Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Andersson Pedroso · Capítulo 4 de 12

Páginas do PDF

Sonho Azul: A luta pelos inocentes

Capítulo II

À prim eira vista

 

Acordei com o som de vozes discutindo em tom alto. Ao olhar para o relógio,

percebi que tinha passado toda a tarde dorm indo.

As vozes eram de m eu pai e m eu irm ão. Preocupada, desci rapidam ente ao

encontro deles. Ao chegar à m etade da escada, ouvi César dizendo de m aneira firm e:

− Papai, ninguém pode obrigar um a pessoa a fazer o que não quer. E no caso

de Daniella, trata-se de sua vida, de seu futuro!

- Moleque, não altere a voz com igo – retrucava m eu pai com os olhos

arregalados, talvez pelo susto de presenciar a coragem de César para enfrentá-lo.

− Eu quero que o senhor entenda, pai, que não se trata de... Entrei no m eio da discussão fazendo com que m eu irm ão interrom pesse sua

frase no m eio:

− César, por favor, não enfrente papai.

− Mana, quero apenas aj udar você!

Surpreso, papai voltou o olhar para m im , no qual li um brilho de triunfo.

Certam ente, j ulgou que eu j á m e conform ara com m eu futuro.

− Eu sei, m as papai pode prej udicar você com algum castigo. − Chega! – disse m eu pai. – César, saia agora daqui. Quero ficar sozinho com a

Daniella.

Em nenhum m om ento de sua vida o Coronel Jorge m e cham ava de filha,

apenas pelo m eu nom e. Às vezes pensava que ele tinha algum problem a de cabeça.

Quando ficam os a sós, m eu pai m e cobrou sobre a atitude que tivera com o

Marcos no m eio da praça.

− Já deveria esperar por isso! – Minha respiração ficou ofegante, as pernas chegaram a trem er. − Ele foi correndo contar tudo para o senhor...

− Sim , e quero um a explicação agora.

Fiquei olhando-o com ar cabisbaixo, buscando palavras que não vinham à m ente e m enos ainda à boca. Com o um a filha podia ficar assim nesse estado na frente do próprio pai? Eu não tinha confiança nele: em vez de cuidar de m im , ser um pai legal, preocupado com igo, apenas m e atacava e m e dirigia cobranças.

− Papai... Só quero que entenda que não é o m om ento certo para noivar. Não m e sinto segura; estou achando tudo m uito cedo, precipitado. – Acim a de tudo, estava entalado em m inha garganta, m as não encontrava coragem para dizer que não am ava o Marcos.

− Cedo coisa nenhum a! Já está decidido e pronto. Agora, vou subir para tom ar um banho. – Dizendo essas palavras de m aneira categórica, virou-m e as costas. Ainda nas escadas, segurando no corrim ão, advertiu-m e: − Peça desculpas ao Marcos por sua atitude grosseira e nunca m ais volte a m encionar sobre a recusa do noivado.

Sentei-m e no sofá enquanto ouvia os passos de papai se distanciando pelo longo corredor. Sem conseguir m e controlar, as lágrim as j orraram com força.

− O que vou fazer? – indaguei-m e, soluçando.

Um a m ão forte apertou-m e os om bros. Meu irm ão estava atrás de m im , e tentava com aquele toque m e confortar.

− Vai dar tudo certo no final, Daniella, você vai ver.

− Ah, César! Será? Olha, não estou com cabeça para nada. Hoj e, não conte com m inha presença no m utirão da m adrugada, tá? Não vou conseguir sair para levar alim entos para os m oradores de rua.

César com preendeu m inha situação e apenas disse que seria um a pena, pois a banda contratara o novo contrabaixista.

− E você acredita que quando contam os de nossa m issão de cuidar dos m endigos, na hora ele se prontificou em colaborar? – continuou. − Hoj e vai ser sua prim eira participação.

− Que bom ! Um a notícia boa. Já deu para perceber que é gente boa. Qual é o nom e dele?

− Luciano.

− Fico contente, m ano, assim ele m e substitui por essa noite – disse, enxugando

as lágrim as. – Am anhã eu volto – afirm ei, j á com um leve sorriso.

* * *

Durante o j antar, o am biente perm aneceu frio, sem ninguém conversar com

ninguém .

− Jorge, você não acha que deveríam os retirar aquela árvore da frente da

m ansão, que está enorm e, e substituir por outra? O j ardineiro disse que as raízes vão com eçar a destruir toda a calçada – m am ãe tentava puxar algum assunto desinteressante, para quebrar o gelo. − Poderíam os substituir por um a m enor, que faça m enos som bra e não oculte tanto a visão da fachada da casa.

− Você é quem sabe – respondeu m eu pai, dando de om bros. – Term inei o

j antar. Com licença, que vou m e retirar à biblioteca – ao dizer isso, j ogou o guardanapo de linho sobre a m esa e virou as costas, dirigindo-se à biblioteca, que tam bém era usada com o escritório, antes que m inha m ãe tivesse tem po sequer de perguntar se não iria esperar a sobrem esa.

Ela abaixou a cabeça, constrangida, porém continuou a j antar sem olhar para

nós. No fundo, eu sabia que m am ãe sofria pelas atitudes do coronel, m as lhe faltava coragem para fazer qualquer coisa; parecia que vivia em outro século, anterior à da liberação das m ulheres e dos direitos civis iguais, quando essas eram totalm ente subm issas aos hom ens. Com certeza, m eu pai tam bém vivia naquela época. Am bos viviam com o os casais do cafezal do interior paulista. Bem , o fato de m eu pai exigir que todos o cham assem de coronel j á revelava que o seu m undinho era daquela fase.

