Tradução e perspectivas teóricas e práticas
Tradução & Psicanálise – um encontro a convite de Freud
Tradução & Psicanálise – um
encontro a convite de Freud
Maria Paula Frota1
Como sabido, a tradução, por sua própria natureza, constitui-se como atividade complexa, diversificada, múltipla: é feita necessariamente da diferença entre línguas e linguagens, sociedades e culturas, épocas, ideologias; entre recursos tecnológicos e entre possibilidades humanas de acesso às produções culturais. Quanto aos tradutores, de um modo geral eles são, desde sempre, tradutores e poetas, tradutores e teólogos, tradutores e filósofos, e linguistas, e advogados, e economistas, e jornalistas, e psicanalistas; ou seja, somos sempre tradutores e. Isso se dá mesmo no caso de tradutores cujas formações, historicamente mais recentes, se fazem em cursos e programas voltados para a tradução, pois que, para traduzirem, é preciso que se especializem em determinadas áreas, respectivas linguagens e tecnologias. Se assim é, somos mesmo “naturalmente” (no mínimo) bidisciplinares – nosso campo é “em si” tradução &. Quanto aos Estudos da Tradução, consequentemente eles também, desde sempre, se constituem como articulação de campos disciplinares diversos; ou, conforme já se disse, como uma interdisciplina.
Acrescente-se a também inevitável multidisciplinaridade destes tempos, a qual nos leva a adentrar terceiros (e quartos) novos domínios, reforçando a complexidade dos trabalhos dos tradutores e de seus estudos. Lembro aqui Stanley Fish e o título de um artigo
seu, “Being interdisciplinary is so very hard to do” (1994).2 Ao multiplicar perspectivas e leques conceituais, a interdisciplinaridade exige extremo cuidado no trato de noções geradas fora dos campos em que fomos primeiramente formados e a cujos meandros estamos mais afeitos.
Entre os tradutores, no entanto, parece necessário, mesmo inevitável, o enfrentamento de tal dificuldade. Neste trabalho, procurarei reafirmar a importância da articulação entre os campos da tradução e da Psicanálise. Gosto de pensar que faço esse cruzamento de fronteiras a convite do próprio Freud, que, no texto de 1913 intitulado “O interesse científico da Psicanálise”, explicitamente incentiva relações entre a Psicanálise e outras várias esferas disciplinares: “a Psicanálise pode também pretender o interesse de outras pessoas além dos psiquiatras, [já] que ela toca em várias outras esferas do conhecimento e revela inesperadas relações entre estas e a patologia da vida mental” (Freud, 1996a, p.169, grifo meu).
Muitos de nós, estudiosos da linguagem e da tradução, não raro na companhia de psicanalistas que por sua vez vêm ao nosso encontro, nos diferenciamos do “grande número de psiquiatras e neurologistas [e demais cientistas que] se opõem [à Psicanálise] e rejeitam tanto seus postulados quanto suas descobertas” (Freud, 1996a, p.169). Difícil parece-me, hoje, falar de qualquer ato, marcadamente os de língua, sem considerar o inconsciente, o recalcado, o desejo que constitui esse ato e que nesse próprio ato se constitui, veladamente se expressando. Difícil parece-me, hoje, falar de atos tradutórios, sobretudo dos falhos, ignorando formulações freudianas, como as que os lapsos de língua implicam.
Na primeira parte do trabalho de 1913, Freud, já ele também reciprocamente desinteressado do “círculo de savants interessados na síntese das ciências”, dirige-se aos psicólogos em busca de sua atenção ao novo método terapêutico, argumentando que múltiplos fenômenos que envolvem o corpo, a fala e muitos processos intelectuais, não só em pessoas doentes como também nas saudáveis, seriam concernentes à Psicologia, tanto mais que se vinham revelando “invariavelmente insatisfatórias” as explicações que os médicos, quando chegavam a investigá-los, atribuíam àqueles fenômenos. Tendo-os como exclusivamente anormais e de natureza exclusivamente fisiológica, concebiam-nos como “simples resultados de distúrbios orgânicos ou de uma falha no funcionamento do aparelho mental” (Freud, 1996a, p.169-70).
Mas que fenômenos ou processos são esses que, segundo Freud, seguem as mesmas regras, sejam eles descritos como normais ou como patológicos? No âmbito do texto aqui em questão, Freud refere-se com mais detalhes aos sonhos e às parapraxias. Logo que começa a falar dessas últimas, os tradutores, os linguistas, enfim, os estudiosos da linguagem, nos juntamos aos psicólogos, estes, como já dito, interlocutores manifestos de Freud nessa aludida parte de seu trabalho. Ao termo parapraxias ele relaciona a ocorrência em “pessoas sadias e normais” de fatos que no famoso livro de 1901, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (Freud, 1996b), havia discriminado sobretudo como atos falhos e, em vários aspectos um subtipo deles, os lapsos de língua – manifestações do primeiro tipo, “o esquecimento do que pretendíamos fazer”; “colocação de coisas em lugares errados e incapacidade de encontrá-las; perda de objetos”; e, manifestações do segundo tipo, o “esquecimento de palavras e nomes que nos são normalmente familiares”; “incursão em lapsos de [fala] e escrita; erros de leitura”; “enganos em assuntos que conhecemos muito bem e certos gestos e movimentos habituais” (Freud, 1996a, p.170).
Freud lamenta que todos esses fatos estivessem recebendo pouca atenção na Psicologia, tendo sido “classificados como exemplos de ‘distração’, atribuídos à fadiga, à falta de atenção ou aos efeitos colaterais de certas doenças leves”. Com um contra-argumento genial, faz ver aos psicólogos que a Psicanálise, “com certeza suficiente para satisfazer a todos os requisitos”, demonstra que aqueles fatores (fadiga, distração) “operam simplesmente como facilitadores e podem [até mesmo] achar-se ausentes” (Freud, 1996a, grifo meu).
