Tradução e perspectivas teóricas e práticas

Lauro Maia Amorim · Capítulo 2 de 15

Páginas do PDF

Tradução e perspectivas teóricas e práticas

Prefácio

 

Se, por um lado, nos Estudos da Tradução há cada vez mais um reconhecimento de que toda prática tradutória é constituída de saberes que se vinculam a determinadas perspectivas teóricas e ideológicas – mesmo que não sejam claramente sistematizadas como tais –, por outro lado, ressalta-se que a teorização sobre tradução não deve necessariamente se restringir à aplicação de princípios teóricos que orientem formas particulares de tradução. Antes, a teorização deve se constituir de um amplo espaço de reflexão que permita entrever as relações que se estabelecem entre o traduzir e seus diversos fatores condicionantes, sejam eles culturais, linguísticos, estéticos, psicológicos, ideológicos ou mesmo tecnológicos, avaliando assim em que medida essas relações desempenham um papel crucial na transformação do próprio fazer tradutório mediado por seus principais agentes: tradutores e tradutoras.

Já se afirmou que a tradução seria uma ponte necessária para a realização de intercâmbios linguísticos, culturais, artísticos e tecnológicos entre povos que não falam a mesma língua, e sem a qual não seria possível promover o diálogo, o reconhecimento da alteridade e o próprio enriquecimento das culturas receptoras daquilo que se traduz. No entanto, a metáfora da tradução como ponte é problemática, uma vez que pressupõe duas margens perfeitamente delimitadas, ou duas línguas que supostamente não se mesclariam ou que não seriam mutuamente fundantes, além do pressuposto de que a própria tradução parece não ser afetada pela relação entre as “duas margens”. Como, no presente livro, a tradução se relaciona a diferentes campos do saber que implicam questões de naturezas filosófica, interpretativa e ética próprias, com consequências importantes para a prática e para a teorização da tradução, problematiza-se a metáfora da tradução como uma mera ponte entre margens supostamente estáveis: o livro Tradução & perspectivas teóricas e práticas sugere que a tradução e os diferentes campos do saber aqui discutidos são propostos como formas de conexão que permitem vislumbrar não apenas uma relação dialógica, mas, sobretudo, de mútua constituição entre os dois elementos do sintagma.

As reflexões aqui propostas pressupõem a perspectiva segundo a qual a tradução é compreendida como vinculada ao discurso do Outro, e não ocupando o lugar aparentemente monológico da autorreferencialidade, já que falar de tradução significa, de maneira inevitável, em algum momento, falar de Tradução & Um Discurso Outro. Nesse sentido, a presente obra vem suprir uma lacuna existente no meio editorial brasileiro no que tange às publicações sobre tradução, pois é uma iniciativa pioneira ao organizar ensaios que abordam a dinâmica dialógica entre a tradução e outras dimensões do saber, valendo-se da estrutura temática organizada à semelhança parcial de “entradas”, como em um dicionário, mas combinada com a profundidade analítica de ensaios acadêmicos. Em cada um dos ensaios é possível adentrar uma dimensão do saber com a qual a tradução se relaciona, por meio de explanações de natureza, em princípio, introdutória, mas que também são aliadas ao aprofundamento crítico de aspectos particulares quiçá menos conhecidos dessas relações, o que torna o livro muito útil tanto aos leitores leigos e estudantes de graduação quanto aos alunos de pós-graduação, estudiosos da tradução e tradutores em geral.

Em cada um dos campos temáticos, como se verá nos resumos introdutórios a seguir, busca-se uma abordagem que seja relativamente acessível ao leitor, mas sem perder de vista, sobretudo, a complexidade que o sintagma “Tradução &...” implica, em especial quando está em jogo a heterogeneidade das diversas facetas (por vezes conflituosas) da prática tradutória.

Assim, em “Tradução & adaptação”, John Milton realiza uma análise que revela a tenuidade da separação entre as áreas de Estudos da Adaptação e de Estudos da Tradução, que com frequência são tratadas como distintas. Segundo Milton, a razão do distanciamento entre essas áreas estaria na associação tradicional entre tradução e equivalência, uma relação que se reflete, por exemplo, em contratos de trabalho que preveem a produção de texto equivalente em outra língua, uma “versão exata do original sem alterações”. A força do conceito de equivalência em tradução reflete-se na concepção de adaptação, vista como uma produção alterada, de “segunda classe” e, portanto, não digna de ser estudada. Essa noção é problematizada por Milton em um exame detalhado de trabalhos de tradução importantes produzidos no Oriente e no Ocidente em diferentes épocas e que sofreram intervenções e modificações que as caracterizariam como adaptações.

O trabalho “Tradução & direitos autorais”, de Lenita Rimoli Esteves, aborda a polêmica e delicada questão dos direitos autorais do tradutor, partindo do relato de uma experiência pessoal da autora, que envolveu uma demanda jurídica pelo pagamento desses direitos. Esteves analisa aspectos referentes ao trabalho do tradutor previstos na Lei dos Direitos Autorais brasileira e apresenta também dados de fontes externas que nos ajudam a entender como os direitos do tradutor são tratados em nosso país e no mundo. Ela conclui que o direito do tradutor sobre o produto de seu trabalho é abordado de diversas maneiras, dependendo do país considerado. Para a autora, portanto, somente conhecendo a lei e indo além de “comparações simplistas baseadas em cifras e porcentagens” é que o tradutor será capaz de negociar melhores condições de trabalho.

