Sonho Azul: A luta pelos inocentes
Capítulo V
Reviravolta
Na noite seguinte, fom os m ais um a vez ao centro da cidade alim entar os sem -teto. Estávam os apenas em dois: o César e eu, pois os dem ais integrantes da Confraria andavam envolvidos em outros com prom issos particulares. Não poderíam os nos deixar abater pelo nosso dram a fam iliar e esquecer que havia pessoas vivendo problem as graves tanto quanto os inocentes da lavoura do Coronel Jorge. E isso se confirm ou tão logo avistam os alguns velhos conhecidos, deitados sobre os degraus da igrej a m atriz.
− Dona Daniella, Seu César! Que bom que vocês se lem braram da gente nesta noite! Ontem , tivem os que nos virar com um as sobras do restaurante do Seu Olavo! Olha, m as foi dureza ter que disputar a lata de lixo com os cachorros – disse Max, um negro ainda forte, m as cuj os cabelos totalm ente grisalhos denunciavam o avançado da idade, enquanto segurava em m inhas m ãos. Seu rosto se abriu num a gargalhada alta e forte, m ostrando a boca desprovida de dentes.
Passei a m ão em seu cabelo crespo esbranquiçado, sem m e sentir cobrada. Eles, os m oradores de rua, não exigiam nada; apenas aceitavam o que recebiam de nós e quando recebiam . Não havia um a relação de dependência; apenas de am izade e reconhecim ento.
A sopa daquela noite estava bem caprichada e farta em legum es e carne. Ao servir um a cum buca para o m eu velho am igo Olavo, notei que havia − m eio escondido pela escuridão, onde a lam parina da rua não alcançava − nos últim os degraus da escadaria, um vulto im óvel.
− Quem é, seu Olavo? Um novo integrante da rua?
− Ah, esse aí? Coitado, seu nom e é Alexandre. É um m enino, apenas. Não tem para onde ir; parece que foi abandonado pelos pais. Não é de m uita conversa, não. Chegou ontem à noite, m eio m acam búzio. Parece que era m altratado, por onde andou.
Sorri na direção do m enino, cuj as feições ainda não conseguia ver. − Venha cá, Alexandre! Tem um a sopa deliciosa te aguardando! Desça até
aqui, vam os! Som os am igos!
− Isso m esm o – endossou César, fazendo gestos com a m ão, para que se
aproxim asse. – Venha até aqui, que querem os conhecê-lo m elhor.
Ele veio, desconfiado, pé ante pé. Quando a claridade da lam parina bateu em
cheio em seu rosto, quase derrubei a concha de sopa.
− Não é possível! V-você... Você estava na fazenda de p-pa... – interrom pi a
frase para não m e com prom eter. Meu susto era enorm e. – Você é o m enino que encontrei no outro dia, na estrada, não é m esm o?
− Sou eu m esm o – disse, desconfiado e m onossilábico. – E a senhora, o que faz
aqui? Parece que está sem pre por perto, m e rondando... É do Juizado de Menores?
Tranquilizei-o, dizendo que era apenas um a pessoa que não gostava de
inj ustiças sociais. Em volta da pequena fogueira feita com papelões, j ornais e restos de caixotes de m adeira de feira, após devorar a sopa e ainda repetir, Alexandre nos contou sua triste história de vida. Parecia um prisioneiro saído de um cam po de concentração, que não se alim entava havia dias.
− Meu nom e é Alexandre. Tenho 9 anos de idade... Quer dizer, pelo m enos eu
tinha, até o outro dia.
Eu m e espantei ao saber sua idade. Aparentava bem m enos; não lhe daria m ais
do que 7. E não tinha a vivacidade, nem a linguagem de um a criança de 9. Através de perguntas induzidas, ficam os sabendo que era de um a pequena cidade do sertão do Piauí, m as a cidade ele não soube dizer. Aqueles dados eram im portantes, para que m ais tarde pudéssem os m apear a origem de todas as crianças cooptadas para os laranj ais de Coronel Jorge.
