Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 7 de 12 · parte 1/5

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Um Defeito de Cor

Capítulo cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Mas saí apressada, pedindo que contassem aos outros que eu tinha conseguido uma loja e logo daria um jeito de avisar onde. Da Vitória, fui à casa do padre Heinz,

buscar minhas coisas, e ele ficou muito feliz com a notícia de que eu já tinha conseguido lugar para morar, e mais ainda por eu ter reencontrado um velho amigo.

Ele disse, e disso eu nunca me esqueci, que quem tem amigos tem todo o resto que merece ter, o que pude comprovar em muitas ocasiões.

Eu disse a ele que voltaria no dia seguinte para cozinhar, já que os cookies que eu ainda tinha já estavam envelhecidos, mas só não sabia como comprar mais ingredientes, porque meu dinheiro tinha acabado.

Mesmo envelhecidos, os cookies ainda me serviram, pois, como eu também não tinha dinheiro para comprar comida, foi com eles que me alimentei nos dois dias seguintes.

Capítulo cinco

Se alguém corre através de um espinheiro, ou persegue uma cobra ou foge dela.

Provérbio africano

A loja

No dia em que me mudei para a loja, eu vivia uma situação que acabou me acompanhando pelo resto da vida, mesmo depois de voltar à África: eu não sabia a quem pedir ou agradecer acontecimentos. Se não tivesse saído de África, provavelmente teria sido feita vodúnsi pela minha avó, pois respeitava muito os voduns dela.

Mas também confiava nos orixás, herança da minha mãe.

Porém, cozinhava na casa de um padre e estava morando em uma loja onde quase todos eram muçurumins. A família do alufá Ali era responsável pela loja perante o senhorio e ocupava todo o andar térreo, sendo que a Khadija ainda tinha uma irmã chamada Euá, bem mais nova que ela, que dormia em um dos quartos do primeiro andar, junto com uma cabinda liberta, já bem avançada em anos, chamada Vicência.

Fui alojada no quarto ao lado, um pouco menor que o das duas, junto com a crioula Claudina. No segundo andar havia três quartos onde eu nunca entrei mas que imaginava minúsculos, ocupados individualmente pelo Seliman, Pelo Salum, que eu já tinha conhecido, e pelo nagô Aparício. A Euá era parecida com a Khadija, ou com a Khadija quando tinha a idade dela, quinze anos, com os olhos e a pele muito pretos e os cabelos compridos sempre presos em um coque tão grande que mais parecia um ninho.

As duas passavam a maior parte do tempo juntas, principalmente quando os homens não estavam em casa, porque, quando estavam, a Euá ficava em seu quarto e a Khadija podia circular entre eles, por causa do marido.

Logo a Euá também teria marido, pois estava prometida ao Salum. A Vicência, que dividia quarto com ela, era uma preta com mais de sessenta anos que vivia se queixando da saúde, que tinha de sobra, e que acabou simpatizando muito comigo quando contei que fazia meus cookies na casa de um padre, pois era convertida à religião dos brancos.

Durante mais de vinte anos ela tinha sido escrava de uma freira muito rica que, ao morrer, deixou para ela em testamento um conto de réis, a liberdade e a posse de uma escrava que, na época, era uma mocinha. Esta escrava vivia com a família em um sítio afastado, o marido, pescador liberto, e três filhos, aos quais a Vicência já tinha dado a liberdade. Quanto à escrava, só libertaria em testamento, pois tinha medo de que não houvesse ninguém para cuidar da morte dela e também de lhe faltar alguma coisa, se o dinheiro herdado viesse a acabar. Por causa disso, a escrava, que trabalhava como engomadeira, aparecia uma vez por semana para entregar a quantia de um mil réis e ver se a Vicência precisava de alguma coisa da rua, já que ela mal saía de casa, alegando uma fraqueza nas pernas, que sarava de imediato quando ia para a igreja.

Minha companheira de quarto, a Claudina, tinha nascido livre, filha de mãe liberta, e era doceira em um canto na cidade baixa, perto do Celeiro Municipal. Devia ter mais ou menos trinta anos, nunca tinha se casado nem tido filhos, mas era tão namoradeira quanto vaidosa. Como eu, ela também era filha de Oxum. No dia em que me mudei, foi para ela que vendi a roupa comprada para ganhar o respeito dos fregueses, conseguindo o dinheiro dos ingredientes para uma próxima fornada. Nós duas nos demos bem desde a primeira vez que nos vimos, e

ela foi para sempre uma grande amiga.

O Seliman e o Salum eram sócios em um burrico que usavam para transportar água, ganhando um bom dinheiro com isso de ficar ao lado das fontes esperando para serem contratados, ou entregando para fregueses certos, com dias marcados. O Seliman já era liberto, mas o Salum estava pagando a carta a prestação, para depois se casar com a Euá. Fiquei curiosa para ver como era um casamento muçurumim, pois a Khadija não se cansava de falar sobre o dela, para o qual teve que se converter. As roupas seriam feitas por ela mesma e pelo alufá Ali, que era alfaiate e dava emprego ao Aparício, escravo a ganho de um rico comerciante. Eles trabalhavam confeccionando ternos e, principalmente roupas típicas de muçurumins, que vendiam às escondidas.

Isso tudo quem me contou foi a Claudina na minha primeira noite na loja, quando ela pareceu feliz por ter alguém com quem conversar. Antes de mim, dividia o quarto com uma nagô liberta que tinha se mudado para São Sebastião do Rio de Janeiro, para onde ela também pensava ir um dia. Queria me contar da vida dela e saber da minha, mas eu estava muito cansada para conseguir manter uma conversa, além de preocupada com a quantidade de trabalho que teria nos dias seguintes, principalmente porque, a partir daquele momento, teria um gasto extra com o aluguel do espaço na loja.

