Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Andersson Pedroso · Capítulo 8 de 12

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Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Capítulo VI

O noivado

Por sorte, pelo m enos as fotos tinham ficado a salvo. Antes que papai pusesse a m ão em todas as provas de seus atos hediondos, Luciano havia ido à cidade vizinha na véspera da invasão de sua casa, para deixar os negativos para revelação em um a loj a. Havíam os ficado sem a gravação, m as tínham os o registro das crianças trabalhando nos laranj ais através das fotos que, agora, encontrava-se em m eu poder. Melhor dizendo, em poder de Adelaide, a única j ornalista idealista que insistia em perm anecer em Pedro Afonso, em vez de ganhar a capital Palm as, São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília. Era m inha am iga desde a infância, e eu invej ava nela seu idealism o e am or à profissão de repórter. Dizia que estava em prestada à nobre causa da verdade e da denúncia contra as grandes m entiras da hum anidade. Com o a grande m aioria dos j ornalistas, era um a ateia cheia de paixão e convicções.

− Pronto, Adelaide, agora você tem sua chance de acontecer no j ornalism o local e, quem sabe, até no nacional. Estou entregando em suas m ãos o m aior furo sobre trabalho infantil escravo que j á se teve notícias no Brasil. E tudo com provas, com o seus próprios olhos podem avaliar – e entreguei em suas m ãos as dezenas de fotos que registravam as expressões cansadas, abatidas e sofridas das crianças em sua labuta nos laranj ais de Coronel Jorge.

− Mas...m as, Dani! – ela m e olhou estupefata, sem conseguir atinar com a lógica de m eu ato. – O que significa isso? Onde foram tiradas essas fotos?

− Foram tiradas pessoalm ente por m im , nos laranj ais de Coronel Jorge, faz m enos de um a sem ana. São verdadeiras, pode confiar em m im !

− Uhuuu! Nossa, que notícia quente! − Adelaide lascou um beij o em m inha bochecha. – Olha, eu sei que não deveria ficar feliz com um a notícia tão escabrosa com o essa, m as... Só de saber que vou poder escrever um a m atéria j ornalística, denunciar e colocar fim a tudo isso... Só não estou entendendo... Você falou “Coronel Jorge”? Ele é o seu pai... Com o é isso?

Expliquei tudo a um a atônita Adelaide de que m aneira descobrira todos os podres do Coronel Jorge, e com o j ulgava im portante que ela, em seu papel de j ornalista idônea − m ais do que qualquer outra pessoa −, fizesse a denúncia do trabalho infantil escravo nas terras de papai.

* * *

Dias depois...

− Daniella, papai aum entou a segurança em suas terras. Espalhou guardas por

vários pontos, e há até capangas escondidos entre os laranj ais. – César m e abraçou após term inar de contar isso, faltando pouco m enos de um a sem ana para o m eu noivado.

− O que pode significar isso? – perguntei, preocupada. − Significa que, com certeza, papai não pretende parar com o sistem a de

trabalho infantil. Nós estam os sendo vigiados; qualquer m ovim ento nosso no sentido de denunciá-lo, ele vai saber antes e im pedir nosso plano.

Com o iríam os agir, diante daquele cerco? Acuada pelo noivado que se

aproxim ava e acuada pelo m eu pai, que nos vigiava com rédea curta... Eu m e sentia a ponto de explodir, de tão estressada com os últim os acontecim entos.

− Meu irm ão, você j á parou para pensar com o papai soube de tudo? – De

repente, algo se fez m uito claro na m ente: − Alguém nos delatou. Mas quem ?

− Mana, nós da banda estam os desconfiando de Ana. − Por quê? – perguntei, preocupada. Era certo, porém , que ela nunca m e

inspirara m aior sim patia, pelo seu j eito dissim ulado.

− Suspeitas. Nada confirm ado ainda. Irem os nos reunir para descobrir se ela

nos traiu ou não. A reação dela na casa do Oswaldo foi m uito fora do com um . Quando soube que estávam os assistindo a um a gravação das crianças na fazenda de nosso pai, ela saiu rapidam ente. Lem bra?

− Claro, até com entam os entre nós sobre essa reação. Safada! − Calm a. Não tem os provas de nada. Precisam os ver isso depois. − O que vam os fazer, César?

− Não sei, m ana. Mudando um pouco de assunto: tem certeza do que está

fazendo? Vai m esm o se noivar com esse pilantra?

− Sim . Eu percebi que a m inha raiva não é contra o Marcos.

− Não?

− Eu apenas usava isso com o argum ento. Na verdade, o que m e causa fúria é ter de receber ordens do Coronel Jorge. Pensei bem , e cheguei à conclusão de que, independente de papai m e obrigar a m anter um relacionam ento com Marcos, eu acabaria sendo sua nam orada.

− Quantas vezes flagrei você chorando? E as brigas com papai? Agora vem dizer que estava confusa? – César franzia a testa, perplexo. − Não estou te reconhecendo, Dani. Você está m e escondendo algo, eu sinto. Por que não se abre com igo?

Para m e esquivar de tantas perguntas para as quais eu m esm a não tinha resposta, respondi rápido:

− César, estou cansada e com dor de cabeça. Tenho que descansar um pouco; m ais tarde a gente se fala. Um beij o, m eu irm ão!

Deixei-o na sala com um sem blante no qual se lia que não tinha acreditado em nada do que eu falara.

Aproxim ei-m e da sacada de m eu quarto, olhando para o horizonte. O dia estava tão perfeito. Ao contem plar o sol dom inando o céu, com preendi por que ele tem o apelido de astro-rei. A natureza m ostrava-se m ais exuberante do que nunca. Minha visão era privilegiada, e podia observar a todos no j ardim dando os toques finais para a festa do m eu noivado.

Logo, a forte claridade incom odou m eus olhos. Usei a m ão para encobrir o rosto dos raios solares. Por estar no segundo andar, conseguia enxergar o m ovim ento de pessoas na rua, que passavam próxim as da m ansão. Cam inhando, reconheci o Marcos. Sem dúvida, estava vindo m e ver.

Quando chegou perto da entrada principal da m ansão, pronto para tocar a cam painha, um a garota correu em sua direção com os braços levantados e gritando.

Não consegui distinguir quem era ou se a conhecia, m as Marcos olhou para trás e pareceu reconhecê-la, pois ficou parado, aguardando sua aproxim ação. Não m e interessava saber com quem Marcos conversava ou tinha intim idade, por isso j á ia m e afastar da sacada, quando reconheci a j ovem . Era Ana.

Eles conversavam com m uita intim idade, segurando na m ão um do outro. Não

estava entendendo, ou m elhor, não queria entender. A conversa durou pouco, m as se despediram com um selinho, e Marcos recebeu um carinho em sua face. Depois disso, Ana seguiu em direção contrária, tom ando outro destino, enquanto o canalha do Marcos seguiu em frente, sem entrar na m ansão. Felizm ente desistiu de m e ver.

Tudo se encaixava. Tudo m esm o! A vagabunda da Ana vira o vídeo e contara

para o Marcos. Eles tinham um caso!

Já podia antecipar tudo: m esm o casado com igo, o desgraçado, com certeza,

iria continuar seu caso com a Ana, e eu seria a coitadinha traída de Pedro Afonso. Repetindo o m esm o destino de m inha m ãe!

Sentei-m e na cam a e m irei a im agem atarantada no espelho. O que eu via?

Um a tola. Lem brava naquele instante da exposição de m eus sentim entos diante de Ana. Desabafara com ela em sua casa. Revelara todos os m eus sentim entos, entregara tudo de m ão beij ada. Ela deveria ter contado tudo para o Marcos. Sim , agora não tinha dúvidas: Ana era a responsável por m e trair, enquanto m e divertia na boate ela cham ou o Marcos. Com o o m eu nam orado era m uito falso, conseguiu disfarçar bem . As suspeitas de m eu irm ão estavam certas. Os dois se m ereciam m esm o.

* * *

A cidade inteira ficou agitada com a m inha festa de noivado. O m ês era

propício: m aio, m ês das noivas. Qualquer m ulher tem o sonho de ficar noiva nesse período do ano. Lem bro-m e de vários casais que realizaram a festa no segundo dom ingo, aproveitando o dia das m ães.

