Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 12 de 12 · parte 1/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo dez

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

John

fez

parte

de

todos

aqueles

acontecimentos que já estavam marcados no meu destino, pois se ele não tivesse morrido, nós provavelmente não teríamos nos mudado para Lagos, e se nós não tivéssemos nos mudado para Lagos, tudo teria sido muito diferente.

A mudança foi em meados de junho de um mil oitocentos e sessenta e três, exatos doze anos depois de nos termos instalado no sobrado de Uidá. Nunca mais voltei à cidade, nunca mais tive contato com os muitos amigos de lá e de outras cidades para onde costumava viajar, a não ser com os que estavam de passagem por Lagos, ou então que se mudaram para lá depois da ocupação francesa em Uidá.

Em Lagos também nos esperava um outro sobrado, muito parecido com o de Uidá, encomendado por um comerciante que foi à falência e não pôde mais pagar, com as obras ficando pela metade. Pedi ao Felipe, que

estava terminando a obra de um muçurumim de Abeokutá, que desse prioridade à conclusão do sobrado, que demorou bem menos do que eu podia imaginar.

Pouco mais de seis meses, a contar do dia seguinte ao da morte do John, quando tomei a resolução. E é de Uidá que continua essa nossa história.

Capítulo dez Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje.

Provérbio africano

Recomeçar

Fui feliz em Lagos. De um jeito diferente do que eu imaginava, mas de uma felicidade simples e sincera. Eu me penitenciava um pouco por não sentir tanta falta do John, e acredito que até por isso, para poder dizer que eu respeitava minha condição de viúva, nunca mais tive homem. O padre Clement dizia que se privar das vontades era uma grande virtude, e eu queria ser uma mulher virtuosa, apesar de ainda ter sido bastante cortejada, como nunca achei que uma mulher da minha idade poderia ser.

Por homens comuns, por ricos comerciantes, por navegadores aventureiros, por homens dos governos inglês, francês e português, e até mesmo por alguns príncipes e um rei. É claro que isso me envaidecia, mas sempre soube que estavam interessados no meu dinheiro e no prestígio que eu tinha conquistado em África e no Brasil, onde muitos sabiam de mim. Quando da mudança, eu tinha cinqüenta e três anos, mas me sentia com muito mais.

Para a Maria Clara, a ida para Lagos foi completamente indiferente, mas o João protestou desde o início, dizendo que queria ir para a fazenda e continuar o trabalho do pai. É claro que eu não permitiria, mas também não podia usar apenas esse meu não querer contra o querer dele, e o levei para conversar com o senhor Nicolas, que ele respeitava. O senhor Nicolas falou sobre as dificuldades que os fazendeiros experientes estavam

enfrentando e que seriam muito maiores para um menino como ele. O negócio do óleo de palma estava indo mal, e até mesmo o John estava pensando em abandoná-lo quando adoeceu.

Mas era preciso muito tempo e dinheiro para arrancar tudo o que estava plantado e preparar a terra para receber nova plantação, que não se sabia se vingaria nem quando começaria a dar lucro, como era o caso do cacau, do qual o João tinha ouvido o pai falar. Mesmo assim ele não desistiu e, junto com o Adedayo, que cuidou da fazenda sozinho enquanto o John esteve doente, foi se informar, tendo o atrevimento de procurar o Chachá Chicou.

Para ser atendido, ele disse que já tinha encomendado algumas mudas da planta e queria a colaboração do Chachá para fazer um levantamento do que seria necessário para transformar a fazenda em um local de testes com o novo produto, o que poderia ser muito bom para a região. O Chachá indicou um homem que poderia ajudá-lo, e algumas semanas depois o João me pediu uma enorme quantidade de libras. Era muito menos do que eu possuía, embora mais do que eu ganhava em três anos de trabalho, o que não era pouco, e incluía até a ida de um brasileiro para coordenar a plantação.

Hoje me arrependo de não tê-lo deixado pelo menos tentar, mas naquele momento eu achava que o João era muito novo para tanta responsabilidade, e além do mais ia ter que abandonar a escola, o que estava completamente fora dos meus planos para o futuro dele.

Penso até que mais feliz foi você, que pôde decidir o próprio futuro sem a minha interferência. A Geninha, aqui do meu lado, diz que estou exagerando e que o João foi feliz sim, do jeito dele, e que talvez tenha apenas demorado um pouco mais para se encontrar, mas também aprendeu muito enquanto procurava.

Mesmo com todo aquele trabalho, o João não conseguiu me convencer a deixá-lo manter a fazenda, mesmo porque eu não estava disposta a investir sem entender muito bem do negócio. Em protesto, ele parou de freqüentar a escola, mas como estávamos para nos mudar, deixei, pois não queria entrar em conflito com ele. Antes da mudança, fiquei em Uidá resolvendo as últimas pendências enquanto a Aina, o Van-Van e uma criada foram na frente para arrumar a nova casa.