* * *

Antes de sair para a rua, j á m eio da m adrugada, César foi pé ante pé até o

m eu quarto para conversarm os. Ele falava baixinho, caso contrário corria o risco de acordar nossos pais.

− O que foi? – perguntei.

− Vim ver se você está bem .

− Estou m ais ou m enos.

− Tem certeza que não vai hoj e?

− Sim . A m inha cabeça parece que vai explodir de tanta dor. Vou esperar você sair, para tom ar algum com prim ido lá na cozinha.

Meu irm ão m e beij ou na testa e foi se reunir com o grupo na praça.

* * *

Logo cedo pela m anhã, tive um a surpresa. Às vezes, as surpresas são boas; outras vezes, ruins. Nesse caso, foi péssim a: Marcos acabava de chegar para tom ar o café da m anhã conosco. Aceitar ele ao m eu lado foi quase insuportável.

− Muito obrigado, Coronel Jorge, pelo convite – disse ele ao se sentar à m esa, enquanto m e dirigia o olhar. Esquivei-m e, baixando o m eu.

− Você j á é de casa, m eu filho – papai respondeu, olhando em seguida para César, m eu irm ão, coitado, que fingia nem ouvir a conversa.

− Então, Daniella, m eu am or, com relação ao vexam e que passei por sua causa lá na praça, vou esquecer tudo; j á perdoei o seu com portam ento com igo – disse-m e Marcos.

Olhei para m eu pai e percebi seu olhar vigilante, observando a resposta que daria a ele. Fiquei calada.

César resolveu se interpor:

− Marcos, m as é necessário realizar o noivado, assim , de supetão?

− César, o que é isso? – repreendeu papai. − Não interfira em nossos planos.

Com a pressão que senti vir de m eu pai, balancei a cabeça e forcei um sorriso para agradecer ao Marcos por ter m e perdoado.

Passei o café da m anhã inteiro em silêncio. Era incrível a sintonia existente entre m eu pai e o Marcos, com o se davam bem ; pareciam pai e filho, m ais do que o próprio César. Este ficou apenas ouvindo a conversa de am bos, enquanto m am ãe perm anecia com o sem pre calada.

− Bem , eu j á vou trabalhar – disse papai, levantando-se e, para surpresa de todos, dirigiu-se a Marcos: − e quero que você, Marcos, venha com igo para conhecer as instalações da fazenda e da indústria.

Fiquei boquiaberta, enquanto m eu irm ão, m ais um a vez decepcionado com o papai, não se conteve:

− Meu pai, por que o senhor nunca m e convidou para conhecer os negócios da fam ília?

− Eu sabia que você iria reclam ar, m as tenho consciência do que estou

fazendo. Pelas conversas que tenho travado com Marcos – ainda m ais agora, que vai entrar para a fam ília −, m e identifiquei com ele, o seu m odo de pensar. Sinto que ele se dará m uito bem com o estilo que adotei em alguns setores da fazenda. Estilo este que não se encaixa em você, César, pelo seu j eito de ver a vida. Por isso, nem perco o m eu tem po em levá-lo para conhecer profundam ente os m eus negócios.

Meu irm ão abaixou a cabeça. Com 22 anos, continuava a ser tratado por papai

com o um a criança a quem não se pode delegar m aiores responsabilidades. Recebi um beij o de m eu nam orado, e os dois foram em bora. No silêncio que se seguiu, m am ãe bem que tentou am enizar o clim a:

− César, sej a igual ao Marcos: inteligente, preparado para a vida e para os

negócios.

Não foi exatam ente feliz com o seu com entário, com o era de se esperar. Meu

irm ão apenas deu um a olhada para m am ãe e retirou-se da sala, dirigindo-se ao seu quarto.

− Mam ãe, por que falou dessa m aneira com o César? – perguntei irritada. − Ele tem que ser conform e seu pai desej a. Isso é para o bem de seu irm ão,

Daniella. Se m eu esposo não vê futuro em César para lhe passar a direção de tudo, tenha certeza que passará para as m ãos de Marcos. Você viu, seu pai está feliz por ter encontrado em seu futuro noivo um a pessoa responsável, em quem pode confiar daqui para frente.

Fiquei pensativa. Mam ãe m e cham ava sem parar, até que eu levei um susto. − No que está pensando?

− No absurdo que você disse. O César é o herdeiro! – afirm ei. − Sim , m as o seu pai não é burro. Você acha que ele vai deixar tudo para o

César adm inistrar errado e quebrar todo o patrim ônio que ele conquistou? Seu pai segue um determ inado estilo nos negócios, que faz a em presa crescer ano após ano; j á faz décadas que é assim .

− Não consigo entender que tipo de estilo tem essa adm inistração, que César

não possa aprender. Penso que é um a desculpa de papai para não envolvê-lo nos negócios; a verdade é que ele não acredita na capacidade de m eu irm ão.

Mam ãe fingiu que não m e ouviu. Segurou a xícara e a encheu de café, enquanto com a outra m ão pegava um pedaço de rosca. Saiu da sala bebendo o café, sem m e dar um a explicação.

