Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 2 de 10 · parte 2/3

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Tieta do Agreste

Primeiro episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Cardo! Vem aqui, depressa! Ai, meu Deus!

Leva o lenço novamente aos olhos, Elisa deve ver, testemunhar o sentimento a afligi-la quando a hipótese se confirma e a morte de Antonieta já não admite controvérsia. Deus a tenha em sua guarda e lhe perdoe os pecados; a assistência ao pai e às irmãs há de contar a seu favor na hora do Juízo Final.

Surge correndo um rapagão suado, os pés descalços. Forte, alto, bonito, dezessete anos desabrochando em espinhas no rosto. Sobre o lábio risonho, a sombra do buço. Vestido apenas com um calção — estava chutando bola no quintal.

— Tá me chamando, mãe? — Ao notar Elisa, acrescenta: — Bênção, tia.

Respira saúde e satisfação, não percebe de imediato a atmosfera fúnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presença do filho, Perpétua enxuga lágrimas escassas mas, finalmente, visíveis. O adolescente dá-se conta, põe-se sério:

— Aconteceu alguma coisa ao avô? De manhã cedinho, quando fui ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras…

Perpétua ordena:

— Vá buscar uma vela benta, acenda no oratório. Tua tia Antonieta, coitada…

— Tia Tieta? Morreu?

Vencida, sim, convencida, não, Elisa levanta a cabeça, rebela-se:

— Ainda não se sabe de nada certo… de nada!

Perpétua nem responde, reafirma a ordem:

— Faça o que estou mandando, sei o que digo: uma vela nos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo pela alma de Antonieta. Em seguida, tome banho, vista a batina, por hoje o recreio terminou. Cadê Peto?

— Foi pescar no rio…

— Diga a ele para vir para casa. Depois do almoço vamos falar com padre Mariano. — Um suspiro, a mão sobre o peito, a conter certamente o coração.

Atônito, Ricardo, sem palavras, preso à sala pela notícia. Volta-se para Elisa. Os ombros curvos acentuam o decote no colo moreno. Apesar das críticas constantes da mãe, o moço jamais reparara na elegância da tia. Pela primeira vez dá-se conta de como ela se veste bem e se enfeita; parece uma santa, ali desamparada na cadeira, sofrida, a recusar a morte da irmã, lutando contra a evidência refletida na fisionomia e nos gestos da mãe. Na voz da tia, abafada de choro, um pedido, uma súplica:

— Vamos esperar ter certeza para falar nisso com o reverendo… por que tanta pressa?

Ricardo não entende os motivos da discordância, e antes mesmo de condoer-se pela morta, sente pena de tia Elisa, assim desolada igual à imagem de santa Maria Madalena, num nicho da capela do seminário.

Perpétua não se abala:

— Nunca é cedo demais para se pedir um bom conselho. O que está esperando aí, Cardo? Não ouviu o que mandei fazer?

— Já vou, mãe…

Deseja acrescentar uma palavra condizente com a notícia, o pensamento agora voltado para a tia desconhecida, de morte anunciada e discutida, nome obrigatório em suas orações: não enviava ela dinheiro todos os meses? Quando ingressara no seminário, menino ainda, recebera, mandado de São Paulo, um breviário rico, lombada doirada, papel fino, letras de cor, numa caixa de veludo vermelho, coisa mais linda, presente da tia Antonieta para o futuro padre que mal viu e tocou preciosidade tamanha, logo ofertada por Perpétua ao bispo d. José por intermédio do padre Mariano. A bola de futebol número 5 também fora ela quem mandara; às escondidas da mãe, Cardo escrevera uma cartinha à tia pedindo bola e segredo, “se mamãe souber arranca meu couro”. Recebeu bola, calção e camisa do Palmeiras. Tinham um segredo em comum, ele e tia Tieta. Levanta a cabeça, enfrenta Perpétua:

— Tomara não seja verdade.

Sai em busca das velas. Já não está alegre e, se não espreme lágrimas, sente um ardor nos olhos, uma espinha nasce-lhe no coração, incômoda como as do rosto. Por sua conta acenderá uma vela aos pés da Virgem e lhe prometerá um rosário de cinco terços, rezado de joelhos sobre grãos de milho, para que a má notícia não se confirme.

Na sala, cai o silêncio sobre as duas irmãs, sobre as duas e a outra — múltiplas a face e a postura da ausente. Moça formosa e atrevida, enfrentando a ira do pai e a denúncia da irmã: tu tem é inveja porque nenhum homem repara em ti, tribufu; atrevida desde menina, pastora de cabras nos oiteiros da terra sáfara de Zé Esteves; a saltar, adolescente, a janela noturna para encontrar-se com homens, o caixeiro-viajante não fora o primeiro, Perpétua tem certeza; audaciosa, desleixada dos preceitos de Deus, igreja só para namorar; a rir, tão cínica e bela, na boléia do caminhão, rumo da Bahia, indo embora para sempre; irmã rica, esposa de comendador, em São Paulo, a mandar mesada para pai e sobrinhos, merecedora de toda consideração, esquecido o feio passado, enterrada a louca adolescência, tia presente na oração das crianças, elogiada pelo padre Mariano; fada generosa dos sonhos de Elisa, a feliz e atenta benfeitora, a âncora da esperança; na cidade, exemplo de boa filha e boa irmã, uma zelação, uma lenda, inesgotável assunto.

Perpétua guarda o lenço, cumprido o ritual, pergunta:

— E Astério?

— Passei na loja… sabe que a carta não chegou mas hoje é sábado, não pode sair nem para o almoço. Por falar nisso, vou indo, tenho de mandar a marmita.

— De noite passo em casa de vocês, digo o que o padre aconselhou. Vamos decidir o que fazer.

Elisa, de pé, um soluço a sacode:

— Por que a gente não espera até o fim do mês?

— Já se esperou até demais. Vamos logo discutir o que fazer. Eu não vou ficar de braços cruzados, não lhe disse? Quero minha parte. — Já sem lágrimas, suspiros, lamentações, Perpétua troca o lenço pelo terço. Mais valem as orações.

Elisa gasta o derradeiro argumento:

— Quem sabe, a carta se perdeu no caminho…

— Carta registrada, não se perde. Nesses anos todos já se perdeu alguma? Tolice. Diga a Astério que me espere, nada de bilhar hoje. Com a cunhada morta…

— E o pai?

Perpétua começa a passar as contas do terço:

— Amanhã a gente avisa a ele.

— É capaz dele ter uma coisa…

— Quem? O velho? Vai ficar uma fera, vai querer tomar dinheiro da gente, o mais que puder, isso sim. Se prepare, o tempo das larguezas se acabou.