Eu já tinha me decidido a apenas fechar o sobrado, para o caso de querermos voltar, e aluguei o escritório da Casas da Bahia para a casa de comércio inglesa que já ocupava o andar de baixo. Nesse meio tempo apareceu um comprador para a fazenda e achei que era uma excelente oportunidade para resolver de uma vez por todas aquele problema, acabando com as esperanças do João para que ele começasse a pensar nas oportunidades que se apresentavam. Eu estava disposta inclusive a mandá-lo estudar no estrangeiro, no Brasil ou onde ele quisesse, desde que não fosse nada relacionado a fazendas.

Mas ele fugiu antes que tivéssemos a oportunidade de conversar sobre isso. Só fui encontrá-lo dois dias depois, na fazenda, de onde só consegui tirá-lo mediante a promessa de comprar terras perto de Lagos, onde diziam que eram ainda mais férteis por causa das lagoas. Ele se interessou pela promessa, mas eu ainda não tinha certeza se iria cumpri-la, principalmente porque havia um outro problema que ele não entendia ou fingia não entender. Quase já não havia mais tráfico de escravos para fora da África, e os estrangeiros estavam oferecendo mercadorias a preços muito mais baixos que os comerciantes brasileiros, africanos ou portugueses.

Principalmente os alemães e os ingleses, que diziam que o futuro do comércio estava nas fábricas e não nos

campos. E com a doença e a morte do John, tínhamos perdido a maioria dos contatos comerciais em África, além do fato de os comerciantes de Freetown não demonstrarem interesse em continuar vendendo produtos para mim, pois tinham algum tipo de acordo especial com o John. Quando ele morreu, viram que seria uma excelente oportunidade para desfazer esse acordo, aumentando absurdamente os valores do que forneciam e tornando praticamente impossível a venda no Brasil, como me escreveu o Tico. Por conta disso eu tinha inclusive dispensado as viagens de navio dos sarôs.

Com grande pena, principalmente por causa do Tico, resolvi parar de vez com o comércio e ficar apenas com a Casas da Bahia, que nunca conheceu crise.

Teimosia

No primeiro dia de aula em Lagos, quando a Maria Clara já estava pronta, o João disse que voltar para a escola não fazia parte do nosso trato e que só pensaria nisso depois que visse as terras que eu tinha prometido comprar. Achei muita afronta, e naquele momento decidi que não haveria terra alguma, mas não disse nada a ele.

Aliás, ficamos sem nos falar por mais de um mês, quando finalmente a curiosidade ou a falta de paciência dele foram maiores que a vontade de me vencer naquele jogo de silêncio, e ele perguntou se eu já tinha visto alguma coisa. Eu respondi que estava sem tempo, mas que veria assim que desse, e ele continuou na irritante rotina de andar pela casa e não fazer nada o dia inteiro.

É verdade que lia bastante, o que muito me agradava e comprovava que eu estava certa, que a vocação dele era para os estudos e não para a lida em fazendas, sendo que muitas vezes eu também o peguei perguntando sobre a escola à irmã, que estava se adaptando bem. As aulas eram em inglês e ela ainda tinha um pouco de dificuldade em entender tudo, mas os professores disseram que era muito inteligente.

Logo depois da nossa chegada a Lagos, começaram as visitas de boas-vindas e os convites para festas, piqueniques e outros eventos, mas eu estava empenhada em guardar nojo por mais um tempo. Além de mim e dos seus irmãos, contando com o pequeno António, tinham se mudado também a Aina, a Jacinta, a Geninha, o mestre-de-obras Crispim e sua mulher, a Tonha, junto com três filhos, e o Salif, que eu tinha tirado da terra dele e sentia pena de deixá-lo para trás, em Uidá, onde não tinha feito nenhuma amizade, que eu soubesse.

Depois que os ibêjis tinham começado a freqüentar a escola, ele os ajudava com os deveres e aproveitava para aprender muito do que ainda não sabia. Lia bastante também, e assim quase não saía de casa. Era uma boa companhia para conversar de vez em quando, mas de quem eu senti falta mesmo e muita pena por ter deixado em Uidá foi o Abimbola, e, por conseqüência, a Conceição, mas ele não quis abandonar os alunos.

Os dois foram me visitar algumas vezes em Lagos, mas como já estavam velhos, não agüentavam muito bem a viagem, e eram orgulhosos o suficiente para não aceitarem ser carregados em rede. Para um trajeto que era possível fazer em um dia de boa caminhada, os dois chegavam a gastar até dez dias ou mais, dependendo do tempo. Gostavam de viajar nas épocas de chuva, quando não enfrentavam muito calor.

Foi durante a primeira visita deles que o João sumiu novamente, sem deixar pistas. Fiquei desesperada, achando que nunca mais o veria, como tinha acontecido com você, e me vendo na obrigação de sair na busca.

Mas eu já não tinha mais saúde e nem idade para isso, e depois de mandar um empregado até a antiga fazenda do John, constatando que ele não tinha ido para lá, resolvi consultar um babalaô para saber por onde começar.

