Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Andersson Pedroso · Capítulo 3 de 12

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Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Capítulo I

Sonho pela liberdade

 

Pedro Afonso (TO), m aio de 2000.

Eram duas horas de um a m adrugada gelada e com ventos cortantes. Mas isso não foi suficiente para intim idar a cam inhada firm e e ritm ada dos integrantes de um determ inado grupo pelas ruas de Pedro Afonso naquele horário inusitado. Mesm o encolhidos e batendo os dentes, castigados pelo clim a que lhes provocava arrepios, avançavam , com o se soubessem exatam ente o que fazer e para onde ir.

A cidade é cortada por dois grandes rios, o Tocantins e o Sono, que se bifurcam . Durante as férias de j ulho, os turistas visitam a cidade, porque nesse período as águas dos rios têm seu nível m ais baixo, trazendo à tona praias de areias brancas, que constituem um verdadeiro paraíso.

Em algum as casas havia luzes acesas, apesar do horário, e pessoas nos observavam . Com certeza, os seus pensam entos voavam , criando ilusões de que estávam os chegando de um a boate da região, ou a cam inho de um a. Não chegaria nem m esm o a criticá-los: afinal, vendo um grupo de j ovens form ado por três rapazes e duas garotas se m ovendo pelas ruas, altas horas da noite, o que m ais poderiam im aginar?

− Daniella, eles não devem estar aqui. Com essa friagem foram todos em bora – dizia César, m eu irm ão, sem pre ao m eu lado.

− Não, deve haver dois ou três, em algum lugar, m ais escondidos. É neste m om ento que m ais precisam de nós – retruquei, de m aneira firm e. − Por isso, não podem os desistir e ir em bora. Nossa m issão é esta, afinal.

A garoa chegava a m olhar nossas cabeças; a pressa em term inar nosso trabalho era grande, antes que a neblina descesse e não nos perm itisse m ais enxergar sequer a palm a das m ãos.

Ao longe, percebem os em um canto da calçada restos de panos rasgados e

j ornais por cim a do um m orador de rua, que tiritava incontrolavelm ente de frio. O coitado contava apenas com aqueles recursos para sua proteção.

Aproxim am o-nos devagar para não assustá-lo. Passaram pela m inha m ente as

lem branças de j ovens com o nós, que conseguiam agir tais brutam ontes, anim ais im piedosos, que chegam a atear fogo em m oradores de rua − seres hum anos, que se transform am em flagelos e vítim as da sociedade. Carrascos e vítim as se tornaram m anchetes de noticiários de tevê e paralisaram todo um país, não fazia m uito tem po.

− Senhor, acorde! − Eduardo retirou os j ornais por cim a do rosto do m orador

de rua e o cham ou novam ente.

Assustado, ele abriu os olhos. Devia ter aproxim adam ente seus cinquenta anos

de idade, barba cerrada, faltavam -lhe vários dentes, e os poucos que tinha estavam podres.

− Está com fom e? – perguntou Oswaldo para o m orador. − Estou − respondeu com a voz trêm ula, de quem fazia m uito tem po que não

com ia.

Entregam os a ele um pote com sopa quente repleta de legum es e verduras.

Em brulhadas em um papel toalha, duas m açãs e um a banana, que deixam os ao seu lado.

Pelo m enos por aquela noite a fom e fora saciada, m as e as outras que viriam

pela frente? Com o faria para se alim entar, caso não o encontrássem os de novo?

− Muito obrigado, j ovens. Não tenho palavras para dizer o bem que m e

fizeram – disse, com os olhos m arej ados e o sem blante m enos abatido.

− Não tem do quê. O senhor sabe se há m ais pessoas dorm indo por essas

redondezas?

Ficam os sabendo que perto da praça central tinha m ais gente dorm indo na rua.

Indagam os por que ele não ficava j unto com o restante do grupo.

− Ah, o padre não gosta que m endigos durm am na frente da igrej a, e antes de

am anhecer ele aparece gritando, expulsando todos do local.

A surpresa foi unânim e entre nós; olham o-nos com um pensam ento com um a

nos invadir a m ente: “Quer dizer que, em vez de aj udar aos seus sem elhantes, o padre hum ilha e age com preconceito?”

