Um Defeito de Cor
Capítulo um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ana Maria Gonçalves
“As sementes da descoberta flutuam constantemente à nossa volta, mas só lançam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las.”
Joseph Henry
Capítulo um
A borboleta que esbarra em espinhos rasga as próprias asas.
Provérbio africano
Kehinde
Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino. O meu nome é Kehinde porque sou uma ibêji, (Ibêji: Assim são chamados os gêmeos entre os povos iorubás), e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido o meu irmão Kokumo, e o nome dele significava "não morrerás mais, os deuses te segurarão".
O Kokumo era um abiku, (Abiku: "criança nascida para morrer"), como a minha mãe. O nome dela, Dúróorílke, era o mesmo que "fica, tu serás mimada".
A minha avó Dúrójaiyé tinha esse nome porque também era uma abiku, e o nome dela pedia "fica para gozar a vida, nós imploramos". Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Alguns abikus tentam nascer na mesma família para permanecerem juntos, embora não se lembrem disto quando estão aqui no iye, na terra, a não ser quando sabem que são abikus. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que Ele queira, porque, quando Ele quer, até água fria é remédio.
A minha avó nasceu em Abomé, a capital do reino de
Daomé, ou Dan-home, onde o rei governava da casa assentada sobre as entranhas de Dan. Ela dizia que esta é uma história muito antiga, do tempo em que os homens ainda respeitavam as árvores, quando o rei Abaka foi pedir ao vizinho Dan um pedaço de terra para aumentar o seu reino. Daquela vez, Dan já deu a terra de má vontade, e quando Abaka pediu outro pedaço para construir um castelo,
Dan ficou bravo e respondeu que Abaka podia construir o castelo sobre a sua barriga, pois não daria mais terra alguma. Com raiva da resposta mal-educada, o rei Abaka matou Dan e, sobre as entranhas espalhadas no chão, ergueu um palácio suntuoso, a partir do qual teve início o grande império do povo iorubá. Dan também é o nome da serpente sagrada, mas esta história fica para mais tarde ou para outra pessoa contar quando chegar a hora dela, porque agora preciso falar de um tempo que começou muito depois, quando a perseguição do rei monstro Adandozan obrigou a minha avó a sair de Abomé e se mudar para Savalu.
A minha mãe tinha marido em Abomé, o pai do Kokumo, que se chamava Babatunde, (Baba: significa avô, e Babatunde é um nome dado às crianças que nascem depois da morte do avô, podendo herdar a personalidade dele), e era guerreiro, assim como o pai dele tinha sido, e antes do pai, o avô. O Kokumo teria o mesmo destino se não tivesse morrido antes. O Babatunde era um bom guerreiro e por isso foi nomeado ministro pelo rei do Daomé, indo morar na capital do reino. Ele já era ministro quando se casou com a minha mãe, fazendo dela sua terceira esposa.
Mas como ao longo dos anos a minha mãe só atraiu abikus e o Babatunde precisava de filhos que quisessem viver e se tornar guerreiros como ele, não se importou quando ela foi embora com a minha avó. O que ele não sabia era que a minha mãe estava pejada, (Pejada:
grávida), e já tinha aprendido a enganar abikus. O
Kokumo nasceu logo que elas chegaram a Savalu, depois de muitos dias andando pelas estradas rumo ao norte, até saberem que deveriam ficar ao pé de um iroco, (Iroco: árvore sagrada de algumas religiões africanas.
No Brasil também é chamada de gameleira-branca ou de
"A Grande Árvore" ou "A Árvore Sagrada").
Um dia apareceu o Oluwafemi, "aquele que é amado por Deus", que ajudou a construir a casa e foi homem para a minha mãe. Mas depois que a casa ficou pronta, ele seguiu viagem rumo ao norte, talvez para Natitingou, antes de saber que ela estava novamente pejada, abençoada com ibêjis, eu e a Taiwo. Ibêjis dão boa sorte e riqueza para as famílias em que nascem, e era por isso que a minha mãe podia dançar no mercado de Savalu e ganhar dinheiro. Ela dançava e as pessoas colavam cauris (Cauri: um tipo de concha usado como dinheiro) em sua testa, e quando eu e a Taiwo éramos pequenas, colavam ainda mais, pois a minha mãe dançava com nós duas amarradas ao corpo. Usava panos lindos para segurar eu e a Taiwo bem presas junto a ela, uma na frente e a outra atrás. Ficávamos nos olhando nos olhos e sorrindo por cima do ombro dela, e é por isso que a primeira lembrança que tenho é dos olhos da Taiwo.
Éramos pequenas e apenas os olhos ficavam ao alcance dos olhos, um par de cada lado do ombro da minha mãe, dois pares que pareciam ser apenas meus e que a Taiwo devia pensar que eram apenas dela. Não sei quando descobrimos que éramos duas, pois acho que só tive certeza disto depois que a Taiwo morreu. Ela deve ter morrido sem saber, porque foi só então que a parte que ela tinha na nossa alma ficou somente para mim. Eu senti quando isso começou a acontecer, e foi naquela tarde.
