Sonho Azul: A luta pelos inocentes
Capítulo VII
A queda do im pério
Até hoj e não saberia dizer o que se passou na cabeça de m eu pai. Será que ele tinha total convicção de que o assassinato dos fiscais ficaria im pune? O poder que detinha na cidade talvez o fizesse agir e pensar dessa form a.
No dia seguinte, após a festa de m eu noivado, os repórteres da capital não paravam de ligar para a m ansão, querendo gravar entrevistas com papai para esclarecer as suspeitas de assassinato e a denúncia do trabalho infantil. O m eu nervosism o durante o noivado não m e fizera perceber que o tem a chegara a render m exericos e um disse m e disse entre os convidados.
César chegou a m e confidenciar que havia policiais federais à paisana andando pelas ruas de Pedro Afonso, com obj etivo de captar provas contra nosso pai.
Ninguém entrava nas terras de papai. O aum ento do contingente de guardas após nossa invasão apenas revelava a sua preocupação em evitar que alguém conseguisse provas contra ele. Era frequente ouvirm os dele a seguinte frase: “Não construí prédio de areia, m as o preço da j ustiça está no canhoto de m eu cheque”.
Até m esm o das denúncias, Coronel Jorge conseguiu segurar por certo tem po. Claro, ele com prava cotas de publicidade de valores acim a do m ercado em certos m eios de com unicação da cidade e da região, para evitar críticas à sua pessoa. Estratégia essa que sem pre funcionou. Sua arrogância o deixou m íope para a possibilidade de, um dia, a m ídia nacional cobrir algum a reportagem a seu respeito. Sua visão sem pre fora m ais no m icrocosm o regional de Pedro Afonso, nunca se preocupou em com prar cotas de propaganda dessas redes de televisão, rádio e j ornal de grande circulação nacional. Isso seria im possível.
Com a Polícia Federal no com ando das investigações, o sofrim ento das crianças aprisionadas e transform adas em escravas prom etia estar chegando ao fim . Som ente assim , aquela desum anidade acabaria.
Literalm ente um tiro no pé, foi o que m eu pai com eteu ao com andar o
assassinato dos fiscais. O crim e teve repercussão nacional, ultrapassando as fronteiras de Pedro Afonso. Até m esm o os m eios de com unicação internacional deram destaque ao fato, em suas program ações. Pedro Afonso tornou-se o centro da m ídia m undial.
A em issora que contratara Adelaide para produzir e veicular um a reportagem
especial, divulgando com exclusividade todos os detalhes que levaram à libertação das crianças, estava com um a equipe com pleta acam pada em um a van, em frente à fazenda de papai.
Meu irm ão e eu andávam os apreensivos com o destino de nosso pai. Havia dias
que não voltava para a m ansão. Estava foragido, m as não sabíam os onde e nem quem sabia de seu paradeiro. Talvez apenas Marcos, seu braço direito; nem à m am ãe deveria ter com unicado nada.
Os negócios estavam em queda: cancelam entos de pedidos vinham de todos os
lados. A j ustificativa era baseada na ética e na m oral. Ninguém m ais queria ter seu nom e associado ao de um crim inoso sem escrúpulo, ao com prar de um fornecedor que supostam ente usava crianças com o trabalhadores.
Eu m e sentia culpada. Tinha o coração apertado, pois era a causadora de tudo
aquilo. César tentava m e acalm ar, afirm ando que nosso pai tivera todo o tem po do m undo para contornar o grave erro, m as se j ulgara acim a da lei, ao supor que nunca seria perseguido pela polícia e pela im prensa. Deu no que deu.
Segundo a reportagem , que teve enorm e im pacto não só na pacata Pedro
Afonso, m as no país todo, por m eio de um funcionário da Polícia Federal, papai tentou com prar o chefe da Polícia Federal da capital, sem êxito. Consequentem ente, esse funcionário foi preso e a j ustiça ainda decretou a prisão preventiva de papai com o argum ento de que, com a sua liberdade, as investigações estavam sendo obstruídas. Mas Coronel Jorge resistiu à ordem de prisão, fugindo.
