Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Andersson Pedroso · Capítulo 6 de 12

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Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Capítulo IV

Am bição Perigosa

− Onde é que a m ocinha estava? – Foi a prim eira coisa que ouvi de m eu pai ao

pisar os pés na sala.

− Pai, espere, não precisa falar assim com a Daniella, ela irá explicar – pediu

m eu irm ão.

− Vou explicar tudo definitivam ente, para não haver dúvidas – disse ao m eu

pai, sustentando o seu olhar.

Eu sabia o que poderia acontecer, m as, m esm o assim , revelei para todos que

j á estava com um novo nam orado, após o rom pim ento com o Marcos.

− Filha! – exclam ou m am ãe.

− Que história m ais absurda é essa? – papai quase cuspia essas palavras. − Eu j á com uniquei que não quero m ais nada com o Marcos; são vocês que

insistem nessa história, papai! Sou um a m ulher livre.

− E quem é esse nam orado? – perguntou papai. − Luciano – respondi.

− Agora você vai calar essa sua boca, porque a m ocinha vai continuar

nam orando o Marcos. Você vai casar com ele. Esse Luciano é um atrevido; m exer com a m inha filha? Vai se arrepender – disse.

Quando ficou evidente que com m eu pai não tinha conversa, deixei-o falando

sozinho. Antes de seguir para o m eu quarto, afirm ei:

− Eu não vou m ais fazer suas vontades, papai. A antiga Daniella j á era! − Sua vadia, volte aqui, ninguém m e vira as costas! − Jorge, não fale assim com a nossa filha! – Mam ãe, por incrível que pareça,

fez um a tentativa de m e defender.

Antes de pisar no prim eiro degrau da escada, m eu pai agarrou-m e pelo braço; antes que percebesse o que queria com igo, senti o peso de sua m ão: a bofetada zuniu em m eus ouvidos, fazendo-m e ver “estrelas”. Com o im pacto, fui j ogada no chão.

Meu irm ão, perdendo o controle, voou para cim a de nosso pai. Eu ainda estava zonza, m as até esqueci o ardor do forte tapa ao presenciar a cena dos dois rolando no chão. Com ecei a gritar:

− Parem ! Parem com isso, JÁ!! – Agoniada, soluçava, ao ver que m al m e ouviam .

Nunca pensei em presenciar algo tão horrível. Eu chorava m uito; m inha m ãe, coitada, sem forças suficientes para apartar os dois, tam bém foi j ogada ao chão. Até que eu consegui reunir coragem para m e lançar no m eio dos dois e separei o m eu irm ão de papai.

− Nunca m ais, seu m aldito, encoste essas m ãos na Daniella, porque senão eu te m ato – vociferou César, desgrenhado, ofegante, com o lábio inferior cortado.

− Parem com isso – gritava m am ãe aos prantos.

− Por que o senhor é assim , m eu pai? – indaguei a ele.

− Tudo isso que está acontecendo, sua ordinária, é por culpa sua; por ter passado dos lim ites – devolveu-m e, com o dedo em riste.

Papai m andou que nós subíssem os para nossos quartos.

− Prefiro ver você m orta a separada de Marcos – declarou, de m aneira exasperada. – MORTA!

− Pois este é o m eu desej o. Morrer para não casar com o Marcos – retruquei sem m e intim idar.

− Minha filha, não fale assim ! – disse m am ãe.

Certo dia um grande am igo m e disse “Se der m edo, finge que tem coragem e vai com m edo m esm o”. Era o que m am ãe se preparava para fazer.

Notei algo diferente em m inha m ãe; ela parecida preocupada com igo. Senti que, intim am ente, estava com eçando a reagir. Talvez, ser confrontada com seus filhos naquela situação de agressão e am eaças de m orte estivesse fazendo com que ela percebesse o tipo de m arido que tinha e o abandono paterno em que César e eu vivíam os naquela fam ília.

− Quero ficar sozinha com o pai de vocês, vão lá para cim a agora – disse

m am ãe.

Obedecem os, e deixam os nossos pais conversando. César e eu nos olham os

num entendim ento silencioso e perm anecem os ouvindo tudo, apoiados no corrim ão da escada, na parte m ais escura do corredor.

Pela prim eira vez, m inha m ãe nos defendia. Vê-la ficar contra nosso pai era

algo im possível de acreditar. De longe, percebia que ela trem ia, m as estava firm e, disposta a nos defender. O instinto m aterno falou m ais alto.

− Jorge, você está m ais preocupado com seus negócios e com a sociedade de

Pedro Afonso do que com sua própria fam ília! – ela vom itou, enfim , a grande verdade.