Sorte

No dia seguinte à mudança, fui bem cedo para a casa do padre Heinz, e no início da tarde já estava no Terreiro de Jesus procurando pelos fregueses. O primeiro a aparecer foi o preto João Benigno, avisando que seu patrão queria falar comigo desde o dia anterior. Eu disse que tive alguns contratempos e que ele poderia avisar ao senhor

Amleto que eu estaria esperando na porta quando ele saísse do escritório. Como não podia me afastar dali, as vendas não foram muito boas, mas o resultado acabou sendo compensador. O senhor Amleto queria fazer uma grande encomenda de cookies para o batizado do filho, que aconteceria no domingo. Duzentos cookies caprichados e com um quarto do tamanho que eu estava acostumada a fazer, que era mais ou menos o tamanho de uma fatia do meio de uma laranja-da-terra, a grande laranja baiana, a com umbigo. Eu disse a ele que faria com o maior gosto, mas que não tinha dinheiro para comprar os ingredientes e nem crédito para comprar fiado. Não me lembro da quantia que ele me adiantou, e deve ter feito isso somente porque estava bastante apressado, sem pensar direito, pois deu para comprar os ingredientes e uma nova muda de roupa, bata e saia.

Não tão bonitas quanto as que eu tinha vendido para a Claudina, mas melhores que a muda que estava usando.

Naquela semana eu estava com sorte, e na sexta-feira consegui vender tudo o que tinha preparado no dia anterior, no Terreiro e nas casas onde tinha encomendas contratadas.

Uma reunião Por ter andado bastante durante o dia, eu estava muito cansada na sexta-feira à noite, mas queria ficar no andar térreo para me encontrar com o Fatumbi, o Ajahi e o bilal Sali. Quando comentei isso com o alufá Ali, ele disse que a cerimônia só podia ser assistida por eles, os muçurumins, e que por isso eu deveria subir, e ele mandaria me chamar depois de tudo terminado.

A Claudina ainda não tinha chegado e o quarto estava às escuras. Ela tinha uma lamparina de azeite que eu não me senti à vontade para usar sem pedir, e foi isso que fez com que eu percebesse a claridade. Para minha alegria, eu estava logo acima da sala onde seria

realizada a cerimônia, separada por um assoalho de tábuas mal rejuntadas, pelo meio das quais dava para enxergar um pouco do que acontecia embaixo. Vi quando eles se prepararam, uns dez homens, sem contar com os da casa, e mais duas mulheres, além da Khadija e da Euá.

Todos vestiram os abadás brancos sobre as roupas com que chegaram da rua e alguns ainda tinham peles de carneiro para se sentarem em cima. Do meu quarto dava para ouvir quase tudo o que diziam, e era pena eu não entender aquela língua. Depois soube que se tratava de uma cerimônia chamada sarã, na qual celebravam algum acontecimento importante.

Foram formados dois semicírculos, que tinham à frente o bilal Sali e o alufá Ali, sendo que os homens ficaram no primeiro semicírculo e as mulheres no segundo, todos com os teçubás nas mãos.

Quando o alufá Ali fez sinal, eles se aproximaram um a um e pegaram um bolinho branco que estava dentro de uma vasilha colocada sobre a mesa, na frente dele.

Depois que acabaram de comer, o alufá Ali começou a puxar uma reza que era complementada pelo bilal Sali e seguida por todos os outros. Uma longa reza, bastante repetitiva, enquanto o teçubá era todo percorrido pelos dedos, com destaque para as vozes das mulheres, que, de quando em quando, diziam bi-si-mi-lai (Bi-si-mi-lai:

“Em nome de Deus, clemente e misericordioso”).

Em determinados momentos, o alufá Ali se levantava do tapete em que estava sentado, ficava de costas para todos eles, erguia as mãos e depois as colocava sobre o peito, para então se ajoelhar e abaixar a cabeça até encostar a testa no chão, proferindo as palavras com que dava início a um novo ciclo de orações, igual ao anterior.

No final, o alufá Ali apertou a mão do bilal Sali, que apertou a do homem que estava ao seu lado e assim por

diante, até o gesto ser transmitido para todos os presentes, percorrendo os dois semicírculos.

Antes disso, quando a cerimônia estava chegando ao final, acho que por ser a dona da casa, a Khadija parou na frente de cada um dos homens e das mulheres, cruzando e dobrando os joelhos, enquanto abaixava a cabeça, como se estivesse bradando um agradecimento ou uma saudação.

Depois de tudo acabado, a Khadija e as outras mulheres sumiram da minha visão e reapareceram carregando grandes cuias com comida, que foram colocadas no chão, no meio da sala, em volta das quais os homens se sentaram e começaram a se servir, comendo com as mãos. Então ouvi os passos delas subindo as escadas, passando em frente a porta do meu quarto, subindo mais um lance e entrando no quarto do Seliman, onde começaram a conversar e a rir com grande animação.

Eu queria ir ao encontro delas, mas não tinham me convidado e não me senti à vontade para simplesmente aparecer, e, além disso, preferia estar entre os homens, principalmente com meus amigos Fatumbi, Ajahi e bilal Sali. Continuei a observá-los comendo e conversando em voz muito baixa, tão baixa que eu tinha a impressão de que às vezes uma frase seguia quase cochichada de ouvido em ouvido, até dar toda a volta. Um bom tempo depois, quando eu já tinha perdido o interesse e estava cochilando na esteira, ouvi batidas na porta do quarto e, quando abri, era a Khadija. Ela tinha um recado do alufá Ali, avisando que meus amigos queriam saber se podiam subir. Eu respondi que sim e a Khadija passou a resposta para o alufá Ali, que esperava no alto da escada.