O destino
Sentada sob o iroco, a minha avó fazia um tapete enquanto eu e a Taiwo brincávamos ao lado dela.
Ouvimos o barulho das galinhas e logo depois o pio triste de um pássaro escondido entre a folhagem da Grande Árvore, e a minha avó disse que aquilo não era bom sinal. Vimos então cinco homens contornando a Grande Sombra e a minha avó disse que eram guerreiros do rei Adandozan, por causa das marcas que tinham nos rostos. Eu falava iorubá e eve, e eles conversavam em um iorubá um pouco diferente do meu, mas entendi que iam levar as galinhas, em nome do rei.
A minha avó não se mexeu, não disse que concordava nem que discordava, e eu e a Taiwo não tiramos os olhos do chão. Os guerreiros já estavam de partida quando um deles se interessou pelo tapete da minha avó e reconheceu alguns símbolos de Dan. Ele tirou o tapete das mãos dela e começou a chamá-la de feiticeira, enquanto outro guerreiro apontava a lança para o desenho da cobra que engole o próprio rabo que havia, mais sugerida do que desenhada, na parede acima da entrada da nossa casa.
Os guerreiros conversavam depressa e aos gritos, decerto resolvendo o que fazer, enquanto eu e a Taiwo nos demos as mãos, sem entendermos direito o que estava acontecendo. A minha avó se atirou ao chão diante deles, implorando que fossem embora, que levassem tudo o que quisessem levar, que Olorum (Olorum:
corresponde
à
idéia
de
Deus)
os
acompanhasse. Eles não a ouviam e falavam de feitiços, de pragas e de Agontimé (Agontimé: uma das rainhas do Daomé, acusada de feiticeira pelo rei Adandozan e vendida como escrava. Uma das principais sacerdotisas do culto a Dan, a serpente sagrada, e a Elegbatá, o orixá da varíola e das pestes). Como se já não houvesse sombra sob o iroco, uma outra sombra ainda mais escura e no formato de asas de um grande pássaro passou sobre a cabeça da minha avó. Eu já tinha ouvido
falar daquele tipo de pássaro, era uma das lydmis, uma das sete mulheres-pássaro que quase sempre carregam más notícias.
Atraída pelo barulho, a minha mãe surgiu correndo da beira do rio, onde se banhava acompanhada do Kokumo, que estava pescando. Naquele dia, a minha mãe tinha acabado de voltar do mercado, lavado as pinturas com que enfeitava o corpo e passado ori (Ori: um tipo de manteiga vegetal usada para proteger e hidratar a pele, e também em alguns rituais religiosos) nele. Eu nunca tinha visto a minha mãe tão bonita.
Ela tinha peitos pequenos, dentes brancos e a pele escura que brilhava ainda mais por causa do ori. A minha mãe cuidava dos meus cabelos e dos cabelos da Taiwo como cuidava dos dela, dividindo em muitas partes e prendendo rolinhos enfeitados com fitas coloridas, que comprava no mercado. O Kokumo apareceu correndo atrás dela e foi pego por um dos guerreiros, que o agarrou pela cintura e o levantou, até que ele ficasse com os pés balançando no ar. Outro guerreiro pegou a minha mãe pelos braços e a apertou contra o próprio corpo, e, de imediato, o membro dele começou a crescer. Ele disse que queria se deitar com a minha mãe e ela cuspiu na cara dele.
O Kokumo chutava o ar, querendo se soltar para nos defender, pois tinha sangue guerreiro, e foi o primeiro a ser morto. Um dos guerreiros, que até então tinha ficado apenas olhando e sorrindo, chegou bem perto do Kokumo e enfiou a lança na barriga dele. Eu me lembro do sangue que saiu da boca do meu irmão e espirrou na roupa do guerreiro, e continuou a escorrer mesmo depois que o jogaram no chão, com a cara virada para baixo. O sangue imediatamente formou um riozinho, daqueles turvos e de água espessa, como os que recebem muita água de chuva na cabeceira.
A minha avó continuava deitada na frente de um dos guerreiros, batendo a cabeça no chão e pedindo que fossem embora, mas eles não se importavam. O
guerreiro que segurava a minha mãe, o que aos meus olhos era só membro duro e grande, jogou-a no chão e se enfiou dentro da racha dela. Ela chorava e eu olhava assustada, imaginando que devia estar doendo, imaginando que a minha avó, por ser grande, também já tinha feito aquilo e sabia que não era bom, pois ela também chorava e pedia que parassem, perguntando se já não estavam satisfeitos com o que tinham feito ao Kokumo. Eles continuaram fingindo que ela não existia.
Na estrada que passava ao lado da nossa casa, algumas pessoas pararam para olhar, mas ninguém se aproximou.