Aquilo m e deixou inquieta, m as tudo estava acim a da m inha capacidade de interferir no rum o das coisas.

* * *

Pelo segundo dia consecutivo, decidi acom panhar o m eu irm ão nos ensaios da banda. Im aginei que seria m ais um dia norm al, em que ouviria a banda tocar, daria algum as risadas e j ogaria conversa fora com seus integrantes.

Mas quando o vi, na garagem transform ada em estúdio, sua presença m e invadiu todos os sentidos. Pela prim eira vez, fiquei totalm ente paralisada, sem saber exatam ente o que acontecia com igo. Meu coração disparou, acom panhado de um a falta de ar, e um frio na boca do estôm ago, fatos esses inéditos em m inha vida. A j unção de todos esses fenôm enos ao m esm o tem po m e deixou sem reação.

− Bom dia, sou o Luciano – ele se dirigiu a m im , sem saber o que m e provocava.

Ficou m e olhando, aguardando que eu esticasse o m eu braço para cum prim entá-lo, m as não consegui m over um dedo; estava paralisada.

− Mana, tudo bem ?

− Oi? – disse, olhando para o m eu irm ão.

− Bom dia, sou o Luciano – repetiu, m ostrando os dentes m uito brancos, num sorriso franco.

− Bom dia, sou a Daniella – respondi, recuperando o autocontrole, e estendendo a m ão.

Foi o aperto de m ão m ais longo de m inha vida; na verdade, foi m uito rápido, m as na hora pareceu-m e um toque definitivo, m arcante. Talvez a nossa troca de olhares tenha m e feito sentir que o aperto durou significativam ente m ais.

− Vam os ensaiar? – sugeriu Oswaldo, se aproxim ando.

− Sim , vam os lá. Não está faltando ninguém e tem os até um a pequena plateia de um – respondeu m eu irm ão, lançando-m e um olhar brincalhão.

Durante o ensaio, fiquei sentada adm irada observando Luciano tocar

contrabaixo. Eu nem conseguia disfarçar; acredito que todos ali percebiam que m eu olhar não se desviava do novo integrante, de seus cabelos m uito lisos e curtos.

Luciano, por sua vez, m esm o tendo que ficar atento aos m ovim entos de seus

dedos para tocar o instrum ento m usical, de vez em quando ainda desviava o olhar para m im , m om ento em que faíscas eram disparadas em direção um ao outro.

Na pausa para o descanso, ele se aproxim ou de m im e sentou-se ao m eu lado: − Já a conhecia por nom e, com o a filha do coronel. − Não gosto desse título de tratam ento; pode m e cham ar apenas pelo m eu

nom e.

Conversam os sobre m úsica e com o funcionava um contrabaixo, em bora no

íntim o estivesse m ais interessada nele.

− Com o foi a sua estreia na noite anterior, na entrega de alim entos aos

m oradores de rua? – indaguei. − Bem -vindo à Confraria do Bem – brinquei, para quebrar o constrangim ento que estava tom ando conta de m im .

− Foi um a experiência inédita para m im , m as m e em ocionei m uito, sabe? Analisei em sua resposta a alegria em aj udar ao próxim o, de fazer um a boa

ação aos que necessitavam de aj uda. O seu olhar brilhava ao com entar os detalhes da ação bondosa; verdadeiram ente, ele era um bom sam aritano, concluí.

Talvez esse seu com portam ento tenha m e deixado m ais encantada; não apenas

a sua beleza e m asculinidade m e conquistavam , m as, principalm ente, a bondade que sentia transparecer nele. Postura oposta ao que observava em m eu pai e em Marcos, que em nenhum m om ento dem onstravam qualquer benevolência em relação a terceiros, que não envolvesse seus próprios propósitos.

A identificação com Luciano foi im ediata, associada a um sentim ento inédito e

avassalador. Naqueles dois últim os anos, desde que iniciara o m eu nam oro com Marcos, nunca cheguei nem de perto a nutrir por ele algo tão m arcante assim ; sentim ento tal que, naquele m om ento, não fazia ideia de que iria perdurar para o resto de m inha vida.

Após o térm ino dos ensaios, Eduardo sugeriu que cham ássem os Ana, a outra integrante fem inina da Confraria e fôssem os à noite a algum a casa de shows para relaxar um pouco.

A sugestão foi aceita por unanim idade e eu, em particular, fiquei m uito feliz pela novidade, pois fazia m uito tem po que não saía para m e divertir. Mas j á antevia que m entir seria a única solução para que o Marcos não soubesse de nossos planos para aquela noite.

* * *

Antes de retornar para a m ansão, passei na casa de Ana e conversam os um pouco. Falei da proposta de Eduardo de sairm os m ais à noite até um a casa de show. Ela aceitou na hora, m as franziu a testa.

− E o Marcos vai? – perguntou.

− Não – respondi, sem j eito.

− Com o assim ?

− Ah, Ana, eu j á estou sendo forçada a ficar noiva de Marcos, por im posição de m eu pai; não sou apaixonada por ele. Pelo m enos por esta noite, não quero a sua presença por perto. Quero m e divertir e não m e sentir travada, dom inada.

À m edida que eu reclam ava do m eu relacionam ento, Ana revelava um a expressão estranha no rosto. Fiquei im aginando: “Coitada da Ana, eu a choquei, agora. E ainda a estou usando para desabafar na sua cabeça.”

