Sonho Azul: A luta pelos inocentes
Capítulo IX
O perdão
No dia do funeral de Luciano, m eu coração sangrava, em bora eu não derram asse um a lágrim a sequer. Eu j á esgotara m eu reservatório na noite anterior. Sentia-m e seca, esvaziada.
Fui proibida de com parecer à cerim ônia de enterro pelo Coronel Jorge, enunciando que não queria nunca m ais que aquele nom e fosse sequer pronunciado em casa. Acom panhei com o olhar o desfile de guarda-chuvas abertos que, num a perturbadora harm onia, se perfilavam na rua em frente à m ansão. Rum aram até o cem itério não m uito distante dali, num a m archa fúnebre e silenciosa, enquanto os grossos pingos de chuva batiam no vidro da j anela de m eu quarto. O dia estava nublado, cinzento, assim com o tudo ao m eu redor.
O enterro de Marcos aconteceu no final do m esm o dia; as inúm eras coroas de flores e pessoas im pressionavam − era o que diziam m inhas am igas. Claro, Marcos fazia parte da alta sociedade de Pedro Afonso.
Mais um a vez, papai conseguiu escapar da j ustiça e ficar im pune, alegando que m atara Luciano em legítim a defesa. Em bora nada pudesse fazer m eu am or retornar à vida, tentei desm enti-lo, m as em vão. Nem intim ada para ser interrogada pelo delegado, eu fui. Coronel m anobrou m ais um a vez com o corrupto chefe da polícia civil para conseguir o que desej ava.
Quando Luciano m orreu, não desconfiava que, dentro de m im , se iniciava um a nova vida. Faltam alguns dias para com pletar um m ês da m orte do pai de m eu filho ou filha, o Coronal Jorge descobre que estava grávida, a prim eira reação de papai foi ordenar que eu tirasse m eu filho. Disse-m e que ligaria para a clínica em que um m édico am igo seu fazia abortos clandestinos, agendando um horário para m im no dia seguinte. Eu, que ainda m e encontrava em estado de choque, vivia um a situação surreal: um vazio tão grande dentro de m im , ao m esm o tem po em que m e sentia tão preenchida de dor e am argura. E ainda sabendo que, agora, estava se form ando um a nova vida dentro do m eu ventre. Um filho! Um elo entre Luciano e m im ; um sinal concreto de que vivera um am or real, que não fora apenas um a fantasia de m inha cabeça, com o às vezes m e parecia ter sido: apenas um sonho fugaz.
Acredito que só tenha saído daquela sensação de não m ais pertencer à
realidade, quando na m anhã seguinte, logo que acordei, antes m esm o de m e levantar da cam a, fui agarrada por dois enorm es e truculentos seguranças.
− O-o... que é isso? O que está acontecendo? Soltem -m e, seus brutos! Com o
ousam invadir assim o m eu quarto? − gritei, indignada, tentando m e desvencilhar daquelas garras de aço. – Eu vou contar para o Coronel Jorge e ele vai m andar vocês para o olho da rua!
− Calm a, dona Daniella! Foi o próprio Coronel Jorge quem m andou a gente
não deixar a senhorita escapar. Ele nos disse que, antes que pusesse os pés no chão, a colocássem os no carro.
Se ainda havia um vestígio de torpor acom panhando o m eu despertar, esse se
dissolveu na hora, pela raiva que se apoderou de m im .
− No carro? Por quê? Para onde vão m e levar? – De repente, lem brei-m e das
palavras do coronel no dia anterior.
− Nós vam os levá-la à clínica do Dr. Am adeu, no bairro das Acácias. O
Coronel Jorge disse que nem vai precisar tom ar café da m anhã e que não é para deixarm os a Dona Adriana ver a senhorita saindo...
O desespero tom ou conta de m im . Eu não deixaria que o coronel Jorge, m ais
um a vez, com andasse a m inha vida e retirasse de m im a única ligação com Luciano. Não! Som ente se passasse por cim a de m eu cadáver! Defenderia aquela vida, a todo custo. Eu tinha, afinal, um m otivo para continuar a viver!