No m eu caso, tudo aconteceu no últim o dom ingo de m aio. Na m inha opinião, o

evento seria bem sim ples, com apenas um alm oço entre os integrantes da fam ília de Marcos e a m inha. Mas, com o ostentar o seu poder e o seu dinheiro era o que m eu pai sabia fazer m elhor e até precisava para se autoafirm ar com o o grande poderoso de Pedro Afonso, decidiu realizar um a festa de arrom ba. Festa à fantasia, com o sugerido pela m inha m ãe.

* * *

Dois dias antes da cerim ônia de noivado.

Recebi da em pregada a encom enda da loj a da capital. Era o vestido que usaria na festa de noivado: um a fantasia de princesa.

Ao recebê-lo, nem o provei, orientando para que ela guardasse dentro de m eu guarda-roupa.

Enquanto a em pregada deixava o quarto, César, entusiasm ado, entrou e sentou-se ao m eu lado, na cam a:

− Dani, tive um a ideia fantástica: que tal um a banda de m úsica ao vivo para anim ar a sua festa? Podem os aproveitar a estrutura do palco que j á está m ontado nos fundos do j ardim para nos apresentarm os com um show.

− Não sei, César – m eneei a cabeça, preocupada. − Papai nunca aceitará que você se apresente com o um cantor de um a banda de Rock. Sabe disso, né?

− Mana, até batizam os a banda. Foi escolhida por unanim idade: “Liberdade Condicional”. Que tal o título?

Concordei em silêncio com a cabeça, enquanto m e tornava reflexiva. Achei bastante criativo e até m e identifiquei com o título. Era a vida que eu levava: tinha um a falsa liberdade – aliás, um a pseudoliberdade −, obrigada a seguir ordens que contrariavam os m eus desej os.

−Um a vez que será um a festa à fantasia, j am ais o Coronel Jorge irá descobrir que o vocalista sou eu, seu filho.

Vendo por esse ângulo, disse ao m eu irm ão que poderia dar certo. Seria arriscado, m as era a única m aneira da banda estrear na cidade de Pedro Afonso.

− Estava conversando com o Luciano sobre vocês dois – disse m eu irm ão, de m aneira breve, analisando m inha reação.

− Não m e interessa nada do que vem dele – respondi, de m aneira im passível. − Já está decidido.

− Então, é isso m esm o.

− Com o assim ?

− Mana, você acaba de dizer que vai noivar com o Marcos porque decidiu. Não pelo fato de você desej ar isso do fundo de seu coração. Entende? Mais um a vez, está sendo obrigada. Agora, por que, não faço a m ínim a ideia... Vinha lutando pela sua felicidade e, de repente, m uda tudo e volta para trás. Por acaso está sendo am eaçada?

Levantei-m e da cam a, virando-m e de costas para César, para que ele não

lesse o desespero em m eus olhos. Eu não era tão dissim ulada assim .

− Pare com essa im aginação fértil. Estou bem , apenas um pouco nervosa pelo

noivado daqui a dois dias.

Tentava ao m áxim o esconder a verdade. Mas m eu coração titubeava. Em bora

firm e por fora, estava m orrendo por dentro. Para disfarçar, pedi para que m udássem os de assunto.

Sem m e dar ouvidos, m eu irm ão continuou:

− Com entei com Luciano sobre a sua m udança repentina. Mas eu lhe disse que

você o am a, sim . Aceitou o noivado com o Marcos por um m otivo que desconhecem os. E ainda sugeri a ele que não desistisse de você tão fácil assim .

− César, você não fez isso! Não quero que se introm eta em m inha vida.

Respeito você, m as se continuar colocando o dedo onde não é cham ado, serei obrigada a ficar sem falar com você.

− Você é m inha irm ã! Não vê que está pulando em um abism o sem volta?

Ainda existe chance de você abraçar sua felicidade!

− Para m im não existe m ais nada – disse, abaixando a cabeça. − Daniella, você está m entindo, e nem sabe fazer isso bem . Só não percebe

isso quem não quer ver.

− Vam os parar de falar sobre m im , porque descobri quem nos traiu. − E quem é?

− A Ana. Bem que você tinha razão, César.

− Com o você descobriu?

− Estava na sacada do m eu quarto, quando a vi conversando com o Marcos no

m eio da rua. Até um beij o na boca eles deram .

− Você diz isso com tanta tranquilidade. Nem parece que am a o Marcos... –

provocou César. − Não ficou brava em presenciar tal cena? Não teve ciúm es?

Ele m e pegara de saia j usta. Indiretam ente, acabava de m e entregar.

− Não adianta dizer m ais nada, m inha irm ã. Você ainda am a o Luciano. Não é?

Senti-m e pressionada. Não estava suportando m ais aquela farsa. Meu irm ão insistiu e, no final, conseguiu: confessei tudo.

− Dani, eu não m e conform o com sua decisão! Você tem que enfrentar o papai!

− Não se introm eta, César. A vida é m inha!

− Por m im , você está fazendo a pior burrada de sua existência!

* * *

Véspera do dia do noivado.

A m ansão estava de pernas para o ar. Havia um a m ovim entação de pessoas entrando e saindo, preparando os enfeites, organizando as m esas; enfim , um clim a característico da excitação que antecede os grandes m om entos, que contrastava com m eu estado de espírito acabrunhado. Tudo foi ordenado com o m áxim o de perfeccionism o possível. Até show ao vivo papai contratou, às pressas. Esse últim o detalhe foi decidido em cim a da hora.

Na parte da m anhã nem queria perm anecer na m ansão, pois o ruído provocado pelo zum -zum das pessoas falando ao m esm o tem po m e deixava louca.

Pensei em ir à praça para espairecer um pouco, enquanto aguardava o m om ento em que estivesse tudo finalizado e eu fosse, com o peça principal daquela grande farsa, cham ada ao palco da festa. A dúvida m e corroía por dentro. Mas considerei que sair na rua naquele dia não seria um a boa ideia. Assim , sem opção, decidi ficar em casa m esm o. Passei pelo j ardim , que estava lindo com a decoração. Na piscina, haviam sido colocadas lâm padas especiais por debaixo da água, com o obj etivo de provocar um efeito visual de encher os olhos. Com certeza, no período da noite, quando a festa avançaria pela m adrugada adentro, o j ogo de luzes m aravilharia a todos os presentes.

Cam inhando lentam ente, dirigi-m e à sala onde os convidados seriam recebidos. Sentada no prim eiro degrau da escada com os cotovelos apoiados nos j oelhos, respirei fundo, enquanto a todos trabalharem .

“Nada deu certo!”, m urm urei para m im m esm a. Ao relem brar os m om entos de felicidade ao lado de Luciano, m eu coração se

apertou. Segurei as lágrim as para que ninguém percebesse o m eu infortúnio.

Não pudera nem aj udar aquelas pobres crianças no laranj al. Estavam

sofrendo, vítim as de m eu pai. “Mas quem sou eu para dizer isso? Não consigo nem m e aj udar, com o vou aj udar aos outros?”, eu m e m artirizava.

Depois que passasse toda aquela turbulência de noivado e casam ento, iria fazer

algum a coisa, sim . Não perm itiria que m eu pai continuasse im pune.

Ouvi o som da cam painha. Deveriam ser m ais entregas de pacotes, que se

avolum avam na sala. Não paravam de chegar presentes caros dos convidados, com o se um quisesse com petir com o outro em capacidade perdulária. Suspirei, ao refletir sobre a necessidade de ostentação que a alta sociedade de Pedro Afonso tinha. Alguém teria de retirar tudo aquilo antes de iniciar a decoração.

Faltavam em m im curiosidade e m enos ainda entusiasm o para abrir os

em brulhos. A m aioria espalhava-se pela sala, em cim a do sofá e pelo chão.

Dalva, a em pregada que trabalhava havia m uitos anos em casa, passou por

m im correndo para atender a porta, pois a cam painha, insistente, tocava j á pela segunda vez. Ao retornar, vinha acom panhada por um a pessoa que carregava à sua frente várias caixas de papelão.

