Sonho Azul: A luta pelos inocentes
Capítulo VIII
A Fuga
Pedro Afonso ficara pequeno para m im e papai. Meu irm ão decidiu ir m orar na casa do Oswaldo. Mam ãe nem sonhava em deixar seu m arido. Tinha m uita pena dela, m as o que podia fazer a respeito? O seu am or era m ais forte do que qualquer coisa, passando até por cim a de situações hum ilhantes, com o quando era, em alguns m om entos, espancada por papai.
Não levei nada na fuga, apenas a roupa do corpo. Dirigi-m e ao j ardim e pulei o m uro dos fundos. Infelizm ente, um dos guardas m e flagrou nessa hora, quando j á corria pela calçada da rua. Logo, papai saberia da fuga e colocaria seus capangas atrás de m im . Estava tranquila com relação à m am ãe, porque César estava a par do m eu plano e no dia seguinte contaria tudo a ela para não deixá-la preocupada.
O céu estava lim po, com um a linda lua cheia, às nove horas daquela noite em que m e encontrei com Luciano nas m argens do rio Sono.
− O que foi querida? Está trem endo! – disse-m e, preocupado, enquanto caía em seus braços.
− Ah, deixe-m e ficar m ais uns m inutos assim , bem quieta. Abrace-m e com força, Luciano! – Procurei m e acalm ar, sentindo que as coisas estavam tão fora do m eu controle.
Após uns m inutos, afastei-m e e, fitando-o entristecida nos olhos, com uniquei:
− Minha situação dentro da m ansão está cada vez m ais com plicada. Papai m e agrediu fisicam ente e, com certeza, m e obrigará a casar com Marcos. Tem os que fugir o quanto antes. Se soubesse que papai iria sair tão cedo da cadeia, deveríam os ter nos casado antes.
Felizm ente, Luciano preparara um a m ala com os itens básicos para a nossa fuga naquela noite.
− Aonde vam os? − perguntei.
- Tenho um lugar em m ente para passarm os esta noite. Espero que goste.- Claro! Eu sigo com você aonde for – disse determ inada. Luciano segurou na m inha m ão e seguim os em direção a um a trilha de m ata
fechada que havia em um a das últim as ruas da cidade. Com a luz da Lua ilum inando nossos cam inhos, avançam os por algum as horas. Parávam os apenas para descansar um pouco.
− Tem certeza de que você sabe para onde estam os indo? − Meu am or, j am ais colocaria você em perigo – disse Luciano. − Já estam os
chegando.
Andam os m ais um pouco e, de repente, a surpresa tom ou conta de m im , ao
m e deparar com um a gruta, cuj a existência nunca ouvira falar e, acredito ninguém m ais.
− Vam os entrar? É aqui que passarem os essa noite – convidou Luciano. − Você está brincando... Deve ter m orcego e cobra aí dentro. E além de certa
claustrofobia, tenho m edo da escuridão...
− Daniella, quero que entre com igo para ver a gruta por dentro. Depois, você
decide se fica ou não. – A firm eza de sua voz m e convenceu a dar a m ão para ele e avançar.
Meus olhos se depararam com um a vista surpreendente e inusitada ao entrar. A
gruta abrigava um pequeno lago, cuj as águas, ao refletirem a luz da Lua que penetrava pela abertura, ilum inavam todo o am biente.
Fui dom inada por um som hipnótico. Pingos de água caíam do teto direto no
lago e tam bém em suas m argens. Produziam efeitos de ecos, que se espalhavam por todos os lados. Pingos ancestrais tinham form ado nos tetos enorm es estalactites e, consequentem ente, no chão, em volta do lago, próxim o de suas m argens, as estalagm ites. Constituía-se um cenário que som ente Deus poderia conceber. Nenhum ser hum ano teria essa capacidade.
Estava preocupada por m e encontrar dentro de um a gruta em plena noite, m as
olhava para o m eu am or e sentia confiança.
Após adm irar a beleza do lugar, com ecei a desfazer a m ala de Luciano, que estava abarrotada.
− O que você tanto carrega aí? É necessário tudo isso? – indaguei.
− A gente nunca sabe o que vai precisar – respondeu.
Forram os o chão irregular com dois lençóis e enrolam os duas toalhas de banho à guisa de travesseiros. Enquanto isso, Luciano acendia um a fogueira. Sentam os um ao lado do outro em nossa precária cam a, enquanto nos aquecíam os com o calor da fogueira.
