Sonho Azul: A luta pelos inocentes
Capítulo X
Redenção e Arrependim ento
Cidade de Pedro Afonso, Tocantins, 18 de agosto de 2050.
Agora, quem está deitada em um a cam a sem poder se levantar sou eu. A idade chegou para m im . Com 70 anos de idade, eu poderia viver m ais vinte anos, ou não.
O que m e valeu foi ter form ado esta linda fam ília, que hoj e está aqui à m inha volta: m eu filho Lucas com sua esposa e m eus dois netos e um a neta. Relem bro, am argurada, que foi algo que m eu pai desej ou tanto no final de sua vida e não obteve: ter seus filhos perto de si.
O que foi feita da m inha j uventude, com a tragédia que se abateu sobre m im , im pedida pelo m eu pai de viver plenam ente o am or de m inha vida? Ela foi interrom pida no m om ento em que papai disparou aqueles tiros contra Luciano. Tristes, difíceis e am argurados foram os dias que se sucederam , a partir dali. Som ente a alegria do sopro de um a nova vida para m e fazer esquecer, parcialm ente, a dor que passei a carregar na alm a. Perdida em m eus pensam entos, voltei a m im ao ouvir:
− Mam ãe... Mam ãe... Você está bem ? Parou de falar, de repente...
Lucas está sentado em um a cadeira próxim a de m inha cam a, com os olhos cheios de lágrim as. Com a m inha narrativa repleta de detalhes, percebo que o envolvi em m eu relato em ocionado, fazendo com que revisitasse o m eu passado. Bato com a m ão direita, a que está livre do soro, na beira da cam a, cham ando-o para se sentar m ais perto de m im . Ele m e atende prontam ente. Seguro em suas m ãos:
− Seu pai nunca soube que eu estava grávida de você. Ele ficaria m uito feliz em conhecer você e toda nossa fam ília.
− Quero que a senhora descanse um pouco. Esforçou-se m uito para contar sua
história, m inha m ãe – diz, fazendo um a carícia suave em m eu rosto.
Peço ao m eu filho que pegue um a caixa em cim a do guarda-roupa. Ele m e
atende, sabendo que vou repetir um ritual que m antenho ao longo dos últim os anos, por vezes m ais de um a vez por sem ana. Contém as fotos m inhas e Luciano j untos em sua casa, quando m e fez a surpresa do j antar rom ântico. Eram as únicas im agens que eu tinha dele.
− Já m ostrei várias vezes, não custa m ostrar de novo. Vej am com o ele era
lindo.
As fotos passam de m ão em m ão, enquanto continuo a explicar que passei toda
a m inha vida com um a dor terrível no coração. Sofrim ento intensificado no m om ento em que m e defrontei com a m orte do hom em que am ava. Com o passar dos anos, foi se transform ando em um a dolorosa, m as doce nostalgia.
− Entretanto, o que quase m e m atou de arrependim ento, durante vários
m om entos nessas últim as décadas, foi não ter perdoado m eu pai em seu leito de m orte – confesso, finalm ente, sem pudor. Era algo que ocultara até de m im m esm a, m as que, hoj e, não m ais se j ustifica.
− Mam ãe, não se em ocione. Descanse – m e aconselha Lucas. − Não, eu preciso desabafar. Esse foi o espinho em m eu coração. Na hora, não
pensava nas consequências, estava cheia de ódio. Papai m orreu com os braços abertos, im plorando pelo m eu abraço e m eu perdão. Alguns anos depois, passei a sentir um peso na consciência. Mesm o tendo sido vítim a da ira e intransigência de Coronel Jorge, sofri m uito por não ter atendido ao seu últim o desej o; não entendi na hora o quanto aquele perdão seria redentor para nós dois.
− A senhora j á está com eçando a se em ocionar. Pode prej udicar seu coração.
Saiam : Anita, por favor, leve as crianças para fora do quarto e vam os deixar a vovó descansar – diz Lucas para as crianças. – Só vou trocar um as palavras finais com ela.