Ao passar em frente ao corredor, Elisa enxerga ao fundo a chama das velas iluminando os santos no oratório. Uma, pela salvação da alma da morta, aos pés do Cristo crucificado; a outra, pela vida da tia, aos pés da Virgem. Ouve a voz do rapazola rezando Salve Rainha, mãe de misericórdia.

Misericórdia, meu Deus!

 

DA PRECE PELA SAÚDE DA VELHA TIA DESCONHECIDA, CAPÍTULO CASTO E DEVOTO

 

…VIDA, DOÇURA, ESPERANÇA NOSSA, SALVE! As palavras

da oração nascem sinceras e sentidas da incômoda espinha, do nebuloso pesar. Maquinais, no entanto, solta-se livre o pensamento de Ricardo em busca da tia nas vascas da morte ou já no caixão — dela pouco sabe, praticamente nada.

Vida, doçura e esperança, a tia de São Paulo, que não esteja defunta como garante a mãe — a mãe vê tudo em luto —, que se afirme a crença de tia Elisa e o perigo desapareça, a vós bradamos os degradados filhos de Eva. A vós suspiramos e oferecemos pela saúde de tia Antonieta um rosário rezado de joelhos sobre grãos de milho. Promessa mixa, mísera oferta em paga de portentoso milagre. Dá-se conta e, exagerado, a amplia para uma semana inteira de rosários completos e macerados joelhos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, salvai da morte a tia Antonieta.

Que doença a matara ou a estava matando? Nenhuma referência ouvira, a mãe e tia Elisa devem saber mas guardam segredo, na certa por se tratar de doença ruim, cujo nome não se pronuncia, tísica ou câncer. Quem comunicara a notícia, como chegara, em carta, em telegrama? Quando o pai de Austragésilo faleceu, houve um primeiro telegrama anunciando estado de saúde grave com hemoptise. Duas horas depois o reitor do seminário viera em pessoa com um segundo telegrama, o fatal, e palavras de consolo. Apertara Austragésilo contra o peito, falara sobre o reino dos céus. Do mesmo modo agora, o primeiro telegrama já chegara comunicando doença e diagnóstico pessimista. A mãe, experiente da vida, percebera o engodo, a intenção de prepará-los para o pior; tia Elisa só perderia a esperança quando o segundo afirmasse a verdade nua e crua. Neste vale de lágrimas eia pois advogada nossa, para vós mãe do Nosso Senhor o impossível não existe: podeis interromper o curso dos telegramas, revogar sentenças de morte, o Filho atende todos os vossos pedidos. Contrito, Cardo renova a promessa sete vezes maior. Promessa e tanto.

Zero sobre a doença, e sobre tia Antonieta? Zero vezes zero, imprecisas, fugazes notícias, tia desconhecida, quase uma abstração. Não obstante ninguém tão concreto, presente, indispensável na vida de cada um deles, de toda a família. A tia de São Paulo, a ricaça.

Para Ricardo apenas um nome, um apelido de infância, Tieta, vagas e entusiásticas referências ao marido milionário e comendador, mensalmente a carta e o cheque, os presentes, a bola de futebol número 5, dando solidez e contorno a uma imagem, que imagem?

Olhos misericordiosos a nós volvei, neste vale de lágrimas, de pobreza e limitações, a imagem da santa padroeira, a protetora, a possibilitar pequenas regalias e o dinheiro que a mãe deposita na Caixa Econômica para a festa da primeira missa, ainda tão distante, e para os estudos de Peto se um dia Peto se dispuser a estudar. Ao pensar na tia jamais vista, não a compara com a Virgem a quem roga por ela e, sim, com a Senhora Sant’Ana, padroeira da cidade, protetora da família, da Sagrada Família e de todas as demais. Na chama das velas enxerga a imagem da velha senhora, mãos generosas, plena de ternura, doce patrona.

Será assim débil anciã ou ainda se mantém rija e disposta, igual à mãe? Qual das duas a primogênita? Sobre a idade da tia, Ricardo nunca ouviu a menor referência, a mãe diminui a sua quando perguntada. A ausente deve ser bem mais velha, não é ela a rica, a poderosa, a doadora, o verdadeiro chefe da família, a quem o próprio avô reverencia? Boca de praga e maldições, a resmungar queixas e ameaças, o avô desmancha-se em louvores ao pronunciar o nome de Tieta, Deus lhe dê saúde e lhe aumente a fortuna, ela merece, a boa filha. Anciã de passo cansado, cabelos brancos — ou ela ainda pinta os cabelos como outrora? Na chama das velas são brancos os cabelos da tia Antonieta.

Conhece-lhe a letra, grande, de escolar, incerta, enchendo com poucas palavras a bonita folha de papel ora azul, ora laranja, ora verde-cana, chique a valer. A letra e o perfume, fragrância rara para narinas habituadas ao fedor das velas consumidas, à morrinha das emboloradas alfaias, das fanadas flores, ao pobre odor das sacristias, das suarentas salas de aula, à fumaça do incenso. Ao remeter a bola de futebol, a tia rabiscara uma página dirigida a Cardo: “Para meu sobrinho querido, pálida lembrança da tia Tieta”. Feliz, colocara o papel lilás dobrado em quatro entre as folhas do livro de missa e às escondidas aspirava-lhe o perfume. Num assomo de orgulho, exibiu dedicatória e aroma a Cosme, amigo predileto, companheiro de devoções e retiros espirituais, vizinho de carteira. Cosme, um asceta, recusou-se a cheirar; em tudo via pecado, tentação do demônio. Perfume? Pecado mortal; para os servos de Deus basta o incenso. O padre confessor tranqüilizou Ricardo: casto perfume de velha tia, não continha pecado, mortal nem venial.

Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei — como seriam os olhos, a face de tia Antonieta? Austera como a da mãe, rígida e devota? Inquieta, melancólica, igual à da tia Elisa? Ou semelhante à do avô, dura carranca de caboclo? Certa feita, há vários anos, meninote ainda, mostraram-lhe de relance uma foto da tia numa revista do Rio — revista da qual Elisa se apoderou e ninguém mais viu. Ricardo guardou memória exclusivamente dos cabelos loiros, encaracolados novelos de ouro — como explicá-los se todos na família eram bem morenos? Soube então que as mulheres oxigenavam e até pintavam os cabelos, sobre o assunto discutiram a mãe e tia Elisa. Moda condenável na opinião de Perpétua: Deus designa a cor dos cabelos de cada um, ninguém tem direito a mudá-la. Elisa retrucara, tachando a irmã de atrasadona, rata de igreja. Dos olhos, da boca, Ricardo não se lembra; recorda somente os novelos de ouro puro. Agora, à luz das velas, ele os enxerga brancos de algodão, tantos anos se passaram — era menino, agora é um rapaz.