− O que é isso? – perguntei para Dalva.

− São m ais enfeites para a sua festa – respondeu Dalva. Perm aneci estática, sem m e m over do degrau, pois parara a cam inho do andar

superior, em direção ao m eu quarto, para observa onde Dalva conseguiria guardar m ais um presente? Em vez de serem levadas ao j ardim , com o com plem ento da decoração, as caixas estavam sendo descarregadas no m eio da sala, seguindo a orientação da própria em pregada. Eu m al podia acreditar que havia espaço para m ais enfeites no am biente interno. Quando o rapaz abaixou as caixas, avistei o seu rosto.

− Luciano! – exclam ei em voz alta.

Todos na sala olharam para m im . Felizm ente m eus pais não estavam . O

cum prim entei com um fraco “oi” de onde estava.

− Oi – retribuiu Luciano com ar im passível, sem o brilho habitual em seu olhar.

− Pronto, m oço. Já conferi tudo o que foi entregue. Por favor, vou acom panhar você até a porta – disse Dalva.

− Não! Espere! – eu disse sem pensar.

− Eu não posso ficar aqui, tenho que trabalhar. Com licença – respondeu Luciano.

− Luciano, não fique com raiva de m im . − Aproxim ei-m e dele, parando à sua frente, quase perto da porta.

Orientei Dalva que fosse para a cozinha, explicando que o rapaz era um am igo.

− Am igo? – indagou Luciano, quando a em pregada se afastou de nós.

− Sim , quero ser apenas sua am iga.

− Que pena, eu não quero ser seu am igo – disse, enquanto retirava o boné que tinha na cabeça.

− E o que você quer?

− Ser o seu m arido, o seu hom em – respondeu, olhando de m aneira franca e direta em m eus olhos. Senti-m e aprisionada por aquele olhar.

− Isso não pode acontecer. Você sabe que vou m e casar com Marcos. Mas não quero perder contato com você, por isso, não fique com raiva de m im .

− Você é louca? Me disse aquelas palavras tão duras. E hoj e pede para ser seu am igo? Não com preendo! Eu estava com a intenção de m e casar com você, form ar um a fam ília e, do nada, dá para trás e m e diz que am a o Marcos...

− Por favor, Luciano, eu tenho um carinho especial por você, m as não a ponto de casar, entende?

− Já entendi. Que pretensão a m inha, não? Um sim ples entregador ter a ousadia de sonhar em se casar com a filha do Coronel Jorge, o m aioral de Pedro Afonso. Realm ente, m uita areia para m eu cam inhãozinho – sua voz soava am arga, assim com o m eu coração, que se apertava a cada palavra sua desferida. − Me deixe ir em bora, antes que seu pai ou o Marcos apareçam . É capaz dos dois m e prenderem em um calabouço, se m e flagrarem conversando com você. Porque nessa m ansão deve ter até prisão da época da Idade Média. Adeus, Daniella – disse Luciano.

Perm aneci quieta. Abaixei a cabeça, sem argum entos. Não insisti m ais com ele, que foi em bora. A m inha reação ao revê-lo, ali bem no m eio da sala de estar, m e fez concluir com a m ais absoluta certeza de que ele era o hom em da m inha vida. Sentia-m e fraquej ar com m eu ím peto de m e j ogar em seus braços. Mas se o fizesse, aí sim , o perderia para sem pre.

− Eu am o você – m urm urei em voz baixa, observando Luciano j á na rua,

entrando no carro.

Nossos olhares se cruzaram um a últim a vez. Desviei o m eu. Apenas quando

ouvi o som do m otor do carro se distanciando é que voltei a olhar para ele. Luciano se tornou apenas um ponto distante, quando finalm ente saiu de m eu cam po de visão, ao virar um a esquina longínqua.

Meu coração parecia tam bém se distanciar j unto com ele, ao pensar que

nunca voltaria a ter m ais nada com ele, que seu am or por m im m orria enquanto se afastava. Eu sabia que, entretanto, as cham as de m eu am or por Luciano nunca iriam se apagar.

Não queria lhe dizer “adeus” e, sim , “até um dia”. Pensam entos

desencontrados se alternavam em m inha m ente. Sabia que se m e casasse com Marcos, faria a coisa errada. “Ao m esm o tem po, é a coisa certa a fazer”, eu refletia, m uito confusa.

E se m eus pais estivessem certos, e após m e casar com Marcos m e

acostum asse com ele? Entretanto, eu sabia que, se não desse certo, deveria continuar com ele até o fim de m eus dias: casam ento é para sem pre – pelo m enos, na visão da m aioria conservadora dos m oradores de Pedro Afonso.

Observava a convivência de m eus pais, após anos de casam ento. Mam ãe o

am ava, m as papai, não, e nem dem onstrava nenhum respeito ou consideração especial para com ela. E eles viviam em pé de guerra.

Im aginava a m inha vida ao lado de Marcos. Unindo-m e a ele sem am á-lo,

com o seria após alguns anos de casam ento? No m eu íntim o, eu suspeitava que ele tam bém não m e am ava. Apenas disfarçava, m entia. O nosso casam ento lhe seria m uito conveniente: estava de olho no poder que iria herdar. Analisei os fatos, friam ente: ele j á estava assum indo certos setores do im pério de m eu pai. Passando a pertencer à fam ília Ribeiro Mattos, garantiria por direito sua parte no patrim ônio.

Se não fossem as am eaçadoras palavras de papai atentando contra a vida de Luciano, teria aceitado a proposta dele e fugido de Pedro Afonso. Ao seu lado, não tinha a m ais leve som bra de dúvida de que valeria a pena passar o resto de m inha vida.

* * *

Manhã do dia de noivado..

O dia acabava de nascer. Estava de pij am a, ainda deitada na cam a, olhando pensativa para o teto. Im aginando com o poderia ter sido m inha vida caso o Coronel Jorge m e am asse e fosse um pai legal. Um pai de verdade.

Relem brei a proposta de Luciano para fugir com ele e nos casarm os. Era fato que se fugíssem os para bem longe das garras de m eu pai, m eu grande am or não correria risco de vida. Aquela constatação m e inundou o coração de esperanças. Talvez fosse a solução: fugir com Luciano e m e casar com ele. Consagrar nossas vidas a Deus para viverm os nos cam inhos de sua graça. Dessa form a, ninguém poderia m ais nos separar.

Preparei-m e para descer e tom ar o café da m anhã com m inha fam ília.

Na m esa da sala de estar, encontrei m eus pais tom ando café. César j á tinha saído.

− Então, m inha filha, está anim ada para a noite de hoj e? – perguntou m am ãe.

− Sim , m inha m ãe.

− Não acha que a m inha ideia de fazer um a festa à fantasia em seu noivado foi excelente?

− Sim , m inha m ãe – repeti m aquinalm ente.

− Convidei o Marcos para o café da m anhã conosco – disse papai.

− Decerto ainda não acordou – disse m inha m ãe, condescendente.

− Estou estranhando sua atitude, ele nunca se atrasa – papai observou.

− Talvez tenha passado para ver a Ana.

− Por que ele passaria para ver a Ana? – estranhou m am ãe.

− Quem é essa Ana? – perguntou papai.

− É um a am iga dele. Acredito que Marcos tenha bastante apreço por ela. Não acho ruim . Apenas talvez por causa disso ele se atrase para o café – respondi.

− Filha, que conversa é essa, m ais sem pé nem cabeça? Não fale assim . Ele é

o seu futuro m arido − repreendeu-m e m am ãe.

− Está bem . É que estou com dor de cabeça – j ustifiquei. O café da m anhã estava um a delícia, parecia ter sido preparado especialm ente

para aquele dia.

− Bom dia – disse Marcos ligeiram ente esbaforido, ao chegar após uns quinze

m inutos. – Desculpe-m e pelo atraso, m as tive alguns contratem pos...

− Bom dia, m eu filho. Pensei que não vinha m ais – disse papai. Com certeza, César preferira sair m ais cedo para não presenciar m eu pai

tratando Marcos com o se fosse um filho predileto, m ais legítim o do que ele próprio, sangue de seu sangue. Era com preensível que César tivesse ciúm e de Marcos, pois desej ava o carinho de papai. Ele não suportava ver o Marcos sendo tratado daquela form a.