A em issora conseguiu im agens exclusivas da invasão nas terras de papai. O
poder Judiciário autorizou a Polícia Federal a revistar cada m etro quadrado da indústria e a plantação de laranj a. Na calada da noite, sem que ninguém suspeitasse de nada, houve a invasão. As im agens diziam tudo: parecia que se deflagrava um a guerra entre duas gangues rivais, com troca de tiros entre os integrantes da polícia e os capangas de papai. Ao fundo, dava para se ouvir os gritos de desespero das crianças dentro daquele galpão noj ento.
“Por sorte, nenhuma criança foi atingida pelo tiroteio. A Polícia Federal adentrou o local onde as crianças passavam a noite, um lugar sujo, sem estrutura para as necessidades fisiológicas. Constatou-se a existência de apenas um fosso para as trinta e duas crianças”, dizia Adelaide, triunfante em sua reportagem do ano. “A aparência de desnutrição delas era evidente, causando indignação até em policiais, que contam com anos de experiência, cobrindo os casos mais escabrosos. A alimentação era realizada somente duas vezes ao dia, em pratos antigos de alumínio”, continuava a repórter, sem conseguir ocultar o seu horror e m anter a neutralidade que se exige de um profissional da im prensa.
O chefe da Polícia Federal, em entrevista na televisão, afirm ou que nunca houvera intervenção porque as autoridades da cidade eram facilm ente m anipuladas pelo em presário:
− Dessa form a, ninguém do Ministério do Trabalho da capital de Palm as tinha conhecim ento desse ato m onstruoso. Entretanto, na sem ana passada, houve um a denúncia feita por um casal na nossa sede na capital. Mandam os a Pedro Afonso dois fiscais que, infelizm ente, foram executados. Hoj e, estam os aqui para resgatar esses pobres anj inhos do inferno.
− Em que condições elas foram encontradas, Dr. Albuquerque? Quantas horas por dia trabalhavam ? – indagava Adelaide.
− As crianças trabalhavam no regim e de nove horas por dia, em época de grandes colheitas. A m aioria é do sexo m asculino, o que é com preensível, visto que m eninos costum am ser m ais resistentes, m as há tam bém algum as m eninas. Ainda estam os apurando a idade exata, m as pelo que percebi, o m ais velho tem de 11 a 12 anos. Com aj uda do Conselho Tutelar da capital querem os saber se tam bém acontecia exploração sexual, um a vez que, para nosso horror, constatam os a existência de um a m enina grávida, praticam ente um a pré-adolescente. Investigarem os a origem de cada um .
− O senhor acredita que eles não sej am daqui de Pedro Afonso?
− Muito difícil que sej am daqui; provavelm ente vieram de outros Estados.
Existe a possibilidade de terem sidos raptados. Ou até m esm o vendidos, ou que seus pais tenham deixado levar seus filhos, e todos os m eses recebam dinheiro. Eles devem ter tido a prom essa de que seus filhos voltariam após alguns m eses de trabalho. Claro que isso nunca aconteceu, pelo m enos não desde que essa prática passou a ocorrer, de três anos para cá. Agora a polícia de todo o Brasil está atrás do Sr. Jorge Ribeiro Mattos, que é foragido da j ustiça.
Adelaide conseguiu entrevistar um a das crianças, sem m ostrar o seu rosto.
Alexandre, o garoto de 9 anos de idade, que se encontrava protegido na casa de Oswaldo, aceitara depor. Chorava, sem conseguir conter as lágrim as, que secava com o dorso da m ão:
− Meus pais perm itiram que eu fosse levado em troca de dinheiro. Nem quero
voltar para m inha fam ília; eles vão querer m e trocar por dinheiro de novo. Não quero! Odeio m eus pais!
