Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Andersson Pedroso · Capítulo 5 de 12

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Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Capítulo III

Declaração de Am or

Pela m anhã, antes de todos acordarem , m eu irm ão e eu voltam os à estrada para procurar o m enino. Ao explicar a César tudo o que acontecera na m adrugada anterior, ele ficou com a pulga atrás da orelha:

− De onde será que essa criança veio?

− Não faço a m ínim a ideia – respondi.

Pedi para o César estacionar o carro, pois estávam os nas proxim idades onde avistara o m enino.

Passam os a gritar, cham ando por ele, m as ninguém respondia.

− Vam os entrar na m ata para procurar m elhor, o que acha? – perguntei ao m eu irm ão.

− Não, depois de tantas horas, j á deve estar longe e pode ser m uito perigoso nos em brenharm os pela m ata – César desaprovou m inha ideia. − Mana, pelo que você m e contou, o Marcos está para chegar em casa. Devem os retornar o quanto antes; m ais tarde voltam os aqui.

Concordei com m eu irm ão. Durante o percurso de volta, revelei sobre a agressão im posta a m im pelo Marcos:

− Nunca fui tratada com tanta violência, assim . Até arrancar m inha blusa ele teve coragem .

Existem m om entos em nossas vidas que fazem os ou falam os coisas que, com o tem po, acabam os nos arrependendo. Contar para m eu irm ão o que ocorrera com igo na noite anterior foi um a dessas decisões tolas. Deveria ter ficado calada; sabia que haveria briga com o Marcos, m as na hora senti necessidade de contar para alguém . Caso contrário seria agredida outras vezes, o que nunca m ais aceitaria sem reagir.

Ao entrarm os na m ansão, não deu tem po de ninguém falar nada; César foi na direção do Marcos e desferiu um violento soco em seu rosto. Este caiu no m eio da sala com o um saco pesado de batata.

Meus pais ficaram assustados. Mam ãe afastou-se e, desesperada, indagou: − César, m eu filho, você ficou louco?

− Esse desgraçado agrediu a Daniella, o filho da puta! – disse m eu irm ão,

lançando duas cusparadas em Marcos.

Houve um a tentativa de revide por parte de m eu nam orado, ao fechar,

am eaçador, o seu punho direito, m as ele o desfez quase que no m esm o instante, perm anecendo no chão, sem reação − com certeza, para ficar na posição de vítim a, e não com a im agem de bandido.

− Eu não sei do que você está falando – retrucou Marcos, com um a

im passibilidade que contrastava com a sua ira da noite anterior.

− Com o? – disse, im pressionada com o cinism o dele. − Parem todos. Se o Marcos fez ou não fez isso, não im porta. Caso ele tenha

agido dessa m aneira, você, Daniella, m ereceu – afirm ou papai.

Não sei por que fiquei surpresa com a afirm ação de m eu pai, um a vez que j á

era de se esperar. Entretanto, cheguei a acreditar que, por ser m ulher, pelo m enos m am ãe ficaria do m eu lado. Ledo engano!

− Estou m uito triste e envergonhada por ser sua m ãe, Daniella – foi a sua

resposta surpreendente à m inha necessidade de em patia e com preensão.

Sei que agira errado, m as naquele m om ento todos queriam m e devorar viva.

Estava m e sentindo em plena época da inquisição, acusada de bruxaria!

− Com o teve coragem , Daniella, de fazer essa pouca vergonha? – continuou

papai. − Desonrar m eu nom e perante a sociedade de Pedro Afonso!

Não tinha com o explicar o ato que envergonhava a todos. A m entira, com

certeza, iria piorar a situação. Confessei a todos exatam ente o que acontecera:

− Eu só troquei um beij o com um rapaz. E isso aconteceu apenas pelo fato de

não existir am or de m inha parte por você – disse, olhando diretam ente para Marcos.

− Você não m e am a? – indagou ele.

− Marcos, m e perdoe, sabe m uito bem que nam oro você porque sou obrigada; não tive escolha. Foi um a exigência de m eu pai, m as agora eu não quero m ais ficar envolvida em um a relação que não m e faz feliz.

− Filha! – exclam ou m am ãe.

− Esta é a verdade, não posso fugir da realidade ou viver em um m undo que nunca serei feliz – disse.