As condições em que sua fam ília, num erosa, com m ais cinco irm ãos, todos
m ais velhos do que ele – pelo que pudem os apurar, duas irm ãs suas, tam bém m enores, haviam sido vendidas a coronéis da região, para aliviar a carga de ter m ais bocas para alim entar, e provavelm ente convertidas para a prostituição − vivia eram de penúria absoluta. Água, som ente a de chuva, arm azenada em cisternas; com ida, apenas quando seu pai conseguia fazer uns bicos ou retirar algo da terra, antes que esta ficasse totalm ente ressequida.
− Então, passou um hom em lá, dizendo que era m andado por um tal de Coronel Jorge e que queria aj udar a gente. Disse que se m e deixasse trabalhar em seus laranj ais, passava a m andar dinheiro para papai, de vez em sem pre. O que convenceu m am ãe m esm o foi quando disse que ia m e m andar para a escola. Ela ficou feliz da vida com a ideia de ter um filho seu entendendo os rabiscos que nunca ninguém lá de casa conseguiu... Mas tudo o que faço lá na fazenda é m e acabar de trabalhar. Quando paro um instante para descansar os braços cansados, vêm uns hom ens e nos bate... Não quero m ais aquela vida por nada, j uro! Quero ir para a escola...
Meus olhos se encheram de lágrim as ao im aginar a sofrida vida que ele levava em sua pequena cidade, castigada pela natureza e esquecida pelas autoridades, m as onde pelo m enos deveria contar com o afeto da fam ília. Agora, enquanto aloj ado de m aneira bárbara no galpão dos laranj ais, subm etido a condições sub-hum anas, tratado com um anim al e em contato com crianças tão traum atizadas quanto ele, o que lhe restava senão se considerar abandonado por todos, sem enxergar um a luz no fim do túnel?
− Mas... Com o você fez para fugir de novo? Com o conseguiu sair daquele inferno? – perguntou César.
− Ah, nisso eu sou m uito bom ! Sou rasteiro e rápido com o um corisco! Era o que m am ãe sem pre m e falava – gabou-se, com os olhos brilhantes. − Consigo m e m over nas som bras, sem ninguém m e perceber. Eu vivia fugindo do papai, quando queria m e dar uns cascudos!
Assenti, percebendo que, apesar da infância m altratada, Alexandre era um a criança que tinha a essência dessa etapa de vida; só precisava ter os recursos para viver um a vida plena e esquecer essa m á fase.
− Nós vam os te aj udar, Alexandre. Você não terá que voltar nunca m ais para esse trabalho que tanto o m altrata. Vou levá-lo para a casa de um am igo – disse César e olhou para m im .
− De quem , m ano? Precisam os tom ar cuidado ao envolver outras pessoas.
− Do Oswaldo, Dani. Ele é gente boa e vai entender e aceitar um hóspede m irim por uns tem pos. Pelo m enos, até fazerm os contato com a fam ília do Alexandre...
* * *
Passam os na casa de Oswaldo, que acordou assustado, m as entendeu o dram a
do pequeno Alexandre, acolhendo-o de bom grado. Este ficou fascinado ao saber que estava na casa de um m úsico e que havia instrum entos m usicais que nunca vira antes em sua vida.
Já deveria ser bem m ais de três da m anhã quando, deitada em m inha cam a,
tentava inutilm ente dorm ir. Minha cabeça pesava toneladas; dentro da caixa craniana, sentia o sangue bom beando sem parar, em parte talvez pelos pensam entos excessivos que m e dom inavam . A enxaqueca, persistente, não queria m e abandonar, m esm o tendo tom ado duas aspirinas. Observava tudo ao m eu redor. As im agens daquelas crianças trabalhando vinham com frequência à m inha m ente, bem com o os últim os m om entos ao lado do pequeno Alexandre. Tão novo e j á tendo passado por poucas e boas...
Estava m orrendo de m edo de que as denúncias não tivessem efeito contra o
coronel Jorge. Qual seria a sua reação quando soubesse que fora entregue de bandej a para as autoridades da capital? E, pior, se descobrisse que os responsáveis por tal ousadia havíam os sido nós, seus filhos? O que ele faria conosco, com o revidaria a sua ira contra nós?