Mantenho as fotos próxim as ao m eu peito. Despeço-m e de todos. Quando estam os a sós, apenas o m eu filho e eu, ele m e fita com os olhos
m arej ados. Ele está em ocionado, tanto quanto eu. Pressentim os que são nossos últim os m om entos j untos. A nossa pequena fam ília, form ada apenas por nós dois, frutificou: agora há Anita, sua esposa, m ais Breno, Bruno e Bárbara. São lindos os m eus netos: Luciano ficaria orgulhoso de sua descendência!
− Mam ãe, eu sei de tudo...
− O quê? Do que está falando, m eu filho? – indago, respirando com dificuldade.
− Eu sem pre soube de tudo isso. Que m eu avô foi o responsável pela m orte de m eu pai, não é? E tam bém sei que, por ele, eu nem existiria.
Aquela revelação tem o poder de m e desarm ar. Meu queixo trem e, as palavras m e fogem . Eu, que m antinha aquele segredo trancado por anos a fio, sem saber que Lucas j á sabia de tudo...
− Eu fiquei sabendo através da vovó Adriana. Um pouco antes de ela m orrer – Lucas continua, olhando com ternura para m im , enquanto retira um a m echa de cabelo que insiste em cair no m eu olho. − Ela m e disse que se não era possível você, com o filha perdoar ao seu pai, queria saber se eu, com o seu filho e neto do vovô Jorge, seria capaz de perdoá-lo por ter m e privado da presença de um pai e por quase não ter nascido.
− Eu não acredito que m am ãe fez isso! Ela não tinha o direito...
− Não, m am ãe... Foi im portante que ela tivesse m e revelado isso. Pude, assim , com eçar a entender a sua dor, o seu silêncio. E adm irá-la ainda m ais, am á-la ainda m ais.
– E o que respondeu Lucas?
– Disse do fundo do m eu coração, que sim , perdoaria m eu avô Jorge.
– Meu filho, você foi sábio – disse ao respirar profundam ente.
Só queria te contar isso, antes de deixá-la. Durm a agora m am ãe, você precisa de um repouso.
* * *
Fico sozinha no m eu quarto com a luz do abaj ur acesa. As palavras de m eu filho, além de m e desorientarem , têm a capacidade de m e deixar ainda m ais reflexiva. “Ele perdoou o avô... Ele perdoou o avô!”, repito para m im m esm a, incrédula.
Aproxim o as fotos de m eus olhos cansados, exam inando com atenção,
novam ente, as expressões felizes que Luciano e eu m anifestam os nos olhares, capturadas naquele instantâneo: consigo recuperar naquela foto todas as prom essas de am or, todas as esperanças, toda a fé num futuro pleno de am or, e até um a certa im petuosidade própria da j uventude. Suspiro enternecida. Sem conseguir m e conter, afloram aos m eus lábios um a poesia que declam o, com o Luciano tão facilm ente sabia fazer:
“Foi por ti que, num sonho de ventura, a flor da mocidade consumi. E às primaveras digo adeus tão cedo. E na idade do amor envelheci! Cinquenta anos! Derramei-os gota a gota num abismo de dor e esquecimento. De fogosas visões nutri meu peito... Cinquenta anos!... Não vivi um só momento!
Contudo, no passado uma esperança, tanto amor e ventura prometidos, e uma virgem tão doce, tão divina,
nos meus sonhos junto a você adormecia.
E quantas vezes o luar tardio não viu nossos amores inocentes? No suspirar, nos cânticos ardentes?
Eu sonhei tanto amor, tantas venturas, tantas noites de febre e de esperança! Mas hoje o coração desbota, esfria, e do peito no túmulo descansa! Pálida sombra dos amores santos, passa, quando eu morrer, no meu jazigo; Ajoelha-te ao luar e canta um pouco, e lá na morte eu sonharei contigo!” N.E (2) – pag:141.