Meu irm ão pousou sua m ão em m eu om bro e disse baixinho:

− Mana, apoio qualquer decisão que vá tom ar. Pode contar com igo!

Suas palavras m e deram força para enfrentar a todos; percebi que não estava sozinha. Tinha m eu irm ão e am igos, que m e aj udariam a m e livrar definitivam ente de todo aquele sofrim ento.

− Ora, ora, quer dizer que a m enina resolveu se rebelar... – papai disse, com ar sarcástico, com o se nada do que eu acabava de m anifestar significasse algo. Era bem típico dele; afinal, ele nunca se im portara com os m eus sentim entos.

Virando-se para Marcos, orientou-o:

− Não leve em conta as coisas que essa m enina m im ada acabou de dizer. Aos poucos, ela vai se acostum ar com a ideia de estar casada com você e, por bem ou por m al, m udará de opinião.

− Eu sei, Coronel Jorge. Por esse m otivo, desej o que o noivado sej a antecipado para a sem ana que vem e o casam ento o quanto antes – disse Marcos.

− Vocês não ouviram ? Não quero nada com ele! – disse exasperada. Aquela conversa estava m uito surreal para m inha cabeça.

− Daniella, você não tem querer – disse papai. – Vá para seu quarto agora, de onde sairá apenas quando te cham ar.

Obedeci sem nenhum a reação. Aquela guerra seria difícil vencer! Subi lentam ente as escadas, ouvindo o que se passava às m inhas costas.

César tom ava m inha defesa, de m aneira fulm inante e apaixonada:

− Daniella não m erece ter um a fam ília tão sem am or; o seu coração é cheio de bondade e, em troca, recebe o oposto de vocês dois! Ontem ela sofreu as agressões físicas do Marcos, e m esm o assim parou de pensar em seus sofrim entos para aj udar em plena a m adrugada um a criança com o braço m achucado fugindo não sei de quem ?

− César, não se introm eta onde não é cham ado – elevou-se o tom da voz de

m eu pai. Afastei-m e rápido da escada, indo direto para o m eu quarto. Não vi a expressão do coronel, m as, pelo j eito, estava furioso, chegando a gaguej ar, ao perguntar ao m eu irm ão: − Q-que história é essa de criança m achucada na estrada, César?

− Não sei, m eu pai, pois ele fugiu da Daniella, m as o Marcos estava j unto. − Adriana vá para a cozinha e você César para o seu quarto. Vão agora, pois

vou conversar com o Marcos na biblioteca, não quero que ninguém nos interrom pa.

Fui ao encontro de m eu irm ão, que estava subindo as escadas e indaguei o que

estava acontecendo.

− Não sei, quando falei da criança para o nosso pai, ele fez um a expressão de

assustado; nunca vi ele tão agitado, m e deu até m edo! – respondeu.

− Que m istério é esse?

− Não sei, m ana.

− Estranhei a reação do m enino, sabe? Parecia que viria conversar com igo,

m as ao ver o Marcos, recuou assustado, fugindo para o m eio da m ata.

− Por que será?

− Não faço a m ínim a ideia, m eu irm ão!

− Você m encionou que ele estava sangrando no braço e com as m ãos

calej adas, não é?

− Sim , por quê? O que você está achando de tudo isso? – perguntei. − Pela reação de nosso pai, essa criança tem algum a coisa a ver com ele, m as

o quê exatam ente não sei. Tem os que descobrir o quanto antes. Sem pre estranhei o fato de nosso pai não perm itir a m inha entrada em determ inadas áreas da fazenda. Venha, vam os conversar dentro de seu quarto, que é m ais seguro.

Com binam os que iríam os j untos com nossos am igos atrás daquele m enino e,

pela prim eira vez, tentaríam os entrar na fazenda e, se possível, na indústria de papai.

− A situação daquele m enino m e preocupa – eu disse. − Sabe-se com o ele está,

tendo passado a noite naquela floresta.

César m e consolou e disse que ele estava nas m ãos de Deus. Piscando o olho de m aneira m arota para m im , introduziu um pedaço de papel em m inhas m ãos.

− O-o que é isso, César?

A surpresa tom ou conta de m im quando percebi que se tratava de um bilhete de Luciano, escrito na noite anterior.

