Tradução e perspectivas teóricas e práticas
Tradução & gênero: tradutoras brasileiras das décadas de 1930 e 1940
Tradução & gênero: tradutoras
brasileiras das décadas de 1930 e
1940
Maria Clara Castellões de Oliveira 1
A despeito de seu status histórico como uma versão degradada
e fraca de autoria, a tradução algumas vezes emergiu como
uma forma de expressão forte para as mulheres – permitindo-
lhes entrar no mundo das letras, promover causas políticas e se
engajar em estimulantes relações de escrita.
Sherry Simon 2
Contextualização, introdução e justificativa
As pesquisas que tenho realizado em torno da tradução de textos literários de língua inglesa para o português do Brasil se reúnem, sobretudo, no âmbito de um projeto de pesquisa maior, intitulado “Traduções literárias: jogos de poder entre culturas assimétricas”. O objetivo principal desse projeto é verificar a tradução tal como realizada por escritores em períodos de exceção, uma vez que, como percebeu Itamar Even-Zohar em um texto seminal – “The Position of Translated Literature within the Literary Polysystem” [A posição da literatura traduzida dentro do polissistema literário], de 1978, publicado novamente em 1990 com algumas modificações –, neles a tradução tende a contribuir para a modelação do sistema de literatura nacional. Isso se dá pelo fato de os autores autóctones, por estarem exilados, aprisionados ou ameaçados por uma ou outra condição, pouco ou nada produzirem, abrindo assim espaço para a tradução, em geral realizada por intelectuais de outras áreas. No entanto, não se deve desconsiderar que, algumas vezes, os próprios escritores chegam a se valer da tradução como válvula de escape para sua verve criativa e, de forma um tanto velada, para a manifestação de suas posturas políticas. Assim sendo, venho investigando a prática da tradução de textos literários de língua inglesa por escritores em dois momentos de exceção no Brasil, quais sejam: a ditadura civil do Estado Novo, regida por Getúlio Vargas, que vigorou entre 1937 e 1945, e a ditadura militar, que teve início em 1964 e se estendeu até 1985.
O projeto de pesquisa mencionado engloba uma série de subprojetos, que levaram à consecução de monografias de conclusão do curso de bacharelado em Letras: Tradução – Inglês e de dissertações e tese do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora. Após catorze anos de seu início, é possível, entre outras coisas, vislumbrar a importância dos dados coletados acerca da participação de mulheres como tradutoras, sobretudo na década de 1940.
Até pouco tempo atrás, os estudiosos da tradução no Brasil mencionavam em seus artigos e livros a importante participação dos escritores Monteiro Lobato e Erico Verissimo como tradutores na década de 1940, importância que foi ratificada e evidenciada por
monografias e dissertações orientadas por mim3 e comentada em
artigos que publiquei, sozinha ou em parceria. 4 Praticamente a única escritora que tinha seu nome vinculado à tradução nessa época era Rachel de Queiroz, cuja prática tradutória também se fez presente na década de 1970. Duas monografias orientadas por mim abordaram, em separado, a atuação da escritora cearense como tradutora nesses momentos. A monografia que se deteve em sua atuação na década de 1940 revela que a escritora praticamente abandonou sua produção autoral nesse período em prol de uma intensa prática tradutória, à qual, no que diz respeito à produção de romances, iria retornar mais revigorada a partir dos anos 1970,
como reconheceu o crítico Wilson Martins (2002, p.83). 5 A última monografia aponta o caráter incidental – porém relevante para os fins definidos pelos orquestradores do golpe militar e seus
mantenedores – de sua atuação como tradutora.6
Mais recentemente, nomes de outras mulheres, também escritoras, passaram a ser arrolados na história da tradução no Brasil. Um deles é o de Ana Cristina Cesar, falecida em 1983, que defendeu na Universidade de Essex, na Inglaterra, em 1981, uma dissertação de mestrado sobre a tradução que fizera do conto “Bliss”, de Katherine Mansfield, à qual acrescentou oitenta notas contendo comentários sobre suas escolhas tradutórias. A atividade de tradução de Ana Cristina ocupou um lugar importante em sua carreira, tendo ela se dedicado a traduzir precipuamente textos escritos por mulheres, como Emily Dickinson, Sylvia Plath e Elizabeth Bishop. Uma
dissertação de mestrado defendida sob minha orientação7 e um
artigo escrito a partir dela8 abordam essa produção tradutória de Ana Cristina, evidenciando a importância dessa atividade para a ascensão das mulheres ao mundo das letras e para a formação de sua identidade autoral.
Outra tradutora cujo nome tem sido mencionado no contexto dos estudos historiográficos da tradução no Brasil é o de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, filha de pai português e mãe brasileira, nascida em 1810, no sítio Floresta, na cidade de Papari, no Rio Grande do Norte. Nísia Floresta, como ficou mais conhecida, é a primeira tradutora brasileira de que se tem notícia. Em 1832, ela trouxe a público Direito das mulheres e injustiça dos homens, que seria a tradução de um tratado feminista publicado em 1792 em língua inglesa, de autoria de Mary Wollstonecraft e intitulado A Vindication of the Rights of Woman: with Structures on Political and Moral Subjects [Uma vindicação dos direitos da mulher: com estruturas sobre assuntos morais e políticos]. No entanto, pesquisas feitas por Maria Lúcia Garcia Pallares Burke e publicadas em um livro de sua autoria, Nísia Floresta: O carapuceiro e outros ensaios de tradução cultural (1996), comprovam que, na verdade, a publicação cuja tradução para o português é assinada por Nísia Floresta é uma tradução literal e completa de Woman not Inferior to Man [Mulher não inferior ao homem], livreto de 1739, publicado em língua francesa por alguém (um homem ou uma mulher, não se sabe) que se utilizou do pseudônimo Sophia, a Person of Quality [Sofia, uma Pessoa de Qualidade]. Esse livreto, por seu turno, incorporou material extraído de um texto ainda mais antigo, de 1673, de autoria de François Poulain de la Barre: De l’Égalité des Deux Sexes [Da igualdade dos dois sexos].