Deixam os o sem -teto term inar sua alim entação e seguim os rum o à praça central, onde alim entam os no local oito pessoas que dorm iam nos bancos. Com a m issão encerrada por aquela noite, cada um retornou a sua casa.

* * *

No café da m anhã, bem hum orados, m eu irm ão e eu com entam os sobre o ato da noite anterior:

− Dani, cum prim os nossa cota de m aneira satisfatória ontem , não acha?

Concordei com um m eneio de cabeça e perm aneci pensativa. No com eço de nossa em preitada fora bem difícil: levantar durante as m adrugadas e localizar os m oradores de rua, sem saber onde encontrá-los. Som ente a determ inação e o idealism o de três j ovens para pensar em algo sem elhante: m atar a fom e e o frio de pessoas m enos favorecidas. Aos poucos, com o entusiasm o da turm a, nos acostum am os.

Era prazeroso auxiliar quem necessitava tanto de nossa aj uda. Em vez de baladas, festas e bebidas, aj udávam os quem estava m orrendo de fom e.

Quando com eçaram a surgir m endigos em Pedro Afonso, a iniciativa partiu do m eu irm ão. No início, eram apenas o Oswaldo, m eu irm ão e eu. Por últim o, entraram a Ana e o Eduardo para o que cham o de “A Confraria do Bem ”, cuj o obj etivo era praticar o bem ao próxim o. Quer dizer, não a qualquer próxim o, m as àqueles m enos favorecidos, os totalm ente esquecidos pela sociedade: os m endigos e m oradores de rua.

Os m eninos do grupo tinham um a banda. Eles tocavam sem pre escondidos, por causa de m eu pai, que j am ais toleraria ver seu filho tocando em um a banda.

Em bora César sem pre dem onstrasse interesse pelos negócios, papai nunca perm itiu que ele fosse à fazenda e à indústria para conhecer, na prática, tudo o que ocorria por lá. Se m eu irm ão não tinha acesso, im agine eu!

Para se ocupar e se distrair, ele fazia os ensaios com a banda. No m eu caso, a fim de passar o tem po, todos queriam que eu aprendesse coisas de casa; assim , seria um a boa esposa para o m eu futuro m arido, seguindo o m esm o cam inho de m inha m ãe. E, sinceram ente, igual à m inha m ãe nunca desej ei ser.

Coronel Jorge e m inha m ãe chegaram de surpresa e j untaram -se a nós, na m esa de café da m anhã.

Fiquei m e perguntando se m eu pai ouvira m inha conversa com César. Diante

de seu sem blante im passível, enquanto nos dava “bom -dia” j unto com m inha m ãe, tranquilizei-m e.

A conversa, sem pre rara nos encontros fam iliares, aconteceu dessa vez... Papai

estava com um a expressão de felicidade, e o bate-papo foi tranquilo.

− Não estarei aqui na hora do alm oço – papai j ustificava sua ausência, em

função de um a reunião em que estaria envolvido.

Mam ãe, com o sem pre, concordava. Nunca soube se ela tinha consciência de

que essas reuniões de negócios eram m entiras, desculpas para suas escapulidas. Coronel Jorge conduzia-se para outra cidade com m ulheres.

Provavelm ente, ele tratava essas m ulheres da vida m elhor e com m ais carinho

do que m am ãe, e elas deveriam receber dele o que a sua legítim a esposa nunca teve. Pelo m enos, desde que m e conhecia com o gente, nunca tive o prazer de assistir a um a cena de carinho entre os dois.

Talvez m am ãe tenha se casado forçada com o Coronel Jorge e vivesse essa

desgraça na vida sentim ental, com o parte de seu destino – em sua opinião, aceitável só pelo fato de ser m ulher.

O olhar de m inha m ãe, m esm o negando com palavras, era de m uita tristeza;

toda vez que entrava nesse assunto com igo ficava danada.

− Dani, você está vendo coisas erradas; sou feliz ao lado do hom em que am o.

Seu pai é m uito ocupado e um pouco rude, talvez, m as nunca m e deixou faltar nada.

− Mas, m am ãe... Só quero que perceba que você m erece m ais; papai não pode

tratar você, assim . Aliás, toda m ulher m erece m ais de seu hom em : consideração, afeto, troca.