O Fatumbi, o Ajahi e o bilal Sali subiram carregando uma lamparina, e não estavam mais usando as roupas da cerimônia. Respondi à saudação deles e disse que podiam se sentar onde quisessem, torcendo para que a

Claudina demorasse para voltar. Comentei que achava muita coincidência eles se conhecerem e me disseram que nem tanto, pois, como a religião deles era muito perseguida, acabavam se unindo mais e se encontrando nos poucos lugares onde podiam praticá-la.Eu quis saber o motivo dessa perseguição e o Fatumbi disse que era por causa de uma rebelião acontecida algum tempo antes, em que a maioria dos presos eram muçurumins, inclusive os organizadores. Durante os embates travados na rebelião e logo depois, muitos foram mortos ou deportados e a continuação da guerra tinha sobrado para poucos, junto com a missão de converter pessoas e espalhar a palavra do profeta o mais discretamente possível. Perguntei se existiam outros lugares como a loja do alufá.

Disseram que sim, e que, inclusive, um dos mais importantes ficava na Vitória, perto de onde eu tinha morado. No terreno de um inglês, e com o consentimento dele, dois muçurumins construíram um templo que chamavam mesquita. Eu queria saber mais coisas, mas eles devem ter achado que tinham falado demais e mudaram de assunto, querendo saber tudo o que tinha acontecido comigo.

O Ajahi e o bilal Sali já sabiam de muitas coisas, do tempo em que eu morei com eles no solar dos Clegg, mas com o Fatumbi fazia muito tempo que eu não me encontrava, e a conversa seguiu pela noite, até a chegada da Claudina de um batuque. Assim que ela entrou, eles se despediram e desceram para a sala, onde ficaram junto com os outros esperando o dia amanhecer para poderem sair às ruas sem levantar suspeitas.

Preto na rua à noite era sempre suspeito de estar fazendo coisa errada ou de ser fujão, e por isso ninguém se arriscava, a não ser que tivesse uma carta do dono, o que não era o caso deles, que saíam de casa às escondidas. Alguns eram livres e, portanto, também

estavam proibidos de sair já que não tinham quem se responsabilizasse pelos seus atos. Acho que os escutei rezando na sala antes de irem embora, e ouvi barulho de água, usada para o ritual igual ao que eu tinha visto o Ajahi e o bilal Sali fazerem no solar dos Clegg de madrugada. Logo que acabaram, um pouco de claridade começou a entrar no quarto pelos vãos da janela, e decidi que já era hora de me levantar, apesar do sono.

Eu teria um dia cheio pela frente para conseguir entregar a encomenda do senhor Amleto.

Os deveres

Passei quase o dia inteiro na casa do padre Heinz, moldando os cookies no tamanho pedido. Era muito mais trabalhoso, mas acabaram ficando refinados, talvez até mais gostosos, porque estavam bem mais leves e crocantes. Eu tinha marcado a entrega para o final da tarde ou o início da noite, no próprio escritório do senhor Amleto, já que o João Benigno morava lá e se encarregaria de levá-los à casa do seu patrão na manhã seguinte. Depois da entrega, fui para a loja e subi para o meu quarto, cansada e com muito sono, mas feliz por ter conseguido fazer tudo conforme o combinado.

Apesar de o corpo ter adormecido, quieto e pesado como pedra, não tive um sono tranqüilo e vi a Taiwo zangada comigo como quando brigávamos em criança. A zanga durou pouco tempo, como sempre acontecia entre nós, mas a sensação foi muito ruim, porque a imagem dela não estava muito nítida, como se estivesse se afastando ou sendo apagada da minha memória. A primeira coisa que fiz logo de manhã foi seguir até a casa da sinhá Ana Felipa à procura do Tico e do Hilário, pois queria que me levassem ao sítio do Babalaô Gumfiditimi para buscar meus Orixás. Sentia que estava me fazendo mal não ter os Ibêjis por perto, como a minha avó tinha instruído.

Nunca tirei do peito o pingente com a Taiwo, mas precisava também de algo que representasse nós duas

juntas, e era bem possível que e o cansaço que eu estava sentindo naqueles dias fosse por causa do esforço de me manter apenas com metade da nossa alma.

Os meninos não podiam ir comigo, pois já tinham um compromisso, mas, com as referências que eu guardava na memória e com as explicações que me deram, demorei mais do que esperava, mas acabei chegando.

Como sempre, fui muito bem recebida pelo Babalaô Gumfiditimi e pela Monifa, a primeira esposa, e, conseqüentemente, pelas outras também. Desde que eu tinha estado lá da última vez, mais duas crianças tinham nascido, e o babalaô disse que estava começando a perder a conta de quantos filhos tinha.

Fiquei pensando que gostaria de ter mais filhos, de poder criá-los livres e sempre ao pé de mim, como faziam as esposas do Babalaô Gumfiditimi. Eu tinha participado da vida do Banjokô somente no início e, se parasse para pensar, a sinhá era mesmo muito mais mãe dele do que eu. Era ela quem ficava o tempo todo com ele, quem se importava com o que tinha comido, quem brincava e educava, e, na situação em que eu estava, era mesmo a melhor opção para o menino. A pele dele não tinha escurecido muito, e, com o cabelo aparado baixo e vestido a moda dos brancos, meu filho bem que passava por um mulato claro, igual a tantos que eram respeitados na cidade.

Quando eu pensava no quanto gostaria de ter outro filho, e de que fosse uma menina, o Babalaô Gumfiditimi disse que uma menina viria depois, quando eu já não estivesse esperando, mas que o próximo seria um menino, e com grande futuro. Perguntei como sabia e ele respondeu que tinha sido um sopro de Ogum no seu ouvido, e então eu quis saber o que mais Ogum poderia me dizer. O Babalaô Gumfiditimi disse que só perguntando ao Ifá, e confesso que fiquei bastante nervosa, com medo do que o oráculo tinha para revelar.