Acordei além das nove horas na m anhã. Fui cham ada pela em pregada da
fam ília. Ela disse que o Coronel Jorge m e cham ava lá na sala. Eu não queria ir, m as não tinha o que fazer. Após m e arrum ar desci e dei de cara com o Marcos.
− Com o você está m inha querida?
− Estou m uito bem . O que faz aqui? – indaguei com frieza. − Vim visitar m inha futura noiva.
− Essa conversa j á está enchendo o saco, Marcos. Não sou m ais nada sua. − É sim . Sabe por quê? – perguntou
− Não faço a m ínim a ideia.
Tinha estam pada um a expressão de ironia no rosto. Eu não conseguia m e
segurar de tanta raiva. Fechei m inhas m ãos, cravando as unhas nas palm as até sentir que a dor era m aior do que a raiva. Minha vontade era sair dali para não ficar olhando para a cara daquele insuportável.
No com eço, não entendi m uito bem o que Marcos estava querendo m e dizer, m as depois de alguns instantes com ecei a m e preocupar.
Ele estava com um a expressão de satisfação ao m e contar:
− Hahahá! Consegui dar um a liçãozinha naquele seu pretendente! Pus ele para correr e acredito que, tão cedo, não vá ficar te rodeando.
− Com o assim ? – m eu coração gelou.
− Com a aprovação de seu pai, m andei os capangas da fam ília vasculharem toda a cidade para localizar o Luciano. Conversando com o seu chefe, foi m oleza descobrir onde ele m ora. Quando chegam os à casa daquele desgraçado, ontem à noite, ele nos viu e pulou o m uro. Ordenei que os capangas de seu pai fossem atrás dele.
Enquanto ele m e contava, eu refazia na m ente toda a cena de Luciano fugindo, em desespero, para não ser estraçalhado pela fúria dos hom ens de confiança de papai. Afinal, eu j á conhecia a sua fam a de violentos. Despertei de m eu devaneio, ao ouvir as palavras finais de Marcos:
− ...Tudo bem , pelo m enos o recado j á foi dado.
Minha aflição, que não consegui disfarçar, provocou ciúm es no m eu ex-nam orado:
− O que foi, Daniella? Está preocupada com ele? – m e perguntou.
− Sim , estou – disse.
Marcos respirou fundo, segurou em m eu braço e disse num tom contido:
− Vam os para a biblioteca, que o Coronel Jorge está te aguardando.
Quando adentrei na biblioteca, fiquei estupefata ao ver que, além de papai, estavam os capangas ao seu lado, e César, com o olhar acuado e a cabeça baixa, encontrava-se sentado no sofá.
− César, o que está fazendo aqui? – perguntei.
− O que você acha? – perguntou m eu pai.
− Não estou entendendo.
Ele sim plesm ente abriu a gaveta de sua m esa, de onde retirou a fita de videocassete. Estrem eci por inteiro, enquanto estabelecia um a rápida troca de olhar com m eu irm ão.
− Não estou com preendendo nada – balbuciei, disfarçando. Alguém nos dedara. Antes que entregássem os nosso pai, alguém nos entregara
antes para ele. Mas quem ?
− Eu achei essa fita, Daniela, na casa do Luciano. Vasculhei tudo e achei essa
gravação – contou Marcos.
Não tinha com o argum entar. Era o fim para o nosso plano. Sentei-m e ao lado
de César no sofá e enfrentam os a fúria do Coronel Jorge. Ouvim os tudo o que ele quis e teve vontade de despej ar em cim a de nós.
− Estou decepcionado com vocês, pela traição que estavam prestes a realizar.
Com igo, seu pai! Se não posso confiar em m eus próprios filhos, em quem , então, vou confiar? – e bateu com a m ão espalm ada na própria perna, provocando um ruído que não foi alto, m as m e fez estrem ecer m ais um a vez.
Os únicos decepcionados éram os nós. Poderíam os esperar qualquer atitude de
um hom em que não pensava em m ais nada, a não ser em seu próprio bem -estar.
− Com o o senhor tem coragem de fazer essa barbaridade com aquelas
crianças? – perguntou César.