− Mana, o que aconteceu ontem não foi algo bacana, que m ereça ser incentivado, m as a situação que você vive hoj e m e faz ficar do seu lado – disse.

Esperei César sair do quarto. Sozinha, com a porta j á trancada, abri o bilhete, onde li as doces palavras de Luciano, escritas num a letra firm e e clara:

Em primeiro lugar, quero pedir desculpas por não ter controlado minha raiva e pela agressão que cometi contra o seu namorado, mas não suportei ver a maneira como ele te tratou. Você merece muito mais que isso; mesmo que não seja eu o felizardo a ficar do seu lado para o resto da vida, tenha coragem para sair desse sofrimento.

Nunca mais me esquecerei da noite de ontem: seu beijo, seu calor me fizeram enlouquecer.

Do fundo da minha alma e do coração, quero te ver novamente. Abraçar você e fazer carinho em seu lindo rosto... Eu amo você! Tenho medo de dizer essa frase, pois não sei exatamente o que está sentindo por mim.

É muito louco: conheci você ontem e já estou completamente apaixonado. Quero vê-la de novo, mande a resposta pelo seu irmão. Beijos, beijos.

Luciano

Suspirei e dobrei o bilhete com cuidado, levando-o de encontro ao coração, que batia de m aneira descom passada. Era estranho, pois sentia a m inha vida m udar de um dia para o outro. A coragem para largar tudo e seguir o m eu destino com Luciano estava nascendo em m eu coração: era algo real.

Desdobrei novam ente o bilhete, beij ando-o; a m arca do m eu batom ficou m arcada no rodapé, em cim a da assinatura.

Mandei um recado para Luciano por m eio de m eu irm ão:

Luciano,

Encontre-se comigo às margens do rio Sono, em um ponto mais afastado da

cidade, amanhã às 17 horas. É o lugar ideal para conversarmos, pois há pouco movimento.

Beijos,

Daniella

* * *

Na hora m arcada, dirigi-m e ao rio Sono. Ao longe, avistei-o sentado às

m argens, com os pés tocando nas águas do rio. No m esm o instante, ao relem brar os beij os e as carícias que tínham os trocado havia pouco m enos de dois dias, um calor se apossou de m im .

Aproxim ei-m e por trás e tapei seus olhos.

− Daniella?

− Mas é claro que sou eu, ou você estava esperando outra pessoa? – disfarcei,

para não dem onstrar a m inha em oção.

− Sua boba! Claro que não – disse, beij ando-m e. Estava nascendo ali, dentro de m im , de m aneira concreta a coragem que tanto

precisava para enfrentar o m undo se fosse preciso, e lutar pelo m eu verdadeiro am or.

Ficam os sentados nas m argens do rio Sono. Próxim o de nós havia um a enorm e

rocha, banhada em suas bordas pelas pequenas ondas que se form avam devido ao contato da água contra a sua superfície. Era tudo tranquilidade, e o céu no horizonte j á apresentava a cor alaranj ada por causa do pôr do sol. As garças voavam , quase encostando na superfície do rio, deixando o am biente m ais rom ântico.

Luciano acariciou-m e a m ão, levando a sua até a m inha nuca; com leveza

passou os seus dedos entre os fios de m eus cabelos. O seu olhar brilhava igual à Lua cheia; nenhum a palavra poderia ser m aior do que aquele olhar, que dizia tudo o que ele sentia por m im : era am or puro e verdadeiro.

Ficam os curtindo aqueles m om entos de silenciosa cum plicidade, até que nos

beij am os. Um beij o longo; não, vários beij os tão longos e interm ináveis, que, ao abrir os olhos, percebem os que j á tinha anoitecido.

− Quero dizer a você que estou aqui não pelo fato de você ser a filha do Coronel... Ops desculpe, m as é isso m esm o: sei que não gosta que a cham em assim , m as m uitos se interessam por você por causa desse status. O que quero dizer é que am o você, não o que representa. Aceita nam orar com igo?

No im pulso, respondi que sim . Sabia que não seria fácil, m as j á tinha m otivo suficiente para lutar pela m inha felicidade, à m inha frente, m aterializado na figura do Luciano. Beij am o-nos novam ente; em seguida, ele m e fez ficar de pé. Segurando m inha m ão, com um j oelho dobrado no chão com o se fosse um príncipe dos contos de fadas, declam ou um lindo poem a:

Desde o momento em que eu a conheci,

Sua maneira de sorrir para mim,

A força que vem do seu interior,

Me derruba com apenas um assopro.