− Estou m uito feliz por estar ao seu lado. Mesm o sendo em um a gruta. Para m im , o que im porta é ter você para sem pre – ele m e disse, entregando a m im as fotos tiradas no j antar em sua casa.
Havia um a dedicatória no verso de um a delas: “Para você guardar com o recordação de um m om ento extraordinário”. Ao guardar as fotos em m eu bolso, encostei os lábios em sua orelha e lhe disse, em ocionada:
− Você está sendo, para m im , a luz no final de um túnel m uito escuro. Esse túnel é a m inha vida. Eu não achava saída para esse sofrim ento, m as quando te conheci, achei essa luz e, assim , pude cruzar o cam inho que m e levará à felicidade.
Percebi que Luciano se arrepiava com m inhas palavras. Apertei sua m ão e continuei:
− Tudo que eu estou fazendo é por am or a você. Ao seu lado, estou vivendo um sonho; um sonho que se tornou realidade − um sonho azul.
Não ouvi nenhum a resposta. Apenas senti suas m ãos acariciando m eu rosto.
Segurou m inha nuca e m e puxou para perto de seus lábios. Perdi-m e entre beij os e abraços, im aginando que as ondas de em oção que m e envolviam m e levariam para longe da realidade, até um a ilha deserta. Ali ficaríam os a sós e nos am aríam os loucam ente, despertando os segredos m ais profundos que existiam dentro de m im .
Com o na prim eira vez em que Luciano m e beij ou, nossos corpos se entrelaçaram num encaixe perfeito. Ouvir os sons produzidos pelos nossos beij os e sussurros ecoando pela gruta aum entava ainda m ais a nossa excitação.
Já deitada, Luciano beij ava com carinho a m inha testa e dessa form a descia, beij ando-m e. Minha respiração se tornava a cada instante m ais ofegante.
Naquele m om ento, intuí que seria a nossa prim eira noite de am or. Eu m e entreguei por inteira ao grande am or de m inha vida, sem m e im portar onde m e encontrava. Mesm o em um a gruta pouco hospitaleira, estava com ele, e era o que m e im portava.
Sua m ão deslizava em m inha pele, aquecendo os m eus desej os. Sem pre com
m ovim entos delicados. Deitado por cim a de m im e ao pé de m eu ouvido, sussurrava:
− Daniella, desde o m om ento em que te conheci eu senti que você é a m ulher
de m inha vida. E sei que vou te am ar para todo o sem pre.
Explorava cada parte de m eu corpo, m e fazendo sentir verdadeiram ente
am ada. Notei algo fascinante, ao m e virar de lado: por causa da luz em itida pela fogueira, m e deparei com nossas som bras refletidas na parede da gruta. Tudo o que fazíam os era reproduzido instantaneam ente na parede. E ali, próxim o a nós, o lago refletia em suas águas a luz da Lua.
Passam os a noite nos am ando. Tinha consciência de que aquele m om ento era
m ágico e nunca m ais se repetiria daquela m aneira; assim , eu o vivi querendo perpetuá-lo para sem pre.
Ao am anhecer, despertei com a luz do sol avançando devagar pelas paredes da
gruta e ilum inando todo o seu interior. A fum aça da fogueira se dissipava bem devagar no ar e, onde crepitara um fogo ardente na noite anterior, sobraram apenas as cinzas em brasas.
Fiquei bastante tem po adm irando Luciano dorm indo sobre m im , com seu rosto
colado em m eus seios, com o se estivesse nam orando o m eu coração.
Era realm ente o hom em da m inha vida! Não era exatam ente o que tinha
planej ado para a m inha prim eira vez, m as estava explodindo de felicidade.
* * *
Estávam os prontos para continuar nossa fuga, quando ouvim os passos vindos da
entrada da gruta. Reconheci a voz de Marcos com os capangas de papai, precedendo a visão nada agradável daquele rosto ao qual passava a alim entar verdadeira aversão.
Eu não acreditava no que via. Por que tinha que ser dessa form a? Teria eu,
algum dia, êxito na vida? Vivendo aqueles m om entos com Luciano, cheguei a pensar que estava livre do alcance do Coronel Jorge; que tudo tinha acabado e, enfim , a felicidade entrava em m inha vida definitivam ente. Mas agora, com Marcos ali em m eu encalço, convencia-m e de que não tínham os com o escapar. Não havia saída para nós.
