Tieta do Agreste
Primeiro episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Por isso ou pelo resto, o importante é calar o bico.
Mais um detalhe e vou-me embora. Lembram-se da carta de Ricardo, pedindo bola de futebol, recomendando segredo à tia? Ao recordá-la, Carmosina por pouco deixa escapar a revelação: também ela escrevera a Antonieta, rememorando os dias distantes da adolescência, a antiga amizade, enviando lembranças de dona Milu que não a esquece. Além de um pedido: podia Antonieta comprar em São Paulo e lhe remeter, dizendo quanto custara, um bom, o melhor dicionário de rimas à venda nas livrarias? Não mandava comprar em Aracaju ou na Bahia, para evitar mexericos. Não tardou a receber o livro, com dedicatória: “Para a querida amiga Carmô, pálida lembrança da amiga Tieta”.
Madrugada adentro, à luz do candeeiro, na calada da noite, Carmosina escreve versos, conta sílabas, rima ressonar com Osnar, pejo com desejo.
Agora que os senhores sabem, eu os deixo novamente na agência dos Correios e Telégrafos, ou melhor, no Areópago. Até breve.
FIM DO CAPÍTULO DUAS VEZES
INTERROMPIDO. UFA!
TÃO SIMPLES A ADIVINHA, LEVARA LONGO TEMPO A
RESOLVÊ-LA pela falta de dados, a demora em reunir aquele mínimo de informações.
Desquite, uma das maiores provas de atraso do país, do subdesenvolvimento; indignada, dona Carmosina tem-se empenhado em discussões homéricas com o padre Mariano, com a professora Carlota Alves, com o dr. Caio Vilasboas — vejam só: médico formado, com diploma de faculdade e tão retrógrado! Uma pessoa amarrada à outra a vida toda, mesmo depois de legalmente separada — corpos e bens —, sem poder casar de novo! Dona Carmosina lera uma estatística sobre o número de casais em estado de concubinato — palavrão horrível! — no Brasil. Milhões. Vivendo como casados, aceitos, recebidos na sociedade, o sr. e a sra. fulano de tal, mas sem os direitos da lei. Esposa, não, concubina. Dona Carmosina encontra a solução, tão simples. Com um mínimo de pistas e o poder de dedução, chega à resposta da adivinha. Antonieta vive com o ricaço como casada mas sem o ser realmente. Admitida pela família, inclusive pelas filhas dele — referira-se mais de uma vez às enteadas e às sobrinhas do comendador —, mas impossibilitada de legitimar a união por ser ele desquitado. Conhecedora dos preconceitos de Agreste, o pai a esperá-la na escuridão, ao lado da janela aberta, de cajado em punho, a surra acordando a rua inteira, Tieta se fecha em copas, envolve marido e casamento em mistério e silêncio. Faz bem.
Certa ocasião, apareceu um fiscal de rendas em Agreste, acompanhado da mulher, senhora distinta, agradável, educada por demais, mãe de um casal de gêmeos. De começo muito bem recebidos, até que a senhora contou ingenuamente serem desquitados ela e o marido, vivendo juntos e felizes há mais de dez anos. As portas se fecharam, as caras também. Tiveram de ir embora, em Agreste casamento tem de ser com juiz e padre, senão não vale. Faz muito bem Antonieta em reservar-se, em manter sua vida conjugal distante dos linguarudos da cidade, a começar de Perpétua. Dona Carmosina gostaria de ver a tromba de Perpétua, se um dia viesse a saber. Ia engolir a língua.
Para dona Carmosina, se o casal vive bem é o que importa, sendo de somenos padre e juiz, véu e grinalda. Ela própria desistiu há muito de qualquer exigência: marido ou seja lá o que seja, solteiro, viúvo, desquitado, casado com mulher e filhos, desde que varão de olhos postos nela e disposto a ir em frente, dona Carmosina estará de acordo. Em colchão de plumas ou na beira do rio, nos matos. Se lhe fosse dado escolher, Osnar seria o felizardo. Na falta, servirá outro qualquer. Infelizmente, nem Osnar nem outro qualquer.
Esquece, porém, as decepções de amor e os problemas relacionados com a demora da carta de Antonieta, ao enxergar, vindo da feira, o comandante. Levanta-se, chega à porta, acena com o jornal. Quando ele se aproxima, ela vibra:
— Guardei para você ler. Vai lhe interessar.
O comandante Dário toma da página, dona Carmosina indica o artigo. Começa a ler para si mas o assunto sem dúvida o empolga, eleva a voz: “… as transformações políticas que marcaram a Europa ultimamente fizeram passar quase que desapercebido um importante acontecimento para os defensores do meio ambiente em todo o mundo: a condenação à prisão do presidente e quatro diretores da maior indústria química italiana, a Sociedade Montedison, acusada de poluir as águas do mar Mediterrâneo…”.
Abre-se largo sorriso no rosto do comandante:
— Esse juiz é dos meus! Italiano topetudo! — Prossegue na leitura: “…o objeto do debate: a fábrica de dióxido de titânio de Scarlino, inaugurada com entusiasmo pelos pobres moradores desta província toscana e constantemente marcada por greves e interrupções do trabalho de seus quinhentos empregados…”.
Durante a leitura, chega o vate Barbozinha, fica a ouvir. O comandante faz questão de começar de novo para o amigo não perder nenhum pormenor: na Itália aparecera por fim um juiz macho!
— Ouça com atenção este pedaço: “Um dos defensores dos acusados, o advogado Garaventa, utilizou este argumento: a diretoria da indústria sempre agiu com todas as autorizações administrativas necessárias. Qual será, no caso de uma condenação, a opinião dos cidadãos sobre a administração pública que concedeu as permissões?”.
— Bem argumentado! — atalha Barbozinha. — Os homens estavam dentro da lei, agindo de acordo com as autoridades…
— Dentro da lei, coisíssima alguma! As autoridades é que são salafrárias, em conúbio com os monstros ávidos de dinheiro. Ouça o resto: “O argumento, entretanto, não intimidou o juiz Viglietta, pertencente a uma nova geração de jovens magistrados que não se detêm ante os poderosos”. Bravos, juiz!
— Mas se os homens estavam agindo de acordo com a lei…
— Que lei? Lei foi a que o juiz aplicou, escute e não interrompa, a gente discute depois, se você quiser: “Ele se baseou numa lei italiana de 14 de julho de 1965…”. — O próprio comandante interrompeu para comentar: — Bem recente, hein! Por fim, começam a aprovar as leis que se fazem necessárias… — Retorna à leitura: — “…raramente invocada, que prevê penalidades para todos os que lançam ao mar substâncias estranhas àquelas que fazem parte da composição normal das águas naturais, que constituam perigo para os peixes e que provoquem a alteração química ou física do meio aquático”.