Dois dos guerreiros repararam em mim e na Taiwo. O
primeiro pegou uma das mãos dela e apertou em volta do membro dele, e logo foi copiado pelo amigo, que usou a minha mão. Acho que a direita, porque a Taiwo estava sentada à minha esquerda e nem por um momento nos separamos, apertando ainda com mais força as mãos livres. O guerreiro forçava a minha mão contra o membro, que, de início, estava mole, e mexia o corpo para a frente e para trás, fazendo com que ficasse duro e quente. A minha avó chorava encobrindo o rosto, não sei se para esconder as lágrimas ou se para se esconder do que via. Um outro guerreiro se aproximou dela e, com a ponta da lança, sem se importar se estava machucando ou não, descobriu os seus olhos, mandando que ela olhasse o que estava acontecendo, dizendo que a feitiçaria dela nada adiantava contra a força deles.
Eu lembro que o riozinho de sangue que escorreu da boca do Kokumo quase alcançou o tronco do iroco, e as formigas tiveram que se desviar dele. Elas andavam com as costas carregadas de folhas, e quando chegavam à margem do riozinho, se desviavam e seguiam ao longo dele, com pressa para alcançar o final, cruzar na frente e seguir adiante. Como se acompanhasse a pressa das
formigas, o guerreiro acelerava o movimento com o corpo e apertava cada vez mais a minha mão ao redor do membro, enquanto a outra estava amortecida dentro da mão da Taiwo, de tão forte que nos segurávamos, parecendo mesmo uma só pessoa, e não duas. Acho que os guerreiros também perceberam isso e riram, divertidos. A minha mãe ficou quieta, calada, e nem mesmo se mexeu quando outro guerreiro tomou o lugar do que estava dentro dela.
Quase ao mesmo tempo, a minha mão e a da Taiwo ficaram sujas com o líquido pegajoso e esbranquiçado que saiu dos membros dos guerreiros e espirrou longe, quase atingindo o riozinho vermelho-escuro do Kokumo, que, àquela hora, já tinha perdido a força, sem conseguir chegar ao tronco do iroco, embora tivesse ficado mais largo. Percebi que a Taiwo estava observando o mesmo que eu, mas não comentamos nada, nem mesmo apostamos se o riozinho ainda se moveria ou não. Depois de um tempo, os guerreiros se deitaram para descansar, menos o que ainda estava dentro da minha mãe. Todo o resto permaneceu quieto, calado, e até mesmo o bando de pássaros que costumava passar por cima da casa àquela hora, barulhento e fugindo da noite, devia ter se desviado do caminho, como as formigas fizeram com o riozinho de sangue.
Foi então que vi o Kokumo se levantar e começar a cantar e a correr em volta da minha mãe, fazendo festa como se não visse o guerreiro entrando e saindo de dentro dela, com força e cada vez mais rápido. O
guerreiro gemia e o Kokumo cantava, e seu canto atraiu outras crianças, outros abikus, que apareceram de repente e logo também estavam cantando e formando uma roda junto com ele. Uns surgiram correndo do lado do rio, outros pulando das árvores, outros brotando do chão, e estavam todos alegres ao abraçar o Kokumo, que, junto com eles, começou a rir, a cantar e a brincar de roda, convidando a minha mãe para se divertir
também. Enquanto isso, o riozinho tinha parado mesmo de correr e estava ficando com uma cor cada vez mais escura. A minha mãe começou a sorrir e a girar o pescoço de um lado para o outro, acompanhando a brincadeira das crianças. Eu nunca soube se a minha avó pôde vê-las, mas decerto os guerreiros não viram, porque o que estava em cima da minha mãe não gostou da inquietação dela e mandou que parasse. Quanto mais ele falava e dava tapas no rosto dela, mais ela sorria e girava o pescoço, seguindo os abikus. Até que ele se acabou dentro dela, jogou o corpo um pouco para o lado, apanhou a lança e a enfiou sorriso adentro da minha mãe. Ela não parou de sorrir um minuto sequer, e tão logo surgiu um riozinho de sangue escorrendo na direção do riozinho do Kokumo, a minha mãe correu para perto dele e o abraçou.
O guerreiro, que estava saindo de dentro dela, nem percebeu. Eu lembro que, naquela hora, a minha mãe, sempre tão alta, tinha o mesmo tamanho do Kokumo e das outras crianças, que brincavam felizes como se há muito tempo esperassem por aquele momento. Até que viram a minha avó e correram para conversar com ela.
Por sorte o guerreiro já não mantinha mais a cabeça dela levantada pela lança. A minha avó olhava para o chão e rezava, chorando a quizomba, como também fez com todos os convites para brincar. Finalmente, as crianças se cansaram e foram embora, sumindo tão de repente como tinham aparecido, levando o Kokumo e a minha mãe sem que eles ao menos tivessem se despedido de mim, da Taiwo e da minha avó.