Esses breves relatos sobre a história da atuação de escritoras brasileiras como tradutoras corroboram a citação de Sherry Simon, extraída de Gender in Translation: Cultural Identity and the Politics of Trasmission [Gênero na tradução: identidade cultural e a política da transmissão], de 1996, que escolhi para epígrafe deste texto. Assim como a tradução foi a porta de entrada de escritoras como Nísia Floresta para o mundo das letras, ela serviu a Rachel de Queiroz como uma forma de subsistência econômica, em especial na década de 1940; como instrumento de veiculação de ideais políticos, notadamente na década de 1970, e, a partir da percepção de Martins (2002, p.83), como exercício de estilo. Por sua vez, a atividade tradutória de Ana Cristina Cesar, além de tê-la ajudado a moldar sua personalidade autoral, como já dito, serviu de instrumento de veiculação de posturas não apenas políticas, como também estéticas.
Outrossim, esses relatos apontam para o fato de que qualquer estudo sobre a atuação de mulheres como tradutoras, seja ele sincrônico ou diacrônico, é capaz de revelar as mais diversas relações de poder existentes nos contextos a partir dos quais elas se constituíram como intelectuais e em que publicaram seus trabalhos, e suscitar discussões sobre os mais diversos aspectos da tradução, por exemplo o conceito de texto original, as fronteiras que separam criação e tradução e a questão da pseudotradução. Eles ainda servem de evidência para o quanto questões de gênero estão estreitamente relacionadas a estudos sobre a tradução. Luise von Flotow, no prefácio de Translation and Gender: Translating in the ‘Era of Feminism’ [Tradução e gênero: traduzindo na ‘Era do Feminismo’], de 1997, foi bastante explícita quanto a essa interligação. Disse ela:
Ao descrever algumas das ligações e interconexões entre
questões de gênero e estudos da tradução, espero informar,
estimular a discussão e encorajar pesquisas futuras sobre as
interseções desses dois campos. Esse objetivo reflete uma
agenda ativista feminista de minha parte, na medida em que
demonstro até que ponto a consciência de gênero afeta
discussões, pesquisas e comunicações internacionais. (p.2)9
O que se segue, portanto, é a discussão de dados coletados ao longo de uma extensa pesquisa em torno da atuação de mulheres brasileiras nas décadas de 1930 e 1940 como tradutoras de
romances e contos escritos originalmente em língua inglesa. 10 Nas duas décadas em questão, com o crescimento do mercado de traduções, condicionado sobretudo por fatores de ordens políticas e econômicas, vários escritores passaram a se dedicar à prática da tradução, merecendo destaque, como já dito, Monteiro Lobato e Erico Verissimo. Nesse momento, algumas mulheres que começavam a ser conhecidas como escritoras também se lançaram à atividade tradutória, sendo Rachel de Queiroz e Dinah Silveira de Queiroz duas delas. No entanto, outras mulheres, que até então não haviam se iniciado no mundo das letras, passaram a se dedicar à tradução. Para muitas delas, a tradução foi uma atividade incidental. Para outras tantas, essa atividade abriu-lhes a possibilidade de se tornarem escritoras.
A despeito da situação acima descrita, ou seja, da existência de mulheres que atuaram como tradutoras nessas décadas em que a tradução alcançou uma visibilidade inusitada no Brasil, desconheço a existência de qualquer levantamento sistemático sobre quem foram essas mulheres. Assim, o subprojeto “Tradutoras brasileiras das décadas de 30 e 40 do século XX” vem preencher uma lacuna na história da tradução no Brasil, principalmente no que diz respeito ao lugar da mulher em meio a ela. Além de elencar essas tradutoras, a pesquisa procurou estabelecer as relações que elas mantiveram com intelectuais brasileiros da época; verificar se traduziram romances, contos ou ambos, os títulos e autores dos originais e as datas de publicação dos originais e das traduções, e identificar as casas editorais que publicaram as obras traduzidas. Paralelamente à realização das etapas descritas, foram surgindo dados surpreendentes sobre as coleções criadas nas décadas de 1930 e 1940, nas quais foram publicados muitos dos romances e dos contos de língua inglesa traduzidos por essas mulheres. Várias dessas coleções, publicadas pelas mais diversas casas editoriais existentes no Brasil naquelas décadas, tinham como público-alvo as mulheres, que, nesse momento, com os projetos de alfabetização, de diminuição da jornada semanal de trabalho e de concessão do direito de voto às mulheres, capitaneados por Getúlio Vargas nos anos 1930, mesmo antes da instauração do Estado Novo, passaram a constituir um mercado consumidor a ser atendido e ampliado.
As mulheres e a tradução de textos de língua
inglesa nos anos 1930 e 1940
Em 1949, quando publicou O segundo sexo (Le Dexième Sexe, em francês), Simone de Beauvoir reconheceu que, até então, a despeito de algumas conquistas, as mulheres ainda mantinham uma posição de inferioridade perante os homens. Em suas palavras, “a estrutura social não foi profundamente modificada pela evolução da condição feminina; este mundo, que sempre pertenceu aos homens, conserva ainda a forma que eles lhe imprimiram” (1990, p.450). A história da tradução no Brasil, tal como a conhecemos até hoje, mostra-nos que as vozes que sempre se destacaram como agentes ou narradores dessa história foram majoritariamente masculinas. No entanto, a pesquisa sobre o estatuto da tradução no Brasil nas décadas de 1930 e 1940 revela, como veremos a seguir, a importância do papel desempenhado por mulheres que se dedicaram à tradução de textos – romances e contos – de literatura de língua inglesa para o português.
Como já foi dito, as principais notícias que temos sobre essas décadas giram em torno das atuações de Monteiro Lobato e de Erico Verissimo, as quais abordarei muito brevemente neste momento. No contexto da tradução, Lobato ficou conhecido por ter procurado renovar a literatura brasileira – tanto infantojuvenil quanto adulta – a partir da tradução de textos de literaturas de língua inglesa, uma vez que, segundo ele, a literatura espanhola e em especial a francesa, cujos textos traduzidos haviam servido de modelo para os escritores brasileiros, já não traziam mais novidades. Em uma carta enviada a Godofredo Rangel, ainda no início do século XX, ele disse o seguinte:
Para neutralizar esta Areias sem apito tomei uma assinatura do
Weekly Times, de Londres – edição semanal em que vêm os
melhores artigos do The Times diário [...] e com os pés na
grade da sacada injeto-me de inglês, de política inglesa [...] E
tenho lido exclusivamente em inglês. O francês anda a me
engulhar todas as tripas. [...] A literatura inglesa é muito mais
arejada, variada, mais cheia de horizontes, árvores e bichos.