A câm era fechara o ângulo no rosto angustiado e sofrido do m enino. Sua
revolta era tão evidente, que a repórter ficou sem ação por alguns segundos.
− De onde você é? – perguntou, quando conseguiu se recobrar, retom ando seu
perfil investigativo.
Disse que era do sertão do Piauí, de um a m inúscula cidade cham ada São
Lourenço do Piauí. Mas a origem de um a grande m aioria era da região Sudeste, m ais especificam ente do Vale do Jequitinhonha, no Estado de Minas Gerais.
O close do operador de câm era nas m ãos do m enino fez todos em casa
chorarem . Minha m ãe, que sem pre soube de tudo e fora conivente, deveria estar com a consciência m uito pesada. Cheia de calos, a m ão da criança tinha as pontas dos dedos destacadas pelo zoom da câm era, nos quais não existiam m ais as digitais. Essas haviam sido, com o passar do tem po, consum idas pelo ácido presente na casca da laranj a. Conform e m anipulavam as frutas sem proteção ao longo dos anos, em sua grande m aioria, as crianças perderam as digitais, ou sej a, sua identificação para um futuro m elhor.
* * *
Adelaide não parava de m e agradecer pela oportunidade que lhe dera de se
firm ar com o um a grande repórter. Eu sem pre soube que ela era um a j ornalista com petente: precisava apenas do em purrão inicial. E com quantas pessoas não funciona assim ? Um padrinho por trás e seu talento fazendo o resto...
Estava sendo disputada por duas grandes em issoras de tevê e por um a revista sem anal para continuar desenvolvendo as reportagens sobre trabalho infantil.
− Dani, m inha am iga! Não tenho palavras para lhe agradecer! Agora, descobri a m inha verdadeira vocação: o j ornalism o investigativo! É o que sei fazer de m elhor e penso que é a m inha grande m issão, na vida!
− Eu sei Adelaide, eu sei. Olha só esse artigo que você escreveu; faço questão de colecionar, assim com o o farei com vários outros que vier a publicar... Estou orgulhosa de você, am iga! Você tem o dom da palavra!
O artigo em questão saíra na revista de m aior circulação nacional, sendo até m atéria de capa, sob o título: “Infância Perdida: o Fantasm a do Trabalho Escravo”. Com ecei a ler em voz alta:
Quando se fala de criança carente, a primeira imagem que se tem é a de meninos e meninas de ruas, pedindo dinheiro em semáforos para sobreviver. Quando não, o pior, menores furtando ou cheirando cola para fugir da dura realidade em que vivem. Todavia, quando mergulham nesta mesma realidade, ela se torna, talvez, ainda pior e fantasmagórica, vez que, o infante vê sua incipiente força de trabalho ser explorada abusivo e desumanamente.
Dados colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dão conta que 20% dos brasileiros já trabalham antes dos dez anos e 65,7% antes dos 15. Além disso, 7,5 milhões de brasileiros com idades entre dez e dezessete anos trabalham, representando 11,6% da mão de obra no país. Sendo que 70% dos casos recebem, em média, apenas meio salário mínimo.
Desde 1995, 145 fiscais do Ministério do Trabalho, coordenados pela Secretaria de Fiscalização do Trabalho do referido Ministério, percorrem o país de Norte a Sul para traçar um mapa do trabalho infantil. O relatório fica pronto em agosto. Até agora, estão prontos os mapas das regiões Sul, Nordeste e Centro-Oeste.
No Nordeste brasileiro, as crianças e adolescentes estão presentes em mais de 11 atividades. Destas, a colheita da cana-de-açúcar é a principal atividade onde o trabalho infantil está envolvido. Os Estados do Ceará e Pernambuco, juntamente com o Rio de Janeiro, são os recordistas na exploração de mão de obra infantil nos canaviais. Nesta atividade, as crianças cortam a cana, suportam o peso de sacos da planta e correm o risco até de sofrerem mutilação. Ademais, não trabalham menos de dez horas por dia, ficam expostos ao sol e fazem o serviço sem proteção nenhuma.