E quanto aos tradutores, que trabalham e estudam a linguagem? Acreditamos que nossos lapsos de leitura e de escrita, de escuta e de fala, de visão, só ocorrem por estarmos exaustos e apressados, desatentos? Serão os curtos prazos ou outros fatos alheios (?) a nós os responsáveis exclusivos por aquelas falhas cometidas mesmo em matérias que bem conhecemos? Veja-se: Freud aí não se refere em absoluto a erros que resultam de eventual ignorância e, sim, àqueles que envolvem ideias, palavras e circunstâncias que nos são bem familiares. E mais: a tropeços indiscutíveis,
injustificáveis pelo contexto e assumidos por seus próprios autores.3
Ao invés de negarmos ou denegarmos essas falhas, sigamos com Freud: as parapraxias, os atos (de linguagem) falhos, são fenômenos psíquicos que “sempre possuem um significado e uma intenção”; um impulso ou um desejo que, para evitar algum tipo de desprazer, precisou e precisa ainda ser recalcado, mas que insiste em se manifestar e para isso se vale de caminhos indiretos.
[E]squecemos obstinadamente um nome próprio se nutrimos
um rancor secreto contra seu possuidor; esquecemos de levar
adiante uma intenção se, na realidade, formulamo-la contra a
vontade [...]; perdemos um objeto se ele faz lembrar alguém
com quem tivemos uma briga (1996a, p.170-1).
Em muitos casos as análises dos atos falhos, dos lapsos de língua, são “fáceis e rápidas”: a “memória revela sua parcialidade mostrando-se pronta a impedir a reprodução de impressões comprometidas com uma emoção angustiante” (Freud, 1996a, p.171). Em outros tantos casos, sua análise “exige explicações menos óbvias, devido à entrada em ação de um processo que descrevemos como ‘deslocamento’” (Freud, 1996a, p.171). Por exemplo, o autor do lapso não nutre nenhum sentimento ruim em relação à pessoa cujo nome foi esquecido, mas o esquecimento ocorreu devido à coincidência ou semelhança entre seu nome e o da pessoa com que de fato ele antipatiza – “a intenção de esquecer foi, por assim dizer, deslocada ao longo de certa linha de
associação” (Freud, 1996a, p.171). 4
As associações implicadas nos lapsos, talvez caiba lembrar, dão-se mais tipicamente pela via do significante, quando, como no caso mencionado acima, faz-se uma ponte verbal, isto é, aproximam-se materialmente a forma correta que foi esquecida e a forma incorreta que a substituiu; e/ou pela via do sentido, ponte associativa, caso em que se troca o nome de uma pessoa pelo nome de alguém que a ela associamos, ainda que seu nome seja bem diferente. Essas vias associativas se dão a ver no famoso lapso freudiano que envolveu o esquecimento do nome do pintor Signorelli e sua substituição pelos nomes de dois outros pintores, um deles Botticelli, e que envolveu também, na intrincada rede que o sobredeterminou, a palavra alemã Herr (Signor no italiano), termo-chave de uma anedota que Freud havia recalcado, entre outros termos e relatos, pela necessidade de evitar o desprazer, motivo mais comum do
recalcamento. 5
Considerando-se as dificuldades próprias a qualquer relação interdisciplinar e em particular aquelas que comparecem na articulação que aqui nos interessa de modo central, vale sublinhar a conveniência de trazermos os lapsos de língua logo ao início de um trabalho introdutório como este. Afinal, como disse Freud, “as parapraxias constituem o material mais conveniente para quem desejar convencer-se da fidedignidade das explicações psicanalíticas” (1996, v.XIII, p.171).
Mas voltemos ao convite de Freud a possíveis novos pares. Se, no texto de 1913, é aos psicólogos que ele se dirige em primeiro lugar e mais detidamente – propondo-lhes atenção às parapraxias como ocorrências de motivação psíquica e falando-lhes dos sonhos, cuja interpretação constitui ao mesmo tempo uma conquista da maior importância pela Psicanálise e “o primeiro conflito da Psicanálise com a ciência oficial” (Freud, 1996a, p.172) –, é aos filólogos que ele se dirige logo ao abrir a segunda parte do texto, a qual se intitula “O interesse da Psicanálise para as ciências não psicológicas”. Sabendo-se que a Filologia era a Linguística da época, e mais, que esta está na base da dupla formação de incontáveis tradutores, pode-se dar a esse gesto de Freud grande valor. Logo nas primeiras linhas da seção (ambiguamente intitulada) “(A) O interesse filológico da Psicanálise”, é proposto que entendamos fala não apenas como a expressão do pensamento por palavras, mas também como “a linguagem dos gestos e todos os outros métodos, por exemplo, a escrita, através dos quais a atividade mental pode ser expressa” (Freud, 1996a, p.179, grifo meu).
Podemos enxergar no parágrafo acima algumas questões de interesse: antes de mais nada, uma reiteração de Freud relativamente à sua dissidência com o neurobiologismo, com o fisiologismo da “ciência oficial”; junto a essa ruptura, podemos enxergar a também reiterada importância que ele dá à interdisciplinaridade, e, em especial, a revelação de seu interesse em interagir com o saber dos filólogos (linguistas) e em trazer a estes algumas conquistas da Psicanálise. Como sabido, não são poucos os que há tempos se interessam por esse intercâmbio, sobretudo Jacques Lacan e, em meio aos linguistas, Émile
Benveniste.6 E sublinhe-se a existência de uma via de mão dupla, uma troca de fato entre saberes sobre a linguagem: Freud não só leva ou propõe que se leve a Psicanálise para outros campos, como também traz e propõe que tragam para a Psicanálise conhecimentos produzidos nesses campos com os quais interage, a Filosofia, a Biologia, a História, a Estética, entre outros. Vejamos que interessante o que ele explicita:
Se essa concepção do método de representação nos sonhos
[como em uma antiga escrita pictográfica, como os hieróglifos
egípcios] ainda não foi levada avante, isto, como facilmente se
compreenderá, deve ser atribuído ao fato de os psicanalistas
ignorarem completamente a atitude e o conhecimento com que
um filólogo abordaria um problema como o apresentado pelos
sonhos. (Freud, 1996a, p.180, grifos meus)
Em meio ao presente assunto, vale lembrar o que afirmou Lacan acerca da Interpretação dos sonhos (Freud, 1996c): “Freud faz Linguística sem que o saiba, sem que tenha disso a menor ideia” (Lacan, 1977, p.10).