Prosseguiu a leitura até o fim, dona Carmosina ouvindo com renovado entusiasmo, Barbozinha distraidamente: “Com seu veredicto, o juiz Viglietta pretendeu advertir todos aqueles que tomam o mar por uma lata de lixo, ameaçando de morte o Mediterrâneo”.
— Juiz porreta! Desses estamos precisando no mundo todo, a começar por São Paulo! Seu Barbozinha, nós não nos damos conta do privilégio que é viver nesse pedaço de paraíso, criado por Deus e felizmente esquecido pelos homens! — Volta-se para dona Carmosina: — Posso guardar, Carmosina?
— Tirei a página para lhe dar…
Enquanto o comandante dobra a folha de jornal, Barbozinha interroga dona Carmosina:
— Que houve com Tieta? Ouvi dizer que desencarnou…
A pergunta recorda-lhe as revistas esquecidas por Elisa, dona Carmosina vai buscá-las, coloca-as ao lado da bolsa:
— Tomara que não, mas tudo indica que sim.
— Quem? — quer saber o comandante.
— Antonieta, Tieta, sabe quem é, não?…
— É claro que sim… Sucedeu-lhe alguma coisa?
— Pelo jeito, morreu. Não há informação, ainda.
— Vai ver, de câncer, na poluição de São Paulo. Só os milhares de automóveis a vomitar gases…
Despede-se, dona Laura o espera:
— Obrigado pelo artigo, Carmosina. Esse juiz lavou-me a alma.
Carmosina prepara-se para fechar a agência, ainda deve passar em casa de Elisa antes do jantar, a pobre está agoniada. Barbozinha, cabeça baixa, distante, concentrado, enxerga no horizonte algo invisível para dona Carmosina. Barbozinha é vidente.
Ninguém sabe — outro segredo jamais revelado, esse, nem à agente dos Correios ele o confiou — ter sido Tieta a musa inspiradora dos mais belos versos dos dois livros publicados e dos inéditos, cinco volumes inéditos, do poeta De Matos Barbosa. Antonieta Esteves, paixão devoradora, fatal. Desencarnada, num círculo astral estrela candente. Escreverá um derradeiro poema, a morte não existe, ó bem-amada, o corpo é reles envoltório, e de novo te encontrarei e serás finalmente minha pois te desejo desde há cinco mil anos quando, escravo, te reconheci princesa maia e o amor custou-me a vida; quis te libertar de um monastério na Idade Média e fui atirado ao calabouço, amarrado de correntes, preso às rochas: segui tuas pegadas nos rios do Indostão e meu corpo apodrecido boiou nas águas; te reencontrei um dia, pastora de cabras, saltando sobre as pedras.
DAS REVISTAS DE FOTONOVELAS E DAS PROVAS DE AMIZADE: CAPÍTULO
RECONFORTANTE, PREPARATÓRIO DA
GRANDE DISCUSSÃO FAMILIAR
— VOCÊ ESQUECEU DE TRAZER AS REVISTAS. — Dona
Carmosina as deposita em cima da mesa, puxa uma cadeira.
A brisa do entardecer e as cores do crepúsculo envolvem Santana do Agreste. Barbozinha costuma parodiar os versos do poeta português: Que é dos pintores desse meu país divino que não vêm pintar? Ele, De Matos Barbosa, cumpre seu dever; mais de cinqüenta poemas e sonetos dedicou à paisagem de Agreste, ao rio Real correndo para o mar, às dunas da praia de Mangue Seco, onde, em distantes férias burocráticas, declamou para Tieta ardentes versos levados pelo vento. Barbozinha deixou dona Carmosina na porta da casa, não quis entrar. Coberto de dor, mastigando um poema, dirigiu-se ao Bar dos Açores.
Elisa não sente o frescor do fim da tarde, não enxerga as nuanças de amarelo e roxo, de vermelho e azul a queimar o firmamento, quando o sol, levado pelas águas do rio, vai se perder no mar, na distante linha dos tubarões, e a lua nasce por detrás das dunas. Tempo de lua cheia. Elisa, desfeita, os olhos inchados de chorar, dona Carmosina se impressiona. Golpe terrível, não há dúvida, para ela e Astério, como equilibrar o orçamento sem a ajuda da irmã? Vão terminar nas minhas costas, adivinhara Perpétua, por ocasião de desespero anterior.
Perdida, nem sequer folheia as revistas, ela sempre ávida de saber de amores feitos e desfeitos, casamentos e desquites, brigas, festas, a vida brilhante dos astros de cinema, rádio, teatro, televisão. Revistas, Perpétua não as pagará, nem uma só. “Porcarias! Indivíduos sem temor a Deus, mulheres mostrando as vergonhas, uma indecência essas revistas. Em minha casa, não entram. Se eu fosse Astério…” Felizmente não era, assim Elisa está a par de todas as fofocas e delira com as fotonovelas.
O conhecimento de Elisa reduz-se aos artistas brasileiros; uma especialista, pode-se dizer. Não possui a visão universal de dona Carmosina, cuja erudição nesses apaixonantes assuntos não se limita às fronteiras pátrias. Não há minúcia que ela desconheça sobre os Beatles, antes, durante e depois da formação e dissolução do conjunto. Erudição, conhecimento, curiosidade, pelo simples prazer intelectual de saber e dar quinaus em Aminthas, tarado pelos Beatles e por todos os conjuntos de rock, desvairado pelo som moderno. Aminthas possui eletrola e gravador, gasta em discos e cassetes o que ganha e o que não ganha.
Dona Carmosina, coração romântico, em matéria de música prefere mesmo “Casa de caboclo” e “Luar do sertão”; isso, sim, é música com melodia e sentimento, e não essa barulheira sem pé nem cabeça dos cabeludos. Provoca a indignação de Aminthas, desmontando seus ídolos: essa tal de Yoko é horrível, e ainda tira retrato nua. Espie: a cara e a bunda são iguais.
— Vou buscar o dinheiro para pagar… — neutra, a voz de Elisa, os olhos ainda úmidos.
Passou a tarde chorando, constata dona Carmosina:
— Deixe para depois.
— Para essas, ainda tenho…
Os olhos buscam a amiga do peito, companheira de longas conversas sobre galãs e estrelas do rádio e da tv. Elisa só assistiu televisão durante os três dias passados na Bahia, quando Astério foi consultar o médico, tirar radiografias; felizmente nada grave, apenas o susto a fazê-los despender aquele dinheirão. No modesto hotel próximo à rodoviária, o luxo era o aparelho de televisão na saleta de frente, franqueado aos hóspedes. Elisa não desgrudou do vídeo, maravilha das maravilhas. Agora, nem mais as revistas. Dos olhos saltam as lágrimas, as palavras são soluços:
— Se for verdade, para o mês não posso mais comprar. Tire meu nome da lista.