E agora não adianta vir a grande tempestade

Querer derrubar o que já construímos.

E em minha vida não há lugar para mais ninguém.

Você ganhou

O meu coração, que está sangrado faz tempo.

O oceano está agitado pela força de nosso amor,

Que vem das profundezas.

As minhas defesas dependem

Da sua presença para vencer os inimigos,

Que estão em nossa frente.

Eu amo você, Daniella.

Durante a declaração de am or não consegui controlar a em oção e desabei em prantos. Eram lágrim as de alegria pela certeza de ter encontrado o hom em que sem pre sonhara para form ar um a fam ília com igo.

Lentam ente nossos lábios se tocaram em m ais um beij o. Com o num film e rom ântico, as estrelas brilhavam no céu com a luz da Lua refletida nas águas calm as do rio.

Ao pé de m eu ouvido, Luciano m e disse:

− Eu tenho um a surpresa para você em m inha casa. − Eu não posso ir – respondi, sentindo as pernas ficarem trêm ulas. − As

pessoas vão m e ver.

− Você está preocupada com a opinião do povo desta cidade? − Não é isso. Ainda não term inei oficialm ente com o Marcos, não fica bem eu

entrar em sua casa!

Luciano respirou fundo; em seguida, m e indagou quando iria largar o Marcos. − Eu j á disse ao m eu pai e ao Marcos que não quero m ais m anter esse

relacionam ento. Am bos agem com o se eu não tivesse falado nada. Não será fácil, m as ainda hoj e vou tentar novam ente.

− Então, quer dizer que, de sua parte, você não tem nenhum com prom isso.

Pois j á avisou aos dois sobre sua decisão; se eles aceitarem ou não, o problem a não será seu. Ou sej a, você é um a m ulher livre! – disse Luciano.

Analisei as suas palavras e concluí que era tudo verdade. Assim , com a

consciência tranquila, aceitei o seu convite para ir a sua residência. Não queria fazer desfeita à surpresa que tinha preparado para m im , porém avisei:

− Está certo, não tem nada de m ais. Mas tem que ser bem rápido, para que não

haj a com entários.

* * *

Com o coração disparado, cam inhei ao lado de Luciano pelas ruas de Pedro

Afonso. Percebia olhares de reprovação na m inha direção; naquele m om ento, todos deveriam saber da traição que com etera. Para provocar m ais indignação naquelas pessoas que m e criticavam com o olhar, segurei na m ão de Luciano. Ele sorriu e m e puxou para si, beij ando-m e. Quase com ecei a rir quando observei o espanto dos m oradores; alguns chegaram a ficar de boca aberta. Sem nenhum a vergonha seguim os de m ãos dadas até sua casa.

A residência de Luciano era sim ples e até acanhada. Ele m e pediu para

esperar uns m inutos na porta, para poder com pletar a surpresa. Quando entrei na sala, estava ilum inada apenas com velas verm elhas espalhadas pelos quatro cantos (então, entendi que Luciano entrara na m inha frente para acender as velas); havia pétalas de rosas por todo o chão, que exalavam um arom a delicado e inebriante. Sobre a m esa posta, no canto m ais à esquerda, próxim o à j anela, m ais duas velas verm elhas. Em cim a de um a toalha m uito alva de algodão estavam dispostos talheres, pratos e duas taças de vinho.

− Eu não acredito no que estou vendo! Tudo isso para m im ?

− Você m erece isso e m uito m ais. É que eu não posso te oferecer m ais – disse, com ar hum ilde.

− Para m im é suficiente. O que vale é a sua intenção de m e fazer feliz. Estou encantada e m uito em ocionada com esse presente. Muito obrigada!

Abraçam o-nos e, com a porta j á fechada, beij ei-o com paixão. Luciano ligou o aparelho de som , colocando para tocar um a linda m úsica rom ântica. Ele m e convidou para dançar, e ficam os ali, coladinhos.

− Sabe, você se parece m uito com aquela cantora loira do grupo sueco ABBA – disse Luciano afastando-se um pouco, o suficiente para m ergulhar seus olhos dentro dos m eus. − Alguém j á te disse isso? Qual o nom e dela m esm o?