César e eu trocam os um olhar de com preensão e dor. Entretanto, o m ais

surpreendente ainda sairia da boca de m am ãe:

− Nunca se preocupou com os problem as de nossos filhos! As coisas podres

que você faz, eu até aceito: as traições, essas prostitutas que você leva para viaj ar com você, tudo isso eu deixo passar, m esm o sofrendo. Agora, agredir m eus filhos e até am eaças de m orte? Nunca im aginei que um dia você chegaria a esse ponto. Pode ter certeza, Coronel Jorge, isso eu não aceito!

Papai segurou forte no braço de m am ãe, até deixar a m arca de sua m ão. − Sua opinião não vale nada! Você tem m ais é que aceitar de cabeça baixa

m inhas decisões. Deve-se com portar com o um a esposa e não alterar a voz para m im , entendeu?

− Não! Se você continuar desse j eito com Daniella e César, eu largo você. Está

ouvindo bem ? EU LARGO VOCÊ!

− Agora você vem com essa conversa, Adriana? Estou cheio de problem as e

ainda tenho de perder tem po com você? Pode fazer qualquer am eaça, sei m uito bem que não vai m e deixar. – Sacudiu os om bros, m ostrando descaso.

− Jorge, eu am o você, m as acim a desse sentim ento está o m eu am or pelos

nossos filhos. Coisa que você nunca dem onstrou. Por aceitar sua m aneira cruel de educar nossos filhos, hoj e estam os à beira do divórcio. Se você não m udar seu j eito estúpido de lidar com eles, eu largo você sim .

Papai ficou em silêncio observando m am ãe sair para a cozinha. Percebeu que ela não blefava.

− César, você viu a atitude de nossa m ãe, a sua firm eza? Isso m e deixa até m ais tranquila – disse baixinho, ainda no corredor, enquanto nos afastávam os para nossos quartos. − Ainda existe luz no fim do túnel dentro desta casa.

− Sim , m ana. Espero que m am ãe consiga m anter-se firm e em suas palavras.

* * *

Protegidos pela escuridão e abrigados no silêncio da m adrugada, três som bras furtivas se esgueiravam em direção à estrada de terra que dava para a m ata: Luciano, César e eu. Não levam os m ais ninguém para não cham ar a atenção.

Vasculham os toda a redondeza. Apesar de m inha insistência, ninguém quis entrar na m ata. Alegaram que era m uito perigoso e que deveríam os voltar o quanto antes.

Luciano sugeriu que passássem os nas terras de papai. Não era m uito longe de onde estávam os. Meu irm ão m anobrou o carro e m udam os de direção.

Era algo até sem propósito, pelo avançado das horas, m as sem pre que queríam os visitar o laranj al, papai recusava, e essa se m ostrava a oportunidade de nossas vidas para, pelo m enos de longe, ver o que um dia seria de César e m eu.

Após m ais cinco m inutos dirigindo, avistam os no horizonte um a extensa plantação de laranj as. Seguim os para lá, pois m esm o sendo m adrugada, parte da plantação m antinha-se ilum inada pelas luzes que vinham da indústria de sucos.

A quantidade de laranj eiras era im ensa, estendendo-se por inúm eras quadras a se perder de vista. Ficam os na dúvida se deveríam os seguir em direção à indústria. Por fim , resolvem os seguir; para isso seria necessário passar por dentro do laranj al, usando-o com o atalho.

Naquela parte em que estávam os parte das cercas estavam tom badas o que facilitou o nosso acesso. Talvez ainda ninguém tivesse percebido. O traj eto foi fácil; a distância entre as árvores perm itia a circulação de um veículo com tranquilidade.

De repente, Luciano pediu:

− César, apague as luzes do farol e desligue o carro. Assustado, m eu irm ão atendeu ao pedido na hora. − O que aconteceu, Luciano? – perguntou.

− Vej a aqui, do m eu lado esquerdo lá longe, um grande galpão com várias

luzes acesas. O que será aquilo no m eio de um a plantação de laranj as? – indagou Luciano.

Ninguém soube responder por que no m eio dos laranj ais haveria um a

construção daquele tam anho.

− Deve ser o local onde papai guarda as ferram entas de trabalho − arrisquei. − Para isso necessita de guardas na porta? – duvidou m eu irm ão. Fiquei sem resposta. Papai não iria gastar dinheiro com vigias para assegurar

que ninguém roubasse sim ples ferram entas de trabalho.

Seguim os a pé. Lentam ente nos aproxim am os por trás do galpão, para que o

guarda não percebesse nossa presença.