Fingi que obedecia. Levantei-m e da cam a e disse com a voz m ais calm a que
consegui sim ular (por dentro, eu fervia, com o um a panela de pressão prestes a explodir):
− Está bem . Vou segui-los. Mas não quero ser agarrada com o um a bandida
prestes a ir para a cadeia. Me deem só uns dez m inutos. O tem po suficiente para eu lavar o rosto, escovar os dentes e trocar de roupa.
Os dois seguranças se olharam , consultando-se sobre aquela possibilidade. Estavam tão acostum ados a seguirem ordens estritas, que qualquer coisa que fugisse ao script previam ente estabelecido, os confundia.
− Vão por m im , só preciso desse tem po. Olha, podem até ficar do lado de fora, m e aguardando na porta.
Meio relutantes, resolveram ceder. Se conseguissem ver o brilho em m eus olhos, talvez tivessem desconfiado, e m eu plano teria ido por água abaixo. Mas os m antive abaixados. E tudo deu certo, conform e os desígnios de Deus.
Nunca fiz tão rápido um a m ala em m inha vida: j ogava roupas e obj etos pessoais, conform e os via, não m e esquecendo de m eus docum entos. Esgueirei-m e pela borda da j anela, pelo lado de fora, onde havia um a pequena saliência, à guisa de floreira, que no m om ento não continha nenhum vaso e apoiei os pés com cuidado. Aos poucos fui descendo até sentir m eu pé firm e no solo. Finalm ente a m inha liberdade!
Entrei na garagem e, determ inada, entrei no carro reserva, que sem pre ficava com a chave no contato, para uso do m otorista da casa. Dei partida, acelerando com fúria, sem m e im portar com m ais nada, a não ser abandonar aquela m ansão e tudo o que m e suscitava com o um a prisão dourada. Corri pela estrada tortuosa, devorando suas curvas a m ais de 120 quilôm etros, só dim inuindo a m archa ao avistar a rodoviária da cidade. Não m e despedi de ninguém nem naquele m om ento, nem nas sem anas seguintes. Busquei refúgio na casa de parentes na capital.
Fiquei m orando longe de Pedro Afonso por quatro anos. Nesse período, Coronel Jorge respondeu em liberdade ao processo de utilização de trabalho infantil na j ustiça. Nada aconteceu. Recursos atrás de recursos faziam com que o j ulgam ento fosse adiado. Não tinha m ais contato com a cidade, nem fazia questão de saber sobre o destino de Ana. Bem que ela tentou arrum ar outro bom partido que nem Marcos, m as esses preferiam se casar com outro tipo de garota. Sua fam a de nam oradeira e interesseira corria de boca em boca. Ela foi a única que não teve coragem de sair da pequena cidade. Afinal, depois de um tem po, todo m undo ganhava o m undo, se queria algum tipo de proj eção profissional.
Acom panhava, pela im prensa da capital, que a situação das crianças utilizadas na fazenda do coronel se resolvera: algum as voltaram para seus pais; outras ficaram sob a guarda do j uizado de m enores aguardando adoção. Houve dois casais de pais que foram punidos por terem entregado seus filhos para o trabalho no laranj al. Para piorar, o que m ais chocou a opinião pública foi o fato de a reportagem ter apurado que várias crianças, enquanto m antidas cativas na propriedade, eram frequentem ente vítim as de abuso sexual.
A banda “Liberdade Condicional”, agora com um novo contrabaixista, ganhara
proj eção nacional, realizando vários shows pelo Brasil. O fato de se apresentarem fantasiados fez com que obtivessem m uito sucesso e até saíssem em capas de várias revistas de celebridades. As garotas suspiravam pelos m úsicos, im aginando seus rostos por trás das m áscaras.
Mesm o com a im agem arranhada, Coronel Jorge continuou sendo o rei de
Pedro Afonso, e m antendo a pose de coronel todo poderoso.
Meu filho Lucas, com 4 anos, nunca viu o avô. E, na verdade, o coronel nem
fazia questão de conhecer o neto. Adem ais, com o poderia explicar ao m eu filho que seu pai foi assassinado pelo próprio avô?