Para cortar logo o tem a da conversa, que não a agradava nada, nada,

debochava de m im :

− Ora, olha só quem fala: um a m enina m al saída das fraldas. Dani, você não

tem nem experiência para saber o que é ou falar sobre Am or... Está em seu prim eiro relacionam ento!

Calava-m e diante de seus argum entos. Era verdade que nunca tinha experim entado o Am or em sua plenitude, m as de um a coisa eu tinha certeza: aquela vida não queria para m im ; com tanta brutalidade, um dia ela poderia até apanhar. Não gostava nem de pensar, eu casada com um hom em que não am asse e, ainda por cim a, ser agredida, espancada dentro de m inha própria casa...

O sonho de m am ãe era estar ao lado de m eu pai em j antares elegantes de negócios, ou em eventos badalados na sociedade. Infelizm ente, não era o que acontecia na prática; parecia que papai tinha vergonha de nós. Sem pre com a cara fechada, saía conosco apenas quando necessário. Dessa form a, tinha facilidade em fazer seus rolos sem que soubéssem os.

Todos na cidade conheciam m eu pai pelo título de Coronel Jorge, não existindo um a alm a viva em Pedro Afonso que nunca ouvira falar do Coronel Jorge Ribeiro Mattos.

Tam bém não era de surpreender: m eu pai era o “Todo Poderoso”, a cidade inteira girava em torno de seus negócios, que m ovim entavam m ilhões; e o em prego de m uita gente dependia do sucesso de seu em preendedorism o.

O seu im pério iniciou-se quando papai era apenas um j ovem , proeza da qual não posso negar que sem pre tive orgulho dele. Mas seu gênio era m uito terrível, autoritário dem ais. Pelo pouco que ouvia, a sua equipe de trabalho sofria m uito em suas m ãos. Se com sua fam ília era intransigente e duro, im agine com estranhos.

− Vam os passear hoj e à noite? – sugeriu César, ainda na m esa do café da m anhã, com o obj etivo de ver toda a fam ília em um passeio noturno de sexta-feira.

Papai olhou seco para o m eu irm ão e rej eitou a ideia, argum entando que chegaria tarde e cansado, não teria ânim o para passear.

Toda a m inha vida passou pela cabeça. Por que ele era assim ? Parecia ter vergonha m esm o de nós. Nunca passeávam os, sem pre ficávam os naquela m ansão, quase isolados do m undo.

− Papai, por que não passam os m ais tem po j untos, com o um a fam ília norm al? – indaguei, dando força ao m eu irm ão.

− Parem de atazanar a cabeça do pai de vocês.

− Mas, m am ãe...

− Daniella, eu j á disse para não fazer cobranças, Jorge é atarefado por dem ais. Defender era a única coisa que m am ãe sabia fazer em relação a papai. − Bem , tenho que ir. Voltarei apenas à noite, até m ais – disse Coronel Jorge

para nós.

Ele se levantou e saiu sem beij ar ninguém . Por que era tão seco conosco?

Sonhava que um dia ele dissesse que nos am ava.

Mam ãe ficou passando m aquinalm ente geléia em um a torrada. Mal papai saiu,

ela levantou-se e foi para a cozinha, deixando a m im e a César sozinhos.

César deu de om bros:

− Não ligo m ais para as atitudes de papai, sabe? Mana, deixa eu te contar um a

coisa.

− O quê?

− Hoj e pela m anhã vou à casa do Oswaldo ensaiar com a banda. Quer vir

com igo assistir? – convidou, sussurrando em m eu ouvido.

− Claro que vou, quando você estiver pronto m e avise, que sairem os j untos –

respondi.

Meu irm ão retirou-se para o seu quarto e fiquei sozinha, term inando m eu café

da m anhã e divagando. Im aginava com o seria m inha vida longe daquela cidade: talvez em Palm as, na capital, fosse m elhor.

Um ligeiro riso nasceu em m eus lábios... Às vezes, reclam am os de barriga

cheia. O j ardim do vizinho sem pre é m ais colorido do que o nosso. Se bobear, a vida do outro é um a tragédia, m as com o não estam os no seu dia a dia, acham os que é um m undo colorido de alegria e prosperidade.

Para m im nem tudo estava perdido, porque eu am ava a vida e o que ela m e

oferecia. Sem pre fui bem aceita na com unidade em que vivia, em bora não m e sentisse propriam ente feliz.