Não há tigres nem elefantes na literatura francesa, e a inglesa é
toda uma arca de Noé. (Lobato, 1955, p.225-6, minha ênfase)
No intuito de mudar o panorama do sistema literário brasileiro, Lobato subsumiu as figuras de editor, patrono e tradutor, tendo operado em um contexto de patronagem não diferenciada, nos termos de André Lefevere (1992), conforme percebeu Giovana Cordeiro Campos em sua dissertação de mestrado:
O fato de Lobato ser um escritor foi altamente relevante em sua
atividade tradutória. Entretanto, o fator mais significativo para
que Lobato pudesse realizar uma prática tradutória da natureza
da sua é que, de uma forma ou de outra, ele era seu próprio
patrocinador, configurando um caso de patronagem não
diferenciada. Assim, como editor, era sua ideologia que
predominava, estando os tradutores vinculados à sua prática
tradutória (fator de status). Além disso, era Lobato quem
controlava o que circulava em suas editoras (fator ideológico) e
quem determinava a remuneração dos tradutores (fator
econômico). (Campos, 2004, p.150)
Por sua vez, Erico Verissimo foi o responsável pela criação, na Editora Globo de Porto Alegre, de um escritório de tradução, no qual trabalhavam conjuntamente tradutores (que muitas vezes eram também escritores), linguistas e lexicógrafos, em meio a dicionários e enciclopédias. Segundo Lia Wyler:
A vigência dessa metodologia inaugurou o que realmente se
pode chamar de Idade de Ouro da tradução, de 1942 a 1947,
durante a qual foram publicados os novos títulos da Coleção
Biblioteca dos Séculos (1942-1952) – considerada por José
Paulo Paes a melhor coleção de autores traduzidos já publicada
no Brasil –, bem como as memoráveis obras de Proust e
Balzac, em que trabalharam não apenas os tradutores da casa
mas colaboradores de renome na literatura e crítica brasileiras
como Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Lúcia
Miguel Pereira, Manoel Bandeira, James Amado, Marques
Rebelo e Sérgio Milliet entre outros. (Wyler, 2003, p.129)
Nota-se, na citação acima, a menção à escritora Lúcia Miguel Pereira. No entanto, uma das escritoras cuja atuação teve maior destaque na década de 1940, como já mencionado, foi a cearense Rachel de Queiroz. De acordo com um levantamento realizado por Priscilla Pellegrino de Oliveira (2007), nesse período a escritora traduziu 33 obras, entre romances e contos, provenientes das línguas inglesa, francesa e espanhola. Assim como Lobato, Rachel de Queiroz contribuiu para a mudança da principal língua da tradução no Brasil – do francês para o inglês. Como nos informa Oliveira:
[...] nos anos 40, apenas uma obra foi traduzida do espanhol
(3%), enquanto que 27% das obras foram traduzidas do francês
e 70% da língua inglesa. Sobre a demanda da nova literatura,
Rachel de Queiroz comentou: “Adestrei-me então no inglês, no
qual até então era fraca, desde que Vera Pereira [nome de
casada de Vera Pacheco Jordão], mulher de José Olympio,
assumiu a escolha de autores a traduzir – e ela gostava de
literatura inglesa. Foi ela que me fez traduzir os vários volumes
de Forsyte Saga, de John Galsworthy (Queiroz, 1999, p.187
apud Oliveira, 2007, p.57)
A despeito das palavras de Rachel de Queiroz sobre sua prática tradutória na década de 1940, reproduzidas acima, praticamente mais nada foi dito por ela sobre sua atividade como tradutora nesse período e nos anos 1970, quer em entrevistas ou em paratextos das obras traduzidas. O silêncio da escritora-tradutora pode ser equiparado ao silêncio que envolve a participação de outras mulheres como tradutoras nas décadas de 30 e 40 do século XX e justifica o longo tempo dedicado à busca por seus nomes, pelas obras que traduziram e por outras tantas informações relativas à sua produção tradutória, não apenas em material impresso, como
também em obras disponíveis na internet.11
Ao todo, a pesquisa chegou ao número de 102 (cento e duas)
tradutoras de textos literários de língua inglesa (vide Anexo 1). Foi possível identificar que algumas dessas mulheres já eram ou se tornaram escritoras, umas de mais renome do que outras. Entre elas, além de Rachel de Queiroz, temos: Cecília Meireles, Dinah Silveira de Queiroz, Elsie Lessa, Ester de Viveiros, Esther Mesquita, Gulnara de Morais Lobato, Helena de Irajá Pereira, Hermengarda Leme Leite, Isa Silveira Leal, Lia Correia Dutra, Lígia Junqueira Smith, Lúcia Benedetti, Lúcia Miguel Pereira, Maluh Ouro Preto, Maria Eugênia Celso, Maria Julieta Drummond de Andrade e Maslowa Gomes Venturi.
Entre as tradutoras citadas acima há algumas que possuíam relações de parentesco com intelectuais conhecidos da época. A já várias vezes citada Rachel de Queiroz, por exemplo, foi casada com o jornalista e poeta bissexto José Auto da Cruz Oliveira e, posteriormente, com o médico Oyama de Macedo. Dinah Silveira de Queiroz, por sua vez, era filha de Alarico Silveira, advogado que exerceu cargos no Ministério do Tribunal de Conta; foi casada com Marcílio de Queiroz, que fora secretário do presidente Washington Luis, e, mais tarde, tornara-se desembargador, e, posteriormente, com Dário M. de Castro Alves, embaixador do Brasil em Portugal. Elsie Lessa era neta do escritor e gramático Julio Ribeiro e esposa do escritor Orígenes Lessa, enquanto Esther Mesquita era filha do jornalista Júlio Mesquita. Não passam também despercebidas as relações entre Gulnara de Morais Lobato e Monteiro Lobato. Além de sua sobrinha (era filha do poeta Heitor Lobato), fora também sua nora. Posteriormente, Gulnara casou-se com o escritor Antônio Olavo Pereira, irmão do editor José Olympio. Isa Silveira Leal, além de filha do escritor Valdomiro Silveira e irmã do teatrólogo Miroel Silveira, era prima das escritoras Dinah Silveira de Queiroz e Helena Silveira de Queiroz. Lúcia Benedetti, por sua vez, foi casada com o jornalista Raimundo Magalhães Jr., secretário do jornal A Noite. Também Lúcia Miguel Pereira transitava entre a intelectualidade brasileira, tendo sido casada com o escritor, jurista e historiador Otávio Tarquínio de Sousa. Maluh Ouro Preto, por seu turno, era filha do escritor Celso de Ouro Preto. Maria Eugênia Celso era filha do conde Afonso Celso (poeta, escritor, jornalista). Outra tradutora-escritora que possuía parentesco e laços de amizade com importantes intelectuais da época era Maria Julieta Drummond de Andrade, filha de Carlos Drummond de Andrade, casada com o intelectual argentino Manuel Graña Etcheverry. Por fim, dentre aquelas tradutoras que se tornaram escritoras e que possuíam grau de parentesco com intelectuais, está Maslowa Gomes Venturi, cuja mãe,Yaynha Pereira Gomes, e a tia, Aplecina Conrado do Carmo, eram poetas.