E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre, há quantos anos dura o desterro da tia? Quando Ricardo nasceu Tieta partira há muito e jamais ele ouvira da mãe, de tia Elisa, do avô e de sua segunda mulher, vó Tonha, a menor referência àquela outra parenta; jamais escutou nome ou apelido a recordá-la. Da tia de São Paulo, só veio saber depois da primeira carta e ainda hoje sabe tão pouco, além da riqueza, da bondade, da velhice.

Se a Virgem a salvar, pode ser que um dia ela apareça de visita, em pele e osso, anciã amorável, de tão velha quase avó. Ricardo não conheceu avó verdadeira, a materna, falecida antes do casamento tardio de Perpétua com o major, cujos pais já repousavam no Cemitério das Quintas, na Bahia, quando o aposentado militar surgiu em Agreste, por acaso, e de chofre se curou da asma, recuperou as forças, clima de sanatório.

Tia Antonieta preenche o vazio das avós, Senhora Sant’Ana, a matriarca, a protetora da família. Se ela sarar, se a Virgem lhe restituir a saúde, Ricardo, após cumprir a promessa, poderá lhe escrever outra carta, solicitando uma vara de pesca com molinete, fio de náilon e iscas artificiais, semelhante à do anúncio na revista Caça e Pesca, folheada no correio com permissão de dona Carmosina. Implorando segredo à tia — se a mãe soubesse o mundo viria abaixo. Em troca dos joelhos macerados, da semana inteira de orações, não era pedir muito; vara de pesca, molinete, fios e iscas e um segredo a mais entre os dois. Coisa boa, um segredo. Ricardo tem segredos em comum com alguns santos, com a Virgem e sobretudo com santa Rita de Cássia, de quem é devoto.

Ó clemente ó piedosa ó doce sempre Virgem Maria rogai por ela e por nós para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Fazei com que a tia se erga do leito ou do caixão ó clemente ó piedosa ó doce sempre Virgem Maria.

Na vela acesa a mando da mãe pela alma da irmã, o fogo da morte vacila e se apaga sozinho. Esbugalham-se os olhos de Ricardo no assombro do milagre. Só a chama da vida persiste na outra vela, poderosa é a santa Mãe de Deus, amém.

 

ONDE DONA CARMOSINA LÊ UM ARTIGO, RESOLVE PROBLEMA DE PALAVRAS

CRUZADAS E PROBLEMAS REFERENTES À SITUAÇÃO DE TIETA, DIGNOS DOS MAIS SAGAZES DETETIVES DOS ROMANCES

POLICIAIS E ONDE SE TRAVA

CONHECIMENTO COM O COMANDANTE DÁRIO DE QUELUZ, SURGINDO AO FINAL DO CAPÍTULO O VATE BARBOZINHA

(GREGÓRIO EUSTÁQUIO DE MATOS

BARBOSA), DE CORAÇÃO PARTIDO

— MUITO BEM FEITO! CADEIA COM ELES! — exclama em

voz alta dona Carmosina, no auge do entusiasmo. Finalmente erguera-se um juiz independente e digno, capaz de ditar sentença justa, mandando os canalhas para o xadrez: — Cambada de assassinos!

Entusiasmo e indignação sem espectadores, sozinha na repartição no começo da tarde. Mas o comandante Dário, ao saber, vai nadar em alegria, ele, tão apaixonado quando se discute poluição. “Esses tipos deviam estar todos trancafiados na cadeia, minha boa Carmosina, são assassinos da humanidade.” O comandante é um tanto quanto retórico, ama frases de efeito. Barroco, na qualificação poética de Barbozinha.

Retira a página, vai guardá-la para o comandante. Não importa venha o jornal endereçado ao coronel Artur de Figueiredo — o velho coronel Artur da Tapitanga, assinante de O Estado de S.Paulo desde priscas eras; dona Carmosina tirara a limpo: desde 1924. Durante decênios o Estado manteve o fazendeiro a par das novidades do mundo. Atualmente, só de mês em mês o destinatário manda buscar o monte de jornais a entulhar a sala. Já não os lê — quem lê com gosto e proveito é dona Carmosina — mas renova a assinatura no prazo exato, a condição de assinante do diário paulista é atributo de sua linhagem e dona Carmosina, a maior interessada, recorda-lhe a obrigação a tempo, com elogios à gazeta e às cabras do coronel.

Página a mais página a menos, caderno a mais caderno a menos, para o octogenário — oitenta e seis comemorados a 18 de janeiro, como pode informar dona Carmosina — já não faz diferença. Pouco se lhe dá o que vai por esse mundo louco, de guerras e convulsões, de violência e ódio, de mentiras sensacionalistas: essa história do homem ir à lua montado num foguete é conto da carochinha para engambelar os trouxas. Está no jornal, na primeira página do Estado? Nem assim acredito, Carmosina, estou velho mas não estou broco. Apesar da cancela da Fazenda Tapitanga não distar sequer um quilômetro do começo da rua, raramente o coronel comparece a uma sessão da câmara municipal de Santana do Agreste, à qual preside, conselheiro municipal, edil, vereador eleito e reeleito um sem-número de vezes, ex-intendente e ex-prefeito. Quando vem, não falha na visita à agente dos Correios:

— Carmosina, me conte o que você leu no meu jornal. Mas não me venha com mentiras… — ameaça-a com a bengala, ainda sabe rir.

Manda o capanga pôr os jornais na carroça, utiliza-os em serventias diversas: para fazer embrulhos, acender o fogo, limpar-se na latrina. As cabras andaram comendo edições inteiras e, se não engordaram, mal não lhes fizeram.

Cuidadosamente, dona Carmosina dobra a folha de maneira a ficar o artigo à vista, matéria importante, no alto da página, o título em tipos fortes: a itália condena à prisão os que poluem seu mar. O comandante vai se regalar. Também Barbozinha se interessa pelo problema, lastimando os “inevitáveis malefícios inerentes ao progresso”, enquanto o comandante Dário é radical no julgamento e condenação dessa “loucura rotulada de progresso envenenando a humanidade inteira, ameaçando a continuação da vida sobre a terra, minha boa Carmosina!”. Dramático, os braços abertos:

— Se não se puser um paradeiro nisso, em breve as crianças já nascerão com câncer! Veja o Japão…

Para fugir de causas e efeitos, para gozar dos verdadeiros prazeres da existência enquanto ainda há tempo e lugar, abandonara promissora carreira na marinha de guerra, pendurando a farda no armário do bangalô, reduzindo os trajes a shorts e camisetas de marujo, ao luxo vespertino do pijama quando na praia, e à calça e camisa esporte na cidade. Isso, sim, era viver. No clima bendito do Agreste, na beleza sem par de Mangue Seco. No paraíso.

