festividades, o governo tibetano demonstra uma hospitalidade
típica, mesmo para com estrangeiros. Esplêndidas tendas de honra eram montadas para todas as missões estrangeiras, e criados e diplomatas asseguravam-se de que nada faltava aos seus convidados.
Reparei numa quantidade invulgar de chineses no campo de desporto.
Apesar de pertencerem à mesma família racial, são facilmente distinguíveis dos tibetanos. Os tibetanos não têm os olhos tão rasgados; têm um rosto simpático, traços finos e faces avermelhadas. Os ricos trajes chineses cederam lugar, em muitos casos, aos fatos europeus, e muitos chineses, nesta matéria mais progressistas do que os tibetanos, usam óculos. A maioria dos chineses em Lassa são comerciantes que mantêm prósperas relações comerciais com o seu país. Gostam de viver no Tibete e muitos fixam-se permanentemente em Lassa. Uma das razões para isto é que muitos deles são apaixonados fumadores de ópio, e no Tibete não existe uma proibição explícita do consumo de ópio. Às vezes o tibetano, seduzido pelo exemplo dos chineses, afeiçoa-se ao cachimbo de ópio. Se o fizer, provavelmente será punido. Não existe perigo de o consumo de ópio se tornar num vício nacional. A vigilância das autoridades é muito apertada. Fumar tabaco já é considerado um vício que eles controlam muito de perto; embora se possa comprar qualquer tipo de cigarros em Lassa, é proibido fumar nos escritórios, nas ruas e em cerimónias públicas. Quando os monges assumem o comando durante o festival do Ano Novo proíbem inclusivamente a venda de cigarros.