— De todas cinco? — Dona Carmosina sabe a resposta mas pergunta para ter o que dizer. Como poderá Elisa viver sem as revistas de fotonovela?
— De todas…
Dona Carmosina ergue-se, magnífica, amizade se prova nessas horas:
— De todas cinco, não! Duas eu lhe garanto, pago da minha comissão. Sem nenhuma, você não fica.
Elisa se comove com o gesto mas a realidade se impõe:
— Obrigada, Carmosina, você é boa demais. Mas, nem eu aceito, nem você é rica para botar dinheiro fora…
— Tudo não passa de conjecturas. É capaz de Tieta estar mais viva do que nós duas… — Dona Carmosina, aliviada, substitui por alento, por esperança, a precipitada promessa de revistas semanais.
— É o que eu digo a todo mundo, que ela está de passeio a bordo de um navio, como já sucedeu…
— Cruzeiros marítimos… — volta a esclarecer dona Carmosina.
— …mas digo sem convicção, já me convenci que ela morreu.
— O pior é que a notícia está correndo na rua, é só no que se fala. Barbozinha ficou desolado, o pobre. Teve um namoro com Tieta pouco antes dela ir embora. Ele pensa que eu não sei…
— Seu Barbozinha? Acabado daquele jeito…
— Faz quase trinta anos… era um rapagão, bem mais velho que ela, é verdade, e franzino. Franzino sempre foi… Tieta não gostava de mocinhos jovens… — Suspira, como passa o tempo! — Você não deve perder a esperança. Onde está a prova de que ela morreu? Me mostre, se puder. Agora, vou indo. — Fica em dúvida, a pergunta a coçar-lhe a boca: — Você vai ao cinema? Se quiser, passo para lhe buscar.
— Hoje, não. Perpétua vai vir para discutir com Astério e comigo, ela inventou umas histórias de herança… mas não é por isso que não vou… Não vou, porque hoje não tenho vontade, sabe? Nem ia ver o filme direito.
— Entendo… herança, que conversa é essa?
Elisa toma-lhe a mão, súplice:
— Se você deixasse o cinema para amanhã e voltasse, para mim ia ser tão bom! Acho que pra nós todos, até para Perpétua. Você entende dessas coisas…
— Pois eu volto, fique descansada. Engulo a comida, determino umas regras em casa, daqui a pouco estou aqui de novo.
Ora, se vinha! Não há filme que a faça perder aquele prato, que invenção era essa, de herança? Perpétua não é tola. Ademais, o dever de amiga mandava-a estar ao lado de Elisa nessa hora de provação. As duas coisas: o dever e o prazer, há tão pouca diversão em Agreste, mesmo para a agente dos Correios.
Pena fosse sábado, dia de cinema. O filme vinha de Esplanada, pela marinete, sendo exibido no sábado à noite e duas vezes no domingo, a primeira às três da tarde, em matinê. A sessão de sábado reúne a melhor gente, os graúdos da cidade, vários com lugares marcados pelo hábito, naquelas cadeiras ninguém senta: as cadeiras de Modesto Pires e da esposa, dona Aída, e duas filas atrás, a de Carol. A matinê, repleta de meninos a gritar, insuportável: a cada tiro ou soco do caubói uma algazarra, a cada beijo do mocinho o mundo vem abaixo. Na soarê de domingo, repete-se a barulheira. Derradeira exibição do filme, na bilheteria o árabe Chalita mercadeja lugares ao sabor da aceitação da película. Nas de pouco êxito, vende a qualquer preço. Nos grandes sucessos, nem de pé é mais barato. A amizade exige sacrifícios: amanhã, em companhia de dona Milu, dona Carmosina enfrentará a sessão noturna dos domingos, o berreiro, a fumaceira.
Cabeça baixa, ar doentio, Astério chega diretamente da loja, nos sábados só após o banho e o jantar vai às carambolas. Hoje terá Perpétua em lugar de Aminthas, Seixas e Fidélio, em lugar de Osnar, perde na troca. Dona Carmosina o considera, com lástima: um trapo.
— Boa noite, Astério. Vou em casa mas volto para a conversa.
— A conversa?…
— Sobre Tieta…
— Ah! Sim. Que coisa mais sem explicação. Não entendo…
A luz dos postes, acesa ao toque da ave-maria, apenas atinge a calçada mas a lua cheia derrama ouro e mel sobre Agreste, iluminando as ruas e o rio, a estrada e os atalhos, os últimos feirantes no caminho das roças.
DO SENSACIONAL ENCONTRO
ENTRE PERPÉTUA E CARMOSINA,
COM CERTA VANTAGEM PARA A
PRIMEIRA NO RAUNDE INICIAL
— QUEM DISSE FOI DOUTOR ALMIRO? ELE SABE. Eu nunca
havia pensado nisso… — Astério se anima, aplacam-se as dores, diminui o mal-estar, presta atenção à conversa.
Estirado na espreguiçadeira, não fosse a presença da cunhada e de dona Carmosina estaria na cama, enrolado nos lençóis; vem passando mal desde a hora em que Elisa lhe fez sinal na loja e ele soube: nem carta, nem cheque. Doente, a ponto de não tocar no cuscuz, na banana frita, contentando-se com uma xícara de café com leite, pão e requeijão. Contrações no estômago. Insuportáveis.
Perpétua chegara pouco antes das sete. Deixara Ricardo preparando os deveres, na segunda-feira o moço retornará ao seminário para as provas escritas e orais. As aulas terminadas, estando padre Mariano de passagem em Aracaju, trouxera o afilhado para o fim de semana em casa, com a obrigação de fazer banca, estudar para os exames. Uma reprovação custar-lhe-ia a gratuidade do curso, adverte mais uma vez Perpétua antes de sair. Quanto a Peto, fugira para o cinema, menino endemoninhado. Assistia cada filme três vezes, todas de graça, ajudava o árabe Chalita na bilheteria. Em Agreste, a censura não vigora, todas as películas são livres para qualquer idade, mães amamentam crianças de colo em plena sala, onde Peto, aos treze anos incompletos, aprende mais do que Ricardo, quase com dezessete, nas aulas do seminário. No cinema, na beira do rio onde passa boa parte do dia a pescar e a observar, no Bar dos Açores, torcendo, à tarde, pelo tio Astério. Osnar, quando ganha, oferece-lhe guaraná, sorvete, Coca-Cola. Peto já sabe manejar o taco. Debochado, Osnar:
— E o taco aí debaixo, sargento Peto, já faz carambola? Tá chegando a idade de perder o cabaço…
Nem bem Perpétua tomara assento na cadeira de palha, a melhor da casa, ressoaram na porta as palmas e o sonoro “com licença” de dona Carmosina. Perpétua fechou a cara: que perdera ali de tão precioso a agente dos Correios para abandonar a sessão de cinema do sábado, compromisso sagrado? Vinha meter o bico onde não a chamavam, ditar razões, palpitar, exibir inteligência e astúcia, a sabichona. Elisa precipitara-se a acolher a amiga:
— Você chegou quase junto com Perpétua.