Se atribuímos grande valor a esse gesto freudiano de reunir saberes de psicanalistas e linguistas, como tradutores podemos também encontrar grande satisfação quando, ainda nas primeiras linhas da seção em que propõe o referido encontro, logo após indicar sua compreensão de “fala”, lemos o seguinte:
Pode-se salientar que as interpretações feitas por psicanalistas
são, antes de tudo, traduções de um método estranho de
expressão para outro que nos é familiar. Quando interpretamos
um sonho estamos apenas traduzindo um determinado
conteúdo de pensamento (os pensamentos oníricos latentes) da
“linguagem de sonhos” para nossa fala de vigília. (Freud,
1996a, p.179)
Essa analogia entre tradução (Übersetzung) e interpretação (Deutung) de sonhos (Traumdeutung) comparece com imensa frequência ao longo de toda a obra freudiana. A rigor, a esses dois termos e noções somam-se outros tantos que são usados por Freud, ao que parece, de modo em geral intercambiável: “conceitos como inscrição, retranscrição, transcodificação, rearranjo, combinação” (Andrade, 2013, p.127).
Fundamental destacar que tais noções e termos são usados na obra freudiana para muito além da interpretação de sonhos pelos psicanalistas. Eles são usados para formular a construção do sonho em suas etapas, digamos assim, e, mais ainda, para formular as relações que se dão entre diferentes momentos ou lugares na estruturação e funcionamento do aparelho psíquico como um todo: “A linguagem do sonho pode ser encarada como o método pelo qual a atividade mental inconsciente se expressa” (Freud, 1996a, p.180). Cada um daqueles momentos ou lugares é concebido como uma escrita, ou melhor, como uma reescrita, já que concebidas como tradutórias as relações que se dão entre eles. Não são poucos os autores que, como Jacques Derrida no ensaio “Freud e a cena da escritura” (1995), percorrem a obra de Freud com vistas a mostrar como ele, desde seus textos iniciais, mais do que comparar o funcionamento psíquico à linguagem, representa o sistema psíquico como um aparelho de escrita – o que fica mais ainda esclarecido com a figura do bloco mágico que Freud descreveu em um texto de 1924-5, “Uma nota sobre o bloco mágico” (1996d). Ainda recorrendo-se a um uso menos específico de “tradução”, diz-se que Freud, ao escrever a Psicanálise, “traduz” o psiquismo neurobiológico que se escreveu até ele.
Mas esses empregos do termo Übersetzung por Freud, inclusive porque intercambiável com tantas outras expressões, nos são menos relevantes do que as reviravoltas que ele provoca nas formas de conceber essas operações “tradutórias” e os elementos nelas implicados. Os fragmentos abaixo, também transcritos do trabalho de 1913, não só reforçam o que se vem aqui escrevendo como adiantam alguns aspectos que, dessa linguagem e dessa (re)escrita que Freud atribui ao psiquismo, muito interessam aos Estudos da Tradução, e, a bem dizer, a qualquer estudo sobre a linguagem:
Se pensarmos que os meios de representação nos sonhos são
principalmente imagens visuais e não palavras, veremos que é
ainda mais apropriado comparar os sonhos a um sistema de
escrita do que a uma linguagem. Na realidade, a interpretação
dos sonhos é totalmente análoga ao deciframento de uma
antiga escrita pictográfica, como os hieróglifos egípcios. (Freud,
1996a, p.180, grifo meu)
Com deciframento, podemos entender que Freud, bem ao gosto contemporâneo, quer marcar o caráter opaco da escrita (da linguagem) e o respectivo trabalho que ela impõe às suas interpretações ou leituras. Também aí ele fala de “ambiguidade”, de “omissão”, de “contexto”. Também aí ele fala da heterogeneidade do sistema, das variações linguageiras, por exemplo, quando afirma que “o inconsciente fala mais de um dialeto” (Freud, 1996a, p.180). Ora, se ao lado de tudo isso sabemos como Freud sublinha a plasticidade das línguas e o caráter fundamentalmente inconsciente do psiquismo, concluímos que em relação aos nossos atos de linguagem temos muito menos controle do que costumávamos supor. Como se diz, somos muito mais falados do que falamos; somos muito mais (re)escritos do que (re)escrevemos...
Essa visão freudiana de fala e de escrita, da linguagem de um modo geral, do simbólico, enfim, a qual rompe com a imaginária transparência das línguas e o imaginário controle do sujeito sobre o que diz, o que faz, está forçosamente implicada na ruptura da Psicanálise com a “ciência oficial”. Em outras palavras, essa ruptura maior, digamos assim, com a ciência racionalista e idealista, se dá na medida mesmo em que a Psicanálise é construída como um verdadeiro sistema de noções e proposições que subvertem as tradicionais e hegemônicas concepções de sujeito, de linguagem, de cultura, e toda uma constelação conceitual que com elas se forma. De interesse direto para o campo da tradução, considerado em sua pluralidade atual, logo ocorrem, concebidas necessariamente à luz do sujeito do inconsciente, a própria noção de tradução e outras formas de reescrita; as noções de origem (de original), de autoria; a escrita e a leitura, a fala e a escuta; o corpo...
Essa inter-relação de noções freudianas torna-se ainda mais rica e complexa, e tão mais aprofundam nossas reflexões e práticas tradutórias, quando a elas se articulam formulações de Lacan acerca do funcionamento psíquico, em suas dimensões do real (o que escapa à apreensão total), do simbólico (a ordem dos
significantes) e do imaginário (o registro das ficções). 7 E outras tantas formulações lacanianas que se fizeram em meio à ciência de Freud – e à de Saussure (e à de Jakobson), transformando-a – e que conosco temos trazido, tradutores & e psicanalistas-tradutores, para o campo da tradução, no qual, aos poucos, vêm operando transformações importantes.