Quem me valeu foi a Conceição, apresentando alguns brasileiros de Lagos que conheciam um velho iorubá muito bom no jogo do Ifá. O velho me disse que o João estava por perto, feliz mas preocupado, e por isso era bem provável que aparecesse dentro de alguns dias. Ele não tinha tocado mais no assunto das terras e achei que fosse assunto esquecido, mas quando apareceu foi para contar que estava empregado em uma fazenda nas redondezas.

É claro que fiquei brava por conta do sumiço, mas também muito orgulhosa por ele não ter desistido do que queria. Disse que não havia nada que eu pudesse fazer ou falar que o fizesse mudar de idéia, e que se eu aceitasse, voltaria para nos ver a cada quinze dias, ou então sumiria de vez. Achei que ele era capaz de cumprir a promessa e concordei. Aliás, fui além disso, dizendo que compraria as tais terras que tinha prometido, mas ele recusou, argumentando que compraria com o próprio dinheiro, quando tivesse.

Não tenho idéia se ele sabia o quanto me castigava com aquela atitude, e mandei um homem segui-lo para saber pelo menos onde ficava a tal fazenda, que ele não quis contar, e a quem ela pertencia. Quando soube que era de um saro que estava em dificuldades financeiras, fui procurá-lo e fiz uma proposta de compra, que ele aceitou, junto com a condição de que continuasse cuidando de tudo e que ninguém soubesse, muito menos o João. Não contei nem mesmo para a sinhazinha, pois sabia que ela me recriminaria por estar agindo às escondidas. Por volta daquela época, ela me escreveu contando que tinha arrumado casamento para a última filha solteira, a Angélica, de dezenove anos, e se sentia quase pronta para morrer e se encontrar com o doutor José Manoel.

Lagos

Algumas semanas depois que o João começou a trabalhar na fazenda, fui até lá com a desculpa de pedir a opinião dele sobre a necessidade de arrumar um noivo para a Maria Clara. Ele ficou surpreso de me ver, mas nem perguntou como descobri o caminho, pois sabia que eu tinha muitos amigos influentes na região. Acho que desconfiou da visita sem propósito, pois nem quis ouvir direito a história que eu tinha inventado, sobre ter que dar uma resposta urgente ao pai de um rapaz que tinha pedido a mão da Maria Clara para o filho, um brasileiro, que estava de viagem marcada e não podia esperar até o dia de o João voltar para casa. Não ouviu e não opinou, disse que eu sabia o que fazer, e como era mentira mesmo, nem insisti.

A fazenda era bonita e ficava ao norte de Lagos, em uma região fértil e cercada por floresta, de muita argila branca e vermelha. Gostei do que vi, pois tinha comprado sem conhecer, um terreno plano, triste aos olhos por não ter montanhas, mas por isso mesmo de fácil cultivo. Para chegar até lá, menos de quatro horas, fizemos parte do percurso a pé e parte de canoa, atravessando canais e lagunas.

Já te disse que Lagos é uma ilha? Acho que não, e nem que da nossa região dava para se chegar a muitas cidades sem sair da água, e sem ser pelo mar. Os canoeiros conheciam todos os atalhos e as astúcias das águas, passando por lugares tão estreitos que era possível esticar os braços e tocar as margens com as mãos. Desde a mudança e até poucos dias atrás, eu nunca tinha saído de Lagos, mas andava muito pelas redondezas.

Pegava uma canoa qualquer e dizia para o homem ir sem destino certo, devagar, e gostava mais do caminho para Ibadã, que recortava o céu com muitas colinas suaves e redondas. Gostava também de caminhar às margens da ilha, sozinha e pensando na vida, ora olhando para o

continente, ora para o mar aberto, que poderia me levar de volta ao Brasil. Aliás, acho que posso dizer "trazer de volta ao Brasil", pois provavelmente já estamos em águas brasileiras. Veremos terra em menos de dois dias e eu ainda tenho muitas coisas para contar.

Lagos é uma cidade muito importante, fundada pelos iorubás que fugiram das guerras do interior, gente de Oyó, de Ilorin, de Ijexá e de muitos outros lugares. No momento da nossa mudança, eram novamente esses povos que ocupavam a cidade, mais os retornados, quase todos sarôs, por causa dos ingleses. Lagos também é importante porque os canais e as lagunas que cercam a cidade e saem para o mar vão desde a região de Cotonu até o Rio Níger, transportando de tudo e a todos.

O solo de Lagos mesmo não é bom, muita areia e muito mangue, além de muito sal, e por isso eu tinha ficado surpresa com a fazenda. Nas poucas horas que passei lá, fingindo não conhecer o dono, percebi que o João estava feliz e que as pessoas gostavam muito dele, o que foi bom para acalmar um pouco o meu coração. Mas ele não precisava estar trabalhando de empregado, e foi muito difícil manter isso em segredo.