Para falar a verdade, nos últim os dois anos, não sabia m ais o que era

felicidade, m esm o tendo de fingir ser a m ulher m ais feliz do m undo. E o m otivo de m inha infelicidade tinha um nom e: Marcos.

Meu nam orado até que era legal, m as autoritário com o o m eu pai. Por m im , não m anteria esse relacionam ento ao qual m e sentia obrigada pelo m eu pai. Na nossa cidade, ninguém tinha coragem para enfrentá-lo, e quem se atrevesse a fazer isso, poderia m orrer. Mesm o em tem pos de dem ocracia, quem m andava aqui era papai.

Nem sei com o com ecei o m eu nam oro com o Marcos, e queria ter coragem para term inar tudo. Só sabia que não o am ava, m as naquela casa, ninguém respeitava os m eus sentim entos. Os desej os do coronel deviam ser sem pre atendidos prontam ente.

Naquela sala fria, por exem plo, todos os quadros nas paredes eram obras produzidas por artistas da nossa cidade, que presentearam m eu pai.

Com 20 anos recém -com pletos, eu estava num a idade considerada ideal para m e casar, segundo a sociedade local. Peguei-m e im aginando com o seria o m eu futuro ao lado de um hom em que não am ava.

Meus pensam entos foram bruscam ente interrom pidos pelos em pregados retirando os utensílios da m esa. Levantei-m e e segui para a sala para assistir um pouco de televisão.

Ao descer do segundo andar, César term inava de arrum ar a gola da cam isa.

− E aí, Daniella? Vam os?

− Claro – respondi, ansiosa para m e livrar de m eus pensam entos; nem diante da tela de tevê conseguira espairecer.

Saím os para a rua e passam os pela praça central. Nossa residência, que ficava no centro de Pedro Afonso, chegava a disputar com a igrej a, em m agnitude.

Meu irm ão passou antes na casa de Eduardo para, j untos, chegarm os à residência de Oswaldo, o tecladista da banda, onde eram realizados os ensaios todas as m anhãs.

− Ana costum a participar? – perguntei.

− Não! – respondeu Eduardo. − Quanto m enos gente, m elhor, para não cham ar atenção.

− Mas e o som do ensaio? Quem passa na rua vai ouvir – retruquei.

− As paredes foram isoladas acusticam ente. Se houver m uitas pessoas no ensaio, aí sim , pode atrapalhar – argum entou. – Mas você, Daniella, pode ir, não se preocupe – disse, sorrindo para m im .

Passei todo o período da m anhã ali, sentada num canto da garagem , local

escolhido para os ensaios, ouvindo a banda tocar. Meu irm ão cantava bem , era bastante afinado. Estava orgulhosa de seu talento.

− Pena que vocês não realizam shows por aí!

− Daniella, a banda faz apresentações, sim , pelas cidades da região, m as tudo

escondido, em escolas e faculdades. Já fizem os até em barzinhos – respondeu Oswaldo.

Ao m e revelar isso, percebi m eu irm ão inquieto. − A Daniella não precisava saber disso! – interrom peu. Acalm ei-o. Seu m edo era desnecessário, pois não contaria para ninguém . César explicou-m e que era bom eu não saber de nada, para evitar cobranças

de nossos pais.

− Que tipo de cobranças? – perguntou Eduardo, o baterista. − Você sabe que eu canto e guarda isso para si. Im aginou quando nossos pais

souberem ? Eles vão ficar irritados com você, Daniella. Vão interpretar isso com o um a traição, ou você não conhece as atitudes do nosso pai?

− Sim , com preendi – respondi.

Fui com unicada tam bém que a banda estava desfalcada, necessitando urgente

de um integrante para a vaga de contrabaixista.

− Por esse m otivo, não fazem os apresentações há m eses – disse César. − O antigo integrante foi em bora de Pedro Afonso, com destino à capital

tocantinense – explicou Oswaldo.

− Sabe que, hoj e de m anhã, até eu pensei em com o seria a m inha vida longe

daqui, lá na capital? – com entei. − Claro que isso foi apenas um pensam ento m uito vago ou até m esm o im possível de acontecer.

− Ainda bem , m ana, não faça isso com igo, não! Beij ei m eu irm ão no rosto, afirm ando que j am ais o deixaria. Aproveitei que

estava com sede e dirigi-m e até o bebedouro, que ficava ali próxim o.