Há, outrossim, entre as tradutoras que não se tornaram escritoras, outras tantas que eram parentes de intelectuais brasileiros. Destacam-se, entre elas, Berenice Xavier, irmã do jornalista e tradutor Lívio Xavier; Luiza Barreto Leite, casada com o escritor e crítico de cinema José Sanz; Maria da Saudade Cortesão, que, além de filha do médico, escritor, historiador e político português Jaime Cortesão, era esposa do poeta Murilo Mendes; Maria Elisa Penido Haack, filha do consultor jurídico do Ministério da Agricultura, Raul Penido, esposa de Edu Haack, filho do desembargador Olaf Haack, presidente da Corte de Apelação da Dinamarca; Maria Judith Cortesão, irmã de Maria da Saudade Cortesão; Ruth Leão, casada com o arquiteto, desenhista e pintor Carlos Leão; Tati de Azevedo de Melo Moraes, primeira esposa de Vinicius de Moraes, irmã de Ruth Leão, e, finalmente, outra tradutora ligada a Monteiro Lobato, desta feita sua filha, Ruth Lobato.
Até as décadas de 1930 e 1940 ainda havia poucas universidades no Brasil e nenhuma delas possuía cursos de formação de tradutores. O primeiro desses cursos só viria a surgir em 1968, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Até então, no Brasil, a tarefa de traduzir cabia fundamentalmente a intelectuais do sexo masculino – escritores, jornalistas e outros tantos, em geral ligados às áreas das letras. O que a pesquisa em pauta aponta é também para o fato de que, a partir dessas décadas, por possuírem relações de parentesco com figuras importantes do contexto político, jornalístico e artístico da época, por já terem certa produção autoral ou por simplesmente terem conhecimento da língua inglesa, as mulheres passaram a ocupar um relevante papel na história da tradução no Brasil.
Embora o volume de traduções de textos literários de língua inglesa feitas por mulheres nos anos 30 e 40 do século XX seja relativamente grande – 213 obras nas duas décadas em questão –, deve-se ressaltar que o número de traduções que coube a cada uma delas individualmente durante o período não foi muito expressivo, com exceção de Rachel de Queiroz, que só na década de 1940 traduziu 22 textos (vinte romances e dois contos), e de Lígia Junqueira Smith, que traduziu dezenove romances, sendo que dois deles ainda nos anos 1930. Outras tradutoras que tiveram uma atuação um pouco mais profícua foram Sílvia Mendes Cajado, que traduziu oito romances, todos nos anos 1940; Tati de Moraes, que traduziu cinco romances (quatro deles na década de 1930) e dois contos; Berenice Xavier, que traduziu nos anos 1940 quatro romances e dois contos; Maslowa Gomes Venturi, que traduziu seis romances na década de 1940; Wanda Murgel de Castro e Maluh Ouro Preto, que traduziram cinco romances também da década de 1940, e Lya Cavalcanti e Gulnara de Morais Lobato, ambas tradutoras de quatro romances, todos nos anos 1940. Dinah Silveira de Queiroz, por exemplo, um dos nomes nos quais se pensa quando se aborda a tradução por parte de mulheres nesses dois pares de décadas, traduziu apenas dois romances e um conto provenientes dos contextos de língua inglesa. A maior parte das tradutoras restantes traduziu apenas uma ou duas obras, o que revela que, para elas, a tradução de textos de literatura produzida em língua inglesa foi, de fato, uma atividade incidental nesse período. Deve-se ressaltar que muitas dessas tradutoras, como Rachel de Queiroz, também se dedicaram à tradução de textos provenientes de outras literaturas, mais notadamente as de línguas francesa e espanhola. Além disso, houve aquelas que, como a própria Rachel de Queiroz, traduziram obras não literárias, vinculadas ao universo da História, das Ciências Sociais e Humanas, da Psicologia e das Artes Plásticas.
A pesquisa não identificou a ocorrência de traduções de contos de língua inglesa por parte de mulheres na década de 1930. Os 23 contos traduzidos por mulheres foram publicados entre os anos 1940 e 1945, sendo que a maior parte deles concentrou-se entre 1944 (nove contos) e 1945 (doze contos). Os demais foram traduzidos em 1940 e 1942. No que diz respeito à tradução de romances (190 ao todo), eles foram traduzidos entre 1933 e 1949, sendo que a maior parte das publicações ocorreu na década de 1940: 169 (89%) contra 21 (11%) publicados na década anterior.
Outro dado que merece ser evidenciado é que, nessas décadas, a maior parte dos romances e contos de língua inglesa traduzidos por mulheres foram escritos originalmente por mulheres. Dos 161 autores cujas obras foram traduzidas, 85 (53%) eram do sexo
feminino e 76 (47%) eram do sexo masculino (veja o 12 Anexo 2 ).
Como dito anteriormente, o público feminino era, naquele momento, um público em processo de criação e ampliação, ávido por novos temas e novos estilos. Oferecer a esse público obras que dissessem respeito a uma realidade que lhes fosse mais próxima com certeza seria uma estratégia para sua adesão. Além disso, como a maior parte das obras traduzidas de literaturas de língua inglesa para o português foi publicada pela Editora José Olympio, 23%, pode-se acreditar que, de certa forma, Vera Pereira, mulher do dono da editora entre 1934 e 1944, também teve papel preponderante na escolha desses textos, como havia tido na escolha da principal língua de tradução, de acordo com o mencionado por Rachel de Queiroz em citação aqui já feita. Na percepção de Oliveira (2007):
[Vera Pereira] [e]ra professora, formada em Filosofia, com
ampla experiência no exterior, e lia francês e inglês muito bem,
dedicando-se “na editora à seção de livros estrangeiros, aos
best-sellers, às traduções. Precisamente por causa do seu
domínio de línguas e sua ampla cultura universal” (Villaça,
2001, p.139). Uma mulher enérgica, culta e independente como
Vera Pereira Jordão provavelmente procurou dar sua
contribuição para a difusão da literatura feminina através da
tradução. (p.54)
A partir dos dados levantados, pode-se dizer que são os anos 1940 que assinalam definitivamente a entrada das mulheres no mercado de trabalho da tradução. Esses dados também ratificam o fato de que essa década foi marcada por uma intensa atividade de tradução, determinada, já nos anos 1930, por mudanças no cenário social, político e econômico não apenas brasileiro, como também internacional, o que levou a um acirramento nas traduções de textos provenientes da língua inglesa. Na avaliação de Heloísa Gonçalves Barbosa e Lia Wyler (1998), em “Brazilian Tradition” [A tradição brasileira]:
A aproximação da Segunda Guerra Mundial [em 1939] trouxe
dois principais desenvolvimentos para a área [editorial]. O
primeiro foi que a importação de livros se tornou muito difícil, o
que favoreceu o crescimento das indústrias de publicação
nacionais. O segundo foi o crescimento dos Estados Unidos
como uma potência mundial, com o Brasil caindo cada vez mais
em sua esfera de influência, o que significou que o inglês logo
substituiu o francês como a principal língua fonte de tradução.