− Daniella, eu penso que você tem de fazer o que m anda o seu coração – respondeu por fim , abaixando os seus olhos.

− Me falta coragem , eu acho. Não estou disposta a enfrentar papai... Quer dizer, até agora...

− Por que “até agora”, Daniella? Agora, tem m otivos?

A cautela era a m inha principal arm a, não podia im aginar algo sério com aquele rapaz que acabara de conhecer. Talvez fosse coisa da m inha im aginação, pura ilusão. Poderia acontecer algum a coisa entre nós? “É bem im provável”, suspirei.

Mudei de assunto e ratifiquei com Ana o convite para o show à noite:

− Vam os passar aqui às dez da noite. Todos irão com a van, dirigida pelo César.

Fui em bora levando com igo a dúvida se fizera bem em revelar à m inha am iga

tudo que estava sentindo em relação ao Marcos.

* * *

No final da tarde, Marcos e papai tam bém retornavam à m ansão, depois de

terem passado o dia inteiro na indústria.

− Oi, Daniella – cum prim entou-m e Marcos com um beij o m ecânico em m eu

rosto. – Com licença, que ainda tenho alguns negócios a tratar com seu pai.

− Tudo bem , fique à vontade – respondi com enfado, m al desviando o olhar da

tevê, onde passava a novela das seis.

Eles ficaram quase m eia hora trancados na biblioteca, conversando

provavelm ente sobre o prim eiro dia de m eu quase noivo na indústria.

Fiquei aguardando na sala o final da conversa entre os dois, até que eles saíram

rindo, chegando até a gargalhar. Com um brilho de excitação no olhar, dessa vez Marcos m e beij ou na testa e perguntou:

− Com o foi o seu dia, querida?

− Foi ótim o – respondi de m aneira sucinta.

− Que bom – foi papai quem respondeu de volta. − Fiquem aqui na sala

conversando. Vou para o m eu quarto tom ar banho.

Reparei que papai tinha o m esm o brilho em seus olhos. Sentei-m e ao lado de Marcos, que m e segurou as m ãos. − Daniella, estou m uito feliz por ter passado o dia inteiro ao lado do Coronel

Jorge. Descobri m uitas coisas a respeito de seus negócios, o que dem onstra a confiança depositada em m im . Sinto-m e preparado para aj udá-lo na condução do im pério Ribeiro Mattos.

Suas palavras m e incom odaram . Agitei-m e no sofá, soltando m inhas m ãos das

dele.

− Calm a, Marcos. Essa função, na verdade, pertence ao m eu irm ão. É só o

m eu pai transpor a confiança que ele tem em você para o m eu irm ão...

– Seu irm ão não tem condições de gerir certas ações dentro da corporação –

retrucou, m e cortando. − São assuntos sigilosos, de grande im portância para seu pai. Além da com plexidade dos assuntos, César não iria entender e aceitar o processo. – Com pletou, com o ego inflado: − Apenas em m im o Coronel Jorge tem total confiança para m ostrar os detalhes de sua em presa.

− Não entendo. São apenas laranj ais e a produção de sucos na indústria. O que m eu irm ão não entenderia? – perguntei.

Marcos passou a m ão em m eus cabelos reafirm ando que César não teria a m esm a capacidade de m eu pai.

− Ah! E você vai conduzir bem ?

− Pensei que não. Mas ao m e defrontar com toda a realidade, concluí que serei capaz.

− Que realidade?

− São assuntos que você não entenderia. Fique tranquila, que no final tudo dará certo. Vam os noivar e depois casar, aí tom arei conta para valer da m issão que seu pai m e destinará.

− Casar?

− Claro! Daqui a dois ou três m eses, depois de nosso noivado, vam os nos casar. Será ainda neste ano. Para que ficar adiando?

− Marcos...

Com o sem pre, para desviar do assunto e evitar confrontos, Marcos m e interrom peu dizendo que estava cansado e iria em bora para descansar, pois na m anhã seguinte voltaria ao batente.

− Vai trabalhar na indústria?

− Sim , m as não na indústria e, sim , no laranj al. O seu pai precisa de alguém de confiança na colheita das laranj as.

− Então, o problem a é a plantação de laranj as?

− Sim .

Marcos despediu-se de m im com um beij o na boca. Aquela conversa m isteriosa m e deixara assustada. Qual pai não desej aria ver o próprio filho ao seu lado tocando os negócios da fam ília? Era m uito esquisito o receio de papai que César não desse conta dos negócios, m as Marcos sim . Mais do que nunca, m e perturbei com a constatação de que Coronel Jorge era um a pessoa tão m isteriosa e im penetrável. Havia algo som brio pairando no ar.

Fiquei m e perguntando que tipo de entendim ento tácito existiria entre Marcos e

papai, que o fazia preterir m eu irm ão nos em preendim entos com erciais. Um calafrio m e gelou a espinha, ao pensar que Marcos seria capaz de se suj eitar a qualquer coisa para conquistar um a posição m elhor na vida e agradar o Coronel Jorge.

* * *

Mais tarde, naquela m esm a noite. Pé ante pé, evitando fazer qualquer ruído na

casa j á silenciosa, saí descalça, segurando m inhas sandálias de salto nas m ãos e esgueirando-m e em m eio às som bras. Tive de sair escondida da m ansão para não levantar suspeitas. Em bora m eu irm ão tivesse liberdade de sair à noite, o m esm o não se aplicava a m im . Agachei-m e no assoalho da van para os seguranças não m e verem e passam os na casa de nossos am igos, um por um , para reunir a todos.