− Negócios. Elas precisam de trabalho para aj udar a sustentar a fam ília delas
lá no nordeste. E eu as aj udo, em pregando-as – respondeu.
− Empregando-as? Papai, você as explora! Gravam os tudo; sabem os que
ficam confinadas, são vigiadas dia e noite. Se quiserem ir em bora, são im pedidas. Você as trouxe obrigadas! – disse indignada.
− Não. Elas foram autorizadas pelos pais de vários estados, Daniella. Eu m ando
todo m ês um dinheirinho para os pais das crianças. Esse foi o com binado. Está tudo certo. Não sei qual é o problem a – disse papai, quebrando a fita de videocassete.
− Isso é crim e! Mesm o com a autorização dos pais, a lei brasileira não perm ite
o trabalho infantil. Em qualquer país do m undo é assim . Você está indo contra o que se com bate no m undo inteiro: criança não pode trabalhar. Naquelas condições insalubres que constatam os, nenhum ser hum ano consegue trabalhar – César disse, de m aneira destem ida. A veia de seu pescoço engrossou, enquanto despej ava sua revolta. − Elas m oram em um galpão com o esgoto aberto! Você teria coragem de dorm ir pelo m enos um a noite naquele chiqueiro? – finalizou, provocando.
− Não fale assim com igo, seu atrevido. Ninguém poderá fazer nada contra m im , está tudo sobre controle. – Agora, era o Coronel Jorge quem se exaltava. − Quero que você saia daqui; o m eu desej o era que você saísse desta casa para nunca m ais voltar a ver sua cara, m oleque. Só não faço nada nesse sentido, pois sua m ãe iria m e dar m uitos problem as. Por isso, te aceito aqui a contragosto – disse.
− Não se preocupe, sairei daqui agora – respondeu César, levantando-se de um pulo do sofá.
Abracei m eu irm ão, im plorando para que não fosse em bora.
− Não posso ficar sozinha na m ansão! Não m e abandone, César.
Controlando a respiração entrecortada, ele engoliu em seco; m e beij ou na testa e disse, de m aneira relutante:
− Está bem , Dani. Eu vou ficar, m as só por sua causa. Porém , nunca m e esquecerei das palavras do Coronel Jorge.
- Agora é com você, Daniella – disse papai, logo que César saiu da biblioteca. Se você não aceitar as m inhas ordens, vou dar um j eitinho no Luciano. Ele é a pedra dentro do m eu sapato.
− Com o assim , seu desgraçado? – perguntei, j á avançando contra m eu pai para agredi-lo.
− Vou m atar ele – afirm ou papai, ao m e em purrar para o sofá.
− Seu m iserável, com o pode fazer isso com igo? – m e desesperei com a ideia de perder o m eu am or.
Nesse instante, m am ãe entrou na biblioteca pedindo que parássem os de brigar. Pelo que percebi, ela estava nos ouvindo por trás da porta, pois tinha os olhos verm elhos.
− Estou cansado desses filhos ingratos, Adriana. Eles têm tudo. Sabia que os dois estavam planej ando m e entregar ao Ministério do Trabalho? Tenho traíra dentro da m inha própria casa! – dizia papai.
− Jorge, não torne nossas vidas um inferno. Sej a racional. Essas crianças são
tão frágeis. Não podem trabalhar da m aneira que você quer. Quantas j á não m orreram no decorrer de todos esses anos? – disse m inha m ãe.
Fiquei estupefata ao ouvir essas suas palavras. Não, eu queria acreditar que
escutara m al. Seria m uito pior do que o pior dos pesadelos saber que m inha m ãe era conivente com toda aquela suj eira.
− A-a ...senhora tinha conhecim ento do trabalho infantil em nossas terras,
m am ãe?
− Sim , m inha filha – respondeu de m aneira resignada. − Sem pre tentei
convencer seu pai de que isso era um a burrada, e que um dia alguém iria denunciá-lo.
− Estou m uito decepcionada com você, m inha m ãe. Não esperava essa frieza
da senhora, só para proteger esse m onstro.
− Não fale assim . Ele é o seu pai.
