Trabalho em Plataformas Digitais: uma agenda para a pesquisa pautada em Direitos Sociais

O trabalho imaterial e as novas relações de valores

Podemos perceber que este vínculo psicológico existe entre os atores

observados, já que os mesmos detêm habilidades, condições técnicas e

estéticas em relação ao produto de seu trabalho.

Sobre a habilidade artesanal, Sennett estabelece uma relação direta entre

as habilidades do artífice e a esfera do desejo, supondo haver nele a busca

pela qualidade, vontade de um trabalho bem feito.

Retomando as considerações de Mills:

 

(No trabalho artesanal) O trabalhador é livre para iniciar seu trabalho segundo seu

próprio plano e, durante a atividade pela qual o trabalhador é moldado, é livre para

modificar sua forma e a maneira de sua criação. (...) e o artesão é Sr. da atividade e de si no

processo. (...) sua esfera de ação independente é vasta e racional para ele. Ele é responsável

por seu trabalho e livre para assumir essa responsabilidade. Seus problemas e dificuldades

devem ser resolvidos por ele, em termos da forma que deseja que o resultado final assuma

(MILLS, 1982, p. 61).

 

O trabalho imaterial e as novas relações de valores

Lazzarato e Negri (2001) tratam a subjetividade como carro chefe do

trabalho intelectual, na direção da hegemonia do trabalho imaterial, advindo

como variante do modelo pós-fordista, de onde se extrai que a integração do

trabalho imaterial no industrial e terciário torna-se a principal fonte de

produção e atravessa os ciclos de produção definidos precedentemente. Ao

tratarem da intelectualidade de massa e nova subjetividade, os autores

afirmam que quando o trabalho imaterial é reconhecido como base

fundamental da produção, este processo não investe somente a produção,

mas a forma inteira do ciclo “reprodução e consumo”. Assim, o trabalho

imaterial não se reproduzia na forma de exploração, mas na forma de

reprodução da subjetividade.

Os autores apontam que a transformação das condições gerais de

produção, que agora incluem a participação ativa dos sujeitos, consideram

que o [29] General Intellect como capital ficou sujeitado à produção, e que

toma como base objetiva a sociedade inteira e sua ordem, determinando

uma modificação das formas de poder, concluindo que o trabalho intelectual

esteja nesta fase, em completa adequação aos objetivos da libertação: novo

sujeito, poder constituinte, potência do comunismo.

Os autores tentam apontar características da fase pós-tayloristas,

confrontando-as com a produção da grande indústria e dos serviços. Deste

confronto, extrai-se a afirmação de que seria o trabalho imaterial fonte de

inovação contínua das formas e condições da comunicação, e, portanto, do

trabalho e do consumo, produzindo, acima de tudo, uma relação social de

inovação e produção. Diante desta reprodução, sua atividade tem valor

econômico, não produzindo o trabalho apenas mercadorias, mas acima de

tudo, uma relação de capital. Assim sendo, a “matéria-prima” do trabalho

imaterial é a subjetividade e o “ambiente ecológico” no qual esta

subjetividade vive e se reproduz e ainda, que os trabalhadores imateriais

(segundo os autores, aqueles que trabalham na publicidade, moda,

marketing, televisão, informática, etc.) satisfariam uma demanda do

consumidor e ao mesmo tempo a constituiriam.

Sendo as formas de vida a fonte de inovação. Restando ao econômico a

possibilidade de gerir e regular a atividade do trabalho imaterial e de criar

dispositivos de controle da tecnologia de informação e comunicação e de

seus processos organizativos.

Apontam para uma superação do conceito de criatividade como expressão

de “individualidade” ou como patrimônio das classes “superiores”,

analisando dois modos de demonstrar a relação entre trabalho imaterial e

sociedade, o de Simmel e a criatividade do trabalho intelectual e o de

Bakhtin com a teoria da criatividade social[30].

Sobre os fluxos de trabalho, tomando a Benetton como referência,

Lazzarato propõe a tese de que se não se vê mais a fábrica não porque haja

desaparecido, mas porque foi socializada, e neste sentido tornou-se

imaterial, de uma imaterialidade que continua assim mesmo a produzir

relações sociais, valores, lucros.

Lazzarato explica a organização desta empresa segundo o método

franchising, que preza a gestão social e política das redes através da

“marca”, mais do que de vínculos diretos, disciplinares ou administrativos.

Assim, na empresa pós-fordista, a produtividade da publicidade encontra a

sua razão de ser econômica não tanto na venda, mas na “produção de

subjetividade”, sendo que a publicidade não serviria somente para informar

sobre o mercado e sim para construí-lo, interagindo com o consumidor não

só quanto às suas necessidades, mas, sobretudo aos seus desejos, sendo

necessário conhecer e solicitar a ideologia, estilo de vida e concepção de

mundo do consumidor.

Lazzarato debruça-se sobre a crítica a Marx, supondo que em Marx o

conceito de “produção” é um conceito metaeconômico, e que a

“descoberta” científica de Marx diz respeito ao conceito de “trabalho vivo”

(sujeito vivente que é presente no tempo e não no espaço) e de “força de

trabalho”, não limitando-se ao “trabalho”.

 

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