Como o fazer tradutório envolve valores e posturas, “Tradução &

ética”, de Paulo Oliveira, examina a questão, partindo do pressuposto de que tudo o que o tradutor faz é passível de avaliação ética. Em um primeiro momento, o autor propõe-se a investigar o conceito para, em um segundo momento, aplicá-lo ao caso específico da tradução. Oliveira não apresenta um caminho fácil a ser seguido por quem pretende tomar decisões de acordo com preceitos éticos. Ao contrário, enfatiza que a ética não está pronta e que há uma diferença conceitual entre fidelidade como exigência ou expectativa em relação ao texto traduzido, e lealdade, enquanto atitude do tradutor.

No capítulo “Tradução & ficção”, Caetano Waldrigues Galindo destaca que a relevância dos textos ficcionais, especialmente durante o século XX, teria superado o papel referencial dos textos poéticos, tanto em termos de mercado editorial quanto do ponto de vista da formação da erudição dos leitores contemporâneos. Galindo avalia em que medida seria possível falarmos de uma especificidade da tradução de textos ficcionais ou da prosa romanesca em comparação com a da tradução poética. O autor argumenta que o texto poético seria caracterizado por certa previsibilidade no que tange à sua tradicional estruturação rítmica, sonora e métrica. Por outro lado, ainda que reconheça a possível presença de aspectos da poesia em alguns tipos de prosa romanesca (como recursos rítmicos e sonoros), o autor assevera que o romance moderno seria fortemente marcado pela imprevisibilidade do discurso indireto livre, que proporciona uma multiplicidade de vozes nem sempre discerníveis. Essa condição leva o autor a considerar que o específico da tradução da prosa romanesca é justamente sua “inespecificidade”, já que ela seria fundada no que é precário, instável e imprevisível, representando assim um grande desafio para o tradutor.

A estreita relação entre “Tradução & gênero” é examinada por Maria Clara Castellões de Oliveira, que traz dados sobre a atuação de mulheres brasileiras nas décadas de 1930 e 1940 como tradutoras de contos ou romances escritos em língua inglesa. Rachel de Queiroz e Dinah Silveira de Queiroz são as mais conhecidas, mas muitas outras se dedicaram à tradução no período. Oliveira identificou 102 delas, sendo que várias eram ou se tornaram escritoras a partir de sua atividade como tradutoras. Como a história da tradução no Brasil normalmente aborda apenas os tradutores, o capítulo preenche uma lacuna com dados sobre essas tradutoras, assim como fornece a surpreendente informação de que a maior parte dos textos por elas traduzidos foram também originalmente escritos por mulheres. Na avaliação da autora, essas tradutoras brasileiras contribuíram para a abertura de novos mercados de tradução, para a divulgação de obras de mulheres escritoras e para o estabelecimento de ligações intelectuais que revigoraram o sistema literário nacional.

Compreender as possíveis relações entre o fazer tradutório e as diferentes implicações da dimensão identitária é o que propõe Lauro

Maia Amorim em “Tradução & identidade”. O autor argumenta que, embora o tradutor faça uma leitura da identidade do Outro estrangeiro em sua língua e cultura, a própria identidade já seria uma forma de tradução na medida em que traduz a complexidade de valores e (auto)imagens dos indivíduos em uma sociedade. O autor analisa exemplos que ilustram o modo pelo qual a tradução interlingual promove a reimaginação da identidade do Outro estrangeiro, formulando, com base em aspectos discursivos da cultura de recepção, uma “identidade traduzida”. Tais exemplos incluem desde a reconstrução de identidades culturais nacionais, passando pela problemática da tradução de textos de cunho homoerótico, em que estão em jogo identidades homossexuais, e a própria tradução da literatura afro-americana no Brasil, com desdobramentos importantes para a interpretação da questão racial negra.

Ao pontuar as principais diferenças entre a “Tradução &

interpretação”, Reynaldo José Pagura enfatiza a peculiaridade envolvida no trabalho tanto do tradutor como do intérprete, que devem ser capazes de compreender e expressar ideias e informações das mais diversas áreas do conhecimento humano sem serem especialistas nessas áreas, como o são seus leitores e ouvintes. O intérprete, cujo trabalho é foco deste capítulo, parece ter como maior desafio a instantaneidade do discurso a ser interpretado em outra língua que, ao mesmo tempo em que lhe impede uma consulta terminológica, requer desse profissional tanto o domínio da língua e da matéria tratada como também da forma de expressão oral empregada por um determinado grupo de profissionais. Pagura descreve as particularidades das modalidades simultânea, consecutiva, intermitente e sussurrada de interpretação e apresenta um relato da história da profissão no mundo e no Brasil.