− Pai? Que pai? Nunca tive um , que fosse presente em m inha vida. Ele é
m aldoso, cruel. Não existe sentim ento dentro de seu coração. Não m erece nenhum carinho de m inha parte. Para m im , ele é um m onstro!
− Pouco m e im porta o que você pensa de m im , Daniella. Já te dei o recado.
Neste final de sem ana haverá um a festa para oficializar seu noivado com Marcos – avisou papai. − Caso queira pagar para ver, é só m e dizer que terei o m aior prazer em pôr fim à vida daquele atrevido – disse, antes de se retirar da biblioteca j unto com seus capangas.
Marcos perm anecia ali calado o tem po todo, apenas acom panhando a
conversa. Tudo estava conform e desej ava; bastava olhar para ele para perceber o seu deleite com toda a discórdia reinante!
− Daniella, m eu am or, não fique assim . É que você ainda não percebeu que
m e am a de verdade – disse, por fim , avançando em m inha direção. − Depois que casarm os, você vai ver, vam os form ar um a linda fam ília – e aproxim ou seus lábios do m eu rosto, tentando m e beij ar na boca.
Ficou só na tentativa. Não perm iti que encostasse um dedo em m im . − Vá em bora agora, não quero ver você! Sabe que não te am o e fica forçando
um casam ento que não desej o. Vá em bora.
− Eu vou, sim , m as saiba que seu pai j á contratou a em presa que irá organizar o nosso noivado. A partir de am anhã, eles estarão aqui na m ansão para iniciar os trabalhos. Com licença, dona Adriana – disse Marcos.
− Vá com Deus – respondeu m am ãe.
− Vá para o inferno! – gritei.
Marcos nem olhou para m im ; fingiu que não m e ouviu e seguiu para fora da biblioteca.
− Ai, que ódio! – Coloquei as m ãos na cabeça, repuxando os cabelos.
− Daniella, m inha filha, você não pode agir assim . Vai piorar as coisas. Sua vida ficará insuportável – disse-m e m am ãe, apoiando a m ão em m eu om bro.
− É o seu querido m arido que deixa a m inha vida insuportável. Um dia, ele receberá o castigo que m erece. Espero que sej a o quanto antes!
Sai da biblioteca correndo com a sentença deferida, m inha vida am arrada ao lado de que eu não am o. Chorando sem sessar, parecia que estavam em câm era lenta subindo os degraus da escada em direção ao m eu quarto.
Só de pensar em perder Luciano, m eu coração com eçava a doer. Mas m eu pai era m uito perigoso; qualquer am eaça feita por ele convertia-se em ação caso fosse contrariado. Não repetia duas vezes. Não dava nenhum a chance.
Ele m e colocara contra a parede: noivar com o Marcos para m e casar em poucos m eses ou ver Luciano m orto!
Chorava só de pensar em qualquer am eaça ao m eu grande am or. Preferia que nada acontecesse com Luciano: antes feliz com outra, m esm o longe de m im , do que vê-lo m orto por m inha causa.
Tive de aceitar o noivado sem discutir nada. Meu pai tinha todo o poder em suas m ãos. Ele decidia o que queria, e tudo deveria acontecer subordinado aos seus desej os!
* * *
Soube depois, por interm édio de César, que Luciano estava bem . Segundo m eu irm ão, fora apenas um susto: os capangas não conseguiram pegá-lo. Caso o tivessem alcançado, seria um a surra só: eles não estavam de brincadeira e Luciano poderia ter m orrido de tanto apanhar.
Baseado nos detalhes que m eu irm ão passou para m im , decidi rom per com
Luciano e esquecer tudo o que passam os j untos. Esquecer? Meio im provável, pois apesar dos poucos dias, haviam sido m om entos que iriam perm anecer para sem pre em m eu coração.
Exigiu de m im um enorm e esforço não pensar m ais nos m elhores m om entos
de m inha vida ao lado de Luciano, fingindo que nada ocorrera, e voltar definitivam ente para os braços do Marcos. Mas preferi que fosse dessa m aneira a colocar a vida do m eu grande am or em perigo.