Isso explicava o fato de “Avô” ser um tem a tabu em casa, assim com o todo o
m eu passado com o filha do Coronel Jorge, que pouco m encionava a Lucas. Mam ãe nos visitava raram ente. Meu irm ão, por questões de com prom issos com a banda, a cada quinze dias. Com eçaram a se apresentar até em turnês internacionais, o que m e enchia de orgulho, ao relem brar os tem pos do estúdio im provisado na acanhada garagem de Oswaldo. Fiquei m e perguntando se Luciano, vivo, continuaria com pondo a banda. Talvez eu não deixasse, ou sim . Vai saber...
Essa foi m inha vida durante quatro anos.
* * *
Dois anos se passaram .
Sem m otivo aparente, m am ãe passou a m e ligar, insistindo para que eu
voltasse para Pedro Afonso.
− Filha, estam os com m uitas saudades suas. Volte a m orar novam ente aqui
com a gente, na m ansão. Seu quarto está intacto, todos os seus obj etos continuam em cim a da penteadeira...
Eu não podia acreditar no que ouvia. Aquilo era algo inaceitável até de se propor. Mam ãe sabia, afinal, por que eu fora em bora; depois de um tem po lhe contei tudo: desde a coerção de papai para eu abortar e até de que m aneira Luciano m orrera, com os disparos da arm a do m onstro de m eu pai.
− Mam ãe, não dá. Não consigo m e im aginar m orando debaixo do m esm o teto que o Coronel Jorge. Você está exigindo dem ais de m im ... Não posso nem olhar para esse hom em ; acho que vom itaria! – disse, percebendo tarde dem ais que fora um tanto quanto dura e feria m inha m ãe com essas palavras.
Meses de insistência, até que a verdade apareceu. Naqueles dois últim os anos, papai adoecera. Estava com câncer term inal e cego pela diabete. Em pouco tem po, a doença o consum iu. Na época, eu pensava que era tudo castigo pelas m aldades que causara na vida de tanta gente.
Aceitei voltar apenas porque ele perm anecia som ente em seu quarto, não saindo para lugar algum . Assim , não precisava vê-lo. Meu filho Lucas, com seis anos, j á entendia as coisas que falávam os para ele. Por isso, queria evitar seu contato com um m onstro, com o o seu avô.
César, para m inha surpresa, tam bém voltou a m orar na m ansão. Mam ãe estava m uito sozinha, precisava de seus filhos.
A em presa acabou sendo vendida a preço de banana, após sucessivos prej uízos que se acum ulavam nos últim os anos por m á adm inistração. Papai não conseguia trabalhar por conta de seu estado de saúde.
No cotidiano da m ansão, m am ãe, aos poucos, tentava nos convencer a visitar nosso pai.
− Meus filhos, seu pai, após adoecer e se encontrar no estado em que está, m udou m uito seu com portam ento. Não aceita que ninguém o cham e m ais de Coronel Jorge, apenas de Jorge.
Incrível o que a doença pode provocar na vida de um ser hum ano! “Será que a proxim idade e o m edo da m orte faz a pessoa m udar seu caráter?” – eu m e perguntava, incrédula, em bora ainda não totalm ente convencida a ceder aos apelos de m am ãe.
Às vezes, ouvíam os gritos. Era o m onstro, sofrendo as dores lancinantes que a doença, em seu estágio final, provocava em seu corpo. Em bora aqueles gem idos cruciantes m e dessem arrepios, queria m e convencer de que ele m erecia e m e sentia vingada, em parte. Endurecida pela dor, m artelava-m e à cabeça: “Ele m erece isso e m uito m ais! O que ele está sentindo não chega perto de tudo o que sofri nas m ãos dele”.
A única pessoa que conversava com o Coronel Jorge era m am ãe. Ela, sim , era
um a m ulher guerreira: sem pre sofreu nas m ãos do m arido e nunca o traiu ou abandonou. Agora, encontrava-se ao seu lado no m om ento de doença, conform e j urara, nos votos m atrim oniais: “Na saúde e na doença...” Quantas pessoas conseguem cum prir as prom essas feitas no passado?
Quanto a m im , não conseguia m e sentir abrandada ao testem unhar o
sofrim ento daquele hom em . Constatar o seu padecim ento apenas servia para satisfazer o m eu desej o de vingança por aquele m onstro que condenara m eu filho, antes m esm o de nascer, a ser órfão de pai. Meu coração doía cada vez que eu pensava que Luciano m orrera desconhecendo que seria papai!