As contribuições teóricas e práticas que relacionam “Tradução &

literatura infantil e juvenil” constituem o foco de João Azenha Junior. Ele examina, na primeira parte do capítulo, características do gênero, do público, a submissão a dependências que conformam sua tradução, tanto em relação à sua função educadora quanto ao seu aspecto lúdico, além de ampliar a rede de subordinações ao incluir as macroestruturais. Na segunda parte, o autor aborda o emprego de recursos não verbais, que emprestam aos textos uma leitura adicional com traços e cores. A última parte trata do referencial para pesquisa, enfatizando que qualquer reflexão a respeito de tradução de literatura infantil e juvenil passa pelo reconhecimento dos múltiplos aspectos envolvidos e por várias áreas do conhecimento.

Em “Tradução & os sentidos da crítica”, Maurício Mendonça Cardozo promove uma discussão sobre a diversidade que caracteriza os sentidos da crítica e sua relação com a tradução, que inclui desde uma concepção de crítica de natureza mais avaliativa (com judicações positivas ou negativas), um sentido epistemológico em que são considerados os limites de validade de nossas ações práticas, até uma condição na qual a crítica se torna um princípio produtivo da criação e do pensamento. O autor traz à baila o próprio debate contemporâneo, travado pelas posições divergentes de autores como Rosemary Arrojo e Paulo Henriques Britto, acerca da possibilidade (ou não) de ser objetivo no processo de avaliação crítica de traduções. Cardozo ressalta que questionar certa noção de objetividade não significa a imposição de uma subjetividade absoluta, mas implica poder aceitar o desafio de refletir como incorporar, em nossas práticas concebidas como objetivas, os limites de validade que vislumbramos na construção que propomos da própria objetividade.

Álvaro Faleiros, em “Tradução & poesia”, apresenta um contraste entre dois pontos de vista a respeito da tradução poética no Brasil. Faleiros argumenta que a tradição tradutória identificada com o trabalho do tradutor e ensaísta Haroldo de Campos privilegiaria fundamentalmente a recriação, em outra língua, da dimensão formal dos poemas (seus aspectos fonológicos e sua métrica), em detrimento, até certo ponto, de seus aspectos semânticos. A essa perspectiva tradutória, Faleiros contrapõe a prática de tradução poética vislumbrada por Mário Laranjeira, a qual seria norteada por uma “totalização essencial” que buscaria, na tradução, o equilíbrio entre as equações fonológicas e semânticas. O autor considera que a perspectiva haroldiana de tradução tenderia a projetar o poema original para outros campos de imaginação, já que suas recriações formais afastariam o leitor do complexo enunciativo mobilizado no texto de partida.

A leitura do capítulo “Tradução & Psicanálise” evidencia que praticar e pensar a tradução com a Psicanálise significa experimentar a tradução de modo muito diferente do que tradicionalmente se apresenta. Coube a Maria Paula Frota delinear essa relação, que se inicia pelos inevitáveis lapsos de língua, que revelam que temos menos controle de nossos atos de linguagem do que supomos. O percurso envolve a analogia entre tradução e interpretação de sonhos, em que a própria construção dos sonhos é concebida por Freud como uma reescrita, como uma tradução. A autora trata de momentos em que a tradução se torna impossível, em que emaranhados de pensamentos oníricos se enredam e em que os textos do próprio Freud trazem dificuldades extremas para seus tradutores. Complementando o quadro, o texto inclui informações sobre pesquisadores e pesquisas que podem ser consultados para o exame de outras relações entre tradução e Psicanálise.

Fechando esta série de reflexões sobre a prática tradutória e suas

várias interfaces, o capítulo “Tradução & tecnologias”, de Érika Nogueira de Andrade Stupiello, analisa as transformações resultantes da crescente adoção de ferramentas tecnológicas, notadamente de sistemas de memórias de tradução, pelo tradutor que presta serviços de tradução especializada e para a indústria de localização. Segundo a autora, a digitalização da produção textual e a urgência que rege os trabalhos de tradução estimula a recuperação de trechos de trabalhos anteriores em um incessante processo de reciclagem que desvaloriza a atuação do tradutor na medida em que o desencoraja a renovar sua leitura e interpretação de partes do texto a ser traduzido. Ao discutir as diversas maneiras pelas quais os sistemas de memórias têm sido empregados por seus usuários-tradutores, a autora afirma a importância de se entender o alcance e as implicações da influência desses sistemas na produção tradutória para que o tradutor possa, com responsabilidade, saber diferenciar-se da máquina e reivindicar condições de trabalho que reconheçam a imprescindibilidade do tradutor humano em todo projeto de tradução.

Espera-se que, com este trabalho, possamos não somente aprofundar as discussões abertas pelos capítulos aqui apresentados, mas sobretudo ampliar os campos temáticos, incluindo novas faces teóricas e práticas com as quais a tradução permanentemente dialoga. O que se deseja é que a conclusão deste projeto seja seguida de um convite, no mínimo, desafiador: o de se explorar a Tradução & o futuro.

Os organizadores