Mas também feliz por saber que teria mais filhos, porque eu só pararia de tomar a beberagem da Esméria no dia em que teria condições de dar a um filho o tipo de vida que queria para mim. E como eu queria era ser livre, deduzi que conseguiria o meu intento antes de ter o ventre seco, a tempo de gerar filhos que já nasceriam livres.

O Babalaô Gumfiditimi estava todo vestido de branco, como acho que sempre se vestia, e assim que se sentou na cadeira atrás da mesa onde estava o tabuleiro, me indicando a cadeira logo em frente, abriu uma bolsa, a apô, e tirou de dentro dela alguns objetos, com os quais começou a se preparar. Reparei que no braço esquerdo dele estava o ide ifá, um bracelete de contas marrons e verdes, iguais às dos colares que colocou no pescoço junto com alguns outros de contas marrons bem pequenas, de várias voltas unidas por grandes contas brancas e verdes. Atravessando o peito e apoiado no ombro direito, ele colocou o edigbâ, um colar feito com caroços de dendê.

Enquanto se preparava, o Babalaô Gumfiditimi me dizia o nome e o que representava cada um dos objetos que pegava ou dos pequenos rituais que fazia, explicando que aquele jogo não revelava nada além do que eu já sabia mas tinha esquecido. Disse que todos nós escolhemos o nosso iwã, ou destino, quando ainda estamos no Orum, e que é nossa obrigação consumá-lo em vida. Mas às vezes nos afastamos desse caminho, seja por nossas próprias atitudes ou por interferências alheias à nossa vontade.

O papel do jogo do Ifá é nos ajudar a relembrar o nosso destino, a cumprir com nossos deveres, por meio das orientações dos orixás e com o reforço do axé, a força vital. O Babalaô Gumfiditimi perguntou se poderia falar tudo o que saísse no oráculo e eu respondi que não, que não queria saber nada que causasse demasiada tristeza

ou preocupação e que eu não pudesse evitar. Ele comentou que esta era uma atitude sábia, que veria apenas os meus desvios de destino e o que poderia ser feito para retomar a rota certa. Se necessário, o Ifá indicaria as ervas sagradas, as oferendas, os rituais de defesa, as magias ou os amuletos.

Enquanto orava baixo e em iorubá, o Babalaô Gumfiditimi esfregava o opelê entre os dedos, como se estivesse transmitindo a ele algum tipo de energia. O

opelê dele era uma corrente de couro de mais ou menos vinte ou vinte e cinco polegadas de comprimento, que ele segurava pelo meio, dividindo em duas partes iguais, sendo que de cada lado estavam presas quatro metades de semente de uma árvore também chamada opelê. As sementes eram presas mais para meio da corrente, não nas pontas, pois em uma delas estavam amarrados diversos objetos, como contas, sementes e búzios, e na outra, longos pêlos de rabo de vaca. Era com estes pêlos que ele batia na opon, uma espécie de bandeja de madeira cheia de areia, antes de deixar o opelê cair sobre ela, desenhando marcas que representavam símbolos que só os babalaôs sabem identificar. Levando em conta esses símbolos e a posição das metades das sementes, se o miolo ou a casca ficavam virados para baixo ou para cima, o Babalaô Gumfiditimi reconhecia um odu, ou seja, um sinal de Ifá. É preciso muito treino para reconhecer um odu, pois eles são apenas dezesseis principais, mas podem ser combinados entre si, dando um total de duzentos e cinqüenta e seis odus.

Eu tinha aprendido sobre os odus ainda na fazenda de Itaparica, com o Pai Osório, quando ele escapava até a senzala pequena para cuidar dos olhos arrancados da Verenciana.

Os

objetos

que

ele

usava

eram

improvisados, e por isso dizia consultar o Ifá apenas em caso de extrema precisão, como tinha sido o da Verenciana e como não era o meu, como me explicou quando pedi que jogasse para mim. Mas ele gostava de

falar sobre os odus, e eu gostava de ouvi-lo. A cada odu estão ligadas várias histórias, que são chamadas de itans, e o babalaô tem que memorizar pelo menos quatro itans para cada um dos duzentos e cinqüenta e seis odus, e só então pode começar a usar o oráculo.

O Babalaô Gumfiditimi parecia ter boa memória e muita experiência, pois assim que o opelê era jogado, ele já me dava a resposta para as perguntas que eu tinha feito, das quais não me lembro direito, talvez porque na época não entendi muito bem sobre o que ele falava e fiquei com vergonha ou medo de perguntar. Ou talvez não fosse para entender mesmo, não sei, pois à medida que as coisas foram acontecendo, eu me lembrava daquele jogo e sabia que tinha sido alertada, instruída, e que muitas vezes até já estava preparada, mesmo sem saber.

Eu nunca me esqueci foi de um itan que ele contou para me ajudar a compreender melhor o meu odu de orí (Odu de orí: odu de cabeça ou de nascimento), porque, embora todos eles sirvam para nos orientar nas diversas ocasiões da vida, existe um que nos rege e que é determinado no momento em que nascemos.

O meu odu de orí é regido por Oxum e Ogum, e diz respeito a um filho de Orixalá chamado Dinheiro, que se julgava tão poderoso a ponto de dominar até mesmo a Morte, mas não sabia onde ela morava. Orientado por seu babalaô, Dinheiro fez uma oferenda para ser bem-sucedido no seu intento e começou a pensar em uma maneira de prender a Morte, como apregoava ser capaz de fazer.