− Bom dia – disse m am ãe.

− Com o passou a noite, m eu bem ? – perguntou Marcos para m im , enquanto

m e cum prim entava com um beij o na boca, que aceitei para não levantar suspeitas.

− Bem . Estou com um pouco de dor de cabeça, nada tão im portante. − Nossa! Isso quer dizer que está ansiosa pelo nosso noivado. − Quem sabe? – respondi, sem que percebessem m eu tom de ironia. Papai e Marcos ficaram conversando sobre negócios, m as ninguém tocou no

assunto das crianças.

Minha vontade era sair daquela m esa cheia de podridão. Eles negociavam a

venda de grande porte de sucos para os países dos Em irados Árabes.

− O futuro, nos próxim os cinco a dez anos, será naquela região – antecipava

Marcos, com um entusiasm o visionário.

− Mas há m uitos conflitos internos por lá.

− Concordo Coronel Jorge, que existam choques localizados em certos pontos

do Oriente Médio, m as em países com o a Arábia Saudita não há conflitos. A oportunidade de crescer e am pliar nossas fronteiras com erciais serão com os xeiques. Eles são biliardários, donos de petróleo − dizia Marcos, com os olhos brilhando de entusiasm o e am bição.

Papai relutava em m andar quase toda a produção para um único país. Seu receio era que, concentrando-se num único fornecedor, a fábrica quebrasse, caso eles resolvessem parar de com prar.

− Nesse caso, o segredo está na diversificação das exportações. Venderem os para outros países da Europa, Ásia, Oceania e tam bém da Am érica. A África do Sul tam bém é um bom m ercado internacional.

− Não sei – papai m ostrava-se reticente.

− O que não podem os é ficar dependentes apenas do m ercado interno. Se acontecer algum a coisa na econom ia e as vendas caírem no Brasil, para quem vam os vender?

− Pelo que estou entendendo, Marcos, sua estratégia de negócios é am pliar as vendas via exportação?

− Mas é claro, Coronel Jorge.

− Vam os m arcar um a reunião na sem ana que vem com os especialistas da fábrica. Analisarem os ponto a ponto todos os detalhes de sua ideia. Caso sej a necessário, criarem os um proj eto.

A conversa entre os dois avançava, dando a im pressão de que não se encerraria – debaixo das expressões de enfado m inha e de m am ãe, que não podíam os participar −, até ser interrom pida por um telefonem a, anunciado pela em pregada.

− Dalva, você está careca de saber que não gosto de fazer interrupções em m eu café da m anhã. Diga a essa pessoa, sej a lá quem for, que neste m om ento não posso atender ninguém .

− Desculpe-m e, senhor Coronel. É que ele insistiu m uito... Pediu para dizer que é o senhor Fernando Nunes e precisa m uito falar com o senhor – disse a em pregada, torcendo as m ãos.

A reação de papai foi inesperada. Levantou-se e disse que iria atender. Pegou o telefone sem fio da m ão de Dalva e afastou-se de nós para que não ouvíssem os o teor da conversa. Marcos, com um sem blante carregado, seguiu o Coronel Jorge.

− Quem é Fernando, m am ãe? – indaguei.

− Pelo que eu sei, é funcionário público da agência regional do Ministério do

Trabalho aqui da cidade.

Fiquei im pressionada. O que será que esse Fernando queria falar com m eu pai

às sete e m eia da m anhã? O que quer que fosse deveria ser algo m uito sério, pelo nervosism o que senti tanto em papai, quanto em Marcos. Enquanto o prim eiro falava e trocava olhares com o outro, balançava a cabeça, gesticulando as m ãos. Pouco depois, papai desligou o telefone, deixando-o em cim a do sofá.

Nem voltou para term inar seu café da m anhã. Am bos saíram sem nem nos

dirigirem a palavra para se despedir.

− Aconteceu algum a coisa – afirm ou m am ãe. − Com certeza, m inha m ãe. Em se tratando do Ministério do Trabalho, deve

ser algo sobre as pobres crianças.

− Com o você e seu irm ão tiveram coragem de denunciar o próprio pai? − Eu nem vou responder a essa pergunta, m inha m ãe. Agora tenho que sair. − Aonde você vai?

− Vou procurar m eu irm ão. Quero contar a ele sobre esse telefonem a. − Cuidado, m inha filha. Não cutuque a onça com vara curta! − Eu sei – respondi, antes de m e afastar, pensativa.

* * *

Adelaide, a m inha am iga j ornalista, resolvera fazer um a m atéria independente

e, para não se com prom eter dem ais, a vendera com o free-lancer para um grande j ornal de São Paulo, em vez de sim plesm ente veicular no único j ornal da cidade, sobre o qual não sabia até que ponto Coronel Jorge detinha influência. Ela havia m e ligado na véspera, dizendo que a m atéria tivera repercussão nacional. Não contei para m am ãe para ela não saber que papai virara notícia em todo o território nacional.

− Então, Dani, será que seu pai ainda não está sabendo de nada? Não foi

ventilado nada por aí? – m e indagou de São Paulo, para onde viaj ara para assinar um contrato de exclusividade com o j ornal, que queria que desenvolvesse um a série de reportagens sobre o tem a de trabalho infantil escravo.

Se papai soubera de algo, não m anifestara nada em casa. Mas o fato de estar sendo procurado por um funcionário do Ministério do Trabalho era sintom ático.

* * *

Todas as m anhãs, logo cedo, César gostava de fazer cam inhadas às m argens do rio Tocantins, além dos exercícios físicos que praticava na m oderna academ ia instalada na m ansão, com os m ais avançados equipam entos de fitness.

O local era bem m ais m ovim entado no final das tardes, quando os frequentadores, após a saída do trabalho, cam inhavam para queim ar as calorias, enquanto outros corriam . Era um am biente m uito agradável, perfeito para fazer piquenique com a fam ília, contando até com estrutura para a prática de esportes.

Ao longe vi m eu irm ão correndo com a cam iseta am arrada na cintura.

Acenei com as duas m ãos. Quando m e viu, retribuiu da m esm a form a, acrescentando um sorriso.

− Com o está, m inha irm ã? – perguntou-m e ao se aproxim ar de m im . – Estou estranhando você por aqui: resolveu aderir à m inha prática de corrida? E bem no dia de seu noivado?

− Ainda não estou nessa. Estava à sua procura; não queria esperar você retornar a casa. Tenho novidades.

− E o que é?

− Papai recebeu agora a pouco um a ligação m uito estranha de um funcionário do Ministério do Trabalho aqui da cidade.

− Sabe o nom e dele?

− Fernando Nunes.

− Sim . Ele é de Pedro Afonso. E onde está nosso pai?

− Não sei. Depois de falar com esse tal de Fernando, papai saiu sem falar nada. O Marcos estava tom ando café e foi j unto. Os dois pareciam bastante preocupados. Cheguei a com entar com m am ãe que deveria ser algo relacionado com a questão das crianças. O que você acha disso, César?

César, ao enxugar o suor da testa, fazia alongam entos para as pernas e o tronco ali m esm o, na m inha frente, enquanto prestava atenção às inform ações que eu lhe transm itia. Por fim , bateu a m ão na testa e exclam ou:

− É im pressionante! Mais um a vez, o Coronel Jorge ganha de novo! − Por quê? – Não entendia o que queria dizer com aquilo. − Dani, não sej a ingênua! Se esse funcionário ligou para nosso pai agora de

m anhã, em um horário tão pouco convencional, é porque é pau m andado.

− P-pau m andado? Com o assim ? O que você acha que ele disse a papai, para

deixá-lo tão preocupado?

− Tem um detalhe, m inha irm ã, que você não está sabendo. − E o que é?

− O Luciano ligou ontem para os seus pais relatando o que está acontecendo

aqui na cidade. Provavelm ente eles entraram em contato com a sede do Ministério do Trabalho em Palm as, para fazer a denúncia. Esse tal de Fernando deve ter recebido algum a ligação da capital. Por isso, entrou em contato com nosso pai para tom ar as providências necessárias e evitar ser flagrado pelos fiscais. É o que posso im aginar.