Conform e avançávam os, m ais forte se tornava o cheiro de urina e fezes. Não

conseguia entender o que poderia ser tudo aquilo. Que tipo de obj etos papai guardaria ali? O odor de esgoto era insuportável. Fiquei com ânsia de vôm ito, sendo am parada pelo Luciano, que m e perguntou se desej ava voltar.

− Não, de j eito nenhum . Quero descobrir o que m eu pai m antém neste honroso

lugar, que necessita de vigias.

Ao chegar aos fundos do galpão, todo de m adeira, divisam os por entre as

frestas, ilum inada por algum as lâm padas m ortiças, a cena m ais noj enta de m inha vida. Meu m undo desm oronava diante da visão que estava tendo e da com preensão de tanta coisa, até então, sem respostas. Eu vivia, até aquele m om ento, um conto de fadas, protegida em um castelo. De areia, diga-se de passagem . Tudo o que eu tinha e no que acreditava desm oronava no chão com o um prédio de areia: tudo alicerçado sob bases falsas, sem sustentação algum a.

O enj oo, forte, revirou m inhas vísceras, provocando-m e calafrios, até que veio

o vôm ito, incontrolável, aliviando-m e em parte. Meu irm ão apenas chorava, e Luciano, m esm o desesperado, estava ao m eu lado, segurando-m e as m ãos.

Nunca vislum brara um lugar tão insalubre, com condições tão precárias de higiene e conforto: dezenas de cam as-beliches, praticam ente apinhadas − com um espaço m ínim o entre elas −, um a ao lado da outra, perdiam -se enfileiradas ao longo do galpão com j anelas de dim ensões reduzidas e m uito altas, quase no nível do teto. Deitadas, crianças choravam , outras gem iam , enquanto um a m inoria parecia dorm ir um sono intranquilo. Não deviam ter m ais do que treze anos de idade, os m aiores; e havia vários com m uito m enos do que isso.

− Mas o que significa isso? – indignou-se César. – O que o m eu pai está fazendo com essas crianças?

Não consegui responder nada. Fiquei m e perguntando que tipo de m onstro era m eu pai para colocar aqueles pequeninos em um a situação tão m acabra.

Algum as crianças tossiam sem cessar. Não era preciso ser nenhum m édico para perceber que estavam doentes e em péssim as condições de higiene. Visivelm ente dava para notar que se encontravam desnutridos, e um a m enina estava em avançado estado de gestação. Eu não acreditava no que via. Naquele m om ento, o m eu pai m orria para m im .

Para nossa surpresa, o pesado portão do recinto foi aberto, sendo retirada a corrente de ferro am arrada a um cadeado, e entraram três hom ens. Com cara de poucos am igos, bateram com um pedaço de m etal na beira das cam as, tam bém de m etal, fazendo reverberar fortem ente o barulho m etálico:

− Vam os, cam bada de m oleques! Já são cinco horas da m anhã, e o dia vai ser pesado!

Olham o-nos em silêncio, enquanto a com preensão dos fatos nos invadia. Era isso então! As crianças executavam trabalho escravo para o Coronel Jorge.

− Eu vou entrar e acabar com tudo! – m eu irm ão disse entre os dentes.

− Calm a, César! Isso não vai salvar essas crianças. Precisam os trabalhar com a cabeça fria, adotar um a estratégia de ação. Estam os envolvidos em ocionalm ente com essa situação; qualquer atitude neste m om ento não vai adiantar nada. Som os dois contra três brutam ontes. E nem sabem os se estão arm ados...

Meu irm ão concordou com Luciano e ficam os calados, escondidos, observando tudo. As crianças foram obrigadas a se levantar, enquanto algum as, com tanto sono, nem despertavam . Foram sacudidas e puxadas com violência para abandonarem as cam as.

Ao lado de cada cam a havia um a sacola enorm e de pano pendurada por um

prego à parede.

Na sequência cada criança pegou a sacola de pano e form ou-se um a única fila

indiana, com o num a coreografia ensaiada repetidam ente. Concluím os que era algo a que as pobres crianças se suj eitavam todos os dias.

Um a por um a, as crianças saíram do galpão, enquanto um funcionário

realizava a contagem física para verificar se estavam todos presentes.

Meu olhar foi capturado para um m enino franzino, no início da fila que j á se

dispersava.

− Olhem ! É o garoto que vi na estrada. Está com o braço enfaixado e, m esm o

assim , obrigaram -no a colocar a sacola nas costas.

− Vá, pestinha. E aprenda que aqui não tem com o fugir – disse um dos

hom ens.

− Meu irm ão, é ele m esm o! Coitado, estava fugindo e, pelo j eito, pegaram -no

– disse.