Detenho-me aqui brevemente para trazer um gesto subversor de Freud que considero dos mais importantes: sua reiterada desconstrução da perversa lógica binária que nos acompanha e rege através dos séculos. Trago esse gesto na forma que ele assume diante da dicotomia normal/patológico, a qual compareceu em páginas anteriores, em meio a citações de textos do próprio Freud. Embora a utilize em toda a sua obra, Freud, a meu ver, não cessa de, explicitamente, tentar desembaraçar-se dela. Apenas cito um fragmento, entre tantos possíveis, no qual ele questiona a possibilidade da cura pela Psicanálise, ou seja, de se “chegar a um nível de normalidade psíquica absoluta” e definitiva (Freud, 1996e, p.235). Sem negar a dificuldade da questão, Freud se diferencia tanto dos céticos quanto dos otimistas, que, claro, se mantêm presos ao dualismo que ele desconstrói:
Um ego normal é, como a normalidade em geral, uma ficção
ideal. O ego anormal, inútil para nossos fins, infelizmente não é
ficção. Na verdade, toda pessoa normal é apenas normal na
média. Seu ego aproxima-se do ego do psicótico em um lugar
ou em outro e em maior ou menor extensão, e o grau de seu
afastamento de determinada extremidade da série e de sua
proximidade da outra nos fornecerá uma medida provisória
daquilo que tão indefinidamente denominamos de “alteração do
ego”. (Freud, 1996e, p.251, grifos meus)
Sendo a interdisciplinaridade o norte principal deste trabalho e do livro que o acolhe, na medida em que se constitui como um companion, uma coletânea de textos introdutórios que articulam a tradução com outros campos e temas, interessa-me aprofundar ao menos um pouco a transformação que lentamente se opera, com a
Psicanálise, nas práticas e nas reflexões tradutoras. 8 Trata-se, mais do que uma transformação, de uma revolução que vem de dentro, no sentido de que pega por dentro o tradutor que entra – e fica –
com a Psicanálise.9 Não é possível, creio, interagir com a Psicanálise de fora dela, simplesmente, a partir da tradução, aplicando seu saber de acordo com determinados interesses. Quando alguém está com a Psicanálise, é fortemente convocado e afetado por ela, passa (também) para seu campo, torna-se interdisciplinar com toda a dificuldade que “ser interdisciplinar” acarreta. Não se torna necessariamente um psicanalista, o que até pode ocorrer, mas fica enredado pela Psicanálise assim que perceba para valer, como disse Lacan, que “o inconsciente não deixa nenhuma de nossas ações fora de seu campo” (1996, p.273). Por isso devo discordar de Antoine Berman quando leio sua opinião de que “a abordagem psicanalítica da tradução deve ser obra dos próprios analistas” (veja-se trabalho da tradutora e intérprete de textos de psicanalistas Márcia Pietroluongo, 2013, p.48). Não concordo com esse Berman (2013, p.64) que nunca tinha visto (“cegueira” momentânea?) no “albergue longínquo”, mas continuo a concordar com aquele que há tempos pude enxergar na “prova do estrangeiro” e que, entre outros, me incentivou a rever a tradução com a Psicanálise: “A Psicanálise mantém, sem dúvida, uma relação ainda mais profunda com a tradução, na medida em que interroga a relação do homem com a linguagem, as línguas e a língua dita ‘materna’ de uma maneira fundamentalmente diferente
daquela da tradição” (Berman, 2002, p.317).10 Praticar e pensar a tradução com a Psicanálise significa, portanto, experimentar a tradução – a vivência de seus processos e nossas expectativas em relação aos textos que produzimos – de modo muito distinto daqueles que nos são tradicionalmente apresentados.
Já vimos como o simbólico, a escrita, o deciframento são vitais à Psicanálise, uma vez que é com eles que se constitui e funciona o aparelho psíquico, sendo também feitas de linguagem – em sua constituição, em seu relato ou mostração, e em seu deciframento – as formações daí advindas, como os sonhos, os lapsos de língua, os chistes. Na Psicanálise só há sujeito porque há linguagem: é no simbólico, em nosso assujeitamento a ele, que nos tornamos sujeito; o sujeito da Psicanálise é o sujeito do desejo do inconsciente e é de linguagem que este se faz, nela se dando (veladamente) a ver.
No já aludido texto sobre o bloco mágico, Freud descreve esse pequeno invento que surgira no mercado e em cuja construção ele percebia “uma concordância notável com minha estrutura hipotética de nosso aparelho perceptual” (Freud, 1996d, p.256): uma prancha de resina ou cera escura sobre a qual há duas folhas transparentes, firmemente presas na borda superior da moldura que contorna toda a prancha de cera. Com um estilete pontiagudo “escreve-se” sobre a primeira folha, de celuloide, assim pressionando-se também a segunda folha, de papel encerado, contra a prancha de cera, dando-se então a ver o que foi escrito no papel antes limpo. A folha de celuloide, externa, protege como um escudo a folha de papel, intermediária, que é mais frágil. Querendo-se eliminar o que foi escrito, basta levantar a folha dupla pela borda inferior, que não está presa à moldura, e tem-se novamente uma superfície limpa para receber novas inscrições. No entanto, e o mais importante, os traços continuam impressos na cera de forma permanente e legíveis sob uma luz adequada. Aí está o interesse maior de Freud pelo bloco mágico, a possibilidade de demonstrar o inconsciente, para além da estrutura do aparelho perceptual da mente. Como lemos em um ensaio de Lenita Esteves:
Freud conclui então que, assim como a folha transparente do
bloco mágico, a camada que recebe as inscrições não conserva
traços permanentes, o sistema das percepções também não
grava os estímulos que recebe. Ou seja, “os fundamentos da
memória ocorrem em outros sistemas, contíguos” [...]. Os traços
mnêmicos estariam, assim, impressos no sistema inconsciente,
deixando o sistema perceptual livre para novas impressões.