Sem esperar convite, dona Carmosina puxou o assunto, tomando a frente na conversa:
— Na rua, não se fala noutra coisa. Fui chegando em casa e mãe foi perguntando: que é que aconteceu com Antonieta? Ouvi dizer que ela morreu. Ninguém sabe de nada, lhe respondi, só que a carta com o dinheiro que ela remete todo mês, esse mês não chegou. Mãe arregalou os olhos: Não chegou? Então ela morreu, só morta havia de deixar de cumprir a obrigação. Conheci muito essa menina, quando tomava uma determinação, não havia conselho, ameaça, castigo que lhe mudasse o pensamento. Pode escrever: parou de mandar o dinheiro é que morreu. Vá lá, minha filha, e apresente meus pêsames. — Uma pausa, dona Carmosina acrescenta: — O zunzum na rua só faz aumentar.
A intrometida viera de propósito, preferindo a conversa ao cinema; é capaz de Elisa ter pedido para ela vir, Perpétua tocou com os dedos o crucifixo do terço, no bolso da saia negra, contendo-se. Deixa pra lá, talvez até seja de ajuda; a antipática passa o dia sem fazer nada, a ler revistas e jornais, artigos enormes, domina uma quantidade de assuntos, bota banca. Perpétua não tinha dúvidas:
— Bateu a caçoleta! Disse a Elisa desde ontem, ela é que quer se enganar e enganar os outros…
— Esconder a evidência… — ilustrou dona Carmosina.
Tais demonstrações de sapiência, Perpétua não as tolera. Dominou-se devido ao grito de Astério, lançado do fundo da espreguiçadeira: — Ai! Vocês estão dizendo que ela morreu? Que Antonieta morreu? É isso?
Elisa teve pena do marido, o pobre de Deus recebera um choque; até ali a possibilidade da morte da cunhada não lhe ocorrera. Pensara em carta extraviada, em dificuldades momentâneas de dinheiro — também os ricos têm seus apertos —, em viagem, plausível explicação de Elisa. Em doença e morte, jamais. A afirmação caiu sobre ele como uma tonelada de chumbo.
— Ai! — gemeu, apertando o estômago, no rosto uma careta de dor.
— Você é o único em Agreste que não sabe que ela morreu e sua mulher a única a duvidar… — a voz sibilante de Perpétua revolvendo a chaga.
Dona Carmosina voltou ao debate:
— A bem dizer, provas não existem. Suposições, sim.
Dura adversária, Perpétua atirou-lhe na cara a munição de dona Milu:
— Que outra prova você quer, além da falta de cartas? Não ouviu o que sua mãe disse? Era assim mesmo: quando Antonieta decidia fazer uma coisa, fazia até o fim, quem bem sabe sou eu.
— Não há dúvida… — concordou, em termos, dona Carmosina. — Suposições apoiadas em fatos concretos, porém suposições…
— Estamos desgraçados! — gemeu Astério, dando-se conta da enormidade do acontecimento. — Como a gente vai viver, se ela morreu?
Contendo o choro, Elisa trouxe um comprimido e um copo com água:
— Tome, Astério, o remédio para o estômago…
— Que vai ser da gente? — O comprimido caiu da mão de Astério, Elisa e dona Carmosina a procurarem pelo chão de tijolos, encontraram. Elisa o põe na boca do marido, dá-lhe a água.
— Nem para remédio vai sobrar — conclui Astério num engulho.
Dona Carmosina balançou a cabeça, concordando: não será fácil. Não tanto para Perpétua, possui casas de aluguel e dinheiro guardado, mas Elisa e Astério vivem da loja mal sortida, das vendas aos sábados, lucro minguado. Dona Carmosina tentou deixar de lado esses detalhes, insignificantes diante do fato maior da morte de Tieta, amiga de infância e adolescência, cujas confidências ouvira há tantos anos. Insignificantes? Não com o preço atual do ruge e do batom, do rímel e do esmalte, das revistas, cinco por semana — e Elisa esquecera de pagar as de hoje. Falara em pegar o dinheiro, não pegara. Se a morte se confirmar, dona Carmosina não poderá cobrar, carregará com o prejuízo. Amizade prova-se nessas horas.
Mas eis que Perpétua ergue o busto, o coque parece crescer no alto da cabeça, a voz fanhosa ganha força:
— Ela morreu e nós somos seus herdeiros…
A tal história da herança, dona Carmosina liga todas as antenas. Astério, nas vascas da agonia, não entende:
— O que é que você disse? Herdeiros? Como?
Tempo suficiente para dona Carmosina consultar seus conhecimentos jurídicos e entrar de advogada:
— Hum! É capaz que você tenha razão. Casada mas sem filhos… Os parentes herdam… Já li sobre isso, deixe-me ver…
Superiora, Perpétua pôs em pratos limpos:
— Outro dia conversei com doutor Almiro, quando ele esteve aqui por causa da herança de seu Lito. Metade para o marido, metade para os parentes próximos. Pai, mãe, irmãos. Nem que o morto não queira.
Foi nessa altura da conversa que se aplacaram as dores de Astério, diminuiu o mal-estar do estômago, rogou confirmação:
— Quem disse foi doutor Almiro? Ele sabe…
DO SEGUNDO RAUNDE, COMPLETAMENTE FAVORÁVEL A DONA CARMOSINA, A
CAMPEÃ DOS CORREIOS E TELÉGRAFOS
NEM DONA CARMOSINA, TOMADA DE SURPRESA, TENTA
NEGAR QUE Perpétua lavrara um tento. Confirma a tese jurídica, mas exibe aquele sorriso inocente, suspeitíssimo, de quem possui naipe marcado, carta decisiva:
— É isso mesmo. Vocês estão aí, estão ricos. Metade para seu Zé Esteves, a outra metade para vocês duas. Só falta encontrar o marido, não é?
— Exatamente. — Perpétua domina a conversa e mesmo a agente dos Correios ouve com atenção: — A gente nunca soube o nome inteiro do marido dela. Felipe, como se não tivesse pai. Rico, isso se sabe, comendador também. Mas Felipe de quê? Que tipo de indústria? Comendador do papa ou do governo? Sempre achei isso esquisito mas encontrei logo a explicação, faz tempo.