− Vam os em bora. Já está am anhecendo e, com a luz do Sol, será m ais difícil

fugir sem serm os notados – alertou Luciano.

Voltam os para o carro e seguim os em direção a Pedro Afonso. Que ironia da

vida: eu, que sem pre lutara para aj udar os m ais necessitados, levando alim ento aos m oradores de rua, descobria que o conforto de m eu quarto, o dinheiro, as coisas luxuosas que usufruía, eram tudo frutos do trabalho infantil!

− Agora entendo por que o m enino estava com as m ãos cheias de calos e se

assustou quando viu o Marcos! – exclam ei, após alguns m inutos de silêncio.

Não poderíam os ficar calados diante de tanta crueldade. Era algo dificílim o de

engolir e digerir. Estávam os, afinal, falando de nosso pai, o responsável por tudo.

Depois do que descobríram os, as fichas caíram , todas: entendia agora por que

o m eu pai não deixava César visitar o laranj al: tinha receio de ele não aceitar o trabalho infantil.

Com preendi a identificação que papai teve com Marcos. Ele deve ter aceitado num a boa a situação dos pequeninos. Meu irm ão chorava, chocado dem ais com tudo o que vira e o que im aginava existir ainda por trás.

− Daniella, eu não m e conform o, sabe? Então, era por isso que eu não podia pisar naquele lugar. Papai sem pre soube que eu nunca aceitaria que crianças trabalhassem . Isso é crim e!

Tínham os consciência de que denunciar papai às autoridades de Pedro Afonso seria perda de tem po. Com certeza, eles estavam a par de tudo o que acontecia, e eram coniventes, fazendo vista grossa, infelizm ente! Quantas pessoas ele não deveria ter subornado, nesses anos todos, a com eçar pelos pais das crianças? O que teria prom etido a eles, para perm itirem que seus filhos saíssem de seus lares?

* * *

O clim a de rom ance que estava vivenciando até então com Luciano ficou em segundo plano em m inha vida. Tinha que fazer algo para term inar o sofrim ento daquelas vítim as. Onde estavam os pais das crianças? A m aioria esm agadora era de m eninos, provavelm ente por serem m ais fortes.

Era necessário que as denúncias chegassem ao conhecim ento das autoridades da capital do Estado de Tocantins, para que algo acontecesse e os culpados fossem punidos, m esm o sendo o principal im plicado o nosso pai.

− Reunir e apresentar provas concretas serão cruciais para o sucesso da denúncia – ponderou Luciano. − De nada adiantará chegar à capital com palavras som ente: não serem os levados a sério.

Decidim os retornar no dia seguinte, na parte da tarde com m áquina fotográfica e um a câm era para film ar tudo.

Entram os em um acordo: César e eu não iríam os enfrentar nosso pai, seria m uito perigoso. No café da m anhã, não falam os um a palavra sequer sobre as crianças. Para continuar a m anter um contato norm al com papai, foi preciso sangue-frio. Olhávam os para ele e não notávam os nenhum tipo de culpa ou consciência pesada. Aquele hom em que escravizava crianças era nosso pai, alguém que um dia cheguei a am ar.

− O que foi, Daniella e César? – perguntou m am ãe, estranhando. – Vocês parecem dois zum bis que acabaram de se levantar das tum bas. Estão com um a cara, que só vendo!

− Acho que foi o calor da m adrugada, m am ãe – disfarcei, olhando para m eu

irm ão e reparando que estava com enorm es olheiras. Im aginei que o m esm o deveria estar visível em m im . – E havia pernilongos no quarto...

− Minha filha era só ligar o ar condicionado!

César quase que se engasgou com o café, m as endossou: − É m esm o. Havia pernilongos... Precisa avisar a em pregada para fechar as

j anelas m ais cedo.

Papai continuou lendo seu j ornal, sequer sem levantar os olhos para nós.

* * *

Mais tarde, conseguim os entrar nos laranj ais sem cruzar com nenhum

vigilante. Com o zoom da câm era fotográfica, registrei aquelas crianças com sacolas nos om bros em plena atividade de trabalho.

Era um a cena escabrosa, típica de film es com o “Metrópolis” ou “Tem pos

Modernos”: centenas de crianças, em m eio a pouco m ais de duas dúzias de adultos recolhiam laranj as, de m aneira autôm ata. Captei o m om ento em que as crianças colhiam os frutos: todas apresentavam os braços arranhados e algum as, com o rosto tam bém . Um a delas se m achucou em um galho pontiagudo no exato m om ento em que disparei a câm era. Para m inha tristeza, era o m esm o m enino da estrada, que j á estava com o braço enfaixado.