− Puxa vida! – Eu estou pasm a com o desdobram ento dos últim os

acontecim entos, desde a nossa descoberta nos laranj ais de papai. – E ainda tem a Adelaide, que escreveu a m atéria veiculada para um j ornal de circulação nacional. Ela m e ligou ontem à noite avisando que a m atéria seria publicada hoj e. Nem deu tem po de avisar você Cesar. Tenho quase certeza que ela tam bém deve ter entrado em contatado com o Ministério do Trabalho para fazer as denúncias, m ostrar as provas e ainda conseguir algum a entrevista com os m andachuvas do Órgão...

− Eu tinha até m e esquecido de sua am iga j ornalista. Não há dúvidas, m inha

irm ã: ao m exer em algum as pedrinhas, acabam os provocando um a avalanche. Só espero que não caia tudo em nossas cabeças...

Meneei a cabeça, concordando.

− Vam os em bora? Ou ainda vai correr m ais?

− Não, j á term inei.

* * *

Após o alm oço, lá pelas duas horas da tarde, o tem po com eçou a fechar. Os relâm pagos e os sons dos trovões m e assustavam . Aquelas nuvens escuras no céu representavam bem o estado em que se encontrava m eu coração.

Eu não conseguia tirar de m inha cabeça a ideia de largar tudo e fugir com Luciano. Havia tem po para fugirm os. Sabia que podia contar com o apoio de m eu irm ão. Entretanto, qualquer atitude que pensasse em tom ar, m eus pensam entos retornavam às am eaças de m eu pai, m e paralisando.

Um terrível boato espalhava-se na cidade. Eram inform ações não oficiais. Duas pessoas haviam sido encontradas m ortas em um a antiga estrada de terra, usada para chegar a um a linda planície verde com um grande cânion.

As inform ações chegavam até a m im incom pletas. Dalva, a em pregada, dizia que era um a coisa; os funcionários que term inavam os últim os retoques dos enfeites diziam outra. Ainda m e recordo do falatório, no grande salão.

− Nossa Senhora Mãe de Deus! Aonde vam os parar com essa violência? Fazia tanto tem po que não ocorria crim e tão horrível assim , em Pedro Afonso... – exclam ou Dalva, fazendo o sinal da cruz.

− Para m im , aí tem – aventou um dos funcionários contratados para a decoração da festa, enquanto subia em um a escada e puxava um a grande fita verm elha, que fixava atravessada de um a ponta a outra, no alto de um a das paredes. – Foi um crim e encom endado e m uito bem executado...

− Por que diz isso? – perguntei, sem conseguir refrear a curiosidade, em bora detestasse ficar a par dos detalhes m órbidos com que geralm ente as pessoas gostavam de esm iuçar as desgraças alheias.

− Ah, não sei direito, m as parece que levaram vários tiros, tipo para ficarem de bico calado m esm o, entende, dona Daniella? Pelo m enos, foi o que ouvi falar...

Os detalhes do que realm ente ocorrera só saberia depois, quando m eu irm ão retornasse do local do crim e. Mas pressentim entos ruins m e corroíam por dentro, o que, confesso, m inha m ente passara a alim entar de m aneira obsessiva nas últim as sem anas.

Já estava escurecendo quando m eu irm ão chegou. Independente de saber do que se tratavam os boatos, pediria aj uda a César e fugiria com Luciano. Eu estava, naquele m om ento, com toda a coragem do m undo: calara dentro de m im todos m eus tem ores.

A m inha vida estava um a roleta russa: quando parecia que tudo iria dar certo,

surgia algum im previsto para derrubar m eus planos.

César tinha o sem blante carregado, com o se retornasse do velório de parentes

próxim os e não da acareação da m orte de dois desconhecidos.

− Dani, as notícias não são nada boas. Os boatos são verdadeiros: duas pessoas

foram assassinadas à queim a-roupa. Os tiros foram todos no rosto.

− Quem com eteria um a barbaridade dessas?

− Mas o pior ainda vou te contar agora: as vítim as eram fiscais do Ministério do

Trabalho da capital de Tocantins, designados para apurar as denúncias feitas por Adelaide no j ornal de São Paulo. Eles foram assassinados em um local diferente, m as tiveram os corpos j ogados na estrada. A im prensa de Palm as e a Polícia Federal foram acionadas para cobrirem o caso.

Senti m inha pressão cair e a m inha visão se turvar, enquanto era tom ada por

um a vertigem . César correu para m e am parar, ao perceber que m inhas pernas dobravam , sem forças.

− Minha irm ã, você tem que ser forte!

− Papai... Ele não pode ter feito isso! Não acredito que tivesse coragem para

tanto... − balbuciei, olhando com desespero para o m eu irm ão.

César não ousava aquiescer à m inha suspeita. Mas o fato de não negar ou

sequer se indignar com a m inha conj etura servia som ente para reforçá-la. Continuou a relatar com cautela:

− O lugar estava m ais cheio do que o Sam bódrom o em dia de carnaval no Rio

de Janeiro. O IML dem orou a chegar, e os corpos ficaram estirados no chão. Logo que com eçou a chover, tentaram cobri-los com um a lona preta, m as o vento forte insistia em descobri-los, e os corpos ficaram expostos na chuva. Foi um a falta de respeito. Com o encerram ento do trabalho dos peritos, que chegaram som ente depois que a chuva deu um a trégua, os cadáveres foram liberados.

− Para onde levaram os corpos? – perguntei.

− Foram para a cidade de Palm as, onde passarão por um a autópsia, se é que é

necessário. Nosso pai acha que é Deus? – indaga César, agora m ais exaltado. − Ele pode m andar aqui, em Pedro Afonso, m as não no Brasil inteiro. Esses fiscais são da capital. Você vai ver m inha irm ã, a confusão que isso vai gerar na cidade.

− Não poderem os fazer absolutam ente nada contra nosso pai, César – suspirei desanim ada. − Por isso, peço licença, vou tom ar banho e m e arrum ar. Afinal de contas, hoj e é o dia do m eu noivado.

− Sim , m inha querida irm ã – disse ele, beij ando-m e na testa.

Face aos m ais recentes acontecim entos, eu não m e sentia m ais capaz de enfrentar m eu pai. A ideia de fugir antes de m eu noivado se realizar escoava pelo ralo abaixo. Não iria colocar a vida de Luciano em risco por nada deste m undo.

Enquanto tom ava banho, a água do chuveiro se m isturava às lágrim as, incontroláveis, que desciam pelo m eu rosto. Pelo m enos, ali, na privacidade do m eu banheiro, eu podia descarregar toda a m ágoa, toda a dor e toda m inha im potência ao constatar que não conseguia fugir ao m eu destino, traçado de m aneira tão calculista pelo Coronel Jorge e seu braço direito, Marcos. Fui sacudida por soluços incontroláveis. Ao sair do banho, m ais calm a, apenas com a toalha enrolada em volta do corpo, fiquei adm irando a m inha fantasia de princesa sobre a cam a. Era linda, e m e serviu com o um a luva: perfeita!

Pelo cronogram a recebido dos organizadores, m eus pais recepcionariam cada um dos convidados fantasiados.

Vinte horas e trinta m inutos: esse era o horário com binado para que eu descesse as escadas e fosse recebida por todos. Ao consultar o relógio, verifiquei que j á estava quinze m inutos atrasada. Perdera tem po dem ais em m eus devaneios. Respirei fundo e segui m eu destino. Andei devagar pelo corredor até chegar à escada. Do alto, avistei todos rindo e com taças, bebendo do m elhor cham panhe. Reconheci alguns, m as não conhecia a grande m aioria. Era bem próprio de papai, m esm o, querer convidar toda a sociedade de Pedro Afonso.

A cada degrau que descia e m e aproxim ava do m om ento que selaria o m eu destino, sentia que estava m e encam inhando ao m atadouro. A diferença é que tinha consciência total disso, enquanto um boi tem apenas a sensação de que sua hora se aproxim a. As luzes se apagaram , m ergulhando a todos na escuridão. Levei o m aior susto, com pactuado com a m ultidão, que esboçou um sonoro: “Oooh...”