Uma das coisas que mais estranhei em Lagos foi que havia muitos missionários pretos ou mulatos, instruídos em Freetown, o que não acontecia entre os missionários ou padres franceses e brasileiros, todos brancos ou mulatos que se passavam por brancos. Eu me lembro de ouvir o John falando que em Freetown até mesmo escravos podiam ser missionários, e perguntei ao padre Clement por que isso não acontecia entre os católicos.

Ele disse que realmente não era usual, que não conhecia pessoalmente nenhum missionário católico ou padre preto, mas que havia, como havia até um ex-escravo que tinha se tornado santo por ordem de um papa também

chamado Clemente, o São Benedito. Sobre São Benedito eu já sabia, mas fiquei muito espantada com o que ouvi logo depois, que em uma época não muito distante da nossa, os religiosos europeus se perguntavam se os selvagens da África e os indígenas do Brasil podiam ser considerados gente. Ou seja, eles tinham dúvida se nós éramos humanos e se podíamos ser admitidos como católicos, se conseguiríamos pensar o suficiente para entender o que significava tal privilégio. Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era a nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre.

Não tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e é uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto para provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e recompensado com tanto êxito. Eu me sinto muito mais orgulhosa de ter nascido Kehinde do que sentiria se tivesse nascido padre Clement, um bom homem, com certeza, mas que se submetia à necessidade de agradar aos brasileiros ricos de Lagos, Porto Novo e Uidá para se estabelecer com segurança e conforto nessas cidades. No início, ele só se aproximou de mim porque ficou sabendo que eu tinha influência e dinheiro, e depois porque percebeu que na minha casa sempre se comia, bebia e fumava do que havia de melhor.

Comidas do Brasil, vinhos da França, da Itália e de Portugal, cervejas da Inglaterra, charutos da Bahia e de Cuba. Depois de algum tempo ele passou a gostar de mim, da minha companhia, de conversar comigo, mesmo eu não sendo das cristãs mais devotas. Acho que sou melhor do que ele, que imaginava ter me enganado a

princípio. Sou melhor por tê-lo aceitado interesseiro e ter dado chance para um outro tipo de sentimento, quase amizade, mesmo que nascida do isolamento em que nos encontrávamos, sem muitas opções. Fosse em outro lugar, mesmo na Bahia, por exemplo, talvez nem trocássemos uma só palavra.

Apesar de não ir às missas, em Lagos eu tinha muitas oportunidades de encontrar e conhecer brasileiros, pois, além de morar perto deles, ainda acompanhava as notícias pelo jornal Anglo-Ajrican. Em Lagos, as pessoas moravam ainda mais separadas que em Uidá, sendo que os brasileiros ocupavam o meio da ilha, um pouco a sudeste do centro da cidade, da qual ficávamos separados por mangues e por uma lagoa. Os sarôs ficavam na ponta ocidental, e toda a costa sudoeste era tomada pelos entrepostos das companhias de comércio, pelas missões religiosas, pela administração inglesa e pelas pessoas que trabalhavam nesses lugares, isto é, os que não eram sarôs ou brasileiros.

Não sei dizer com certeza quais eram as ruas que já existiam naquela época ou que vieram a existir depois, porque, logo que compraram a ilha, os ingleses mudaram os nomes de algumas e abriram outras. Mas a principal hoje é a Bangbosh Street, que tem esse nome por causa de um antigo retornado chamado Papa Bangbosh, que não cheguei a conhecer, mas que provavelmente ainda vivia, muito velho, quando me mudei para Lagos. Era estranho terem mantido o nome, pois disseram que ele era um dos principais opositores dos ingleses, um comerciante de escravos que no fim da vida se mudou de vez para o Brasil.

Brasileiros A vida política em Lagos era ainda mais movimentada que em Uidá, com muitos interesses a serem defendidos, principalmente por causa dos ingleses, que nem sempre

tinham o apoio dos chefes tribais, apesar de tentarem de todas as maneiras. Os comerciantes brasileiros, os retornados, não sabiam se ficavam do lado dos ingleses ou dos chefes de suas antigas tribos, pois muitos dependiam das mercadorias enviadas pelos parentes africanos, os do interior. Os retornados egbás, por exemplo, comerciavam com Abeokutá, os ijexás, com Ijexá, e assim por diante, mantendo os laços com as terras de onde tinham saído ao serem mandados para o Brasil. Mas era uma situação melhor que a dos comerciantes africanos, que, sem poderem contar com dinheiro ou com amigos brasileiros, dependiam das casas de comércio inglesas para comprar a crédito. Ou seja, ao mesmo tempo em que precisavam defender os interesses dos chefes tribais junto aos ingleses, para não perderem o privilégio de receber mercadorias, não podiam se indispor com os ingleses, sob o risco de ficarem sem dinheiro para pagar por elas. Para resolver esses impasses foram fundadas várias associações, para as quais me convidaram, mas não me interessei, nem pela mais famosa, o Commitee of Liberated Africans.