Resolveu se deitar em uma encruzilhada e ver o que acontecia, até que um homem comentou que ele estava posicionado com a cabeça voltada para a casa da Morte e os pés para as bandas da Moléstia. Tomando o caminho apontado pela cabeça, Dinheiro conseguiu chegar à casa da Morte e, para chamar a atenção, começou a bater os tambores fúnebres que ela usava

quando queria acabar com alguém. Quando a Morte correu apressada para ver o que estava acontecendo, Dinheiro a aprisionou em uma rede e a levou direto para o pai, Orixalá, que perguntou o que significava aquilo.

Ele respondeu que aquilo era a própria Morte, que ele tinha prometido dominar. Indignado, Orixalá mandou que Dinheiro fosse embora com a Morte e com tudo de bom e ruim que havia no mundo, porque cada um é o causador do que lhe acontece de bom e de ruim, e que deveria aprender a separá-los para poder possuir tudo e conquistar o universo inteiro.

Até hoje, em muitas das decisões que tomei, essa história foi um guia, algo que sempre me fez lembrar que eu deveria assumir as conseqüências de todos os atos cometidos pelo meu lado bom ou pelo meu lado mau. Aliás, me saber assim, como todo mundo, foi muito importante para me perdoar depois do que aconteceu certa noite, sobre a qual ainda preciso ver como vou conseguir contar.

Voltando àquele dia, o Babalaô Gumfiditimi também me aconselhou a ter paciência, a ir fazendo e querendo uma coisa por vez, em resposta à minha pergunta sobre como comprar logo a minha liberdade e a do Banjokô. Sobre o Banjokô ele não falou muita coisa, apenas que eu deveria pedir a alguém que estivesse sempre por perto para, de vez em quando, fazer no corpo dele alguns desenhos que ajudariam a mantê-lo longe dos amigos abikus. A fase mais perigosa seria até ele completar sete anos de idade, e depois disso a ligação com o Orum se tornaria mais branda, os laços deixados por lá se afrouxariam e podia acontecer que o trato de morte fosse esquecido. Eu também deveria fazer uma oferenda a Exu, o senhor dos caminhos, para que ele abrisse os meus caminhos e a prosperidade pudesse chegar até mim. Sobre o Francisco, ele disse que passaríamos bons momentos juntos e que ele seria muito mais importante na minha vida do que eu imaginava, mas que não era o

homem com quem eu ficaria.

Disse ainda que outros homens cruzariam o meu caminho, alguns que eu chegaria a pensar que ficariam para sempre, mas que isso não estava previsto, a não ser que minha vida mudasse completamente, ou a do homem a quem devia estar prometida. Fiquei triste com isso, mas não foi uma revelação que me surpreendeu, porque nem a minha avó nem a minha mãe tinham conseguido um homem só para elas. Em relação à minha avó, eu nunca a ouvi falar qualquer coisa sobre o pai da minha mãe; era como se ele não tivesse existido. A oferendas, ou ebó, era de quatro farofas, uma de dendê, uma de mel, uma de cachaça e outra de água, colocadas sobre uma folha de mamona e deixadas em uma encruzilhada, junto com uma vela acesa e uma moeda.

Perguntei ao Babalaô Gumfiditimi se ele poderia fazer isso por mim e ele aceitou, desde que eu deixasse o dinheiro para comprar os produtos, o que fiz com muito gosto, porque confiava mais na intenção dele que na minha.

Aproveitei também para deixar um pouco mais de dinheiro, já que ele vivia do seu trabalho e nunca cobrava nada, aceitando e agradecendo o que as pessoas podiam dar, se podiam. Nisso havia uma semelhança muito grande com o padre Heinz, o que depois comentei com a Adeola, que riu e disse que eu não sabia a grande verdade que estava falando e que um dia me contaria a história dela, sobre como tinha conhecido os dois.

Peguei os meus orixás e me despedi rapidamente da Monifa e da Fayola, pois estava com pressa de voltar à cidade, para ver se naquele dia ainda conseguia falar com alguém no solar da sinhá Ana Felipa sobre os cuidados que deveriam ser tomados com o Banjokô.

Esperei durante longos minutos em frente ao portão, até que o Sebastião chegou da rua e me pôs para dentro, dizendo que a sinhá tinha viajado para o Recôncavo com uma amiga e só voltaria no meio da semana.

Uma visita

Quando entramos no solar, todos os outros estavam na cozinha bebendo alua e comendo feijão com carne de porco e farinha, inclusive o Banjokô. A Esméria tinha a acabado de comentar que precisava dar banho nele e vestir roupa limpa, porque ele estava todo lambuzado de comida. Então eu disse que adoraria ganhar um beijo lambuzado e todos fizeram a maior festa com a minha presença, menos ele. A Maria das Graças perguntou se não ia abraçar a lyd mi e ele balançou a Cabeça dizendo que não, ao mesmo tempo em que corria para os braços do Francisco.

Fiquei triste, mas me consolaram dizendo que era assim mesmo, que logo se acostumaria comigo de novo, que apenas estava um pouco bravo porque, quando eu me mudei, e ele chorava de saudade e perguntava por mim, a sinhá aproveitava para dizer que eu o tinha abandonado por não gostar dele. Conversavam com ele dizendo que não era assim, que eu apenas estava trabalhando em outro lugar, mas não sabiam o quanto da conversa ele entendia. A Antônia tinha viajado com a sinhá e senti pena por isso, porque era com ela que eu queria falar sobre o Banjokô, pois ela entendia mais dessas coisas que a Esméria e tive que deixar recado.

Continuamos conversando e logo o Banjokô ficou mais amistoso, embora não quisesse sair de perto do Francisco. O que para mim não era problema algum, pois eu também gostava de ficar perto dele.