O mesmo panorama odioso se descortina nos sisais da Bahia; na cultura do fumo
em Alagoas; na colheita da uva em Pernambuco e Rio Grande do Norte; nas salinas do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte; nas cerâmicas de Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia, Pernambuco, Piauí, Sergipe e Maranhão; e nas pedreiras de Pernambuco, Alagoas, Bahia, Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí.
Na região Sul, que ao lado do Sudeste, é considerada a mais rica e
desenvolvida, a mão de obra infantil é explorada em 21 atividades. Só o Rio Grande do Sul concentra 11 dessas atividades.
As extrações de acácia e ametista no Rio Grande do Sul, pelos menores, são as
que mais chocam. As crianças lavam as pedras de ametista com produtos químicos tóxicos sem nenhuma proteção, ficam expostos à fuligem da máquina de lixar a pedra e suportam o peso do minério das minas até o local de beneficiamento. Saliente-se que, nas lixas elas podem até perder o dedo.
Outrossim, a mão de obra infantil é usada nas madeireiras de Santa Catarina e
Paraná; na produção de cerâmica no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná; nas cristaleiras de Santa Catarina; na construção civil dos centros urbanos do Paraná e Santa Catarina; na indústria moveleira e no curtume dos três estados sulistas.
Na zona urbana dos Estados do Sul, a situação se iguala ao Nordeste —
escritórios, comércios e supermercados.
No Centro-Oeste a exploração da força de trabalho infantil é deprimente. Em
Goiás, os adolescentes trabalham duro em jornadas diárias que não duram menos que 10 horas na colheita do algodão, do tomate e do alho. Todavia, o que mais impressiona são as olarias e cerâmicas, onde as crianças começam a trabalhar às quatro da manhã e vão até às cinco e meia da tarde. Segundo Eliana Bragança, assistente social que acompanha as pesquisas, nas pequenas e precárias fábricas de cerâmica, adolescentes menores de 14 anos chegam a empurrar carretas com mais de 150 quilos de tijolos sob um terreno irregular. E suportam o calor intenso dos fornos por horas até os tijolos ficarem prontos.
Na zona urbana de Mato Grosso, há crianças catadoras de lixo, que brincam, comem e tiram o sustento do dia, tentando separar o lixo reciclável para vender em outros lugares. Já no Mato Grosso do Sul as carvoarias batem recorde na exploração do trabalho infantil.
A Constituição Federal de 1988 dispõe que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 (quatorze) anos, salvo na condição de aprendiz (cf. art. 7º, XXXIII c/c o art. 227, §3º, I). Além do que, é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde(...) além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (cf. art. 227, caput, da CF).
A norma constitucional acima é escancaradamente desrespeitada pelos seguintes motivos: 1º- O trabalho infantil é mais barato; 2º- Serve como complemento à renda familiar, muitas vezes, inexistente; 3º- falta de Programas do Poder Público que complementem a renda familiar.
O trabalho precoce de pessoas em desenvolvimento (crianças e adolescentes) é um ácido corrosivo que estrangula as perspectivas de aperfeiçoamento cultural e até mesmo físico desses entes. A sociedade e o Estado precisam despertar imediatamente para esta problemática que desafia, inclusive, o ordenamento jurídico pátrio.
O povo brasileiro precisa ver na criança e adolescente menos um caso de polícia, punição ou privação de liberdade e mais um caso de educação, ajuda e apoio. Precisa, também, desvencilhar-se dessa mentalidade arcaica e amoldar-se aos salutares princípios do Estatuto da Criança e Adolescência. Constata-se, facilmente, que a dificuldade não reside no compreender as ideias novas, mas no abandonar as antigas.