[...]
Foi a partir dos anos 1930, portanto, que a indústria editorial
começou a florescer no Brasil, e, com ela, as atividades de
tradução. Essa indústria em crescimento foi auxiliada por um
aumento na renda, no grau de alfabetização e no tempo de
lazer do público leitor. A lacuna crescente entre o português
europeu e o brasileiro também encorajou os editores a
comissionarem novas traduções brasileiras, em vez de
reimprimirem as europeias, uma vez que o público leitor no
Brasil não estava mais disposto a aceitar o português europeu
como uma alternativa. (p.330, minha tradução)13
Nas décadas de 1930 e 1940, 27 editoras publicaram traduções de romances e contos de literatura de língua inglesa feitas por
mulheres (veja o Anexo 3). No que diz respeito à tradução de romances, merecem destaque a Editora José Olympio, a Companhia Editora Nacional, a Editora Globo e a Editora Universitária, que publicaram, respectivamente, 24%, 20%, 10,5% e 9% dos romances traduzidos da língua inglesa por mulheres nas décadas de 30 e 40 do século XX. Apenas um dos contos traduzidos da língua inglesa por mulheres no período sob análise foi publicado pela José Olympio. Os demais, 22, equivalentes a 95,6%, foram publicados pela Editora Leitura.
As décadas de 30 e 40 do século XX, notadamente a última, foram marcadas pelo surgimento de diversas coleções por parte das editoras que atuavam no Brasil no período. No Anexo 4, encontram-se listadas as 28 coleções nas quais foram publicados romances e contos originalmente escritos em língua inglesa e que foram traduzidos por mulheres. Entre as editoras que publicaram coleções no período, merecem destaque a Editora José Olympio, a Companhia Editora Nacional e a Editora Globo. A primeira delas publicou cinco coleções e as demais, quatro coleções. Para os propósitos em questão, é muito importante que sejam mencionadas as coleções que tiveram o fim específico de atrair o público leitor feminino e que, provavelmente por esse motivo, mobilizaram a atuação de diversas mulheres como tradutoras no período. Foram elas: a Biblioteca da Mulher Moderna (Civilização Brasileira); a Primavera para Moças (Cúpula); a Romântica (Ipê); O Romance para Você e a Grandes Romances para a Mulher (José Olympio), e, finalmente, a Rosa (Saraiva).
Últimas observações
Sherry Simon, em livro já mencionado, considerou a Renascença inglesa como o momento em que as mulheres, através da tradução, começaram a se fazer audíveis como intelectuais. Disse ela:
Durante o Renascimento, particularmente na Inglaterra, a
tradução era um dos únicos modos de atividade intelectual
considerado apropriado para as mulheres. Somos levadas a
imaginar se a tradução condenou as mulheres às margens do
discurso ou se, ao contrário, as resgatou de um silêncio
imposto. Devemos entender que a tradução continuou como
uma forma de atividade totalmente marginal, “acrescentando”
nada aos círculos intelectuais em que foi introduzida? Ou a
tradução forneceu às mulheres uma oportunidade socialmente
sancionada de exercerem influência? Enquanto alguns
comentadores assumem que esse trabalho teve um impacto
pequeno, outros viram na tradução uma contribuição real para a
vida espiritual da época e um local a partir do qual normas
dominantes puderam ser desafiadas e resistidas. (1996, p.46)14
A nota que Simon acrescentou ao final desse parágrafo,
fundamentada na percepção de Stark (1993), 15 diz que, “a despeito das enormes diferenças na situação das mulheres cerca de cinco séculos mais tarde, esse mesmo questionamento ressurge no que diz respeito ao trabalho de mulheres tradutoras no século XIX”
(p.169).16
As indagações colocadas por Simon sobre o papel das mulheres tradutoras no contexto do Renascimento inglês e reiteradas por Stark no que diz respeito ao século XIX mostram-se pertinentes quando se leva em consideração a atuação de mulheres como tradutoras nas décadas de 30 e 40 do século XX no Brasil. Creio que a pesquisa que estou levando a cabo fornece respostas a essas indagações, algumas das quais foram expostas ao longo deste capítulo.
Enquanto, na Inglaterra, a entrada das mulheres no mundo da intelectualidade ocorreu durante o Renascimento, no Brasil isso se deu muito mais tarde. No entanto, a forma de entrada foi a mesma: via tradução. As renascentistas inglesas dedicaram-se à tradução de textos religiosos, enquanto as tradutoras brasileiras dos anos 1930 e 1940, por seu turno, dedicaram-se à tradução de textos seculares, uma vez que o momento de interesse por esse tipo de texto já havia sido suplantando, tendo cabido fundamentalmente aos clérigos do sexo masculino esse tipo de tradução, ainda no século XVI.
Embora, em um primeiro momento, a tradução tenha sido a única forma possível para muitas mulheres de darem vazão à sua veia criativa, tendo, dessa forma, as resgatado de um silêncio socialmente imposto, ela abriu para muitas delas a possibilidade de trazerem a público textos de sua própria lavra.Tanto para essas mulheres quanto para aquelas que já tinham produção autoral própria, a tradução certamente (e às vezes reconhecidamente) contribuiu para a construção de uma personalidade autoral mais consistente, pois os textos que traduziram – de língua inglesa e, em uma proporção ainda não aferida, provenientes dos Estados Unidos da América – eram bastante inovadores (em termos de fundo e de forma) em relação aos textos das literaturas de línguas francesa e espanhola que até aquele momento ocupavam a centralidade do sistema de literatura traduzida no Brasil.