— Boa lição! — repete ainda dona Carmosina antes de entregar-se às palavras cruzadas e aos logogrifos.

Grande, a sede de saber de dona Carmosina, múltiplos e ecléticos os temas a interessá-la, da política à ciência, dos problemas mais graves do nosso tempo ao disse-que-disse em torno da vida sexual dos ídolos das multidões, da onu à oea, da cia ao kgb, da nasa aos ovni, da mpb ao febeapá, ai o que ela sabe de siglas!

Na coorte de amigos e admiradores a freqüentar a agência dos Correios e Telégrafos, enchendo com prosa e discussão as horas mortas, tantas!, dona Carmosina encontra parceiros para cada campo do conhecimento: com Aminthas e Fidélio — fracote, Fidélio — discute música, compositores e intérpretes; com Ascânio, o turismo no mundo e na Bahia; com Elisa transa fofocas em torno de astros e estrelas de nosso cintilante céu artístico; com Barbozinha, vasto é o campo de diálogo e polêmica: da delicada ou agreste flor da poesia aos arcanos da filosofia espiritualista, sendo o vate espírita teórico e vidente e ela, incrédula, negando encarnação e reencarnação, ímpia, a rir de céu e inferno, vangloriando-se da condição de atéia. Atéia não, à-toa, Carmosina, mulher à-toa: glosa Aminthas, metido a humorista.

Não menor a pauta de debates com o comandante Dário: os problemas atuais do homem e do mundo, todos eles, das explosões atômicas à explosão demográfica; da poluição, estendendo-se sobre Los Angeles e São Paulo, Tóquio e Rio de Janeiro, à guerra colonial portuguesa; as probabilidades da terceira grande guerra e as intenções secretas dos dirigentes das potências e superpotências — não esqueça a China, minha boa amiga —; o Médio Oriente, o destino de Israel, o petróleo árabe, os palestinos, e a análise dos romances lidos, policiais e de ficção científica, preferindo o comandante os últimos, a levá-lo universo afora a longínquos planetas, preferindo ela os de detetive, sobretudo os clássicos, à maneira de Agatha Christie, a desafiar a argúcia do leitor na descoberta do criminoso. Gaba-se dona Carmosina de acertar sempre, de apontar o assassino antes que o faça Hercule Poirot.

Dos centros culturais de Agreste, a agência dos Correios é de longe o mais importante. Quando de sua sempre lembrada visita à cidade, convidado pelo vate Barbozinha, ex-companheiro de boemia nas ruas, bares e castelos da capital, o conhecido cronista de A Tarde, Giovanni Guimarães, infalível à tarde na sala da agência para uma boa prosa, a batizara de Areópago e o nome pegou. Sucede com freqüência juntarem-se ali os três à mesma hora, dona Carmosina, o poeta e o comandante Dário: o Areópago pega fogo, fagulhas de talento arrastam gente do bar e das lojas, apenas para ouvir. O árabe Chalita é habituê, não perde uma única palavra; não entende nada mas como admira! Divertimento elevado e gratuito. Supimpa.

Só com Osnar não mantém dona Carmosina tema de conversa, desde rapazola Osnar não se interessa por outras coisas nesse mundo de Deus além de cerveja, bilhar e mulheres. Vasto o círculo de mulheres a despertar a cupidez de Osnar, não sendo ele exigente ou dogmático. Infelizmente, nessa numerosa assembléia de desejadas (algumas faturadas) não se encontra dona Carmosina. Admirador de seu intelecto, Osnar despreza-lhe o físico, “essa não me levanta o pau”. Para dizer toda a verdade, dona Carmosina não conseguira ainda despertar a concupiscência de nenhum homem.

Sinônimo da concupiscência de sete letras — dona Carmosina morde o lápis, rebusca na memória, já sabe: lascívia. Não, lascívia tem oito letras; de sete, vamos ver, o que pode ser? Luxúria, está na cara. Os olhos miúdos de dona Carmosina, cercados de cílios ruços, perdem-se na rua onde prossegue o movimento do sábado de feira, carroceiros buscando no acanhado comércio de contadas lojas as compras indispensáveis, gastando as moedas parcas. Luxúria, palavra forte.

Quando Perpétua casou, dona Carmosina teve um alento de esperança. Mas isso já é outra história, aproveitemos e façamos uma pausa, dividindo o capítulo, deixando o leitor respirar.

 

ENQUANTO O LEITOR RESPIRA,

O AUTOR SE APROVEITA E ABUSA

 

BOA IDÉIA, SIM, MERITÓRIA. CAPÍTULOS LONGOS

CANSAM, tornam a narrativa pesada e enfadonha, conduzem ao desinteresse e ao sono. Uma pausa abre, inclusive, tempo e espaço para necessárias explicações, sobre detalhes que os personagens torcem, modificam ou simplesmente suprimem, ao sabor de interesses variados, confessáveis ou escusos, mas cujo conhecimento cabal é direito sagrado do leitor — para saber ele paga os preços atuais, incríveis!

Carmosina é useira e vezeira em guardar segredos, em baralhar pistas, em impedir a circulação completa ou parcial de determinadas notícias, causando grave dano às xeretas do adro da igreja e à população de Agreste em geral pois quem não se mete com a vida alheia, não pergunta, não conta, não comenta? Se exceção existe, não conheço. Falar da vida alheia é a diversão principal do lugar, grosseria e mau caráter de uns, arte e sutileza de outros.

Intolerável grosseria de Bafo de Bode, rebotalho da sociedade, apodrecido por dentro e por fora. Quando do grande porre semanal, aquele que começa na noite do sábado, após a feira onde esmolou ao sol o dia todo, e prossegue pelo domingo, esse detrito malcheiroso desce as ruas aos trancos e barrancos, a enlamear a honra de distintas famílias, a proclamar maledicências, injúrias e infâmias, desgraçadamente quase sempre comprovadas:

— Cuidado com os chifres, Chico Sobrinho, estão crescendo demais. Tua mulher, Ritinha, vive dando na beira do rio… não vou dizer a quem, não sou dedo-duro.

Nem ele, nem eu, e daí? Arte sutil na voz antiga de dona Milu, mãe de Carmosina, uma santa, quem duvida?

— Estão dizendo que Ritinha anda de namoro com seu Lindolfo, mas deve ser mentira, o povo gosta de falar. Ritinha paga por ser muito dada, às vezes demais… o gênio dela é esse, não tem culpa.