Semanas seguintes.
Esperançosa, m am ãe não desistia de obter o nosso perdão para o Coronel
Jorge, insistindo para que César e eu fôssem os vê-lo em seu quarto. Estava à beira da m orte; um dia a m ais vivo, seria um m ilagre.
– Aqui se faz aqui se paga – dizia m eu irm ão.
Paralisada, pensativa olhei para m eu irm ão e após alguns instantes soltei
-“Vam os vê-lo, César? Vou fazer isso pela m am ãe; não pelo Coronel Jorge”.
Mam ãe explodiu de felicidades com m inha decisão. Apesar de tudo, ela
sem pre am ou papai; era o que se podia cham ar de am or incondicional... Quanto a m im , só conseguia nutrir ódio ao hom em que m ais m e prej udicara em vida. César relutou um pouco com m inha decisão, m as logo respirou fundo, abaixou a cabeça e concordou.
Ao entrar bem lentam ente no quarto, dem oram os em nos acostum ar com a sem ipenum bra e enxergar o coronel, deitado na cam a. Era um clim a m uito pesado, algo horrível de sentir, m uito triste! Depois de uns segundos necessários para m e adaptar à falta de claridade, distingui-o: m agro, aparência esquálida, m açãs do rosto e olhos encovados, a pele quase transparente, os poucos fios de cabelo grudados no couro cabeludo. Mas não m e com oveu; não senti um pingo de dó. “Está tendo o que m erece”, rej ubilei-m e, endurecida em m inha dor.
− A Daniella e o César estão aqui. Vou deixar vocês a sós – disse m am ãe, enquanto fechava a porta atrás de nós.
Um silêncio pairou entre nós. Afastam o-nos, seguindo para o outro lado do quarto, perto da j anela sem falar nada, tentando respirar um pouco de ar m enos viciado. De onde estávam os apenas ficam os observando o estado cadavérico em que se encontrava.
O coronel não se m oveu; continuou com o rosto virado para a porta, achando que ainda estávam os naquela direção.
− Entrem m eus filhos. Quero falar algo para vocês – disse.
− Estam os aqui na j anela – disse César.
Jorge virou seu rosto em nossa direção, onde se podia ver um brilho de felicidade genuína.
− Meus filhos! Estou tão feliz por vocês estarem aqui com igo, após tantos anos! Com os braços esticados, cham ou-nos para que chegássem os perto dele e o abraçássem os. – Aproxim em -se de m im , m eus filhos. Quero sentir o abraço de vocês.
Esperam os por aquela atitude durante tanto tem po na vida. Nunca, em nenhum m om ento ele nos cham ara de filhos, ou m anifestara carinho por nós. Sem pre frio e arrogante. Mas, era tarde. O arrependim ento que m anifestava em seu coração era decorrente do sofrim ento que passava e não pela consciência das atrocidades praticadas em toda sua existência aqui na Terra.
Papai ficou ali, com os braços estendidos, esperando que fossem os até ele e o abraçássem os. Não fui, nem m eu irm ão. Algo nos im pedia; parecíam os duas estátuas. César chorava igual a um a criança, enquanto eu não conseguia derram ar um a gota de lágrim a.
− P-preciso... do abraço de vocês! – balbuciou.
− Não vam os te abraçar, Coronel Jorge! – respondi com rispidez. − M-m inha filha... Por favor... Não fale assim com igo! E não m e cham e
assim , de coronel, apenas de pai. Tenho total consciência dos m eus erros... – Um sorriso am argo se desenhou em seus lábios arroxeados. – Afinal, estou há tantos anos nesta cam a... E tenho pesadelos todas as noites... Lem bro-m e de com o fui um péssim o pai para vocês dois... – disse, num suspiro cansado, pelo esforço que lhe era exigido ao falar.
− Péssim o pai? Você nunca foi pai, nem m erece essa dádiva – retruquei,
enquanto m eu irm ão, calado, só chorava.
A raiva dentro m im , finalm ente liberada, transbordava com o lavas
incandescentes que acabavam de ser expelidas da boca do vulcão.