O riozinho da minha mãe primeiro correu lado a lado com o do Kokumo, depois se juntou a ele e o espichou um pouco mais. As formigas foram obrigadas a dar uma volta maior, subindo pelo tronco do iroco. Quando não consegui mais acompanhar o trajeto delas foi que percebi que já era noite e eu ainda tinha a mão presa à da Taiwo, nós duas muito quietas, não sabendo que
providências tomar. Só então a minha avó se levantou e acendeu uma fogueira, para depois puxar o corpo do Kokumo e colocá-lo dentro dos braços do corpo da minha mãe. Fez aquilo como se estivesse arrumando a casa e escolhendo a melhor posição para um enfeite, mudando tudo de lugar enquanto não achava uma boa ordem para aqueles dois pares de braços e de pernas.
Quando se deu por satisfeita, ela se sentou perto deles, pegou a cabeça da minha mãe, colocou-a sobre o próprio colo e começou a cantar com o mesmo alheamento com que cantava enquanto tecia seus tapetes. Passou o resto da noite embalando a filha e o neto mortos, e a luz do dia a encontrou buscando água no rio para molhar e esfregar os dois corpos. Depois cavou o chão no lugar onde dormiam, enrolou cada corpo em uma esteira e os colocou dentro do buraco. Uma única cova rasa para os dois, que mal deu para abrigá-los e à terra que jogou por cima enquanto cantava, para em seguida se ajoelhar ao lado e rezar por horas e horas. No meio da tarde, reacendeu o fogo no quintal e fez comida, que dividiu em cinco partes iguais: uma para mim, uma para a Taiwo, uma para ela e duas para colocar ao lado da cova. Só então desenrolou sua esteira e dormiu, sem ter dito uma única palavra para mim ou para a Taiwo, sem ter chorado uma só lágrima a mais desde a partida dos guerreiros.
Eu e a Taiwo já estávamos com medo de que ela tivesse morrido também, quando afinal se levantou na manhã seguinte e começou a recolher roupas, panos, um pouco de comida e as estátuas de Xangô, de Nana e dos Ibêjis, colocando tudo em uma trouxa. Ela não disse nada, mas entendemos que devíamos fazer o mesmo e separamos as nossas poucas coisas em duas trouxas pequenas, para que conseguíssemos carregar.
Estávamos cansadas porque tínhamos passado a noite inteira vigiando para que as crianças não voltassem e
tentassem levar a nossa avó. Não chegamos a combinar nada, mas tenho certeza de que, caso se aproximassem, assim como eu, a Taiwo trataria de expulsá-las a qualquer custo, mesmo se o Kokumo e a minha mãe estivessem junto, mesmo se tivéssemos que brigar com todos ao mesmo tempo. Só afrouxamos a vigília quando finalmente amanheceu e acreditamos que não apareceriam mais, porque seria mais fácil para eles levarem a minha avó enquanto ela dormia, enquanto mantinha os olhos fechados e não via o quanto eu e a Taiwo precisávamos dela.
Mas ela sabia, pelo jeito como nos olhou enquanto tentávamos equilibrar as trouxas sobre a cabeça, ela sabia. E era por isso que estava nos tirando de lá, pois tinha
acontecido
algo
do
qual
nunca
mais
conseguiríamos esquecer. Até aquela hora, desde a hora do destino, nenhuma de nós três tinha falado nada, e foi assim, em silêncio, que pegamos a estrada sem que eu e a Taiwo soubéssemos para onde. Talvez a minha avó já soubesse, ou talvez tenha decidido quando estávamos a caminho.
A viagem Depois de andarmos até onde nossas forças agüentaram, paramos para comer, e a minha avó disse que estávamos indo para o litoral, para Uidá. Eu não sabia onde ficava Uidá e também não me preocupei em perguntar, pois estava mais interessada na estrada que nos levaria até lá, cheia de gente usando panos, cortes de cabelo, marcas de tribo e pinturas que eu nunca tinha visto antes. A estrada era colorida e as pessoas também, com os corpos cobertos de poeira amarela ou vermelha, indo de um lado para o outro, tanto para Savalu como para Uidá. Ou melhor, na direção de Savalu ou de Uidá, porque podiam pegar um desvio ou parar no meio do caminho. A maioria das pessoas não usava nada sobre o corpo, e eu reparava nas mulheres e pensava que elas
não tinham os peitos tão bonitos quanto os da minha mãe, e nem os homens tinham os membros duros como os dos guerreiros de Adandozan. As crianças iam nas costas das mulheres, e, nas cabeças, elas carregavam raízes de inhame, trouxas, fardos de algodão, tinas de água e muitas outras coisas.
Na maior parte do tempo seguíamos o rio, mas às vezes desviávamos das montanhas sagradas, como as formigas tinham feito primeiro com o riozinho do Kokumo e depois com o riozinho da minha mãe. Mas o rio de verdade era outra cor, cor de barro, e em alguns lugares era verde, muito verde, cheio de plantas. Às vezes era largo, como se tivesse vários outros rios dentro dele, separados por pequenas ilhas de terra ou de mato. As montanhas, de um lado e outro da estrada, e, em alguns pontos, embaixo dela, sob os nossos pés, eram bem altas e nos cansavam bastante.