Ao contrário do que pensara dona Carmosina, a Perpétua não bastara o cheque, o dinheiro mensal. Também ela pusera a cabeça a pensar, a deduzir. Igual a dona Carmosina, em cujos lábios, no entanto, permanece o sorriso inocente, de criança.
— E que explicação encontrou?
Todos ansiosos por saber, Perpétua esconde a vaidade na voz sibilante, desagradável, apesar da súbita fortuna:
— O marido proibiu que ela nos falasse dele para não ter, um dia, de prestar contas… exatamente para isso.
— Será? — dona Carmosina demonstra o ceticismo.
— Ela tinha era vergonha da gente, medo de que a gente, se soubesse mais sobre o marido dela, começasse a explorar. — Para Elisa, as sujeiras, as más intenções são dela, de Astério, de Perpétua, do pai. Tieta e os seus são ricos e bons, inatacáveis.
— Talvez. — Dona Carmosina parece pesar e medir, comparar os argumentos.
— Seja como for, minha parte ele vai me entregar, nem que eu tenha de virar mundos e fundos. — Cada vez maior na cadeira, Perpétua não se dá ao trabalho de contestar Elisa: — Vou descobrir o endereço, quando ele menos esperar estouro na casa dele. O que é meu e de meus filhos ninguém tira.
— Tu falou hoje com padre Mariano, o que foi que ele disse?
— Disse para não nos apressarmos, que ainda não há provas da morte de Antonieta, que a gente esperasse. Espere quem quiser, não eu! Segunda-feira me toco para Esplanada, vou conversar com o doutor Rubim…
— Com o juiz de direito? — Dona Carmosina balança a cabeça, parece de acordo. Os olhos pequenos, semicerrados, consideram Astério e Elisa, pousam na imponência de Perpétua refestelada na cadeira de palha, parece um sapo-cururu. Perdoa-me, Elisa, roubar a tua herança, tu e Astério merecem melhor sorte, mas não posso suportar a arrogância dessa caga-sebo. — É, essa história de sobrenome do marido de Tieta, eu também sempre achei muito atrapalhada. Só que cheguei a outra conclusão, diferente das de vocês duas.
Perpétua não teme competição:
— Pois venha lá.
— Você, Perpétua, não levou em conta certos dados, eu diria pistas. Ela mandou falar nas enteadas, não?
— Sim, metade é para a família dele.
— Não é de herança que falo, essa herança não existe…
— Como?
— Não diga isso… — pede Astério, recaindo em dores.
— Tenho pena, Astério, de lhe desiludir, mas se vocês pensarem um minuto, se puserem as células cinzentas em ação, compreenderão que Tieta vivia, ou vive, com este senhor comendador como esposa mas sem casamento legal, certamente ele é desquitado. Um casal como milhares de outros no Brasil. É a única explicação que existe e, nesse caso, somente a família dele tem direito à herança.
— Ai! — padece Astério, vendo a fortuna dissolver-se, a riqueza ir água abaixo, breve ilusão, novamente pobre como Jó.
ONDE A CAMPEÃ DA SACRISTIA REAGE E GANHA O RAUNDE, SENDO A
ADVERSÁRIA SALVA POR INESPERADA INTERRUPÇÃO NA LUTA
PERPÉTUA É A ÚNICA QUE NÃO SE ALTERA, A NÃO SER
QUE SE CHAME de sorriso a leve contração dos lábios:
— Como teoria, é engenhosa. Fora disso, não vale nada.
— Você tem melhor?…
— A minha é melhor e tenho provas.
— Provas, como?
— Casada, casadinha da silva, no religioso e no civil. Posso garantir e vou provar.
— É o que eu quero ver. — Leve vacilação na voz de dona Carmosina.
Elisa, em lágrimas. Astério, rico e pobre, pobre e rico, sem saber se a dor persiste ou não. Do fundo do bolso, Perpétua extrai um envelope e do envelope um recorte de jornal:
— Você, que lê tanto jornal às custas dos outros, Carmosina, não leu esse. — Vangloria-se da ajuda divina: — Quem é devoto de Sant’Ana, quem ocupa seu tempo com as coisas da Igreja, conta com a proteção de Deus.
— Fale de uma vez! — Até Astério se irrita, ele, em geral tão tímido diante da cunhada. — Desembuche!
Recorte na mão, Perpétua não tem pressa.
— Ainda não faz dois meses, fui a Aracaju beijar a mão de dom José, saber dos estudos de Ricardo. Aproveitei e fiz uma visita a dona Nícia, a esposa do doutor Simões, do banco…
— Foi vender vestidos mandados por Tieta…
— Os que ficaram para mim. Melhor vender do que me exibir com eles. Nas capitais, vá lá que se use, mas aqui… Dona Nícia me mostrou um jornal de São Paulo, Folha da Manhã, a página social com as notícias da gente importante, onde falavam numa amiga dela que foi visitar parentes. Me apontou uma notícia, dizendo: “Penso que é sobre sua irmã”. Depois cortou o pedaço e me deu.
Coloca os óculos lentamente, aproxima o recorte da luz. Astério se levanta da cadeira, Elisa muda de lugar para ficar perto, ninguém quer perder uma palavra.
Nesse momento exato, ouvem-se vozes na porta da rua:
— Tenha calma, homem!
— Nem calma nem meia calma, cambada de ladrões!
O velho Zé Esteves penetra na sala, acompanhado de Tonha. Plantado sobre as pernas, o rosto fechado em ira, ergue o bordão e brada:
— Quero meu dinheiro, seus ladrões! Onde meteram, que fizeram dele? O dinheiro que Tieta me manda e vocês roubam! Que invenção é essa de dizer que ela morreu e por isso o dinheiro não chegou? Cambada de ladrões! Quero meu dinheiro, agora!
ONDE PERPÉTUA ASSUME A CHEFIA
DA FAMÍLIA, APÓS DERROTAR
DONA CARMOSINA POR NOCAUTE
— A BÊNÇÃO, PAI — FALA PERPÉTUA, TRANQÜILA NA
CADEIRA. — Peço a vosmicê que se sente e a mãe Tonha também. Para ouvir notícias de Antonieta e do marido dela.
— Ela está viva ou não? Que invenção é essa de dizer que ela morreu? É só o que ouço falar. Foram lá em casa para mais de dez pessoas.
— O mais certo é que tenha morrido. Se morreu, como parece…
— …nós estaremos ricos, seu Zé. Podres de ricos… — interrompe Astério, já sem dor, curado.
Dona Carmosina recupera-se:
— Seu Zé, Perpétua vai ler uma notícia, no jornal de São Paulo, que fala de Tieta.
Tonha ocupa uma cadeira, o velho permanece de pé:
— Pois que leia.