Acendeu-se a luz de um holofote m uito potente, que foi lançado em m inha

direção. Tive de fechar os olhos, para não ficar ofuscada. Ouviu-se novam ente um outro “Oooh” em itido em uníssono pelos convidados, m as, dessa vez, de adm iração.

Aquela luz m e dava m ais clareza à m ente. Não perm itiria em nenhum

m om ento que m inha feição expressasse algo que não fosse felicidade. Em poucos m inutos ficaria noiva do m elhor partido da cidade − isso sob o ponto de vista das garotas de Pedro Afonso, que m orriam de am ores pelo Marcos.

Conform e descia lentam ente as escadas, deslizando a m inha m ão direita no

corrim ão – com o que para m anter o foco da realidade, da concretude daquele m om ento −, os convidados m e aplaudiam , enquanto alguns chegavam a assoviar em m inha direção, em sinal de aprovação.

Aquela entrada tinha que ser triunfal. Pela prim eira vez vi m eu pai feliz, com

um brilho de satisfação e orgulho no olhar. “Com o consegue ficar contente, sendo que acabou de ordenar a m orte de duas pessoas?”, eu m e perguntava, indignada.

Era óbvio que não tinha com o provar um assassinato encom endado pelo m eu

pai. Mas todos os fatos apontavam para o Coronel Jorge.

De repente, vej o Marcos subindo a escada, vindo ao m eu encontro. Usando

um a fantasia de príncipe encantado, ele sorriu para m im . Com o nos contos de fadas, ofereceu-m e o seu braço para que eu passasse o m eu entre o dele. Term inei de descer a escada ao seu lado.

Meus pais m e receberam depositando um beij o em m eu rosto. César veio em

seguida e m e deu um abraço. Não disse nada. Apenas senti seu forte abraço por um longo tem po.

− César, j á está bom – disse papai.

Antes de m e soltar, m eu irm ão m e disse próxim o ao ouvido: − Sej a m uito feliz, m ana. Sabe que eu quero o seu bem . − Fique tranquilo, cunhado. Não precisa se preocupar: vou fazer sua irm ã

m uito feliz – disse Marcos a César. E no final, am bos se deram um convencional aperto de m ão.

Havia m uita gente fantasiada. Não reconhecia quase ninguém . As m áscaras

im pediam que visse seus rostos.

O protocolo im posto por m eu pai m e obrigava a cum prim entar todos os convidados que se aproxim avam de m im . Gente que não conhecia. A m aioria am igos de Marcos e de m eu pai. Ato esse que eu não tinha nenhum gosto em cum prir.

Procurava identificar naquela m ultidão o Luciano. Sabia que estaria ali; afinal, tocaria na banda. Olhava para todos os lados. Meus pais e o Marcos nem prestavam atenção em m im , pois conversavam com as autoridades ali presentes.

Não voltara a conversar com m eu irm ão sobre a apresentação da banda. Tinha esperança de m atar as m inhas saudades de Luciano, pelo m enos de longe, e apreciar seu desem penho no contrabaixo.

− César, quer passear um pouco por aí com igo? – perguntei, aproxim ando-m e de m eu irm ão.

− Lógico, m ana, vam os, sim – respondeu.

− Aonde você vai, Daniella? – perguntou Marcos.

− Dar um a volta. Tem m uita gente aqui. Estou com eçando ter dor de cabeça. E para não ir sozinha, convidei m eu irm ão.

− Eu vou com você – respondeu Marcos.

− Não é necessário, querido. Você tem m uito assunto para tratar com papai e seus convidados. Estou protegida, ao lado de m eu irm ão. Não se preocupe.

Marcos insistiu m ais um a vez.

− A Dani j á falou que estará bem com igo, e garanto-lhe que sim – se interpôs César, ao perceber m inha expressão agastada com tam anha insistência de Marcos. − Vou cuidar bem dela e ainda a entregarei a tem po de com eçar a cerim ônia de noivado, Marcos.

Não restou alternativa a Marcos, senão aceitar. Um a coisa era certa: ele sem pre respeitara o César.

Livre daquele entoj ado do m eu quase noivo, m eu irm ão e eu passeam os entre os convidados. Havia m ais convidados no j ardim do que dentro da m ansão.

A distribuição de bebidas e alim entos estava sendo realizada à vontade, sem m iséria. Im aginava com o seria no casam ento.

− E a apresentação, vai rolar? – perguntei a César.

− Claro que sim , m ana. A rapaziada j á está se preparando nos bastidores.

Preciso dar um a escapada para m e reunir com eles – disse.

− César, o Luciano está aí?

− Ele não queria vir. Quase brigam os.

− Por quê? – perguntei num fio de voz, m as j á sabendo a resposta. − Não estava a fim de ver você

− É?

− Daniella, você acabou com ele. Dispensou o cara no m om ento em que se

preparava para pedir você em casam ento – explicou m eu irm ão, sussurrando.

− Eu da proposta de casam ento. Estou protegendo o Luciano e você sabe m uito

bem disso. Agora, com a m orte dos fiscais é que não m udo de opinião m esm o – respondi.

− Por isso é que Luciano m udou de ideia e resolveu vir tocar em seu noivado.

Contei para ele que você foi am eaçada por nosso pai.

− César! Não acredito que você fez isso... E o que ele disse? − Ficou bravo.

− Bravo? Com o assim ?

− Disse que não vai aceitar essas am eaças. Mesm o com a perseguição que ele

sofreu e a m orte dos fiscais do Ministério do Trabalho, pretende lutar pelo am or que sente por você. Ele m e disse que viria aqui disposto a convencer você a fugir depois do noivado.

− Fale baixo, César – m urm urei assustada com as revelações que m e fazia e

tem erosa de que m ais alguém pudesse ouvir.

− Desculpe.

− Não vou aceitar. Se acontecer algum a coisa com o Luciano, nunca irei m e

perdoar.

− Ele vai procurar você.

− Não quero que faça isso. Fale para ele não m e procurar, é perigoso! − Sinto m uito, m as não vou poder fazer isso. Porque eu quero m ais é que ele

converse com você.

− Meu irm ão, por favor, sim ?

− Desculpe Daniella. Você está com tanto m edo, que nem raciocina direito. Sou obrigado a interferir em sua vida, sim .

O silêncio tom ou conta de m im . Queria argum entar, m as as palavras sim plesm ente tinham sum ido de m inha boca. Meu pensam ento ficou vazio; não conseguia raciocinar. Seria sinal de que m eu irm ão estava com a razão? O m edo de perder Luciano estava m e cegando para os fatos m ais evidentes: a tragédia que poderia representar um casam ento sem am or com Marcos.

César despediu-se de m im para se dirigir aos bastidores do palco, quando faria o aquecim ento para o show. Antes de ir em bora, ele m e segredou:

− Papai contratou um a banda para anim ar a sua festa, m as nós a dispensam os, No seu lugar, sem que o coronel saiba, irá se apresentar a banda “Liberdade Condicional”. Uhu! Que achou de nossa estratégia, m ana? – disse com ar exultante.

Eu tam bém estava explodindo de felicidade com a possibilidade de ver m eu irm ão cam inhando para sua prim eira apresentação em Pedro Afonso. Graças às fantasias, quem iria identificá-los? Torcia m uito pela banda.

O bate-papo com m eu irm ão aj udara a desvanecer o m al-estar que sentia. A conversa m e aj udara a refletir bastante, em bora nenhum a decisão definitiva tivesse sido tom ada.

Tinha que voltar; Marcos provavelm ente estava m e procurando.

Cam inhando entre as pessoas, fiquei frente a frente com Ana, fantasiada de guerreira.

Com os dentes à m ostra, num sorriso m ilim etricam ente estudado, ela m e abraçou e disse:

− Querida Daniella, desej o-lhe m uitas felicidades ao lado de Marcos. Vocês fazem um par perfeito!

Sua falsidade m e espantava. Traidora! A vontade que tinha era avançar nela e deixá-la toda descabelada, além de unhar todo o seu rosto.