A tabela reproduzida abaixo, embora se refira apenas a uma casa editorial – a José Olympio –, serve de evidência para o fato de que a intensidade da atividade tradutória no Brasil nas décadas de 30 e 40 do século XX, para a qual contribuiu a atuação das 102 mulheres
mencionadas no Anexo 1, não foi incidental. Ela reproduz, mantidas as devidas proporções, e levando em conta toda e qualquer tipologia textual e as línguas de origem, a importância que essa atividade adquiriu ao longo da década de 1940 e que, como se sabe, ainda possui no contexto brasileiro.
Tabela 1: A produção da Editora José Olympio entre 1932 e 1950
Ano Total de Edições de autores Edições
edições nacionais traduzidas
% Total Primeiras % Total Primeiras
edições edições
1932 1 0 0 0 100 1 1
1933 8 88 6 3 12 1 1
1934 32 85 26 11 15 6 6
1935 59 95 56 31 5 3 1
1936 66 97 64 49 3 2 2
1937 55 96 53 34 4 2 2
1938 56 87 49 39 13 7 3
1939 81 88 69 49 12 15 4
1940 73 86 62 26 13 11 7
1941 80 55 41 29 45 39 37
1942 73 68 51 30 32 22 19
1943 101 51 52 37 49 49 35
1944 125 46 58 41 54 67 55
1945 90 46 41 28 54 49 24
1946 90 36 32 27 64 58 38
1947 110 42 44 28 58 65 44
1948 107 52 57 33 48 50 30
1949 81 46 38 19 54 43 18
1950 79 49 38 15 51 41 16
Fonte: Hallewell, 1985, p.372 (minha ênfase).
Para finalizar, eu diria que as tradutoras das décadas de 30 e 40 do século XX de romances e contos provenientes de contextos de língua inglesa contribuíram para a abertura de novos mercados de tradução, para a divulgação de obras de mulheres escritoras que teriam ficado emudecidas não fossem as políticas editoriais voltadas para a formação e manutenção de um público leitor do sexo feminino e para o estabelecimento de ligações intelectuais que revigoraram o sistema literário nacional. Nesse aspecto, essas tradutoras, na terminologia de Lawrence Venuti (2002 [1998]), construída em função de texto de Friedrich Schleiermacher, de 1813, foram culturalmente estrangeirizantes. Por outro lado, no que diz respeito ao seu modus operandi, a impressão que se tem, fundamentada em um estudo comparativo entre original e tradução de um romance e de um conto traduzidos da língua inglesa por Rachel de Queiroz (Oliveira, 2007) e no início de uma comparação entre original e tradução de um romance de William Faulkner traduzido por Lígia Junqueira, é que elas teriam sido linguisticamente domesticantes, seguindo a tradição de tradução que vigorava no Brasil e em grande parte do mundo ocidental no período em questão.
É minha expectativa que os resultados parciais da pesquisa que venho levando a cabo em parceria com meus orientandos se ampliem e possam ser confrontados com os de outras tantas sobre o período em questão e sobre outras línguas originais, lançando, assim, maior luz sobre a estreita relação entre gênero e tradução e sobre o importante papel da mulher na história da tradução no Brasil.
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Anexo 1 – Tradutoras das décadas de 30 e 40 do século XX
NÚMERO NOMES NÚMERO NOMES
DE DE
ORDEM ORDEM
1. Adelaide 52. Lúcia (Matias)
Silveira Benedetti
(Magalhães)
2. Ana Maria 53. Lúcia (Vera)
Martins Miguel Pereira
3. Ana Maurício 54. Luciana Fingi
de Medeiros
4. Beatriz (Tati) 55. Luisa Maria de
Azevedo de Eça Leal
Melo Moraes
5. Beatriz de 56. Luiza Barreto
Vicenzi Leite
6. Benedita 57. Luiza Elza
Morgan Massena
7. Berenice Xavier 58. Lya Cavalcanti
8. Candida Vilalva 59. Margarida Izar
9. Carolina N. de 60. Maria A.
Araújo Whitaker
10. Cecília 61. Maria Alice
(Benevides de Azevedo Coelho
Carvalho)
Meireles
11. Cecília Whately 62. Maria Amélia
Rizzo
12. Cecy Mendes 63. Maria da
Saudade
Cortesão
(Mendes)
13. Corah A. 64. Maria Elisa
Roland Penido Haack
14. Dinah Silveira 65. Maria Eugênia
de Queiroz Celso (Carneiro
de Mendonça)
15. Dora Alencar de 66. Maria Joaquina
Vasconcelos Romero
16. Edith Barragat 67. Maria Judith
(Zuzarte)