Marcos apontou um revólver em nossa direção:
− Ah, aí estão os pom binhos fuj ões. Que cena linda! Que fazem nessa gruta, só os dois? A m inha noivinha não pode sair com outro hom em , isso com prom ete a sua reputação e poderá cair na boca do povo. A senhorita ficará m al falada na cidade...
− Marcos, por favor, abaixe essa arm a... Não vá fazer nenhum a loucura... Você precisa entender... Acabou, entende? Não estou m ais com prom etida com você. Não o traí. Se entender isso, as coisas ficam m ais fáceis.
− Sai de perto desse cafaj este! AGORA! Aproveitador barato. Conheço esse tipo! Daniella venha para perto de m im ...
Relutei em atender a sua ordem , m as se não o fizesse, ele atiraria em nós. Soltei-m e dos braços de Luciano e fui em direção de Marcos. Ao chegar perto, ele m e agarrou e, em seguida, tapou m inha boca.
− Agora, desgraçado, você vai apanhar tanto, m as tanto, que nem vou precisar usar a m inha arm a para te m atar – disse Marcos.
Retirei a m ão do Marcos de m inha boca e im plorei para que não fizesse nada contra Luciano, m as ele tapou m inha boca m ais um a vez.
O que tanto tem ia estava se desenrolando na m inha frente, com o cenas de um pesadelo: a fuga revelava-se um fracasso e, para piorar, ainda corria o risco de perder m eu grande am or. Nunca vou m e perdoar por essa situação.
Um a im piedosa cena de tortura teve início diante de m eus olhos, sem que nada pudesse fazer. Eu m e retorcia toda para m e livrar de Marcos, m as sendo ele m ais forte, não obtinha sucesso.
Testem unhei Luciano apanhar de todos os lados com chutes e socos. Até cuspiam nele. Os gritos de dor que ouvia eram com o facas entrando em m inha carne.
Por várias vezes os capangas enfiaram o rosto de m eu am or dentro da água do lago até ele não aguentar m ais. O sangue espalhava-se nas águas transparentes do lago.
− Parem ! – soou um grito vindo da entrada da gruta. Aproveitei a distração e m ordi a m ão de Marcos. Soltei-m e e corri até
Luciano, que continuava atordoado.
Quando olhei para trás, vi m eu irm ão e seus am igos, que se aproxim avam .
Nunca m e senti tão aliviada.
− Marcos, pare com essa loucura. Já chega de violência nessa cidade.
Larguem o Luciano – ordenou m eu irm ão aos capangas de papai.
Coloquei a cabeça de Luciano em m eu colo. Se tivessem continuado por m ais
um tem po, teriam m atado ele ali m esm o. Não conseguia prestar atenção à conversa entre m eu irm ão e o Marcos; a m inha preocupação era cuidar do Luciano.
− Está tudo bem , Daniella − ouvi de m eu am or, que balbuciou enfraquecido,
com o obj etivo de m e tranquilizar.
Apesar das dores, ele procurou ficar em pé.
César veio até nós e nos entregou a chave de seu carro: − Vão em bora, podem fugir com o veículo. Ele está na estrada de terá. Nem quisem os perguntar com o ele convencera Marcos a nos liberar. Peguei a
chave, m e despedi de m eu irm ão com um grande abraço, passam os correndo por Marcos e sentim os seu olhar inj etado de sangue, fixo em nós. Ao sair da gruta, percorrem os um a parte da m ata fechada até encontrarm os o carro.
− Luciano, você tem condições de dirigir? – perguntei. − Sim , pode deixar – respondeu.
Acelerando sem tem er o que vinha em nossa frente, Luciano, acessou um a
rodovia e a cada quilom etro percorrido, Pedro Afonso em nosso retrovisor ficava m ais distante.
* * *
Eu olhava para o rosto de Luciano, no qual os hem atom as arroxeados
revelavam a tortura sofrida, poucos m inutos antes. Eu m e sentia tão grata pelo surgim ento de César e por estar próxim o o fim daquele pesadelo! Quanto m ais nos afastávam os da área urbana e nos aproxim ávam os da estrada que nos levaria para bem longe de Pedro Afonso, m ais a tensão se dissipava dentro de m im . Deixei a brisa m e desm anchar o cabelo. Apertei a m ão direita de Luciano na m inha, transm itindo calor um ao outro. Fechei os olhos, em itindo um longo suspiro. Quando os reabri avistei um carro prata, que reconheci de longe. Meu coração acelerou: Era o coronel! Estava com seu carro estacionado, com o que aguardando alguém . Não tive dúvidas de que esperava por nós. Na certa j á suspeitava, caso fugíssem os de carro, teríam os que passar pela rodovia que é a única saída da cidade. Droga!