Fiquei aflita só de im aginar de que m aneira term inaria tudo com Luciano. Eu
teria de convencê-lo de que não o am ava m ais. Não poderia brincar com as am eaças do m eu pai: sabia que ele não estava blefando.
Recebi um bilhete de Luciano por interm édio de m eu irm ão. Daniella, preciso e anseio vê-la novamente. Encontre-se comigo no fim desta
tarde, próximo às margens do rio Sono. Te amo. Luciano
Dobrei o bilhete, feliz com suas palavras, m as com um peso enorm e no
coração. Seria a m inha oportunidade de expulsar Luciano de m inha vida.
Aquela tarde dem orou um a eternidade para passar, com o se o relógio quisesse
m e torturar ainda m ais na difícil decisão que teria de tom ar. Um a hora antes do horário com binado, saí de casa, cam inhando lentam ente ao m eu destino. Im aginei se seria assim que os anim ais em vias de ser sacrificados, a cam inho do abate, se sentem próxim os à sua hora final.
Diversas cenas de nossos m om entos m ais m arcantes repassaram diante de
m eus olhos: lem brei-m e do j antar à luz de velas que preparara para m im . De seus beij os e de tudo o que aconteceu em seguida, selando o am or que sentíam os um pelo outro. Desde o instante em que o conheci, m inha vida ao lado dele fora só felicidade e êxtase. Até então, nunca soubera o que era am or antes. Todas m inhas paixonites de adolescente pareciam pálidas sensações, arrem edos de paixão.
Perdida nesse m ar de sensações revisitadas e sofrim ento, quando m e dei conta,
estava j á às m argens do rio Sono. O coração disparou com o sem pre acontecia, cada vez que via Luciano. Estava de costas, olhando para as nuvens refletidas nas águas, m e aguardando no m esm o local da prim eira vez.
Com o que pressentindo m inha aproxim ação, virou-se e seus olhos brilharam : pareciam que tinham luz própria. Sem esperar por qualquer palavra m inha, ele se aj oelhou diante de m im e segurou em m inhas m ãos.
Fiquei sem reação. Se soubesse que ele iria fazer aquilo, naquele encontro em que eu tinha determ inado encerrar o nosso relacionam ento, nunca teria aceitado o convite. Pensei que apenas nos veríam os.
Quando com eçou a declam ar um a poesia, tentei im pedi-lo, m as Luciano não perm itiu que eu falasse nada. Olhando fixam ente em m eus olhos e segurando m inhas m ãos nas suas, recitou seu lindo poem a para m im :
O céu azul,
Seus olhos azuis.
Garota, seu sorriso me encanta.
O luar vê nossos beijos,
Com as estrelas a brilhar.
Não há nada que impeça nosso amor.
O Sol no verão,
Bronzeando sua pele de seda.
Um momento de êxtase:
Você vindo ao meu encontro,
Sua pele de seda,
Seu olhar brilhante,
Seu corpo perfeito...
Eu sonho e desejo,
Garota, que você seja minha esposa.
− Amo você, Daniella – ele encerrou a poesia com essa frase singela.
− Luciano, preciso conversar com você. É sério.
- Espere, tenho um a surpresa, espero que goste. As lágrim as com eçaram a se form ar teim osam ente em m eus olhos. Olhei
para o alto, tentando im pedi-las de escorrerem pelo rosto. Faltava-m e coragem para encarar Luciano. Com o era de esperar, ele percebeu que eu estava chorando, m as não sabia que não era pela em oção provocada pelo seu poem a e sim pela decisão que fui obrigada a executar.
− Daniella... Mas... espere! Você não ficou feliz com o m eu poem a. Você está
triste? – Ele segurou em m eu queixo, tentando decifrar a m inha expressão de tristeza. Em seguida, segurou a m inha m ão direita na sua.
Em questão de segundos, procurei refletir rápido e decidi que seria firm e com
ele para não lhe dar brechas de algum a tentativa de convencim ento de sua parte.
− Quero que você largue m inha m ão. Não quero ouvir m ais nenhum a palavra
vinda de você, Luciano.
Por alguns instantes ele ficou paralisado, provavelm ente processando a
m aneira grosseira com que m e dirigia a ele.