A população está cansada de saber que Ritinha e Lindolfo, tesoureiro da prefeitura, se encontram nos esconsos do rio. O melhor é fazer como Chico Sobrinho, para palavras loucas ouvidos moucos, quem dá atenção a Bafo de Bode?

Voltemos, porém, a Carmosina e ao comandante Dário pois deles se trata, entre os dois existe uma trama. Não, nada do que estão pensando! Como diz Osnar, apontando o exemplo do comandante, não há criatura perfeita. Pelas frestas das janelas semi-abertas, olhares lânguidos ou ardentes, conforme idade e fogo, acompanham-lhe o passo gingado de convés quando ele desfila em Agreste, vistoso, todo feito de músculos, corpo jovem, rosto maduro e vivido, cabeleira rebelde e grisalha; pode dar-se ao luxo de escolher, dá-se ao desperdício de ignorar a todas elas, sem abrir exceção sequer para Carol, a amásia de Modesto Pires, obra-prima de Deus e da fusão de raças. Monógamo declarado, o comandante; amoroso da esposa, dona Laura, e Carmosina é sua amiga fiel. Amiga fiel, aí o xpto da questão. Para proveito dos leitores, utilizo a pausa e tento decifrar o enigma.

Vou direto ao assunto: qual a patente do nosso personagem, quantas divisas ostenta na farda esquecida no fundo do armário? Ninguém sabe, a todos basta o título de comandante e foi isso exatamente o que lhe disse dona Carmosina quando ele, honrado e modesto, quis proclamar a verdade. Ela, a responsável. Tanto fala quanto esconde, tudo depende.

Que Dário de Queluz, valoroso filho de Agreste, pertenceu à marinha de guerra, dando realce e lustre ao torrão natal, nada mais certo, sobram as provas; fulge uma delas no bangalô em cima da escrivaninha, ao lado dos trabalhos em coco feitos pelo comandante — medalha de ouro, recordando ato de bravura, reluz sob o vidro da redoma. Que entrou modestamente de marinheiro, rapazola emigrado em busca de trabalho, todos sabem. Que subiu, degrau a degrau, pelo esforço e pelo estudo, durante os vinte anos de vida militar, também é fato de conhecimento público. Mas subiu até onde? Eis o busílis: quando, despida a túnica, retornou aos ares pátrios e puros, alguém logo o proclamou almirante. Ele recusou o título e a bajulação:

— Não cheguei lá, quem sou eu? Ao demais, almirante é título que só existe em tempo de guerra.

Disseram-no, então, comandante e se curiosidade houve em saber até onde chegara, não se manifestou, ele impunha respeito e era um atleta. Comandante, título perfeito em qualquer caso, em qualquer posto.

Arte sutil, a vida alheia. Um dia, os dois a sós conversando na repartição, Carmosina perguntou, como por acaso:

— Comandante, me esclareça. Na marinha de guerra, os praças podem chegar ao posto de capitão-de-fragata no quadro de oficial auxiliar da armada, não é certo?

Percebeu Dário a sutileza; a curiosidade a corroer o coração da amiga. Sorriu, tinha um sorriso sem malícia de homem bom e direito, e respondeu:

— Não subi tanto, minha boa Carmosina. Cheguei apenas a…

Ela tapou-lhe a boca com a mão:

— Baixinho, que ninguém mais ouça…

— E por quê?

— Os outros pensam que sim, que chegou e ultrapassou, estão orgulhosos disso. Por que desiludi-los? Comandante, basta e sobra.

Apurou o ouvido para ouvir, ouviu e acabou-se. Comandante agora a comandar mar e vento nos cômoros de Mangue Seco, desnecessários se tornam quaisquer detalhes, dragonas e ordens de serviço. Carmosina sabe, é quanto basta, a confidência não passou dali, nem mesmo à velha Milu ela contou. Contar à mãe? Estão loucos? No dia seguinte, Agreste inteiro saberia.

Eis aí em pratos limpos o que desejei esclarecer, aproveitando a interrupção do capítulo e terminando por escrever mais um, perdoem. Qual o posto de fato alcançado pelo comandante? Ah!, isso não sei dizer, somente Carmosina sabe e, egoísta, faz boca-de-siri, esconde a informação. Se algum dos senhores por acaso a obtiver, seria favor comunicar-me.

 

CONTINUAÇÃO DO

CAPÍTULO INTERROMPIDO

QUANDO PERPÉTUA CASOU, DONA CARMOSINA TEVE

UM ALENTO DE ESPERANÇA. Se Perpétua, mais velha, mais feia — sim, mais feia pois simpatia também marca ponto em concurso de miss — com aquela cara de prisão de ventre crônica, sem graça, ressentida, encontrara quem a quisesse, quem lhe pedisse a mão em casamento e a levasse ao altar de véu e grinalda, figura ridícula!, cabia a Carmosina, mais moça, inteligente, culta, cultíssima!, risonha e cordial, ao demais cozinheira de mão-cheia, o direito a sonhar, a não cair em desespero.

Ah!, major Cupertino Batista existiu um só, milagres não se repetem. Reformado por motivos de saúde, cinqüentão asmático e cardíaco, curto de entendimento, duro de cabeça, obtuso, um bobo alegre, nem por tudo isso partido desprezível. Solteiro, tinha economias, reservas monetárias e físicas: ao partir para o reino dos céus, deixara Perpétua com dois filhos e herdeira de três casas, além da pensão e do dinheiro a render juros. A herança, Carmosina dava de barato mas — suspira — durante seis anos e um mês, setenta e três meses, duas mil duzentas e vinte e uma noites, contando a do ano bissexto, a bruaca, a desinfeliz — a sortuda, a felizarda! — dormira em cama de casal com homem ao lado, sob as mesmas cobertas, marido válido até a última gota, pois Perpétua tivera aborto pouco antes de o major bater continência e a festa terminar.

Escreve luxúria letra a letra nos quadrados do jogo de palavras cruzadas, o pensamento voa de Perpétua para Elisa (a pobre, agoniada, esquecera as revistas); de Elisa para Antonieta.

Antonieta, essa sim, merecera a vida conjugal e a fortuna: alegre, divertida, bondosa, um encanto de criatura. Muito chegada à casa de Carmosina, colegas na escola primária; dona Milu dedicava-lhe particular estima e a defendia quando as más-línguas vinham tosar na pele da moça, melhor dito nas carnes da rapariga. Moça falada, na boca das comadres:

— Aquela já perdeu os tampos há muito…

— Já foi chamada às ordens…

— Moça, aquela sujeitinha? Rapariga é o que ela é… dá para Deus e o mundo…

Dona Milu punha fim à conversa, dispersava o elenco:

— Se ela está dando, dá o que é dela e eu nunca soube que se deitasse com homem por dinheiro, é o corpo que pede. Que pede a ela e a todas, não é mesmo, Roberta? As outras não dão, trancam com sete chaves mas só a caixa da periquita. O resto não faz mal, não é isso, Gesilda? Do sovaco ao fiofó, tudo vasculhado.