Apresentei Ana ao Luciano.

− Estou tão anim ada, tenho certeza que esta noite será inesquecível – disse

m inha am iga sem tirar os olhos dele, j ogando os longos cabelos loiros para trás. – O que faz na vida, Luciano?

Sem j eito, Luciano respondeu que trabalhava na loj a de enfeites para festas de

aniversários e casam entos.

− E qual é a sua função?

− É... Sou entregador e faço o controle de estoque – respondeu. − Entregador, estoquista... Nossa! – exclam ou Ana, sem conseguir disfarçar

um certo ar de espanto e desdém .

Fiquei verm elha devido ao em baraço de Luciano e à falta de delicadeza de

Ana. Nunca gostei do seu estilo antipático, achando-se superior às pessoas, sem pre de nariz em pinado. Eu m e perguntava por que ela fazia parte da nossa confraria. Sem pre ficava m e indagando se tinha algum interesse especial em algum dos rapazes. Conhecendo-a havia m uitos anos, sabia com o era o seu com portam ento e aquela sua atitude, em bora em baraçosa, não chegou propriam ente a m e espantar.

− Não ligue para a Ana; ela é desse j eito, m esm o, sem noção de realidade – cochichei baixinho para ele, dando-lhe um a piscadela cúm plice.

Ao perceber que criara um certo clim a constrangedor, Ana tentou am enizar:

− Desculpe-m e, Luciano, só quis dizer que essa função é sim ples dem ais, sem grande destaque; e você, com certeza, tem talento para ser m uito m ais do que desem penha.

− Ana, por favor! – disse Oswaldo.

− Tudo bem , não tem im portância – disse Luciano.

Por que tive a im pressão de que a Ana, enquanto falava, m e olhava de um j eito diferente, com o se estivesse aprontando algum a coisa contra m im ?

− Saím os para nos divertir, não ficar brigando – apartou Eduardo. − O Luciano vai pensar o quê? É a prim eira vez que sai com a gente.

Meu irm ão, para acalm ar os ânim os, ligou o som do carro em um a m úsica bem dançante, e seguim os em direção à casa de shows na cidade vizinha de Bom Jesus de Tocantins. Esse era o único recurso para que ninguém nos reconhecesse. Só de im aginar alguém m e ver em um local de shows sem o Marcos, seria um inferno em m inha vida.

A casa de shows era linda, com um a enorm e pista de dança, com luzes saindo por baixo do chão. Conform e as pessoas pisavam no piso, que era de vidro ou de algum m aterial translúcido, as luzes acendiam , cada um a em um a cor diferente.

Sentam o-nos no setor VIP ; a princípio, todos pareciam m eio travados. As várias m esas estavam enfeitadas com cestos cheios de frutas variadas. O clim a estava perfeito, apesar de o Luciano ter se sentado um pouco longe de m im , o que não nos im pediu de conversar. Com o entrada, foram servidas frutas e torradinhas com patês. Aproveitam os para beber um pouco.

O som tom ava conta do am biente, a bebida aj udou a relaxar e quebrar o gelo, as m úsicas dançantes com eçaram a em polgar e contagiar toda a turm a, até que Oswaldo teve a iniciativa de cham ar a todos para dançarem na pista.

Luciano ficou parado, com o se estivesse relutante para dançar.

− Ei, não fique parado aí – dirigi-m e até ele, segurando em sua m ão. − Venha dançar; não vam os desperdiçar a noite! − Sorrindo, conduzi-o até a pista de dança, de m ãos dadas com ele.

Meus am igos e César ficaram olhando para m im , com o que a m e lem brar que

estava errada: com prom etida com Marcos, eu nunca poderia fazer aquilo. Mas o desej o de ficar j unto com Luciano era m ais forte do que eu; nem pensava nas consequências de m eus atos.

Dançam os, trocando olhares. Por duas vezes captei o olhar de Ana sobre nós.

Não m e im portei; para m im , ela nem existia naquele m om ento.

Sem perceber, dançam os três m úsicas sem parar, até que a seleção m usical

foi interrom pida, para dar lugar a um a abertura instrum ental, que acom panharia um a m úsica ao vivo no palco.

− A canção que vou interpretar se cham a “Sonho Azul” – anunciou a vocalista,

dirigindo-se a todos. Mas senti que a m úsica era dirigida especialm ente para Luciano e a m im . − Trata-se de um a linda canção rom ântica, que toca diretam ente aos corações apaixonados – concluiu o vocalista.

Fiquei m uito nervosa. Todo m undo com eçou a arranj ar o seu par e a dançar

coladinho. Luciano segurou em m inhas m ãos, colocando-as por trás de sua nuca e, em seguida, cingiu com firm eza a m inha cintura. Com nossos rostos colados, em que era possível sentir a respiração quase em suspenso e o hálito um do outro, dançam os ao som da linda canção.

− Está sendo um a noite surpreendente – disse Luciano. − Quero dizer que estou m uito confusa e, ao m esm o tem po, feliz – confessei. − Eu tam bém estou m uito feliz, Daniella, m as confuso não. Sei m uito bem o

que eu quero. Vam os aproveitar bem esta noite, aproveitar este m om ento m ágico.