− Olhem ! É o garoto que eu estava procurando, o que encontrei na estrada,

ferido – sussurrei. – Deve ter sido capturado de novo pelos capangas de papai.

Luciano film ava tudo, enquanto m eu irm ão só observava em silêncio,

m ordendo os lábios. Fiquei preocupada com ele.

− César, por favor, não vá se descontrolar e invadir o laranj al. − Não farei isso, m ana, fique tranquila. Apenas quero que todo esse inferno

acabe logo! – disse-m e.

Eram quase quatro horas da tarde, e o Sol continuava inclem ente! Eu, que j á

sofria de um a certa fotofobia, m al conseguia m anter os olhos abertos naquela claridade ofuscante. Deduzim os que as crianças, além de trabalharem sem proteção adequada − sem um a viseira ou boné na cabeça −, não estudavam e não eram bem alim entadas. Estavam desde as prim eiras horas da m anhã trabalhando em pé. Um a parte das crianças estavam sentados, acredito que pelo forte calor, revezavam os “trabalhos”.

Constatava naquele m om ento que nada poderia m udar o com portam ento e o m odo de pensar de m eu pai. Sua capacidade de passar por cim a de quem quer que fosse para atingir seus obj etivos o transform ara em um m onstro para m im e César.

Com todo o m aterial pronto, voltam os para a cidade, dirigindo-nos à casa de Oswaldo.

* * *

Fez-se um silêncio prolongado, após a sessão de tudo o que tínham os registrado. Os integrantes da banda ficaram revoltados, m as não sabiam com o expressar livrem ente em palavras a raiva que o responsável por aquela situação lhes incutira. Por fim , desabafaram :

− Vocês nos desculpem , César e Daniella, m as o seu pai é um trem endo de um filho da puta, cafaj este, velhaco, im oral...

Meneei a cabeça, concordando em silêncio. Infelizm ente, era tudo aquilo m esm o.

− Bem , agora é em balar essa fita e m andar para a capital – disse Eduardo.

− Melhor: vou enviar pelo correio para a residência de m eus pais – sugeriu Luciano. − Lá na capital eles vão pessoalm ente ao Ministério do Trabalho. Pelo que sei, o m inistério tem um setor responsável para com bater o trabalho infantil.

Todos aprovaram a ideia.

− Essa roupa que estou usando vem do trabalho daquelas crianças; isso m e faz culpada. A vontade que tenho é de fugir – desabafei.

- Calm a, Daniella, você não tem culpa de nada. Junto com seu irm ão, vocês vão salvar aquelas crianças – encoraj ou Oswaldo.

Neste m om ento, a porta da sala se abriu. Ana chegara sem aviso, sem nos dar tem po de desligarm os a televisão. Eu desej ava que o m ínim o de gente soubesse de nossos planos, antes de m andarm os o m aterial para a capital.

− O que vocês estão assistindo? – perguntou intrigada. − Não é nada – respondi.

Levantei depressa para desligar o aparelho de televisão. − É um film e? Pareceu-m e a plantação de laranj as de seu pai, Daniella? –

insistiu Ana.

− Não é – respondi ao desligar a tevê por m eio do controle rem oto.- E essas pessoas colhendo laranj as? – perguntou Ana – É um docum entário? “Droga” – praguej ei em pensam ento −, “ela tinha que chegar bem nesta

hora?”

− Pessoas? São crianças! Não viu? – explodiu m eu irm ão. − Nossa! Eu vi. Não precisa reagir assim , César. − Ele está nervoso porque descobriu a existência de trabalho infantil na colheita

de laranj as do Coronel Jorge – contou Eduardo.

Não sei por que, m as na hora não gostei do Eduardo ter revelado tão

abertam ente à Ana sobre o que tínham os descoberto. A culpa era m inha: afinal, não tinha pedido segredo para ninguém . A questão é que ela soube e não sabia se era boa coisa ter conhecim ento do assunto. Sua reação foi duvidosa.

− Puxa, é m esm o? Bem , só passei para dar um “alô” a vocês – disse Ana, sem

esboçar reação. − Não quero atrapalhar, estou de saída. – Jogou um beij o no ar para todos e deixou rapidam ente a casa de Oswaldo.

Não havia m ais nada a fazer em relação às gravações, senão enviar pelo

correio para os pais de Luciano. Isso seria feito assim que pudessem ser anexadas as fotos, que seriam reveladas em um a cidade vizinha por Eduardo, para não levantar suspeitas.

Queria o quanto antes que as providências fossem tom adas e a liberdade

chegasse à vida daqueles seres inocentes que estavam tendo sua infância destruída pela am bição perigosa de m eu pai.