− E agora, César, com o vocês vão fazer? – perguntei com o copo quase cheio de água. – Parece que precisam urgente de um novo contrabaixista, né?

− Se você souber de alguém , Daniella, nos indique – respondeu Oswaldo.

− É um a pena, não conheço nenhum – respondi.

Nisso, o telefone tocou. Oswaldo largou o par de baquetas em cim a do instrum ento para atender.

− O quê? Seu nom e é Luciano? E quem falou dessa vaga para você? – Após alguns segundos, enquanto ouvia o que lhe falavam do outro lado da linha, fez sinal de positivo para nós.

Quando desligou, gritou:

− YES!! Deus está do nosso lado! Talvez a nossa busca tenha chegado ao fim !

Entendi que eles receberiam um rapaz para fazer o teste de contrabaixista. Ficaram todos eufóricos. Senti um a súbita vontade de ficar e acom panhar o final do ensaio e o teste, m as precisava ir, tinha um com prom isso com m eu nam orado.

Houve insistência de César e seus am igos para que eu ficasse m ais um pouquinho. Expliquei o m otivo por que precisava m e retirar, e eles disseram :

− Por isso m esm o você deveria ficar: o Marcos que espere!

Caí na gargalhada, m as não tinha j eito. Despedi-m e de todos com um beij o no rosto e fui em bora.

Ao sair da casa de Oswaldo, j á de longe avistei o m eu nam orado sentado no banco da praça aguardando a m inha chegada.

Achei que seria m ais um encontro igual a todos os outros. Beij am o-nos e fiquei sentada ao seu lado. Era assim que se nam orava em Pedro Afonso: em público e com recato.

Conversam os sobre um pouco de tudo. De um m om ento para o outro, sem nenhum tipo de aviso, Marcos retirou do bolso de sua calça um a linda caixinha verm elha que, ao abrir, exibiu um par de alianças.

Olhei para aquilo totalm ente surpreendida, sem reação algum a.

− Ontem à noite conversei com o seu pai e, no final do m ês, vam os ficar noivos em um a festa que será realizada na m ansão – com unicou-m e Marcos.

O estado de paralisia m e dom inou: confusa, não entendia se ele estava m e pedindo em noivado ou apenas m e com unicando do noivado.

− E aí, m inha linda, gostou da surpresa? Não se preocupe: seu pai e eu

com binam os tudo, e no final do m ês estarem os ainda m ais j untinhos.

De repente, a fúria tom ou conta de m im ; bati na m ão dele, e as alianças foram

parar no chão. Ficaram rolando por um bom tem po, até pararem no m eio da rua. Lam entei que os carros não tivessem passado por cim a.

− O que você está pensando de m im , Marcos? − disse com a voz alterada. − Eu

tenho soberania; quem tem de decidir se quer noivar ou não sou eu, e não vocês realizarem um a reunião para traçar o destino de m inha vida.

A expressão de Marcos m udou, sendo substituída por um olhar totalm ente

diferente, raivoso. Claro, era a prim eira vez que alterava a voz com ele, sendo contra as suas vontades.

- Você não tem o que dizer ou reclam ar. Nós j á decidim os e está acabado.

Pare com essa frescura. Não dê vexam e em praça pública, todos estão nos olhando, Daniella!

Sem conseguir suportar aquela pressão, as lágrim as com eçaram a rolar em

m eu rosto.

− Marcos, com preenda... Não é que eu não queira noivar com você. Mas não é

o m om ento; está com etendo um erro. – Tentei convencê-lo de todas as form as que aquela decisão era precipitada. − Tem os que nos conhecer m elhor para ver se dará certo o nosso relacionam ento.

Argum entar com ele era a m esm a coisa que falar com a parede. Marcos

levantou-se e disse friam ente:

− Você não tem escolha, Daniella: aceite a realidade. Durante o noivado e o

casam ento nos conhecerem os m elhor.

Ele foi até o m eio da rua, pegou as alianças, voltou até m im dizendo: − Nunca passei tanta vergonha na vida. Você não pode rej eitar o nosso

noivado, j á está decidido.

Vários transeuntes em volta da praça observavam a cena, testem unhando o

m eu sofrim ento. Pelos seus olhares de reprovação, constatava que havia aqueles que criticavam a m inha atitude, sem saber com o era a m inha vida.