Ele abaixou os braços, à beira do choro:
− Não fale assim , não quero brigas; apenas pedi que viessem aqui para pedir
perdão a vocês dois. Não quero m orrer sem antes ouvir da boca de m eus filhos essa palavra tão abençoada: perdão!
Ao ouvir suas últim as palavras, não aguentei m ais: senti desm oronar a m inha
fortaleza. Incontroláveis, as lágrim as rolavam pelo rosto sem parar. Meu desej o era que eu conseguisse não derram ar nenhum a gota de lágrim a por causa daquele m onstro, m as não tive forças para isso. Eu sentia que ele estava sendo sincero, em bora m eu rancor e m ágoa fossem m ais fortes.
− Quero relem brar, Coronel Jorge, que m uitos anos atrás eu lhe disse que
chegaria o dia em que iria se arrepender por tudo o que fez contra m im e contra tanta gente inocente. Chegou este dia. Hoj e, você é m ais um cadáver vivo do que qualquer outra coisa... E eu digo com a boca cheia: não te perdoo! Jam ais obterá o m eu perdão por ter tentado m atar m eu filho, ter deixado o Lucas sem pai; por ter assassinado o grande am or de m inha vida! – desabafei em tom m uito agressivo. − Chorei por anos seguidos, até que a dor am enizasse dentro de m im . Mesm o agora, m eu coração não está totalm ente cicatrizado; de vez em quando, ainda sangra... E este encontro é a prim eira e a últim a vez que acontece!
Clam ando por piedade, papai só chorava.
− Quero m orrer em paz com o perdão de vocês, m eus am ados filhos –
balbuciou com voz débil. – Sei que estou querendo dem ais, m as é o m eu últim o desej o em vida...
Apenas gesticulei para que César saísse j unto com igo do quarto, e deixam os o coronel falando sozinho, achando que ainda estávam os lá. As últim as palavras que ouvim os antes de fechar silenciosam ente a porta atrás de nós foram : “Eu am o m uito vocês, m eus filhos, e preciso do abraço de vocês, antes de m orrer”.
Olhei para trás e o vi pela derradeira vez com seus braços levantados para o vazio. Papai aguardava um abraço que nunca aconteceu.
Descem os para a sala e ficam os sentados, abraçados, e choram os tudo a que tínham os direito. Mam ãe soube o que se sucedera no quarto.
− Eu vou subir e ver o pai de vocês. Vocês estão errados.
Ao descer, m inutos depois, ela tam bém chorava m uito. Na sua idade, as em oções fortes poderiam lhe causar problem as de saúde.
Segundo m am ãe, quando ela entrou no quarto, Jorge ainda estava im plorando perdão, j ulgando que nos encontrávam os lá. Ele se pôs a chorar, tal um a criança, quando m am ãe lhe disse que j á tínham os saído e que estava im plorando para as paredes.
* * *
Na m anhã seguinte, m am ãe fez algo que reprovei: levou Lucas até o quarto do Coronel Jorge.
Segundo seu relato, Lucas perguntou curioso, quem era o senhor que estava na cam a? Ela respondeu, em ocionada, que era um am igo da fam ília que estava dodói e precisava m uito de um abraço.
− Jorge m eu querido, estou com o Lucas aqui do seu lado – avisou m am ãe.
Coronel, ao saber que m eu filho se encontrava no recinto, pediu para que chegasse m ais perto. Colocou sua m ão sobre a cabeça de Lucas e, em seguida, o abraçou forte. O neto que ele exigira que eu abortasse, finalm ente, estava à sua frente. Em ocionada, m am ãe observava aquele encontro carregado de em oção. Antes de sair do quarto, ainda segundo m am ãe, Lucas desej ou que o am igo da fam ília dorm isse com os anj inhos. Pelo m enos ela não disse ao Lucas quem era realm ente aquele hom em .
Meu filho retornou para o seu quarto e m inha m ãe voltou para ver seu m arido, encontrando-o m orto, com um sorriso sereno no rosto. Talvez tivesse sido a em oção de ter sido abraçado pelo neto.
Morreu sozinho. Sem sua fam ília ao seu lado. Ninguém o am ava; exceto pela
m am ãe, acredito que não houvesse outra alm a viva que nutrisse bons sentim entos pelo m eu “pai”.