O Banjokô acabou adormecendo nos meus braços e foi para o berço sem tomar banho, pois a Esméria disse que cuidaria disso no dia seguinte. Ela também se ofereceu para ficar com ele no quarto para eu estar a sós com o Francisco, desde que fosse longe dali, pois a volta da sinhá estava programada para o meio da semana, mas nunca se sabia. Se ela não tivesse falado nada, eu provavelmente não teria tido a idéia, mas não consegui

deixar de comentar com o Francisco que adoraria experimentar com ele a cama da sinhá.

O Francisco hesitou um pouco, mas depois que insisti e repeti várias vezes que seria bom nos deitarmos sobre um colchão e uma roupa de cama macia e cheirosa, ficou todo assanhado. Subimos as escadas como se estivéssemos pisando em vidro, para que ninguém nos ouvisse, principalmente a Esméria, e passamos quase a noite inteira no quarto da sinhá. Estar novamente com o Francisco não foi tão bom quanto eu imaginava, e compensou apenas porque fiquei imaginando a raiva da sinhá, caso descobrisse. Mas nós não estávamos à vontade. Não sei quanto aos motivos dele, mas eu não conseguia esquecer o que o Babalaô Ggumfiditimi tinha falado sobre nós não ficarmos juntos, o que para mim já foi o começo da separação. Depois de experimentarmos a cama da sinhá, deixamos tudo como estava antes e dormimos o resto da noite no porão, junto com os outros.

Fui embora na segunda-feira bem cedo, depois de passar pelo quarto do Banjokô e fazer questão de acordá-lo, para dar um beijo de despedida e dizer que voltaria logo.

Eu tinha pedido ao Francisco que depois conversasse com ele para que a minha visita ficasse em segredo, assim como a que pretendia fazer no dia seguinte. Seria melhor para todos, principalmente para o Banjokô, que a sinhá não soubesse da minha presença na casa. Mas não apareci no dia seguinte e nem nas três semanas seguintes. Acho que algumas palavras do Babalaô Gumfiditimi tinham ficado na minha cabeça.

Não parava de pensar que deveria trabalhar muito mais do que estava trabalhando para recuperar meu filho antes que ele se esquecesse de mim. E trabalhar mais ainda para, depois de comprar as nossas cartas de alforria, ter condições de dar a ele pelo menos um pouco do que tinha na casa da sinhá. Eu só não podia começar a fazer as contas, pois logo desanimava. O que consegui guardar naquelas três semanas de muito trabalho,

andando o dia inteiro pelas ruas e pelas casas com encomendas, depois de obter a autorização da dona Maria Augusta para fazer os cookies à noite e ficar com os dias livres, foi apenas dois mil e trezentos réis. Quase nada perto do que precisava.

Oportunidades

Quando o senhor Amleto encomendou trezentos cookies especiais para uma recepção, tive a idéia de fazer mais alguns daquele tamanho, colocá-los dentro de um saquinho maior que os usados para os cookies grandes e vender um pouco mais caro que o habitual. A idéia deu muito certo, pois acredito que, arrumados daquele jeito, os cookies ficavam parecendo os vendidos nas lojas de produtos estrangeiros que a sinhá costumava freqüentar.

E já que a aparência era quase a mesma e a qualidade eu já tinha provado que era muito boa, não tendo apenas o nome da firma, criei coragem e resolvi ir até uma dessas lojas, a melhor, a mais cara e famosa.

De início tentaram me enxotar enquanto eu dava uma olhada nas prateleiras, dizendo que os produtos que estavam ali não eram para o meu paladar e muito menos para o meu bolso. Mas eu disse que tinha ido a mando da minha sinhá e perguntei se eles vendiam English cookies, caprichando na pronúncia. O homem que me pareceu ser o responsável disse que não que era para eu me desculpar com a minha sinhá, pois tais iguarias chegavam ao Brasil frescas para o consumo depois de uma viagem desde a Inglaterra. Eu então falei que nós, e salientei o "nós" para que ele pensasse que havia mesmo alguma sinhá por trás daquela minha atitude, que nós na verdade não estávamos procurando cookies para comprar, mas sim quem aceitasse vendê-los. Completei dizendo que pertencia a uma senhora que, ifyou do not mini, preferia permanecer anônima, tinha herdado uma receita de legítimos cookies ingleses e, por causa de problemas que não vinham ao caso, ifyou understand,

pensava em fazer de tais iguarias uma fonte de renda.

Falei assim mesmo, emendando frases em inglês para impressionar, e deu certo. O encarregado me olhava espantado, tentando esconder que não sabia falar inglês, deixando-me muito feliz por estar agradando, o que já resolvia parte do problema: ser ouvida. Antes que ele dissesse algo, abri a bolsa onde levava algumas embalagens de cookies, pois tinha preferido deixar o tabuleiro em casa, e dei para ele experimentar, enquanto colocava alguns saquinhos na prateleira da loja. Depois de comer três ou quatro, ele disse que eram muito gostosos, mas que precisava falar com o proprietário, pois não aceitava mercadoria nova sem que o patrão aprovasse. Eu disse que tudo bem, que a minha sinhá tinha me autorizado a deixar os pacotes da prateleira sem compromisso, que ele só me pagaria se vendesse, e que eu também poderia deixar mais alguns para o patrão dele experimentar. O homem concordou e eu pedi um pedaço de papel, que rasguei ao meio, e na primeira metade escrevi um bilhete para o patrão dele, usando também expressões em inglês e assinando como Missis K., que era eu mesma, mas que ele não tinha como saber.

Na outra metade fiz um recibo e dei para ele assinar, concordando em receber dez pacotes de cookies a serem pagos quando, e se, fossem vendidos. Ele pareceu curioso; portanto, fui embora antes que começasse a fazer perguntas, pois eu já estava passando do meu limite ao conseguir permanecer calma depois de toda aquela encenação. Saí para a rua exultante, com a certeza de que tinha conseguido um jeito muito mais fácil de vender meus cookies, e só então me lembrei de que não tinha comentado nada sobre o preço. Não quis voltar, mesmo porque já estava bem perto da loja, onde fui buscar o tabuleiro e os outros cookies para atender aos fregueses do Terreiro de Jesus.