Novamente o recorte próximo à luz, Perpétua pigarreia limpando a voz, informa antes de começar a leitura:
— Tomei nota da data do jornal, 11 de setembro, não tem ainda três meses…
— Dois meses e dezesseis dias… — ninguém liga para a conta de dona Carmosina.
— “O comendador Felipe de Almeida Couto” — lê pausadamente Perpétua — “e sua esposa, Antonieta, convidam os inúmeros amigos e admiradores do casal para a missa em ação de graças, comemorativa dos seus quinze anos de casamento, que será celebrada na igreja da Sé pelo mesmo reverendo, padre Eugênio Melo, que celebrou o matrimônio. À noite, Antonieta e Felipe abrirão as portas de sua mansão para receber com a fidalguia de sempre. De Brasília virá especialmente para participar dos festejos o ministro Lima Filho que, sendo na época juiz da capital, presidiu o ato civil. A champanhota se prolongará noite adentro, com danças e ceia à meia-noite.”
O recorte passa de mão em mão, cada um o lê, o alívio é geral.
Perpétua fita dona Carmosina, num desafio:
— Que me diz, agora?
Quem responde é Elisa, a voz vibrante:
— Quer dizer que tu sabia o nome do marido dela e não disse nada à gente? — Elisa pensa na missa, na mansão, na festa, na champanhota.
— Sabia, há mais de dois meses. Contar a você pra quê? Para quê, me diga?
Astério se exalta e propõe:
— Vou com você a Esplanada, falar com o juiz…
— Falar com o juiz? Por quê? — pergunta Zé Esteves.
— Por causa da herança. Metade é da gente.
Perpétua explica:
— É, sim, pai. Metade é da família dele, metade é nossa, da família de Antonieta.
— Eu vou também, quero saber disso direito.
— Não precisa ir ninguém. Eu vou sozinha, é melhor. Converso com o juiz em nome de todos, sem confusão. Depois a gente decide o que fazer. — Expulsa a vencida dona Carmosina: — Nós, da família, sem estranhos.
Erecta na cadeira, o busto erguido, o coque no alto da cabeça, Perpétua é o chefe da família, assumiu o lugar.
DA MORTE E DO ENTERRO DE TIETA COM SERMÃO E INESPERADAS REVELAÇÕES DO PADRE MARIANO — AO TURÍBULO O SOBRINHO RICARDO, COROINHA
NAQUELE FIM DE SEMANA EM SANTANA DO AGRESTE,
TIETA MORREU E FOI enterrada em meio à consternação geral. Não se faltará à verdade dizendo-se que toda gente da cidadezinha participou do prematuro velório. A notícia atravessou os portões da Fazenda Tapitanga, tirou o coronel Artur de seu sossego dominical, trazendo-o aflito às ruas de Agreste. O rebanho de Zé Esteves só prosperara enquanto Tieta, meninota, dele se ocupou. Cabras gordas e parideiras.
Lágrimas e orações, tristeza e ameaças, compaixão e elogios, projetos e comentários, gente a apresentar pêsames. Alguns, rancorosos, mal escondendo a satisfação de ver chegada ao fim a imerecida boa vida de Zé Esteves, de cujo passado de enrolão maldoso e salafrário guardavam memória e cicatrizes.
— Na dependência de Perpétua, ele vai roer boca de sino…
— É o que tu pensa… agora é que o filho-da-puta vai se encher de grana, não há justiça na terra…
— Troque em miúdos.
— A família vai herdar um dinheirão, metade é dele.
Velhas comadres, xeretas de idade indefinível, esquecidas pela morte que só de raro em raro dá-se à pena de passar por aqueles cafundós, desenterraram do profundo esquecimento onde jaziam sepultados os desplantes e pecados da moça Tieta, de tampos comidos.
— Ainda me lembro da surra. Naquele tempo o velho morava na praça, perto da gente. Foi quase de manhã. Quebrou o pau com vontade.
— Também, aqui pra nós, ela fez por merecer. Desavergonhada, escandalosa. Até homem casado.
— Veja a cara de seu Barbozinha, é um desgosto só.
— Dizem que não se casou pensando nela.
— Será? É bem capaz. E essa história de herança, que é que vocês sabem?
— Psiu! Lá vem Perpétua.
Caras de enterro, olhos lamurientos seguindo Perpétua no caminho do adro. O busto empinado, um pente negro de espanhola enfiado no alto do coque — não o usava desde a morte do major, presente dele —, o mesmo vestido dos funerais do marido, contudo parece mais moça do que aquela jovem de vinte e poucos anos, já velha de mantilha negra, já solteirona e carola apesar da pouca idade, a beata mais beata, a xereta mais xereta, indo xeretar da irmã ao pai: todas as noites pula a janela, vai encontrar o caixeiro-viajante na beira do rio. Todo mundo fala, ela nos cobre de vergonha.
Andam para Perpétua, cercam-na, num coro de louvores à falecida, filha e irmã admirável, a ajudar a família e agora a enriquecê-la. Quantas missas vai mandar dizer pela alma dela? Pelos pecados antigos, em parte certamente perdoados por Deus, resgatados em vida de decência e caridade.
Mesmo as mais obstinadas a recordar malfeitos reconhecem os atributos de coração, bondade e gentileza, o riso alegre, o prazer em ajudar, sem falar na graça e na formosura, rosto angelical, corpo, ai, de requebro e dengue. Dona Milu resume tudo numa frase:
— Nunca fez nada por mal e o bem que fez não tem medida.
A boa filha, aquela que, sem guardar rancor, fora o amparo dos pais e das irmãs, sendo a mãe apenas madrasta e a irmã mais moça apenas meia-irmã, o que torna ainda mais meritório o procedimento, mais valiosa cada moeda. Tudo isso vindo de São Paulo, da grande metrópole, onde Antonieta triunfara, com marido rico e ilustre, industrial, comendador, paulista de quatrocentos anos, dinheiro à farta, à la godaça. Elevando o nome de Santana do Agreste.