− Por que está falando assim com igo? – indagou, j á afastado de m im . − Você não fez nada. Apenas eu pensei m elhor, analisei o que quero para a
m inha vida. E cheguei à conclusão inesperada, até para m im , m as é a m inha decisão final: aceitei o pedido de noivado de Marcos – soltei.
− O quê? E nós? Você disse que j á não tinha m ais nada com esse cara; agora,
m udou tudo?
− Sim . Eu estava m uito confusa, precisava de um tem po para refletir m elhor. E
nesse tem po que fiquei longe de Marcos, conheci você. Tudo bem , ficam os j untos por um tem po, só isso, não houve nada sério entre nós. Foi um a boa curtida, a nossa.
− Curtida? Não estou te reconhecendo, Daniella, e nem esse seu linguaj ar.
Você até aceitou o m eu pedido de nam oro! O que está acontecendo, por favor, diga a verdade... O que está m e escondendo?
− Luciano, não com plique ainda m ais essa situação constrangedora. Ao ficar
com você, eu estava confusa, não sabia direito o que queria da vida. Meus sentim entos estavam em baralhados. Ao seu lado, descobri o que realm ente quero para a m inha vida, e com certeza não é ficar com você para o resto de m eus dias – disse, m ordendo os lábios com força.
− Está m e dizendo que m e usou, m entiu para m im ao dizer que não am ava o Marcos? Que seus sentim entos por m im não significaram nada? – Luciano tinha os olhos m uito arregalados, com o se quisesse despertar de um pesadelo. − Fui apenas um passatem po para você?
− Sim . É que não sabia com o dizer. Estava com pena de você, pois perm iti que se apaixonasse por m im e chegasse a esse ponto. Resum indo, não quero m ais ver você. Não m ande recados pelo m eu irm ão. Agora vou em bora. Torço por você; espero que descubra alguém à sua altura – disse aos borbotões, j á virando as costas.
O coração palpitou com m ais rapidez ao ver cair aos m eus pés um a caixinha verm elha de veludo, de onde duas alianças rolaram até pararem lentam ente, um a longe da outra.
− O que significa isso, Luciano? – balbuciei.
Quando as pessoas falavam para m im que a dor do rom pim ento de um am or é m uito forte, não acreditava. Mas, é incrível: senti com o se o m eu coração estivesse sendo partido ao m eio.
− Era essa a surpresa que eu estava preparando para você: te pedir em casam ento. Diante do fato consum ado, ou sej a, um a vez casados, ninguém poderia im pedir nossa relação – Luciano explicou, com tom am argurado, enquanto se dirigia para recolher as alianças, largadas no chão. − Até um plano de fuga eu bolei para que nossas vidas pudessem ser apenas felicidade, longe deste m undo de inj ustiças.
Estava sem ação, m inha voz não saía. Olhava para as alianças, pouco a pouco sendo m olhadas pelas águas do rio Sono até se lam buzarem de lam a. Só pisquei quando vi que Luciano as pegou, guardando-as de novo na caixa de veludo.
− Foi apenas um a ilusão de um a garota que não sabia o que desej ava exatam ente – continuei a farsa, sem m e virar para ele. − Ainda bem que tive coragem de te falar a verdade, Luciano, antes que você se envolvesse m ais por m im .
− Envolver mais? – Luciano quase cuspiu essas palavras diante de m eu rosto. Eu até fechei m eus olhos. − Eu am o você!
− Mas eu não am o você. Apenas m e atraiu fisicam ente. Para que você não
tenha prej uízo, m ande lim par essas alianças e devolva para a j oalheria. Se tiver sorte, eles aceitarão de volta e o seu dinheiro será recuperado.
Eu nem acreditava que era capaz de falar palavras tão frias e calculistas,
desprovidas de sentido diante do buraco que se form ava dentro de nossos corações. Fui em bora deixando para trás o hom em que am ava. Quando j á estava longe, olhei-o m ais um as duas a três vezes. A últim a im agem que registrei na m ente foi a de um Luciano desam parado, com as m ãos sob a cabeça e aj oelhado. Chorava igual a um a criança perdida da m ãe.