Ela era coordenada pelo cônsul Campbell e composta por africanos, brasileiros, sarôs e cubanos, uma espécie de tribunal para julgar as contendas entre os estrangeiros, os retornados e os selvagens. Não participei porque precisava de paz e descanso, como muito me aconselhou a sinhazinha. Já bastava a confusão causada pela enorme quantidade de brasileiros que me procuravam pedindo trabalho na Casas da Bahia, visto que em Lagos os sarôs tinham preferência nos trabalhos oferecidos pelos administradores, por saberem falar a língua deles.

Brasileiros e ingleses não se misturavam muito, a não ser quando o assunto eram cavalos, e então estávamos sempre trocando informações, cruzando animais e organizando corridas e torneios. Tirando esse divertimento, outra coisa de que eu gostava demais era

receber visitas dos amigos de Uidá, como o Alfaiate, o senhor Nicolas e o padre Borghero, que me contavam tudo que estava acontecendo por lá.

A maioria dos comerciantes tinha casa em Lagos construída por mim, mas não o padre, que ficava hospedado em minha casa. Era lá que os brasileiros de Lagos iam procurá-lo para pedir que a missão francesa se instalasse logo na cidade, pois os missionários ingleses estavam conquistando os católicos menos devotos com a promessa de empregos na administração.

Mas ainda demoraria alguns anos, e, enquanto isso, fomos visitados constantemente pelos missionários de Porto Novo, que tentavam manter acesa a nossa fé. Era o que eles pensavam, mas, na verdade, o que nos fazia católicos era a lembrança do Brasil e a superioridade sobre os selvagens, e não a fé.

Depois de me mudar para Lagos, fiquei cada vez mais caseira e comecei a trabalhar menos. Com a falência de muitas firmas comerciais, havia grande oferta de excelentes empregados administrativos que não queriam ou não podiam voltar para seus países, e que aos poucos foram ganhando minha confiança para lidar com os calendários das obras, as encomendas, as compras e até mesmo o trato com os proprietários. Eles me consultavam sempre que surgia um problema mais sério, mas geralmente coordenavam as obras sozinhos e eu apenas fiscalizava, por meio de relatórios.

Eu estava com vontade de finalmente descansar, na companhia dos amigos e dos livros que a sinhazinha enviava de São Sebastião do Rio de Janeiro, muitos deles comprados nas livrarias da Rua do Ouvidor, como eu podia ver nas etiquetas. Das festas brasileiras, no entanto, nunca deixei de frequentar a do Sete de Setembro, que comemorava a Independência do Brasil, e a do Bonfim, sempre celebrada com um imenso piquenique na ilha de Ikoyi, vizinha a Lagos, ao qual

todos compareciam, inclusive gente de muito longe, das aldeias.

Minha roda de piquenique era sempre das mais concorridas, pois eu tinha uma excelente cozinheira mandada da Bahia pelo Tico, e todos se deliciavam com os pratos preparados por ela, como feijão de leite, mingau, munguzá, cozido, xinxim de galinha, vatapá, sarapatel, pasta de camarão com castanha de caju e coco, pirão de caranguejo, feijoada, doces em calda, de tamarindo com tapioca e ambrosias, coisas que as cozinheiras selvagens não sabiam preparar. Antes do piquenique do Bonfim, a Epifania era marcada pela saída da Burrinha, mais rica e alegre que a Burrinha de Uidá, com mais músicos e bonecos. Mas uma coisa com a qual nunca me acostumei foi que em Lagos não se dizia Nosso Senhor do Bonfim, mas sim Nossa Senhora do Bonfim, e ninguém sabia explicar o motivo desta mudança.

Ano ruim

O ano de um mil oitocentos e sessenta e quatro foi dos mais chuvosos em Lagos e em toda a região, alagando fazendas e provocando fome pela escassez de alimentos, e também um ano muito triste. Logo no início morreu o Domingos José Martins, de descontentamento com o rei Glèglè, que nunca o consultou nas decisões importantes, como fazia o rei Guezo, e permitiu que os franceses se estabelecessem comercialmente em Cotonu e em Uidá, prejudicando os brasileiros. O Domingos foi um dos mais afetados e, ao contrário de muitos outros, não se calou de medo diante da arbitrariedade do rei, falando boas verdades para quem quisesse ouvir, até morrer triste e decepcionado com a África.

Pena que os comentários chegaram aos ouvidos do rei Glèglè e ele resolveu se vingar nos descendentes.

Primeiro, confiscou todos os bens deixados de herança pelo Domingos, e não apenas a terça parte, como era de costume, e depois promoveu uma verdadeira caçada para matar todos os homens da família. Para escapar da fúria do rei, eles tiveram que se espalhar por diversas cidades e mudar de apelido, formando muitas outras famílias grandiosas e importantes.