Um filho da terra chegara a possuir padaria em Cascadura e, recordando a cidade natal e a santa padroeira, batizou-a de Panificação Santana do Agreste; enviou aos parentes fotografias da inauguração. Fotografias, várias; dinheiro que é bom, nem um tostão — segundo parece, a esposa, unha-de-fome, não permitia. Na capital do estado alguns se destacaram, à frente de todos o poeta De Matos Barbosa, cujo nome completo, Gregório Eustáquio de Matos Barbosa, se reduzira a Barbozinha na estima de seus concidadãos, em geral orgulhosos dos versos e da filosofia do ex-funcionário da prefeitura municipal de Salvador, do boêmio recordado nas mesas dos cafés que, aliás, já não existem. De crônica ainda mais extensa, o comandante Dário de Queluz, cujo amor ao clima de Agreste e à paisagem de Mangue Seco o fizera abandonar a marinha de guerra para vir instalar-se de vez e para sempre na terra onde nascera, trazendo com ele a esposa, dona Laura, robusta gaúcha logo adaptada aos costumes locais. Vive o casal mais na Toca da Sogra, casinhola plantada entre coqueiros ao lado das dunas de Mangue Seco, do que no pequeno bangalô da cidade onde se acumulam máscaras, barcos, santos, animais, peças esculpidas a canivete nas cascas de coco seco ou em pedaços de coqueiros. Como se não lhe bastasse a patente, a condição invejável de militar, a saga das viagens — até no Japão esteve —, acumula sucessos de artesão, a admiração geral, um artista de mão-cheia. Ele e Barbozinha, os dois primeiros. Falando de cultura, talvez devêssemos acrescentar o nome de dona Carmosina Sluizer da Consolação, o que ela sabe é demais; nunca saiu, porém, de Agreste, a não ser em rápidas idas a Esplanada. Falta-lhe o verniz das cidades grandes, da vida metropolitana. Não deve ser esquecido, entre os ilustres a triunfar lá fora, o dr. José Augusto de Faria, farmacêutico em Aracaju. E terminou-se a lista, pois Ascânio Trindade não chegou a se formar, deixou a faculdade de direito no segundo ano.
Ninguém, nenhum deles, poeta, militar, farmacêutico, dono de padaria no Rio de Janeiro, voou tão alto, obteve êxito igual, elevando aos páramos da glória o nome da obscura e decadente cidadezinha de Santana do Agreste, como Antonieta Esteves a brilhar na alta sociedade paulista, única entre todos a ostentar fortuna, gastando dinheiro a rodo, o nome nos jornais do sul.
Aminthas, Osnar, Seixas e Fidélio, os tacos em repouso:
— Como é mesmo o nome do marido? Matarazzo?
— Nada disso, um nome tradicional, quatrocentão, Perpétua sabe.
— Prado, talvez.
— Não, parece que são dois nomes, desses importantes.
— Astério vai lavar a égua… dinheirama retada.
Paulista sem preconceitos, casou com moça furada. Os costumes mudam de lugar para lugar; em Agreste e circunvizinhanças ainda hoje moça para casar deve ser virgem — e ainda assim raras casam pois os homens emigram em busca de trabalho, restando para as mulheres a igreja, a cozinha, as colchas de retalho, o crochê, os dias longos, as perturbadas noites.
No Rio e em São Paulo, porém, casamento já não exige virgindade, obsoleto prejuízo. Aliás, a moda se faz nacional, estende-se país afora, a pílula esconde o rombo. Não chegou, porém, às margens do rio Real; houvesse Tieta permanecido em Agreste, nunca arranjaria marido. Mas, em São Paulo, quem liga para os três-vinténs das moças? Lá o que conta é a categoria, a classe, a beleza, a inteligência. Nenhuma boa qualidade foi negada a Tieta, durante o fim de semana, quando a cidade se comoveu com o anúncio de seu falecimento. Enterraram-na virtuosa, exemplar.
Ao cair da tarde do domingo, na hora da bênção, ninguém mais sustentava a frágil tese de Elisa — Tieta está viajando, gozando a vida, em New York ou em Paris, em Saint-Tropez ou em Bariloche. Nem ela própria, desfeita, amparada pelo marido e por dona Carmosina. Ao abençoar o povo, padre Mariano, sem querer assumir responsabilidade por notícia não inteiramente confirmada, referiu-se no entanto, com visível sentimento, à triste versão a circular nas ruas. Louvou o coração puro daquela que, tendo merecido os bens do mundo, não esqueceu a família distante, a terra onde nascera.
Emocionado, revelou aos fiéis ter sido doação de Antonieta, e não de anônimo paroquiano como fora dito na ocasião, a grande, a magnífica imagem em gesso da Senhora Sant’Ana, entronizada com festa e júbilo havia três anos, em substituição à anterior, velhíssima, semidestruída pelo tempo, de carcomida madeira, sem valor nem arte.
Como se vê, também o padre Mariano possuía um segredo em comum com Tieta, conhecido apenas de dona Carmosina, é óbvio. Também ele, além da agente dos Correios e do sobrinho Ricardo, a ela se dirigira, às escondidas, em peditório. Sorri dona Carmosina, ao lado de Elisa. Por seu gosto estaria no fundo do adro com os rapazes, comentando. Amizade obriga, porém. O sobrinho chora, em frente ao altar, todo paramentado, a saia branca, a bata vermelha, a sacudir o turíbulo, odor de incenso, bastante para os servos de Deus, nunca mais o perfume no envelope.
— Beleza de coroinha! — murmura Cinira, gulosa, à beira do barricão, uma coceira nas partes.
— Divino! — Dona Edna estala a língua no outro lado da igreja, de joelhos ao lado de Terto, muito seu marido embora não pareça.
Ricardo, envolto em fumaça, ouve o louvor do padre à velha tia. Pensa nos cabelos brancos, nas rugas, nas mãos trêmulas, mais avó do que tia. Modesta, a generosa doadora exigira não fosse revelado seu nome. Somente agora, quando fúnebres notícias se ouviam, padre Mariano, passando por cima da promessa feita, põe os pontos nos ii, para que todos os devotos da Senhora Sant’Ana rezem com ele pela saúde de tão piedosa filha de Agreste, rogando a Deus não passe a trágica nova de rebate falso, encontrando-se a boa dona Antonieta em gozo de perfeita saúde.
Alguns rezaram. Pela alma da defunta; em perfeita saúde ninguém a acreditou.
POST-SCRIPTUM SOBRE
A VELHA IMAGEM
EM NENHUM MOMENTO FALOU PADRE MARIANO SOBRE
O DESTINO DA VELHA IMAGEM. Ainda bem, pois o novo cardeal anda com a mania de investigar o sucedido com as antigas e valiosas esculturas de santos, roubadas das igrejas ou vendidas a antiquários e colecionadores.
Quem pode, de boa-fé, culpar o padre? A imagem, pedaço de pau corroído pelo tempo, em péssimo estado, inútil, ele não a jogara no lixo por ter sido consagrada séculos atrás. Mas quando o famoso artista apareceu, atraído pela beleza da praia de Mangue Seco, e enxergando a destronada imagem da padroeira relegada a um canto da sacristia, ofereceu por ela o dinheiro necessário à compra do turíbulo, padre Mariano não vacilou. O novo incensório, precioso nas mãos de Ricardo a cercar de odorosa fumaça a imagem da Senhora Sant’Ana — a nova, refulgente, em gesso, pintada de cores lindas, uma obra de arte —, foi adquirido com o dinheiro pago pela apodrecida madeira carunchosa. O artista afirmara tratar-se de problema de devoção: no reino dos céus era a Senhora Sant’Ana a sua preferida e quanto lhe dissesse respeito, mesmo sem valor material — caso da velha imagem — tocava-lhe a alma, por isso a levava deixando razoável quantia em doação à igreja. Só quem o conhece sabe até onde vai a lábia do pintor Carybé. Muitas dele eu poderia contar, se me restasse tempo, cada qual pior.