Fiquei, ali, sentada com os olhos verm elhos. Não podia aceitar aquele com prom isso m ais sério, pelo sim ples fato de que não existia am or da m inha parte por ele. Aceitar o noivado seria acrescentar m ais sofrim ento para m im , pois a consequência natural era o casam ento.

Com o passaria por cim a da autoridade de m eu pai? Para fugir faltava-m e coragem ; m as quem se im portava com o fato de eu estar infeliz? Sentia-m e apenas um obj eto nas m ãos de Marcos e de papai.

Lutar por essa liberdade não tinha sentido em m inha vida; aceitava sem reclam ar todas as decisões, m as a ideia de noivar de um a hora para outra um a pessoa que não am ava era terrível dem ais para m im . Queria acreditar que tudo era um pesadelo, que aquilo não estava acontecendo com igo.

Voltei para casa e conversei com m inha m ãe, na esperança de convencê-la a m e aj udar com aquela m aldita decisão de noivado.

A única frase que ouvi dela foi:

− Daniella, aceite feliz a decisão de seu pai. O Marcos é um bom rapaz, am a você e te fará feliz − argum entou, sem se preocupar com o que estava sentindo ou pensando a respeito de algo feito à m inha revelia.

− Mas... Mas, m am ãe, eu pensei que pelo m enos você entenderia m inhas razões. Eu nem conheço o Marcos direito, apesar dos dois anos de nam oro! Preciso conhecê-lo m elhor, você não acha, para m e decidir casar com ele?

Entretanto, com m edo de m eu pai, ela se negou a m e aj udar. Preferiu declarar apoio ao que fora acordado entre m eu nam orado e pai.

Não havendo escolha, abaixei a cabeça e fui para o quarto, onde passei o final da m anhã até a hora do alm oço.

* * *

A m esa, com o sem pre, farta, m as sem o calor hum ano de m inha fam ília.

− Daniella, m inha irm ã, você está pálida, sente-se bem ? – perguntou César.

− Ah, César, m eu m undo está desm oronando! Estou sendo coagida a ficar noiva de Marcos até o final deste m ês e não encontro apoio nem na m am ãe para fugir a isso... – respondi, olhando com m ágoa para ela.

Com o era de esperar, m eu irm ão revoltou-se contra a decisão:

− Se ela não quer noivar com o Marcos, ninguém poderá obrigá-la, m am ãe. − Seu pai pode sim , m eu filho.

− Mas, m ãe...

− Não – disse m am ãe, interrom pendo. – Meu m arido sabe o que é m elhor para

os dois. Ah! Outra coisa, César, não é para encher a cabeça de seu pai com esse assunto, pois j á está tudo resolvido.

Fiquei calada ouvindo o bate-boca entre os dois, debatendo sobre o m eu

destino. Estava sem fom e, e aquela cena m e tirou o m ínim o de apetite que poderia ter. Levantei-m e e fui para o quarto deixando-os para trás, ainda discutindo.

Tranquei a porta do quarto, sendo logo seguida por César, que insistiu para que

o deixasse entrar. Nem respondia ao m eu irm ão. Chorava de soluçar, deitada na cam a.

- Tudo bem , m inha irm ã. Vou deixá-la sozinha. Irei resolver esse seu problem a

– ouvi a voz de César do outro lado, antes de se afastar.

Não existia rum o para a m inha vida, nenhum a opção, a não ser aceitar calada

o destino traçado pelo m eu pai e nada m ais.

Em m eio às lágrim as que m e em baçavam a visão, olhei para as paredes de

cor suave, para a penteadeira luxuosa, cuj a função era apenas guardar m eus perfum es e crem es im portados, além das m aquiagens da França, lançam entos do ano passado. Qualquer m ulher sonharia em viver nesse m undo. Um closet repleto de roupas e sapatos do Brasil e do exterior prenunciava um verdadeiro paraíso à sua dona, oposto ao que estava vivendo. Entretanto, trocaria tudo isso para ser um a m ulher feliz. Quem não trocaria?

A indignação, um dos m eus sentim entos m ais vivos, m e fazia estrem ecer, m e

levando a um pensam ento reincidente: até quando ficaria presa àquele m uro de ilusão? Onde estava a m inha liberdade, com que tanto sonhava?