Povo que muito admiro, principalmente porque depois de terem perdido tudo, e apenas com o prestígio do nome do chefe da família, já que nem seu apelido podiam mais usar, conseguiram voltar a fazer fortuna com o comércio. O Domingos José Martins não foi o único a ter problemas com o rei, o Alfaiate também, apesar de continuar sendo recebido na corte mediante o envio de presentes, é claro. Mas ele não conseguia receber do rei Glèglè o dinheiro referente a mercadorias fornecidas ou empréstimos para recuperar prisioneiros de guerra.

Voltando a falar das mortes, foi em uma carta muito curta e sem emoção que o Hilário contou da morte do Tico. Depois da morte do doutor José Manoel, a sinhazinha sempre falava em morrer também, mas eu nunca tinha pensado no assunto como uma possibilidade verdadeira, isto é, pensado na morte como um destino próximo para ela, para mim, para o Tico ou o Hilário. A minha morte ou a dos meus amigos de infância parecia até menos provável que a morte do seu irmão, tão novo.

Embora seja muito triste, crianças morrem fácil mesmo, principalmente as que são abikus.

O Tico já não era mais moço, mas também não era velho, e morreu sem estar doente antes, sem que tivéssemos tempo para nos acostumarmos com a idéia. Não sei se a sinhazinha ficou sabendo, pois eu mesma achei melhor não contar para não aumentar a tristeza dela. Mesmo que às vezes eu pensasse na minha morte, naquela época ainda não estava pronta para morrer, como estou agora, e, principalmente, não queria partir antes de ter

notícias suas. Para saber mais detalhes sobre a morte do Tico, escrevi para o Hilário, duas vezes até, mas desisti depois de só receber resposta quase um ano depois, bastante parecida com aquele comunicado de poucas linhas e perguntando se o Tico tinha algum dinheiro ou bem em África. O Tico não tinha nada em África, e acho que, mesmo se tivesse, eu não diria ao Hilário. Trataria de fazer uma boa ação em nome do meu amigo, doando tudo para quem realmente merecia.

Para terminar aquele ano estranho e triste, um dos professores dos ibêjis me procurou e disse que eu precisava decidir o que fazer com eles, pois não havia mais nada para aprenderem naquela terra, tanto que já estavam começando a ajudar os missionários com as crianças menores. A Maria Clara, que tinha paciência para isso, o João não. O professor comentou que ele ficava quieto a um canto, enchendo folhas e folhas com desenhos de casas, desinteressado de todo o resto. Já estava decidido que eles continuariam a estudar, o que foi aceito com grande alegria pela Maria Clara, que sempre disse que gostaria de aprender cada vez mais para poder ensinar melhor.

Mas isso era um problema, porque não havia muitas escolas que aceitassem moças que já sabiam o que ela sabia, acho que nem no Brasil. Quando perguntei ao João o que ele queria fazer da vida, onde gostaria de estudar, ele disse que tinha perguntado aos missionários e um deles contou sobre uma escola em França que ensinava a desenhar e a construir casas, e era isso que ele queria fazer, para depois trabalhar na Casas da Bahia. Fiquei muito feliz porque imaginei que tivesse esquecido aquela história toda de fazenda, depois de perceber que o trabalho era muito e o dinheiro era pouco, pelo menos nunca o suficiente para comprar suas próprias terras. Tinha sido essa a justificativa dele tempos atrás, quando voltou da fazenda e disse que eu tinha razão, que o melhor para ele era estudar.

Assim que ele começou a freqüentar a Missão, tratei de passar a fazenda adiante, com pena do antigo proprietário, que talvez não recebesse do novo dono as condições de trabalho que eu oferecia, com toda a liberdade para fazer como entendesse, desde que tratasse muito bem o meu filho. Mas aquele não era problema meu, enquanto que a educação das crianças era, e foi com isso que me importei durante quase um ano, até que tudo estivesse pronto para a partida delas.

Preparativos

A primeira providência que tomei foi pedir a ajuda do padre Borghero e do padre Bouché. Eles conversaram com outros missionários e disseram que eu devia enviar o João para a École Polytechnique, em Paris, e arrumar uma preceptora para a Maria Clara. Achei boa a idéia, mesmo porque também já tinha me informado com alguns comerciantes franceses e eles sugeriram que a Maria Clara ficasse fora de Paris, em alguma vila nos arredores, cuidada por uma pessoa de confiança e só no meio de moças. Eu não tenho dessas coisas, de achar que homens são diferentes de mulheres, mas sei que um homem, mesmo um mero rapazote, pode se defender melhor que uma mulher quando a situação exige força, e naquela época Paris não era uma cidade tranqüila.

Continua não sendo, pois os franceses nunca pararam de falar em guerras e revoluções, mas era um lugar onde até eu gostaria de morar, influenciada pelas maravilhas francesas que tinha visto em São Sebastião do Rio de Janeiro.