Cortesão
17. Elisa Lynch 68. Maria Julieta
Drummond de
Andrade
18. Elsie (Pinheiro 69. Maria Leonel de
Temudo) Lessa Carvalho
19. Elza Gama 70. Maria Lúcia de
Ribeiro Mello e Souza
20. Ester de 71. Maria Luisa
Viveiros (Maluh) de Ouro
Preto
21. Esther Mesquita 72. Maria Rosa P.
Lôbo
22. Eunice de Faria 73. Marieta Alves
Ferreira
23. Flávia de 74. Marina Guaspari
Barros
24. Francisca de 75. Marina Salles
Basto Cordeiro Goulart de
Andrade
25. Gabriela de 76. Marta Martz
Andrade
26. Genoveva Piza 77. Maslowa Gomes
Venturi
27. Gulnara de 78. Murilla Torres
Morais Lobato
28. Haydee 79. Olívia Krahenbul
Calmasini
29. Helena de Irajá 80. Ondina Carneiro
Pereira
30. Heloisa de 81. Otília Schumann
Oliveira
Penteado
31. Hermengarda 82. Pepita de Leão
Leme Leite
(Takeshita)
32. Hilda Flori 83. Rachel de
Queiroz
33. Hilda Lobo 84. Regina Coeli
Regis
(Junqueira)
34. Ida Goldstein 85. Ruth (Azevedo
de Mello) Leão
35. Ilka Labarte 86. Ruth (Monteiro)
Lobato
36. Ilsa das Neves 87. Ruth Melo
37. Inah de Oliveira 88. Sheila Ivert
38. Isa Silveira Leal 89. Sílvia Guaspari
39. Isabel L. de 90. Sílvia Mendes
Medeiros Cajado
40. Jeanete Dante 91. Solena
de Mello Vianna Benevides Viana
41. Jeanne Marilier 92. Sônia
Guimarães
42. Laetitia Thomas 93. Sônia Orieta
Henrich
43. Lavínia Vilela 94. Sra. Leandro
Dupré
(Maria José
Fleury Monteiro
Dupré)
44. Lia Correia 95. Stella Martins
Dutra Paredes
45. Lia do Amaral 96. Suzanne Burtin
Vinhotes
46. Lidia Guaspari 97. Sylvia Léon
Chalreu
47. Lígia Autran 98. Tina Canabrava
Rodrigues
Pereira
48. Lígia Junqueira 99. Vera Gusmão
(Caiubi) Smith
49. Lília de Barros 100. Virgínia da Silva
Lefèvre
50. Lília Guaspari 101. Wanda Murgel
de Castro
51. Lola de 102. Yolanda Vieira
Andrade Martins
Anexo 2 – Autores cujos romances e contos escritos em língua
inglesa foram traduzidos por mulheres nas décadas de 30 e 40 do
século XX no Brasil
NÚMERO NOME DO(A) HOMEM MULHER
DE AUTOR(A)
ORDEM
1. A. J. Cronin X
2. Adelaide Humphries X
3. Adria Locke Langley X
4. Agatha Christie X
5. Alfred Bertram Guthrie X
6. Alice Tisdale Hobart X
7. Anita Loos X
8. Ann Katherine Rittner X
9. Ann Petry X
10. Annabel Lee X
11. Anthony Trollope X
12. Ben Ames Willians X
13. Ben Hecht X
14. Benedict Freedman e X X
Nancy M. Freedman
15. Berta Ruck X
16. Bertita Harding X
17. Betty (Wehner) Smith X
18. Booth Tarkington X
19. Carol Gaye X
20. Caroline Slade X
21. Charles Dickens X
22. Charles Nordoff e X e X
James M. Hall
23. Charlotte Brame X
24. Christine Weston X
25. Clifford M. Sublette e X e X
Harry Harrison Kroll
26. Concordia Merrel X
27. Conrad Aiken X
28. Daphne du Maurier X
29. Dashiell Hammett X
30. Dorothy Parker X
31. E. M. Forster X
32. Earl Derr Biggers X
33. Edgar Allan Poe X
34. Edgar Lee Masters X
35. Edgar Rice Burroughs X
36. Edith Wharton X
37. Edna Ferber X
38. Edward Albert Idell X
39. Edward Harris Heth X
40. Elinor Glyn X
41. Elizabeth Gaskell X
42. Elizabeth Metzger X
Howard
43. Emily Brontë X
44. Erle Stanle Gardner X
45. Ernest Bramah X
46. X Erskine Caldwell
47. Evelyn Eaton X
48. Evelyn Sybil Mary X
Eaton
49. F. Van Wyck Mason X
50. Faith Baldwin X
51. Fannie Hurst X
52. Florence Stuart X
(pseudônimo de Florenc
Stonebraker)
53. Forrest Rosaire X
54. Frances Parkinson X
Keyes
55. Frank Yerby X
56. Frederic Dannay e X e X
Manfred B. Lee
57. George Cornell Holpley- X
Woolrich (pseudônimo
de William Irish)
58. Gladys Schmitt X
59. Grace Hartman X
60. Gwen Bristow X
61. Gwethalyn Graham X
62. Harold Bell Wright X
63. Harry Lee X
64. Helen Huntington Howe X
65. Helen Maclnnes X
66. Henry Belamann X
67. Henry Harriet X
68. G. K. Chesterton X
69. Hervey Allen X
70. Ilka Chase X
71. Isabel Moore X
72. J. Hyatt Downing X
73. Jack London X
74. James Fenimore X
Cooper
75. James Hilton X
76. Jane Austen X
77. Jane Ludlow Drake X
Abbott
78. Janet Taylor Caldwell X
79. Jeanne Bowman X
80. Jennifer Ames X
81. John Brophy X
82. John Dickson Carr X
83. John dos Passos X
84. John Gaslworthy X
85. John Louis Bonn X
86. John R. Hersey X
87. John Steinbeck X
88. Joseph Stanley Pennel X
89. Josephine Pinckney X
90. Katherine Brush X
91. Katherine Mansfield X
92. Kathleen Norris X
93. Kay Boyle X
94. Kenneth L. Roberts X
95. Laura Z. Hobson X
96. Laurence Sterne X
97. Lella Warren X
98. Leslie Charteris X
99. Lewis Carrol X
100. Liam O’Flaherty X
101. Lillian Smith X
102. Lloyd Douglas X
103. Louis Bromfield X
104. Louis Stevenson X
105. Louise Andrews Kent X
106. Louise John (Randall) X
Pierson
107. Louise Logan X
(pseudônimo de Gloria
Goddard)
108. Lucy Maud Montgomery X
109. Maggie Jeanne X
Wadelton
110. Marcia Davenport X
111. Margaret Buell Wilder X
112. Margaret Gorman X
Nichols
113. Margaret Mitchell X
114. Margaret Simpson X
115. Marguerite Steen X
(pseudônimo de Jane
Nicholson)
116. Marie Blizard X
117. Maritta Martin Wolff X
118. Mark Twain X
119. Mary E. Wilkins X
120. Maurren Daly X
121. Max Beerbohm X
122. Max Brand X
123. May Christie X
124. Mitchell Wilson X
125. Myrtle Reed X
126. Nancy Hale X
127. Nathaniel Hawthorne X
128. Nella Braddy X
129. Niven Busch X
130. Oliver Prouty X
131. Pearl Buck X
132. Peggy Gaddis X
133. Perry Burgess X
134. Phyllis Bottome X
135. Rachel Field X
136. Robert Louis Stevenson X
137. Rosamond Van Der Zee X
Marshall
138. Rose Franken X
139. Ruby Mildred Ayres X
140. Saki (pseudônimo de X
Hector Hugh Munro)
141. Samuel Shellabarger X
142. Samuel Butler X
143. Sarah-Elisabeth Rodger X
144. Sinclair Lewis X
145. Sir Thomas Malory X
146. Sophie Kerr X
147. Stephen Vicent Benet X
148. Susan Glaspell X
149. Temple Bailey X
150. Theda Kenyon X
151. Thomas B. Costain X
152. Upton Sinclar X
153. Vicki Baum X
154. Virginia Woolf X
155. W. Somerset Maugham
156. Walter de La Mare X
157. Walter Dumaux X
Edmonds
158. Willa Cather X
159. William Edward March X
Campbell
160. William Faulkner X
161. Zane Grey X
Anexo 3 – Editoras que atuaram nas décadas de 30 e 40 do século
XX no Brasil
NÚMERO EDITORAS ROMANCES CONTOS TOTAL
ORDEM
1. Agir 1 1
2. Anchieta 7 7
3. Atena 1 1
4. Brasil 5 5
5. Brasiliense 2 2