Nessa perspectiva, o Programa Bolsa-Familiar — que consiste em pagar determinado montante à família que tenha seus filhos matriculados na escola pública e com determinada frequência (implantado em algumas cidades brasileiras: Brasília, Boa Vista) — atende à necessidade de manter a criança na escola e complementar a renda familiar. Além do que, extingue o malfazejo trabalho infantil, tão prejudicial ao futuro do país e de nossas crianças. Desse modo, a própria família tem o máximo interesse em que a criança permaneça na escola.
N.E (1): pag. 141
* * *
A notícia caiu igual a um a bom ba na cidade. Meu irm ão parou de sair às ruas
porque alguns m oradores passaram a cobrá-lo, j ulgá-lo e até a lançar palavras ofensivas contra ele. Éram os tão vítim as quanto aquelas crianças.
Da j anela de m eu quarto, a visão que tinha abaixo de m im era de um m ar de
repórteres que se apinhavam em frente à m ansão para cobrir o caso “Exploração Infantil nos Laranj ais do Coronel Jorge Ribeiro Mattos”. Houve uns dois que, m ais proativos, ousaram tocar a cam painha de casa com o obj etivo de obter com exclusividade algum depoim ento da fam ília. Naturalm ente, a criadagem foi instruída a não atender a esses j ornalistas.
Três dias após aquela prim eira reportagem , era veiculada com estardalhaço
pelas em issoras de tevê a notícia de que a fábrica de sucos Mattos seria m ultada em m ilhões de reais. Segundo o furo j ornalístico, papai havia sido capturado e preso na cidade de Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo.
“O Coronel Jorge Ribeiro Mattos estava escondido na casa de amigos, os quais
também responderão a processo criminal por abrigarem um foragido da justiça”, relatava o repórter, ao vivo de Ribeirão Preto. “As crianças escravizadas pelo empresário encontram-se sobre proteção da justiça e serão acompanhadas pelo Ministério Público do Trabalho e o Conselho Tutelar”.
Para nosso espanto, entidades internacionais de grande representação em
vários países m anifestaram repúdio contra nosso pai por ter sustentado o trabalho infantil, com o a Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unesco, Unicef e até a ONU.
No m esm o dia, outra reportagem divulgava um a nota oficial do Governo
Federal, que, por m eio de seu porta-voz, m anifestou-se sobre o caso:
“Este recente e vergonhoso episódio, com repercussão internacional negativa,
suja o nome do Brasil no exterior. O Poder Executivo combate o trabalho infantil com unhas e dentes. Mas para que seja combatido de verdade é necessária a denúncia. Sem ela nenhuma autoridade tem condições de excluir do mapa o trabalho de crianças e adolescentes. A ouvidoria que o Ministério do Trabalho e Emprego mantém é para esses casos, quando a comunidade não tem como realizar a denúncia na cidade onde ocorrem os fatos. Todos os povos do planeta devem lutar para extinguir tal brutalidade contra nossas crianças”
A entrevista coletiva concedida pelo porta-voz, direto de Brasília, ganhou tam bém as páginas dos j ornais m undiais.
Minha m ãe estava arrasada. Apesar de tudo, am ava nosso pai e queria estar ao seu lado. César e eu tam bém estávam os m uito tristes. Não im aginávam os que o caso ganharia tam anha dim ensão e nem queríam os que term inasse daquela m aneira, com papai atrás das grades.
Eu procurava m inim izar m eu sentim ento de culpa ao refletir nas crianças salvas, e que, com o apoio da m ídia, outros casos iguais a esse poderiam ser denunciados. Tinha esperanças de que com esse esfregão que a vida estava lhe dando, papai repensaria seu m odo de pensar, seu com portam ento e a form a de agir. Quem sabe não ficaria até m ais hum ilde, m enos arrogante?
Minha m ãe sem pre ia visitar papai na cadeia. O recado desencoraj ador que ele m andava era para que m eu irm ão e eu não aparecêssem os por lá.