Foi o padre Borghero quem indicou o lugar onde a Maria Clara acabou ficando, a casa de uma ex-missionária que tinha aberto uma escola para moças depois de perceber que muitas delas, mesmo sem vocação, entravam para a vida religiosa só para poderem estudar. Em menos de quatro meses, e depois de duas cartas para lá e duas respostas da soeur Marie-Térèse, como ela ainda

gostava de ser chamada, já estava tudo acertado, e por um valor muito mais baixo do que achei que teria que pagar.

O maior problema foi com a École Polytechnique, que exigia um difícil exame de admissão para aceitar seus alunos em qualquer curso, e não havia nada que os missionários pudessem fazer pelo João, pois aquela não era uma escola religiosa, mas sim militar. Isso me deu um pouco de medo de que mandassem o João para as guerras, mas o padre Borghero garantiu que não havia esse perigo, que a escola era mais militar na disciplina com os alunos do que na defesa da pátria. Ouvindo isso, achei que o João ia desistir, mas ele realmente se mostrava interessado, talvez mais por sair da África e conhecer outros mundos do que por continuar os estudos. A Maria Clara podia partir antes, mas eu quis mandar os dois juntos, e ela esperou até que o João estivesse preparado para os testes. Para isso, ele passou sete meses na Missão de Porto Novo, onde foi ajudado por todos os missionários interessados em provar à Missão em França, à qual mais tarde fizeram questão de apresentar os meus filhos, que estavam fazendo um bom trabalho em África.

Vendo a alegria da Maria Clara, percebi que a Geninha também gostaria de fazer uma viagem como aquela, também gostaria de estudar e aprender mais, mas eu não podia deixá-la partir. Eu também a considero uma verdadeira filha, ela sabe disso, e seria muito difícil se todos partissem de uma só vez, já que o António não contava, por ser ainda muito pequeno. Aliás, ele continuou recebendo a minha assistência, pois era filho do John, mas foi embora junto com a Jacinta quando ela voltou para Uidá.

Ela sentia saudades do Juvenal e dos outros filhos, o Tomé e a Rosinha, com os quais tinha se encontrado apenas duas vezes depois da mudança para Lagos. Por

caridade e por saber que eu precisava, deixou comigo a Geninha, a quem eu era muito apegada e, como você pode ver, ainda sou. A Jacinta viajou de Lagos para Uidá em companhia do Alfaiate, que tinha passado alguns dias na cidade e por meio de quem fiquei sabendo que os missionários franceses tinham perdido a posse do forte de São João Batista dá Ajuda. O Alfaiate estava feliz com isso, pois tinha apoiado a missão portuguesa que foi conversar com o Chachá Chicou e deu a ele a patente honorária de tenente-coronel do exército português, com a função de proteger o forte contra outras ocupações estrangeiras.

Menos de duas semanas depois da visita do Alfaiate, hospedei em minha casa dois missionários franceses que tinham sido desalojados do forte e estavam em Lagos procurando lugar para onde alguns deles pudessem ser mandados. Eu gostava de estar no meio dos acontecimentos, de me relacionar muito bem com todos os lados dos problemas, com os franceses, os ingleses, os portugueses, os brasileiros, os sarôs e os africanos, e minha casa estava sempre à disposição de quem precisasse.

Com a ida dos ibêjis para a França, o Salif também resolveu partir, mas não voltou para Porto Novo. Queria se estabelecer em algum ponto das rotas comerciais, onde havia grandes grupos de muçurumins. Ele não era comerciante, pretendia continuar dando aulas e achava que ia encontrar muitos alunos entre os filhos dos comerciantes diúlas ou hauçás, os muçurumins mais inquietos e espertos, os que viajavam mais, os que faziam grandes negócios indo de lugar em lugar ao longe das rotas comerciais, ficando por algum tempo onde houvesse mercadoria para ser vendida. Eles dizem que assim é melhor, com liberdade, pois podem exercer a religião em paz e não criam laços de amizade, de clientela e de favorecimentos comerciais ou políticos, que prejudicam os negócios mais lucrativos.

Separação

No fim do ano de um mil oitocentos e sessenta e cinco, a Maria Clara estava ansiosa pela viagem. Ela também já tinha trocado cartas com a preceptora, uma excelente pessoa, com a experiência e a sabedoria de quem instruiu centenas de jovens. A casa que servia de escola e de alojamento abrigava vinte moças de cada vez, e eram elas mesmas que mantinham o lugar, tanto financeiramente quanto em relação aos trabalhos necessários, como limpar, arrumar e cozinhar.

Achei isso ótimo, pois, além de se formar professora, a Maria Clara ainda aprenderia a cuidar de uma casa, visto que na nossa ela não tinha oportunidade para isso, já que havia criadas para fazer tudo. Embora a Maria Clara não falasse em arrumar marido e se casar, um dia ela teria a própria casa e precisaria saber cuidar, mesmo que fosse apenas para poder mandar fazer. O João estava quase pronto para o teste de admissão na École Polytechnique, e um dos missionários se ofereceu para acompanhá-lo, com todas as despesas pagas por mim, é claro. Aceitei na hora, porque o meu filho ficaria mais tranqüilo, pois eu percebia o medo que ele fazia de tudo para não admitir.

