Tratado das Cores

Diogo de Carvalho e Sampaio · Capítulo 57 de 71

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Tratado das Cores

QUANTO á PROPOSIÇAÕ III.

80. Esta Proposiçaõ concorda inteiramente com os Principios,

Primeiro, e Segundo (§ 20. 21.); e com o Oitavo, e Nono (n. 58. 60.); que saõ identicos, ainda que dedusidos de experiencias diversas. O Negro, e o Branco, contem todas as Cores; aquelle, intimamente

unidas (§ 20. 22. n. 58. 59.); e este extremamente, divididas (§ 19.

21. n. 60. 61.): donde se ve, que a differença destas duas Cores, e de todo o claro-escuro, consiste só nas quantidades das Cores componentes, a respeito de huma certa massa de Luz, ou originaria, ou reflectida dos Corpos, com mais ou menos modificaçoens.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ IIII.

81. O sentido desta Proposiçaõ, he dificil de comprehender, muito mais dizendo Newton, que as Cores primitivas, saõ Cores simplez. Como se póde imaginar, que sendo as Cores primitivas, elementos

simplez, como o mesmo Newton as caracterisa,[27] se componhaõ das que lhes ficaõ visinhas? Parece, que este philosopho naõ chegou a formar huma idea clara das Cores primitivas; porque

quando as compara com o canon armonico[28] ou escala da Musica, deixa entender, que ellas saõ sete. Quando diz, que naõ entende por Cores primitivas só as cinco Vermelho, Amarello, Verde, Azul e

Purpura, mas todas as que se formaõ desta sorte, [29] deixa em duvida o numero daquellas Cores. E quando diz, finalmente, que ellas saõ simplez, e elementares, deixa entender, que se naõ podem compor de outras Cores.

82. Seria preciso ser outro que Newton, para aclarar as suas ideas, se ellas saõ confusas. Mas quem reflectir, que o seu systema he fundado em huma mera conjectura, à que deu lugar a imagem oblonga, que hum rayo de luz do Sol, tendo passado pelo Prisma, faz ver na camara obscura, se convenserá facilmente, que de taes Principios se naõ podiaõ deduzir mui claros resultados. Aquella figura, pelo que ja fica dito, naõ he a pedra de toque para conhecer

o metal das Cores primitivas. (n. 37. 38.)

83. Se, sobre o porphyro, se mixtura com agoa, e em certas proporçoens, Carmin, e Verde-distillado, forma-se a Cor de Purpura. Se se junta hum pouco mais de Verde, resulta huma especie de Azul, mui similhante à o que faz ver o Prisma. Se este Azul, e Purpura se estendem com o pincel sobre hum papel branco, e depois se tocaõ com hum pincel banhado em agoa pura, desaparecem estas duas Cores resolvendo-se em hum vermelho mais escuro, que o Carmin. Se qualquer planta, de hum bello verde, deixa de ser regada, a sua Cor natural se converte em Amarello; mas acudindo-lhe, à tempo, com agoa, recupera a sua Cor verde, desapparecendo absolutamente a amarella.

84. Se a Cor de purpura, e azul se formaõ, e se destroem, como fica

dito (n. 83.); se a amarella se faz nascer do Verde, e se converte

outra vez nelle; (Nota XVI.) Como se póde crer, que estas tres Cores sejaõ simplez, e primitivas?

85. As outras duas especies de Azul, e Amarello, que pretendem ver-se no Prisma, naõ podem ser, que meyas tintas das suas similhantes; por que seria contrario à o poder, e á simplicidade da Natureza, que, para formar as Cores naturaes, duplicasse os elementos da mesma especie; quando a Arte, que he mais composta e menos poderosa, que a Natureza, forma todas as Cores de huma especie, com hum so elemento, analogo a essa mesma

especie, modificado com o claro-escuro, e com as outras Cores (§.

76. 77.)

86. Excluidas, assim, das Cores chamadas primitivas, as duas especies de Azul, e Amarello, e a Cor de purpura; segue-se, que só o Vermelho, e Verde, se pódem ter por Cores elementares, simplez, e primitivas.

87. Ja que fallei da comparaçaõ dos intervallos dos sons, e das

Cores (n. 81.), naõ devo omittir, que ella se funda em calculos meramente hypotheticos. Os intervallos das Cores prismaticas naõ

se podem exactamente medir, como o mesmo Newton confessa [30], servindo-se ainda, da palavra Grega ακριβεια, para dár huma justa idea da diligencia, que inutilmente empregou nesta operaçaõ. E os rapportos geometricos dos sons intermedios da oitava, tem taõ pouca similhança com os sons naturaes, como he notorio á todos os

Proffessores da Sciencia da Musica, e a todos os Geometras[31] (§

5.). Donde se ve a inconcludencia, de tudo quanto se tem escripto, neste concernente.