Por m im , ela poderia ficar com o Marcos para o resto de sua vida. A m inha raiva era pela traição. Tudo que acontecia com igo, Ana dedurava para o Marcos. Tam bém , por que fui contar m eus segredos para ela? Já dizia alguém m uito sábio: quando contam os um segredo a alguém , estam os depositando nossa vida nas m ãos dessa pessoa. Mas procurei ocultar m inha aversão a ela, tratando-a com o se não soubesse de nada.

− Ana, desculpe-m e, m as tenho que ir; o Marcos deve estar m e procurando. − Está sim . Cruzei com ele há pouco e m e perguntou de você. − É? Então, tchau. Deixe-m e ir.

− Tchau – disse Ana, m e olhando de cim a para baixo.

* * *

Enquanto m e dirigia até Marcos, alguém cham ou m inha atenção. Fazia sinais

com as m ãos. Entendi que estava m e cham ando. Usava traj es de palhaço e um a m áscara que representava o teatro: a face do lado esquerdo expressava alegria e a do direito, tristeza. Nem im aginava quem poderia ser. O m isterioso convidado cam inhou para um a parte da m ansão que não tinha nenhum convidado. Entrou na sala de m úsica. Deduzi que era um parente, para ter coragem de entrar nos côm odos da m ansão dessa m aneira.

Olhei para os lados para ter a certeza que ninguém m e vigiava. Adentrei na

sala, m as não avistei o m ascarado. Meu coração palpitava. Ouvi o som da porta se fechar. O desconhecido estava atrás da porta.

− Quem é você? Por que m e cham ou até aqui? Sem dizer nada, aproxim ou-se de m im e com eçou a andar em círculos à

m inha volta. Eu o acom panhava com receio de um ataque. Não acreditava no que acontecia.

Para m inha surpresa, ele parou de rodopiar e retirou da m anga direita um

botão de rosa verm elha.

− Que linda – disse, im pressionada, e m e desarm ando. Com leveza, o hom em m isterioso colocou o botão entre m eus cabelos. − Quem é você? – perguntei.

Calado, ele segurou em m inha m ão e a beij ou. − É você, Luciano? − indaguei receosa.

Ele retirou sua m áscara, m ostrando sua face tão querida e gravada à m ente.

Com alegria, descobri que era o Luciano. Aj oelhou-se aos m eus pés, com o sem pre fazia antes de recitar um poem a:

 

Você está em m eus sonhos;

No m eu coração e na m inha alm a;

O seu perfum e está em m im ;

Gosto de sentir;

Seus beij os todos os dias

Não há nada tão gostoso;

Tudo na vida poderia ser assim ;

Aprendi a beij ar;

Aprendi a am ar;

Aprendi a ser feliz;

Você m e deu am or;

E Deus abençoou;

Nosso grande am or.

Jam ais diga adeus;

Jam ais Chorar;

Jam ais ser infeliz.

Por quem você am a?

Por m im .

Você está em m inha vida

Com o Deus planej ou para nós

Eu te am o com todas as forças

Sou com pleto e abençoado

É um a verdadeira m ulher

Quero ficar com você por toda a vida...

Te am o!

Luciano expressava tanto am or com aquela poesia. Seus sentim entos acim a de

sua própria vida! Que prova m aior de am or eu poderia ter de um hom em ?

− Não quero que você se arrisque por m inha causa, entenda isso. Soube o que

aconteceu hoj e à tarde?

− O assassinato? – disse, ficando de pé.

− Claro. Quem você acha que m andou m atar os fiscais? Meu pai, na certa.

Tudo indica que foi ele. Im agine, agora, do que será capaz, se eu ficar com você. O Coronel Jorge m anda em todas as autoridades de Pedro Afonso. Nesta festa, o que m ais se vê é gente im portante da cidade.

− Para ser feliz ao seu lado, vale a pena correr qualquer risco. − Luciano, você tem que entender de um a vez por todas que vou noivar, sim , e

ponto final. Que adianta eu querer ficar com você, para depois você m e aparecer m orto? Tem sentido?

− Não! – respondeu, afastando-se de m im .

Eu estava entendendo que aquele “não” não se tratava de um a resposta à

m inha pergunta. Antes, era um a m aneira indignada de expressar que era contra a m inha decisão.

− Luciano, pelo am or de Deus, não insista nesse assunto. Sinceram ente, eu

am o você. Por esse m otivo, irei noivar com o Marcos. Não há saída para nós. O que aconteceu com a gente foi apenas passageiro. A realidade é outra.

Meus olhos se encheram de lágrim as ao lhe dizer com firm eza, em bora com a

voz trêm ula:

− Me esqueça. Encontre um a m ulher m elhor do que eu... Que não coloque a

sua vida em risco.

- Você é a m ulher da m inha vida! Então, estou definitivam ente condenado à m orte. Se ficar com você, serei assassinado. Sem você, m orrerei de am or! Meu destino é certo!

Ao m e notar a angústia, Luciano aproxim ou-se de m im e enxugou m inhas lágrim as. Quase m e rendi ao beij o que estávam os na im inência de trocar. Mas com um autocontrole que eu m esm a desconhecia, o repeli.

− Saia daqui, Luciano.

− Daniella?

− Agora.

− Eu am o você – disse Luciano.

− Se você não sair, saio eu.

Deixei-o sozinho na sala de m úsica. Ao sair, olhei para os lados e constatei que não havia ninguém dentro da m ansão. Todos estavam dispersos na área externa, em volta da piscina e do palco im provisado. Aproveitei e subi ao quarto para retocar a m aquiagem e disfarçar o choro. Da sacada, avistei as pessoas aguardando o show.

O locutor cham ava o contrabaixista, com unicando que deveria com parecer com urgência nos bastidores, pois a apresentação iria iniciar em poucos m inutos.

Contrariada, dei um a últim a olhada no rosto abatido no espelho, que o blush não conseguia disfarçar, e desci correndo. Meus pais deveriam estar loucos atrás de m im .

Ao passar em frente à sala de m úsica, Luciano deixava o recinto, fechando a porta atrás de si com o olhar entristecido. Meu coração se apertou m ais um a vez. Mas tudo o que fiz foi lhe dizer, de m aneira breve:

− Estão te cham ando.

− Eu ouvi. Estou indo para lá agora – respondeu, recolocando a m áscara.

− Boa sorte.

− Obrigado.

Aguardei que ele saísse prim eiro e, som ente após m ais uns m inutos, m e dirigi à área externa da m ansão. Dessa m aneira, ninguém iria nos ver saindo j untos.

O j ardim estava lotado. Era incrível com o haviam convidado tanta gente!

Noventa por cento daquele povo eu nunca tinha visto. Eram estranhos para m im . E era o m eu noivado!

Bem sorrateiram ente aproxim ei-m e por trás de m eus pais e do Marcos no

cam arote e fiquei por ali aguardando o show iniciar.

− Onde você estava Daniella? – perguntou Marcos. Som ente nesse m om ento m eus pais se deram conta de m inha presença e se

viraram para trás, m e olhando com o m esm o ar interrogativo.

− Estava conversando com algum as am igas. De repente, todo m undo com eçou

a sair da m ansão e acabei ficando para trás, em bolada no m eio da m ultidão. Só agora consegui chegar aqui no cam arote.

− Estávam os te procurando com o loucos – disse papai. – O César tam bém

sum iu.

− Não tive com o chegar antes. E m eu irm ão deve estar por aí com os am igos.

Olhem , o locutor vai falar algo, pois se posicionou na frente do palco – procurei tirar a atenção deles para a ausência de m eu irm ão.

− Boa noite! Nesta data especial e de m uita alegria, acontecerá o noivado m ais

im portante da cidade − anunciou o locutor com um enorm e sorriso, falando de m aneira exagerada e teatral, enquanto abria com am plitude os braços. − Em nom e de todo os m oradores de Pedro Afonso, desej am os m uitas felicidades aos futuros noivos. Um a salva de palm as – disse o locutor.

Acenam os para o público. Marcos m andava até beij os. Eu m e senti totalm ente

encabulada em ser alvo da atenção geral, principalm ente porque não conseguia distinguir a fisionom ia de ninguém , ofuscada pelo forte holofote que nos ilum inava.