(2013, p.95)
Um pouco adiante nesse mesmo ensaio – parte de sua tese de doutorado ainda inédita, na qual faz um paralelo entre a escrita de Joyce e algumas formações do inconsciente, indagando sobre sua (in)traduzibilidade –, Esteves, incorporando em seu discurso a analogia ou metáfora freudiana, escreve:
Os traços que ficam marcados na placa de cera do bloco
mágico são traços significantes que, ao se combinarem em uma
estrutura de linguagem, irrompem na nossa fala em um chiste,
se organizam em um sonho, provocam um ato falho. Aquilo que
possibilita as formações do inconsciente é a articulação de
letras. Em outras palavras, o inconsciente tem estrutura de
linguagem. (Esteves, 2013, p.95-6, grifos meus)
Do livro que Freud escreveu sobre os chistes (1996f), Esteves extrai diferentes casos sobre os quais se detém; alguns deles (ver Esteves, 2013, p.76) permito-me transcrever aqui livremente, sem as caracterizações e análises que ela faz. Creio que essas formações falem por si, dando a ver sua “articulação de letras”: Em um salão de Paris, um jovem, ruivo e de sobrenome Rousseau, era apresentado como sendo parente do famoso Jean-Jacques Rousseau. Devido a seu torpe comportamento, a dona da casa disse ao cavalheiro que lhe havia apresentado o jovem: “O senhor me apresentou um rapaz que é roux (ruivo) e sot (tolo), mas não um Rousseau”. Outro chiste: dois judeus se encontram em frente a uma casa de banhos. Um pergunta: “Tomou um banho?”. O outro responde: “Por quê? Está faltando algum?”. Ainda um terceiro chiste, o comentário de que certo jovem e promissor político “tinha um grande futuro atrás de si”, agora que seu partido não tinha mais possibilidade nenhuma de chegar ao poder.
Feitas de traços, de letras, trata-se de formações com graus variáveis de (in)traduzibilidade. Os rébus, enigmas do tipo citado abaixo, são trazidos por Viviane Veras como casos radicais de (de)ciframento, por isso mesmo apreciados por Freud como exemplos da linguagem figurativa dos sonhos:
Frederico II da Prússia, grande amigo de Voltaire, envia-lhe um
bilhete em que está escrito 6 heures sous P à 100 sous 6, que,
lido em francês, soa como Six heures souper à Sans Soucis. A
resposta de Voltaire resume-se a “G a”, que pode ser lido como
G grand a petit – na literalidade do francês, a frase se impõe
por si: J’ai grand appétit. (Veras, 2009, p.3)
“[Se o] traduzirmos para o português – ‘6 horas sob P em 100 sob 6’/‘Seis horas, cear em Sans Soucis’ e ‘Ge grande a pequeno’/‘Tenho grande apetite’” –, como diz ela, “perdemos o valor literal em que se oculta o texto em língua francesa, uma vez que a letra não é traduzível” (Veras, 2009, p.3). E, como ela também indica, perde-se a graça, cala-se o riso.
A propósito, no livro sobre os chistes, o tradutor inglês James Strachey faz em seu prefácio um pequeno tratado sobre a “intradução”, mostrando três paliativos possíveis, dos quais opta por um:
“Traduttore – Traditore!” – tais palavras [...] podiam ser
convenientemente inscritas na página de rosto do presente
trabalho. [...] Aqui, como em A interpretação dos sonhos e A
psicopatologia da vida cotidiana, e talvez em maior extensão,
somos confrontados por um grande número de problemas
envolvendo algum jogo de palavras intraduzível. [...] Dispomos
de dois métodos [...] – ou abandoná-los de todo ou substituí-los
por exemplos do próprio tradutor. Nenhum desses métodos
parece adequado a uma edição que pretende apresentar tão
acuradamente quanto possível as ideias de Freud aos leitores
[...] devemos nos satisfazer em fornecer as palavras críticas no
alemão original, explicando-as tão brevemente quanto possível
nos colchetes ou notas de rodapé. Inevitavelmente, é claro, o
chiste desaparece nesse processo. [...] Presumivelmente [,
porém,] o leitor tem [os argumentos de Freud] em vista, mais do
que um momento de diversão. (Freud, 1996f, p.14, grifos meus)
Nessas poucas linhas pode-se enxergar, de forma menos ou mais explícita, pelo menos metade das crenças que ao longo dos séculos vêm animando nossos trabalhos no campo da tradução. Tendo como foco em seu ensaio a transmissão da Psicanálise e em particular a do livro dos chistes, Veras faz um recorte do prefácio de Strachey um tanto diferente do que lemos anteriormente, e, dentre vários comentários, chama atenção para o maior valor que o tradutor atribui às ideias e argumentos de Freud, em detrimento da materialidade da letra ou, como diz ela, “vestimenta chistosa”, caracterizada pelo tradutor como “momento de diversão”. No presente trabalho, chamo atenção para as expressões que lá grifei: “tão acuradamente quanto possível” e “devemos nos satisfazer em fornecer as palavras críticas no alemão original, explicando-as tão brevemente quanto possível nos colchetes ou notas de rodapé”. Deixemos em reserva essas expressões, pois que vale reunir mais
material para sua discussão. 11
Como também se lê no prefácio de Strachey, e muitos já sabem, os trabalhos de Freud “suscitam agudas dificuldades para o tradutor” (Freud, 1996f, p.14). Não só chistes, sonhos e lapsos de língua. Incontáveis termos da metapsicologia freudiana constituem, com discussões infindáveis, um dos eixos mais profícuos na articulação da Psicanálise com a tradução. Na coletânea de 2013 que pioneiramente aqui no Brasil reúne apenas trabalhos produzidos na
interface dos dois campos, 12 Tradução e Psicanálise , temos três ensaios centralmente focados nessa problemática, que, como muito bem mostram, fica a cada dia mais complexa, considerando-se que a obra de Freud passou ao domínio público, multiplicando as traduções nacionais; que dificilmente podemos discutir termos freudianos sem trazer aqueles que Lacan forjou e suas respectivas traduções para o português e o espanhol; que não há como escaparmos do confronto dos termos alemães e franceses com a tradução de Strachey para o inglês, original das obras completas de Freud feitas no Brasil pela Imago; que traduções inicialmente incorretas, caso, por exemplo, de falsos cognatos, acabaram por se cristalizar com o uso, ganhando assim uma força contra a qual dificilmente se justificaria lutar; que a tecnologia permite cada vez mais acesso aos múltiplos usos e fontes de pesquisa e cada vez mais discussões e opiniões.