6. Civilização 6 6
Brasileira
7. Companhia 38 38
Editora
Nacional
8. Cruzeiro 10 10
9. Cúpula 1 1
10. Dois Mundos 1 1
11. Edições e 1 1
Publicações
do Brasil
12. Emiel 1 1
13. Globo 20 20
14. Guaíra 1 1
15. Inquérito 1 1
16. Ipê 6 6
17. José 46 1 47
Olympio
18. Leitura 22 22
19. Martins 8 8
20. Pan- 1 1
Americana
21. Paulinas 1 1
22. Pongetti 4 4
23. Povo 1 1
24. Saraiva 3 3
25. Seleções 1 1
Reader’s
Digest
26. Universitária 17 17
27. Vecchi 6 6
TOTAL 190 23 213
Anexo 4 – Coleções em que foram publicados romances e contos
traduzidos por mulheres nos anos 30 e 40 do século XX
NÚMERO TÍTULO DA COLEÇÃO EDITORA
DE
ORDEM
1. A Marcha do Tempo Brasiliense
2. Biblioteca da Mulher Moderna Civilização
Brasileira
3. Biblioteca das Mocas Companhia
Editora
Nacional
4. Biblioteca do Espirito Moderno Companhia
Editora
Nacional
5. Para Todos Companhia
Editora
Nacional
6. Terramarear Companhia
Editora
Nacional
7. O Cruzeiro Cruzeiro
8. Primavera para Moças Cúpula
9. Nobel Gigante Globo
10. Amarela Globo
11. Nobel Globo
12. Universo Globo
13. Estante Americana Guaíra
14. Oceano Ipê
15. Romântica Ipê
José
José
16. O Romance para Você
Olympio
17. Feira de Vaidades José
Olympio
18. Grandes Romances para a José
Mulher Olympio
19. Fogos Cruzados José
Olympio
20. O Romance da Vida José
Olympio
21. Coleção Contos do Mundo: 2 Leitura
(Os ingleses antigos e
modernos)
22. Coleção Contos do Mundo: 3 Leitura
(Os norte-americanos antigos
e modernos)
23. Contemporânea Martins
24. Excelsior Martins
25. Rosa Saraiva
26. Os Romances Charlie Chan Vecchi
27. As Américas Vecchi
28. Os Audazes Vecchi
1 UFJF, Faculdade de Letras, Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, 36036-900, Juiz de Fora, MG, Brasil.
ma.clara@terra.com.br
2 Simon, Gender in Translation, p.23. Essa e as demais citações extraídas dessa obra foram feitas por mim. Texto original: “Despite its historical status as a weak and degraded version of authorship, translation has at times emerged as a strong form of expression for women – allowing them to enter the world of letters, to promote political causes and to engage in stimulating writing relationships”.
3 Os trabalhos em torno da atuação de Monteiro Lobato e Erico Verissimo como tradutores aos quais me refiro são: Mendes, 2002; Campos, 2004; Duque, 2004.
4 Refiro-me aos seguintes artigos: Oliveira, 2006, 2007, 2008; Campos; Oliveira, 2009.
5 Refiro-me à seguinte monografia: Oliveira, 2007. Essa monografia deu origem ao seguinte artigo, que publiquei em parceria com sua autora: Oliveira; Oliveira, 2008.
6 Cf. Dias, 2002.
7 Cf. Gomes, 2006.
8 Cf. Gomes; Oliveira, 2009.
9 Texto original: “By describing some of the links and inter-connections between gender issues and translation studies, I hope to inform, stimulate discussion and encourage further research into the intersections of these two fields. This objective reflects a feminist activist agenda on my part, as I demonstrate to what extent gender awareness affects international discussion, research and communication” (minha tradução).
10 Essa pesquisa vem sendo desenvolvida desde agosto de 2012 e conta com a participação de uma bolsista de graduação do curso de bacharelado em Tradução – Inglês da Universidade Federal de Juiz de Fora, Fabiana da Silva Rodrigues. Ela se insere no âmbito do projeto maior, mencionado anteriormente, “Traduções literárias: jogos de poder entre culturas assimétricas”.
11 Destaco as seguintes obras, dentre as várias pesquisadas: Coelho, Dicionário crítico de escritoras brasileiras; Englekirk, Bibliografia de obras norte-americanas em tradução portuguesa; e A Provisional Bibliography of United States Books Translated into Portuguese.
12 Houve três livros que foram escritos em parceria por autores do sexo masculino. Cada um desses casos foi tratado como uma autoria do sexo masculino. Por outro lado, houve uma obra que foi escrita em parceria por um homem e uma mulher. Nesse caso, foram computadas as duas autorias.
13 Texto original: “The approach of World War II brought two major developments to the area. The first was that importing books became very difficult, and this favoured the growth of domestic publishing businesses. The second was the rise of the United States as a world power, with Brazil falling increasingly within its sphere of influence, which meant that English soon replaced French as the main source language in translation. […] It was from the 1930s onwards, then, that the publishing business began to flourish in Brazil and, with it, translation activities. This flourishing business was aided by an increase in the reading public’s income, literacy and leisure time. The growing gap between European and Brazilian Portuguese also encouraged publishers to commission new Brazilian translations, instead of reprinting European ones, as the reading public in Brazil was no longer willing to accept European Portuguese as an alternative.”
14 Texto original: “During the Renaissance, particularly in England, translation was one of the only modes of intellectual activity considered appropriate for women. We are led to wonder whether translation condemned women to the margins of discourse or, on the contrary, rescued them from imposed silence. Are we to understand that translation remained a totally marginal form of activity, “adding” nothing to the intellectual circles into which it was introduced? Or did translation provide women with a socially sanctioned opportunity to exert influence? While some commentators assume that this work had little impact, others have seen in translation a real contribution to the spiritual life of the times and a site from which dominant norms could be challenged and resisted.”
15 A obra é referida por Simon da seguinte maneira: Stark, Women and Translation in the Nineteenth Century, 1993 (Simon, 1996, p.186).
16 Texto original: “Despite the enormous differences in the situation of women some five centuries later, this same question resurfaces with respect to the work of women translators in the nineteenth century”.