Parecia mudar de assunto:

— Que apelido mais bonito os rapazes botaram nas tuas gêmeas, Francisca. Não sabe? Pois lhe informo: Mãos de Ouro e Prata, achei lindo… — Dona Milu era uma parada!

Quando Antonieta, surrada e expulsa, partiu no caminhão, Carmosina viera se despedir, a única. Vá dizer adeus a sua amiga, a mãe ordenara. Visíveis, as marcas da véspera, o bordão atingira-lhe o rosto, roxas equimoses nas pernas, Tieta não se queixou. Pode ser para meu bem, disse. Acertara.

Nos últimos onze anos e sete meses, raro o dia em que dona Carmosina não recorda Antonieta. Desde a chegada da primeira missiva, acompanhara, carta a carta, a correspondência trocada entre Santana do Agreste e a caixa postal 6211 da capital de São Paulo. Está por dentro de tudo, sabe mais do que as próprias irmãs de Tieta, muito mais. Por conhecimento direto e por dedução.

Vira o cheque engordar ao passar do tempo, com a desvalorização do cruzeiro e as lamúrias das irmãs. Corrigira — na prática redigira — as cartas de Elisa, fraca na gramática; lera as de Perpétua, as de Perpétua e as demais. As irmãs, após a morte do major, haviam dividido o dever e o prazer das respostas, como dividiam o conteúdo das encomendas postais, vestidos, blusas e saias, camisolas. Perpétua, quando lhe cabia escrever, vinha com o envelope fechado, tolice! Dona Carmosina não mereceria o ordenado e o privilégio do cargo se não fosse perita em descolar envelopes, ler as páginas num piscar de olhos e pôr tudo em ordem novamente. Só lhe custava conter o desejo de emendar os erros de português.

Além da indefectível bênção do velho Zé Esteves, Deus te abençoe e te aumente, minha filha, cada carta continha queixas da vida, louvores à querida mana e a curiosidade das irmãs e do cunhado. Antonieta respondia com bilhetes curtos — a letra graúda, o papel caro e chique com um A gótico em alto-relevo — que Elisa e dona Carmosina devoravam juntas, ali mesmo na repartição.

Dona Carmosina lera também a carta de Ricardo, a de Ricardo e outras. Aliás, fora a ingênua epístola do rapaz, pedindo à tia bênção, bola de futebol e discrição, que… nada, isso não interessa a ninguém — dona Carmosina afasta a lembrança, retorna às palavras cruzadas: fruta brasileira de origem asiática, cinco letras. Fácil demais.

Essa longa correspondência, agora de repente encerrada sem explicação válida, a não ser doença grave ou morte de Tieta, revestia-se de aspectos dignos de atenção e estudo, a começar pela falta de endereço completo da destinatária de São Paulo, rua, número da porta e do apartamento, se vivesse em edifício; apenas uma caixa postal, fria e anônima. Apesar de Agreste não passar de um ovo onde todos se conheciam, tanto Perpétua quanto Elisa apressaram-se em enviar endereços completos. Perpétua Esteves Batista, praça Desembargador Oliva, número 19; Elisa Esteves Simas, rua do Rosado, 28; inclusive o endereço do pai: José Esteves Filho, beco da Matança, s/nº.

E o marido? Sem idade, sem rosto, impalpável. Prenome, comenda, vagas indústrias, os cabelos brancos na foto da revista. Dona Carmosina dedicou grande parte de seu tempo à análise e ao esclarecimento da apaixonante adivinha. Reunindo dados, pistas, conjecturando.

O major, ainda vivo, encarregara-se da resposta inicial mas não chegou ao fim sem pedir auxílio a dona Carmosina. Ela pôs ordem nas notícias, dando ênfase aos fatos, quando necessário. Carta longa, relatório abarcando cerca de quinze anos de acontecimentos.

Notícias de toda a família, detalhadas. Do pai, Zé Esteves, beirando os oitenta mas sempre rijo, e de Tonha, a segunda esposa (mais moça do que Perpétua, da idade de Tieta, mas acabada na pobreza e no desleixo, simples apêndice do velho). Vivia o casal da caridade de filhas e genros, nada possuindo de seu, nem bens nem rendas. Zé Esteves, trapalhão a julgar-se sabido, na ânsia de enganar os outros pusera fora terras, rebanho de cabras, plantações de mandioca, a casa própria, tudo. Abençoava a filha e a perdoava, pedia-lhe uma esmola. Dona Carmosina modificou a redação, a forma e o conteúdo, em lugar de Zé Esteves perdoar, pediu perdão à filha, falou da velhice e da pobreza, insinuando ajuda; um pai pode pedir perdão mas não pode pedir esmola aos filhos. Trecho tão comovente, na bela letra do major, ia tocar o coração de Tieta, a própria dona Carmosina ficara de olhos úmidos. Sempre tivera jeito para escrever, jeito e vontade. Mas, cadê coragem?

Relato do casamento de Perpétua, nome e título do marido, major Cupertino Batista, oficial reformado da polícia militar do estado, seu cunhado às ordens. Deus abençoara o matrimônio, dera-lhes dois filhos, Ricardo, de cinco anos, Cupertino, dito Peto, de dois, e agora novamente fecundara o ventre de Perpétua, grávida daquele que seria o terceiro se houvesse nascido. O major, bom de espoleta, não negava fogo, constatara dona Carmosina, mas não tocou nesse trecho, não queria histórias com Perpétua. Encarregou-se, sim, de descrever o casamento de Elisa, a noiva mais linda já vista em Agreste, com Astério Simas, filho e herdeiro de seu Ananias, aquele da loja de fazendas da rua da Frente (rua Coronel Artur de Figueiredo), só que a loja nem parecia a mesma. Na longínqua e decadente cidade de Santana do Agreste o comércio reduzira-se à metade naqueles quinze anos. Também a população diminuíra, composta por uma maioria de velhos, pois o clima continuava admirável, prolongando a vida dos que ali se deixavam ficar apesar da pobreza, da falta de recursos e de futuro. O povo só não morria de fome porque o rio e o mangue forneciam com fartura peixes, guaiamus, caranguejos, pitus incomparáveis, e sobravam frutas o ano inteiro: bananas, mangas, jacas, mangabas, pinhas, abacaxis, goiabas e araçás, sapotis e melancias e o coqueiral sem fim e sem dono.