Como já era novamente tarde e eu não tinha encontrado o senhor Amleto antes de ele chegar ao escritório, bati na porta e entreguei dois saquinhos ao João Benigno, dizendo que um deles era presente. Na manhã seguinte, ele nem agradeceu, o que eu já esperava, mas ao perguntar o preço dos saquinhos com os cookies menores e refazer as contas do que teria que pagar no fim da semana pegando um saquinho por dia, nem reclamou do Preço relativamente mais alto.

Acredito que o Babalaô Gumfiditimi fez imediatamente o trabalho para a meus caminhos, porque assim que terminei de atender os fregueses do Terreiro de Jesus, resolvi ir até o mercado de importados para ver se o dono já tinha uma resposta. Foi ele mesmo quem me atendeu, parabenizando a minha sinhá porque os cookies eram muito bons e tinham sido aprovados até pela esposa dele, bastante exigente, e querendo fazer algumas encomendas, se a minha sinhá aceitasse.

Quase me traí dizendo que aceitava sim, mas consegui me conter a tempo e comentar que teria que consultá-la, mas que não via problema algum. Ele fornecia produtos importados e de qualidade para as casas das pessoas mais importantes da cidade e até do Recôncavo, e achava que os cookies teriam excelente aceitação. Mas, para isso, precisava que fossem fornecidos em uma embalagem maior, com mais ou menos meio quilo, como as de outros produtos que me deu para servirem de amostra.

Ele também disse que gostaria de conversar com a minha sinhá para discutir o preço, mas eu comentei que, private reasons, ela preferia não aparecer, e tinha me dado autorização para tratar de todos os assuntos, inclusive os financeiros. Naquela época, algumas sinhás faziam com que suas escravas fossem para as ruas vender o que era produzido dentro de casa, mas, para manter as aparências de famílias abastadas mesmo

passando por grandes dificuldades, preferiam que os outros não soubessem que era a mando delas. Assim, foi fácil convencê-lo a tratar tudo comigo, principalmente porque fiz questão de parecer muito mais inteligente e esperta do que me imaginava.

Mas quase pus tudo a perder novamente quando comecei a rir do valor que ele disse que podia pagar por cada pacote, duzentos réis, no máximo duzentos e cinqüenta. Para mim aquilo parecia uma verdadeira fortuna, ainda mais depois que fiz umas contas rápidas quando ele falou da quantidade, que seria bom um fornecimento de trinta quilos por semana, pagos no fim do mês.

A tarde, rindo sozinha enquanto andava pelas ruas entregando as encomendas, refiz as contas e vi que nem era tanto dinheiro assim, mas que daria um lucro melhor do que eu tinha até então. Os gastos e o tempo despendido também seriam maiores, mas isso era o de menos. Eu passaria a fazer os cookies aos domingos e às segundas-feiras, quando quase me mudaria para a casa do padre Heinz, trabalhando dia e noite.

Poderia contratar uma ajudante, mas isso iria aumentar o prazo para juntar o dinheiro das alforrias, o que não me agradou. As terças-feiras ficariam reservadas para a entrega da encomenda ao mercado de importados, que tinha pedido exclusividade em relação a outras casas comerciais, e que, pelo peso, tinha que ser feita em duas viagens, ou o com a contratação de carregadores, o que também implicava em gastos extras. Os outros dias foram reservados para as entregas das encomendas particulares, depois de passar pelo Terreiro de Jesus de manhã bem cedo e antes de ir para lá novamente, no fim da tarde. Continuei fazendo os dois tamanhos de cookies, o menor para as casas e o mercado, e o grande para as ruas, onde tinham mais saída.

Eu já estava com um ganho livre de quase seis mil réis, mas isso tinha o custo de não conseguir fazer mais nada, nem aproveitar o único domingo no mês em que a sinhá me dava permissão para ver o Banjokô, quando eu ia levar parte do dinheiro do meu ganho. Depois de passar pelo solar de manhã e brincar um pouco com meu filho, ainda antes do almoço eu ia para a casa do Padre Heinz.

O Francisco reclamava dizendo que queria ficar mais tempo comigo, mas não tinha jeito, já que aos domingos ele ia para a cooperativa. Ele queria fugir algumas noites para me visitar na loja e não entendia que os muçurumins não permitiam visitas. Eu sabia disso antes de me mudar e achava que eles estavam certos. Apesar de só pensarem na própria segurança, esta proibição também mantinha a loja sempre tranqüila, um lugar onde realmente podíamos descansar depois de um dia cansativo de trabalho, como eram todos os meus. O

quintal era de uso exclusivo da família do alufá Ali, e mesmo nos dias em que faziam festas conversavam baixo, e se houvesse música ou dança, elas terminavam cedo. As reuniões religiosas aconteciam todas as sextas-feiras, e às vezes eles aproveitavam para matar e consagrar um carneiro, o único tipo de carne que comiam.

Os livros

Eu mal conseguia conversar com o Fatumbi, o Ajahi e o bilal Sali, que às vezes chegavam mais cedo e subiam para saber notícias e contar as novidades. Ficaram muito felizes com o sucesso dos meus cookies e acharam muito engraçada a história da falsa sinhá que preferia permanecer no anonimato. O Fatumbi disse que eu era uma mulher muito inteligente, e que tinha percebido isso quando dava aulas para a sinhazinha Maria Clara, na casa da fazenda. Aproveitei a oportunidade para agradecer o interesse dele em me ensinar a ler e escrever, o que estava ajudando muito em tudo que eu

fazia. Também dei a ele a notícia que tinha recebido da Esméria, sobre a sinhazinha estar voltando da Europa, de Portugal, onde tinha se casado com o doutor José Manoel, já formado em Direito.