− Luciano, pegue aquela estrada de terra batida, logo ali! – disse rápido antes de passarm os pelo Coronel Jorge. Fiquei olhando para trás, preocupada em serm os vistos pelo m eu pai, o que, infelizm ente, acabou se confirm ando.
Um a terrível perseguição teve início. Pelo retrovisor, ficávam os m onitorando Coronel Jorge, um pouco atrás de nós. Eu conseguia até enxergar um brilho assassino em seu olhar. Lem brei-m e até de Jack Nickolson, em “O Ilum inado”. Para piorar, lem brei-m e tardiam ente que aquela estrada de terra não daria em lugar nenhum , term inando em um a planície com um grande abism o no final.
− Foi aqui que encontraram os corpos dos fiscais, não foi? – indaguei, m ordendo os lábios.
− Sim , Daniella, parece que foi bem lá na frente – respondeu Luciano.
− E agora, o que vam os fazer? Essa estrada não dá para lugar nenhum !
− Eu não acredito nisso! Vam os tentar apenas não ser pegos.
Quando voltei a olhar pelo retrovisor não avistei m ais o carro do coronel. O que teria acontecido com ele? Não acreditava que desistira assim , tão fácil.
Luciano m e com unicou, após alguns m inutos:
− Daniella, não estam os m ais sendo perseguidos pelo seu pai, m as por Marcos.
− Com o? Meu Deus! O que será que o Marcos fez com o m eu irm ão? E onde estará o Coronel Jorge? – indagava, cheia de interrogações.
Tivem os de parar, ao atingir o final da planície. Não tínham os para onde fugir. Poderíam os continuar a pé, m as qualquer um nos alcançaria de carro.
Na dem ora em tom ar a decisão se sairíam os correndo ou não, Marcos nos alcançou e parou em nossa frente, desceu de seu carro gritando para sairm os do veículo, sem m ostrar aparentem ente que estava arm ado.
− O que você fez com m eu irm ão? – perguntei ao sair do veículo j unto com
Luciano.
− Estava seguindo o Coronel Jorge, quando ele perdeu o controle e bateu em
um a árvore. Não se preocupe, ele está bem , o air bag o salvou. Quanto ao seu irm ão, resolvi deixá-lo am arrado na gruta, j unto com aqueles outros dois idiotas, vigiados pelos capangas. Só não m andei j ogá-los no lago porque tive piedade. Agora, de vocês não terei nem um pingo de dó – afirm ou Marcos.
Luciano e eu nos olham os angustiados. Será que m orreríam os logo após ter
descoberto o paraíso, um nos braços do outro? Estávam os de m ãos dadas, sem saber o que fazer. Não existia saída.
− Você vai se arrepender por ter cobiçado a m inha nam orada – am eaçou
Marcos, dom inado pelo ódio. O tom de sua voz denunciava que era capaz de tudo, até de m atar!
Tentei intervir, m as foi inútil; naquela hora eles tinham que acertar suas contas. − Ela não am a você – disse Luciano.
− Não quero saber, ela é m inha – retrucava.
Socos e chutes foram desferidos, até que Marcos recebeu um golpe certeiro no
rosto, que o fez cair no chão.
− Luciano, vam os em bora! Deixe-o aí − gritava sem cessar. Sabia que, por ser
m ais forte, ele tinha chances de acabar com Marcos, m as eu não queria briga.
Marcos, ainda atordoado e no chão, apoiou-se sobre os cotovelos e sacou
rápido um a arm a, que retirou do bolso posterior da calça. Novam ente ficam os na sua m ira. Sabendo que não tinha condições de vencer no braço, o covarde apontava triunfante, o revólver para Luciano. Não entendia nada de arm as de fogo, m as nem era preciso ser algum expert para saber que a que ele apontava era de alto calibre.
− Abaixe essa arm a, Marcos. – Tentei fazê-lo voltar à razão. Sabia que
qualquer gesto brusco, qualquer palavra m al em pregada poderiam detonar um a tragédia. − Chega desse inferno! Eu não aguento m ais. Deixe-nos ir em bora e vá viver sua vida em paz.