* * *
Em reunião m arcada às pressas, os acionistas da “Sucos Mattos” negaram ter conhecim ento do trabalho infantil. Solicitaram urgente um novo com ando para a direção dos negócios e César, por sua conhecida idoneidade e form ação, foi convidado. Bem que Marcos quis assum ir o controle, por se considerar a par de toda a estrutura dos negócios, m as ninguém confiava nele. Não sabiam até que ponto era cúm plice de papai ou continuaria a ser pau m andado dele. Mesm o com ordens expressas do Coronel Jorge de que queria Marcos assum indo a cadeira da presidência, pois era nele que confiava, não foi atendido. Quando esclarecem os aos acionistas que Marcos estava a par do caso das crianças, então, sua entrada na em presa foi barrada.
A situação da em presa ia de m al a pior, com as vendas caindo dia após dia. A im agem do fabricante estava totalm ente destruída perante a sociedade. Havia, ainda, um a m ulta estratosférica para pagar ao governo. O que m ais podia acontecer? Era um elefante branco: tantos funcionários dentro da fábrica que não podiam perder seus em pregos. E tínham os de recom eçar quase do zero, degrau a degrau, reposicionando a m arca e conquistando novam ente a confiança do consum idor.
Meu irm ão dem onstrou ser um bom adm inistrador, com a aj uda dos acionistas
que tam bém arregaçaram as m angas e colocaram a m ão na m assa para evitar a falência da indústria. Precisando de um assistente, resolveu dar oportunidade a Luciano, em bora ele não tivesse experiência adm inistrativa anterior.
− Eu tenho certeza de que o Luciano vai deslanchar, m ana – m e confidenciou.
– Ele tem garra e é m uito disciplinado. Além do m ais, você sabe que faço o m aior gosto em que se torne m eu cunhado... – finalizou, piscando o olho para m im .
Meses se passaram e, com m uito esforço, as vendas internas voltaram ao
patam ar anterior à exposição negativa na m ídia. A recuperação estava longe de se firm ar. Tínham os m uita coisa pela frente. O m ercado externo praticam ente riscara nosso nom e da lista de boas em presas am igas da criança. Essa barreira seria um a odisseia longa a ser percorrida.
Eu, que nunca pensara em m e envolver nos negócios de papai, m e senti
com pelida a aj udar César em seu grande desafio. O peso da responsabilidade era dem ais sobre seus om bros, até então acostum ados só a puxar ferro na academ ia – não obstante sua sólida form ação acadêm ica, num a das m elhores faculdades de adm inistração do Brasil. Passei a trabalhar em um a sala ao lado de Luciano. O contato do dia a dia nos aproxim ou ainda m ais. No início, apenas com o bons am igos. Não tinha cabeça para m ais nada, a não ser m e ocupar com a recuperação da em presa. Mas foi um a transição natural passarm os a nam orar.
Com papai na prisão, Marcos, alij ado de sua posição na em presa e tam bém de
m inha vida, ficou furioso ao saber que eu estava nam orando Luciano. Bem que tentou intim idá-lo, ao encontrá-lo no m eio da rua, m as em vão. Mais tarde, em seus braços, Luciano m e relataria que dissera a ele de m aneira firm e, revidando a m ão pesada de Marcos, que acabou dando um soco no ar:
“Você não conseguirá j am ais se interpor entre m im e a Daniella... Sabe por
quê? Porque o poder do am or é m aior do que o da coação. Mesm o você e o Coronel Jorge tentando, não conseguiram destruir os sentim entos que nos ligam .”
Observou-se um a m elhora no clim a do am biente de trabalho, com um a
adm inistração m ais dinâm ica, preocupada com o bem -estar dos funcionários e sua qualificação. Era um a estratégia que funcionava nas em presas m ais m odernas, e sabíam os que só poderia dar certo: houve um aum ento na produtividade sem a contratação de m ais colaboradores. Com funcionários felizes, quem ganhava era a em presa. Dito e feito!