Beij o as fotos longam ente. Sinto com o se Luciano m e beij asse. Minhas
lágrim as m olham o papel. Aperto-as contra o peito e adorm eço.
* * *
Desperto com fortes luzes ao m eu redor e em todo o quarto. Aquela claridade
m e ofusca a visão. Cham o m eu filho. Grito para que alguém m e socorra. Mas nenhum som audível sai de m inha garganta. Parece que não m e ouvem .
Surge à m inha frente um túnel de luz. Um a sensação de calm a e inexplicável paz tom a conta de m im . Lentam ente, um vulto surge no m eio daquelas luzes, até se m aterializar na im agem de um ser hum ano. Olho m ais atenta, e percebo que aquela silhueta m e é fam iliar. Meu coração acelera.
− Luciano? – pergunto.
− Levante-se e venha até m im – diz.
− Não posso; tenho problem as nas pernas.
− Agora, você pode.
Esforço-m e para m e colocar em pé e constato que é verdade: eu consigo. “Eu não acredito, estou de pé!”
Que estranho! Consigo enxergar o m eu corpo deitado sobre a cam a, segurando as fotos sobre o peito e, ao m esm o tem po, vej o-m e em pé.
− O que está acontecendo?
− Segure em m inha m ão e venha.
− Quem é você?
− Não m e reconhece m ais? – soa sua doce voz.
− Luciano, é você? – pergunto em ocionada.
Seguro nas m ãos daquele que acredito ser Luciano e, do nada, sinto-m e desvanecer do quarto.
Num piscar de olhos, j á não m e encontro m ais em m eu aposento. Agora, estou entre as nuvens, subindo m uito rápido, enquanto o ar incrivelm ente fresco. Observo m inhas m ãos, que não estão m ais enrugadas. Não sinto m ais dores nas articulações e tam pouco o peso de m eu corpo, o cansaço foi em bora. Um a sensação de liberdade incrível m e dom ina, chegando a m e inebriar.
− Finalm ente, chegou o dia de nosso reencontro – diz Luciano, conduzindo-m e em seus braços.
− Luciano! Então, eu...
Mas antes que consiga dizer qualquer coisa, olho para o m eu lado direito e sou capturada pela visão deslum brante de um lindo horizonte, com um a luz m uito forte no céu. Lem bra o Sol, m as não é. Sua grandeza é superior ao do astro rei. É Glória e Poder de Deus que ilum ina tudo ao m eu redor. As garças voam por todos os lados. Várias delas pousam levem ente ao nosso redor, com o se nos recepcionassem para a nova vida de paz e felicidade que Deus nos reservou.
A partir deste instante, m e calo, pois sei que palavras se tornam desnecessárias
diante da certeza absoluta: tornam o-nos apenas um a alm a... Um a alm a gêm ea!
* * *
Você m e deu tudo o que eu quis;
Me fez o ser m ais im portante;
Se alegrou quando acertei;
E quando errei veio m e ensinar;
Tudo o que eu sei aprendi com você;
Dos beij os aos toques m ais suaves;
Você é tudo e agradeço por ter m e am ado;
E sem pre viverá em m im ;
Continuo a am ar você;
Você foi a luz no túnel tão escuro;
Segurou em m inhas m ãos quando m e perdi;
Você acreditou em m im ;
Não m e deixou cair um só m om ento;
Você sem pre esteve ao m eu lado;
Segurando m inhas m ãos com o um anj o;
Tudo para m im foi eterno;
Pois Deus nos abençoava com am or;
Com você estava protegida;
Ao seu lado tinha paz e felicidade;
Você: O m eu lindo tesouro.
Viu o quanto que te am o?
Por que você m e deixou assim ?
Estarei a pensar em ti;
Nos m om entos alegres da vida;
Até em m eus últim os dias;
Eu sou tudo o que sou;
Por que você m e am ou.
FIM
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Andersson Pedroso