Senti seu coração disparado, com sua respiração ofegante. Não sabia

exatam ente o que acontecia com igo, nunca tinha sentido algo tão m arcante.

Um turbilhão de pensam entos desencontrados cruzou m inha m ente: o que era

aquele sentim ento que m e dom inava, m e fazendo esquecer tudo o que não fossem aqueles m om entos?

Após o térm ino da m úsica “Sonho Azul”, com eçaram a tocar ritm os m ais de

boate. Continuam os um bom tem po dançando, até que em um determ inado m om ento aconteceu o prim eiro beij o. O beij o de Luciano era perfeito, nossos lábios se encaixaram perfeitam ente, com o se tivessem sido feitos uns para os outros.

− Vam os sair da pista e voltar à área VIP? – sussurrou Luciano perto de m eu ouvido.

Concordei, e voltam os à m esa de m ãos dadas. Ficam os conversando sobre um pouco de tudo, bebendo e petiscando algum as coisas que eram servidas.

− Luciano... Eu acho que isso que acabam os de fazer foi um erro gravíssim o... − com ecei a dizer, buscando coragem .

− Você quer dizer o quê: o beij o?

− Sim , nos beij am os na frente de todo m undo. Estou com prom etida com Marcos, com quem vou ficar noiva em breve. Não é o m eu estilo trair, m esm o que não sej a o hom em da m inha vida.

− Você não o am a? – perguntou incrédulo.

− Nunca o am ei, m as essa história é longa, não quero falar sobre esse assunto. Quero apenas que entenda que algo a m ais entre nós será im possível. Não quero enfrentar m eu pai.

− Eu j á sabia que você não iria m e querer – disse, abaixando a cabeça. − Claro, que pretensão a m inha im aginar ser possível um entregador de enfeites e estoquista ter algum relacionam ento com a filha do coronel!

− Não! Pare com isso! – Suas palavras m e cortaram o coração. − Eu não gosto desse tipo de tratam ento, sou a Daniella e pronto.

Acariciei seu rosto e disse que nada do que ele falara era verdade.

− Nós acabam os de ficar j untos e nem por um instante pensei em seu cargo ou em m inha posição na sociedade. Estou gostando de você, pelo que é, pelo seu interesse em aj udar as pessoas. Eu preciso de alguém com os m esm os princípios que os m eus. Am ar e ser am ada, é isso o que m e im porta. Ser am ada e não usada com o um m eio para alcançar um determ inado obj etivo, pois é assim que o Marcos m e trata.

Seus olhos brilhavam ; talvez ele visse os m eus olhos brilharem tam bém . Meu Deus! Estava apaixonada por Luciano.

− Mas tem m ais coisas envolvidas, Luciano. Não quero que você sofra; tentar enfrentar o m eu pai é querer m orrer. – Respirei fundo e pedi: − Vam os m udar de assunto, pois esta conversa está m e deixando triste.

Perguntei se ele estava gostando dos integrantes da banda e se fora bem

recebido.

− Sim , estou m uito feliz. Minha vida m udou radicalm ente. Ser aceito em um a

banda era o m eu obj etivo, conquistado. E pensar que, em algum as sem anas, irem os fazer nossa prim eira apresentação, nem acredito! Vou ter de ensaiar bastante, m as j á estou dom inando o repertório.

− Bem , vocês precisam criar um nom e para a banda, ou vai continuar se

cham ando som ente “A Banda”?

Luciano caiu na risada, e percebi que aquele sorriso franco m e fascinava. − Pode deixar. Vam os nos reunir e, com sugestões, criarem os um nom e bem

criativo.

− Legal! De quem você é fã? – perguntei.

− Sinceram ente?

− Sim .

− Bee Gees – respondeu Luciano. − Que coincidência: tam bém sou. As m úsicas deles são perfeitas. Eu adoro a

canção “How Deep is Your Love?” e “For Whom the Bell Tolls?”.

Quando olhei para o lado e observei a pista de dança, não acreditei no que

estava vendo.

− Ele é louco? – indagou Luciano.

Nós dois caím os na gargalhada, ao ver Oswaldo dançando em um a roda

form ada por todos que estavam na pista, e com eçam os a aplaudir, no ritm o da m úsica.

A casa de show inteira parou para assistir à perform ance de nosso am igo.

Quando ele saía, entrava outro e ficava dançando na roda, e isso acontecia sucessivam ente, até que a em polgação foi tão grande, que todos na pista passaram a executar a m esm a coreografia e no m esm o ritm o, com o se j á tivessem ensaiado antes.

A apresentação-surpresa aconteceu, sem que ninguém esperasse. Luciano e eu

ficam os de cam arote apreciando os j ovens dançarem com o profissionais. Estava sendo um a noite m ágica!

Sentia-m e tão feliz, que parecia estar dentro de um sonho. Queria aproveitar ao m áxim o a com panhia de Luciano naquela noite.

Ele pediu licença para ir ao banheiro. Ana aproxim ou-se de m im nesse m om ento, sentando-se em um a das cadeiras.

− Está feliz ao lado de Luciano? – perguntou-m e com um sorriso enigm ático no canto dos lábios.

− Não quero falar sobre esse assunto.

− Eu sei disso, a questão é que o Marcos não m erece ser traído.

− Ana, por favor? Já falei: não quero tocar nesse assunto.

− Luciano é bonitão, pena que você não poderá ter m ais nada com ele. É apenas um a ilusão, um a aventura, pois am anhã você voltará para os braços de Marcos.