Mam ãe continuava a visitar papai com frequência na prisão. Às vezes, ele a recebia; outras vezes não. Ela voltava entristecida dessas visitas, contando que a raiva do nosso pai era voltada contra o César e m im . Para ele, éram os os causadores de sua decadência. Mas ele não chegava a nos am eaçar ou m anifestar desej o de um a vingança real contra nós, dizia. Mas vindo do Coronel Jorge, tudo era possível.
Quem ele recebia sem pre era o Marcos e o advogado. Com certeza, elaboravam algum artifício que poderia constar na lei para beneficiá-lo.
* * *
E com relação às crianças libertadas da fazenda? Várias retornaram às suas fam ílias de origem e, provavelm ente, à antiga condição m iserável. Ninguém poderia garantir que o ciclo não se repetiria, talvez com pequenas variações. Outras, m ais afortunadas (dependendo da ótica, naturalm ente), não quiseram m ais ver seus pais, pois a m ágoa contra os m esm os era profunda; ou não foi possível estabalecer o contato com os m esm os, e acabaram sendo adotadas por outras fam ílias.
Quanto ao pequeno Alexandre, após ser entrevistado por algum as em issoras de tevê, e devido à sua vivacidade, em que declarou de m aneira cândida, m as firm e que não queria retornar à casa de seus pais, pois não queria ser vendido m ais um a vez, quando as coisas apertassem de novo; e que tudo o que m ais desej ava na vida era aprender a ler para entender os gibis, arrancou risos e lágrim as de m ilhares de telespectadores.
Várias fam ílias no Brasil todo ligaram , m anifestando desej o em adotá-lo. Ele escolheu e foi escolhido por um abastado casal do Rio de Janeiro, que j á tinha um casal de filhos com idades próxim as à de Alexandre. Assim , ele ganhou um a fam ília com pleta com irm ãos e pôde, enfim , frequentar um a escola – que é direito de toda criança.
* * *
Cento e cinquenta dias. Foi esse o tem po que m eu pai perm aneceu na prisão. O j ulgam ento aconteceria não se sabe quando. Ele fora beneficiado com um habeas corpus enviado pelo seu advogado à j ustiça.
Aguardava, agora, o pronunciam ento do prom otor para saber se iria a
j ulgam ento, ou se a investigação seria encam inhada de volta para a polícia conseguir m ais provas. Tudo estava nas m ãos do prom otor.
Da cadeia, papai veio direto para a m ansão. Estávam os no hall da sala
principal aguardando sua chegada, nervosos, pois não sabíam os com o seria sua reação ao nos ver.
Cum prim entou-nos de longe com a expressão im passível, enquanto
perm anecíam os tam bém parados, sem fazer nenhum gesto para nos aproxim ar dele, abraçá-lo ou sequer dizer algum a palavra de agrado. Afinal, sabíam os que, em bora sendo nosso pai, era o culpado por tudo o que sucedera, não som ente consigo m esm o e à em presa, m as em relação a tantas vítim as inocentes. Com os om bros alquebrados, subiu para seu quarto ao lado de m am ãe.
Por ser m aj oritário, Coronel Jorge reassum iu a presidência da indústria logo no
dia seguinte, sem que os dem ais acionistas pudessem im pedir a nossa expulsão. Era lastim ável que César deixasse de acom panhar o ótim o trabalho que vinha desenvolvendo. Em seu lugar, papai reintroduziu Marcos, que ficara cinco m eses longe de m inha vida. Eu m al acreditava que aquele inferno todo se reinstalaria...
Sim , tudo parecia retornar ao que era antes da prisão de papai. Com o alguém
podia passar por um a experiência daquelas sem adquirir um m ínim o de hum ildade? Na prim eira discussão que m eu irm ão e eu tivem os com papai na m ansão, ele avançou para cim a de m im :
− É tudo culpa sua, sua ordinária! Por que não entende que quero o m elhor
para você e para nossa fam ília? Você vai voltar para o Marcos e esquecer aquele suj eito que não tem aonde cair m orto – e m e agrediu, dando socos na cabeça.