Veja-se o alemão Phantasie, traduzido para o francês fantasme, por sua vez traduzido para o português e o espanhol não por fantasia e fantasía, e sim pelo falso cognato fantasma (coincidente nas duas línguas), que no francês se diria phantôme (ver Escalante, 2013, p.404). Pedro Heliodoro Tavares (2013), em um trabalho de impressionante minúcia, traz o verdadeiro emaranhado em que se encontra enredado o pequeno e poderoso Trieb, percorrendo tortuosos caminhos etimológicos em vários idiomas e diversos usos em diferentes perspectivas teóricas, sutis nuances semânticas em múltiplas classes gramaticais, com o devido cuidado com os usos consagrados, sem o superado afã de eleger um termo único verdadeiro. Resumindo: Trieb, bem ao gosto de Freud um “conceito-limite” (entre necessidades biológicas e demandas psíquicas), que por isso não se deve confundir com Naturtrieb nem com Instinkt, mas que foi traduzido por instinct no inglês (por que não drive?), e que no francês Lacan traduziu pelo “quase neologismo” pulsion, e no português foi consagrado como ambos, pulsão e instinto, visto que nos chegou indiretamente por essas duas traduções (sendo, alternadamente, uma execrada e a outra, admirada), às quais veio reunir-se impulso, proposta em uma das três novas traduções brasileiras da obra freudiana... Mas a história triebiana não termina aí, pois que, como explica Tavares (2013, p.148-59), se a crítica a instinto devia-se em grande parte ao uso de Instinkt por Freud para, distinguindo-o de Trieb, tratar do estritamente biológico, não se pode ignorar agora que Freud utiliza Impuls ou mesmo Antrieb para tratar também de uma força momentânea... Aparentemente, conclui Tavares, seguimos à deriva... A propósito, por que não deriva?!
Some-se a esses e outros tantos intrincados debates acerca mais especificamente de termos metapsicológicos freudianos o estilo desse cientista esteta em sua escrita como um todo, a um só tempo coloquial e literário. E mais, como já indicado aqui antes e tão sagazmente percebido por André Medina Carone (2013), Freud constrói, “com consciência plena do perigo”, uma teoria científica que se faz com as mesmas matéria e forma (simbólicas) de seus objetos – “condução sinuosa da linguagem em meio a pontos escuros”, “coragem do autor que, privado dos meios para esclarecer, sabe aceitar a escuridão que habita a palavra”, “apresentação indireta de um objeto que não se dá a conhecer, mas pode ser figurado por suposições, metáforas, construções teóricas inacabadas e até por análises de sonhos, em meio a mudanças de perspectiva” (Carone, 2013, p.176, grifos meus). Um estilo, a julgar pelo que é dito, marcadamente diverso do gênero acadêmico-científico do qual se valeu Strachey em sua tradução que, por isso mesmo, foi muito criticada e, também, muito difundida.
Um dos traços da revolução freudiana, que Lacan fortalece, consiste justamente nessa sua compreensão do simbólico e de nossa relação com ele: uma relação de assujeitamento a uma ordem simbólica que nos antecede, mas que, dada sua plasticidade, deixa-se romper por formações inesperadas feitas pelo sujeito do desejo, que exatamente aí se constitui. Formações como as que temos visto nos lapsos, nos chistes, nos sonhos. Esse, eu diria, é um momento áureo no encontro dos tradutores com a Psicanálise. Vivenciar linguagem e sujeito a partir da Psicanálise faz toda diferença para qualquer tradutor. Com Freud, na contramão da histórica exigência de clareza, unidade e estabilidade “idealizadas pela racionalidade”, vamos aos poucos encontrando conforto em uma lógica ou em uma noção do simbólico tradicionalmente rejeitada, curiosamente tida como irracional. Em vários momentos nestas páginas viu-se um Freud situado em meio à opacidade, ao duplo sentido, aos espaços fronteiriços, à incompletude, parecendo estar bem aí nesses lugares, pois que estes, sim, são reais, os mais frequentes, sem dúvida os possíveis. Leiamos um pequeno trecho no qual Freud comenta aquele nosso mais conhecido chiste:
Um admirável exemplo de chiste de modificação é a bem
conhecida proclamação “Traduttore – Traditore!”. A similaridade
das duas palavras, que quase remonta à identidade, representa
da maneira mais impressionante a necessidade que força o
tradutor a cometer crimes contra o original. (Freud, 1996f, p.41)
De fato, podemos nos surpreender negativamente com sua aparente solidariedade à ideia de o tradutor cometer o crime de traição, mas veja-se um detalhe importante: trata-se, a seu ver, de uma “necessidade que força o tradutor”, constituindo-se, portanto, como um “crime” inevitável, nesse sentido um não crime, que então deveria ser aceito. Não se está aqui a defender e querendo justificar os indiscutíveis erros de tradução. Trata-se, sim, de momentos do original cuja tradução faz-se impossível, impondo-se uma reescrita com maior margem de transformação. Trata-se da necessidade de uma impossibilidade. É o umbigo da tradução.
A famosa imagem freudiana do umbigo, creio, ajuda-nos a dissipar um possível mal-estar advindo do uso, por Freud, da ideia de traição relativamente à tradução. Leve-se em conta, mais uma vez, que Freud admite que com frequência é preciso conviver com a obscuridade, o desconhecido, a indefinição. E mais: essas afirmações de Freud concernem aos sonhos, via régia do inconsciente, objeto central na construção da Psicanálise: “Existe pelo menos um ponto em todo sonho no qual ele é insondável – um umbigo, por assim dizer, que é seu ponto de contato com o desconhecido” (Freud, 1996c, p.145, n.2).
Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é
frequente haver um trecho que tem de ser deixado na
obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação,
apercebemo-nos de que há nesse ponto um emaranhado de
pensamentos oníricos que não se deixa desenredar [...]. Esse é
o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no
desconhecido. Os pensamentos oníricos a que somos levados
pela interpretação não podem, pela natureza das coisas, ter um
fim definido; estão fadados a ramificar-se em todas as direções
dentro da intrincada rede de nosso mundo do pensamento. É
de algum ponto em que essa trama é particularmente fechada
que brota o desejo do sonho, tal como um cogumelo de seu
micélio. (Freud, 1996c, p.556-7)
Por que não aceitamos com alguma tranquilidade esses tantos umbigos? Quantos psicanalistas pelo mundo leram Freud em alemão? Quantos lacanianos só leem Lacan em francês? Não lê-los no original por acaso inviabiliza a excelência de suas formações e de suas clínicas? Não podem propiciar reflexão e aprendizado, “como um cogumelo a partir de seu micélio”, as intrincadas polêmicas em torno de umbigos da tradução como Trieb e Phantasie? A ocorrência desses umbigos não é absolutamente compatível e previsível no simbólico de Freud e de Lacan? Não é a falta que nos constitui, que nos mobiliza como sujeitos desejantes?