Ela tinha escrito para a sinhá pedindo que procurasse casa para ela, que voltava para ficar. Fiquei muito feliz com isso, principalmente porque a Esméria disse que, na carta, ela tinha perguntado por mim e pelo Banjokô. No dia em que o padre Heinz me viu na mesa da cozinha, pondo em dia o livro de controle que eu fazia questão de manter em ordem sobre as entradas e saídas do dinheiro, ficou surpreso ao me descobrir letrada. Disse que quando ainda tinha esperança de ver sua igreja de pé, pensava em usar a sacristia para dar aula para os pretos, principalmente para as crianças, para que elas pudessem ter esperança de um futuro um pouco melhor.

Ele achava que com os adultos era mais difícil, porque a pena era pesada demais para quem estava acostumado a carregar cargas, enxadas e facões. Mas as crianças aprendem depressa, o que é gratificante para elas e para quem ensina. Naquele dia, enquanto os cookies estavam no forno, entrei pela primeira vez no quarto dele, para ficar espantada pelo resto da vida.

O cômodo era maior que a sala, que eu já achava grande, mobiliado com uma cama de rede pendurada a um canto, bastante modesta para o tamanho do padre, uma mesa e uma cadeira, e todo o espaço restante nas paredes era coberto por prateleiras de livros, revistas e jornais, que ainda estavam empilhados por todo o quarto, no chão. Ele tinha ganhado a maior parte daquele material de um velho padre que orientou seus estudos, e carregava aquele legado como o maior tesouro que alguém pode ter na vida. Falava dos livros com grande paixão, dizendo que ali, na nossa frente, estava um pouco de quase tudo o que os homens sabiam, em todos os tempos e em qualquer parte do mundo, e que bastava saber ler e gostar de ler para qualquer

pessoa ter acesso àquela infinita sabedoria.

Eu, que nunca tinha imaginado existirem tantos livros no mundo, me espantei ainda mais por eles pertencerem a um único homem. Perguntei ao padre Heinz se já tinha lido todos e ele respondeu que não, então fiquei curiosa para saber da serventia. Ele respondeu que essa era uma das grandes delícias, que a partir de um certo tempo de familiaridade com os livros, só de olhar para eles ou ler os nomes dos autores, podemos ter uma idéia do tipo de informação ou história que contêm. Pedi a ele que me ensinasse a fazer isso e ele disse que faria o possível, mas que depende muito mais de mim do que dele, pois não tinha certeza de que isso se aprendia.

Porque precisava haver um sentimento, que era quase amor, entre nós e os livros. Naquela biblioteca também havia muitos livros em línguas estrangeiras: francês, latim e italiano, línguas que o padre conhecia.

Contei que já tinha lido o padre Antônio Vieira e o livro da biblioteca do colégio da sinhazinha, do qual recitei algumas partes. O padre conhecia os dois livros e ficou espantado ao saber que as mocinhas de São Salvador tinham acesso aos escritos da sóror Mariana do Alcoforado, de quem gostava muito. Disse que eu poderia ficar à vontade para pegar o que quisesse, que até mesmo poderia levar para casa e devolver quando terminasse de ler. Eu nem sabia como agradecer, e talvez nem tivesse mesmo agradecido se soubesse quantos cookies acabariam queimados enquanto eu esquecia da hora em meio àquele schatz (Schatz: tesouro, em alemão), como ele chamava a biblioteca.

O susto

As vezes eu me sentia culpada por estar feliz longe dos meus amigos, do Francisco e principalmente do Banjokô.

Mas cada vez eu sentia mais vontade de trabalhar muito e, nas horas vagas, de ler, achando perda de tempo fazer

algo além disso. A Adeola brincava comigo, dizendo que ou eu estava enlouquecendo ou querendo roubar o homem dela, compartilhando as coisas de que ele mais gostava.

Passei também a freqüentar um alfarrábio que ficava na rua atrás da Praça do Palácio, onde adquiri alguns exemplares sugeridos pelo padre Heinz, autores que ele só tinha em alemão ou francês e que dizia que eu precisava conhecer. Mesmo no alfarrábio a maioria dos livros era em francês, mas não me importei em gastar um pouco do dinheiro que tanto economizava para comprar livros de, por exemplo, Gil Vicente e Luís de Camões, com os quais, tempos depois, provoquei admiração no doutor José Manoel, o mando português da sinhazinha Maria Clara. Também era Camões que eu estava lendo em uma madrugada de domingo para segunda, na cozinha da casa do padre Heinz, quando um preto com o rosto ensangüentado se jogou contra a porta e caiu a poucos metros de mim. Saí correndo para a sala gritando pelo padre Heinz, esquecida de que ele estava viajando, e acabei acordando a dona Maria Augusta. Ela saiu do quarto e tratou de acalmar primeiro o preto, que tinha se assustado mais com a minha reação do que eu com o aparecimento dele. Ele não precisou falar nada, pois ela, como se estivesse acostumada com tais situações, e tão ágil como não parecia ser, pegou no braço dele e o levou para o quarto do padre. Enquanto afastava uma enorme pilha de revistas de um canto, percebeu que ele estava sangrando e me mandou pegar um pano e limpar imediatamente qualquer vestígio de sangue que tivesse ficado pelo chão. Obedeci sem entender direito o que estava acontecendo, e assim que voltei ao quarto para descobrir quem era aquele homem e o que ele estava fazendo ali, ouvimos fortes batidas na porta da frente.

Continuar: parte 2 de 5