Hoje, restaurada, a velha imagem é parte da famosa coleção de outro celebrado artista, Mirabeau Sampaio. Como lá foi ter, não me atrevo sequer a pensar. As barganhas entre esses cavalheiros são mais sujas e imorais do que a de dona Carmosina com Canuto Tavares, por mim desmascarada antes.
DA RESSURREIÇÃO
E DO LUTO
TIETA RESSUSCITOU NA TERÇA-FEIRA, ÀS CINCO E VINTE
DA TARDE, e somente então a família falou em luto. Na preocupação com os problemas resultantes da falha do cheque e das possibilidades de herança, não houvera tempo. Nem necessidade. Morreu, acabou-se. De que lhe serviria roupa preta dos parentes? Missa, sim, pelo descanso da alma. De sétimo dia, com certeza. De mês, caso a dinheirama se confirmasse.
Na terça-feira, a marinete atrasou: dois pneus furados, o motor pifando a cada cinco quilômetros, nada além do costumeiro. Assim, só de tardezinha dona Carmosina abriu a mala do correio.
Na mesma viagem, Perpétua regressou de Esplanada para onde fora na véspera, em companhia de Ricardo que ali tomou o ônibus para Aracaju. O juiz a recebeu após o jantar e ao final da conversa felicitou-a pelo empenho em defesa dos interesses dos filhos, do pai e da irmã. Para mim não quero nada, meritíssimo, mas pelo direito de meus filhos, de minha irmã e de meu velho pai brigo até morrer. Pobre, sozinha e desprendida. O juiz se impressionou e dona Guta, empolgada, serviu à corajosa viúva bolo de aipim e licor de pitanga.
De volta, Perpétua trouxe volumosa bagagem de conhecimentos e conselhos. Em São Paulo, informara o juiz, ela encontraria facilmente advogado disposto a se ocupar da causa, financiando-lhe as despesas, à base de participação nos lucros obtidos, se a questão, como parecia, oferecesse reais possibilidades de vitória. Cobram porcentagem elevada, naturalmente. Quantos por cento? Não saberia dizer com exatidão: talvez quarenta, cinqüenta por cento. Tanto? Um despropósito, doutor! Minha cara senhora, para correr o risco, botar dinheiro no fogo, pedem caro, é justo. Os jornais do sul publicam anúncios de escritórios de advocacia que trabalham nessas bases. Existem, inclusive, especialistas em causas perdidas, mas a porcentagem em tais casos sobe a setenta, oitenta por cento.
Dr. Rubim releu a notícia no recorte da Folha da Manhã. Os Almeida Couto, gente graúda, minha senhora, da nata, muito dinheiro e muitos brasões. Se os dados da questão estiverem corretos, tal como a senhora afirma, trata-se de causa ganha. O mais provável é que nem causa venha a haver, logo se chegue a acordo, gente desse porte não ama ver-se imiscuída em trincas na justiça. A senhora e sua família precisam apenas de um bom advogado. Deus lhe pagará, meritíssimo, o tempo perdido com uma pobre viúva, sua criada às ordens. De volta, acertará com o velho e com Astério a divisão das despesas da viagem: deixará Peto com Elisa, levando Ricardo, cujas férias começarão daí a uma semana. Em Esplanada averiguara os preços das passagens de ônibus para São Paulo, embarcaria em Feira de Santana. Nem o preço, as despesas, a distância, nem os perigos da cidade grande, nada a amedronta. Não chegara a ir a Salvador com o major como haviam programado; Perpétua sente um aperto no coração ao recordar o projeto. Mas não viajou sozinha a Aracaju, para falar com o bispo, agradecer a matrícula de Ricardo? Fora e depois voltara várias vezes, onde o perigo? São Paulo é maior, capital mais desenvolvida, mas não pode ser muito maior nem muito mais assustadora, Aracaju é um colosso.
Encontrava-se Perpétua ainda no banho, tentando limpar-se da poeira, quando dona Carmosina abriu a sacola das cartas registradas. Havia apenas uma, a de Antonieta. Num brado de aleluia, dona Carmosina, abandonando o resto da remessa, saiu, porta afora, desabalada para a casa de Elisa, a carta na mão, bandeira desfraldada ao vento:
— Chegou, Elisa, chegou!
— Deus seja louvado!
Abriram o envelope, lá estavam o cheque e novidades sensacionais: houvera morte, sim, não existe fumaça sem fogo. Mas quem morrera fora o comendador e não era nenhum Almeida Couto de quatrocentos anos e brasões. Nem por isso menos rico industrial paulista, comendador Felipe Cantarelli, meu inesquecível esposo, quase um pai, cujo passamento me deixa viúva inconsolável. Para consolar-se, rever a família e, quem sabe, adquirir casa na cidade, terreno na praia, de preferência nas imediações de Mangue Seco — no futuro, viria curtir a velhice e esperar a morte na doçura do clima de Agreste —, Antonieta anuncia próxima chegada. Avisarei com tempo e levo comigo Leonora, minha enteada, filha do primeiro matrimônio de Felipe.
— Ela vai vir, Carmosina! Ela vai vir, que coisa boa! — Também Elisa ressuscita.
Convocados às pressas, acorreram todos: o pai e Tonha, Astério vindo do bar acompanhado pela turma solidária, Perpétua trazendo Peto pela orelha.
Como se fosse o chefe da família, dona Carmosina, de pé, solene, declamou a carta, Astério apoderou-se do cheque para descontá-lo.
Enquanto ouvia, Perpétua engoliu informações e conselhos do juiz, a viagem a São Paulo, a herança; com Antonieta viva, viúva milionária, mudara a situação, cabia adaptar-se. Perpétua ergueu-se das cinzas e fitando a família reunida, comandou:
— Fosse quem fosse, o falecido era nosso parente, genro, cunhado e tio. Devemos mandar dizer missa por sua alma e botar luto. Quando nossa querida irmã chegar, deve nos encontrar vestidos de negro, sofrendo com ela. Eu sei o que ela está passando, conheço a dor da viuvez.
Dona Carmosina não conhece mas pode imaginar. Virar a perna na cama de casal, à noite, e não encontrar o apoio do corpo do marido, do homem antes a compartilhar do leito, solidão medonha, ai! Maior só a solidão da solteirona, dor sem tamanho, nem sequer a recordação da gostosura.
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