Lacan não deixa de também insistir no umbigo, na falta, nisso que é inconhecível e estruturante na medida mesma em que implica a impossibilidade real da completude. Ao objeto da ciência linguística propriamente dita Saussure deu o nome de langue; Lacan, por um lapso, veio a nomear lalangue aquilo que nas línguas se mantém como não sabido. Daí porque o sujeito, que é feito de língua, de
alíngua, de lalíngua,13 é como ela dividido entre o que se pode saber e o incognoscível, isso que apenas provisória e veladamente se mostra. O inconsciente. Há sempre algo que falta, que falta dizer, escrever ou conhecer, às vezes mesmo devido a um excesso, um equívoco. É nesse sentido da impossibilidade do todo, do Um, fusão imaginária do um = um, um + um (pensemos aí no alemão, no francês, no português... a rigor, um ≠ um...), que Lacan fala da impossibilidade ou inexistência da relação sexual (pensemos na imaginária tradução total; ou pensemos, no campo da relação amorosa, naquela laranja inteira que em português imaginamos como fruto do encontro perfeito de suas metades). Mas veja-se o problema: a constatação dessa impossibilidade tende a provocar uma sensação de horror. A essa sensação é preciso contrapor o seguinte: o horror já estava implicado naquele imaginário do Um, da fusão ou completude perfeita para sempre, que comprovadamente não ocorre em nossa experiência.
Como então sair do impasse trazido, de um lado, pelo “sempre” que de fato é “nunca”, e, de outro, pelo “nunca” que é desde o início “nunca”? Em seu vigésimo seminário, Lacan pergunta: “Será legítimo de algum modo subsistir uma negação pela apreensão experimentada da inexistência? Aí está uma questão que para mim só se trata de abrir” (1993, p.198).
Retomo agora aquelas expressões de Strachey diante da “traição”, para ponderar que, embora nelas vejamos um tom do horror acerca do qual nos falou Lacan, nelas também podemos enxergar sensatez: antes de mais nada, a possibilidade de se adotarem diferentes “métodos” diante de “algum jogo de palavras intraduzível”; a seguir, o reconhecimento da necessidade de se trabalhar com um grau de adequação possível, “tão acuradamente quanto possível”; e finalmente, diante da impossibilidade de traduzir “palavras críticas do alemão original”, a explicitação da possibilidade que elegeu como tradutor: “devemos nos satisfazer em explic[á-las...] nos colchetes ou notas de rodapé”, ou seja, em dois dos espaços em que o tradutor pode ou deve falar em nome próprio, com toda visibilidade.
Essa discussão, que envolve profundo questionamento do imaginário e a aceitação do real no e pelo simbólico, me traz vivamente à memória alguns dos primeiros textos que foram escritos no Brasil articulando tradução e Psicanálise. A dissertação publicada em forma de livro, de Potiguara Mendes da Silveira Jr. (1983), nos fala desse real da língua que impede a tradução total, a tradução como relação sexual; esse impossível, diz ele, é sistematicamente percebido pelos tradutores que, não obstante, acabam por (de)negá-lo. Também tendo em foco a evidente e histórica dificuldade da maior parte dos tradutores em aceitar os momentos de intraduzibilidade inevitáveis, Susana Kampff Lages, em 1992, escreveu sobre a melancolia do tradutor, mostrando como esse sentimento, ao contrário do luto, se dá como uma dor pela
perda de algo que a rigor nunca se teve. 14 Pode-se aqui aproximar dessa melancolia aquele horror sentido (e negado) pela constatação da irrealização do que sempre se imaginou, do que sempre se esperou – sintoma da mania que se alterna com aquela dor –, mas que nunca poderia se dar (a não ser, do modo que é possível: medianamente, veladamente...).
A um gênero de livro como este, Tradução &, parecem-me interessar apresentações, ainda que parciais e breves, do que se vem produzindo nas diferentes interfaces que ele aborda. Ao longo deste trabalho foram sendo trazidas produções relevantes, realizadas recentemente no campo da tradução e tendo em vista sua aproximação com a Psicanálise – como exemplo, os simpósios e a publicação organizados pela UFSC. No entanto, como não poderia deixar de ser, outros tantos estudos ou iniciativas ficaram excluídos. Certamente há trabalhos de grande valor que reúnem a tradução e a Psicanálise sob múltiplas perspectivas, nas incontáveis publicações pelo mundo afora; só em nosso país, cujos estudos estou priorizando, existem hoje, no campo da tradução, mais de dez periódicos. Consciente, portanto, de que ainda outros tantos trabalhos virão a faltar, aproveito essa proximidade do momento de concluir para dar um pouco mais de sequência à apresentação feita
anteriormente. 15
À época do referido artigo de Susana Lages, que, a propósito, foi publicado em um número temático sobre a tradução, em um dos periódicos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, constituiu-se naquele Instituto um grupo de pesquisadoras que até hoje, em maior ou menor medida e em diferentes instituições, dedicam-se ao estudo da tradução com a Psicanálise: professoras como Rosemary Arrojo e Nina Virgínia de Araújo Leite, e
doutorandas como Lenita Esteves e Viviane Veras 16 – cujos trabalhos aqui referidos derivam justamente de suas teses –, além de Lages e desta autora. Rosemary Arrojo, figura pioneira nos estudos da tradução, publicou em 1993 pela Imago a coletânea Tradução, desconstrução e Psicanálise, na qual a Psicanálise reúne-se à tradução por diversos caminhos, como, dentre outros, o ensino da tradução e a crítica ao projeto concebido por Jean Laplanche para traduzir as obras completas de Freud. Em eventos das áreas de Estudos da Tradução ou da linguagem, como os congressos da Abrapt (Associação Brasileira de Pesquisadores em Tradução) ou do Gel (Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo), apresentavam-se comunicações ou comunicações coordenadas com as quais, naquela década de 1990, começava-se a difundir a necessária inclusão, nos estudos sobre a atividade tradutória, da incidência do inconsciente em seu processo.