O padre Borghero disse que ele tinha toda a razão de ter medo, pois o teste era realmente difícil. Mas eu confiava no meu filho, tanto que já mandaria todas as coisas dele de uma vez, e não apenas depois do resultado das provas,

que

seria

esperado

pelo

missionário

acompanhante, um jovem chamado Jean-Pierre, que estava felicíssimo com a viagem e a oportunidade de rever a terra e a família. Os missionários se diziam felizes com os caminhos traçados por Deus, que estavam dispostos a ir aonde fosse preciso, mas eu sentia que não. Assim como muitos de nós, brasileiros, alguns odiavam a África e só ficavam por lá de teimosia, ou à espera de uma oportunidade melhor.

As semanas que antecederam a partida dos ibêjis foram bastante corridas, pois resolvi fazer um enxoval completo para cada um deles. Sempre achei que os pretos, e no caso os africanos, não eram bem tratados se não impressionassem à primeira vista, se não conquistassem seu espaço mostrando logo o dinheiro que possuíam. Dinheiro não era problema para mim, que já tinha muito mais do que conseguiria gastar em toda a minha vida, mesmo contando com a parte que já tinha vivido.

A Casas da Bahia era muito lucrativa e o curso escolhido pelo João indicava que ele queria continuar o que eu tinha começado, tomando a frente dos negócios. Não seria difícil convencer os outros sócios de que os conhecimentos do João seriam úteis para todos nós, principalmente porque nenhum deles se interessou pelo trabalho que eu fazia e tivemos que contratar empregados para me substituir. Ter alguém de confiança lidando com o dinheiro e a administração é importante, ainda mais alguém diretamente interessado.

Duas ou três semanas antes da partida eu já tinha começado a chorar escondida pela casa, à noite, quando todos estavam dormindo e eu me levantava para olhar os ibêjis em suas camas. Eu não sabia por quanto tempo eles ficariam fora, e o padre Borghero calculava cinco anos, no mínimo. Durante todos esses anos eles não voltariam para casa, por causa da distância e do tempo que perderiam indo de um lado para outro, e eu tinha certeza de que voltariam muito diferentes. Não apenas na aparência, mas voltariam adultos, e me tratariam como adultos.

Eu achava que isso era bom, gostava da idéia de eles se tornarem adultos independentes, mas tinha medo de que mudassem a ponto de eu não reconhecê-los. Sempre mudamos, mas quando estamos perto de alguém, a pessoa vai se acostumando com a gente, com o que

estamos nos tornando, e aprendendo a gostar daquela nova pessoa. De longe isso não acontece, e tenho certeza de que não nos reconheceríamos de imediato, eu e você, se nos encontrássemos de novo. Por falar nisso, já estamos quase chegando ao fim desta viagem, que pode ser a qualquer hora do dia de amanhã. Eu me sinto extremamente cansada, mas já vou chegar onde preciso.

Muitas foram as pessoas que me disseram para não dar mais instrução à minha filha, assim como a Esméria também tinha me dito que de nada me serviria aprender a ler e a escrever. É claro que não levei em consideração esses comentários, pois o tempo provou que a Esméria estava errada, embora eu tivesse duvidado disso algumas vezes, e também porque achei curioso que a maioria dos que falavam que a Maria Clara não deveria estudar, era formada por brasileiros que a queriam em casamento para si ou para seus filhos. Encarregado de investigar a minha receptividade à proposta de um rico saro de Lagos, um missionário protestante chegou a me mostrar um livro em que estava escrito que as moças que estudavam muito, principalmente as que se dedicavam ao magistério, tinham uma triste sorte, ficavam nervosas, fracas e muito sensíveis às afecções cerebrais. S

ó não ri na presença dele porque sou educada, mas disse que eu mesma já tinha dado aulas durante um bom tempo, na escola do padre Heinz, e já estava com quase sessenta anos sem nunca ter sido acometida de nada daquilo. Minha filha ia estudar, ia se formar, ia ser alguém importante, professora, que é quase tão importante quanto ser rica, pois isso ela já era sem esforço algum, sem mérito a ser acrescentado.

Eu tentava não pensar na solidão em que ficaria quando eles partissem, na minha preocupação à espera de notícias, em quanta saudade sentiria até eles voltarem, e aproveitei ao máximo os dias que antecederam a

viagem. Já estava quase tudo pronto, as roupas, os sapatos e os acessórios novos guardados em bonitos baús ingleses de couro, e a comida sendo preparada para a festa de despedida. O Jean-Pierre, o jovem missionário acompanhante, e os padres Borghero e Bouché foram para a minha casa ajudar nos últimos preparativos, instruir os ibêjis, ver se havia mais alguma coisa de que eles precisariam e que eu não tinha colocado nos baús e, principalmente, fazer com que só conversassem em francês, para irem se acostumando.

Continuar: parte 2 de 4