− Cale a boca! Venha para cá ou atiro nele! – bradou.
Sem opção, aproxim ei-m e de Marcos, que m e agarrou, apontando im ediatam ente a arm a para m inha cabeça. Não receava pela m inha vida: sabia que ele não teria coragem de atirar em m im , m as estava doido para se vingar de Luciano.
− Agora, seu verm e, quero que vá até a beirada do abism o e se j ogue de lá; caso contrário, eu atiro em Daniella e depois m ato você – exigiu Marcos, enquanto am eaçava com o dedo sobre o gatilho destravado em m inha cabeça, próxim o ao ouvido direito. − Então, o que vai decidir? Morrer antes ou depois da sua nam oradinha?
− Não faça isso, Luciano – eu disse receosa, m al conseguindo respirar, pois m e m antinha num abraço de urso.
− Está bem , Marcos, eu vou – respondeu Luciano, sem m e dar ouvidos.
Observava o suor escorrendo-lhe pelo rosto: não tinha dúvidas de que Luciano faria isso sem pensar duas vezes.
Virou-se de costas, seguindo em direção ao abism o, enquanto eu sentia que Marcos afastava a arm a de m inha cabeça e, agora, apontava-a para Luciano. Quando percebi a sua intenção assassina, não raciocinei; sabia apenas que precisava agir e fazer algum a coisa o m ais rápido possível. Eu utilizei a única arm a que tinha ao m eu alcance: enfiei m eus dentes na m ão do canalha. Foi tão forte a m ordida, que arrancou um pedaço de carne. Cuspi longe, para não sentir m uito o gosto de sangue.
Soltando um urro, Marcos deixou a arm a de fogo cair. Com o estava engatilhada, o disparo acidental que se sucedeu, m isturou-se, abafado, aos berros de Marcos. Consegui pegar a arm a e a j oguei longe.
− Sua filha da puta! – gritou Marcos, desferindo um a forte bofetada em m im .
Luciano voltava correndo em nossa direção. Ao perceber que eu estava sendo agredida, veio com o um leão para cim a de Marcos. Parecia que a briga não teria fim ; novam ente, os dois iniciavam um com bate, agora redobrado em ódio. De repente, um canivete... Foi o que Marcos sacou do bolso da cam isa, passando a investir várias vezes contra Luciano.
− Vocês vão se m atar, assim ! NÃO! Marcos largue esse canivete! – eu gritava desesperada. Minha garganta até doía, m as eles pareciam não m e ouvir, tão concentrados em sua luta.
Eu fechava os olhos, por vezes, para não testem unhar aquela cena de terror.
Sem perceber, eles estavam na beira do abism o. Se um deles desse um passo errado, j á era.
Cego pelo ódio, transtornado, Marcos não percebia os riscos que estava
correndo. Com um brilho de triunfo no olhar, lançou-se contra Luciano, para desferir um golpe fatal de canivete em sua j ugular. Este, num m ovim ento inesperado, que som ente o desespero consegue conferir, am orteceu o golpe, virando-se a m ilím etros de ser atingido. Marcos se lançara com tanta gana ao solo, que acabou perdendo o equilíbrio ao im pulsionar o corpo com m ais velocidade do que o desej ado. O abism o abriu-se à sua frente, diante de seu olhar de assom bro.
− NÃÃÃOO!... – foi a últim a palavra que ouvim os, antes que seu corpo fosse
lançado pelo despenhadeiro abaixo, enquanto, tal um fantoche de pano, ia batendo nas escarpas pontiagudas.
Trêm ulos, Luciano e eu nos abraçam os e nos aproxim am os da beira do
precipício, apenas para conferir o corpo inerte e sem vida de Marcos, a m ais de trinta m etros de onde estávam os. Em nenhum m om ento im aginei que ele term inaria assim . Sua m orte era algo que j am ais tinha desej ado.
− Você está bem ? – perguntei a Luciano.
− Sim . Só não contava com esse desfecho... Que fatalidade, Daniella! − Vam os em bora daqui, agora m esm o, Luciano – disse, m al m e aguentando
em pé sobre as pernas. Meus j oelhos não paravam de trem er.
Seguim os em direção ao carro de m eu irm ão, m as antes de abrir a porta,
papai, com a testa sangrando, surgiu do nada com um a arm a apontada para nós.
− Papai!
− Vocês vão pagar caro pelo que fizeram com igo! − Papai, calm a, por favor!