Talvez por isso, pelo cansaço, quando passávamos por alguns guerreiros permanecíamos deitadas por mais tempo do que o realmente necessário. Fazíamos isso para nos esconder deles, pois podiam ser os mesmos que tinham estado em Savalu. Saíamos da estrada e nos jogávamos atrás de uma árvore, de uma moita ou de uma pedra que pudessem nos proteger, e ficávamos quietas até que a minha avó dissesse que podíamos nos levantar. Eu tinha vontade de perguntar se ela e a Taiwo também fechavam os olhos para ficarem invisíveis. Eu os fechava e tudo desaparecia, como nós também desaparecíamos dentro do escuro das cavernas onde parávamos para dormir. Muitas vezes já havia gente lá dentro, mas sempre se dava um jeito de caber mais. A minha avó estendia um pano no chão e dormíamos as três dentro de uma outra existência qualquer, naquela escuridão, sumidas do mundo para o qual voltávamos quando o sol aparecia.
Acho que os lagartos faziam a mesma coisa, e cheguei a
pensar que um deles nos seguiu desde Savalu, pois eram todos muito parecidos. A pele verde ficava colorida quando o sol lambia as costas deles, que estendiam as línguas finas e compridas para lamber o sol também.
Nessas horas, erguiam muito as cabeças e mantinham os olhos fixos em qualquer coisa que também olhasse fixamente para eles, depois tombavam o pescoço, ora para um lado, ora para o outro. Mas os olhos continuavam parados, sem se moverem um tanto que fosse, e nem eu nem a Taiwo jogávamos tão bem quando ficávamos amarradas ao corpo da minha mãe, no mercado.
Andávamos devagar e parávamos bastante, e por isso alguns dias se passaram até não vermos mais montanhas, com a estrada se transformando em uma linha riscando a floresta, que, mais adiante, também já não
existia
mais,
substituída
por
plantações, principalmente de algodão e de palmeiras. O movimento aumentou e as casas já não eram mais solitárias, embora aqueles agrupamentos ainda não pudessem ser chamados de cidades.
Em frente a um desses lugarejos, a minha avó parou para conversar com um canoeiro. Ela deu a ele dois colares de cauris e disse que dali em diante seguiríamos pelo rio. O homem remou o resto da tarde, e, quando ficava cansado, deixava a canoa seguir devagar e sozinha até perder força ou direção. Eram os momentos de que eu mais gostava, pois tinha tempo de olhar bem para as coisas, as pessoas e as paisagens, diferentes de tudo que eu já tinha visto. Quando caiu a noite, o homem disse que não era seguro seguir viagem, mesmo já estando perto, pois à noite não se vêem as armadilhas dos rios, e eles sempre têm muitas.
Atracamos para dormir em um descampado e partimos bem cedo na manhã seguinte, quando a luz do sol começava a dar contornos e colorido às margens do rio,
de onde acenavam para nós as mulheres com os peitos de fora e as crianças que pescavam batendo as mãos na água para chamar os peixes, igual ao Kokumo. Todos estavam alegres, menos a minha avó, que parecia ter esquecido de como é que se sorri. Percebi que a Taiwo também estava alegre, tanto quanto eu, mas fingia não estar, pois tínhamos medo ou vergonha, não sei, de que a minha avó nos visse sorrindo.
Sempre que eu me lembrava de segurar o sorriso, lembrava também da minha mãe e do Kokumo, principalmente quando o homem parou a canoa e disse que já estávamos entrando em Uidá, que dali em diante teríamos que seguir a pé. Aconteceu que, ao sair da canoa, molhei os pés no rio e logo em seguida pisei a terra vermelha da estrada, e o barro que se formou tinha a mesma cor dos riozinhos de sangue. Não foi um bom sinal, mas eu não estava preparada para levar a sério recados como aquele.
A estrada era ainda mais interessante e bonita, com tanta gente de um lado para o outro que me pareceu mais movimentada que o mercado de Savalu, mesmo nos dias mais cheios, nos dias de festa. Havia pessoas apenas andando, outras comerciando coisas como obi, (Obi: fruto africano que também é usado como oferenda aos orixás.) omiu, (Omi: água) alua, (Aluá: refresco feito com casca de frutas, principalmente abacaxi e tamarindo, ou arroz fermentado e macerado) acará, (Acará: acarajé) óleo de palma, (Óleo de palma: azeite de dendê) utensílios de casa, panos coloridos e fitas para cabelo. Eu queria uma e sabia que a Taiwo também queria, pois eram fitas muito mais bonitas que as de Savalu. A minha avó parou e comprou peixe cozido. Eu teria preferido a fita, mas comi. Depois ela parou em outra barraca, nos mostrou para a mulher que vendia acarás e ganhamos dois, em nome dos Ibêjis. As pessoas ficam felizes em dar presentes aos ibêjis, pois é uma maneira de agradar aos espíritos sagrados.