Além das notícias, perguntas: ela, Antonieta, que fazia? Qual o endereço completo? Mandasse contar tudo, tintim por tintim.

A resposta não tardou sequer um mês. Antonieta enviou um cheque em nome do major, pedindo-lhe o favor de descontá-lo e entregar o dinheiro a Zé Esteves, destinava-se a ajudar o pai e a madrasta nas despesas. O pai podia contar com aquele auxílio mensalmente. O valor do cheque despertou atenção e cobiça: dinheiro grosso, bem mais do que o casal necessitava para pagar o casebre onde habitava, mesmo pondo em dia os aluguéis atrasados, para a comida e para a cachaça medida mas indispensável à dieta de Zé Esteves. Perpétua insinuara divisão da ajuda mas um olhar do velho, o bastão erguido em arma de guerra, foi suficiente para encerrar o assunto. Para evitar a ida do major a Alagoinhas, onde fica a mais próxima agência do banco, seu Modesto Pires, dono do curtume, fez o favor de descontar o cheque. Esse primeiro, e todos os demais.

Quanto às perguntas, nem sombra de resposta, resumindo-se Antonieta a informar que, graças a Deus, gozava saúde, casara-se e era feliz apesar de não ter filhos. Sobre o marido, nome, profissão, idade, nenhuma palavra. Endereço? Nenhum melhor, mais seguro, do que a caixa postal 6211, toda correspondência para ali dirigida chegaria às suas mãos.

No transcurso de mais de um decênio, as relações epistolares entre Tieta e a família mantiveram-se absolutamente regulares: uma carta por mês de cada lado, a de São Paulo, poucas linhas, papel e envelope de cor, perfumados. Variando a cor de ano para ano, o perfume mudara uma única vez. Mais suave e discreto o último, estrangeiro, com certeza.

A quantia do cheque crescendo, não somente por causa da inflação. Quando Elisa teve menino e dona Carmosina acentuou as dificuldades de Astério, Tieta somou à ajuda ao pai certa quantia mensal para o leite do menino e sua futura educação. Fazendo o mesmo quando Perpétua lhe escreveu dramática e, por uma vez na vida, sincera, chorando a morte do marido perfeito, a deixá-la viúva com dois filhos nos braços, necessitada. Boca-de-siri sobre as casas de aluguel, as economias no banco, mas Tieta já se dera conta da diferença de sorte das irmãs pois mandava para uma e outra importância igual: se Perpétua tinha dois filhos, bem maiores eram as dificuldades de Elisa. Começaram a chegar os pacotes de roupa usada, os presentes de Natal e de aniversário, mas dela e do marido pouco mais souberam.

Muito pouco, quase nada, mas o suficiente para dona Carmosina juntar as peças e desatar o nó.

Há uns nove anos — nove anos e nove meses, exatamente — num número de Carnaval da revista Manchete, dona Carmosina reconheceu Antonieta, apesar dos cabelos oxigenados, numa fotografia de “foliões em plena animação no baile do Teatro Excelsior, na capital paulista”. Ali estava ela, bem no centro da foto, feliz, aconchegada e amorosa nos braços de senhor de certa idade, a se acreditar nos cabelos brancos. Infelizmente, do cavalheiro via-se apenas as costas, pois dançavam; ela, sim, estava de frente, a boca aberta em riso, o rosto franco e brejeiro, uma gentil senhora, não mais a jovem estabanada cuja partida na boléia de um caminhão Carmosina testemunhara. Crescera em formosura, opulenta de formas. Jamais fora magricela, sua beleza tinha onde pegar-se.

Dona Carmosina convocou a família inteira, foi uma sensação. Perpétua balançou a cabeça, concordando. Antonieta, não havia dúvida; engordara e oxigenara os cabelos. Também o velho Zé Esteves reconheceu a filha:

— Tá pimpona, de cabelo pintado, na moda. Deus te acrescente, minha filha! — Olhava as outras duas, em desafio. Queria ver quem se atreveria a criticar. Na sua vista, ninguém.

Elisa ficou feito doida, não tinha idéia de como fosse a irmã, de agora em diante podia imaginá-la melhor, tão linda na fantasia de odalisca. A notícia da descoberta da revista, transmitida em carta de Elisa, trouxe a primeira pista pois Tieta, na resposta, revelou o prenome do marido: quem a tinha nos braços, no ritmo do samba carnavalesco, era Felipe, seu bem-amado esposo. Felipe de quê, não disse.

Não muito depois, em carta datada de Curitiba, fez referência aos negócios de Felipe, industrial com interesses no Paraná. De outra feita, desculpando-se, atribuiu a demora do envio do cheque — uma semana de atraso —, à enfermidade do comendador a cuja cabeceira a dedicada esposa dera tempo integral. Felipe, industrial e comendador.

Para Perpétua bastava; aliás bastava-lhe o cheque, sendo o resto supérfluo. Elisa, ao contrário, desejava saber mais, muito mais. Durante horas inteiras comentava com Carmosina as reservas da irmã: tem vergonha de nós, medo que a gente abuse da bondade dela. Esquiva-se, no fundo com razão. Com razão, dona Carmosina é quem mais sabe. Tieta saíra corrida — aqui não é casa de puta! —, moída de pancada, por denúncia da irmã mais velha. Boa demais, isso é o que ela é, pois esquecera vexame, delação, a surra, o cajado de marmelo para vir em socorro da família. Boa demais, um anjo, concordava dona Carmosina. Quanto ao motivo das reservas e das reticências a agente dos Correios e Telégrafos silenciava: sobre esse assunto traçara, em segredo, teoria própria.

Reuniu dados, indícios, pistas; mistério digno de Hercule Poirot. Dona Carmosina o resolveu em definitivo quando começaram a chegar as encomendas postais com os elegantes vestidos, as saias e blusas finas, de medidas diversas. Antonieta, em breve frase, explicara a razão dos diferentes talhes: estou mandando uns vestidos quase novos, meus e de minhas enteadas. Enteadas, notem bem, filhas do comendador Felipe mas não dela, que não tinha filhos. Claro como a luz do dia, dona Carmosina Sherlock Holmes. Quem, em Agreste, a iguala, suplanta em inteligência?

Dissolução do vínculo conjugal com separação de corpos e bens, oito letras: divórcio.

Divórcio ou desquite, no Brasil não há divórcio, eta país mais atrasado!, e eis a explicação certa e correta, não há outra.

E aqui façamos nova pausa, um pouco de suspense, próprio dos folhetins. Voltaremos após os comerciais, como dizem os locutores quando, no melhor da intriga, no momento mais empolgante, interrompem as novelas radiofônicas para anunciar sabão em pó e marcas de cigarro, deixando Elisa trêmula e vibrante.