− Já m e falaram isso m ilhões de vezes. Ela se cham a Agneta Fältskog. Até decorei o seu nom e. Com o canta bem ! Queria um dia poder ficar frente a frente com ela. Na verdade, todos os integrantes são perfeitos. Incrível! Em suas perform ances, a gente nota que elas não fazem sequer força para soltar aqueles vozeirões! Isso tem um nom e: TALENTO.

− Daniella, qual é o dia de seu aniversário? Quero m e preparar para te dar um presente m uito especial!

− Ah, não precisa exagerar na lem brança, OK? Meu aniversário é no dia vinte e dois de dezem bro. Gosto desse dia, pois é quando se iniciam as com em orações de final de ano. Fazem os a m inha festa e vam os nesse clim a até o réveillon. E o seu aniversário Luciano, que dia é?

− Em setem bro, dia oito, depois do feriado da independência do Brasil – respondeu.

Quando a m úsica encerrou, desprendem o-nos a contragosto um dos braços do outro. Luciano, afastando-se, dirigiu-se à m esa, onde havia um a garrafa de vinho e duas taças de cristal.

− Este vinho que com prei, tenho certeza de que não é dos m elhores – disse,

rindo, enquanto abria a garrafa sobre a m esa. – Mas tam bém não é o pior.

Serviu-m e e brindam os, em ocionados:

− A este m om ento. A nós.

Aproveitam os ao m áxim o aqueles m om entos a sós. Tiram os várias fotos que

depois ele iria m andar revelar em outra cidade, para evitar confusão em Pedro Afonso.

Durante o j antar, conversam os sobre sua fam ília. Os pais m oravam em

Palm as, onde trabalhavam com o funcionários públicos, e sua irm ã Cristiane m orava em Barretos, no interior de São Paulo.

− Casou-se e foi para o interior Paulista − explicou Luciano. Senti um m isto de frustração ao pensar na m inha fam ília, ouvindo ele falar da

sua:

− Graças a Deus, todos se dão m uito bem . Apesar da distância física, há um a

ligação forte entre todos nós. Deve ser por que existe am or, né?

Percebi em seu olhar um brilho de adm iração ao m encionar o pai. Era algo

fascinante; eu m esm a não sabia o que era sentir am or por um pai. Estava com eçando a ficar triste, pois era inevitável fazer com parações com m inha fam ília, e nessa área eu perdia feio para qualquer um da cidade.

Para m udar de assunto, com entei com Luciano sobre o caso da criança que

encontrara na estrada.

− Pretendo ainda nesta noite voltar para a estrada j unto com o César. Quem

sabe encontram os algum a pista da criança?

− Ah, eu quero aj udá-los tam bém nessa busca. Podem contar com igo −

prontificou-se no m esm o instante.

Concordei e com binam os o horário que iria buscá-lo. − Agora, tenho de ir em bora, pois m eus pais, com certeza, estão à m inha

procura.

− Eu te acom panho até sua casa.

− Melhor não, Luciano.

− Claro que sim . Não deixarei você sair sozinha pela noite, j á está escuro lá fora.

− Até a esquina antes da m ansão, tudo bem ?

− Sim .

Faltando três ruas para chegar à m ansão, notei a presença dos capangas de papai à m inha procura.

− Luciano, é m elhor você voltar.

− Não, Daniella, não tenho m edo de cara feia.

− Não se trata disso, Luciano, m as esses caras podem estar arm ados. Eles só seguem ordens de m eu pai: se acharem que você está m e levando para o m au cam inho, vão querer liquidá-lo.

Foi um a luta convencê-lo, m as no final m e obedeceu.

Segui em frente, fingindo não ter visto nenhum capanga, até que um deles reparou em m im e correu em m inha direção.

− Tenho ordens do Coronel Jorge para levá-la até a m ansão – disse, segurando m eus braços e puxando-m e com força.

− Solte-m e agora! Não está vendo que estou indo para casa? Se o Coronel está à m inha procura, ele que espere eu chegar – retruquei.

Continuei andando em frente, com o capanga m e seguindo. Sabia que o inferno estava m e esperando naquela casa que podia cham ar de tudo, m enos de lar.