Uidá
Uidá era muito mais interessante que Savalu, e a minha avó segurava as nossas mãos para que não nos perdêssemos. Eu tinha vontade de parar e ficar olhando tudo o que acontecia ao meu redor, as mulheres que andavam com vários colares de contas, as casas que eram maiores do que eu jamais teria imaginado, com cobertura de palha e paredes de barro vazadas por portas muito baixas, e ainda tomavam os dois lados da rua, quase sem nenhum espaço entre elas. Gostei quando chegamos à praça, ao lado do mercado, e ficamos admirando as roupas, as pessoas, muita gente com marcas que nem a minha avó sabia de onde eram.
Quase todas as mulheres andavam cobertas, pelo menos da cintura para baixo, e os panos que usavam eram ricos em cores e em bordados com búzios e sementes, que também enfeitavam os diversos colares e pulseiras, e, às vezes, os penteados. Ficamos por lá até a noite chegar, e percebi que a minha avó não sabia muito bem o que fazer ou por onde começar a nossa nova vida em Uidá. O
mercado era grande e muito bem dividido, com lugares certos para se comprar cerâmicas, tecidos, frutas, artigos de religião, animais e, principalmente, comida.
Paramos em uma barraca e compramos duas porções de inhame enrolado em folha de bananeira e salpicado com lascas de peixe seco, que dividimos entre nós três, e mais tarde ganhamos dois acarás, de novo por sermos ibêjis. A mulher que nos deu os acarás perguntou se podíamos tomar conta da barraca dela por algumas horas. Estava cansada por ter ficado no mercado o dia inteiro, e a filha que deveria substituí-la durante a noite estava doente. Ela queria estender a esteira ali mesmo e dormir um pouco, mas para isso precisava de alguém que ficasse de vigia. A minha avó aceitou, pois também seria uma ótima oportunidade para descansarmos da viagem.
A barraca era uma construção feita com vigas de madeira sustentando a cobertura de palha, e alguns caixotes empilhados servindo de paredes baixas em formato de U, que protegiam do vento o fogareiro onde a mulher fritava os bolinhos e o peixe que vendia. Muito melhor do que grande parte das barracas do mercado de Savalu, onde algumas não passavam de um tamborete para o vendedor se sentar e um caixote para apoiar o tabuleiro de mercadorias. As pessoas circulavam procurando os produtos de que precisavam ou assistiam às apresentações de dança, de acrobacias, de música e até de desafios de versos, que eu nunca tinha visto. A minha avó estendeu uma esteira para mim e para a Taiwo dentro da barraca, ao lado da mulher, e dormi pensando em como seria a feira nos dias seguintes, que grandes novidades estariam esperando por nós em Uidá.
Titilayo
Na manhã seguinte, quando uma filha chegou para substituí-la, a dona da barraca disse que podíamos ficar com ela e a família até encontrarmos um lugar só nosso.
Ela se chamava "a felicidade eterna", Titilayo, e morava em uma casa perto do mercado, onde ajeitamos as nossas coisas em um comprido corredor ao lado da porta dos fundos, o que para nós também era novidade, pois a nossa casa não tinha divisão alguma e apenas uma porta. Eu e a Taiwo estranhamos o quintal, que era cercado e muito pequeno, se comparado ao nosso em Savalu, e não abrigaria nem a sombra do iroco. Mas a casa, apesar de simples, nos pareceu bastante grande.
Era dividida em três cômodos, todos quartos, separados quase até o teto por grossas divisórias de palha misturada com barro. No primeiro deles, perto da porta que dava para a rua, ficava a esteira da Titilayo e a da sua filha Nilaja com os dois filhos, um menino e uma menina. A filha da Nilaja era quase do mesmo tamanho que eu e a Taiwo e se chamava Aina, pois tinha nascido
com o cordão do umbigo enrolado em volta do pescoço.
O menino, Akin, era um pouco mais velho e, pelo nome, estava destinado a se tornar um grande guerreiro quando crescesse. Eu me lembrei do Kokumo e do Babatunde, e contei para o Akin que o meu irmão também teria sido um grande guerreiro se não tivesse virado rio. O Akin disse que as pessoas não viram rio e perguntou se eu e a Taiwo já tínhamos visto o mar, que era o maior rio do mundo. Como dissemos que não, ele quase nos arrastou até lá, tamanha era a ansiedade em nos mostrar o que chamava de a grande maravilha de Olorum.
Demoramos bastante para chegar até o mar, a pé ou de boléia com um canoeiro conhecido do Akin, através de uma confusa mas bonita mistura de canais, lagoas, pequenas ilhas e bancos de areia. Eu achei que o mar era da cor do pano de Iemanjá que a minha avó tinha em Savalu, só que mais brilhante e mais macio. Tocado pelo vento, o mar ia de um lado para outro, fingia que ia e voltava. A Taiwo sorriu, eu sorri e fiquei com vontade de que a minha avó estivesse junto para sorrir também, se ainda soubesse. Desde a casa, tínhamos passado pela terra vermelha das ruas de Uidá, depois pelo verde do mato baixo ralo que dava chão para as palmeiras, pelos diversos tons dos rios, das lagoas e das ilhotas, e, por fim, pela brancura da areia.