Que eu tenha notícia, ainda não se organizou aqui no Brasil um número que tematizasse exclusivamente tradução e Psicanálise, como o fundamental número de 1982 da META, periódico canadense de tradutores, cuja iniciativa foi repetida (com igual êxito?), em 1998, pelo também canadense TTR. O número 7 da Tradução em Revista, como mostra seu título, “Tradução, ética, Psicanálise”, faz isso de forma parcial e compreende, além do artigo de Veras citado, outros dois. Um deles é de autoria da psicanalista Dulce Duque-Estrada, tradutora de mais de vinte títulos, dos quais se destacam os Seminários IV e VIII de Lacan, além de obras de outros autores como Allouch e Dolto. O outro é de autoria de Emiliano de Brito Rossi, psicólogo e doutor em Letras pela USP na área do alemão, que considera “fundamental para a posterior teorização da Psicanálise” a monografia de Freud (1977) sobre as afasias, de 1891, a qual, embora considerada pelo próprio Freud como pré-psicanalítica, traz “pela primeira vez vários conceitos que serão reiterados ao longo de toda a história da Psicanálise” (Rossi, 2009, p.2). Embasado em inúmeros depoimentos, Rossi lamenta a inexistência de uma tradução da íntegra dessa obra para o português, feita diretamente do alemão. Dessa obra, de particular interesse para os linguistas, temos, além do breve fragmento em forma de apêndice ao “Inconsciente” (Freud, 1996g), texto freudiano de 1915, apenas uma publicação portuguesa que inclui uma tradução parcial, feita do italiano.
Julgo caber aqui informar que, por iniciativa de Rossi e Rui Rothe-Neves, linguista e professor da UFMG, será proximamente lançado, pela editora da UFMG, o livro Traduzir o desejo: Psicanálise e linguagem, escrito pela catalã Marta Marín-Dòmine. Publicado na Catalunha em 2004 e respectivamente traduzido e revisado por Rossi e Neves, trata-se de um estudo bastante abrangente e minucioso de obras de Freud e de Lacan que deverá trazer contribuições de peso para nossas reflexões sobre o simbólico, a literatura e a tradução.
Para encerrar este encontro de tradução e Psicanálise, volto a Lacan. Em seu nó borromeano, um nó triplo que não permite ser parcialmente desfeito, ele articula, amarra o (todo do) imaginário, expresso no “não para de se escrever”, o (impossível do) real, expresso com a dupla negação “não para de não se escrever”, e o (contingente do) simbólico, expresso como o que “para de não se escrever”. Essa escrita que se faz na contingência, entre a positividade e a negatividade universais, é a expressão do encontro amoroso, o qual suspende temporariamente a impossibilidade, o nunca (Lacan, 1993, p.198-9).
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1 PUC-Rio, Departamento de Letras, 22453-900, Rio de Janeiro, RJ,
Brasil. mpfrota@puc-rio.br
2 Esse artigo de Fish foi publicado pela primeira vez em 1989 e teve mais de uma republicação. O título (alusão à famosa canção que diz “Make it easy on yourself/Cause breaking up is so very hard to do”), entre incontáveis opções, pode ser traduzido como “Não é nada fácil ser interdisciplinar” ou, mais ao pé da letra, como “Ser interdisciplinar é tão difícil de se fazer”.
3 A respeito da incidência de lapsos de língua em processos tradutórios e sua diferenciação constitutiva relativamente a tropeços de outros tipos, ver Frota (2006).
4 A noção freudiana de deslocamento pode remeter à também freudiana condensação, e ambas às proposições análogas de Saussure, Jakobson e Lacan relativamente aos planos horizontal e vertical de nossas formações linguageiras.
5 A apresentação e análise detalhadas desse lapso encontram-se no livro Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (Freud, 1996b, p.19-25) e constituem o capítulo que trata do esquecimento de nomes próprios.
6 Vejam-se, por exemplo, os textos “Observações sobre a função da linguagem na descoberta freudiana” e “Da subjetividade na linguagem” (Benveniste, 1988).
7 Essas três dimensões estão totalmente inter-relacionadas, só existem no conjunto, daí por que Lacan as representa com a figura do nó borromeano, um nó triplo, digamos assim, na medida em que ele se desfaz por completo caso um de seus enlaces seja desfeito.
8 Eu diria que no Brasil esta coletânea é a primeira publicação desse tipo no campo da tradução. Dos companions estrangeiros que conheço, nenhum inclui a articulação entre tradução e Psicanálise.
9 Sempre que uso, nesse tipo de contexto, este sintagma “com a Psicanálise”, lembro-me de Nina Leite, cuja participação em minha formação nos anos do doutorado foi da maior relevância.
10 A primeira obra referida de Berman foi publicada na França em 1985; a segunda, em 1984.
11 Abordarei essas expressões de forma breve, ainda que veja nelas matéria para longa discussão. Como não é possível desenvolvê-la no âmbito deste trabalho, sugiro, caso interesse ao leitor, a leitura de Frota (2000), em particular do capítulo IV.
12 Essa publicação foi concebida por professores da UFSC (ver referências bibliográficas) a partir da realização dos I e II Simpósios Tradução e Psicanálise, realizados em 2011 e 2012.
13 Não são poucos os trabalhos que relatam e explicam a história do termo lalangue, o qual, em português, conta com essas duas traduções. Veja, por exemplo,
<http://webcache.googleusercontent.com/search?
q=cache:MljK7bA9JHcJ:jose.barros.over-blog.com/article-
21878628.html+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br> e
<http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/LALANG
UE.pdf>, ambos acessados em 12 maio 2014.
14 Esse artigo de Lages consiste em uma pequena (mas relevante) amostra de sua tese de doutorado, publicada no bonito livro Walter Benjamin: tradução e melancolia (ver referências bibliográficas).
15 Talvez caiba dizer que estou iniciando um levantamento, para posterior análise, de obras na interface aqui em questão, dando continuidade ao que foi feito em minha tese, em especial no capítulo 3: “Tradução e Psicanálise: uma revisão bibliográfica” (ver Frota, 2000).
16 No levantamento a que me refiro acima, ainda embrionário, chama atenção o número significativo de trabalhos de autoria de Veras, ou em coautoria com alunos, que investigam diferentes enlaces da tradução com a Psicanálise.