− Cale a boca, sua vadia! – gritou, enquanto se virava para Luciano. – Então,
você que é o tal de Luciano. Desgraçado, vai m orrer!
Pelo seu tom de voz, ele não estava para brincadeiras. Luciano m e puxou pelo braço e com eçam os a correr em direção oposta de papai. Acuada, confusa, eu m al conseguia raciocinar direito. Ouvim os um tiro e, num m ovim ento instintivo, nós dois nos j ogam os ao chão. Papai estava com a arm a levantada para o alto.
− Não vão a lugar nenhum ! Daniella, você se lem bra quando te avisei para escolher o que era certo, caso contrário esse m oleque sofreria as consequências? Então, hoj e estou aqui para acertar as contas!
− Papai, por favor, nos deixe em paz – disse, colocando-m e em pé.
Sem m e dar ouvidos, papai apontou a arm a em nossa direção e atirou na perna de Luciano. Ele caiu com o im pacto da bala e com a dor. Aj oelhei-m e ao seu lado, dizendo que tudo ficaria bem , que iria levá-lo ao hospital.
− Desgraçado!!! – disparei contra o Coronel Jorge.
− Isso não é nada. Minha vida tornou-se um inferno por causa desse verm e. Eu terei que aturar você Daniella porque é m inha filha, m as ele vai m orrer para que todos saibam quem eu sou!
A sua intenção era claram ente assassina. Aquilo m e desesperou: não sei o que aconteceria com igo se tivesse êxito. A perturbação m ental ao ver m eu am or naquele estado m e fez agir de m aneira insana, abom inável: j am ais tinha pegado em um a arm a de fogo, m as ao avistar, próxim o de m eus pés, o revólver de Marcos, peguei-o com as duas m ãos e, destravando o gatilho, apontei-a na direção de m eu pai.
− Você não tem coragem de fazer isso – disse convicto papai.
Ele tam bém apontou a sua arm a para m im , só que ao contrário de m im , não estava trem endo. Por instantes, senti que ele atiraria em m im a sangue-frio.
De um a m aneira inexplicável, um vento repentino com eçou a soprar em nossa direção, tornando-se m ais forte. Meus cabelos esvoaçavam , chegando a cobrir m inha visão. Era com o se Deus estivesse m anifestando sua tristeza conosco. Era um alerta da im inente tragédia que se abateria entre nós: filha m atar o pai, ou pai m atar a filha?
Perm anecem os interm ináveis segundos, um apontando a arm a para o outro, aguardando o m ovim ento certo para atirar. Minha m ão trem ia, m as o m eu olhar não se desviava do de papai.
− Não! – gritou Luciano, ao se colocar na m inha frente.
Papai aproveitou e disparou duas vezes seguidas, o acerto foi em cheio no tórax
de m eu grande am or.
Com o im pacto das balas, Luciano foi j ogado para trás, caindo em cim a de
m im . Só m e recordo de ter apertado o gatilho, e a m inha arm a disparou. A bala se perdeu na m ata.
Em estado de choque, sacudia Luciano e conversava com ele: − Am or, você está bem ? Olhe, vou cham ar a am bulância e nós vam os fugir.
Não m e abandone, Luciano, não m e deixe!
Beij ei-o várias vezes, sentindo que o calor da vida o abandonava. Já estava toda
suj a de seu sangue, m as perm aneci ali, até que o vento que prenunciava m au tem po m e gelasse, trazendo por fim a chuva – esta m e encharcou até os ossos. Sentia-m e esvaziada, gelada por dentro e por fora, assim com o o corpo inerte de m eu am or, sobre o qual m e deitara, enquanto as m inhas lágrim as se m isturavam às grossas gotas de chuva.
Quando a polícia chegou cham ada pelo Coronel Jorge, eles ficaram um bom
tem po em conversa. Coronel Jorge foi cham ado por outra autoridades que vistoriava o local, para aproxim ar-se próxim o do abism o para m ostrar o corpo de Marcos. Vi o coronel por as m ãos na cabeça inconform ado com a cena que presenciava.
Os policiais tiveram dificuldade em fazer com que eu m e desvencilhasse de
Luciano. Nem m e lem bro desses m om entos, ficou um a lacuna em m inha m ente, talvez com o um a form a de eu m e proteger contra a insanidade. Jogaram o corpo de m eu am or com o se fosse um saco de lixo para dentro do cam burão. Não esperam nem o IML chegar para fazer qualquer perícia.