Para não ficar irritada e estragar a m inha noite, levantei-m e para sair de perto de Ana.

− Espere, Daniella – disse, segurando no m eu braço. − Calm a, tam bém não é para tanto.

− Você está m e irritando.

− Pode ficar aqui aguardando o Luciano, voltarei para a pista de dança.

Após ela sair de perto de m im , sentei-m e com a expressão anuviada. Poucos m inutos depois, Luciano retornou perguntando se eu desej ava dançar.

− Não. Vam os ficar aqui m esm o, Luciano.

Então, ele arrastou sua cadeira e ficou sentado perto de m im .

− Vou esperar o tem po que for necessário para a sua decisão, Daniella – anunciou.

− Com o assim ?

− Você decidir se quer dar um a chance para m im .

Fiquei atordoada. Toquei em seus lábios dizendo que não era tão fácil assim . Ao desviar o m eu olhar dele, observei, na entrada da área VIP, Marcos seguindo em nossa direção.

− Meu Deus! Não pode ser! Luciano, o m eu nam orado está aqui. Com o ele

descobriu?

Marcos, com sua estupidez, chegou furioso. Sem pronunciar um a palavra

sequer, segurou em m eu braço puxando-m e para o seu lado.

− Largue-a – avisou Luciano.

− Quem é este panaca? – perguntou com desdém . E virando-se para m im ,

falou em voz alta: − Você não presta, Daniella!

Todos em volta ouviram suas am eaças:

− Você vai se arrepender, pois ninguém m e faz de tolo! De um a hora para outra, o que prom etia ser um a noite m aravilhosa, um conto

de fadas, encerrava-se com o um pesadelo, em que tudo desm oronava em m inha cabeça. Nunca senti m inha vida tão difícil com o naquele m om ento. Eu vivia um a ilusória vida de tranquilidade.

Luciano ficou na frente de Marcos para im pedir que ele m e levasse em bora. − Você não vai com ela para lugar nenhum .

− Ela é m inha nam orada, essa vadia vai com igo, sim – disse Marcos. As palavras duras de m eu nam orado m exeram de tal m aneira com Luciano

que, sem pensar duas vezes, agrediu Marcos com um soco no rosto.

Marcos revidou no ato, agredindo-o da m esm a form a. O seu golpe fez com

que Luciano caísse no chão.

Com toda aquela confusão, form ou-se um a roda de curiosos para ver a briga.

Meu irm ão interveio:

− Daniella, é m elhor para todos que você vá em bora com o Marcos. Depois,

nós conversam os.

− César, eu não esperava isso de sua irm ã – disse Marcos com a voz

estranham ente calm a. − Eu não tenho vocação para chifrudo.

Ana, num canto, só m ordia os lábios, lívida, olhando ora para Marcos, ora para

Luciano, que perm anecia no chão.

Marcos m e agarrou pelo braço, e fom os em bora. Olhei para trás, ainda a

tem po de ver Luciano sendo aj udado por César a se levantar.

Na frente de m eu irm ão, m eu nam orado disfarçou bem sua fúria, m as logo que saím os do prédio, m udou seu com portam ento de form a drástica, desferindo tapas em m inha cabeça, Eu tentava fugir, m as ele continuava segurando firm e m eu braço.

− Você m erece levar um a surra!

Com m uita brutalidade, fui j ogada para dentro do carro, e saím os em alta velocidade.

Durante o traj eto, Marcos acelerava o carro, em parte para descarregar a sua raiva e em parte para m e intim idar. Fazia as curvas fechadíssim as, sem reduzir a velocidade, m e arrem essando ao seu encontro. Fui agredida verbalm ente e com tapas na cara. O desespero tom ava conta de m im .

− Pare com isso, Marcos, você está louco!

Cada vez que pedia, m ais ele aum entava a força nos tapas.

− Fique tranquila, que não vou deixar m arcas em seu corpo para não ter problem as com o César.

Não havia nenhum a preocupação com o que m eu pai acharia, talvez achasse que o Coronel Jorge concordaria com sua atitude. Não agira certo em beij ar outro hom em em público, por ser com prom issada com ele, m as o que estava fazendo com igo era um a tortura.

Subitam ente, ele puxou m inha blusa para baixo, deixando m eus seios à m ostra. Hum ilhada, eu gritava pedindo para que se controlasse.

− Não vá m e dizer que está envergonhada, sua vagabunda! Im agino quantos hom ens j á devem ter alisado seus seios. E pensar que eu só não fiz isso antes por respeito, achando que você fosse pura... E nem virgem você deve ser!

Aj eitei m inha blusa e fiquei encolhida, encostada na porta do veículo, chorando.

− Se você pensa que por causa desse episódio desistirei de você, vá tirando o cavalinho da chuva. Nosso noivado continua de pé, e vam os nos casar ainda neste ano. Quando chegarm os à m ansão, vou fazer questão de acordar seu pai e m ostrar a filha que ele tem . Tenho total tranquilidade de que ele concordará com igo.

Som ente ele falava dentro do carro, descarregando toda sua ira, enquanto eu perm anecia calada, só ouvindo.

− E quanto ao César – continuou −, terá o que m erece; m as quem irá castigá-lo

será o Coronel Jorge.