OUTRA VEZ O CHATO,

NA HORA DO DESCANSO

 

UM RÁPIDO PARÊNTESIS — NÃO ME DEMORO — PARA

REVELAR FATOS CONDENÁVEIS, iluminar com o facho da verdade detalhes obscuros, desmascarando mais uma vez a srta. Carmosina Sluizer da Consolação.

Não creiam que a persiga, que não lhe tenha estima. Ao contrário, reconheço-lhe qualidades e louvo os motivos capazes de levá-la a violar a lei dos homens e a lei de Deus, quando generosos ou nobres. Quanto a persegui-la, quem ousaria, em Agreste? Nem o coronel Artur da Tapitanga, nem Ascânio Trindade, tão cumpridor da lei. Com Ascânio ela redige cartas aos jornais da capital, petições ao governo do estado, reclamando ajuda para Agreste. Inúteis, cartas e petições.

Há mais de quinze anos — dos vinte e três de sua nomeação para os Correios e Telégrafos — funciona o ilegal esquema estabelecido por ela e por Canuto Tavares, o outro funcionário da agência, proprietário de oficina de consertos em Esplanada, onde ganha bons cobres, habilidoso como ele só. Permanecesse em Agreste, não progrediria, vegetando a vida inteira, limitado ao magro ordenado de telegrafista em agência de última classe; decidiu abandonar o emprego, mudar-se de vez, levando as ferramentas e a ambição. Ao saber da decisão do colega, Carmosina propôs-lhe barganha capaz de beneficiar os dois: Canuto iria tranqüilo cuidar da oficina em Esplanada, deixando exclusivamente por conta dela o funcionamento da agência dos Correios e Telégrafos de Santana do Agreste, afinal não era trabalho de matar ninguém; em troca, ele lhe daria metade do ordenado. Para Canuto, disposto a demitir-se, a proposta caiu como sopa no mel. Para Carmosina, nem se fala: aumentando-lhe a renda necessária ao sustento da casa — para o qual dona Milu já não podia concorrer devido à idade: parteira quase aposentada, ainda pegava menino, mas de raro em raro — deixava-a senhora única e absoluta de cartas, telegramas, encomendas, revistas e jornais, da vida da cidade e do mundo. Funciona o arranjo há mais de quinze anos — ela saberia dizer exatamente quantos, anos e meses — e em nenhum momento passou pela cabeça de alguém denunciar o escandaloso envio mensal do livro de ponto da repartição a Esplanada para recolher a assinatura de Canuto, levado em mão própria por Jairo. Quem ousaria?

Nela, o que me desgosta é a parcialidade. Queria ver como agiria Carmosina se um dos filhos de Perpétua morresse e a mãe quisesse esconder o fato de Antonieta para conservar a ajuda pontual e íntegra. Se teria idêntico comportamento ao que teve quando Elisa entrou na agência em desespero devido à morte de Toninho. Dona Carmosina a consolara, o inocente deixara de padecer, ruim de saúde desde o nascimento. Dona Milu, ao retirá-lo do ventre de Elisa, se assustara, parecia um feto em formação, verdadeiro milagre ter vivido tanto tempo. Não adiantaram médico e remédio, pagos com as remessas de Tieta, a ida a Esplanada para consultar dr. Joelson, especialista em crianças. O pediatra balançara a cabeça: nem adianta receitar. O pobrezinho descansou e vocês também, quantas noites sem dormir? Mas nem assim Elisa se acalma.

Além de perder Toninho — por mais enfermo e raquítico, era filho e consolo —, perdia a ajuda da irmã, o dinheiro mensal destinado ao leite, aos remédios, aos médicos, à futura educação do sobrinho, e não a cosméticos, revistas, sessões semanais de cinema, pilhas para rádio. Com Toninho partiam para toda a eternidade essas regalias compradas com as sobras da caridade de Tieta. Que fazer, me diga, Carmosina?

Os olhos miúdos, apertados, fitaram Elisa — Carmosina a vira nascer. Dona Milu, emérita aparadeira de menino, chamada às pressas no meio da noite para atender Tonha nas dores do parto, a soprar garrafa vazia a mando de Zé Esteves, levara a filha de ajudante. Carmosina e Tieta ferveram água, auxiliaram e assistiram a delivrança. Perpétua, pudica, trancara-se a rezar. Cada qual ajuda à sua maneira.

Meninota, no caminho da escola, Elisa vinha pedir a bênção à sua mãe de umbigo, dona Milu; regalava-se com queimados feitos de goiaba e coco, uma gostosura. Carmosina foi quem primeiro recordou a Elisa a existência de Tieta, cujo nome a família jamais pronunciava. Tema escandaloso, mas Carmosina arranjava maneira de lembrar a amiga. Ao contar um caso, referia-lhe o apelido e a boniteza: Tieta, tua irmã, estava comigo, bonita de dar gosto. Também Elisa crescera bonita de dar gosto, casara, parira; Carmosina a vira nascer. Elegante no vestido enviado por Antonieta, desesperada, nem sequer filho doente para cuidar, que fazer? Desditosa, era o adjetivo certo. Carmosina aproxima-se, murmura:

— Não mande contar nada…

— Hein?

— Faça como se Toninho não tivesse morrido…

— E se Perpétua fuxicar? Você conhece ela, toda moralista: não tolera mentiras, vive dizendo.

— Se ela ameaçar, você ameaça também: quem tem mais podres a esconder? Ou você pensa que ela fala a Tieta das casas, dos aluguéis, da herança do major? Diz que deposita na Caixa o dinheiro que Tieta manda para as despesas dos meninos porque não lhe faz falta? Diz, uma ova.

Comprove-se a falta de moral de Carmosina a aconselhar mentira e chantagem à amiga em beco sem saída. Falta de honradez também: a par do conteúdo das cartas de Perpétua por abuso de poder não lhe cabe o direito de utilizar tal conhecimento. Mas Carmosina não liga importância aos conceitos da moral, às regras da honradez. Não somente aconselha, dirige a intriga:

— Deixe Perpétua comigo. Eu mesma falo com ela.

Perpétua ergueu os olhos para os céus a pedir ao Senhor perdão do pecado, descerrou os lábios:

— Por mim não vai saber. Se Antonieta cortar o dinheiro que lhe dá, no fim quem vai ter de agüentar com ela e o marido sou eu.

Motivo justo, correto, Perpétua é osso duro de roer, não se deixa chantagear. Carmosina ri de leve, um riso de criança, tão inocente:

Continuar: parte 3 de 3