Eu já estava bastante admirada com todas aquelas cores vivas e contrastantes e com o grande movimento de canoas e outras pequenas embarcações, mas nunca poderia imaginar a beleza do mar. Areia eu já tinha visto, é claro, no fundo dos rios de Savalu, como contei para a Aina e o Akin. Disse também que se alguém juntasse todos os rios de Savalu, e todo o rio de Savalu até Uidá, também dava um mar. Mas depois fiquei em dúvida, porque vi que o mar corria para todos os lados, a perder de vista. Meus novos amigos apenas sorriram, porque não conheciam o rio de Savalu, que de maneira
alguma era mais bonito que o mar. Mas quanto a isto eu me calei, não querendo admitir que eles conheciam mais maravilhas do que eu e a Taiwo, que, de início, ficamos com um pouco de medo de entrar na água. Mas ao vermos como a Aina e o Akin estavam se divertindo, não resistimos e percebemos que a água do mar era mais quente que a água do rio. Agora, quando me recordo, sou capaz de reviver cada uma daquelas sensações.
Quando voltamos para casa, a minha avó estava brava, mas a Titilayo sorriu e disse que era bom para uma pessoa ser apresentada ao mar o quanto antes, pois era uma visita à morada de Iemanjá. A minha avó quis argumentar, mas não deu tempo, pois logo em seguida chegou a Nourbesse com a Hanna amarrada às costas.
Elas eram a nora e a neta da Titilayo, esposa e filha do Ayodele, filho dela que trabalhava em plantações de algodão distantes de Uidá e só voltava para casa de vez em quando, nos intervalos entre plantação e colheita.
Eles dormiam no quarto do meio, e, no outro, dormiam a Meni, a Sanja e a Anele, as três filhas solteiras da Titilayo.
Em seu quarto, a Titilayo tinha uma Oxum com uma racha enorme, um Xangô com seu machado de duas pontas e um Ogum que parecia vigiar, com seus olhos atentos de caçador, uma coleção de ferramentas bem pequenas. Comentei que eram muito bonitas e o Akin disse que tinham sido feitas pelo pai dele antes de ir embora. Lembro-me de que naquele momento invejei bastante o Akin e a Aina, por terem nascido em Uidá e por terem conhecido o pai, que tinha deixado para eles aquelas lindas lembranças. A minha mãe não gostava de falar sobre o nosso pai, meu e da Taiwo; dizia que nem se lembrava mais dele, e eu não tinha coragem de perguntar para a minha avó.
Todos nos receberam muito bem, e na nossa primeira noite na casa teve festa com carne fresca assada na
fogueira e muito alua, que a Titilayo vendia no mercado para acompanhar os acarás. Todo mundo dançou, menos a minha avó, que disse estar cansada e foi se deitar.
Depois que ela saiu, eu e a Taiwo também dançamos, uma olhando nos olhos da outra, testa contra testa. A Aina e o Akin acharam engraçado e dançaram assim também, enquanto todos sorriam e cantavam, e eu pensei que assim estava bem melhor. A Titilayo era viúva e os filhos dela não tinham mais pai, assim como eu e a Taiwo nunca tivemos pai e também não tínhamos mais mãe, e mesmo assim eles não perderam a vontade de cantar, de dançar e de sorrir.
A Anele era a mais bonita das filhas, a Sanja era a mais bem-vestida e usava sempre uma roupa azul que ia do pescoço até os pés, e a Meni dançava quase tão bem quanto a minha mãe. Era estranho, mas eu me sentia muito à vontade entre eles, como se estivesse na minha casa. Quando eu e a Taiwo fomos nos deitar, a Titilayo colocou uma esteira nova para nós duas, maior do que a que tínhamos em Savalu. A minha avó ainda estava acordada, de joelhos em frente a um altar montado com pedras cobertas por um pano branco, sobre o qual estavam Xangô, Nana e os Ibêjis. Ela olhava para eles como se não estivessem ali, e também não nos ouviu quando pedimos a bênção.
No dia seguinte, a minha avó começou a trabalhar no mercado, ajudando na barraca da Titilayo, enquanto eu e a Taiwo fomos levadas para conhecer a cidade. As lojas e as casas nos pareceram os palácios descritos pela minha avó, os de Abomé. Eu me lembro de que achei interessantes as lojas, pequenos mercados dentro das casas, que vendiam de tudo um pouco, coisas de comer e de beber, panos, fitas, miniaturas como as que o pai do Akin tinha feito, enfeites, estátuas e muitos outros produtos que o nosso amigo disse serem de um lugar que se chamava estrangeiro e ficava muito longe, depois do mar. Durante muitos dias eu fiquei pensando no mar
e, principalmente, no estrangeiro, fazendo planos para conhecê-lo e saber se era mais bonito que Uidá.