− Pai, você tem de entender que não adianta m e obrigar! Eu não am o o
Marcos, nunca am ei, e você sabe disso.
– Não am a né? E você acha que am a quem , por acaso? Aquele talzinho, que,
com o se não bastasse, o César resolveu m e afrontar oferecendo em prego para ele? Ainda bem que reassum i, antes que levassem a em presa para o buraco, fazendo filantropia para toda a cidade de Pedro Afonso.
Para m e defender, César entrou em luta corporal com papai. Am bos estavam cheios de ódio. Tentei separá-los, m as tudo o que consegui foram alguns hem atom as no rosto. César tam bém ficou bastante m achucado, pois a fúria que tom ava conta do Coronel Jorge fazia-o se esquecer de que era contra seu filho que investia.
Desesperada, eu gritava para tentar cham á-los à razão:
− Pare César! Pare papai! Meu Deus, vocês vão se m atar, assim ! Alguém aj ude, por favor!
Atraída pelos m eus gritos, m am ãe veio correndo do j ardim , ainda retirando a luva cheia de terra. Seu hobby era cultivar e cuidar de orquídeas, tentando ocupar um pouco o vazio de seus dias.
− O que está acontecendo aqui? Meu Deus, aonde vam os parar? Que desgraça que se abateu sobre nossa fam ília para chegarm os a esse ponto? Sebastião, Custódio!! – Nervosa, torcia as m ãos, enquanto tocava a sineta com que cham ava os serviçais.
Som ente com a chegada dos dois enorm es seguranças que faziam plantão naquele dia na m ansão, foi possível separar os dois. Mam ãe teve até de ligar para o m édico para fazer curativos, tão feia foi briga!
César espum ava de raiva, ao se dirigir a papai, am bos sentados no sofá da sala, cada um de frente para o outro, exauridos e feridos, com o dois cachorros que tivessem se engalfinhado em um a luta a dentadas.
− Tenho horror a você, Coronel Jorge! A partir de hoj e, nunca m ais em m inha vida votarei a cham á-lo de pai, aliás, coisa que você nunca foi para nós. Você será apenas o Coronel Jorge; deste m om ento em diante, papai está m orto para m im !
− Meu filho, não fale assim ! Você não sabe o que diz − m am ãe tentou colocar panos quentes na situação. – Vocês dois estão m uito exaltados. Quando se acalm arem , quero que peçam desculpas um ao outro e se abracem .
− Não, m am ãe. César está certíssim o – intervim . – Eu tam bém não consigo m e esquecer de tudo o que papai m e obrigou a fazer, contra m inha vontade. Ele não é capaz de respeitar os sentim entos alheios. Haverá um dia, talvez dem ore a chegar, m as chegará o dia em que Coronel Jorge irá m e pedir perdão por tudo o que m e infligiu – disse de m aneira profética. − E quando esse dia chegar, não o perdoarei.
As m inhas duras palavras não tiveram o poder de abalar papai, que só passava
a m ão no queixo m achucado pelo soco desferido por César.
− Adriana, você deveria ter educado m elhor seus filhos – disse, sim ulando que
bocej ava com tédio. − Falta m ais autocontrole para eles, deixam -se abalar por qualquer coisa.
César e eu nos entreolham os, assustados com a falta de reação de papai. Com o
podia ser tão frio, assim ? Ele deveria ser o que cham am de psicótico. Perm anecer naquela m ansão j unto com um hom em que nos desej ava a m orte seria burrice dem ais.
Decidida, dei um telefonem a rápido e escondido para Luciano: − Não posso falar m uito, m as as coisas se com plicaram para o nosso lado, com
o retorno de papai. Vam os com binar a nossa fuga. Sim , vam os nos encontrar no m esm o lugar, na m argem do rio Sono, daqui a duas horas.