− Beij a, beij a, beij a... – diziam todos os convidados. A vergonha m e paralisou. Não queria beij ar Marcos, m as ele segurou a m inha

nuca e, aproxim ando seus lábios dos m eus, nos beij am os. Ouvi um a cascata de aplausos e assovios. Após se afastar de m im , Marcos ainda fez carinho em m inha face. Aquilo m e deixou possessa por dentro: nunca tivera esse gesto quando ficávam os sozinhos. Agira dessa m aneira para im pressionar aquele povo.

− Agora, com vocês, a banda “Liberdade Condicional” – com unicou com

redobrado entusiasm o o locutor.

Ouvim os os sons incipientes dos instrum entos, enquanto o apresentador saía de cena e abria-se a cortina verm elha. Várias luzes coloridas oscilavam de um lado para o outro, criando efeitos de m ovim ento no palco. A banda tocava, envolta pela fum aça de gelo seco, dando a im pressão de que realizariam um show de grande porte.

− Que legal, eles tam bém estão fantasiados! – exclam ou papai.

Foi program ada a apresentação individual de cada um dos integrantes da banda, j á na abertura.

O prim eiro a se apresentar no solo de guitarra foi o Oswaldo; em seguida, o Eduardo m andou ver na bateria. Luciano arrasou no contrabaixo. Eu aplaudia com o se fosse um a antiga fã.

Encerrando a apresentação inicial da banda, o vocalista, que era m eu irm ão, surgiu no m eio da fum aça de gelo seco e com eçou a cantar. Com o obj etivo de não atrapalhar a sua apresentação, César usava um a m áscara com abertura, que liberava apenas o seu nariz e a sua boca. Perspicaz, m eu irm ão ainda substituiu a fantasia com que estava antes, para não suspeitarem dele. Nossos pais j á conheciam sua vestim enta; se vissem o cantor com o m esm o m odelo de fantasia, iriam m atar a charada na hora.

Fiquei observando, divertida, m eu pai e o Marcos aplaudirem a banda. Presenciava com interesse papai aplaudindo seu próprio filho, sem fazer ideia disso. E até Luciano era ovacionado pelo m eu noivo.

A banda tocou e cantou um pouco de cada estilo m usical. Entre um a m úsica e outra, o conj unto recebia aplausos, assovios e até pedidos de bis. Havia um a energia incrível no ar, propiciada pela m elodia agradável, pelo repertório aprovado por todos.

Quando as coisas têm que ser, não adianta ninguém querer im pedir, eu refletia. Mam ãe dera a ideia da festa à fantasia. Meu irm ão aproveitara a brecha para fazer sua apresentação sem que ninguém o reconhecesse. Quem sabe não seria esse o toque especial da banda para fazer sucesso? Apresentarem -se fantasiados?

Foi quase um a hora e m eia de show. No final, a banda “Liberdade Condicional” recebeu pedidos entusiasm ados de bis.

− É a nossa prim eira apresentação para um grande público. Quero agradecer o calor hum ano e a receptividade de todos. Isso nos deu o m aior gás para oferecer o m elhor de nós. Valeu galera! − m eu irm ão, com o o líder nato que sem pre se revelara, agradeceu em nom e da banda e despediu-se com a cortina quase fechando.

Enquanto os aplausos rareavam , papai aproveitou para, do próprio cam arote,

pegar o m icrofone e fazer o pronunciam ento oficial do m eu noivado.

− ...e eu confio totalm ente no Marcos, a quem entrego a m ão de m inha filha,

assim com o j á entreguei a direção dos negócios da fam ília.

Só consegui ouvir a partir desse trecho, pois m e perdera em m inhas

divagações, sendo cham ada à realidade pelo ecoar de risadas que se sucederam após essas palavras.

− Tenho certeza de que é o hom em perfeito para Daniella. E o casam ento,

para o qual todos vocês estão convidados, será realizado em m enos de um m ês!

Ouviu-se um zum -zum geral, acom panhado de salva de palm as e olhares de

invej a em m inha direção. Papai continuou a dizer um m onte de coisas às quais nem prestei atenção. Pensava apenas em Luciano, que, de algum lugar próxim o, deveria estar assistindo ao pronunciam ento de m eu noivado.

Marcos pegou o m icrofone da m ão de papai e disse de m aneira inflam ada −

parecia político em cim a de um palanque:

− Meu m aior desej o é fazer feliz a m inha querida noiva. Daniella será

m erecedora de toda a m inha dedicação e am or, pelo resto de nossas vidas. – Olhou em m eus olhos com a expressão apaixonada m ais convincente do m undo.

Até eu seria capaz de acreditar, se não o conhecesse um pouco e não o tivesse

flagrado com a Ana. Revelava-se um ator nato. Só faltou dizer que era fiel! Sua falsidade chegava a m e dar engulhos.

Perguntaram -m e se eu queria com plem entar com algum a coisa. Respondi que

não. Papai insistiu, colocando o m icrofone perto de m inha boca. Afastei o m icrofone, dizendo que não queria fazer nenhum pronunciam ento, pois estava com m uita vergonha. Parte do que eu falava saiu na caixa de som .

− Ela está tão em ocionada, que nem tem palavras – disse Marcos no

m icrofone. Incrível com o tinha saída para as situações m ais em baraçosas do m undo!

Finalm ente, realizava-se o desej o de m eu pai. – Estou noiva de Marcos – Caía a ficha de m aneira dolorosa, e precisei repetir isso várias vezes para m im m esm a, após trocam os alianças na frente de todo m undo. Um a chuva de flashes caiu sobre nós. Fotógrafos m ais pareciam pragas, espalhados por todos os lados. Quantos da im prensa, papai não convidara?

Beij am o-nos novam ente, e os aplausos que se sucederam sinalizaram o encerram ento da cerim ônia de noivado em si.

Enquanto era beij ada por Marcos, só pensava em Luciano. Tive de fazer um esforço enorm e para não gritar, não m anifestar o desprezo que sentia pelo m eu noivo.

O locutor voltou e com unicou aos convidados que os garçons com eçariam a servir o j antar.

Perm aneci no cam arote e j antei ao lado de Marcos e m eus pais. César chegou logo em seguida, vestindo a fantasia que usara antes de sua apresentação, e j untou-se a nós.

− Você tem que ficar onde sua fam ília está – repreendeu m eu pai.

− Meus am igos pediram para que assistisse ao show ao lado deles – j ustificou-se, sem conseguir dissim ular a expressão de excitação nos olhos, m uito brilhantes. E disfarçando, m e apertou a m ão de m aneira cúm plice. − E vocês, o que acharam da apresentação da banda “Liberdade Condicional”?

− São excelentes – disse papai, em sinal de aprovação. − O uso da fantasia criou um clim a de suspense. Pensei que no final da apresentação fossem revelar suas identidades. Foi m elhor assim . Não seria um a m á ideia: poderiam se apresentar sem pre dessa m aneira em todos os shows da banda.

− Foi exatam ente isso o que pensei. Ao se apresentarem fantasiados, a banda “Liberdade Condicional” fornecerá um atrativo diferenciado, criando um a aura de m istério. Vocês se lem bram de “Secos e Molhados”, no início de sua carreira? E a irreverência dos “Mam onas Assassinas”? Com esse toque de originalidade, ao incorporarem fantasias diferentes a cada show, serão disputados e, dia após dia, aum entará o núm ero de fãs, tam bém – disse de m aneira entusiasm ada para o m eu irm ão, esquecendo m om entaneam ente de m eus problem as.

− É de se pensar. Espero que alguém passe essa dica para os integrantes da banda – respondeu César, refletindo sobre a sugestão.

No m om ento da dança dos casais, não tive com o escapar e dancei um pouco

com m eu noivo. A sandália alta j á j udiava do m eu pé, cuj os dedos se com prim iam no bico fino, em bora não m ais do que m eu coração, tão pequeno e acabrunhado dentro do peito.

Ficam os até altas horas da noite entretendo os convidados. Os m esm os

aproveitaram a festa regada com m uita bebida e com ida. Vazia m esm a só a m inha existência e o que m e aguardava o futuro, casada com um canalha com o Marcos.