Desde que fui apresentada ao Marcos, sem pre notei o respeito que ele tinha

pelo César – ou seria talvez m edo? −, pois m eu irm ão conseguiria enfrentá-lo e bater nele, e para m e defender, seria capaz de tudo. Marcos era m uito esperto; na frente de m eu irm ão fingia ser um bom hom em .

− Agora, aquele suj eito, não: deixe ele com igo. Am anhã, vou m e inform ar

sobre ele, quem é e onde trabalha, tudo nos detalhes.

− Não quero que faça nada contra ele. Deixe-o em paz. − Já está defendendo ele? Aguarde-m e, dona Daniella, vou acabar com esse

desgraçado. Atreveu-se a tocar em você, a m inha futura m ulher; então, m erece apanhar até m orrer.

Suas palavras, carregadas de ódio, m e fizeram estrem ecer. Estava com m edo

de Marcos. Sabia que tinha coragem de fazer tudo aquilo; até onde exatam ente ele seria capaz de chegar?

Naquele m om ento, arrependia-m e tanto por ter saído de casa; m eu irm ão e o

Luciano estavam com problem as por m inha causa. Não deveria ter aceitado o convite!

Fiquei m e indagando quem teria avisado o Marcos que eu estava na boate. A

todo instante essa pergunta m e vinha à m ente, sem parar. Teria alguém dentro da boate m e visto beij ando Luciano e ligado para o Marcos?

De repente, levei o m aior susto: na estrada escura, de terra batida em que nos

encontrávam os, ilum inada apenas pelo facho de luz do farol do autom óvel, um a criança de, no m áxim o, 7 anos de idade, corria desesperada. Mesm o com a pouca claridade, consegui distinguir que era um garoto todo suj o, com roupas rasgadas e descalço. Parecia estar fugindo de alguém .

− Pare, Marcos! – gritei. − Pare o carro para aj udarm os o m enino; deve estar

perdido.

- Não. Vam os em bora. Não tem os nada a ver com esse m oleque. Fiquei surpreendida com a sua resposta. Não im aginei que fosse capaz de tanta

insensibilidade.

− Marcos, pare este carro AGORA! Precisam os aj udar este garoto – alterei a voz com m eu nam orado. − Não há viva alm a aqui por perto!

− Você não tem m oral para gritar com igo – retrucou, sem dim inuir a velocidade.

Am eacei abrir a porta e m e j ogar para fora do veículo, chegando até a destravar a porta.

Aos poucos, Marcos foi dim inuindo a velocidade do carro e, antes de parar por com pleto, abri a porta e corri em direção à criança.

− Oi, quem é você? Venha cá, não precisa ter m edo, só querem os aj udá-lo – gritei, pedindo para que não fugisse m ais e se aproxim asse.

Ele estava tão cansado, que parou e ficou aj oelhado. Sua respiração era ofegante; avizinhei-m e dele e m e aj oelhei até a sua altura, olhos nos olhos. Seu braço sangrava.

− O que aconteceu? – perguntei.

Não houve resposta. Ele não tinha condições de falar, apenas respirava com dificuldade, enquanto lágrim as brotavam de seus olhos arregalados.

Levantei seu rosto, observando sua expressão de cansaço e, ao segurar suas m ãos, senti-as calej adas.

− Por que você está fugindo? – insisti. − Do que foge?

O pobre m enino olhou para m im ; em seguida, levantou a cabeça para o alto, os olhos ainda assustados. Suas m ãos com eçaram a trem er. Sem nenhum a explicação, saiu correndo e entrou na m ata.

− Menino, volte aqui! – cham ei desesperada.

Olhei para trás e vi o Marcos a poucos passos de m im , observando tudo. Perguntei a ele se conhecia a criança.

− Nunca o vi – respondeu.

− Não foi o que pareceu, pois assim que ele o viu, com eçou a trem er e fugiu.

− Sei lá! Deve ser algum m aluco.

− Marcos, isso está m uito estranho! Essa criança fugia de alguém ou de algum a coisa! Eu estava quase conquistando a sua confiança e fazendo falar com igo, m as de repente se assustou e fugiu. Estranho! O que pode ser?

Gritei m ais um a vez cham ando pelo m enino, m as não obtive nenhum a

resposta. Marcos segurou em m eu braço e m e em purrou para dentro do carro.

− Ele estava sangrando, pode m orrer! – protestei. Marcos deu partida no carro e nos afastam os em direção à estrada

pavim entada. Ele ficou todo o tem po em silêncio, m as percebi nele um a certa agitação, pois passava a m ão nos cabelos e franzia o cenho, form ando um sulco entre as sobrancelhas. Chegou até a se esquecer de que estava irritado com igo.

Ao chegar à m ansão, desci do carro, sem que Marcos fizesse m enção de

cum prir sua am eaça de acordar m eu pai e contar todo o ocorrido na boate. Suas únicas palavras foram :

− Am anhã conversam os. – E foi em bora cantando pneu. A angústia tom ou conta de m im , ao pensar em com o aquela criança iria

sobreviver dentro da m ata. Entrando no quarto, tirei a roupa e fui tom ar banho.

Debaixo da água, refletia: “Está fugindo de quem ? Ou do quê? Aquela criança

não é de Pedro Afonso, pois se o fosse, teria o reconhecido”.

Naquela noite, não consegui pregar os olhos, ao recordar a im agem do rostinho

dele, com o braço sangrando e olhando para m im , com o que num pedido de socorro silencioso. Eu precisava fazer algo, m as o quê?