Já estávamos em Uidá havia quase duas semanas quando comecei a perceber como o Akin era esperto e inteligente. Ele conhecia quase todos os donos das lojas, pois de vez em quando fazia alguns trabalhos para eles, como limpar o chão, levar recados ou entregar encomendas. Foi dele a idéia de andar comigo e com a Taiwo pelas lojas e pedir presentes em nome dos Ibêjis, qualquer coisa, desde que não fizesse falta, e o único que não deu foi um muçurumim (Muçurumim: muçulmano), dono de uma loja de tecidos, que usava um chapéu que eu achei muito estranho.
Em Savalu, quase toda gente usava chapéu, principalmente nos dias de festa no mercado, e alguns eram muito bonitos, enfeitados com papéis coloridos e fitas. Quando voltamos para casa, foi porque não conseguíamos mais carregar todos os presentes que ganhamos, e a minha avó novamente ficou brava, mas, no fundo, acho que gostou. A Titilayo riu e disse que éramos mais espertos do que ela imaginava, mas que não devíamos fazer aquilo novamente porque os tempos estavam difíceis e as pessoas poderiam não ter o que dar.
Como ninguém gostava de recusar presentes aos Ibêjis, acabavam gastando o que não podiam ou se desfazendo do que precisavam, sem contar que ainda tinham que economizar dinheiro para quando começasse a época das chuvas, em que quase não havia movimento no mercado, nem o que vender ou colher, e faltava trabalho para muita gente. Os rios e lagoas transbordavam, engolindo as terras e os caminhos e dificultando os negócios. O Akin disse que então só pediríamos nas casas dos ricos, dos comerciantes que vendiam gente e moravam do outro lado da cidade. O Ayodele, que tinha voltado dos campos de algodão, avisou que não era para
irmos lá de jeito nenhum, pois eles nos colocariam dentro de um navio e nos mandariam como carneiros para o estrangeiro. Eu perguntei o que era navio e ele respondeu que era uma canoa muito grande, bem maior do que a que tinha nos levado de Savalu para Uidá.
Naqueles dias, com tantas descobertas, eu me sentia como se tivesse nascido de novo, em uma outra época, em um lugar muito diferente de tudo que eu pensava existir. O Ayodele conhecia Savalu, pois já tinha ido e voltado de Natitingou, que ficava muitos dias de viagem depois da minha terra, para onde tinha levado alguns estrangeiros que queriam comprar fazendas. Eu gostava do Ayodele, que tinha um nome que significava "a alegria vem para o lar", e ele era assim mesmo, como a mãe, distribuindo alegria a todos quando estava em casa. Principalmente à Nourbesse, que, como ele afirmava, seria sua única esposa. Eu pensei que também ia querer um marido só para mim, ou então ser a primeira esposa. A Titilayo tinha sido a primeira esposa e, quando o marido morreu, ficou com a casa só para ela, pondo as outras mulheres na rua. Ela contava essa história e ria muito, o que em si já era engraçado porque, sendo gorda, a barriga dela não parava de balançar, fazendo todo mundo rir junto, menos a minha avó. A Titilayo dizia que eu e a Taiwo éramos abençoadas e fazia muito gosto em nos receber em sua casa.
Alguns dias mais tarde, a minha avó foi ver o mar. Ela se sentou em um matinho perto da areia e ficou olhando durante um longo tempo. Eu e as outras crianças entramos na água, a Hanna também, amarrada às costas da Aina. Ela já gostava do mar, a abençoada Hanna que tinha nascido perto daquela beleza toda. Tenho certeza de que o Kokumo também teria gostado demais, pois ele já adorava o rio, que era muito menor e mais feio. Eu também pensava na minha mãe, que poderia ganhar mais dinheiro dançando no mercado de Uidá,
freqüentado por mais gente. Muitos brancos iam ao mercado de Uidá, brancos iguais aos que eu tinha visto uma única vez em Savalu.
Os brancos de Uidá não eram apenas viajantes; a maioria morava na cidade ou nas vizinhanças e tinha bastante dinheiro. Era uma grande confusão quando iam às compras, pois todos queriam vender para eles, que não se importavam de pagar o preço pedido, sem negociar. Não andavam sozinhos, levavam sempre alguns pretos carregadores que, mais cedo ou mais tarde, segundo o Akin, virariam carneiros no estrangeiro. Eu olhava para eles e achava que não eram diferentes de nós, que não se pareciam com carneiros, mas o Akin confirmou que, de algum modo que não sabia como, os pretos que iam para o estrangeiro se transformavam em carneiros sim, e eram assados e comidos como carneiros, carne que os brancos muito apreciavam. Estranhei aquela informação e fiquei tentando me lembrar de que cor era Xangô, já que ele também gostava de carneiros, como os que a minha avó sacrificava.